Em Cuba, como os cubanos

Só parecia haver um inconveniente quando eu e um amigo decidimos viajar de férias para Cuba com a intenção de fugir do sistema pega-dinheiro-de-turista imposto pelo governo: eu. Sou loiro de olhos azuis, raridade na terra de Fidel Castro, o que dificultaria meu objetivo de passar por nativo. Boné e óculos escuros seriam então meu disfarce oficial, e meu comparsa Alexandre Costa Val, cabelos e olhos castanhos, faria a linha de frente. Estratégia traçada, desembarcamos em La Habana – Havana, para os turistas – a fim de viver 18 dias dormindo e comendo em casas de cubanos. É claro que não desprezaríamos a Cuba dos cartões-postais, e ela estava toda lá: carrões dos anos 50, prédios históricos caindo aos pedaços, belas mulatas dançando salsa, um mojito aqui, um charuto ali. Os cartazes com imagens de Fidel, Che Guevara e outros heróis nacionais lembravam que estávamos às vésperas da festa de 50 anos da revolução, em 1º de janeiro de 2009, principal motivo da nossa aventura. Sem pacotes turísticos, rodaríamos a ilha de oeste a leste, passando por Santiago de Cuba, Trinidad, Cienfuegos, Rancho Luna e Santa Clara.

Fotos SAMESAMEPHOTO

 

Dormindo com Che e Raul

A única alternativa econômica à hospedagem em hotéis é o pernoite nas chamadas “casas particulares” identificadas por uma plaquinha branca e azul, já que não existem albergues por aqui. Nessas residências autorizadas a abrigar estrangeiros, as diárias giram em torno de 25 dólares – o mesmo salário médio mensal de um médico. Nosso quarto com banheiro ficava na casa do engenheiro Humberto Scasso, no bairro universitário do Vedado. As paredes da sala exibiam fotos do anfitrião com ninguém menos que Che Guevara. “El Che foi visitar a gráfica onde eu trabalhava para acompanhar a produção dos jornais da revolução”, contou, cheio de orgulho.

Alguns dias e vários colchões vagabundos depois, vimos que a casa de Humberto era quase hotel de luxo. Na semana seguinte, em um casebre simples da praia da Rancho Luna, a cama era pobre, mas o papo enriquecedor. Nas cadeiras de balanço sobre o chão de cimento queimado da varanda, a professora Rosa e o pescador Valdemir Reproso nos falavam de tudo – embora nunca mal de Fidel (como praticamente todos que nos hospedaram). Por duas noites seguidas assistimos juntos, pela televisão, o mesmo discurso de mais de uma hora que o presidente Raul Castro proferiu a nação às vésperas do cinqüentenário. “Ele e seu irmão Fidel estão certos, temos que trabalhar mais para que o país sustente a revolução”, disse Valdemir. Na manhã seguinte, logo que o sol nasceu, ele pegou no batente para fazer pequenas reformas na casa. Como Castro pedira.

 

No ônibus barato ouvindo reggaeton

Para conjugar a miúda economia local com os altos gastos dos estrangeiros, o governo cubano trabalha com duas moedas: o peso cubano, usado no dia-a-dia da população para comprar, por exemplo, os produtos subsidiados da cesta básica, e o peso convertível, ou CUC, com valor semelhante ao euro e utilização voltada para o turismo. El peso convertible vale 24 vezes mais que a moeda local, o que a torna disputadíssima especialmente pelos “jineteros”, especialistas em ganhar comissões oferecendo hotéis, charutos, passeios e até corpos para turistas. É fácil adquirir a moeda local nas casas de câmbio espalhadas pelas esquinas. Complicado é botá-la em circulação. Só conseguimos gastar nuestros pesitos comprando comida de rua e tomando ônibus circulares lotados (lá também tem passageiro sem-noção ouvindo rádio no último volume, só que em vez de pagode eles escutam o contagiante reggaeton). Para curtir a boa música ao vivo a la Buena Vista Social Club de casas como o Jazz Club La Zorra y El Cuervo, não tinha jeito. Eles metiam a faca cobrando em moeda convertível, a 10 CUCs a entrada, 2 CUCs cada mojito. Detalhe: quem leva dólar, em vez de euro, perde 10% do valor de troca numa taxa que desestimula o uso das verdinhas do odiado “imperialismo americano”.

 

Arroz moro em casa, pizzeta na rua

Sem placas na porta e com cardápios informais, “paladares” são casas de cubanos que servem comida mais barata e simples que a dos restaurantes. Dizem que o nome foi inspirado no restaurante que a personagem Raquel, de Regina Duarte, administrava na novela Vale Tudo. Bastava alguém descobrir nossa verdadeira identidade de brasileiros, durante a refeição, para dar início às animadas conversas sobre novelas – mais especificamente Mujeres Apasionadas, em exibição. Com preços em torno de sete dólares, os paladares têm cardápios pouco criativos. O embargo financeiro sofrido por Cuba limita bastante a variedade da culinária, e o prato de todo dia acaba sendo o moros y cristianos (mistura de arroz com feijão-preto), carne de porco e salada de repolho. Nas ruas, porém, usávamos nossos pesos cubanos para enfrentar as mesmas filas dos habaneros e comer a street food deles: pizzetas, oleosíssimas pizzas brotinho vendidas a 5 pesos cubanos; perro caliente, o hot dog com apenas pão e salsicha; e os famosos sorvetes da Coppelia, a sorveteria do filme Morango e Chocolate. Neste caso, tivemos que ficar quietinhos por quase uma hora na longa fila de sábado à noite para tomar sorvete de abacaxi e pagar o preço para nativos, 32 vezes mais barato que o de estrangeiros. Investimos as últimas moedas no granizado, versão cubana de nossas raspadinhas de groselha.

Onde o Cadillac é lotação

Quando as carangas dos anos 50 são usadas como táxis para representantes do sistema capitalista estrangeiro – nós, no caso –, têm preços em CUC. Acontece o mesmo com os coco taxis, superturísticas motocas com carenagem em forma de coco. Mas quando os cubanos embarcam nesses pomposos Cadillacs e Mercedes, as barcaças se transformam em lotações, e são pagas com moeda local. Era assim que queríamos fazer. Esticamos o dedo para que um velho Ford parasse. Alexandre caprichou no sotaque e perguntou ao motorista: Centro Havana? Adelante, respondeu o bigodudo. Quietinho no banco de trás e com a cara mergulhada no jornal, me apertei entre outros dois passageiros. Realizamos nossa missão pagando míseras moedinhas locais para fazer um percurso que não sairia por menos de 5 CUCs num táxi turístico. Faríamos o mesmo em Cienfuegos, uma afrancesada cidadela à beira-mar, quando convencemos o dono de uma charrete a nos dar uma carona, algo proibido para não-cubanos. A rota, nesse caso, teve que ser feita por ruas escondidas, longe da fiscalização das grandes avenidas. Só não conseguimos repetir o feito na hora de viajar para outras cidades. Há rodoviárias e ônibus distintos para quem vem de fora, e fomos friamente ignorados quando tentamos comprar bilhetes no terminal para habaneros. Acabamos compartilhando o ônibus para Santiago com outros gringos que também não tinham reservado os disputados assentos nos aviões que cruzam a ilha. Ao preço de tabela.

 

Tambores, orixás e salsa no Malecón

Ok, para sermos cubanos de verdade riscamos a turística Varadero do roteiro. E cumprimos uma programação “de raiz”. Em La Habana, fizemos o tradicional footing no Malecón, o mítico calçadão à beira-mar, até na noite de réveillon, assistindo pipocarem ao longe meia dúzia de fogos de artifício e brindando nossa garrafa de rum com a da família sentada ao nosso lado na mureta. O Natal tinha sido um jantar qualquer, já que o capitalista Papai Noel é persona non grata nesses encontros familiares, e os cubanos se contentam em decorar casas com luzinhas e desejar felicitad pelas ruas. Em Santiago, fizemos uma oficina rápida sobre como enrolar charutos e embarcamos em duas aulas caseiras de percussão com o músico Manolito Semanat, onde aprendemos o be-a-bá da conga e do bongô. Nossas novas gingas de cubano seriam exibidas na volta a La Habana, quando embarcamos em uma roda musical do tradicional bar La Bodeguita del Medio, em Habana Vieja, que no passado era freqüentado por outro estrangeiro metido a nativo, o escritor norte-americano Ernest Hemingway. Não faltou nem a consulta a um babalao, líder espiritual do culto aos orixás, versão cubana do nosso candomblé, para ganhar um axé para o ano novo. Nossa missão seria encerrada com a festa de 50 anos da revolução, no primeiro dia do ano, fazendo igualzinho aos milhares de nativos que tomaram o trecho do Malecón diante de um monumento chamado de Tribuna Antiimperialista: arriscando uns passos de salsa, tomando rum e bradando, como autênticos cubanos, “Viva Fidel! Vila La Revolución!”

Encantadora para todo el siempre

Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias. Foi esse o tempo que o apaixonado Florentino Ariza esperou, suspirando pelas ruelas estreitas de Cartagena, para conquistar o coração de sua amada Fermina Daza. Não havia cenário mais apropriado que esta cidadela cercada por muralhas de 400 anos para o romance O Amor nos Tempos do Cólera, clássico da literatura escrito pelo colombiano Gabriel García Márquez. Com sobrados e chão de pedra, varandas forradas por primaveras e praças arborizadas onde casais namoram diante das igrejas, Cartagena seduz por essa sensação de que o tempo não precisa passar. É como se tudo ali, das muralhas aos amores, fosse feito para durar.

 

Quem desembarca no aeroporto local, depois de 1 hora de voo desde Bogotá, costuma ter uma impressão menos floreada. O que se vê é uma metrópole portuária de 1,1 milhão de habitantes, com arranha-céus de até 48 andares à beira-mar, obras por todo lado e contêineres sobrepostos entre os navios do porto mais importante do país. A cor do Mar do Caribe, que se choca com o calçadão da Avenida Santander (que faz lembrar o Malecón da Havana de Cuba), também não é aquele azul-turquesa dos nossos sonhos. Mas basta se acercar dos seus 13 quilômetros de muros para sentir o encantamento e começar a acreditar que aquele universo foi acondicionado em uma redoma invisível. Parece até mais um capítulo de realismo mágico dos livros do velho Gabo, ele próprio dono de uma mansão diante da parte interna dos paredões. O táxi amarelo cruza um dos portões e… pirlimpimpim! Entramos em um conto de fadas. Ou de marujos, piratas e amantes.

 

Segunda cidade colombiana fundada pelos colonizadores espanhóis, Cartagena das Índias surgiu em 1533. A geografia privilegiada e a temperatura média de 30 graus, regada à buena brisa caribenha, logo a transformaram em uma das principais bases do império espanhol na América. Por seu porto entraria a mão-de-obra escrava vinda da África (até hoje, 70% da população é de origem negra) e sairia muito ouro e prata. Tanta fartura levou a cidade a ser duramente saqueada por piratas ingleses e franceses até que a muralha começasse a ser erguida, no século 16 – e concluída dois séculos depois, pouco antes da expulsão dos espanhóis.

 

Alma amuralhada

Após mais 200 anos, outra riqueza é ostentada pelas 103 ruas estreitas da encantadora Cartagena amuralhada: sua alma. Não por acaso, o lugar foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. O progresso e o turismo têm sido recebidos com o cuidado que se deve dar a uma peça de antiquário, a um amor duradouro ou a uma joia feita com as esmeraldas encontradas na região. Senhores de boina jogam xadrez sob as árvores, atores divertem as crianças posando como estátuas vivas em praças repletas de pombinhas e senhoras de saias coloridas e cestos de frutas na cabeça ganham trocados posando para as fotos dos visitantes. Há sempre tocadores de ritmos como o vallenato e a cumbia se apresentando entre mesinhas ao ar livre na Plaza Santo Domingo. É onde está a igreja homônima, de 1552, considerada a mais antiga da cidade, além de La Gorda, escultura rechonchuda de Fernando Botero.

 

Restaurar e adaptar casarões coloniais de forma harmônica virou uma bem-vinda obsessão dos empresários locais, como se percebe na série de hotéis-butique e restaurantes inaugurados nos últimos anos. Bons exemplos são o Hard Rock Café e o renomado restaurante La Vitrola, que funcionam em belos casarões do século 16. A prática se difundiu também graças ao reconhecido curso sobre o tema ministrado a arquitetos do mundo todo nas instalações do Museu Naval Del Caribe. A construção do século 17 é frequentada por uma juventude de cabelos e roupas moderninhas que conhece de cor as melhores casas de rumba da cidade amuralhada e da vizinhança boêmia de Getsemani. Em fevereiro, a frente do museu marinho tem outro motivo para reunir gente interessante: o lugar fica diante da sede do badalado Festival de Cinema de Cartagena, que movimenta a cidade há cinquenta anos.

 

Delicada restauração

O que a estilista colombiana Silvia Tcherassi fez ao criar, no ano passado, o Tcherassi Hotel + Spa em uma construção de 250 anos, foi um primor típico da renovação cuidadosa a que tem se submetido Cartagena. Os sete quartos dão para um pátio interno com uma piscina ladeada por um jardim vertical com 3 mil plantas. O toque fashion é dado pelas funcionárias, que desfilam peças da grife que mantém uma loja de moda feminina a poucas quadras.

 

Já o cinco-estrelas Sofitel Santa Clara, apesar de ostentar 162 quartos, impressiona por manter o clima intimista neste bem restaurado convento de monjas clarissas de 1617. Suas instalações sediam eventos portentosos – como a festa do casamento do ex-piloto de F1 colombiano Juan Pablo Montoya, em 2002 –, e serviram como pano de fundo para outra obra de Garcia Márquez, Do Amor e Outros Demônios. Foi aí que o sacerdote Cayetano Delaura se apaixonou pela jovem que iria exorcizar, Sierva María de Todos los Ángeles.

 

Bem que poderiam ser extraídas de um livro de realismo fantástico as memórias verídicas do Palácio da Inquisição de Cartagena. Por trás de sua impressionante entrada barroca de pedra do século 16 funciona um museu que narra, a partir de uma dúzia de instrumentos de tortura horripilantes, como foram punidos cerca de 800 hereges que não seguiam a linha dura do tribunal do Santo Ofício católico. Já a Puerta del Reloj, entrada que dá acesso à praça onde esses escravos eram vendidos, trocou suas lembranças duras por uma realidade bem mais doce: os arcos do Portal De Los Dulces, onde caramelos típicos são vendidos em uma fileira de banquinhas de rua. Ali foram gravadas boa parte das cenas da versão cinematográfica de O Amor nos Tempos do Cólera, com os atores Javier Bardem e Giovanna Mezzogiorno interpretando os protagonistas.

 

Embora o território encantado de Cartagena se concentre entre seus muros de até 15 metros de espessura, há outros bons registros de sua história heroica do lado de fora. O Castillo de San Felipe de Barajas, que começou a ser erguido no século 17 no alto da colina vizinha de San Lázaro, organiza tours curiosos por seu complexo sistema de túneis. Em um morro ao lado, o Convento de La Popa oferece as melhores vistas para observar Cartagena de cima a partir do Convento de Nuestra Señora de La Candelária, de 1607.

 

Nenhum deles, porém, substitui o prazer de se caminhar ao lado – e até sobre – as míticas muralhas cartageneras. O ponto alto de quem flana por suas rochas seculares é o entardecer na ponta diante do oceano onde fica a filial colombiana do Café Del Mar, famoso lounge-bar da Ibiza espanhola. Mesas, balcões e tatames almofadados convidam a se largar, tomar um drinque e esperar o pôr-do-sol ao som de música eletrônica de primeira linha. Casais apaixonados estão sempre presentes – e, claro, solteiros também. Afinal, não há lugar melhor para arriscar um romance, talvez inspirado no de Florentino Ariza e Fermina Daza, do que sobre as muralhas românticas de Cartagena.

 

(BOX)

 

O melhor das ilhas do Rosário

Embora o charme de Cartagena esteja dentro de seus muros históricos, que ficam diante de praias que perdem feio para as brasileiras, a cidade acaba de ganhar, enfim, um hotel luxuoso para quem faz questão de se hospedar bem e à beira-mar. O Royal Decameron Baru (tel. 318/415 2063, www.decameron.com) foi recém-inaugurado em Baru, uma das ilhas do Rosário, normalmente conhecidas em passeios de barco por meio período. A última novidade entre os 36 hotéis da rede é acessada depois de 1 hora e meia de carro desde o aeroporto. Além das três piscinas, o resort tem spa, quatro restaurantes, uma praia particular, centro de convenções para 700 pessoas e serviço all inclusive. Até o início de 2011, estarão funcionando todos os 330 quartos com vista para o Caribe.

 

(SERVIÇO)

 

PARA FICAR

SOFITEL SANTA CLARA

(Calle Del Torno, 39-29, tel. 575/650 4700, www.hotelsantaclara.com) O mais badalado hotel da cidade antiga levou cinco anos para restaurar o convento onde funciona. Tem 162 quartos, restaurante, lounge-bar, auditório para 300 pessoas e seis salões de eventos.

 

HOTEL BOUTIQUE LA MERCED

(Centro Calle Don Sancho, 36-165, tel. 575/664 7727, www.lamercedcartagena.com) Estiloso e repleto de móveis de design, fica em um predinho do século 18. Tem até suíte avarandada com banheira de hidromassagem de frente para o mar, na mais chique das oito suítes.

 

TCHERASSI HOTEL + SPA

(Calle Del Sargento Mayor, 6-21, tel. 575/664 4445, www.tcherassihotels.com) Além dos sete quartos exclusivos, conta com o refinado restaurante Vera, de cozinha italiana, um deque com piscina na cobertura e o pequeno spa da rede espanhola Germaine de Capuccini.

 

PARA COMER

LA VITROLA

(Calle 33, 2-01, tel. 575/664 8243) Funciona em uma casa de 400 anos e leva o nome de uma relíquia musical de 1904, que fica na entrada. O chef Steven Acevedo é especialista em frutos do mar e o jantar costuma acompanhar música cubana ao vivo.

 

LA CASA DE SOCORRO

(Calle Larga, 8B-12, tel. 575/664 4658) Fica fora das muralhas e não tem luxo algum. Os salões com ornamentos de gosto duvidoso vivem lotados de locais, que buscam a verdadeira comida típica. Capricha nos frutos do mar.

 

PARA AGITAR

CAFÉ DEL MAR

(Baluarte de Santo Domingo, tel. 575/664 0506) Este é “o” lugar para se estar sobre as muralhas, especialmente no início da noite, apesar dos drinques caros. Tem bons DJs, brisa do mar, tatames com almofadas e gente bonita de todas as idades.

 

MISTER BABILLA

(Avenida Arsenal, 8B-137, tel. 575/664 7005, www.misterbabilla.com) Uma das melhores baladas desta agitada avenida no bairro de Getsemani recebe mais de mil bailadores nas rumbas animadas de sexta e sábado, e chama a atenção pelos salões exageradamente decorados.

Nos bastidores dos tablados de flamenco em Madri

Os olhos miram-se imóveis no espelho, queixos altos, mãos na cintura. Quando a professora bate palmas e o senhor na cadeira ao lado começa a dedilhar as cordas do violão, o grupo de alunas bailaoras arregaça as saias e passa a sapatear sincronicamente sobre saltos de 5 centímetros cravejados de pregos. Demarcado por um complexo ciclo rítmico de 12 compassos, o cruzar de pernas é acompanhado pelo balé aéreo de mãos e braços, que se dobram leves como penas. Mesmo compenetrada, a carioca Tatiana Bittencourt mantém o sorriso no rosto enquanto rodopia e faz dançar no ar seu xale, aqui chamado de mantón. Professora de dança no Rio de Janeiro, ela não disfarça a satisfação ao bailar na Amor de Dios, principal escola de flamenco de Madri e do mundo, onde circulam diariamente mil alunos, metade deles estrangeiros. “Esperei dois anos para voltar para cá e passar dois meses me aperfeiçoando”, contaria mais tarde. Em sua quarta viagem de imersão no universo flamenco da capital da Espanha, Tatiana se integrou a um batalhão de dançarinos dedicados a aprender ali, com 30 professores, as técnicas da principal expressão musical espanhola.

Naquele sábado de fevereiro, Tatiana tinha pressa. Ao fim da aula, caminhou rapidamente pelos corredores, escutando os sons de castanholas, cajóns e guitarras flamencas que ecoavam das 15 salas. Corria para não se atrasar para a apresentação de Farruquito. Você pode não conhecer Farruquito, um dos grandes nomes do bailado flamenco, ou o Tomatito, lenda viva dos violões. Mas naquela noite, madrilenhos e turistas admiradores de flamenco se dividiam para assistir às performances dos dois. Farruquito dançaria no Casa Patas, uma fundação composta por conservatório e restaurante que tem, nos fundos, um tablao, o tablado para apresentações de flamenco. Já Tomatito fecharia a série de cinco noites do 19º Festival Flamenco Caja Madrid (www.obrasocialcajamadrid.es), tocando para 1.100 pessoas na casa de espetáculos Teatro Circo Price, pertinho dos Museus do Prado e Reina Sofía. Em uma evidência de como o flamenco tem agitado o circuito cultural de Madri, o Guía del Ocio (www.guiadelocio.com/madrid), semanário de entretenimento vendido nas bancas de jornal, listava 18 apresentações naquela semana. E entre 4 de junho e 2 de julho, um festival ainda maior, o Suma Flamenca (www.madrid.org/sumaflamenca), deve mobilizar a cidade.

Aula de flamenco na escola Amor de Dios (fotos de Luis Maximiano)

PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Os estudiosos acreditam que o flamenco nasceu no século 15, na região de Andaluzia, sul da Espanha, e que a palavra venha de felag mengu, “camponês fugitivo” em árabe. Seria uma fusão da música dos ciganos que vinham do Norte da Índia com a dos mouros e judeus que já habitavam a região. Antes uma manifestação regional, ele só adquiriu o formato de performance artística no século 19, com a difusão de seus três pilares unidos: o cante, canções profundas que fazem lembrar uma prece muçulmana; o toque, melodia comandada por um violão especial, a guitarra flamenca; e o baile, a dança vigorosa que se assemelha a uma incorporação visceral. Em novembro de 2010, a Unesco o reconheceu como Patrimônio Imaterial da Humanidade. “Este título vai contribuir para que mais gente descubra esta arte viva”, comemora Carmen Linares, uma das divas do cante, que se apresentou no festival de fevereiro. Nascida no sul do país há 60 anos, ela se mudou para Madri em 1965 para trabalhar com flamenco. “Na Andaluzia está o berço, mas aqui se multiplicam os tablaos, os espetáculos, o público”, conta.

O movimento das casas flamencas evidencia essa retomada. Um exemplo é a recente reforma do Villa Rosa, na Plaza Santa Ana, um dos míticos cafés cantantes que sediaram a fase áurea do flamenco entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20, segundo o “flamencólogo” José Blas Veja, autor de 50 Años de Flamencologia – e proprietário do sebo Librería del Prado, pertinho da escola Amor de Dios. Preservando os belos azulejos de 1928, o Villa Rosa, que funcionava como discoteca nos últimos anos, reabre agora como restaurante com tablao. Já o Cardamomo, um bar popular proximo à Puerta del Sol, há dois anos incorporou shows flamencos em seu tablao, deixando as baladas para depois da meia-noite. Aos domingos, o Cardamomo se transforma para receber o público infantil com o espetáculo teatral El Bosque Flamenco – que já teve na plateia até a princesa das Astúrias, Letizia Ortiz, e suas duas filhas.

“Esta renovação é fundamental”, acredita o cantaor Miguel Poveda, revelação da Catalunha que se tornou um galã do flamenco e abriu o festival Caja Madrid. “Muitos ídolos morreram, outros talentos desistem porque esta é uma carreira difícil, especialmente em tempos de crise, mas temos de resistir.” O baixo-astral que assola parte da Europa em função dos problemas econômicos, por sinal, parece até combinar com muitas das letras flamencas, que choram dores de amor e injustiças sociais. Poveda chega a fazer sete shows por mês, mas lamenta não ganhar dinheiro como se cantasse música pop. “Com o flamenco eu nunca vou lotar uma Plaza de Toros, como faz o Julio Iglesias”, compara outro cantor do festival, o madrilenho Juan Valderrama. “Mas o flamenco é a voz do povo, tem um público fiel.” Filho do casal de cantaores Juanito Valderrama e Dolores Abril, ele acredita que o flamenco é mais complexo e nem sempre triste como o fado português ou o tango argentino. “O flamenco nasceu nesta eterna terra de trânsito que é a Espanha, e belisca todos, do Oriente ao Ocidente.”

TEM DUENDE NO TABLADO

Primeiro, entram os três violeiros. Depois, sobem ao palco os três cantaores e palmeros, demarcando o canto com as palmas das mãos. Quando as três bailaoras e o bailaor começam a bater os pés no palco, tem início um ritual que parece deixá-los em transe. Tocadores de olhos fechados, cantores com cara de sofrimento e o corpo de baile se expressando de forma dramática parecem cumprir o objetivo de despertar o “duende”. Assim a comunidade flamenca denomina a sensação inebriante causada pela harmonia no tablao, que emociona tanto os artistas quanto o público – como foi possível perceber em um noite lotada de estrangeiros, alguns às lágrimas, no Corral de la Morería. Fundado em 1956 e bem localizado na rua do imponente Palácio Real, o restaurante flamenco tem paredes cheias de quadros de antigas apresentações e de outra paixão espanhola, as touradas. Conseguir uma mesa perto do palco é fundamental para bem aproveitar a uma hora e meia de espetáculo. Caso contrário, a vista acaba sendo prejudicada pela circulação dos garçons – que servem menus-degustação de 43 a 99 euros, mais os cerca de 40 euros de couvert artístico. Apesar de caro, vale a pena.

Apreciada pelos turistas, a fórmula dos restaurantes com tablaos típicos de Madri consagrou também o Café de Chinitas, o Las Carboneras, o Clan e o El Corral de La Pacheca. Madrilenhos mais interessados na música que na comida preferem ir direto ao ponto no Cardamomo e no Las Tablas. Mais raras, é verdade, são as peñas flamencas, rodas informais em que não é falta de respeito interagir, por exemplo, cantando e batendo palmas. Com sorte, os mais notívagos podem ser convidados a descer ao porão do Candela, um bar underground onde a boemia flamenca se apresenta de improviso. Mas, com tamanha oferta, como decidir a qual tablao ir? “Mais importante que os lugares são os artistas”, ensina Joaquín San Juan, diretor da Amor de Dios. Como as casas revezam seu casting, é preciso checar a programação nos sites. “Se o elenco for desconhecido, pergunte para um amigo que entende”, recomenda. O próprio mural da escola, com dezenas de folders e cartazes de eventos, pode ser um ponto de partida.

TERRITÓRIO FLAMENCO

Criado em 1952, o Centro de Arte Flamenco y Danza Española Amor de Dios foi batizado com o nome da rua de um de seus primeiros endereços, localizado a 100 metros do atual. Fica sobre os corredores repletos de peças de jamón e cabeças de porco do Mercado de Antón Martín, mesmo nome do bairro, e acabou sendo responsável pela transformação de seu entorno em uma zona flamenca. Por todos os lados há lojas de sapatos – um par pode custar 160 euros – e roupas, como os longos vestidos cheios de babados e frente mais curta para mostrar os pés da bailaora. Em lojas como a Lola Almela, a brasileira Talita Sánchez gastou 500 euros em acessórios como flores de cabelo e habanicos (leques) para levar para suas alunas no Japão. “Moro em Madri mas rodo o mundo com o flamenco”, conta ela, cuja família organiza no Brasil, há dez anos, o Festival Internacional de Flamenco (www.festivalflamenco.com.br), que costuma acontecer em São Paulo e São José dos Campos.

É perto da espetacular Plaza Mayor, no entanto, que fica a loja que reúne a maior oferta de artigos do gênero. Na El Flamenco Vive, os irmãos David e Alberto Martinez vendem 2 mil títulos entre CDs e DVDs, mil livros, roupas, postais e guitarras flamencas de dez fabricantes. Se a intenção for investir nas cordas, nada melhor que agendar uma visita ao ateliê Mariano Conde, que nasceu como Conde Hermanos em 1915, para acompanhar a confecção do mesmo violão comprado por Tomatito e por Paco de Lúcia, maior divulgador mundial da guitarra flamenca. Comparado ao violão clássico, o de flamenco tem uma caixa mais estreita para intensificar os sons graves e metálicos. Depois de levar até quatro meses para ser confeccionada, uma peça pode custar 15 mil euros.

FLAMENCO FUSION E À LA BROADWAY

Exímio tocador de guitarra flamenca radicado em Madri, o brasileiro Fernando de La Rua é um dos agitadores deste circuito cultural. Além de se apresentar em tablaos e escolas, ele promove na capital espanhola o Projeto Brasil Flamenco, idealizado por sua mulher, a bailaora brasileira Yara Castro. Trata-se de encontros entre artistas espanhóis e brasileiros – como Tatiana Bittencourt, que dançava na Amor de Dios no início desta reportagem. Seu trabalho representa uma corrente contemporânea chamada de flamenco fusion. “Minha mão direita usa as técnicas do flamenco, mas a esquerda é bem brasileira”, brinca ele, que em fevereiro apresentou no pequeno Artebar La Latina o repertório de seu CD, com uma guitarra flamenca repleta de influências que vão do jazz ao chorinho. Em Madri ouve-se misturas de flamenco com rock e até com rap. Mas há espaço também para os musicais à la Broadway, com coreografias ensaiadas e bem diferentes do improviso dos tablaos. O espetáculo España Baila Flamenco costuma lotar os 300 lugares do Teatro Muñoz Seca, ao lado da movimentada Gran Vía, com 25 bailaores em cena – entre eles o brasileiro Fábio Rodriguez e a lendária Sara Lezana, que na década de 1960 contracenou com o bailaor Antonio Gades, o “Pelé” do flamenco, no cinema. Outras duas montagens da mesma companhia, Ballet Flamenco de Madrid, estão previstas para maio, em mais uma prova de que não há melhor lugar para se emocionar com este Patrimônio da Humanidade do que em Madri.

INFO: MADRI

+34 91

Artebar La Latina – Calle San Bruno 3, tel. 61 511-5627; Ballet Flamenco de Madrid – tel. 522-7903, www.balletflamencodemadrid.com; Café de Chinitas – Calle Torija 7,
tel. 559-5135, www.chinitas.com; Candela – Calle Olmo 2, tel. 467-3382; Cardamomo – Calle Echegaray 15, tel. 369-0757, www.cardamomo.es; Casa Patas – Calle Cañizares 10, tel. 369-0496, www.casapatas.com; Centro de Arte Flamenco y Danza Española Amor de Dios – Calle Santa Isabel 5/1º, tel. 360-0434,
www.amordedios.com; Clan – Calle Ronda de Toledo 20, tel. 528-8401, www.salaclan.com; Corral de la Morería – Calle Morería 17, tel. 365-8446, www corraldelamoreria.com; Corral de la Pacheca – Calle Juan Ramón Jiménez 26, tel. 353-0100, www.corraldelapacheca.com; El Flamenco Vive – Calle Conde de Lemos 7, tel. 547-3917,
www.elflamencovive.es; Las Carboneras – Plaza del Conde de Miranda 1, tel. 542-8677, www.tablaolascarboneras.com; Las Tablas – Plaza España 9, tel. 542-0520,
www.lastablasmadrid.com; Librería del Prado – Calle del Prado 5, tel. 429-6091, www.libreriadelprado.com; Lola Almela – Calle Duque de Fernán Nuñez 4, tel. 429-2897,
www.flamencololaalmela.com; Mariano Conde Guitarras – Calle Amnistía 1, tel. 521-8155; Villa Rosa – Plaza Santa Ana 15, tel. 521-3689

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS/SPECIAL THANKS TO: AECID Centro Cultural de España en São Paulo, www.ccebrasil.org.br; Cultyart (Festival Caja Madrid),

www.cultyart.com; Mirasierra Suites Hotel, Calle Alfredo Marqueríe 43, tel. 727-7900, www.jubanhoteles.com