Hoi An, no Vietnã, é um templo de charme e delicadeza

Era fim de tarde do meu primeiro dia no Vietnã e decidi fazer aquela caminhada inicial de exploração no entorno do meu hotel, o Anantara, que fica bem ao lado do Centro Histórico. Eu estava em Hoi An, uma cidade colonial tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco mas pouco visitada por brasileiros – que conhecem mais as metrópoles de Hanói e Ho Chi Min (a antiga Saigon) e a fantástica baía de Halong.

 

Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Assim que adentrei as ruas de paralelepípedos da Old Town, a Cidade Antiga, sempre fechadas ao trânsito motorizado, já me senti entrando em uma redoma de paz. Afinal, o enxame de motocicletas que buzinam o tempo todo no Vietnã tinha ficado para trás. Aos poucos me vi cercado por casarões e sobrados preservados de quando aquele era um importante porto do Sudeste Asiático, entre os séculos 15 e 19. Hoje ocupadas por cafés, restaurantes, galerias de arte e lojas, as construções incorporaram nas decorações internas e nas fachadas um costume oriental que se tornou o símbolo de Hoi An: as lanternas coloridas. Bastou a noite ameaçar chegar e as luzes foram sendo acesas uma a uma, enchendo meu caminho de cor e magia.

 

Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

O encantamento de boas-vindas estava só começando e se prolongaria pelos meus cinco dias ali. A começar pela surpresa daquele primeiro entardecer – que não tinha acabado. Quis me perder entrando em uma viela e me deparei com uma cena inesquecível. Do alto da pequena ponte que conecta o bulevar na beira do Rio Thu Bon com o mercado noturno da ilhota vizinha de An Hoi, dezenas de pessoas soltavam na correnteza umas espécies de barquinhos coloridos de papel com velas acesas.

 

Ritual de acender velas em barquinhos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara Hoi An)
Velas em barcos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara)

 

Eu já tinha visto antes algumas fotos daqueles arranjos em forma de flor de lótus flutuando entre os barcos do cais, mas acreditava se tratar de um ritual raro. No dia seguinte, meu guia Nguyen Van Trieu me explicaria: os visitantes têm repetido diariamente a cerimônia de encaminhar desejos a Buda que antes só era feita pelos nativos em datas especiais. Sorte de quem está lá na lua cheia: dizem que o comércio desliga suas luzes para que apenas as velas dos rios sejam o destaque no cenário de sonhos de Hoi An.

 

Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Ninguém diz exatamente quando a tradição teve início. Sabe-se apenas que o comércio fluvial no estuário do Rio Thu Bon data do século 7, quando o império do povo Cham dominava a região. “Hoi An sobreviveu incrivelmente aos muitos conflitos que o Vietnã tem vivido, ao longo da história, com países como China, Japão, França e Estados Unidos”, me contaria o guia Trieu, durante a caminhada histórica pela fascinante Old Town.

 

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A Ponte Japonesa, que aniversaria em 2017

 

A parada principal do tour, a Ponte Japonesa, por sinal, comemora 400 anos em 2017. Restrita a pedestres e com um altar a Buda em seu anexo, a ponte um dia dividiu Hoi An em chineses para um lado, japoneses para outro. E até hoje serve de fundo para as pomposas fotos dos casais de noivos da região.

 

Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Desde que Hoi An abriu suas portas ao turismo, nos anos 1990, quando se libertou do embargo imposto pelos Estados Unidos ao país desde a Guerra do Vietnã, antigos inimigos passaram a conviver em harmonia no ambiente cosmopolita de Hoi An.

 

Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Os chineses costumam constatar sua influência cultural nos muitos templos budistas. Japoneses adoram circular e fotografar sentados em algo parecido com um carrinho de bebê para adultos, sempre empurrados pela bicicleta de um vietnamita. Já os franceses se orgulham por terem inspirado a boa mesa em Hoi An. E os americanos são os campeões das encomendas de roupas sob medida nas muitas alfaiatarias da cidade.

 

Detalhe do passeio no barco do Anantara Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Detalhe do passeio no barco do Anantara (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Sete em cada dez habitantes vivem do turismo, conduzindo sempre de forma doce e sorridente os visitantes em passeios de barco (os noturnos são os mais charmosos), nas pedaladas até a praia no Mar do Sul da China (a 5 quilômetros dali, cruzando arrozais) e atendendo em lojas bacanas que vendem de pôsteres originais de inspiração socialista até réplicas dos lendários barcos que ancoraram no mítico porto de Hoi An.

 

Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool  (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Eu fiz e recomendo de tudo um pouco – os passeios, as roupas, a pedalada… E, é claro, o lindo ritual das velas no rio para perpetuar a tradição.

 

Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

SANTUÁRIO DE MY SON: VALE A ESTICADA

Investi um dia da minha estada em Hoi An para uma bela esticada: a visita ao Santuário de My Son. Localizada a 1 hora de Hoi An, My Son consiste em várias ruínas arqueológicas da antiga capital política e espiritual do Império Champa, do povo Cham, que habitou essas montanhas entre os séculos 4 e 13. Com pequenas torres e culto a deuses hindus, elas fazem lembrar a arquitetura de Angkor, os fantásticos templos do vizinho Camboja, e se tornaram outro Patrimônio da Humanidade vietnamita.

 

Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Serviço:

Durma bem

Dúvida crucial na hora de reservar seu hotel: é melhor ficar na cidade ou na praia? Eu optei pelo Anantara Hoi An, coladinho no Centro Histórico, que fica à beira-rio e está a poucos passos das principais atrações de Hoi An.  E amei. Quem preferir o sossego e a brisa à beira-mar pode conferir a nova faceta do The Nam Hai, que em dezembro passou a integrar a seleção dos hotéis da rede Four Seasons.

Hotel Anantara Hoi An: meu abrigo à beira-rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Coma bem

O The Morning Glory (106 Nguyen Thai Hoc St) é um clássico: amplo, mistura especialidades vietnamitas (como o cao lau, uma sopa de noodles com carne de porco) com pratos internacionais. Menor e escondido, o NU Eatary (10A Nguyen Thi Minh Khai St) comporta no máximo 20 pessoas e serve só delícias locais em ambiente caseiro.

Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Para uma experiência ímpar, tome um chá em silêncio no Reaching Out e seja servido pelo simpático staff só de moças surdas-mudas.

Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível
Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível

 

Viaje bem

Não existem voos diretos entre Brasil e Vietnã. A rota mais corriqueira é via Bangkok, na Tailândia, servida por várias companhias aéreas brasileiras. Da capital tailandesa, sim, voa-se, sem escalas em voos de 1h40, à Danang, cidade a 30 quilômetros de Hoi An. A viagem pelo Vietnã pode ser incrementada se incluir Hanoi, Halong Bay e Ho Chi Min.

Comércio local: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Comércio local de roupas: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Código de ética Same Same: o jornalista Daniel Nunes viajou ao Vietnã por sua conta e pagou suas despesas em Hoi An de transporte, alimentação e passeios. A hospedagem no hotel Anantara Hoi An foi uma cortesia.

Em um workshop de fotos de viagem

No último mês tive o privilégio de participar de um workshop de fotografia de viagem bem legal. Aconteceu no Madalena Centro de Estudos da Imagem, e teve como mestre o Haroldo Castro, um dos mais rodados viajantes que conheço. Jornalista e fotógrafo talentoso e experiente, o Haroldo misturou esse background profissional com a paixão pela estrada e criou a Viajologia, uma agência que organiza jornadas para destinos exóticos como a Etiópia e Mongólia. Foi o Haroldo, por sinal, quem forneceu algumas imagens para minha reportagem sobre Etiópia no Estadão. No curso da Vila Madalena, ele orientou a mim e a outros amantes da foto a registrar, com olhar de estrangeiro, a Feira da Liberdade. O resultado foi publicado em dois posts da coluna dele na Revista Época – um sobre o lado oriental e outro sobre a porção ocidental da feira. Confira as fotos.

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Estadão publica reportagem da Etiópia

Acabou o mistério: pra quem não estava entendendo o meu sumiço nos últimos dias, hoje veio a resposta. Nesta terça-feira, dia 15, foi publicado no Caderno Viagem, do Estadão, minha matéria sobre a Etiópia (ao qual me dediquei desde que voltei ao Brasil). São 5 páginas contando um pouco de como foram meus 5 dias no país. Parei ali na volta da viagem à Índia para o #KeralaBlogExpress e tive a sorte de acompanhar alguns rituais quase tão lindos quanto os que eles fazem nos próximos dias, durante a Páscoa da Igreja Cristã ortodoxa. Acompanhem a matéria do Estadão e voltem aqui para conhecer relatos dos bastidores nos próximos dias. Continuar lendo Estadão publica reportagem da Etiópia

Na Índia ninguém diz bom dia, por favor e obrigado

Em cada um dos, sei lá, vinte e tantos hotéis que nós, os 27 travelwriters do #KeralaBlogExpress, visitamos em 17 dias, fomos recebidos como marajás. Lindas indianas vestidas com sáris reluzentes vinham até o ônibus colocar colares de flores cheirosas nos nossos pescoços e pintar nossas testas – ou nossos “terceiros olhos” – com um pingo de pasta de cores vistosas como vermelho e amarelo (como é comum em vários templos hindus). Em meio ao aroma de incenso, toalhinhas umedecidas e refrigeradas chegavam na bandeja seguinte, em uma simpática iniciativa para amenizar o bafo quente da vida real sem ar-condicionado do mês de março no Sul da Índia. Continuar lendo Na Índia ninguém diz bom dia, por favor e obrigado

O império contra-ataca

Vinte e oito retratos de mulheres e homens comuns vestindo trajes andinos tradicionais fizeram sucesso entre limenhos e estrangeiros, de abril a setembro, que visitaram a MATE, galeria que o fotógrafo Mario Testino abriu em Lima há um ano e meio. Numa alusão provocativa aos ensaios de alta costura que costuma produzir para publicações como Vanity Fair e Vogue, o peruano radicado em Londres batizou a mostra de “Alta Moda”. “Voltei às raízes para explorar a herança do meu país e mostrar ao mundo a riqueza de nossa cultura”, afirmou, satisfeito pelo sucesso da exposição tê-la feito migrar para Nova York, onde vai decorar as salas do Instituto Espanhol Rainha Sofia até 29 de março. A missão de Testino parece estar sendo cumprida: o mesmo requinte da vestimenta dos camponeses de origem inca que ele fotografou na cidade colonial de Cusco ao longo de cinco anos pode ser notado no artesanato e na gastronomia do país, o que tem consagrado o Peru como o destino latino favorito de viajantes em busca de experiências legítimas.

 

Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Localizada a 1 hora de voo de Lima, Cusco tem aquele charme de cidades coloniais como Cartagena e Ouro Preto. Sua Plaza de Armas rodeada por sobrados avarandados típicos da arquitetura espanhola foi clicada por 2 milhões de turistas que ali chegaram em 2012 – mais que o dobro de oito anos atrás. Trajes típicos tais e quais aqueles registrados por Mario Testino continuam sendo orgulhosamente vestidos pela população. No entorno da cidade, que foi a capital do império inca, o mais importante da América do Sul entre 1438 e 1533, o chamado Vale Sagrado exibe uma série riquíssima de sítios arqueológicos, entre os quais se destaca o mais famoso do continente, Machu Picchu. Mesmo sem shopping-centers, parques temáticos ou atrativos artificiais,  Cusco vê sua infra-estrutura de turismo ganhar cada vez mais novos hotéis, restaurantes e museus. Com uma peculiaridade: a maioria dos investimentos foca no turismo de primeira linha.

 

Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

É na hotelaria que essa vocação para atender o viajante exigente fica mais evidente. Em 2013,  o Palácio del Inka, que surgiu nos anos 1980 sob a bandeira Libertador como o primeiro cinco-estrelas da cidade, entrou para a rede Luxury Collection Hotel depois de uma reforma de 15 milhões de dólares. Com quadros originais da famosa Escuela Cusqueña nas paredes, tetos pintados à mão e muros incas originais em sua estrutura, ele pertence ao seleto grupo de seis hotéis top que se destacam entre as 94 hospedarias de Cusco. “A elitização do turismo no Peru começou há apenas 10 anos e aconteceu ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a valorizar os destinos mais autênticos”, explica Patricio Zucconi Astete, veterano do turismo local. Ele gerencia atualmente o Miraflores Park, de Lima, unidade da rede de luxo Orient-Express, que detém na região de Cusco nada menos que 4 unidades para hospedagem de alto nível.

 

Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

No primeiro semestre de 2013, uma comitiva de 60 hóspedes da TV Globo escolheu o mais pomposo deles, o Monastério, um antigo mosteiro do século 17, para abrigar o elenco e a equipe de apoio da novela Amor à Vida. Nos jantares, Paolla Oliveira e seus colegas puderam assistir às apresentações de ópera que tinham no elenco Angela Merina, respeitada como melhor soprano do Peru. Mais moderno, o vizinho Palácio Nazarenas conta com habitações com chão do banheiro aquecido e oxigênio para amenizar o desconforto da altitude – Cusco está 3400 metros acima do nível do mar, 2500 metros mais alta que São Paulo. Único hotel que desfruta do privilégio de ficar a 20 passos da entrada de Machu Picchu, o Sanctuary Lodge costuma ter uma taxa de ocupação invejável, com média anual de 80 por cento (o que significa que mesmo na temporada das chuvas, de novembro a março, o movimento continua intenso). Mas é na viagem de trem de luxo entre Cusco e Machu Picchu que está o créme de la crème da grife: a jornada dá direito a jantar, vinhos e espumantes, aulas de pisco sour e música ao vivo no trem Hiram Bingham ­– batizado em homenagem ao americano que, em 1911, descobriu Machu Picchu.

 

Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Vem das relíquias encontradas pela equipe de Bingham, por sinal, outra das boas novidades de Cusco: o museu Machu Picchu Casa Concha. Inaugurado em 2011, ele conta com 366 peças arqueológicas incas que estiveram por um século no Museu de História Natural de Peabody, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. E soma-se a outros museus de boa curadoria da cidade, entre eles o de Arte Precolombino, que pertence ao grupo do Museo Larco, de Lima, dono da mais fina coleção de objetos de cerâmica, ouro e prata do Peru antigo. Suas peças inspiram o trabalho da designer de jóias  Maria Elena Guevara, proprietária da Inka Treasure, rede com nada menos que 9 joalherias em Cusco. “O Peru é o segundo maior exportador de prata do mundo, só perde para o México”, explica. “Temos o privilégio de trabalhar com a prata de melhor qualidade, além de pedras raras do país, como as de crisocola, a turquesa peruana”, conta a empresária, que já atendeu clientes como Bill Gates, Dalai Lama e Antônio Fagundes. Uma estátua de um guerreiro mochica que brilha em uma de suas vitrines e levou 3 meses para ser esculpida não sai por menos de 8.500 dólares.

 

Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Por preços menos salgados que os de São Paulo ou Rio de Janeiro, os bons restaurantes de Cusco são exemplos da gastronomia mais respeitada da América Latina na atualidade. Embora já seja sócio do Chicha, considerado o melhor restaurante da cidade, o embaixador da culinária peruana Gastón Acurio se prepara para abrir uma segunda casa em breve. Ele é o dono do Astrid & Gastón, de Lima, que em setembro renovou seus louros como o número 1 entre os 50 melhores da América Latina segundo os críticos da revista inglesa Restaurant. Hoje é difícil jantar sem reserva no Chicha, que tem esse nome em homenagem a uma bebida de origem inca, normalmente feita de milho fermentado. Uma vez à mesa, os comensais degustam receitas desenvolvidas com técnicas andinas e asiáticas. Os ceviches abrem o paladar para clássicos como o anticucho – ou espetinho ­– de coração de vaca e o lomo saltado, filé de carne frito no estilo chinês.

 

Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Mas é no vestuário que os turistas – 126 mil deles vindos do Brasil, segundo dados de 2012 da PromPeru, órgão governamental que promove o turismo do país – investem seus soles com maior custo-benefício. É claro que os gorros, suéteres e cachecóis coloridos, como aqueles clicados por Mario Testino, podem ser encontrados em cada esquina com tecidos e preços populares. Quem visita lojas locais renomadas como a Sol Alpaca e a Golden Alpaca, no entanto, descobre que vale a pena pagar mais pelos raríssimos tecidos de vicunha ou de baby alpaca – esses feitos da lã dos filhotes de alguns dos bichos mais avistados nessas alturas dos Andes. “Um gorro de qualidade não vai custar menos que uns 50 reais, mas vale a pena”, atesta a advogada Thalita Rosa, que viajou com o namorado, o engenheiro Mateus Carmona, em junho. “Contratamos um motorista exclusivo para explorar os arredores, comemos muito bem e ficamos fascinados com a riqueza das tradições do Peru”, conta Thalita, que voltou de viagem com outra recordação mais que especial. Foi nas alturas do Wayna Picchu, a maior montanha diante de Machu Picchu, que Matheus lhe surpreendeu com um par de alianças e um pedido de casamento. E deixou a experiência de conhecer o Peru ainda mais inesquecível.

 

Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)
Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)

 

Para ver a reportagem como publicada na Veja Luxo, inclusive com fotos de Mario Testino, baixe o PDF.

 

SERVIÇO:

CHICHA: www.chicha.com.pe

GOLDEN ALPACA: Plaza de Armas, 151, tel. +51 84 25-1724

INKA TREASURE: www.incatreasure.com.br

MACHU PICCHU: www.machupicchu.gob.pe

MATE (LIMA): www.mate.pe

MIRAFLORES PARK HOTEL (LIMA): www.miraflorespark.com

MONASTÉRIO: www.monasteriohotel.com

MUSEU DE ARTE PRECOLOMBINO: www.map.museolarco.org

MUSEU MACHU PICCHU CASA CONCHA: www.cuscoperu.com

PALÁCIO DEL INKA: www.starwoodhotels.com

PALÁCIO NAZARENAS: www.palacionazarenas.com

SANCTUARY LODGE: www.sanctuarylodgehotel.com

SOL ALPACA: www.solalpaca.com

TREM HIRAM BINGHAM: www.orient-express.com

Pedindo votos para ir a Kerala, Índia

Atenção, tripulação: termina na quarta, 15 de janeiro, a votação da #keralablogexpress para eleger os 20 blogueiros de viagem de todo o planeta que farão parte de um expedição por #Kerala, a linda região do sul da Índia. Trata-se de uma bela idéia do Departamento de Turismo de Kerala para incentivar o turismo utilizando a melhor ferramenta de divulgação de destinos da atualidade: os blogs. Seja um cabo eleitoral do Same Same! Clique em http://keralablogexpress.com/user/single_participant/8196 , dê seu voto, compartilhe pelo Facebook e convoque seus amigos a votar também!

Gelo à vista

As boas-vindas não parecem lá muito amigáveis. “Quatro questões jamais devem ser feitas a bordo: para onde vamos, quando chegaremos, por quanto tempo permaneceremos ali e como estará o clima.” Disparadas à queima-roupa logo após o embarque, num inglês com sotaque germânico, as frases proibidas no navio MF Fram não deixam dúvida de que estou em um cruzeiro diferente. “Na Antártica, quem manda é a natureza, e as mudanças climáticas são rápidas e imprevisíveis.” A dona da voz é Anja Erdmann, líder da expedição, que fala quando o barco da empresa norueguesa Hurtigruten afasta-se de Ushuaia, na Argentina, na pontinha mais ao sul da América. Os 207 passageiros de 16 nacionalidades zarpam sabendo apenas que, até chegar às abrigadas águas da Península Antártica, leva-se 3 dias percorrendo a Passagem de Drake, área famosa por seus naufrágios, onde Atlântico e Pacífico duelam. Depois de cruzá-la, continua a loirinha, a definição do roteiro se dá de acordo com os humores da neve, das ondas e dos ventos. A convocação para que o exército de aventureiros vista coletes salva-vidas e siga para a simulação da evacuação de emergência reforça: embarcar em um cruzeiro antártico é para viajantes com espírito desbravador.

 

Trekking na ilha Deception
Trekking na ilha Deception

 

Conhecer a Antártica nunca foi tão fácil. Segundo o guia de mochileiros Lonely Planet, o continente inexplorado brilha como o segundo lugar mais “quente” a visitar em 2014  – o primeiro é o Brasil, é claro, em função da Copa. Já existem 50 cruzeiros oferecendo pacotes a partir de 10 dias por cerca de 7.000 dólares, sem parte aérea. Na temporada passada, de novembro de 2012  a março de 2013, eles levaram nada menos que 35.000 pessoas. Em “cruzeiros de expedição” como este, não há cassino, shows a la Broadway, free-shops ou piscinas. Na minha cabine solitária, além de cama e banheiro (com água quente, ufa!), há apenas uma escotilha de onde se vê só céu e mar. Ah, e televisão, com 80% da programação tendo o extremo sul como tema. O entretenimento principal das duas centenas de horas na embarcação são as (ótimas) palestras. No primeiro dia, assisto a de pinguins, a de baleias e a de um geólogo norte-americano, Bob Rowland, que contou de seus estudos no Polo Sul em 1962 e 1963. Isso pouco depois do início das primeiras viagens turísticas à Antártica, em 1958, que provaram ao mundo que a última fronteira da Terra podia ser visitada por simples mortais como nós.

 

Port Lockroy: tem até correio
Port Lockroy: tem até correio

 

MEU PRIMEIRO ICEBERG

Terceiro dia. Para alívio dos marujos, superamos nas últimas 24 horas um Drake sem tempestades. O enjoo do mar chegou e foi embora. Já decorei o nome de vários dos 50 simpáticos tripulantes das Filipinas que atendem em locais como o restaurante e a sala de empréstimos de galochas. E meu fascínio pelas explorações antárticas cresceu substancialmente depois de assistir a documentários como o da conquista do Polo Sul, protagonizada pelo norueguês Roald Amundsen, em 1911, em um barco chamado Fram que inspirou o batismo deste. Também amei o longa sobre a saga de Sir Ernest Shackleton, o irlandês capitão do barco Endurance que tentou atravessar, com 27 homens, o continente gelado a pé em 1914, noventa anos atrás. Devoro mais um dos filmes da TV – acho que sobre as aves antárticas que acompanham o deslizar do navio – quando a voz daquela Angela Merkel dos mares ecoa, pelos auto-falantes, que um iceberg se aproxima.

Olho pela escotilha e lá está ele. Meu primeiro iceberg. Lindo. Gigante. Leve. É como se um quarteirão de 1,5 quilômetro com altura de um prédio de 3 andares flutuasse, quebrando com seu branco a monotonia azul de céu e mar. Um tom de turquesa-do-Caribe denuncia sua beleza submersa: como aprendi na lição-de-casa, 90% dos corpos desses blocos de gelo desprendidos dos glaciares esconde-se sob a superfície. Visto casaco para temperaturas negativas, corta-ventos, gorro, cachecol, luvas, óculos de sol. E, câmera na mão, corro para o terraço do sétimo andar para observá-lo em meio ao vento congelante. Meu iceberg não vem só. Outros correm em nossa direção. Chego a acreditar que nos aproximamos, enfim, da Antártica. Não há no horizonte, porém, sinal algum de terra à vista.

Engano meu. Quem chega à Península Antártica não aterrissa num grande continente no fim do caminho. Também não encontra um porto, o mar de outra cor ou qualquer referência que prove que alcançou o destino. No meio do marzão sem fim, surge uma ilha numa manhã, outra à tarde, e assim por diante: estamos na Antártica. A primeira em condição de desembarque aparece nesse terceiro dia, anunciada por uma nova chamada radiofônica. Aí sim nossa führer alemã dá todas as respostas e avisa: onde vamos – Baía Half Moon, no arquipélago das Shetland do Sul –, quando chegaremos – em 20 minutos –, por quanto tempo – 1h15 para cada grupo de 8 pessoas que lotar um bote inflável – e como está o clima – 1o C. Com apenas dois quilômetros, a ilhota parece um amontoado de rochas cinzas pontiagudas habitada por uns 2.000 casais de pinguins chinstrap (aqueles “de máscaras”) e seus filhotes. Um bote de madeira abandonado na praia de pedras dá o clima de que pisamos na terra firme do fim de mundo desabitado. Por estar vizinha à ilha Livingston, forrada por neve, Half Moon é um cenário fantástico para fotos.

 

Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo
Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo

 

DESEMBARQUE CANCELADO

A tal imprevisibilidade meteorológica da Antártica fica comprovada no quarto dia. Ventos de mais de 100 quilômetros por hora provocam o cancelamento da descida prevista para a ilha de Brown Bluff. Antes do vendaval, felizmente, conseguimos desembarcar sob o frio de apenas -4o C, ainda que com sensação térmica de -17o C, na Baía Esperanza. Ela abriga, desde 1951, uma base permanente da Argentina, país que está entre as 27 nações com estações científicas na região (a do Brasil, na Ilha Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica, foi totalmente destruída por um incêndio em 2012). Cerca de 50 pesquisadores argentinos integram o seleto grupo de moradores temporários do continente, que não costuma passar de 150 habitantes. A neve ininterrupta e o nevoeiro intimidador que assolam nosso passeio por algumas das 40 construções alaranjadas – o refeitório, a escola, a capela, o mini-museu… – dão uma ideia de quão sofrida foi a estada forçada dos três náufragos da expedição Nordenskjöld, entre 1901 a 1904 (conforme eu havia aprendido na palestra do engenheiro polonês Henryk Wolski). Os restos do abrigo de pedras improvisado estão intactos.

Mas é no quarto dia, na ilha Deception, que a Antártica se apresenta realmente como uma terra de ninguém.  Ao passar no corredor de 150 metros de largura entre as rochas apelidadas de “foles de Netuno” e adentrar na cratera submersa desse vulcão ativo, o MF Fram parece chegar a um lugar inóspito onde nem pinguins, navegadores do século passado ou cientistas pisaram. Com 12 quilômetros de diâmetro, a caldeira de águas verdes abrigadas tem praia e pedras negras vulcânicas lindamente cobertas pelo branco da neve. A caminhada ao alto de seu morro de 540 metros de altitude é o ápice da experiência de isolamento e pequeneza proporcionada por uma incursão dessas: só há a vastidão branca, o silêncio ensurdecedor, a paz sem fim. O trekking de 3 horas à tarde, na baía Whalers, um centro baleeiro abandonado, catapulta o grupo a um estado de contemplação tão ou mais nirvânico, tamanha a beleza das formas dos glaciares e o contraste das cores na paisagem. Afinal o céu azul agora está de volta, e com ele o Sol que reflete um brilho que pode cegar. Em Deception, os sedentos por uma experiência ainda mais sensorial são convidados a dar um tibum de no máximo 5 segundos nas águas menos frias do pedaço. É quando descubro o deleite incrível do oceano com 1o C.

 

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Passeio de bote para avistar o leopardo marinho

 

COMO EM UMA PRAIA DESERTA

Se desembarcar em Deception provoca uma espécie de versão polar daquele prazer único de encontrar uma praia paradisíaca só pra você, caminhar por Porto Neko, primeira parada do quinto dia, faz lembrar um safári africano – só que no gelo. Neste raro ponto da Península Antártica onde se caminha em solo continental, o mundaréu de pinguins gentoos nem se assusta com os estrondos das avalanche dos glaciares. Tampouco as focas, baleias, leopardos e elefantes marinhos que se exibem para os zooms das câmeras e binóculos durante os passeios de bote-inflável. À tarde, no casebre preto e vermelho de Port Lockroy, uma base britânica, todo aspirante a conquistador se rende à sua faceta de turista. Na loja de souvenirs do simplório museu local, dá para fazer um shopping rápido e despachar um cartão-postal na única caixa de correio do pedaço.

À medida que o navio chega ao ponto mais ao sul da expedição, a latitude 65o Sul, no sexto dia, uma série de montanhas nevadas passa a formar um corredor de 1,6 quilômetro de largura e 11 quilômetros de extensão. Estamos no Canal Lemaire, o cenário mais espetacular para demarcar a meia-volta e o início do longo caminho de volta, agora com a bússola apontada para o Norte. Antes, uma parada na Ilha Danco, para ver o pôr-do-sol entre os 1700 casais de pinguins gentoos. Bem disse a capitã: o clima da Antártica é mesmo surpreendente. E marca para sempre a vida do aprendiz de explorador que pisa naquele território onde pouca gente chegou.

 

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COMO IR

Tradicional operadora de cruzeiros de expedição à Antártica e ao Ártico, a norueguesa Hurtigruten opera saídas com número de dias e rotas variados. Entre as opções está a rota de 10 dias entre os 200 passageiros do navio Fram, apresentada nessa reportagem. Preços a partir de 6.300 dólares. www.hurtigruten.com

Especializada em roteiros ao extremo sul, a brasileira Zelfa Silva, da Antarctica Expeditions, trabalha com navios para 68 a 189 passageiros em viagens de 10 a 19 dias. Pode-se fazer toda a travessia da Passagem do Drake por barco desde Ushuaia ou voar a partir de Punta Arenas, no Chile. Os preços, sem aéreo, partem de 7.000 dólares. www.antartida.com.br

Carta a Aung San Suu Kyi

Cara Aung San Suu Kyi, a Senhora não me conhece. Sou um viajante brasileiro que havia planejado passar férias no Sudeste Asiático, incluindo no roteiro a sua pátria, Mianmar, que desde 1989 também conhecemos como Birmânia – e que a Senhora prefere tratar com o nome original, Burma. Qual não foi minha surpresa ao descobrir, enquanto pesquisava sobre sua terra, que a vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1991 não incentivava o turismo de grupos de estrangeiros nestes tempos de transição da ditadura para o regime democrático. Entendo. Não deve ser fácil para uma ex-prisioneira política que viveu 15 de seus 77 anos em prisão domiciliar ver que ainda há tantas reformas a serem feitas, especialmente com relação aos direitos humanos.

O que me estimulou a embarcar foi ler que, em 2011, os movimentos pró-democracia derrubaram o boicote ao turismo de estrangeiros. E que a Senhora também passou a acreditar que viajantes independentes podem, sim, contribuir para o renascimento de Mianmar – especialmente se fizerem uso dos pequenos hotéis e restaurantes da população mais humilde. Foi o que fiz, e lhe escrevo para compartilhar. Voei primeiro à Tailândia e de lá parti para presenciar o despertar dessa nação tão isolada, onde celular e internet são novidades.

Nas ruas e hospedarias por onde passei ao longo de dez dias vi o retrato da Senhora – ou The Lady, com letra maiúscula, como a tratam ali –, sempre ao lado das fotos de seu pai, Aung San, mártir nacional da luta pela independência contra o colonialismo britânico nos anos 1940. E voltei deslumbrado com os cenários incríveis, as diferenças culturais marcantes e os sorrisos desse povo cheio de esperança que começa a se abrir para o mundo.

 

Yangon, a “terra do nunca”

Yangon é a “terra do nunca”. Bastou que a fotógrafa Andréa D’Amato e eu pousássemos na maior cidade do país para experimentarmos uma série de situações inéditas. Eu nunca havia visto saguão de embarque de aeroporto com publicidade de vasos sanitários, objeto de desejo para a maioria dos quase 60 milhões de habitantes que usam banheiros com um buraco no chão.

No caminho do táxi para a antiga capital, paramos para abastecer em um “posto” sem paredes nem teto: a gasolina ficava exposta ao sol, em garrafas pet. E ao encararmos o trânsito da região central, aquela Babel impressionava com um cenário que contrastava paus-de-arara abarrotados de gente com grupos de idosos praticando tai chi chuan sobre os viadutos. Homens vestiam saia até os pés – os longyis –, mulheres e crianças tinham as bochechas besuntadas de thanakha – um protetor solar feito da pasta da cortiça – e até os monges, descalços e com túnicas bordô, mascavam e cuspiam uma espécie de chiclete (comum em países da Ásia) feito com noz de areca, que deixa os dentes vermelhos como sangue.

Também nunca estivéramos em uma metrópole em que os carros, caindo aos pedaços, podem ter volante à direita ou à esquerda. A memória busca referências: aquelas carangas dos anos 1950 diante de prédios baixos de cores fortes, roupas no varal da sacada e emaranhados rocambolescos de fios nos postes remetem à Havana cubana, vitimada pela ditadura na mesma época que Mianmar. Na hora de fazer o câmbio para adquirir o kyat (lê-se djet), a moeda local, constatamos não ser lenda a rigidez para só trocar dólares americanos impecáveis. Se existir qualquer sujeirinha ou indício de que a cédula já foi dobrada, ela será devolvida. E sem chance de usar cartões de crédito ou débito.

Seguindo as instruções da Senhora, nos hospedamos em uma pensão familiar. May Fair Inn é limpinha, com banheiro privado, ventilador de teto e chuveiro de água quente. Pena que U Zaw Win, o dono, não falava uma palavra de inglês, assim como a maior parte dos 4,3 milhões de habitantes da cidade. Desenvolvemos a linguagem gestual, também para trocar dinheiro, comer e visitar algumas das 2 mil lojas do mercado Scott, construído em 1926 e rebatizado de Bogyoke Aung San em homenagem ao pai da Senhora. Além de comprar roupas e artesanato, ficamos intrigados com as balanças nas quais aquele que se pesa ganha a previsão astrológica do dia.

Astral mesmo foi conhecer o Shwedagon Paya. O mais reverenciado templo budista do país, erguido há pelo menos dez séculos, hoje exibe mais de 60 estupas (tipo de monumento cônico) repletas de estátuas de Buda. A placa da entrada indicava ser proibido entrar com calçados, meias, bermudas ou “spaghetti blouses” (camisetas com alças finas). Encantados por mantras e incensos, descobrimos na tabela de um dos guias do templo o dia da semana em que nascemos. Assim, pudemos repetir o curioso ritual de regar várias vezes a imagem do “nosso” Buda – o meu é o da quinta-feira. Para encerrar nossas boas-vindas douradas em Yangon, assistimos ao acender das luzes e ao mágico reflexo das torres no céu, algo que também nunca havíamos visto antes.

Os ETs de Mandalay

O albergue se chamava E.T. – porém, os extraterrestres éramos nós, desnorteados naquele feioso centro de Mandalay, cidade para onde voamos por 1 hora desde Yangon. Até que um anjo caiu do céu. “Ming la ba”, nos saudou um sorridente moreninho de nome Aung Aung (pronuncia-se Ã-Ã) , oferecendo seu serviço de motorista. Teríamos o luxo de contar com um condutor que queria praticar inglês e guiava um veículo pitoresco, o trickshaw, bike que carrega na lateral uma espécie de cesto sobre rodas onde se sentam dois passageiros. Graças às suas pernas fortes, rodamos tanto que no fim do dia já estávamos achando Mandalay bonitinha. Visitamos o secular monastério Shwenandaw Kyaung, todo esculpido em teca, uma forte madeira escura. Experimentamos a mohinga, uma típica sopa de noodles, no despojado restaurante local Aye-Myit-Tar (onde o guardanapo da mesa é um rolo de papel higiênico, como é prática em todo o país); e curtimos a noite de sexta-feira ao melhor estilo local, tomando chá preto adocicado com leite condensado sentados em mesinhas de criança.

Nosso novo-melhor-amigo-birmanês foi a boa companhia no espetacular teatro de marionetes. E Mandalay mostraria novamente por que é considerada a capital cultural de Mianmar no show de humor dos Moustache Brothers. Os três irmãos com bigode (o de um deles, postiço) se apresentam na garagem de casa ao som de música nacional em um saudoso tocador de fitas cassete. Repletas de piadas criticando desde a corrupção do governo até a produção de heroína no país, as apresentações do trio foram proibidas aos birmaneses e em espaços públicos. Eles não se esquecem de que a performance na casa da Senhora, em 1996, rendeu sete anos de prisão com trabalhos forçados a dois deles, Par Pa Lay e Lu Zaw. “Até hoje Aung San Suu Kyi defende nosso trabalho”, diz Lu Maw, o único que fala inglês, aos sete estrangeiros presentes no show de sábado.

Mais impressionados ficamos quando Aung Aung nos levou para conhecer a produção de folhas de ouro. Uma fila de homens passava horas dando marteladas em pequenas barras do precioso metal, causando um barulho interplanetário, até que elas fossem transformadas em quadrados minúsculos – mais tarde vendidos para serem esfregados nas estátuas de Buda nos rituais dos fiéis birmaneses (89% da população é budista, com maioria de seguidores da conservadora linhagem Theravada). Parecia de outro mundo também a sequência de estupas brancas avistadas do alto da Colina de Mandalay. Ali planejamos a exploração dos arredores no dia seguinte, por Inwa, Sagaing e Amarapura, capitais de reinados que se alternaram no poder de 850 a.C. até o domínio britânico no século 19.

Foi uma viagem ao passado. Em Sagaing, base do império Shan em 1315, cruzamos uma das pontes imponentes para ver do alto mais templos seculares – e ficamos fascinados com as casas feitas de bambu, trabalhadas como obras de arte. Em Inwa, capital real de Burma por mais de metade dos últimos 650 anos, chacoalhamos em charrete por estradas de areia entre altares budistas em ruínas, torres tortas e artesãs tecendo tapetes de palha ao ar livre. Mas foi em Amarapura, terra que abriga uma poética ponte de madeira de 1.200 metros, que passamos o entardecer de despedida de Mandalay. Cruzamos o Lago Taungthaman num barquinho. Na volta, fizemos o tradicional footing de pôr do sol sobre a ponte U Bein’s ao lado dos monges que habitam o monastério vizinho de Maha Ganayon Kyaung. E com eles emanamos boas vibrações budistas a Mianmar e a outros lindos lugares como aquele, fossem eles – ou não – desse planeta.

Ao mar de templos de Bagan

Não há sensação melhor – para quem gosta de explorar lugares aonde pouca gente chegou – do que viajar para Bagan, o cartão-postal dos cartões-postais de Mianmar, navegando no apaixonante Rio Ayeyarwady. Embarcáramos em Mandalay ainda à noite, às 5h30 de um domingão, empolgados por encarar, sentados no chão duro de madeira, as desconfortáveis 14 horas de passeio pelo maior rio do país, que cruza Mianmar de norte a sul. Uma oportunidade rara, já que a barcaça do governo só saía uma vez por semana naquela época do ano – em junho, tempo das monções, quando toda tarde despenca um oceano do céu.

A jornada se tornou um clássico entre os mochileiros justamente por forçar a interação entre os pouquíssimos turistas e a multidão de nativos em um convés abarrotado de sacos com roupas, cestos com mangas e abacaxis e toda sorte de carga. Aquelas infindáveis horas passariam rápido como se assistíssemos a um bom filme – repleto de cenas de um rio caudaloso, pescadores em comunidades ribeirinhas, ambulantes vendendo de samosas a belos tecidos coloridos em cada uma das escalas.

O impacto visual do destino coroou a epopeia. Bagan é um mar de mais de 3 mil templos alaranjados, cujos topos se sobressaem numa planície descampada a perder de vista. Fundada no ano de 849, durante o primeiro reinado birmanês, a cidade teve seus locais de culto construídos ao longo de 250 anos, entre os séculos 11 e 13. E, oito séculos depois da glória, se transformou em um museu a céu aberto, normalmente desbravado em bicicletas ou charretes. Na zona arqueológica da Velha Bagan não mora ninguém. Os visitantes se hospedam a cerca de meia hora, seja na Nova Bagan, núcleo urbano criado na década de 1990 e polo dos melhores hotéis, seja em Nyaung U, centrinho para mochileiros. Foi ali, numa travessa da chamada “rua dos restaurantes”, que decidimos nos hospedar. Escolhemos um dos bangalôs do New Park Hotel especialmente pela facilidade de alugar ali mesmo as bicicletas.

A rotina em Bagan não poderia ser diferente: acorda-se antes de o sol nascer para, já com a água e os lanches preparados, começar a pedalada a tempo de estar no topo de um templo quando o dia amanhecer. O espetáculo das brumas se dissipando na imensidão dourada só concorre em beleza com a luz batendo na outra lateral no fim de tarde. Não importa que você se perca um bocado indo para o templo x ou o y. Delicioso é navegar ao léu. E assistir ao pôr do sol no topo dos prédios mais altos, como o Shwesandaw Paya ou o Dhammyangyi Pahto, maior de todos.

Todos que chegam ali se sentem meio que como Marco Polo, que em sua suposta visita, no século 13, teria definido o lugar como “um dos mais refinados do mundo”. Durante o pôr do sol, no entanto, dá para notar: foi-se a época em que a maior concentração de templos do planeta estava inacessível. Em 2011, já após o fim do boicote, 100 mil turistas visitaram o parque. O cenário explica. E justifica escolhas como a da francesa que se apaixonou pelo guia birmanês, abandonou Paris e hoje toca com ele o The Black Bamboo, um dos charmosos restaurantes de Nyaung U, servindo deliciosos curries e sorvetes caseiros. Ali, o cansaço e a emoção do dia são processados em jantares à luz de velas no jardim, com pés na areia, no embalo das ondas musicais da bossa nova brasileira.

No Lago Inle, a vida flutua

Prazeroso, no Lago Inle, é se deixar levar. Porção de água com 22 quilômetros de extensão por 11 de largura, o último foco da viagem repousa às margens da pacata cidade-base de Nyaungshwe, para onde voamos desde Bagan. O Inle é cenário, lar, rua e fonte de vida para a gente que ali vive, no entorno ou mesmo nas casas de palafitas dentro do lago. Seu ganha-pão vem tanto da pesca quanto das fazendas flutuantes que produzem de arroz a tomate. Aproveitamos as pernas treinadas em Bagan para conhecer parte disso pedalando. No primeiro dia, saindo da pousada Queen Inn, do solícito casal Ko Myo e Ma Sue, beiramos campos de girassóis, experimentamos a massagem birmanesa da família de Win Nyunt e degustamos o vinho local.

Mas foi no deslizar silencioso do barco que mergulhamos na alma do Inle. Nas feiras à beira d’água, mulheres de minorias étnicas, usando turbantes coloridíssimos, comercializavam de tudo. Na vila de Inthein, fomos surpreendidos pelas esculturas preservadas nos altares em ruínas de Nyaung Ohak que pareciam saídas de um filme de guerra, assim como pelo complexo de 1054 estupas dos séculos 17 e 18 no alto do Shwe Inn Thein Paya. Tentamos ver o famoso monastério dos gatos que saltam – o Nga Hpe Kyaung –, mas quando ancoramos o lugar estava mais para ser batizado de “templo dos gatos que dormem”, já que os monges não conseguiram animar nenhum dos gatos treinados. Nada no Inle, porém, se mostrou mais peculiar do que o jeito de navegar dos pescadores. Ao sair para tentar pegar alguns peixes nas suas redes em forma de cesto cônico, os barqueiros navegam em pé na proa, mexendo o único remo com a perna, em um balé de habilidade e equilíbrio bonito de ser visto.

Impulsionado pelo vento que movia as águas mansas do Lago Inle, Miu Miu, nosso simpático barqueiro, nos levou a ateliês de artesãos que trabalham com prata, madeira e tecidos raros como os feitos com flores de lótus. Entre os artistas estavam as exóticas mulheres girafas, moças com pescoços esticados por colares rígidos que ficaram populares na Tailândia, mas são originais de Mianmar. É claro que elas posavam para as fotos à espera de gorjetas. É claro também que o guia Miu Miu aprendeu a ganhar suas comissões a cada souvenir comprado por um turista. Mas o crescimento do turismo é parte do processo de abertura desse país precioso, uma mostra de que ele não congelou no tempo. Em Mianmar, entre tantas mazelas, a vida flui. É, Aung San Suu Kyi, seu antigo reino encantado apaixona quem quer que o visite. E integra-se ao mundo global em um ritmo próprio, enquanto caminha para conquistar a liberdade tão sonhada pela Senhora.

 

INFOYANGON +95(0)1: May Fair Inn – 57 38th Street, tel. 25-3454; MANDALAY +95(0)2: E.T. Hotel – 129-A 83rd Street, tel. 6-5006; Aye-Myit-Tar Restaurant – 530 81st Street, tel. 00-2357; Mandalay Marionettes Theatre – 66th Street, tel. 3-4446, mandalaymarionettes.com; Moustache Brothers Show – 80 39th Street; BAGAN (Nyaung U) +95(0)61: New Park Hotel – Thiripyitsaya Block 4, tel. 6-0322, newparkmyanmar.com; The Black Bamboo Restaurant – Yar Khin Thar Street, tel. 6-0782; INLE LAKE (Nyaungshwe) + 95(0)81: Queen Inn Bungalows – Win Quarter, tel. 20-9544; Win Nyunt Massage – Yone Gyi Road.

 

PARA VER AS FOTOS DE ANDRÉA D’ AMATO, AUTORA DAS IMAGENS PUBLICADAS NA RED REPORT, ACESSE WWW.ANDREADAMATO.COM.BR

Em Portillo, a primeira vez de um esquiador

Você começa calçando botas pesadas, de uns 5 quilos cada uma. Veste os óculos que tapam a cara inteira, depois as luvas grossas, e então agarra os bastões. Protegido por casacos impermeáveis que cobrem até o pescoço, parece um super-herói poderoso. Mas basta dar o primeiro passo para cair: primeiro, na dura realidade de que, nesta empreitada, você está na estaca zero; e depois, cair literalmente. Uma, duas, muitas vezes. No meu caso, seis, só na manhã de estreia. Mas era para pagar mico e aprender a esquiar que eu estava ali, na aula básica da escolinha de Portillo, que já viu o tombo de muita gente desde que foi construída pelo governo chileno nos anos 1940 (posteriormente comprada por norte-americanos, em 1962).

Lição número 1: perca a vergonha. Todo esquiador estreante anda feito um pato. Ou talvez um pinguim, ou como o próprio mico — afinal, os animais estão ali, representados com placas do tamanho de um ser humano na pista El Corralito, repleta de crianças. A rampa diante da porta dos fundos do hotel é uma espécie de jardim da infância também para marmanjos como eu. A segunda aula era óbvia. “Levante a coluna, olhe para a frente, flexione os joelhos, relaxe os ombros”, dizia o instrutor. Nada fácil fazer tudo isso ao mesmo tempo… Era preciso imitar as crianças, que não têm medo e, em nome da diversão, se jogam.

Eu havia alugado os equipamentos na tarde anterior, um sábado, quando começam os pacotes semanais. Mas passaria só quatro dias: como Portillo está no meio do caminho entre Santiago e Mendoza, na Argentina, aquela seria apenas uma parada naquelas férias para degustação dos melhores vinhos latinos. Os quase 3 mil metros de altitude me deixaram sonolento, sem fôlego até para subir escadas, e decidi tirar a primeira tarde para alugar acessórios e conhecer o hotel. Queria descobrir refúgios para o caso de perceber que esqui não era para mim. E achei a piscina, a sauna, as aulas de ioga… Aproveitei também para contratar os professores: teria três aulas coletivas e uma particular, com tempo livre para treinar sem monitores.

Era grande a pressão naquela primeira aula, no domingo. Com as condições climáticas ideais — céu azul de setembro, oito da manhã, 5° C, sol ainda manso e 90 centímetros de neve na base —, invejei não só as destemidas crianças que desciam voando a um centímetro de mim na pista El Corralito, mas também o colorido balé que eu via nas pistas azuis, vermelhas e pretas no alto da montanha, onde deslizavam até os profissionais das seleções norte-americana e canadense de esqui. E eu ali, caindo, levantando e aprendendo pacientemente o beabá de frear, fazer curva e ziguezaguear. E me questionava: quando vão me deixar subir no teleférico e esquiar lá no alto?

No segundo dia, tive duas boas surpresas: ser promovido para a pista La Princesa — onde, em vez de usar uma esteira rolante lenta como a de El Corralito, eu subia esquiando em pé puxado por um lift chamado Va et Vient até poder descer esquiando em uma pista mais íngreme — e o convite para conhecer o restaurante Tio Bob’s, no alto da montanha. Para chegar lá, eu subiria no teleférico, finalmente. “Portillo é uma estação pequena, familiar, e vai continuar assim”, disse o proprietário Henry Purcell, que conheci no restaurante. “Para garantir a qualidade dos serviços, não queremos crescer.”

A frase de Purcell era uma resposta a quem reclama do fato de que, diferentemente de outras estações, Portillo não tem prédios variados e modernos, mil pistas ou um centrinho urbano para badalar. Mas a proposta daquela espécie de transatlântico amarelo atracado na imensidão branca dos Andes é mesmo essa: ser uma espécie de navio familiar. Quando voltam da pista, os esquiadores se encontram em incríveis piscinas aquecidas ao ar livre bem diante da congelada Laguna del Inca. Nos dois restaurantes, os hóspedes sentam-se à mesma mesa e são atendidos pelos mesmos garçons em todas as refeições. Come-se muito. E bem. Para ser um cruzeiro, só faltam o mar e o cassino.

 

Alcancei a glória no último dia. O instrutor considerou-me apto a pegar o teleférico novamente e descer esquiando a pista verde mais difícil, a El Puma. Agora sim: desci cambaleando da cadeira, endireitei o corpo, controlei a velocidade, fiz o zigue-zague direitinho — embora, preciso confessar, tenha levado um último tombo. Mas, com aquela falta de vergonha típica das crianças, levantei e desci destemido, sentindo o vento e o êxtase de surfar no oceano de neve. Tirei a roupa de Robocop e relaxei os pés aliviados na piscina diante do lago. No jantar, é claro, brindei o sucesso da minha primeira vez retomando a proposta original da viagem: tomando um bom vinho chileno.

PANORAMA

Portillo concentra suas 30 pistas, acessíveis por 14 meios de elevação, no entorno de sua única base, o Hotel Portillo, a 2.880 metros. Fica na imensidão branca dos Andes, bem no alto dos “caracoles”, trecho da espetacular estrada em zigue-zague que leva à burocrática travessia fronteiriça entre o Chile e a Argentina.

ESTRUTURA

Tem pistas para todos os níveis: as crianças se divertem na El Corralito, os diletantes passeiam na El Princesa e os experientes descem a El Puma. Como não há centro urbano por perto, a diversão está toda ali: sauna, bares, sala de internet, quadras. E o melhor: piscinas aquecidas e ao ar livre.

TEMPORADA

De junho a setembro

 

COMO CHEGAR

O próprio hotel pode programar o traslado desde o aeroporto de Santiago, a 164 quilômetros (duas horas). Ônibus para Mendoza, na Argentina, também a duas horas, param diante do hotel se combinado com antecedência.

 

ONDE FICAR

Com 123 apartamentos, o Hotel Portillo (tel. +562/263-0606, skiportillo.com) tem uma decoração antiquada, mas cheia de clima. Uma semana custa a partir de 1.700 dólares por pessoa. Já os lodges Octagon e Inca, com quartos e banheiros compartilhados, podem sair por menos da metade — com direito a usufruir da completa estrutura do hotel.

 

Publicado na revista TAM Nas Nuvens de dezembro de 2011.

A rota dos vitrais

Nem o martelo de 1955 para testar o reflexo nos
joelhos dos pacientes, nem a foto de dom Pedro II
visitando o hospital em 1886. As relíquias que mais
se destacam no prédio da Beneficência Portuguesa,
na Bela Vista, em meio à recém-aberta exposição
que comemora seus 150 anos, são 48 vitrais. Em
especial os 33 que cobrem, desde os anos 50, três
paredes do Salão Nobre. Eles compõem o acervo
de mais de cinquenta conjuntos instalados em São
Paulo pela Casa Conrado. A empresa foi fundada em
1889 pelo alemão Conrado Sorgenicht (1835-1901),
que havia desembarcado no país catorze anos antes,
depois do fim da Guerra Franco-Prussiana. Pela
primeira vez, produziam-se vitrais nacionais como os
que eram importados da Europa e haviam iluminado
o período da Idade Média. Originária do Oriente no
século X, essa técnica minuciosa ganharia espaço
nos principais prédios públicos, igrejas e mansões
paulistanos ao longo dos últimos 120 anos.

É o caso do Mercado Municipal, da Catedral da Sé
e da Sala São Paulo, com vitrais executados ou
restaurados pelos três homens de mesmo nome
que ligaram a história da família à da capital
paulista. O patriarca não desenhava. Importava
os vidros coloridos e os colava com um filete
de chumbo conforme o desenho de artistas
convidados, seguindo a técnica difundida nas igrejas
góticas de seu país. Foi um de seus herdeiros, o
também alemão Conrado Sorgenicht Filho (1869-
1935), quem realmente exibiu talento artístico e
impulsionou a vidraria. Os painéis com ilustrações
rurais que colorem o Mercadão, no centro, desde
1932 foram feitos por Conrado Filho após uma
viagem pelo campo para fotografar referências.
Por abrigar os soldados que lutavam na Revolução
Constitucionalista, o mercado sofreu com vidros
quebrados por tiros e teve sua inauguração adiada
para o ano seguinte.

Entre os anos 20 e 30, a arte em vitrais viveu seu
primeiro auge na cidade. O quase monopólio da
Casa Conrado se deveu, em parte, a uma parceria
com o engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo.
Além de ilustrar os vitrais do Mercadão, Conrado
Filho executou as obras do Palácio das Indústrias,
de 1924, da Faculdade de Direito do Largo São
Francisco e da mansão da Avenida Paulista hoje
conhecida como Casa das Rosas, ambas de 1934. O
segundo pico de encomendas veio nas décadas de
50 e 60, já sob o comando de Conrado Adalberto
Sorgenicht (1902-1994), neto do fundador e único
dos três Conrado nascido em São Paulo. Ele levantou
os vitrais da Beneficência e da Faap, com 58 obras
de diferentes artistas – entre eles Tarsila do Amaral,
Carybé, Lina Bo Bardi, Portinari e Tomie Ohtake –
que começaram a ser instaladas em uma parede de
vitrais com 230 metros quadrados a partir dos anos
50.

“A obra preferida de meu avô era A Veneração de
São Vicente, reprodução do pintor português Nuno
Gonçalves, que está na Beneficência”, conta a artista
plástica Regina Lara Silveira Mello, neta de Conrado
Adalberto. “Essa é uma arte cara, demorada e que
está em extinção. Cada metro quadrado custa entre
3 000 e 3 500 reais.” Também vitralista, Regina é
professora da Universidade Mackenzie e ensina sobre
a história dos vitrais. “Meu avô quase morreu de
desgosto quando a Igreja Nossa Senhora do Brasil
substituiu seus originais por réplicas de acrílico”,
diz. Regina prepara o guia dos vitrais de São Paulo,
ainda em busca de patrocínio. Entre as surpresas da
publicação está o mais antigo dos 600 trabalhos da
Casa Conrado catalogados no Brasil: uma rosácea
da Igreja Luterana, na Avenida Rio Branco, no
centro, datada de 1908. Conrado Adalberto teve
apenas uma filha, Iolanda, mãe de Regina, que se
casou a contragosto do pai aos 16 anos. Por isso,
pouco antes de sua morte, o terceiro Conrado não
quis que ela assumisse a empresa e a repassou à
sua secretária. Hoje, a outrora mais importante
fábrica de vitrais da cidade funciona com apenas
seis funcionários em um escritório em M’Boi Mirim.
Vive de restaurações, como a que faz dos vitrais do
Teatro Municipal, e da fama do passado glorioso.