O Brasil cowboy

O aposentado catarinense Léo Sebold, 70 anos, foi o
primeiro a chegar, com nove dias de antecedência.
Cuidadosamente, escolheu a melhor entre as 5.300
vagas do camping e estacionou ali o trailer
importado. Ligou o som numa rádio sertaneja e
desceu para montar o toldo e a mesa de damas.
Logo o colega Henrique Dias, 65 anos, apareceu com
uma lata de cerveja para iniciar a primeira rodada
de uma série muito, muito longa. “Faz nove anos
que eu venho. É cada vez mais difícil achar lugar
bom, então decidi chegar cedo”, explica Sebold,
exibindo o planejamento a longo prazo permitido
pela idade e um figurino híbrido — camisa
estampada com a bandeira dos Estados Unidos,
cigarro de palha no canto da boca. O catarinense,
que viajou 1.400 quilômetros para garantir o lugar,
foi o precursor da romaria que superlota a cidade de
Barretos, no interior de São Paulo, no final de agosto
para a Festa do Peão de Boiadeiro, o maior evento
regional do país. A festa, que começou na sexta-
feira passada e vai até o próximo domingo, atrai
uma multidão que causa congestionamentos de oito
horas nas estradas da região, lota todos os hotéis
num raio de 150 quilômetros e faz com que diárias
de modestos estabelecimentos de três estrelas
cheguem a 375 reais, preço de um cinco-estrelas em
Paris. Barretos, durante dez dias, é a meca de um
fenômeno que começou no interior de São Paulo e
se irradiou para outros pontos do país, o rodeio. Não

um rodeio qualquer, com a peãozada montando em
bichos bravos, como sempre existiu no Brasil, mas
um festival cada vez mais calcado nos moldes
americanos.

A arena de Barretos está para o mundo do rodeio
como Wimbledon para o tênis. É a segunda maior
festa do gênero no mundo, depois de Las Vegas,
nos Estados Unidos, e a única competição do circuito
mundial de rodeio de touros realizada fora de um
país de língua inglesa. Há 700 jornalistas do mundo
inteiro credenciados para o evento. As finais serão
transmitidas pelo canal country de TV por assinatura,
CMT. Enviados de jornais como Financial Times e
Chicago Tribune, redes de TV como Fox News e
revistas como a Opa, do Japão, baterão ponto na
arena. Há 22 competidores americanos, canadenses
e australianos. No meio dessa porção de gringos,
porém, a grande estrela do show é o brasileiro
Adriano Moraes, de 27 anos, nascido na pequena
cidade de Matão, a 300 quilômetros de São Paulo.
No próximo fim de semana, enquanto o tenista
Gustavo Kuerten deverá estar lutando nas quadras
do US Open para se manter na nona posição do
ranking mundial, Moraes defenderá, com amplo
favoritismo, seu posto de primeiro colocado na lista
da Professional Bull Riders, a federação dos peões
montadores de touros. No início de agosto, Moraes,
com 7 190 pontos, tinha uma liderança tranqüila
sobre o segundo colocado, o americano Michael
Gaffney, com 4 715 pontos.

Uísque importado — A Festa do Peão de Barretos
existe desde 1955. Na época, a cidade sediava o
maior frigorífico do país e recebia tropeiros que
traziam gado de vários Estados. Para matar o tempo
enquanto esperavam o abate das reses, eles faziam
rodeios no estilo caipira, nos quais se compete para
ver qual o peão que fica mais tempo no lombo de
um cavalo chucro ou qual o laçador mais habilidoso.
Durante três décadas, a festa foi atraindo cada vez
mais gente, entre fazendeiros endinheirados e o
pessoal da região, geralmente mais interessados
em se divertir. O modelo, no entanto, continuava
tradicional. Foi no final dos anos 80 que empresários
locais farejaram ali uma mina de ouro. Inspirados no
sucesso da música sertaneja, que unia a guitarra da
música country à viola da toada caipira, decidiram
transformar a festa num torneio à texana, para
atrair o público de classe média que jamais iria a
uma festa “caipira”, mas compareceria alegremente
a um evento country. Uma agência de publicidade
foi contratada para divulgar o evento, os cartazes
passaram às mãos de artistas como Siron Franco
e Manabu Mabe, as barracas começaram a vender
uísque importado. Barretos estourou.

A Polícia Militar calcula que, durante os dez dias
de festa, 900.000 pessoas circulam pelo Parque

do Peão. Isso não quer dizer, observe-se, que a
cidade, de 100.000 habitantes, seja invadida por
800.000 turistas. Se um morador local, por exemplo,
resolve comparecer ao parque durante os dez dias
seguidos, será computado como dez pessoas. Mesmo
assim, é uma monstruosidade de gente. Mais que
a Oktoberfest, de Santa Catarina, que pelo mesmo
critério atrai 500.000 pessoas, e que o Festival do
Boi de Parintins, no Amazonas, que junta 150.000.

Aluguel estratosférico — A grande maioria dos
freqüentadores calça botas sete-léguas e poderia
perfeitamente ter participado do primeiro rodeio, há
42 anos. Mas o que interessa aos organizadores é
aquela fatia de público que usa chapéu à moda de
J.R. Ewing, de Dallas, e vende boi virtual na Bolsa
de Mercadorias & Futuros. No aeroporto da cidade,
que costuma receber uma dúzia de aviões por dia,
o movimento esperado ao longo da festa é de 1.000
pousos e decolagens. Fora o heliporto, sempre
lotado, com capacidade para trinta helicópteros. Para
atender aos celulares que teimam em estrilar mesmo
durante os momentos mais emocionantes do rodeio,
no Parque do Peão foram cravadas três antenas
de telefonia, com capacidade para 10.000 ligações
simultâneas.

Entre os 4.000 metros quadrados de estandes
montados no parque não há apenas barracas de
comes e bebes. O Mappin, uma das maiores lojas
de departamentos do país, montou uma filial pré-
fabricada, com 120 funcionários. Há até um estande
da Valmet, que no ano passado vendeu quarenta
tratores. “O espírito da festa é rústico, mas nosso
público é a classe média das grandes cidades do
interior”, diz Flávio Silva Filho, diretor do clube Os
Independentes, que organiza a festa. A invasão
turística gera oportunidades de negócios também
fora do parque. O comerciante Geraldo Rodrigues
adiou a mudança para a nova casa em duas semanas
porque durante o rodeio ela estará ocupada por
famílias de turistas, ao estratosférico preço de 1.000
reais a diária. “Não podia perder uma chance de
embolsar essa grana, né não?”, raciocina.

O filão aberto por Barretos revelou-se uma mina
de ouro. Até o final do ano serão realizados em
todo o país 1.200 rodeios, que, entre ingressos,
movimento turístico e de restaurantes, farão
circular 1 bilhão de dólares. O público estimado é
de 24 milhões de pessoas, sete vezes mais que os
espectadores do Campeonato Brasileiro de Futebol.
Os números, como de hábito, estão sujeitos a chutes
e arredondamentos duvidosos, mas são endossados
por quem entende do ramo. “O mercado de rodeios,
leilões e exposições agropecuárias no país deve
passar de 2 bilhões de dólares”, calcula Antônio
Ernesto de Salvo, presidente da Confederação
Nacional de Agricultura.

O rodeio, no mundo, é dividido em duas grandes
federações, montaria de touros e rodeio completo.
Na primeira, o peão precisa manter-se pelo menos
oito segundos no lombo de um touro furioso.
Completado o tempo mínimo, os juízes lhe atribuem
pontos em função do estilo. Já o rodeio completo é
dividido em sete provas. Além da montaria em touro,
há o bulldogging, que implica saltar da montaria e
derrubar um bezerro pelos chifres. Laço, em que
o objetivo é laçar um garrote no tempo mínimo
possível, e laço em dupla, em que dois cavaleiros
dominam a cabeça e as patas traseiras do bezerro.
Há uma prova feminina, na qual as amazonas devem
contornar três obstáculos no menor tempo possível,
e dois tipos de prova de montaria em cavalos,
com e sem sela (o bareback). No Brasil, há ainda
a montaria na cela típica dos caipiras, chamada
cutiano.

Os humanos vêm se exibindo dessa maneira
desde a domesticação do cavalo, mas as regras
e modalidades vigentes hoje vieram dos Estados
Unidos, onde os campeonatos de rodeio profissional
existem desde 1929 e os espetáculos atraem 34
milhões de espectadores. Há competições exclusivas
para mulheres, um torneio gay em Utah e rodeios
em que os peões são detentos de penitenciárias.
Nessa categoria, o público torce pelos touros e
reserva os maiores aplausos da noite para o animal
que mais pisoteia um peão. Há um canal de TV
que só transmite rodeios e, nas bancas de jornais,
vendem-se cartões, conhecidos por qualquer
criança como cards, com as figuras dos peões mais
célebres. Neles, o brasileiro Adriano Moraes aparece
como natural de Keller, Texas, a cidade onde fixa
residência durante a temporada americana.

Coleção de fraturas — Adriano se divide entre
o campeonato americano e os principais rodeios
brasileiros. Em 1996, entre prêmios e patrocínio, ele
faturou 300.000 dólares. Em dez anos de carreira,
conseguiu juntar seu primeiro milhão de dólares e
uma coleção de fraturas. Quebrou um braço, uma
perna e uma costela, perdeu um dente e rompeu os
ligamentos dos dois joelhos. Por sorte, seu contrato
com os patrocinadores estabelece que eles são
responsáveis pelas despesas médicas. No Brasil,
onde morrem em média cinco peões por ano em
acidentes de trabalho, as seguradoras se recusam a
fazer seguro de vida para a categoria. Nos Estados
Unidos, com dezoito óbitos por ano, as apólices
custam dezenas de milhares de dólares. Quando
se preparava para entrar na arena para vencer seu
primeiro título mundial, em 1994, Adriano viu um
touro esmagar o crânio de um amigo, o americano
Brent Thurman.

Religioso daqueles que beiram a pieguice, Adriano é
adepto da Renovação Carismática Católica. Fundou

um grupo de oração chamado Peões de Deus, em
contraposição aos Caubóis de Cristo, evangélicos,
e dedica suas vitórias a Nossa Senhora Aparecida.
No início do ano, doou 100.000 reais à comunidade
cristã de Cachoeira Paulista. “Meu sonho é que um
de meus filhos seja padre”, explica. Ídolo nos EUA,
respeitado como um dos três cowboys da história
que conseguiram montar dez touros, um após o
outro, sem cair, ele é permanentemente servido pela
mulher, Flávia, preocupada com o assédio das fãs.

Laço com jatinho — Nos bastidores da arena,
os peões são tratados como astros de TV. E, com
alguma sorte, acumulam pequenas fortunas. Vilmar
Felipe, bicampeão de touros em Barretos, ainda
guarda na garagem três dos 24 carros que ganhou
em várias competições. Os outros, juntamente com
25 motos, mais os prêmios em dinheiro, foram
trocados por terras e cabeças de gado. Administrar
o dinheiro e a carreira é a maior dificuldade da
profissão. Muitos peões arruínam as vértebras e as
articulações por competir demais, sem descanso.
O paranaense João Henrique Giannasi, 30 anos, o
primeiro colocado no ranking nacional de montaria
a cavalo, categoria bareback, previne-se fazendo
fisioterapia. Nas semanas que antecedem as grandes
competições, ele evita qualquer torneio. “Não dá
para ficar de fora justamente do que interessa”,
argumenta.

Há peões que competem apenas pela emoção. O
fazendeiro Henrique Prata, dono do Hospital do
Câncer de Barretos e de 20.000 cabeças de gado,
costuma pegar o jatinho com o filho e a filha para
disputar etapas qualificatórias das provas de laço em
cidades distantes. “Montar é a melhor parte da nossa
vida”, alegra-se. O maringaense Renato Garcia, de
20 anos, herdeiro de uma empresa de ônibus que
fatura 60 milhões de reais, também monta apenas
por diversão. Mas está entre os dez melhores do
ranking brasileiro. Quando terminar a faculdade de
zootecnia, Garcia pretende assumir de vez a carreira
de peão.

O rodeio traz fama também aos coadjuvantes do
espetáculo. Os palhaços salva-vidas, que distraem
os animais quando os caubóis caem, são conhecidos
do público e ganham 2.500 reais por final de
semana. Mas o trabalho é, digamos, estressante.
Antônio Carlos Damasceno, o “Django”, de Barretos,
contabiliza onze costelas quebradas, além dos
maxilares superior e inferior. “Meu irmão tem
mais sorte, quebrou só sete costelas, um joelho e
uma omoplata”, enumera. Os touros mais ferozes,
como “Pedra 90” e “The Flash”, também têm fã-
clube. O que poucos espectadores sabem é que a
fúria dos animais não decorre apenas de um mau
gênio de nascença. Touros e cavalos são atiçados por
cordas apertadas em suas virilhas e, eventualmente,

esporadas ou choques elétricos. “O rodeio é uma
tortura para os bichos”, protesta Milton Moura
Leite, presidente da União Internacional Protetora
dos Animais do Brasil. Os organizadores de rodeio
desconversam. “O animal não é judiado. É tratado
com as melhores rações e fica incomodado só porque
sente cócegas”, afirma Flávio Silva Filho, um dos
organizadores do rodeio de Barretos.

O universo dos rodeios é misterioso para quem
não está acostumado com música country, botas
de couro de jacaré e fumo de mascar. Em julho,
no rodeio de Jaguariúna, a principal atração da
noite não era uma dupla sertaneja, e sim Billy Ray
Cyrus, “O rei do Kentucky”, um breguíssimo astro
country americano. Nesse Texas de fantasia, não há
sem-terra nem gente com o nome sujo no crédito
rural do Banco do Brasil. Há apenas caubóis ricos
e caubóis pobres, que se identificam por sinais
claros como uma estrela de xerife. Em Barretos, por
exemplo, não faltam picapes ostentando adesivos da
Festa do Patrão, um baile country que reúne 5.000
pessoas nas noites de rodeio. A entrada custa 100
reais e, com duas semanas de antecedência, 70%
dos ingressos já estavam vendidos.

No ambiente de um rodeio, a receita de
elegância é a mesma de qualquer outra festa do
circuito ostentatório: produzir-se ao máximo e
desembarcar de um carro vistoso. O que muda
são os ingredientes. No mundo country, os carros
valorizados são picapes como a Mitsubishi Pajero
e jipes como o Chrysler Grand Cherokee. Quanto
às roupas, o figurino Chitãozinho e Xororó está por
fora. “Foi-se o tempo em que bastava usar camisa
de franja. Agora é preciso seguir a tendência da
estação”, explica Valdomiro Poliselli Júnior, dono
da VPJ Western, a maior importadora de roupas
country, com 152 lojas e faturamento de 7 milhões
de reais. A dobra do chapéu de caubói, por exemplo,
muda da mesma maneira que o comprimento das
saias femininas. Quem usa os chapéus do ano
passado é classificado como “faiado” (“falhado”,
caubói fajuto, no dialeto peonês) ou “abeia”
(“abelha”, equivalente a “brega”).

Pele de avestruz — Durante o dia, o caubói que
se preza usa chapéu branco. À noite, preto, de
preferência de pêlo de castor, que pode custar até
1.500 reais. As botas de couro de cobra foram a
coqueluche do ano passado. Hoje, o quente são
as de avestruz, australianas, que, por 840 reais,
derrubam muita Prada ou Gucci. Para ditar a moda
nos rodeios, as griffes apelam para o clássico
mecanismo do jabá, enviando roupas de presente
a peões e locutores. O acessório que completa o
uniforme é a calça jeans. É Wrangler, americana. “A
brasileira não presta”, sentencia Fernanda Cordeiro
Camargo, aluna do 2º ano de veterinária, que na

semana passada desfilava pelo Rodeio Universitário
de Londrina. Seguindo o padrão cowboy, as calças
precisam ser absurdamente justas. A tática de
patricinhas e mauricinhos interioranos para domá-las
é comprá-las na véspera da festa, enfiar-se dentro
delas com grande esforço muscular e dormir com o
jeans no corpo, de forma a amaciá-lo.

Se nas revistas de moda o estilo vigente nos grandes
centros urbanos é heroína-chique, aquela aparência
intermediária entre a ressaca, a anorexia e a
hepatite, nos rodeios o modelo são os cowboys de
anúncios de cigarro. Não só no trajar, mas até no
hábito de mascar fumo. Não aqueles rolos fedorentos
dos caipiras de antanho, é claro. Em Londrina, nos
dias de rodeio, as lojas country vendem cerca de
200 caixinhas de tabaco americano, em tabletes,
para ser mastigado como chiclete. Para o público
feminino, há o produto nos sabores cereja e menta.
Como o cigarro comum, a versão ruminante pode
causar câncer no esôfago, estômago e fígado. “Estou
tentando parar”, explica o peão Renato Garcia, uma
assumida vítima da moda.

A indumentária texana não indica apenas que há
muita gente disposta a brincar de caubói. Mostra
também que as elites do interior do país estão
firmando uma identidade diferente da de seus
similares das metrópoles. No final do século passado,
as famílias abastadas do Rio de Janeiro e de São
Paulo fizeram uma opção preferencial pelo estilo
importado da França, então uma potência cultural,
política e científica, além de sinônimo de erudição
e refinamento. Ao adotar a imagem de texanos,
os homens debaixo do chapéu de castor criam
para si próprios uma imagem diferente daquela do
caipira ignorante ou do fazendeiro rude, ao mesmo
tempo que estabelecem diferenças em relação ao
figurino Fiesp. “As picapes importadas dizem: não
somos cariocas nem paulistanos, mas somos ricos
e importantes”, teoriza o antropólogo Everardo
Rocha, da PUC do Rio, especialista em fenômenos de
consumo.

O interior não quer apenas parecer com o Texas.
Pretende, também, consumir como ele. A Alpha
Consultoria, instituto que faz prospecções de
mercado para várias empresas, tem uma projeção
de quanto cada região do país pode consumir, com
base em indicadores como renda per capita, número
de telefones, consumo de energia elétrica e média
de carros por habitante. Segundo a última pesquisa
da empresa, a região com mais dinheiro esperando
para ser gasto é a Grande São Paulo, com 14,2% do
potencial nacional de consumo. A segunda, com
13,3%, é o interior paulista. Não é difícil atestar
isso. A Forum, uma das mais caras franquias de
moda jovem, obtém 40% de suas vendas no interior
do país, embora possua na região menos de um

terço de suas lojas. As vendas de picapes
importadas cresceram 27 vezes nos últimos cinco
anos, principalmente no interior, mas os modelos
preferidos não são os paus-para-toda-obra e sim os
de luxo. Talvez por isso, na última contagem
populacional do IBGE, se descobriu que há hoje mais
gente migrando das capitais para o interior do que
fazendo o caminho contrário. Quem vai com alguma
reserva no banco pode tratar de comprar o chapelão
de caubói para se adaptar.

Fumo de mascar é a última moda entre os caubóis
brasileiros. Existe até em versões com sabor de
menta ou de cereja

Chapéu americano feito com pêlo de castor, da
Resistol. Os preços dos modelos variam de 600 a 1
500 reais

Cinto de crina de cavalo, importado, pode chegar a
custar 150 reais. O falsificado, de náilon, sai por um
terço disso

Bota de couro de cobra misturado com couro de boi
custa 150 reais. As de cobra pura chegam a 700
reais

Estrelas da arena e do disco

Os locutores de rodeio arrombaram a porteira
das lojas de discos. Nos últimos meses, várias
gravadoras despejaram na praça CDs que prometem
reproduzir no estéreo o espírito de um rodeio de
verdade. Para que o ouvinte se sinta cercado por
cavalos, touros e caubóis, as gravações do gênero
alternam música sertaneja com aquele blablablá que
os locutores costumam disparar pelas caixas de som
das arenas. Entram nos discos saudações como “alô,
meu povo!”, gritos de “segura, peão!” e até piadas
de salão (“Você sabe qual a semelhança entre minha
sogra e uma garrafa de cerveja? As duas ficam
ótimas geladas, em cima da mesa”). Tudo é dito com
entonação característica, algo entre a narração de
uma partida de futebol e a de um páreo no jóquei.
Um dos lançamentos do gênero, Bailão de Peão, já
vendeu 400 000 cópias, número que bate de longe
as vendagens habituais das estrelas da MPB.

De olho na moda, até o clube Os Independentes,
que organiza o rodeio de Barretos, lançou o disco
oficial da festa. A previsão é de que sejam vendidas
150 000 cópias até o final do mês. Com o sucesso
do filão, a carreira dos locutores avança para além
das arenas de rodeio. O veterano Asa Branca, ex-
peão que depois de um acidente teve de trocar os
arreios pelo microfone, já montou uma banda para

excursionar pelo país. Com idéias originais, como
saltar de pára-quedas sobre a arena ou fazer a
abertura de um rodeio de dentro de um helicóptero,
ele se tornou um dos animadores mais conhecidos.
Seu disco Cowboy Country esgotou a tiragem de 180
000 exemplares.

O locutor Marco Brasil, recordista de vendas no
segmento, apresentava um programa de rádio
quando teve a idéia de lançar o primeiro LP do
gênero no país. Hoje, divide seu tempo entre
rodeios, pelos quais cobra até 12 000 reais,
bailes e shows. As festas country se tornaram
tão importantes para a indústria do disco que
conseguem projetar artistas que pouco aparecem no
rádio e na TV. É o caso da cantora Jayne, a “rainha
dos rodeios”, que se apresenta no palco fazendo
evoluções sobre um cavalo branco. Seu último disco
vendeu 80 000 cópias e carimbou-lhe o passaporte
para Nashville, Tennessee, a capital da música
country, onde ela acaba de gravar mais um CD.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Franco Iacomini (com reportagem de Rachel Verano, de Belo Horizonte)

Ao sabor das marés

Vocês viajaram de bugue pela praia desde Natal?”, perguntou com ar surpreso a mulher que descascava mandioca numa casa de farinha da cidade potiguar de São Miguel do Gostoso. “Tem louco pra tudo!”, continuou Vera Lúcia da Silva, depois de uma sonora gargalhada. Para ela, a viagem dos forasteiros em bugues parecia um sacrifício. Acostumada à rotina de pesca de parte dos doze filhos e ao trabalho com farinha na simpática praia onde vive, a perplexa Verinha, como é conhecida, 38 anos, não entendia que uma empreitada com sol na cabeça, pouca roupa e brisa no rosto é o que todo mortal estressado pediria a Deus. Estávamos apenas no fim do segundo dia de uma aventura que duraria uma semana e que percorreria 700 quilômetros e 100 praias do extremo Nordeste do Brasil, desde Natal, no Rio Grande do Norte, até Fortaleza, no Ceará. E tudo com calma, tendo como única preocupação a escolha das vilas de pescadores onde tomar banho de mar, beber água-de-coco e comer lagosta fresca.

(Ponta Grossa, foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

 

Gostosa, a gargalhada de Verinha traduz bem o alto-astral do lugar do primeiro pernoite fora de Natal. No século passado, a pacata vila de São Miguel teve adicionado ao seu nome o curioso complemento “do Gostoso“, em homenagem a um comerciante contador de histórias engraçadas conhecido por sua risada divertida, “gostosa“, como a de Vera. Apesar de o nome oficial ser São Miguel de Touros, a maior parte dos 5000 habitantes do centro urbano prefere o outro título. Até a placa na entrada da cidade dá as boas-vindas com a mensagem “Aqui você faz gostoso“. Depois do dia anterior em Natal ter sido dedicado aos preparativos da viagem, o primeiro dia de deslocamento dos dois bugues terminava feliz, sem imprevistos. À medida que se dirige para o norte, a praia vai ficando mais bela e as casas de veraneio da orla dão lugar às vilas de pescadores em praias desertas.

No ritmo da natureza. Os passeios de bugue pela praia acontecem na região há quinze anos. Poucas pessoas se arriscam a trocar a velocidade na estrada asfaltada entre Natal e Fortaleza pela aventura a 40 km/h na areia. “Uma longa rota de bugue requer macetes de pilotagem“, diz o bugueiro Cláudio Chueiri, 47 anos, que repetiu o trajeto seis vezes nos últimos oito anos. O motorista precisa enxergar desníveis do solo, trechos de areia fofa e riachos que desembocam no mar. Deve ainda dirigir apenas nos horários em que a maré permite – e isso varia conforme a fase da Lua. Sempre que a maré sobe, o trecho de areia seca diminui, obrigando o viajante a esperar a vazante ou dirigir em estradas paralelas. Com a maré baixa, os obstáculos são os trechos com pedras e os rios, onde nativos oferecem a travessia em jangadas.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

A variedade das paisagens impressiona. Depois da seqüência inicial de dunas e lagoas de Genipabu, despontam os extensos coqueirais do Cabo de São Roque, ponto da América mais próximo do continente Africano. Em seguida, as piscinas naturais de Maracajaú, a 7 quilômetros da costa, surpreendem os mergulhadores com o desfile de budiões, moréias e polvos em águas azuis incríveis. O cenário paradisíaco se repete à frente, nas piscinas de Rio do Fogo.

Ao norte, a orla de areia fina curva-se para a esquerda e delineia a esquina nordestina brasileira, em Touros, onde o Farol do Calcanhar, com seus 62 metros de altura, evita que novos naufrágios ocorram na região. Considerado o maior da América Latina, ele oferece um mirante no alto de seus 298 degraus, de onde se avista São Miguel do Gostoso e se percebe que os bugues passarão, no dia seguinte, a circular no litoral virado para o norte, e não mais para o leste. A tábua de marés, que orienta pescadores e bugueiros apontando os horários de cheia e vazante, muda totalmente.

Nordeste pré-histórico. O primeiro barco se preparava para deixar a praia de Gostoso, às 6 horas da manhã do dia seguinte, quando os dois bugues partiram pertinho do mar, onde a areia é mais dura. Os homens da jangada comentavam o evento da noite anterior, a apresentação de um circo itinerante com direito a show da Tiazinha. “A Tiazinha da televisão?“, pergunta alguém. “Não, uma igualzinha, veio lá do Recife“, responde outro, entusiasmado. São Miguel do Gostoso é realmente uma cidade engraçada… O papo sobre os atributos da moça continuou enquanto os pescadores ajeitavam os 100 covos, gaiolas de pescar lagosta que seriam deixadas no mar até o dia seguinte. Zarparam. Um visitante caminhava na praia, anunciando o turismo discreto que começa a descobrir Gostoso. A cena dificilmente seria vista um ano atrás, quando o asfalto da BR-101 ligando Natal a Touros não estava concluído.

As formações rochosas que aparecem no terceiro dia têm tanto valor que já se tentou criar ali um parque. Em Tourinhos despontam paredes escuras, de até 5 metros de altura, que parecem ter sido lapidadas e polidas pela chuva e pelo vento. “São dunas petrificadas que existem há pelo menos 7500 anos“, explica o geólogo Eduardo Bagnoli. Nos areais que beiram a praia, surgem os bosques petrificados, um fenômeno mundial raríssimo.

Quem não tocar não vai perceber, mas os troncos secos brotando do chão são pedras. Há milhares de anos as árvores foram cobertas pelas dunas, endureceram e ressurgiram quando a areia se moveu. Na Ponta dos Três Irmãos, perto dos galhos, muitas conchas escondem pedras lascadas usadas como ferramentas indígenas. “Talvez os índios se alimentassem dessas conchas na sombra do bosque“, diz Bagnoli. Se a rodovia litorânea Touros–Fortaleza, que será construída em 2001, não evitar passar por ali, essas relíquias se perderão.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Os cactos da caatinga beirando esta costa de ondas fortes comprova que estamos no trecho mais árido e isolado da viagem. Água doce é um artigo tão raro que as lagoas formadas pela chuva nas dunas são usadas para regar plantações de batata e mandioca, para que as lavadeiras lavem roupas e para que homens e animais tomem banho. “Eu e o Campineiro andamos uma hora para chegar aqui“, diz o vaqueiro Cícero César, 19 anos, enquanto lava seu boi, o tal Campineiro.

Banquete indígena. A Praia do Marco, onde foi cravado o primeiro marco português no Brasil, em 1501, remete a um passado mais curioso do que aparenta a réplica local da cruz portuguesa (a original está em Natal, no Forte dos Reis Magos). Depois de fixar o monumento, a expedição de Gaspar de Lemos se aproximou, de bote, dos índios potiguares que descansavam na areia fofa da praia vizinha de Ponta do Santo Cristo. Foi quando os índios mostraram sua ferocidade. Nadaram até um dos barcos e dele retiraram um padre, que foi arrastado até a praia e, diante dos olhares de outros portugueses, morto e devorado pelos selvagens. Os potiguares continuaram resistentes até o final do século, ocasião em que foram enfim dominados.

O sol parece mais forte e a água do mar, mais salgada, na Ilha de Galinhos, ponto final do terceiro dia e inicial da chamada Costa do Sal. Os golfinhos costumam acompanhar a balsa que leva a esta vila de 1800 habitantes e chão de areia. Como praticamente não há carro em terra firme, os viajantes se locomovem em charretes puxadas por jumentos, os jumentáxis. Simpática vila de casas coloridas, Galinhos é comandada há décadas pelo pulso firme da prefeita Jardelina Pereira, 73 anos, espécie de coronel local. Ao entardecer, ela costuma arrastar uma cadeira até a frente de casa, onde, sentada com toda pompa, escuta os lamentos das moradoras.

A cor branca das salinas e dos belos bancos de areia da Ponta do Tubarão é a mesma do triste cenário dos galhos secos nos manguezais que foram destruídos pelas empresas salineiras, deixando sem lar aves de mangue como garças e maçaricos. O sal é a principal fonte de renda da população do Rio Grande do Norte, além do petróleo extraído das plataformas terrestres da Petrobras, nas quais os chamados cavalos puxam óleo desde 3000 metros de profundidade.

Em Porto do Mangue, onde se concentram as paisagens mais bonitas do dia, o destaque é a seqüência de falésias de cores vermelha, amarela e alaranjada que beiram o mar azul até as praias de Ponta do Mel, São Cristóvão e Redonda. O melhor mirante para observá-las é o alto de cada morro, como no cemitério de São Cristóvão. Nesta região, famílias inteiras dormem em redes com a porta da casa aberta. “Só fecho quando o vento bate forte na boca da noite“, diz Cosme Olivar das Neves, 53 anos, que trabalha na salina artesanal de Grossos, cidade vizinha de Tibau, última parada do dia. “Mas o vento é bom. A gente nem precisa balançar a rede debaixo do cajueiro“, diz, feliz com o sossego de onde mora.

A extinção da lagosta. A entrada no Estado do Ceará, no quinto dia, é indicada por um mar mais verde, protegido por paredões avermelhados, como o de Barreira, Redondas (com “s“, diferente da Praia Redonda do dia anterior) e Ponta Grossa. De uma beleza surpreendente, as três praias ficam em isoladas vilas de pescadores cheias de jangadas de velas brancas. Todos os anos, no dia 15 de agosto, elas engrossam uma procissão de 150 barcos em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes. “Só a santa e o governo podem ajudar a melhorar nossa vida“, reclama o pescador João de Deus, 48 anos, morador de Redondas. Acostumado a viver da venda da lagosta, João de Deus tem sofrido com a escassez causada pela pesca predatória, que tem dizimado os filhotes. O volume dos pescados baixou de 20 quilos por mês, dez anos atrás, para 2 quilos.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Em Canoa Quebrada, ponto do próximo pernoite, a pesca deixou de ser o principal ganha-pão há duas décadas. O turismo explodiu de tal forma que a maioria dos 3000 moradores atuais veio de fora, atraída pela badalação que rondou a praia na década de 70, depois que a atriz Vera Fischer passou a freqüentá-la. Canoa continua bela, com dunas e falésias, mas cresceu demais.

O ícone da lua com a estrela, nascido do símbolo do islamismo e transformado em marca registrada de Canoa, também permanece em um paredão rochoso da praia – agora, porém, em meio a milhares de nomes rabiscados. Cosmopolita, a Canoa de hoje fala várias línguas, tem agitação noturna e costuma ter no céu parapentes coloridos, como o do suíço Jérôme Saunier, 37 anos, pioneiro do esporte no Brasil. Ele se mudou para cá há nove anos e montou uma academia. “Canoa Quebrada será sempre uma praia especial“, diz.

As falésias brancas que aparecem nos primeiros quilômetros do sexto dia, na rota final até Fortaleza, anunciam a aproximação da Barra de Sucatinga, que ficou popular há cinco meses por ter sido palco das gravações da série de televisão No Limite. Basta o bugue encostar na recém-batizada Praia dos Anjos para os filhos dos pescadores pararem de brincar com suas jangadinhas e oferecer passeios guiados. “O turismo está ajudando a vila a crescer“, anima-se Belarmino Torres, que está construindo em sua barraca de praia um museu com peças usadas pelo elenco, como estilingues e panelas.

Desviando-se das jangadas, dos campos de futebol e dos alagados formados durante a maré alta, os bugues seguem pela Praia das Fontes, com suas discretas nascentes despencando das falésias, e por Morro Branco, famosa pelo artesanato de areias coloridas. Depois da plácida paisagem dos bancos de areia em Águas Belas, a urbanidade se aproxima com a chegada à Praia de Porto das Dunas, em frente ao Beach Park. Hora de voltar à estrada, para que o descanso do sétimo dia seja desfrutado na Praia do Futuro, em Fortaleza. O bugue entra no asfalto da metrópole e recebe a primeira baforada de fumaça de caminhão. Como dizia Verinha, a da risada gostosa, tem louco pra tudo nesse mundo. Até para voltar à cidade, deixando lá atrás a vida mansa de sol e a brisa deliciosa da beira-mar nordestina.

 

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Para quando você for:

 

Aos Bugues!

Qualquer pessoa pode viajar pelas praias alugando um bugue em uma das locadoras de Natal ou de Fortaleza. Para as aventuras mais longas, no entanto, é mais seguro e recomendável contratar o serviço de bugueiros profissionais, como Cláudio Chueiri (tel. 0_ _84/641-2019) e Marcelo Cossi (tel. 0_ _84/236-4217), ambos de Natal. A Top Buggy (tel. 0_ _84/219-2820) oferece os mesmos serviços em Natal, enquanto a HM (tel. 0_ _85/242-7799) faz o trajeto inverso ao nosso, desde Fortaleza.

Durma bem

Fora os pernoites em Natal e em Fortaleza, os outros quatro podem acontecer na cidade que o viajante quiser. Na hora de decidir onde parar para almoçar e para dormir, prefira as praias mais charmosas. No segundo dia, a melhor opção é São Miguel do Gostoso, na Pousada dos Ponteiros (foto do alto, tel. 0_ _84/984-5951). Galinhos, no terceiro dia, tem cinco pousadas. A mais simpática é a Chalés Oásis (foto do meio, tel. 0_ _84/9431-9672). Urbanas, as praias de Tibau (onde passamos a quarta noite, meio sem graça), Canoa Quebrada (quinta noite, www.canoaquebrada.com) e Fortaleza (sexta noite) têm muitos hotéis. Uma hora antes de Fortaleza, o Resort Praia das Fontes (foto debaixo, tel. 0_ _85/338-2122) é o melhor do roteiro Outras praias agradáveis para pernoitar são a Do Marco (RN), de Ponta do Mel (RN) e de Redondas (CE).

Pela terra do sol

Há sol no Nordeste em qualquer época do ano, mas as chuvas costumam aparecer entre março e junho. Planeje sua viagem usando as informações turísticas dos sites www.turismorn.com.br, do Rio Grande do Norte, e www.cearatour.com.br, do Ceará.

Outros toques

O bugue é aberto e o vento das praias pode desaparecer com seus óculos de sol, boné e guia de viagem. Proteja-se do vento, do sol e da areia que voa para dentro do carro. A água do mar também costuma molhar bagagens, câmera fotográfica…

Dica do autor

”Os sítios arqueológicos encontrados nas praias entre Touros e Galinhos merecem cuidado. Perto da Ponta dos Três Irmãos, os bugues desviam das pedras na beira de um morro e passam sobre uma concentração de conchas que se assemelha a um sambaqui. Evite rodar por ali para não atropelar as relíquias.”

Daniel Nunes Gonçalves

Dias de majestade

Vestimos as pesadas saias xadrez, ajeitamos as gravatas-borboleta, demos cinco voltas dos cadarços dos sapatos em cada perna, prendemos as facas nas longas meias e amarramos as pochetes na cintura. Faltavam três horas para a partida do trem – programada britanicamente para 13h41 – quando terminamos de experimentar os kilts. Era nossa primeira vez alugando vestimentas tradicionais, e aquele ritual coroava com uma dose de glamour o que vinha pela frente: três dias a bordo do The Royal Scotsman, o expresso de luxo da mítica rede Orient-Express na Escócia. Ostentar os trajes da Kinloch Anderson já era sinônimo de nobreza: a marca existe desde 1868 e provê roupas para a Rainha Elizabeth e o Príncipe Charles. A partir dali, os reis seríamos nós – especialmente no jantar da última noite a bordo, que requeria vestimenta formal. Penduramos os cabides no típico táxi preto e aceleramos para a Edinburgh Waverley Station, onde xícaras de chá inglês nos esperavam na sala vip da estação e um tocador de gaita de fole conduziria a fileira de passageiros para o mais sofisticado trem do Reino Unido.

Daniel Nunes e o fotógrafo Adriano Fagundes na cabine do trem (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

“Welcome, ladies and gentlemen, good morning and thank you”, nos recebeu solenemente o anfitrião, Michael Andrew, no vagão panorâmico, decorado com tons quentes de bordô e dourado. “Aproveitem para observar a paisagem e tomar um drinque enquanto aguardam sua vez de serem levados às habitações.” Degustar os melhores whiskies do planeta justamente ali, no berço deles, era um dos prazeres mais aguardados dessa viagem. Mais de 600 garrafas são consumidas no trem a cada temporada de maio a setembro (não há serviço no inverno), e havia mais de 40 delas à disposição no bar. Das bebidas alcoólicas aos passeios feitos em terra a cada parada, tudo está incluído no preço do pacote: 2.140 libras (cerca de 5.500 reais) por aqueles três dias de passeio de ida e volta entre Edimburgo e as Highlands, as altas montanhas do Norte da Escócia. A Orient-Express opera ainda outras seis rotas, num total de 25 viagens pelo Reino Unido a cada ano, e elas podem durar até uma semana – a maior delas custa para cada passageiro 8.870 libras, ou uns 23 mil reais.

(interior da cabine, fotos de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Começamos por um Glenkinchie 12 anos, leve e com aroma floral. “Gostou desse ou prefere algo mais smoky?”, perguntou o simpático barman Fraser Robson, 21 anos, escocês de Edimburgo. Um dos mais de 60 funcionários escalados para atender aquele grupo seleto de 28 passageiros (embora a capacidade total seja de 36 pessoas), Fraser servia as bebidas de forma segura, enquanto o trem apitava e já entrava em movimento. Sinal de que aproveitou bem o treinamento rigoroso feito ao longo de um mês antes do início da temporada, quando os empregados aprendem detalhes sobre o funcionamento e a história do The Royal Scotsman: embora tenha começado a circular em 1985, o trem tem a maior parte de sua estrutura datada da década de 1960. “Nenhum aprendizado é mais importante do que o de lidar com uma clientela exigente”, contou Fraser. “O trabalho é prazeroso: várias vezes me flagro olhando pelas janelas, admirando paisagens de tirar o fôlego.”

(foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Minutos depois já atravessávamos a cozinha, a biblioteca e os cinco vagões-dormitório daquela centopeia mecânica de 200 metros e corredores estreitos. A compensação viria dentro dos vinte quartos, maiores do que se espera encontrar em um trem. Adriano, meu colega fotógrafo, ficou na cabine M. “M de majestade”, brincou, dando uma piscada de olhos. Eu fui levado ao próximo quarto disponível, o da letra P – “P de príncipe”, retruquei, rindo. “Precisando de algo do nosso serviço de concierge, basta tocar este botão”, disse o simpático francês que carregou nossas malas. Minutos depois eu faria o teste, pedindo que levassem uma camisa para tirar um leve amassado. Revestido de madeira decorada com marchetaria, meu quarto tinha duas camas de solteiro confortáveis diante de dois metros de janela, uma escrivaninha, guarda-roupa com roupões e, no banheiro privado, aquecedor para toalhas. Como se não fosse suficiente, o trem para durante a noite, garantindo melhor sono aos passageiros.

Os maquinistas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

A primeira parada aconteceria na destilaria da Dalwhinnie, a mais alta das 14 destilarias das montanhas de Speyside. As duas doses do final do tour davam continuidade às degustações que terminariam depois do jantar informal daquela primeira noite. No vagão Raven, cujas várias mesas acomodam 20 dos passageiros, nos sentamos à mesa com todos os talheres e taças a que tínhamos direito. À medida que montanhas com picos nevados, lagos e pastagens de ovelhas dançavam na paisagem, éramos apresentados ao menu: salada acompanhada de terrine de legumes com chutney de tomate e azeitonas pretas e filé de halibut com purê de batatas e aspargos – tudo sempre harmonizado com vinhos de primeira linha. A noite só caiu por volta das 23 horas, depois de assistirmos a uma apresentação de música típica escocesa no vagão panorâmico, já com o trem parado diante de um campo de golfe verdinho na estação Boat of Garten. E, claro, depois de mais algumas doses de puro malte.

Quando despertamos para o café da manhã, o trem já estava em movimento para mais um trecho da viagem de 870 quilômetros. Os maquinistas Daniel Forbes, 70 anos, e Jim Waddell, 53, tinham levantado cedo, às 6 horas, para ligar o grande propulsor que impulsiona a locomotiva na velocidade média de 100 quilômetros por hora em uma linha exclusiva, diferente da usada por outros trens. “Motores bons como este, feito em 1957 e ainda na ativa, são um verdadeiro patrimônio”, nos contaria Jim mais tarde. “É um privilégio encerrar nossa carreira neste trem”, emendou seu colega Daniel. “Eu me aposentei, mas continuo aqui por amor ao ofício, com a vantagem de comer boa comida e de conhecer gente amável do mundo todo.” É no fim do dia que essa dupla relaxa e pode também tomar sua dose de whisky. E qual é o melhor destilado escocês? – perguntei. “É aquele que um amigo paga para você”, respondeu gargalhando o velho Jim.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Naquela manhã, os passageiros trocaram o trem por uma van até o Rothiemurchus Estate, em meio a uma floresta de pinheiros do Parque Nacional Cairngorms, onde teriam de optar por qual passeio fazer: caminhar por 3 quilômetros e fazer observação de pássaros, uma paixão dos britânicos; passear por estradas mais distantes em veículos 4×4; praticar clay pigeon shooting, um jogo de tiro que tem como alvos discos de argila lançados ao alto; ou praticar fly-fishing, aquele tipo de pesca com uma vara de linha longa onde são colocadas iscas coloridas que se assemelham a mosquitos. À tarde, depois da volta ao trem em Aviemore (quando fomos recebidos com drinques) e do almoço (bouillabaisse de frutos do mar), a parada foi outra: o campo de batalhas de Culloden. “Aqui aconteceu o último grande conflito em terras britânicas, em 1746, quando morreram mais de 1.200 pessoas em apenas uma hora”, contou o guia e ator Ray Owens, vestido como um highlander.

 

O programa mais esperado da viagem, no entanto, aconteceria naquela segunda noite: o jantar formal. Dessa vez, fomos acomodados na única mesa coletiva do segundo vagão-refeitório, o Victory, construído em 1945. “Sempre usamos os mais frescos ingredientes escoceses, como estes salmões defumados”, contou o jovem chef Ian Steel, 33, escocês que já trabalhou em alguns dos melhores restaurantes de Glasgow e que foi chamado à mesa para ser aplaudido pelos comensais. Para nós, estrangeiros, mais marcante que a excelente comida era a pompa do evento. Como recomendado previamente, todos eram convidados a vestir black tie, tuxedo ou o traje típico escocês – que foi, claro, a nossa preferência.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Nos vestimos com gravata-borboleta, faca na canela, nada por baixo do kilt. O assunto das conversas na grande mesa variou de casamento real a filmes de Bollywood enquanto papeávamos com a família de Harsh Singhania, indiano de Nova Délhi, e com o casal Ian e Deborah Griffiths, britânicos de Londres em lua de mel. O trem parou para o segundo pernoite em Dundee, vizinha de outra destilaria da rota, a Chivas, e todos que terminavam o jantar iam ouvir música ao vivo no vagão panorâmico. Alguns foram dormir logo, já que o Orient-Express terminaria a viagem na estação de Edimburgo às 9h49. Adriano e eu, porém, preferimos curtir mais um pouco nosso dia de lordes. “Mais uma dose?”, perguntou o barman Fraser. O rapaz baixou sobre a mesa uma garrafa de single malt The MacAllan, que passa por processo triplo de destilação. Cheios de pompa, acrescentamos um pouco de água para sentir o aroma, molhamos os lábios, fizemos um brinde. Encerramos nossa noite ali, degustando com aparente maturidade um autêntico whisky 21 anos. E, evidentemente, orgulhosos de nossos saiotes.

INFO: The Royal Scotsman (royalscotsman.com); Kinloch Anderson – Commercial Street/Dock Street, Leith, EH6 6EY, kinlochanderson.com

(SPECIAL THANKS: Orient-Express (orient-express.com)

(Quadro)

Traje típico escocês

Conheça a roupa formal usada por Adriano Fagundes (à esq.) e Daniel Nunes

GRAVATA: Sempre preta, a modelo borboleta é exigida apenas em eventos solenes

COLETE: Com três botões, deve sempre cobrir a camisa branca

PALETÓ: O modelo pequeno, usado aberto, não é o único – existem jaquetas e paletós maiores

KILT: É grande, pesada e com estampas (tartans) que fazem menção a clãs tradicionais

POCHETE: O sporran levava a comida dos highlanders; hoje guarda carteira, celular e chaves

MEIAS: Compridas e pretas, recebem adereços com estampa xadrez que asseguram que estejam sempre altas

Em Cuba, como os cubanos

Só parecia haver um inconveniente quando eu e um amigo decidimos viajar de férias para Cuba com a intenção de fugir do sistema pega-dinheiro-de-turista imposto pelo governo: eu. Sou loiro de olhos azuis, raridade na terra de Fidel Castro, o que dificultaria meu objetivo de passar por nativo. Boné e óculos escuros seriam então meu disfarce oficial, e meu comparsa Alexandre Costa Val, cabelos e olhos castanhos, faria a linha de frente. Estratégia traçada, desembarcamos em La Habana – Havana, para os turistas – a fim de viver 18 dias dormindo e comendo em casas de cubanos. É claro que não desprezaríamos a Cuba dos cartões-postais, e ela estava toda lá: carrões dos anos 50, prédios históricos caindo aos pedaços, belas mulatas dançando salsa, um mojito aqui, um charuto ali. Os cartazes com imagens de Fidel, Che Guevara e outros heróis nacionais lembravam que estávamos às vésperas da festa de 50 anos da revolução, em 1º de janeiro de 2009, principal motivo da nossa aventura. Sem pacotes turísticos, rodaríamos a ilha de oeste a leste, passando por Santiago de Cuba, Trinidad, Cienfuegos, Rancho Luna e Santa Clara.

Fotos SAMESAMEPHOTO

 

Dormindo com Che e Raul

A única alternativa econômica à hospedagem em hotéis é o pernoite nas chamadas “casas particulares” identificadas por uma plaquinha branca e azul, já que não existem albergues por aqui. Nessas residências autorizadas a abrigar estrangeiros, as diárias giram em torno de 25 dólares – o mesmo salário médio mensal de um médico. Nosso quarto com banheiro ficava na casa do engenheiro Humberto Scasso, no bairro universitário do Vedado. As paredes da sala exibiam fotos do anfitrião com ninguém menos que Che Guevara. “El Che foi visitar a gráfica onde eu trabalhava para acompanhar a produção dos jornais da revolução”, contou, cheio de orgulho.

Alguns dias e vários colchões vagabundos depois, vimos que a casa de Humberto era quase hotel de luxo. Na semana seguinte, em um casebre simples da praia da Rancho Luna, a cama era pobre, mas o papo enriquecedor. Nas cadeiras de balanço sobre o chão de cimento queimado da varanda, a professora Rosa e o pescador Valdemir Reproso nos falavam de tudo – embora nunca mal de Fidel (como praticamente todos que nos hospedaram). Por duas noites seguidas assistimos juntos, pela televisão, o mesmo discurso de mais de uma hora que o presidente Raul Castro proferiu a nação às vésperas do cinqüentenário. “Ele e seu irmão Fidel estão certos, temos que trabalhar mais para que o país sustente a revolução”, disse Valdemir. Na manhã seguinte, logo que o sol nasceu, ele pegou no batente para fazer pequenas reformas na casa. Como Castro pedira.

 

No ônibus barato ouvindo reggaeton

Para conjugar a miúda economia local com os altos gastos dos estrangeiros, o governo cubano trabalha com duas moedas: o peso cubano, usado no dia-a-dia da população para comprar, por exemplo, os produtos subsidiados da cesta básica, e o peso convertível, ou CUC, com valor semelhante ao euro e utilização voltada para o turismo. El peso convertible vale 24 vezes mais que a moeda local, o que a torna disputadíssima especialmente pelos “jineteros”, especialistas em ganhar comissões oferecendo hotéis, charutos, passeios e até corpos para turistas. É fácil adquirir a moeda local nas casas de câmbio espalhadas pelas esquinas. Complicado é botá-la em circulação. Só conseguimos gastar nuestros pesitos comprando comida de rua e tomando ônibus circulares lotados (lá também tem passageiro sem-noção ouvindo rádio no último volume, só que em vez de pagode eles escutam o contagiante reggaeton). Para curtir a boa música ao vivo a la Buena Vista Social Club de casas como o Jazz Club La Zorra y El Cuervo, não tinha jeito. Eles metiam a faca cobrando em moeda convertível, a 10 CUCs a entrada, 2 CUCs cada mojito. Detalhe: quem leva dólar, em vez de euro, perde 10% do valor de troca numa taxa que desestimula o uso das verdinhas do odiado “imperialismo americano”.

 

Arroz moro em casa, pizzeta na rua

Sem placas na porta e com cardápios informais, “paladares” são casas de cubanos que servem comida mais barata e simples que a dos restaurantes. Dizem que o nome foi inspirado no restaurante que a personagem Raquel, de Regina Duarte, administrava na novela Vale Tudo. Bastava alguém descobrir nossa verdadeira identidade de brasileiros, durante a refeição, para dar início às animadas conversas sobre novelas – mais especificamente Mujeres Apasionadas, em exibição. Com preços em torno de sete dólares, os paladares têm cardápios pouco criativos. O embargo financeiro sofrido por Cuba limita bastante a variedade da culinária, e o prato de todo dia acaba sendo o moros y cristianos (mistura de arroz com feijão-preto), carne de porco e salada de repolho. Nas ruas, porém, usávamos nossos pesos cubanos para enfrentar as mesmas filas dos habaneros e comer a street food deles: pizzetas, oleosíssimas pizzas brotinho vendidas a 5 pesos cubanos; perro caliente, o hot dog com apenas pão e salsicha; e os famosos sorvetes da Coppelia, a sorveteria do filme Morango e Chocolate. Neste caso, tivemos que ficar quietinhos por quase uma hora na longa fila de sábado à noite para tomar sorvete de abacaxi e pagar o preço para nativos, 32 vezes mais barato que o de estrangeiros. Investimos as últimas moedas no granizado, versão cubana de nossas raspadinhas de groselha.

Onde o Cadillac é lotação

Quando as carangas dos anos 50 são usadas como táxis para representantes do sistema capitalista estrangeiro – nós, no caso –, têm preços em CUC. Acontece o mesmo com os coco taxis, superturísticas motocas com carenagem em forma de coco. Mas quando os cubanos embarcam nesses pomposos Cadillacs e Mercedes, as barcaças se transformam em lotações, e são pagas com moeda local. Era assim que queríamos fazer. Esticamos o dedo para que um velho Ford parasse. Alexandre caprichou no sotaque e perguntou ao motorista: Centro Havana? Adelante, respondeu o bigodudo. Quietinho no banco de trás e com a cara mergulhada no jornal, me apertei entre outros dois passageiros. Realizamos nossa missão pagando míseras moedinhas locais para fazer um percurso que não sairia por menos de 5 CUCs num táxi turístico. Faríamos o mesmo em Cienfuegos, uma afrancesada cidadela à beira-mar, quando convencemos o dono de uma charrete a nos dar uma carona, algo proibido para não-cubanos. A rota, nesse caso, teve que ser feita por ruas escondidas, longe da fiscalização das grandes avenidas. Só não conseguimos repetir o feito na hora de viajar para outras cidades. Há rodoviárias e ônibus distintos para quem vem de fora, e fomos friamente ignorados quando tentamos comprar bilhetes no terminal para habaneros. Acabamos compartilhando o ônibus para Santiago com outros gringos que também não tinham reservado os disputados assentos nos aviões que cruzam a ilha. Ao preço de tabela.

 

Tambores, orixás e salsa no Malecón

Ok, para sermos cubanos de verdade riscamos a turística Varadero do roteiro. E cumprimos uma programação “de raiz”. Em La Habana, fizemos o tradicional footing no Malecón, o mítico calçadão à beira-mar, até na noite de réveillon, assistindo pipocarem ao longe meia dúzia de fogos de artifício e brindando nossa garrafa de rum com a da família sentada ao nosso lado na mureta. O Natal tinha sido um jantar qualquer, já que o capitalista Papai Noel é persona non grata nesses encontros familiares, e os cubanos se contentam em decorar casas com luzinhas e desejar felicitad pelas ruas. Em Santiago, fizemos uma oficina rápida sobre como enrolar charutos e embarcamos em duas aulas caseiras de percussão com o músico Manolito Semanat, onde aprendemos o be-a-bá da conga e do bongô. Nossas novas gingas de cubano seriam exibidas na volta a La Habana, quando embarcamos em uma roda musical do tradicional bar La Bodeguita del Medio, em Habana Vieja, que no passado era freqüentado por outro estrangeiro metido a nativo, o escritor norte-americano Ernest Hemingway. Não faltou nem a consulta a um babalao, líder espiritual do culto aos orixás, versão cubana do nosso candomblé, para ganhar um axé para o ano novo. Nossa missão seria encerrada com a festa de 50 anos da revolução, no primeiro dia do ano, fazendo igualzinho aos milhares de nativos que tomaram o trecho do Malecón diante de um monumento chamado de Tribuna Antiimperialista: arriscando uns passos de salsa, tomando rum e bradando, como autênticos cubanos, “Viva Fidel! Vila La Revolución!”

Encantadora para todo el siempre

Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias. Foi esse o tempo que o apaixonado Florentino Ariza esperou, suspirando pelas ruelas estreitas de Cartagena, para conquistar o coração de sua amada Fermina Daza. Não havia cenário mais apropriado que esta cidadela cercada por muralhas de 400 anos para o romance O Amor nos Tempos do Cólera, clássico da literatura escrito pelo colombiano Gabriel García Márquez. Com sobrados e chão de pedra, varandas forradas por primaveras e praças arborizadas onde casais namoram diante das igrejas, Cartagena seduz por essa sensação de que o tempo não precisa passar. É como se tudo ali, das muralhas aos amores, fosse feito para durar.

 

Quem desembarca no aeroporto local, depois de 1 hora de voo desde Bogotá, costuma ter uma impressão menos floreada. O que se vê é uma metrópole portuária de 1,1 milhão de habitantes, com arranha-céus de até 48 andares à beira-mar, obras por todo lado e contêineres sobrepostos entre os navios do porto mais importante do país. A cor do Mar do Caribe, que se choca com o calçadão da Avenida Santander (que faz lembrar o Malecón da Havana de Cuba), também não é aquele azul-turquesa dos nossos sonhos. Mas basta se acercar dos seus 13 quilômetros de muros para sentir o encantamento e começar a acreditar que aquele universo foi acondicionado em uma redoma invisível. Parece até mais um capítulo de realismo mágico dos livros do velho Gabo, ele próprio dono de uma mansão diante da parte interna dos paredões. O táxi amarelo cruza um dos portões e… pirlimpimpim! Entramos em um conto de fadas. Ou de marujos, piratas e amantes.

 

Segunda cidade colombiana fundada pelos colonizadores espanhóis, Cartagena das Índias surgiu em 1533. A geografia privilegiada e a temperatura média de 30 graus, regada à buena brisa caribenha, logo a transformaram em uma das principais bases do império espanhol na América. Por seu porto entraria a mão-de-obra escrava vinda da África (até hoje, 70% da população é de origem negra) e sairia muito ouro e prata. Tanta fartura levou a cidade a ser duramente saqueada por piratas ingleses e franceses até que a muralha começasse a ser erguida, no século 16 – e concluída dois séculos depois, pouco antes da expulsão dos espanhóis.

 

Alma amuralhada

Após mais 200 anos, outra riqueza é ostentada pelas 103 ruas estreitas da encantadora Cartagena amuralhada: sua alma. Não por acaso, o lugar foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. O progresso e o turismo têm sido recebidos com o cuidado que se deve dar a uma peça de antiquário, a um amor duradouro ou a uma joia feita com as esmeraldas encontradas na região. Senhores de boina jogam xadrez sob as árvores, atores divertem as crianças posando como estátuas vivas em praças repletas de pombinhas e senhoras de saias coloridas e cestos de frutas na cabeça ganham trocados posando para as fotos dos visitantes. Há sempre tocadores de ritmos como o vallenato e a cumbia se apresentando entre mesinhas ao ar livre na Plaza Santo Domingo. É onde está a igreja homônima, de 1552, considerada a mais antiga da cidade, além de La Gorda, escultura rechonchuda de Fernando Botero.

 

Restaurar e adaptar casarões coloniais de forma harmônica virou uma bem-vinda obsessão dos empresários locais, como se percebe na série de hotéis-butique e restaurantes inaugurados nos últimos anos. Bons exemplos são o Hard Rock Café e o renomado restaurante La Vitrola, que funcionam em belos casarões do século 16. A prática se difundiu também graças ao reconhecido curso sobre o tema ministrado a arquitetos do mundo todo nas instalações do Museu Naval Del Caribe. A construção do século 17 é frequentada por uma juventude de cabelos e roupas moderninhas que conhece de cor as melhores casas de rumba da cidade amuralhada e da vizinhança boêmia de Getsemani. Em fevereiro, a frente do museu marinho tem outro motivo para reunir gente interessante: o lugar fica diante da sede do badalado Festival de Cinema de Cartagena, que movimenta a cidade há cinquenta anos.

 

Delicada restauração

O que a estilista colombiana Silvia Tcherassi fez ao criar, no ano passado, o Tcherassi Hotel + Spa em uma construção de 250 anos, foi um primor típico da renovação cuidadosa a que tem se submetido Cartagena. Os sete quartos dão para um pátio interno com uma piscina ladeada por um jardim vertical com 3 mil plantas. O toque fashion é dado pelas funcionárias, que desfilam peças da grife que mantém uma loja de moda feminina a poucas quadras.

 

Já o cinco-estrelas Sofitel Santa Clara, apesar de ostentar 162 quartos, impressiona por manter o clima intimista neste bem restaurado convento de monjas clarissas de 1617. Suas instalações sediam eventos portentosos – como a festa do casamento do ex-piloto de F1 colombiano Juan Pablo Montoya, em 2002 –, e serviram como pano de fundo para outra obra de Garcia Márquez, Do Amor e Outros Demônios. Foi aí que o sacerdote Cayetano Delaura se apaixonou pela jovem que iria exorcizar, Sierva María de Todos los Ángeles.

 

Bem que poderiam ser extraídas de um livro de realismo fantástico as memórias verídicas do Palácio da Inquisição de Cartagena. Por trás de sua impressionante entrada barroca de pedra do século 16 funciona um museu que narra, a partir de uma dúzia de instrumentos de tortura horripilantes, como foram punidos cerca de 800 hereges que não seguiam a linha dura do tribunal do Santo Ofício católico. Já a Puerta del Reloj, entrada que dá acesso à praça onde esses escravos eram vendidos, trocou suas lembranças duras por uma realidade bem mais doce: os arcos do Portal De Los Dulces, onde caramelos típicos são vendidos em uma fileira de banquinhas de rua. Ali foram gravadas boa parte das cenas da versão cinematográfica de O Amor nos Tempos do Cólera, com os atores Javier Bardem e Giovanna Mezzogiorno interpretando os protagonistas.

 

Embora o território encantado de Cartagena se concentre entre seus muros de até 15 metros de espessura, há outros bons registros de sua história heroica do lado de fora. O Castillo de San Felipe de Barajas, que começou a ser erguido no século 17 no alto da colina vizinha de San Lázaro, organiza tours curiosos por seu complexo sistema de túneis. Em um morro ao lado, o Convento de La Popa oferece as melhores vistas para observar Cartagena de cima a partir do Convento de Nuestra Señora de La Candelária, de 1607.

 

Nenhum deles, porém, substitui o prazer de se caminhar ao lado – e até sobre – as míticas muralhas cartageneras. O ponto alto de quem flana por suas rochas seculares é o entardecer na ponta diante do oceano onde fica a filial colombiana do Café Del Mar, famoso lounge-bar da Ibiza espanhola. Mesas, balcões e tatames almofadados convidam a se largar, tomar um drinque e esperar o pôr-do-sol ao som de música eletrônica de primeira linha. Casais apaixonados estão sempre presentes – e, claro, solteiros também. Afinal, não há lugar melhor para arriscar um romance, talvez inspirado no de Florentino Ariza e Fermina Daza, do que sobre as muralhas românticas de Cartagena.

 

(BOX)

 

O melhor das ilhas do Rosário

Embora o charme de Cartagena esteja dentro de seus muros históricos, que ficam diante de praias que perdem feio para as brasileiras, a cidade acaba de ganhar, enfim, um hotel luxuoso para quem faz questão de se hospedar bem e à beira-mar. O Royal Decameron Baru (tel. 318/415 2063, www.decameron.com) foi recém-inaugurado em Baru, uma das ilhas do Rosário, normalmente conhecidas em passeios de barco por meio período. A última novidade entre os 36 hotéis da rede é acessada depois de 1 hora e meia de carro desde o aeroporto. Além das três piscinas, o resort tem spa, quatro restaurantes, uma praia particular, centro de convenções para 700 pessoas e serviço all inclusive. Até o início de 2011, estarão funcionando todos os 330 quartos com vista para o Caribe.

 

(SERVIÇO)

 

PARA FICAR

SOFITEL SANTA CLARA

(Calle Del Torno, 39-29, tel. 575/650 4700, www.hotelsantaclara.com) O mais badalado hotel da cidade antiga levou cinco anos para restaurar o convento onde funciona. Tem 162 quartos, restaurante, lounge-bar, auditório para 300 pessoas e seis salões de eventos.

 

HOTEL BOUTIQUE LA MERCED

(Centro Calle Don Sancho, 36-165, tel. 575/664 7727, www.lamercedcartagena.com) Estiloso e repleto de móveis de design, fica em um predinho do século 18. Tem até suíte avarandada com banheira de hidromassagem de frente para o mar, na mais chique das oito suítes.

 

TCHERASSI HOTEL + SPA

(Calle Del Sargento Mayor, 6-21, tel. 575/664 4445, www.tcherassihotels.com) Além dos sete quartos exclusivos, conta com o refinado restaurante Vera, de cozinha italiana, um deque com piscina na cobertura e o pequeno spa da rede espanhola Germaine de Capuccini.

 

PARA COMER

LA VITROLA

(Calle 33, 2-01, tel. 575/664 8243) Funciona em uma casa de 400 anos e leva o nome de uma relíquia musical de 1904, que fica na entrada. O chef Steven Acevedo é especialista em frutos do mar e o jantar costuma acompanhar música cubana ao vivo.

 

LA CASA DE SOCORRO

(Calle Larga, 8B-12, tel. 575/664 4658) Fica fora das muralhas e não tem luxo algum. Os salões com ornamentos de gosto duvidoso vivem lotados de locais, que buscam a verdadeira comida típica. Capricha nos frutos do mar.

 

PARA AGITAR

CAFÉ DEL MAR

(Baluarte de Santo Domingo, tel. 575/664 0506) Este é “o” lugar para se estar sobre as muralhas, especialmente no início da noite, apesar dos drinques caros. Tem bons DJs, brisa do mar, tatames com almofadas e gente bonita de todas as idades.

 

MISTER BABILLA

(Avenida Arsenal, 8B-137, tel. 575/664 7005, www.misterbabilla.com) Uma das melhores baladas desta agitada avenida no bairro de Getsemani recebe mais de mil bailadores nas rumbas animadas de sexta e sábado, e chama a atenção pelos salões exageradamente decorados.