Lançado livro sobre Rio Amazonas

Queridos amigos, leitores e parceiros, é com alegria que quero convidá-los para o lançamento do livro Dos Andes ao Atlântico – Uma Viagem pelo Rio Amazonas (ArteEnsaio, 208 páginas, R$63,00). Fruto de um trabalho delicioso ao qual me dediquei na maior parte de 2013, ele chega às livrarias nesta quarta-feira, 19 de fevereiro. A sessão de autógrafos acontece na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi (Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232). Eu e o fotógrafo Adriano Fagundes estaremos recebendo vocês para aquele abraço das 18h30 às 22h. De lá, vamos celebrar no Bar Estônia, subsolo do Ramona, no Centro (Av. São Luís, 282, esquina com Consolação). E com a opção de cair na pistinha de rock clássico do Alberta#3, a balada vizinha. Quem se animar para seguir com a gente na celebração dançante só precisa mandar o nome para daniel@samesame.com.br para que eu possa incluir na lista amiga (R$15,00 de entrada ou R$40,00 de consumação). E aí, vamos comemorar?

 

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Agora nós somos os “meninos do Rio”

Depois da Revista da Gol em janeiro, foi a vez de as publicações de bordo da TAM e da Azul publicarem em suas edições de fevereiro reportagens sobre o livro que produzi com o fotógrafo Adriano Fagundes. “Dos Andes ao Atlântico – Uma Viagem pelo Rio Amazonas”, que escrevi depois das três viagens que fizemos em 2013 acompanhando o grande rio desde a nascente até a foz, tem lançamento previsto para acontecer nos próximos dias. Para quem passou a vida entrevistando os outros, está sendo curioso ser procurado agora no lugar de entrevistado, como aconteceu quando o repórter da Gol, o Daniel Marques, ligou aqui no meu home-office. Na TAM Nas Nuvens, a reportagem assinada pelo talentoso Victor Gouvêa, com quem tive o prazer de trabalhar, ganhou um título divertido: “Meninos do Rio”. Com essa idade, com esse corpinho? Nada mal, hein?

Reportagem publicada na Revista TAM Nas Nuvens de fevereiro/2014
Reportagem publicada na Revista TAM Nas Nuvens de fevereiro/2014

Na matéria da TAM, o Adriano, pai do projeto, apresenta cinco dos lugares que mais curtiu nas três viagens que fizemos juntos, em 2013, acompanhando o grande rio desde a nascente até a foz.

Já a reportagem que a Bruna Tiussu publicou na Revista da Azul foca nos personagens que cruzamos ao longo do caminho. E ganhou até o destaque de capa. Que venham muito mais.

Reportagem da Revista da Azul publicada na edição de Fevereiro/2014
Reportagem da Revista da Azul publicada na edição de fevereiro/2014

O império contra-ataca

Vinte e oito retratos de mulheres e homens comuns vestindo trajes andinos tradicionais fizeram sucesso entre limenhos e estrangeiros, de abril a setembro, que visitaram a MATE, galeria que o fotógrafo Mario Testino abriu em Lima há um ano e meio. Numa alusão provocativa aos ensaios de alta costura que costuma produzir para publicações como Vanity Fair e Vogue, o peruano radicado em Londres batizou a mostra de “Alta Moda”. “Voltei às raízes para explorar a herança do meu país e mostrar ao mundo a riqueza de nossa cultura”, afirmou, satisfeito pelo sucesso da exposição tê-la feito migrar para Nova York, onde vai decorar as salas do Instituto Espanhol Rainha Sofia até 29 de março. A missão de Testino parece estar sendo cumprida: o mesmo requinte da vestimenta dos camponeses de origem inca que ele fotografou na cidade colonial de Cusco ao longo de cinco anos pode ser notado no artesanato e na gastronomia do país, o que tem consagrado o Peru como o destino latino favorito de viajantes em busca de experiências legítimas.

 

Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Localizada a 1 hora de voo de Lima, Cusco tem aquele charme de cidades coloniais como Cartagena e Ouro Preto. Sua Plaza de Armas rodeada por sobrados avarandados típicos da arquitetura espanhola foi clicada por 2 milhões de turistas que ali chegaram em 2012 – mais que o dobro de oito anos atrás. Trajes típicos tais e quais aqueles registrados por Mario Testino continuam sendo orgulhosamente vestidos pela população. No entorno da cidade, que foi a capital do império inca, o mais importante da América do Sul entre 1438 e 1533, o chamado Vale Sagrado exibe uma série riquíssima de sítios arqueológicos, entre os quais se destaca o mais famoso do continente, Machu Picchu. Mesmo sem shopping-centers, parques temáticos ou atrativos artificiais,  Cusco vê sua infra-estrutura de turismo ganhar cada vez mais novos hotéis, restaurantes e museus. Com uma peculiaridade: a maioria dos investimentos foca no turismo de primeira linha.

 

Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

É na hotelaria que essa vocação para atender o viajante exigente fica mais evidente. Em 2013,  o Palácio del Inka, que surgiu nos anos 1980 sob a bandeira Libertador como o primeiro cinco-estrelas da cidade, entrou para a rede Luxury Collection Hotel depois de uma reforma de 15 milhões de dólares. Com quadros originais da famosa Escuela Cusqueña nas paredes, tetos pintados à mão e muros incas originais em sua estrutura, ele pertence ao seleto grupo de seis hotéis top que se destacam entre as 94 hospedarias de Cusco. “A elitização do turismo no Peru começou há apenas 10 anos e aconteceu ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a valorizar os destinos mais autênticos”, explica Patricio Zucconi Astete, veterano do turismo local. Ele gerencia atualmente o Miraflores Park, de Lima, unidade da rede de luxo Orient-Express, que detém na região de Cusco nada menos que 4 unidades para hospedagem de alto nível.

 

Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

No primeiro semestre de 2013, uma comitiva de 60 hóspedes da TV Globo escolheu o mais pomposo deles, o Monastério, um antigo mosteiro do século 17, para abrigar o elenco e a equipe de apoio da novela Amor à Vida. Nos jantares, Paolla Oliveira e seus colegas puderam assistir às apresentações de ópera que tinham no elenco Angela Merina, respeitada como melhor soprano do Peru. Mais moderno, o vizinho Palácio Nazarenas conta com habitações com chão do banheiro aquecido e oxigênio para amenizar o desconforto da altitude – Cusco está 3400 metros acima do nível do mar, 2500 metros mais alta que São Paulo. Único hotel que desfruta do privilégio de ficar a 20 passos da entrada de Machu Picchu, o Sanctuary Lodge costuma ter uma taxa de ocupação invejável, com média anual de 80 por cento (o que significa que mesmo na temporada das chuvas, de novembro a março, o movimento continua intenso). Mas é na viagem de trem de luxo entre Cusco e Machu Picchu que está o créme de la crème da grife: a jornada dá direito a jantar, vinhos e espumantes, aulas de pisco sour e música ao vivo no trem Hiram Bingham ­– batizado em homenagem ao americano que, em 1911, descobriu Machu Picchu.

 

Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Vem das relíquias encontradas pela equipe de Bingham, por sinal, outra das boas novidades de Cusco: o museu Machu Picchu Casa Concha. Inaugurado em 2011, ele conta com 366 peças arqueológicas incas que estiveram por um século no Museu de História Natural de Peabody, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. E soma-se a outros museus de boa curadoria da cidade, entre eles o de Arte Precolombino, que pertence ao grupo do Museo Larco, de Lima, dono da mais fina coleção de objetos de cerâmica, ouro e prata do Peru antigo. Suas peças inspiram o trabalho da designer de jóias  Maria Elena Guevara, proprietária da Inka Treasure, rede com nada menos que 9 joalherias em Cusco. “O Peru é o segundo maior exportador de prata do mundo, só perde para o México”, explica. “Temos o privilégio de trabalhar com a prata de melhor qualidade, além de pedras raras do país, como as de crisocola, a turquesa peruana”, conta a empresária, que já atendeu clientes como Bill Gates, Dalai Lama e Antônio Fagundes. Uma estátua de um guerreiro mochica que brilha em uma de suas vitrines e levou 3 meses para ser esculpida não sai por menos de 8.500 dólares.

 

Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Por preços menos salgados que os de São Paulo ou Rio de Janeiro, os bons restaurantes de Cusco são exemplos da gastronomia mais respeitada da América Latina na atualidade. Embora já seja sócio do Chicha, considerado o melhor restaurante da cidade, o embaixador da culinária peruana Gastón Acurio se prepara para abrir uma segunda casa em breve. Ele é o dono do Astrid & Gastón, de Lima, que em setembro renovou seus louros como o número 1 entre os 50 melhores da América Latina segundo os críticos da revista inglesa Restaurant. Hoje é difícil jantar sem reserva no Chicha, que tem esse nome em homenagem a uma bebida de origem inca, normalmente feita de milho fermentado. Uma vez à mesa, os comensais degustam receitas desenvolvidas com técnicas andinas e asiáticas. Os ceviches abrem o paladar para clássicos como o anticucho – ou espetinho ­– de coração de vaca e o lomo saltado, filé de carne frito no estilo chinês.

 

Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Mas é no vestuário que os turistas – 126 mil deles vindos do Brasil, segundo dados de 2012 da PromPeru, órgão governamental que promove o turismo do país – investem seus soles com maior custo-benefício. É claro que os gorros, suéteres e cachecóis coloridos, como aqueles clicados por Mario Testino, podem ser encontrados em cada esquina com tecidos e preços populares. Quem visita lojas locais renomadas como a Sol Alpaca e a Golden Alpaca, no entanto, descobre que vale a pena pagar mais pelos raríssimos tecidos de vicunha ou de baby alpaca – esses feitos da lã dos filhotes de alguns dos bichos mais avistados nessas alturas dos Andes. “Um gorro de qualidade não vai custar menos que uns 50 reais, mas vale a pena”, atesta a advogada Thalita Rosa, que viajou com o namorado, o engenheiro Mateus Carmona, em junho. “Contratamos um motorista exclusivo para explorar os arredores, comemos muito bem e ficamos fascinados com a riqueza das tradições do Peru”, conta Thalita, que voltou de viagem com outra recordação mais que especial. Foi nas alturas do Wayna Picchu, a maior montanha diante de Machu Picchu, que Matheus lhe surpreendeu com um par de alianças e um pedido de casamento. E deixou a experiência de conhecer o Peru ainda mais inesquecível.

 

Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)
Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)

 

Para ver a reportagem como publicada na Veja Luxo, inclusive com fotos de Mario Testino, baixe o PDF.

 

SERVIÇO:

CHICHA: www.chicha.com.pe

GOLDEN ALPACA: Plaza de Armas, 151, tel. +51 84 25-1724

INKA TREASURE: www.incatreasure.com.br

MACHU PICCHU: www.machupicchu.gob.pe

MATE (LIMA): www.mate.pe

MIRAFLORES PARK HOTEL (LIMA): www.miraflorespark.com

MONASTÉRIO: www.monasteriohotel.com

MUSEU DE ARTE PRECOLOMBINO: www.map.museolarco.org

MUSEU MACHU PICCHU CASA CONCHA: www.cuscoperu.com

PALÁCIO DEL INKA: www.starwoodhotels.com

PALÁCIO NAZARENAS: www.palacionazarenas.com

SANCTUARY LODGE: www.sanctuarylodgehotel.com

SOL ALPACA: www.solalpaca.com

TREM HIRAM BINGHAM: www.orient-express.com

A cidade floresce

O espetáculo do encontro dos rios Negro e Solimões. O fantástico Teatro Amazonas, palco de disputados recitais de ópera. E só. Depois de cinco anos sem aterrissar em Manaus, eu achava que estes ainda fossem os dois passeios bacanas que um forasteiro tinha para explorar no principal portal da Amazônia brasileira. Ledo e delicioso engano. Bastou o fotógrafo Adriano Fagundes e eu sairmos do Eduardo Gomes, o aeroporto internacional, e entrar no carro do Leleco, nosso amigo carioca que adotou como sua a capital do Amazonas, para começar a sucessão de boas surpresas enquanto rodávamos pela cidade. “Uau, que ponte estaiada é aquela sobre o Rio Negro? Olhem quanta gente praticando stand-up paddle no rio! Que bacana estão a ciclovia e o calçadão de Ponta Negra…” Leleco respondia apontando mais novidades: “Ali fica o estádio da Copa do Mundo,  o Arena da Amazônia. Para lá está um dos shoppings recém-inaugurados. Por aqui se chega a um hotel de golfe aberto há 3 anos…” Nosso anfitrião tinha uma proposta de agenda tentadora: como não estávamos na época baixa dos rios (julho a fevereiro), quando surgem as belas praias de água doce, iríamos a alguns restaurantes de comida amazônica contemporânea, ao ensaio para o festival de Parintins e optaríamos entre degustar alguns dos 900 rótulos da Cachaçaria do Dedé ou uns drinques no O Chefão, transado bar do Centro Histórico inspirado no filme O Poderoso Chefão. Mal tínhamos começado a suar com o calor de mais de 30 graus daqueles trópicos e já notávamos que Manaus não era mais a mesma. Em pouco mais de meia década, havia aprendido a reciclar a riqueza dos rios e da floresta à sua volta para se transformar em uma metrópole com mais qualidade de vida, autêntica, cosmopolita e surpreendente.

A nova ponte estaiada da capital
A nova ponte estaiada da capital

O URBANO NA SELVA É claro que a capital do estado do Amazonas nunca perdeu sua vocação de ponto de partida para mais de uma dezena de bons hotéis de selva. A poucas horas da metrópole de 1,8 milhão de habitantes estão as principais bases para explorar a floresta com árvores de mais de 30 metros de altura e os rios de margens inalcançáveis, habitados por piranhas com dentaduras ameaçadoras, botos tucuxi saltitantes e jacarés gigantescos. Nós mesmos encerraríamos nossa jornada tendo contato com toda essa fauna em três dias intensos no mais badalado deles, o Anavilhanas Lodge, a 180 quilômetros de Manaus. O percurso leva 2h30, 2 horas a menos do que as 4h30 necessárias antes de  serem inaugurados, em 2011, os 3,6 quilômetros do novo cartão-postal da cidade, a Ponte Rio Negro. A construção da maior ponte fluvial e estaiada do Brasil acabou com a necessidade de uma balsa para cruzar o rio, facilitando o acesso ao hotel e a toda a região turística de Novo Airão, base para conhecer o arquipélago de Anavilhanas, formado por mais de 400 ilhas. Com 16 chalés, quatro bangalôs e acesso wi-fi até na área da piscina de borda infinita, o único hotel da rede Roteiros de Charme no Norte do país virou exemplo de hospedaria tão bem estruturada que atrai até aquele turista urbanóide que não consegue se desconectar da metrópole mesmo estando no meio do mato. Mas o caminho contrário, com a realidade da floresta invadindo o ambiente urbano, é o fluxo mais recente em Manaus. Graças ao resgate das raízes amazônicas promovido pela juventude local, certas preciosidades culturais estão mais acessíveis dentro da própria capital.

Um dos quartos do Anavilhana Lodge, em Novo Airão
Um dos quartos do Anavilhanas Lodge, em Novo Airão

MENU AMAZÔNICO Com apenas 27 anos, o catarinense radicado em Manaus Felipe Schaedler é o melhor representante da geração que tem transformado a exuberância da selva em atrativo de primeira linha na cidade. Felipe e seu empreendimento, o Banzeiro, ganharam os prêmios de chef e restaurante do ano em 2011 e 2012, segundo a revista Veja Comer & Beber – Manaus. Curioso, Felipe costuma partir em expedições à floresta explorando ingredientes para suas criações gastronômicas. No ano passado, o mestre-cuca foi condecorado pela própria presidente Dilma Rousseff, em Brasília, com a Ordem do Mérito Cultural. “Minhas influências são caboclas e indígenas”, define ele, que vive na cidade desde os 16 anos. “Amo Manaus e daqui não saio.” Sua paixão pelo ambiente selvagem está evidente na decoração da casa, localizada no bairro de Nossa Senhora das Graças, e inclui uma canoa típica pendurada na parede, lustres feitos de fibras naturais e fotos de ribeirinhos clicadas pelo próprio chef. Dos dadinhos de tapioca servidos na entrada às suas premiadas costelas de tambaqui, finalizando no petit gateau recheado de cupuaçu, todas as delícias que experimentamos ali têm uma pitada de Amazônia.

Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica da cidade
Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica

Não é só no templo do chef mais badalado de Manaus, porém, que a nova cozinha da Amazônia viria a se revelar para nós. O sushiman Hiroya Takano, do restaurante Shin Suzuran, em Vieiralves, surpreende usando peixes de rio em suas criações. “Para realçar o sabor, ralo pimenta murupi sobre o sashimi de tucunaré e mergulho o pirarucu no missô com castanhas por um dia inteiro”, conta. Sem nada de moderno – mas com uma fartura única ––, o Chapéu de Palha da Benção sustenta esse nome em função das formas do telhado, feito com trançado típico a mais de 12 metros de altura. “Fiquem à vontade para se servir em nosso bufê com mais de dez espécies de peixes de água doce”, nos diria o  proprietário, o evangélico Manoel Pestana. A comida, simples e saborosa, parece realmente abençoada.   TACACÁ MUSICAL Antes de chegar às boas mesas manauaras, todo esse quase exótico universo de pescados, pimentas, ervas e frutas costuma colorir e aromatizar os corredores do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Erguido em 1883, a construção art nouveau de ferro beira o Rio Negro justamente no ponto de onde saem os clássicos passeios de barco que mencionei no início do texto: em uma hora, as embarcações atingem o ponto onde as águas amarronzadas do Solimões – extensão do Amazonas, o maior rio do planeta – ladeiam, sem se misturar, as escuras correntes do Negro. Se você, como nós, já teve esse prazer, invista nas bancas do mercado, com todo tipo de farinha de mandioca (seca, d’água, de tapioca, Uarini…), todo um novo alfabeto de frutas (abiu, camu-camu, taperebá, uxi…) e ervas que, dizem, levantam até defunto. “Em 56 anos trabalhando com isso, aprendi as propriedades curativas de cerca de 1000 plantas”, orgulha-se a simpática Dona Judith Formoso, 77 anos. Delícias de rua como o x-caboclinho (sanduíche com lascas de uma fruta chamada tucumã e queijo coalho), o famoso tacacá (aquele caldo de tucupi com goma de tapioca, folhas de jambu e camarão seco) e o açaí (aqui comido salgado, com farinha) também podem ser provados por ali mesmo – embora se espalhem também pelo entorno do Largo de São Sebastião, a mais famosa praça da cidade, diante do Teatro Amazonas. Nas noites de quarta-feira, de abril a dezembro, o ilustre Tacacá da Gisela mescla seus sabores amazônicas com boa música no chamado Tacacá na Bossa. Até Ed Motta já deu uma canjinha entre os músicos que se apresentam.

Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus
Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus

ÓPERA INDÍGENA Coração cultural de Manaus, o entorno do teatro abriga boas lojas de artesanato dos índios da Amazônia, sorveterias incríveis, o quarentão Bar do Armando e o frescor do Boutique Hotel Casa Teatro, aberto há um ano e meio em um dos fantásticos casarões históricos do Centro. E ganha um glamour único entre abril e maio. É quando o Teatro Amazonas abriga o Festival Amazonas de Ópera, o único do gênero na América Latina. Em 2013, foram 33 atrações ao longo de 45 dias. “É uma honra difundir a música erudita para a gente da minha cidade”, diz a soprano Carol Martins, 31 anos, solista da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi. No encerramento do 17o festival, em maio, ela também cantou na ópera O Morcego, de Johann Strauss Filho, que reuniu 15 mil pessoas ao ar livre, no Largo de São Sebastião, diante do teatro, mesmo debaixo de chuva. A tradição das óperas nesse peculiar teatro com uma bandeira do Brasil na cúpula vem do século 19, tempo em que Manaus virou uma espécie de Paris das Selvas em função de toda a fortuna que circulava na cidade. Foi graças à exploração massiva da borracha de seus seringais que a cidade inaugurou, já em 1896, um teatro daquele porte. Tão portentosos quanto as óperas, mas bem mais populares, são os ensaios para o Festival Folclórico de Parintins, que chegam a arrastar cerca de 10 mil pessoas ao Centro de Convenções de Manaus, o chamado Sambódromo, e à Arena do Hotel Tropical de março a junho. Embora a grande festa do boi, com temática inspirada em lendas indígenas e costumes ribeirinhos, aconteça a distantes 370 quilômetros dali e só por três dias do mês de junho, partem da capital do estado cerca de 50 mil pessoas que ajudam a fazer a festa dos bois Garantido, o vermelho, e Caprichoso, o azul. A vibração do público e as alegorias fantásticas de personagens míticos da floresta, como a índia mais bela e o poderoso pajé, convencem qualquer viajante a querer estar, ao menos uma vida, na festa do boi de Parintins.

Show no  Jack’n’Blues Snooker Pub
Show no Jack’n’Blues Snooker Pub

A BIENAL DA MATA Em julho, os ouvidos dos manauaras buscam outro ritmo: o de jazz. O 8o  Festival Amazonas de Jazz mobilizou, em 2013, 60 músicos tanto na capital quanto no município vizinho de Manacapuru, a 70 quilômetros. O jazz, por sinal, tem espaço cativo na agenda de entretenimento da cidade: assistimos um belo show no Jack’n’Blues Snooker Pub, no agitado bairro noturno de Vieiralves, e uma jam session de primeira linha na Universidade do Estado do Amazonas – UEA, com direito a performance da artista Hadna Abreu pintando um quadro enquanto a banda tocava. Hadna tem 24 anos e exibe sua primeira mostra individual na Galeria do Largo, diante do teatro Amazonas, até 15 de setembro. “Me inspirei na estética dos meus avós para criar personagens fantásticos que interagem com árvores e pássaros do ambiente amazônico.”

 

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Grafitti em muro diante do sambódromo

 

O mesmo resgate das raízes culturais e históricas realizado com sucesso pelos espetáculos de ópera e do boi começa a ser trilhado também pelas artes plásticas. Como se não bastassem os belos grafites pelas ruas da cidade – como os lambe-lambes de Hadna, colados com goma de tapioca ­–, ainda em 2013 Manaus planeja ser a principal sede da Amazônica I, primeira bienal de artes visuais do estado. “Com base no sucesso do formato da megaexposição Documenta, em Kassel, na Alemanha, criamos uma mostra descentralizada, espalhada por diferentes pontos da cidade e do estado”, diz Cléia Vianna, comandante da Galeria do Largo e uma das organizadoras do evento. “Teremos desde desenhos de Di Cavalcanti até obras de novos artistas locais”, conta. Mais um exemplo de como os habitantes de Manaus aprenderam a beber da fonte natural e cultural da grande floresta que os circunda.

 

SERVIÇO:

amazonasfestivalopera.com amazoniagolf.com.br anavilhanaslodge.com arenadaamazonia.com.br restaurantebanzeiro.com.br www.casateatro.com.br cachacariadodede.com.br festivalamazonasjazz.com.br parintins.com suzuran.com.br tropicalmanaus.com.br visitamazonas.am.gov.br

Índia, a viagem que virou lenda – Parte I

Amados amigos e queridos leitores, não vai ser dessa vez que eu vou voltar à Índia. A votação do #keralablogexpress foi encerrada na quarta, dia 15, quando eu estava na posição 23 entre os mais votados. E apenas os 20 primeiros vão embarcar na expedição de blogueiros pelas praias de #Kerala. Mas eu fiquei tão feliz e lisonjeado com a carinhosa mobilização virtual – com esse Facebook a gente pode, mesmo, mudar o mundo… – que vou cumprir, mesmo candidato derrotado, uma das minhas promessas de campanha. Compartilho aqui uma das experiências – um vexame, na verdade – que vivi na minha primeira incursão à Índia e ao vizinho Nepal, exatos 10 anos atrás. Em 2004, viajei com três amigos e passei quase 2 meses entre templos-de-todos-os-santos, banheiros sem papel higiênico e vacas desgovernadas. Tudo ia bem até que chegou o dia em que eu caí do alto do trono da minha arrogância. Continuar lendo Índia, a viagem que virou lenda – Parte I

Pedindo votos para ir a Kerala, Índia

Atenção, tripulação: termina na quarta, 15 de janeiro, a votação da #keralablogexpress para eleger os 20 blogueiros de viagem de todo o planeta que farão parte de um expedição por #Kerala, a linda região do sul da Índia. Trata-se de uma bela idéia do Departamento de Turismo de Kerala para incentivar o turismo utilizando a melhor ferramenta de divulgação de destinos da atualidade: os blogs. Seja um cabo eleitoral do Same Same! Clique em http://keralablogexpress.com/user/single_participant/8196 , dê seu voto, compartilhe pelo Facebook e convoque seus amigos a votar também!

Gelo à vista

As boas-vindas não parecem lá muito amigáveis. “Quatro questões jamais devem ser feitas a bordo: para onde vamos, quando chegaremos, por quanto tempo permaneceremos ali e como estará o clima.” Disparadas à queima-roupa logo após o embarque, num inglês com sotaque germânico, as frases proibidas no navio MF Fram não deixam dúvida de que estou em um cruzeiro diferente. “Na Antártica, quem manda é a natureza, e as mudanças climáticas são rápidas e imprevisíveis.” A dona da voz é Anja Erdmann, líder da expedição, que fala quando o barco da empresa norueguesa Hurtigruten afasta-se de Ushuaia, na Argentina, na pontinha mais ao sul da América. Os 207 passageiros de 16 nacionalidades zarpam sabendo apenas que, até chegar às abrigadas águas da Península Antártica, leva-se 3 dias percorrendo a Passagem de Drake, área famosa por seus naufrágios, onde Atlântico e Pacífico duelam. Depois de cruzá-la, continua a loirinha, a definição do roteiro se dá de acordo com os humores da neve, das ondas e dos ventos. A convocação para que o exército de aventureiros vista coletes salva-vidas e siga para a simulação da evacuação de emergência reforça: embarcar em um cruzeiro antártico é para viajantes com espírito desbravador.

 

Trekking na ilha Deception
Trekking na ilha Deception

 

Conhecer a Antártica nunca foi tão fácil. Segundo o guia de mochileiros Lonely Planet, o continente inexplorado brilha como o segundo lugar mais “quente” a visitar em 2014  – o primeiro é o Brasil, é claro, em função da Copa. Já existem 50 cruzeiros oferecendo pacotes a partir de 10 dias por cerca de 7.000 dólares, sem parte aérea. Na temporada passada, de novembro de 2012  a março de 2013, eles levaram nada menos que 35.000 pessoas. Em “cruzeiros de expedição” como este, não há cassino, shows a la Broadway, free-shops ou piscinas. Na minha cabine solitária, além de cama e banheiro (com água quente, ufa!), há apenas uma escotilha de onde se vê só céu e mar. Ah, e televisão, com 80% da programação tendo o extremo sul como tema. O entretenimento principal das duas centenas de horas na embarcação são as (ótimas) palestras. No primeiro dia, assisto a de pinguins, a de baleias e a de um geólogo norte-americano, Bob Rowland, que contou de seus estudos no Polo Sul em 1962 e 1963. Isso pouco depois do início das primeiras viagens turísticas à Antártica, em 1958, que provaram ao mundo que a última fronteira da Terra podia ser visitada por simples mortais como nós.

 

Port Lockroy: tem até correio
Port Lockroy: tem até correio

 

MEU PRIMEIRO ICEBERG

Terceiro dia. Para alívio dos marujos, superamos nas últimas 24 horas um Drake sem tempestades. O enjoo do mar chegou e foi embora. Já decorei o nome de vários dos 50 simpáticos tripulantes das Filipinas que atendem em locais como o restaurante e a sala de empréstimos de galochas. E meu fascínio pelas explorações antárticas cresceu substancialmente depois de assistir a documentários como o da conquista do Polo Sul, protagonizada pelo norueguês Roald Amundsen, em 1911, em um barco chamado Fram que inspirou o batismo deste. Também amei o longa sobre a saga de Sir Ernest Shackleton, o irlandês capitão do barco Endurance que tentou atravessar, com 27 homens, o continente gelado a pé em 1914, noventa anos atrás. Devoro mais um dos filmes da TV – acho que sobre as aves antárticas que acompanham o deslizar do navio – quando a voz daquela Angela Merkel dos mares ecoa, pelos auto-falantes, que um iceberg se aproxima.

Olho pela escotilha e lá está ele. Meu primeiro iceberg. Lindo. Gigante. Leve. É como se um quarteirão de 1,5 quilômetro com altura de um prédio de 3 andares flutuasse, quebrando com seu branco a monotonia azul de céu e mar. Um tom de turquesa-do-Caribe denuncia sua beleza submersa: como aprendi na lição-de-casa, 90% dos corpos desses blocos de gelo desprendidos dos glaciares esconde-se sob a superfície. Visto casaco para temperaturas negativas, corta-ventos, gorro, cachecol, luvas, óculos de sol. E, câmera na mão, corro para o terraço do sétimo andar para observá-lo em meio ao vento congelante. Meu iceberg não vem só. Outros correm em nossa direção. Chego a acreditar que nos aproximamos, enfim, da Antártica. Não há no horizonte, porém, sinal algum de terra à vista.

Engano meu. Quem chega à Península Antártica não aterrissa num grande continente no fim do caminho. Também não encontra um porto, o mar de outra cor ou qualquer referência que prove que alcançou o destino. No meio do marzão sem fim, surge uma ilha numa manhã, outra à tarde, e assim por diante: estamos na Antártica. A primeira em condição de desembarque aparece nesse terceiro dia, anunciada por uma nova chamada radiofônica. Aí sim nossa führer alemã dá todas as respostas e avisa: onde vamos – Baía Half Moon, no arquipélago das Shetland do Sul –, quando chegaremos – em 20 minutos –, por quanto tempo – 1h15 para cada grupo de 8 pessoas que lotar um bote inflável – e como está o clima – 1o C. Com apenas dois quilômetros, a ilhota parece um amontoado de rochas cinzas pontiagudas habitada por uns 2.000 casais de pinguins chinstrap (aqueles “de máscaras”) e seus filhotes. Um bote de madeira abandonado na praia de pedras dá o clima de que pisamos na terra firme do fim de mundo desabitado. Por estar vizinha à ilha Livingston, forrada por neve, Half Moon é um cenário fantástico para fotos.

 

Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo
Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo

 

DESEMBARQUE CANCELADO

A tal imprevisibilidade meteorológica da Antártica fica comprovada no quarto dia. Ventos de mais de 100 quilômetros por hora provocam o cancelamento da descida prevista para a ilha de Brown Bluff. Antes do vendaval, felizmente, conseguimos desembarcar sob o frio de apenas -4o C, ainda que com sensação térmica de -17o C, na Baía Esperanza. Ela abriga, desde 1951, uma base permanente da Argentina, país que está entre as 27 nações com estações científicas na região (a do Brasil, na Ilha Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica, foi totalmente destruída por um incêndio em 2012). Cerca de 50 pesquisadores argentinos integram o seleto grupo de moradores temporários do continente, que não costuma passar de 150 habitantes. A neve ininterrupta e o nevoeiro intimidador que assolam nosso passeio por algumas das 40 construções alaranjadas – o refeitório, a escola, a capela, o mini-museu… – dão uma ideia de quão sofrida foi a estada forçada dos três náufragos da expedição Nordenskjöld, entre 1901 a 1904 (conforme eu havia aprendido na palestra do engenheiro polonês Henryk Wolski). Os restos do abrigo de pedras improvisado estão intactos.

Mas é no quarto dia, na ilha Deception, que a Antártica se apresenta realmente como uma terra de ninguém.  Ao passar no corredor de 150 metros de largura entre as rochas apelidadas de “foles de Netuno” e adentrar na cratera submersa desse vulcão ativo, o MF Fram parece chegar a um lugar inóspito onde nem pinguins, navegadores do século passado ou cientistas pisaram. Com 12 quilômetros de diâmetro, a caldeira de águas verdes abrigadas tem praia e pedras negras vulcânicas lindamente cobertas pelo branco da neve. A caminhada ao alto de seu morro de 540 metros de altitude é o ápice da experiência de isolamento e pequeneza proporcionada por uma incursão dessas: só há a vastidão branca, o silêncio ensurdecedor, a paz sem fim. O trekking de 3 horas à tarde, na baía Whalers, um centro baleeiro abandonado, catapulta o grupo a um estado de contemplação tão ou mais nirvânico, tamanha a beleza das formas dos glaciares e o contraste das cores na paisagem. Afinal o céu azul agora está de volta, e com ele o Sol que reflete um brilho que pode cegar. Em Deception, os sedentos por uma experiência ainda mais sensorial são convidados a dar um tibum de no máximo 5 segundos nas águas menos frias do pedaço. É quando descubro o deleite incrível do oceano com 1o C.

 

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Passeio de bote para avistar o leopardo marinho

 

COMO EM UMA PRAIA DESERTA

Se desembarcar em Deception provoca uma espécie de versão polar daquele prazer único de encontrar uma praia paradisíaca só pra você, caminhar por Porto Neko, primeira parada do quinto dia, faz lembrar um safári africano – só que no gelo. Neste raro ponto da Península Antártica onde se caminha em solo continental, o mundaréu de pinguins gentoos nem se assusta com os estrondos das avalanche dos glaciares. Tampouco as focas, baleias, leopardos e elefantes marinhos que se exibem para os zooms das câmeras e binóculos durante os passeios de bote-inflável. À tarde, no casebre preto e vermelho de Port Lockroy, uma base britânica, todo aspirante a conquistador se rende à sua faceta de turista. Na loja de souvenirs do simplório museu local, dá para fazer um shopping rápido e despachar um cartão-postal na única caixa de correio do pedaço.

À medida que o navio chega ao ponto mais ao sul da expedição, a latitude 65o Sul, no sexto dia, uma série de montanhas nevadas passa a formar um corredor de 1,6 quilômetro de largura e 11 quilômetros de extensão. Estamos no Canal Lemaire, o cenário mais espetacular para demarcar a meia-volta e o início do longo caminho de volta, agora com a bússola apontada para o Norte. Antes, uma parada na Ilha Danco, para ver o pôr-do-sol entre os 1700 casais de pinguins gentoos. Bem disse a capitã: o clima da Antártica é mesmo surpreendente. E marca para sempre a vida do aprendiz de explorador que pisa naquele território onde pouca gente chegou.

 

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COMO IR

Tradicional operadora de cruzeiros de expedição à Antártica e ao Ártico, a norueguesa Hurtigruten opera saídas com número de dias e rotas variados. Entre as opções está a rota de 10 dias entre os 200 passageiros do navio Fram, apresentada nessa reportagem. Preços a partir de 6.300 dólares. www.hurtigruten.com

Especializada em roteiros ao extremo sul, a brasileira Zelfa Silva, da Antarctica Expeditions, trabalha com navios para 68 a 189 passageiros em viagens de 10 a 19 dias. Pode-se fazer toda a travessia da Passagem do Drake por barco desde Ushuaia ou voar a partir de Punta Arenas, no Chile. Os preços, sem aéreo, partem de 7.000 dólares. www.antartida.com.br

Livro sobre Rio Amazonas está impresso

De todas as dicas que recebi de Adriano Fagundes durante as três viagens que compartilhamos em 2013 para produzir o livro Dos Andes ao Atlântico, Uma Viagem pelo Rio Amazonas – que se somaram a outras nove que ele havia encarado desde 1996 –, a mais valiosa foi a de visitar o barco horas antes do embarque. Aquele era o momento de escolher bem o lugar onde suspender nossas redes, se possível em meio à ventilação no centro do segundo andar, dando os nós a uma altura que permitisse mirar o horizonte e a uma distância confortável da cozinha, do banheiro e do motor.

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Ao coração da floresta

Era como uma sinfonia com milhares de músicos na escuridão completa, tocando bem alto e com um resultado impressionantemente harmonioso. Sapos coaxavam, cigarras cantavam sem parar. Mas eram os macacos que chiavam de forma assustadora, especialmente o guariba, que guincha parecendo simular o rugido de uma onça-pintada. Lembrei-me do relato do Seu Manduca sendo atacado pelo felino, da cobra d’água, dos jacarés e aranhas que havia visto nos três dias anteriores. Me acalmei escutando a orquestra deitado em uma das três redes de um casebre sobre palafitas que ficava 2 metros acima da superfície do Rio Mamirauá e, em vez de paredes, tinha tela antimosquito.

 

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Através da tela e por trás das árvores, visualizei o nascer da lua cheia da Páscoa de 2013. E dormi imerso na música mais espetacular que já ouvi na vida.

 

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Outro concerto, menos misterioso e mais festivo, celebrou a bruma e a brisa da manhã. Agora comandado pelos pássaros, compôs o fundo ritmado de nosso retorno, de canoa, para a pousada, nossa base, onde o café da manhã regional em mesa comunitária nos esperava. Localizada a 10 minutos do casebre na floresta onde eu havia pernoitado com o guia Raimundo Morais e o fotógrafo Adriano Fagundes, a Uacari é uma hospedaria flutuante que boia solitária como o quartel-general de quem explora a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Trata-se de uma sucessão de dez bangalôs de telhados vermelhos, feitos de garrafa pet, que quebram a monotonia verde daquele trecho da região do Médio Solimões, entre o rio de mesmo nome e o Japurá. Sua localização, diante de uma bela curva do Rio Mamirauá, proporciona uma experiência tão rara de imersão na selva e de fácil avistamento de animais que o lugar se transformou na principal recomendação de turismo na Amazônia do guia de mochileiros Lonely Planet.

 

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Primeira experiência do gênero no Brasil, a área de mais de 1 milhão de hectares de Mamirauá nasceu do sonho do primatologista José Márcio Ayres (1954-2003), em 1990. Ele queria preservar o habitat do seu objeto de estudo, o uacari-branco, um macaco de cara vermelha que só existe nesse cafundó da Amazônia. Na contramão da prática dominante na época, que tirava as populações tradicionais de seus locais de origem em nome da preservação ambiental, Márcio liderou um movimento para mudar a lei. Ao se empenhar na fundação da primeira reserva de desenvolvimento sustentável, em 1996, o cientista deflagrou uma iniciativa para proteger a floresta, produzir pesquisas e estimular o turismo, permitindo que 10 mil ribeirinhos continuassem vivendo ali, cortando árvores, plantando e pescando para seu sustento – tudo de forma controlada. Deu tão certo que hoje há pelo menos mais cinco áreas do gênero Brasil afora. Ayres conseguiu ainda proteger o território vizinho de Mamirauá, criando a Reserva de Amanã, colada ao Parque Nacional do Jaú. Juntos, os três formam a maior extensão de floresta tropical protegida do planeta.

 

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A SAGA DA VIAGEM

Chegar a Mamirauá é uma aventura. Primeiro viajamos pela TAM por 3h40 de São Paulo a Manaus. De lá seguimos para Tefé, de onde partem as voadeiras, que navegam durante uma hora até a Pousada Uacari. A questão é a rota de mais de 500 quilômetros entre Manaus e Tefé. Levam-se 36 horas – um dia e meio – para fazer o deslocamento em navios de dois andares, onde embarcam 400 pessoas, cada uma acomodada na própria rede. Já nas lanchas rápidas, o tempo despenca para 12 horas. Os passageiros normalmente se sentam em poltronas reclináveis e têm direito a refrigeração e TV coletiva. Mais rápida e cara, embora sem a mesma experiência de interação com a realidade da Amazônia, foi nossa opção, o táxi aéreo: em duas horas completa-se o percurso, com a vantagem de se impressionar com a exuberância verde vista dos ares.

 

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O transporte aéreo, é verdade, não propiciou a mesma aura épica vivida nas embarcações pelos mochileiros que exploram Mamirauá – 85% deles estrangeiros. Quando, porém, entramos na lancha de Tefé para a pousada, uma tempestade carregou de emoção o passeio. Entre janeiro e julho, a temporada de chuvas na Amazônia transforma radicalmente cenários como o dessa região, conhecida como várzea. A superfície dos rios chega a subir 12 metros, obrigando os moradores a habitar casas erguidas sobre palafitas altíssimas. Construções flutuantes, como a pousada, também dançam ao sabor do rio por serem levantadas sobre madeiras leves como o açacu, que atua como boia. Em metade do ano, a população circula a pé, trabalha na roça, joga bola no campinho. Na outra parte, o ofício é a pesca e tudo depende do barco – até uma visita ao casebre do vizinho ou à igreja do bairro. Quem chega a Mamirauá nessa época do ano – como foi nosso caso – já é logo avisado: não há como percorrer as 16 trilhas locais praticando trekking; a mesma rota desses passeios é feita apenas em botes.

 

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O desembarque no calor úmido de Mamirauá é uma experiência especial. Todos os funcionários da Uacari se alinham para dar as boas-vindas aos novos hóspedes. “Hi, my name is Ednelza and I am the hotel manager”, apresentou-se Ednelza Martins da Silva, uma ex-empregada doméstica e ex-agricultora que há seis anos assumiu o cargo mais alto do estabelecimento. Depois dela falaram Judith, a cozinheira, Naíza, a copeira, e assim por diante. Todos exercitando a língua que aprendem em um dos mais de cem cursos ministrados pelo Instituto Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia que administra a reserva e as iniciativas ligadas a ela, como a pousada. “Fazemos parte do projeto de turismo de base comunitária, uma proposta pioneira na região e que há 15 anos serve como referência para outras unidades de conservação Brasil afora”, explica Ednelza. A pousada gera emprego por meio de passeios de mínimo impacto na reserva, tem seu lucro revertido para as 80 famílias da comunidade e utiliza práticas sustentáveis, como energia solar, captação de água da chuva, reciclagem e compostagem de lixo.

 

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INTERAÇÃO COM A COMUNIDADE

Ao longo dos quatro dias que passamos ali (há pacotes de três, quatro e sete diárias, com pernoite em quartos rústicos e avarandados, com mosquiteiros individuais), descobrimos que reside na vivência do turismo comunitário o grande diferencial de escolher Mamirauá como o local para desbravar a Amazônia. Pela manhã e depois do almoço, os hóspedes saem para observar animais ou visitar comunidades vizinhas. Nosso guia era o Morais, nosso companheiro na fantástica noite citada no começo deste texto, quando nos isolamos na mata. Morais é um cabeludo descendente de indígenas que contou já ter comido muita carne de peixe-boi quando a reserva ainda não existia e faltava àquela gente a consciência ecológica para cuidar dos recursos preciosos da região. “Hoje entendo que tudo isso vale ouro.” Foi uma delícia observar como Morais afiou seu ouvido para identificar os sons da densa floresta e simular o mesmo piado ou grunhido dos bichos, em busca de uma resposta do interlocutor. O grande barato de cada dia é justamente brincar de identificar quem cantou o quê e onde – e, sempre que possível, remar em busca do cantor em questão.

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Impressionante é que, mesmo passeando a 7 metros de altura do solo, como fizemos em março, driblando os galhos das árvores submersas, as grandes copas continuam lá nas alturas. No topo, é claro, se escondem os animais, dificultando o foco de nossos binóculos e câmeras fotográficas. O livreto de identificação dos pássaros catalogados na reserva lista 355 deles, com ilustrações, nomes populares e científicos de garças, gaviões, papagaios… Um dos mais belos é a cigana, que exibiu seu topete estilo moicano uma dezena de vezes durante nossas remadas silenciosas. Aranhas e sapos existem aos montes. No rio, botos, piranhas, jacaretingas e jacarés-açus são bem frequentes na seca, pois ficam mais concentrados. Mas são as cinco espécies de macacos do entorno da pousada as estrelas das observações: prego, guariba, de-cheiro, de-cheiro-de-cabeça-preta e uacari – estes últimos dois endêmicos, que praticamente só existem ali. “Nas pesquisas que fizemos entre 2007 e 2010, quando ocorreram 1.448 registros de grupos, constatamos que a presença humana não afasta os animais”, conta a bióloga gaúcha Fernanda Paim, que há oito anos acompanha a macacada em Mamirauá. “Ou seja, o turismo de mínimo impacto praticado aqui, com 20 turistas por fim de semana, não prejudica o ambiente dos primatas.”

 

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A onça-pintada, no entanto, vive escondida – ou nem tanto para o biólogo carioca Emiliano Esterci Ramalho e seu time, que se dedicam a rastrear os maiores gatos das Américas com uma antena de telemetria móvel e 40 câmeras em 20 pontos para observação. “Vi 30 onças nesses nove anos trabalhando aqui”, conta. Sorte tiveram os dez turistas hospedados na Uacari no início do ano, pois acompanharam parte da captura de Mudinha, Confuso, Zangado, Jandia e Cotó, todos atualmente soltos, mas seguidos virtualmente graças a coleiras com GPS. Não por acaso, a equipe de ecologia de vertebrados terrestres de Mamirauá trabalha para que, a partir de 2014, vire rotina os visitantes acompanharem o trabalho dos pesquisadores. Como a cheia amazônica isola várias onças na copa das árvores por meses a fio, não é difícil observá-las dos barcos.

 

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CIÊNCIA DE RESULTADOS

Atualmente, o contato com os pesquisadores se dá em palestras após o jantar. Foi assim que conhecemos, na última noite, um pouco mais sobre o boto-cor-de-rosa, na aula com a bióloga portuguesa Zulmira Gamito. “Já catalogamos 558 botos e 17 tucuxis na área do Lago Mamirauá.” Ela faz parte do grupo de cientistas que desenvolve no momento mais de cem pesquisas no Instituto Mamirauá e que frequenta as instalações da cidade de Tefé (e outras 12 bases flutuantes para trabalho de campo). Com laboratórios, biblioteca científica aberta às escolas da região, lojinha e uma estrutura de primeiro mundo, que não se espera encontrar nos confins da Amazônia, a sede do instituto é movimentada por 250 profissionais. Um estudo em andamento avalia a eficiência do sistema ecológico do esgoto doméstico da pousada. “A filtragem em tanques flutuantes remove quase 95% dos contaminantes quando a água volta ao rio”, diz o paulista João Paulo Borges Pedro, tecnólogo em meio ambiente. Graças àqueles que manejam o pirarucu, o peixe amazônico de até 3 metros – que já esteve ameaçado de extinção na região – aumentou em 425% sua população na última década: tudo porque os pescadores passaram a respeitar o período de reprodução e desova, fazendo com que seu comércio rendesse mais de 10 milhões de reais nesses dez anos. Já a equipe de manejo florestal empenhou-se para que o desmatamento fosse reduzido em 1.600% depois da criação da reserva.

 

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Os experimentos de Mamirauá têm dado certo porque unem com excelência o saber científico e o conhecimento tradicional. Pois é justamente nas conversas com os nativos que a imersão dos viajantes na realidade amazônica fica completa, especialmente nas visitas a algumas das oito comunidades situadas no território da reserva. No povoado Sítio São José, visitamos a sala de aula, onde pudemos acompanhar uma performance musical (com nosso guia Morais como percussionista!), ver como as hortaliças são plantadas sobre canoas flutuantes e comprar artesanato feito com sementes locais. Já em Vila Alencar, entendemos como os painéis que captam energia solar acionam o sistema de bombeamento de água do rio para a caixa d’água (e o sistema de purificação) que abastece as 28 famílias do vilarejo. Sem isso, os moradores teriam que carregar água desde o leito, que na seca passa a distantes 400 metros das casas mais próximas.

 

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Na hora de ir embora da Pousada Uacari, ao observar os funcionários sorridentes lado a lado, dando adeus ao barco, pensei em como a mudança na realidade dessa gente é tão valiosa quanto o desenvolvimento da ciência e a preservação do ecossistema amazônico. A gerente Ednelza, por exemplo, passou a difundir entre seus vizinhos o uso do mesmo sistema de banheiro seco ecológico de sua casa, e contou adorar multiplicar sua experiência quando viaja promovendo o torneio de futebol feminino com as mulheres de Mamirauá. Poucas transformações pessoais, no entanto, foram tão radicais quanto a do auxiliar de cozinha Vanderlei Rodrigues, o Seu Manduca. Ele viveu na pele o susto de encontrar uma onça, o que faz todos lembrarem que estamos em um dos locais mais selvagens do planeta. “Eu voltava de uma pescaria quando ela me atacou, mordeu meu rosto e caímos no rio”, contou. “Quase morri.” Hoje, os 28 pontos da cicatriz na face são discretos e o trauma foi superado, tanto que Seu Manduca já se deparou com outras cinco onças depois daquela, pois passou a integrar o grupo de apoio aos cientistas que capturam, monitoram e estudam o felino. E milita pela preservação da fera, orgulhoso por fazer parte da experiência pioneira de Mamirauá.

 

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SERVIÇO:

+55 97

INFO E AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá – tel. 3343-9700, mamiraua.org.br; Pousada Uacari – tel. 3343-4160, pousadauacari.com.br

Carta a Aung San Suu Kyi

Cara Aung San Suu Kyi, a Senhora não me conhece. Sou um viajante brasileiro que havia planejado passar férias no Sudeste Asiático, incluindo no roteiro a sua pátria, Mianmar, que desde 1989 também conhecemos como Birmânia – e que a Senhora prefere tratar com o nome original, Burma. Qual não foi minha surpresa ao descobrir, enquanto pesquisava sobre sua terra, que a vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1991 não incentivava o turismo de grupos de estrangeiros nestes tempos de transição da ditadura para o regime democrático. Entendo. Não deve ser fácil para uma ex-prisioneira política que viveu 15 de seus 77 anos em prisão domiciliar ver que ainda há tantas reformas a serem feitas, especialmente com relação aos direitos humanos.

O que me estimulou a embarcar foi ler que, em 2011, os movimentos pró-democracia derrubaram o boicote ao turismo de estrangeiros. E que a Senhora também passou a acreditar que viajantes independentes podem, sim, contribuir para o renascimento de Mianmar – especialmente se fizerem uso dos pequenos hotéis e restaurantes da população mais humilde. Foi o que fiz, e lhe escrevo para compartilhar. Voei primeiro à Tailândia e de lá parti para presenciar o despertar dessa nação tão isolada, onde celular e internet são novidades.

Nas ruas e hospedarias por onde passei ao longo de dez dias vi o retrato da Senhora – ou The Lady, com letra maiúscula, como a tratam ali –, sempre ao lado das fotos de seu pai, Aung San, mártir nacional da luta pela independência contra o colonialismo britânico nos anos 1940. E voltei deslumbrado com os cenários incríveis, as diferenças culturais marcantes e os sorrisos desse povo cheio de esperança que começa a se abrir para o mundo.

 

Yangon, a “terra do nunca”

Yangon é a “terra do nunca”. Bastou que a fotógrafa Andréa D’Amato e eu pousássemos na maior cidade do país para experimentarmos uma série de situações inéditas. Eu nunca havia visto saguão de embarque de aeroporto com publicidade de vasos sanitários, objeto de desejo para a maioria dos quase 60 milhões de habitantes que usam banheiros com um buraco no chão.

No caminho do táxi para a antiga capital, paramos para abastecer em um “posto” sem paredes nem teto: a gasolina ficava exposta ao sol, em garrafas pet. E ao encararmos o trânsito da região central, aquela Babel impressionava com um cenário que contrastava paus-de-arara abarrotados de gente com grupos de idosos praticando tai chi chuan sobre os viadutos. Homens vestiam saia até os pés – os longyis –, mulheres e crianças tinham as bochechas besuntadas de thanakha – um protetor solar feito da pasta da cortiça – e até os monges, descalços e com túnicas bordô, mascavam e cuspiam uma espécie de chiclete (comum em países da Ásia) feito com noz de areca, que deixa os dentes vermelhos como sangue.

Também nunca estivéramos em uma metrópole em que os carros, caindo aos pedaços, podem ter volante à direita ou à esquerda. A memória busca referências: aquelas carangas dos anos 1950 diante de prédios baixos de cores fortes, roupas no varal da sacada e emaranhados rocambolescos de fios nos postes remetem à Havana cubana, vitimada pela ditadura na mesma época que Mianmar. Na hora de fazer o câmbio para adquirir o kyat (lê-se djet), a moeda local, constatamos não ser lenda a rigidez para só trocar dólares americanos impecáveis. Se existir qualquer sujeirinha ou indício de que a cédula já foi dobrada, ela será devolvida. E sem chance de usar cartões de crédito ou débito.

Seguindo as instruções da Senhora, nos hospedamos em uma pensão familiar. May Fair Inn é limpinha, com banheiro privado, ventilador de teto e chuveiro de água quente. Pena que U Zaw Win, o dono, não falava uma palavra de inglês, assim como a maior parte dos 4,3 milhões de habitantes da cidade. Desenvolvemos a linguagem gestual, também para trocar dinheiro, comer e visitar algumas das 2 mil lojas do mercado Scott, construído em 1926 e rebatizado de Bogyoke Aung San em homenagem ao pai da Senhora. Além de comprar roupas e artesanato, ficamos intrigados com as balanças nas quais aquele que se pesa ganha a previsão astrológica do dia.

Astral mesmo foi conhecer o Shwedagon Paya. O mais reverenciado templo budista do país, erguido há pelo menos dez séculos, hoje exibe mais de 60 estupas (tipo de monumento cônico) repletas de estátuas de Buda. A placa da entrada indicava ser proibido entrar com calçados, meias, bermudas ou “spaghetti blouses” (camisetas com alças finas). Encantados por mantras e incensos, descobrimos na tabela de um dos guias do templo o dia da semana em que nascemos. Assim, pudemos repetir o curioso ritual de regar várias vezes a imagem do “nosso” Buda – o meu é o da quinta-feira. Para encerrar nossas boas-vindas douradas em Yangon, assistimos ao acender das luzes e ao mágico reflexo das torres no céu, algo que também nunca havíamos visto antes.

Os ETs de Mandalay

O albergue se chamava E.T. – porém, os extraterrestres éramos nós, desnorteados naquele feioso centro de Mandalay, cidade para onde voamos por 1 hora desde Yangon. Até que um anjo caiu do céu. “Ming la ba”, nos saudou um sorridente moreninho de nome Aung Aung (pronuncia-se Ã-Ã) , oferecendo seu serviço de motorista. Teríamos o luxo de contar com um condutor que queria praticar inglês e guiava um veículo pitoresco, o trickshaw, bike que carrega na lateral uma espécie de cesto sobre rodas onde se sentam dois passageiros. Graças às suas pernas fortes, rodamos tanto que no fim do dia já estávamos achando Mandalay bonitinha. Visitamos o secular monastério Shwenandaw Kyaung, todo esculpido em teca, uma forte madeira escura. Experimentamos a mohinga, uma típica sopa de noodles, no despojado restaurante local Aye-Myit-Tar (onde o guardanapo da mesa é um rolo de papel higiênico, como é prática em todo o país); e curtimos a noite de sexta-feira ao melhor estilo local, tomando chá preto adocicado com leite condensado sentados em mesinhas de criança.

Nosso novo-melhor-amigo-birmanês foi a boa companhia no espetacular teatro de marionetes. E Mandalay mostraria novamente por que é considerada a capital cultural de Mianmar no show de humor dos Moustache Brothers. Os três irmãos com bigode (o de um deles, postiço) se apresentam na garagem de casa ao som de música nacional em um saudoso tocador de fitas cassete. Repletas de piadas criticando desde a corrupção do governo até a produção de heroína no país, as apresentações do trio foram proibidas aos birmaneses e em espaços públicos. Eles não se esquecem de que a performance na casa da Senhora, em 1996, rendeu sete anos de prisão com trabalhos forçados a dois deles, Par Pa Lay e Lu Zaw. “Até hoje Aung San Suu Kyi defende nosso trabalho”, diz Lu Maw, o único que fala inglês, aos sete estrangeiros presentes no show de sábado.

Mais impressionados ficamos quando Aung Aung nos levou para conhecer a produção de folhas de ouro. Uma fila de homens passava horas dando marteladas em pequenas barras do precioso metal, causando um barulho interplanetário, até que elas fossem transformadas em quadrados minúsculos – mais tarde vendidos para serem esfregados nas estátuas de Buda nos rituais dos fiéis birmaneses (89% da população é budista, com maioria de seguidores da conservadora linhagem Theravada). Parecia de outro mundo também a sequência de estupas brancas avistadas do alto da Colina de Mandalay. Ali planejamos a exploração dos arredores no dia seguinte, por Inwa, Sagaing e Amarapura, capitais de reinados que se alternaram no poder de 850 a.C. até o domínio britânico no século 19.

Foi uma viagem ao passado. Em Sagaing, base do império Shan em 1315, cruzamos uma das pontes imponentes para ver do alto mais templos seculares – e ficamos fascinados com as casas feitas de bambu, trabalhadas como obras de arte. Em Inwa, capital real de Burma por mais de metade dos últimos 650 anos, chacoalhamos em charrete por estradas de areia entre altares budistas em ruínas, torres tortas e artesãs tecendo tapetes de palha ao ar livre. Mas foi em Amarapura, terra que abriga uma poética ponte de madeira de 1.200 metros, que passamos o entardecer de despedida de Mandalay. Cruzamos o Lago Taungthaman num barquinho. Na volta, fizemos o tradicional footing de pôr do sol sobre a ponte U Bein’s ao lado dos monges que habitam o monastério vizinho de Maha Ganayon Kyaung. E com eles emanamos boas vibrações budistas a Mianmar e a outros lindos lugares como aquele, fossem eles – ou não – desse planeta.

Ao mar de templos de Bagan

Não há sensação melhor – para quem gosta de explorar lugares aonde pouca gente chegou – do que viajar para Bagan, o cartão-postal dos cartões-postais de Mianmar, navegando no apaixonante Rio Ayeyarwady. Embarcáramos em Mandalay ainda à noite, às 5h30 de um domingão, empolgados por encarar, sentados no chão duro de madeira, as desconfortáveis 14 horas de passeio pelo maior rio do país, que cruza Mianmar de norte a sul. Uma oportunidade rara, já que a barcaça do governo só saía uma vez por semana naquela época do ano – em junho, tempo das monções, quando toda tarde despenca um oceano do céu.

A jornada se tornou um clássico entre os mochileiros justamente por forçar a interação entre os pouquíssimos turistas e a multidão de nativos em um convés abarrotado de sacos com roupas, cestos com mangas e abacaxis e toda sorte de carga. Aquelas infindáveis horas passariam rápido como se assistíssemos a um bom filme – repleto de cenas de um rio caudaloso, pescadores em comunidades ribeirinhas, ambulantes vendendo de samosas a belos tecidos coloridos em cada uma das escalas.

O impacto visual do destino coroou a epopeia. Bagan é um mar de mais de 3 mil templos alaranjados, cujos topos se sobressaem numa planície descampada a perder de vista. Fundada no ano de 849, durante o primeiro reinado birmanês, a cidade teve seus locais de culto construídos ao longo de 250 anos, entre os séculos 11 e 13. E, oito séculos depois da glória, se transformou em um museu a céu aberto, normalmente desbravado em bicicletas ou charretes. Na zona arqueológica da Velha Bagan não mora ninguém. Os visitantes se hospedam a cerca de meia hora, seja na Nova Bagan, núcleo urbano criado na década de 1990 e polo dos melhores hotéis, seja em Nyaung U, centrinho para mochileiros. Foi ali, numa travessa da chamada “rua dos restaurantes”, que decidimos nos hospedar. Escolhemos um dos bangalôs do New Park Hotel especialmente pela facilidade de alugar ali mesmo as bicicletas.

A rotina em Bagan não poderia ser diferente: acorda-se antes de o sol nascer para, já com a água e os lanches preparados, começar a pedalada a tempo de estar no topo de um templo quando o dia amanhecer. O espetáculo das brumas se dissipando na imensidão dourada só concorre em beleza com a luz batendo na outra lateral no fim de tarde. Não importa que você se perca um bocado indo para o templo x ou o y. Delicioso é navegar ao léu. E assistir ao pôr do sol no topo dos prédios mais altos, como o Shwesandaw Paya ou o Dhammyangyi Pahto, maior de todos.

Todos que chegam ali se sentem meio que como Marco Polo, que em sua suposta visita, no século 13, teria definido o lugar como “um dos mais refinados do mundo”. Durante o pôr do sol, no entanto, dá para notar: foi-se a época em que a maior concentração de templos do planeta estava inacessível. Em 2011, já após o fim do boicote, 100 mil turistas visitaram o parque. O cenário explica. E justifica escolhas como a da francesa que se apaixonou pelo guia birmanês, abandonou Paris e hoje toca com ele o The Black Bamboo, um dos charmosos restaurantes de Nyaung U, servindo deliciosos curries e sorvetes caseiros. Ali, o cansaço e a emoção do dia são processados em jantares à luz de velas no jardim, com pés na areia, no embalo das ondas musicais da bossa nova brasileira.

No Lago Inle, a vida flutua

Prazeroso, no Lago Inle, é se deixar levar. Porção de água com 22 quilômetros de extensão por 11 de largura, o último foco da viagem repousa às margens da pacata cidade-base de Nyaungshwe, para onde voamos desde Bagan. O Inle é cenário, lar, rua e fonte de vida para a gente que ali vive, no entorno ou mesmo nas casas de palafitas dentro do lago. Seu ganha-pão vem tanto da pesca quanto das fazendas flutuantes que produzem de arroz a tomate. Aproveitamos as pernas treinadas em Bagan para conhecer parte disso pedalando. No primeiro dia, saindo da pousada Queen Inn, do solícito casal Ko Myo e Ma Sue, beiramos campos de girassóis, experimentamos a massagem birmanesa da família de Win Nyunt e degustamos o vinho local.

Mas foi no deslizar silencioso do barco que mergulhamos na alma do Inle. Nas feiras à beira d’água, mulheres de minorias étnicas, usando turbantes coloridíssimos, comercializavam de tudo. Na vila de Inthein, fomos surpreendidos pelas esculturas preservadas nos altares em ruínas de Nyaung Ohak que pareciam saídas de um filme de guerra, assim como pelo complexo de 1054 estupas dos séculos 17 e 18 no alto do Shwe Inn Thein Paya. Tentamos ver o famoso monastério dos gatos que saltam – o Nga Hpe Kyaung –, mas quando ancoramos o lugar estava mais para ser batizado de “templo dos gatos que dormem”, já que os monges não conseguiram animar nenhum dos gatos treinados. Nada no Inle, porém, se mostrou mais peculiar do que o jeito de navegar dos pescadores. Ao sair para tentar pegar alguns peixes nas suas redes em forma de cesto cônico, os barqueiros navegam em pé na proa, mexendo o único remo com a perna, em um balé de habilidade e equilíbrio bonito de ser visto.

Impulsionado pelo vento que movia as águas mansas do Lago Inle, Miu Miu, nosso simpático barqueiro, nos levou a ateliês de artesãos que trabalham com prata, madeira e tecidos raros como os feitos com flores de lótus. Entre os artistas estavam as exóticas mulheres girafas, moças com pescoços esticados por colares rígidos que ficaram populares na Tailândia, mas são originais de Mianmar. É claro que elas posavam para as fotos à espera de gorjetas. É claro também que o guia Miu Miu aprendeu a ganhar suas comissões a cada souvenir comprado por um turista. Mas o crescimento do turismo é parte do processo de abertura desse país precioso, uma mostra de que ele não congelou no tempo. Em Mianmar, entre tantas mazelas, a vida flui. É, Aung San Suu Kyi, seu antigo reino encantado apaixona quem quer que o visite. E integra-se ao mundo global em um ritmo próprio, enquanto caminha para conquistar a liberdade tão sonhada pela Senhora.

 

INFOYANGON +95(0)1: May Fair Inn – 57 38th Street, tel. 25-3454; MANDALAY +95(0)2: E.T. Hotel – 129-A 83rd Street, tel. 6-5006; Aye-Myit-Tar Restaurant – 530 81st Street, tel. 00-2357; Mandalay Marionettes Theatre – 66th Street, tel. 3-4446, mandalaymarionettes.com; Moustache Brothers Show – 80 39th Street; BAGAN (Nyaung U) +95(0)61: New Park Hotel – Thiripyitsaya Block 4, tel. 6-0322, newparkmyanmar.com; The Black Bamboo Restaurant – Yar Khin Thar Street, tel. 6-0782; INLE LAKE (Nyaungshwe) + 95(0)81: Queen Inn Bungalows – Win Quarter, tel. 20-9544; Win Nyunt Massage – Yone Gyi Road.

 

PARA VER AS FOTOS DE ANDRÉA D’ AMATO, AUTORA DAS IMAGENS PUBLICADAS NA RED REPORT, ACESSE WWW.ANDREADAMATO.COM.BR