Cultura maori é uma boa surpresa da Nova Zelândia

Nariz com nariz. Não estranhe se você pousar na Nova Zelândia e se deparar com gente se cumprimentando assim.

 

Hongi nose to nose maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este é o hongi, tradicional saudação dos maori, primeiros habitantes da ilha. Eles acreditam que o homem, Deus e a natureza são uma coisa só, e sentir a respiração do outro é uma forma de comungar o sopro sagrado da vida. Depois de ter sido rechaçada em meados do século 20, a cultura maori está em voga. Não só entre seus descendentes de sangue, muitos com lindas tatuagens tribais pelo corpo – às vezes, até no rosto dos homens e no queixo das mulheres, como reza o costume secular.

 

Lago aérea Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O resgate do orgulho maori tem contagiado também os brancos cujos antepassados são os europeus, em especial os britânicos, que colonizaram o país. A língua maori voltou a ser ensinada nas escolas, pelo menos duas grandes exposições sobre sua arte estão rodando o mundo – uma delas chega ao Brasil em outubro – e até sua dança cerimonial, a haka, ganha mais e mais adeptos desde que passou a ser popularizada pelo poderoso time de rúgbi local, o All Blacks.

 

DSC03019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jovem, o último país a ser povoado no planeta tem o respeito à natureza e o fascínio pela aventura no DNA. Ali nasceu Sir Edmund Hillary, primeiro homem a escalar o Everest, em 1953. As paisagens do país sediaram o primeiro bungee jump do planeta, em 1988. E a fascinante diversidade natural neozelandesa seduziu o mundo, nos últimos 15 anos, com as trilogias de O Senhor dos Anéis e O Hobbit. A terra sagrada dos maori respira vida.

 

Road Trip New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrada pela ilha Norte
(ou Ao Norte, o mar)

É na ilha Norte, a mesma onde chegaram os primeiros desbravadores polinésios no século 13, que desembarcam os viajantes do século 21 dispostos a explorar a enorme variedade de ecossistemas desse pequeno território da Oceania.

 

Aérea de Bay of Islands
Bay of Islands, vista durante sobrevoo pelas ilhas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Auckland, maior cidade do país, tem 1,5 milhão de habitantes e traduz bem a faceta contemporânea tanto da porção Norte quanto da ilha Sul. Ao mesmo tempo em que seu centro cosmopolita à beira-mar esbanja soluções urbanas criativas e sustentáveis, pode-se ver ali as seculares danças maori apresentadas no Auckland Museum (o mesmo que guarda o diário de bordo de Sir Hillary no Everest).

 

Águas verdes Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O espetáculo cultural se mostra mais completo para quem dirige por 3 horas ao extremo da ilha Norte e visita o Waitangi Treaty Grounds. Localizado onde a sucessão de ilhas de Bay of Islands leva ao delírio mergulhadores e amantes de praias de sonho, Waitangi é o principal sítio histórico da nação. Em 1840, 540 líderes maori assinaram ali o primeiro acordo com os colonizadores ingleses – e que lhes garantia, entre outras coisas, a posse da terra.

 

carranca maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa e outras histórias são contadas por meio de música, de canto e da haka – a dança maori – diante de uma casa cerimonial. Também em exposição está uma waka, canoa de guerra com 35 metros e que precisa de 76 remadores para entrar na água. Os maori sempre guiaram sua navegação pelas estrelas, e há apenas dois anos empreenderam uma expedição, a Waka Tapu, navegando sem instrumentos da Nova Zelândia à Ilha de Páscoa.

aucklandmuseum.com
waitangi.org.nz
wakatapu.com

 

performance maori waitangi
Performance Maori em Waitangi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coração cultural
(ou No centro, o fogo)

Seja de barco ou de helicóptero, dá um frio na barriga se aproximar da fumaceira expelida do vulcão da White Island, embranquecendo o céu sobre o azul do Pacífico.

 

 

White Island visto de longe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bolhas de lama cinza-chumbo fervem no chão, o cheiro ruim impera, o enxofre amarelo colore o chão laranja à beira da cratera de águas verdes.

 

Vulcão borbulhante White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mais ativo dos cerca de 60 vulcões do país pode ser acessado a partir de Rotorua, cidade 3 horas de carro ao sul de Auckland.

 

helicopt White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Famosa por seus spas com poços de águas termais, Rotorua é lar de boa parte dos quase 600 mil maoris do país, que correspondem a 15% da população.

 

Te Puia geral
Gêiseres no Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cidade fica no vale geotermal de Whakarewarewa, bem em cima do chamado Anel de Fogo do Pacífico, e sempre impressionou por seus gêiseres. O famoso Pohutu, que jorra a 30 metros de altura 20 vezes por dia, é a estrela do Centro Cultural Te Puia, espécie de QG maori onde funciona sua escola de escultura em madeira e tecelagem, além de uma bela loja de artesanato.

 

Artesão maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os maori demonstraram uma imensa capacidade de adaptação nesses 700 anos e nunca pararam no tempo. O canibalismo e o poligamia viraram coisa do passado. “Temos representantes no parlamento, canal de tv, estações de rádio”, diz Karl Johnstone, diretor do Maori Arts and Crafts Institute (MACI).

 

Casa maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não somos uma cultura ancestral, mas sim um legado vivo”. Antenados nas tendências, sabem explorar seu potencial turístico. Quem visita o Te Puia degusta a comida típica (frango, legumes) cozida em caixas de alumínio dentro daqueles caldeirões naturais ferventes. Uma experiência gastronômica sem igual.

tepuia.com

 

 

Chef Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas profundezas do Sul
(ou Ao Sul, o abismo – ou a floresta)

Já teve vontade de sair voando? Basta chegar à beira dos precipícios espetaculares de fiordes como o famoso Milford Sound, cartão-postal da Nova Zelândia, para entender por quê o bungee jump só poderia mesmo ter nascido no templo natural dos maori.

 

Bungee Jump New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dona também de paisagens encantadoras como os glaciares de Franz Josef e Fox e as trilhas à beira-mar do Parque Nacional Abel Tasman, a ilha Sul tem vocação para esportes de natureza.

 

Cachoeira Milford Sound
Cachoeira em Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se os primeiros saltos de abismos começaram na ponte Kawarau, com 43 metros de profundidade, hoje as distâncias se multiplicaram: dá para saltar de 47 e de 134 metros, se lançar em pêndulos, fazer skydive.

 

Passeio de jet boat
Adrenalina no passeio de jet boat

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde 1965, adrenalina é palavra de ordem também no passeio de jetboat. “Aceleramos a 85 quilômetros por hora entre cânions de 40 metros de altura”, explica Wayne Paton, que em 2014 fez gritar de emoção naquelas águas azuis até o jovem casal real britânico, o Príncipe William e a Kate Middleton.

 

Neve Milford
Parada em topo de montanha nevada durante sobrevoo na região de Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A charmosa Queenstown, cercada por montanhas nevadas e que descansa à beira do lago azul Wakatipu, é a base para explorar desde os fiordes (de barco, de helicóptero ou em caminhadas de vários dias) até locações de O Senhor dos Anéis e O Hobbit.

 

Queenstown beira lago
Beira-lago na charmosa Queenstown

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao final de cada dia de atividade ao ar livre, amantes da natureza de todo canto do mundo transformam os 120 bares e restaurantes da pacata Queenstown em um pico de agito. E não se surpreenda se, no caminho da balada, você se deparar, como eu, com um grupo de neozelandeses gritando e simulando a haka na rua. É apenas o orgulho maori de ter nascido em uma terra tão especial.

bungy.co.nz
shotoverjet.com
milford-sound.co.nz

 

Garimpeiro Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INFO: newzeland.com; tourismnewzealand.com

FOTOS: Todas as fotos desse post foram produzidas por Daniel Nunes/@samesamephoto

 

Eagle's Nest Hotel
Vista da sacada de um único apartamento do Eagle’s Nets, em Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ONDE DORMIR:

Auckland: hilton.com
Bay of Islands: eaglesnest.co.nz
Rotorua: solitairelodge.com
Queenstown: matakaurilodge.com

Matakauri Hotel Nova Zelandia
Vista interna do hotel Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OUTRAS CURIOSIDADES:

Rúgbi ao vivo
A haka foi celebrizada internacionalmente graças às apresentações feitas mundo afora pela seleção neozelandesa de rúgbi, apelidada oficialmente de All Blacks. Se tiver oportunidade, assista ao vivo a uma partida do esporte número 1 do país. Em 17 de julho eles enfrentam a Argentina em Christchurch, e em 15 de agosto acontece o jogo contra a Austrália em Auckland.
allblacks.com

 

Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri
Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte maori no Brasil
O Brasil também viu ao vivo a exposição Tuku Iho – Legado Vivo, que já difundiu a arte maori na China e na Malásia, e que em 2015 está excursionando pela América Latina. Mais de oitenta peças esculpidas em materiais como madeira, bronze e pedra fizeram sucesso em Santiago, em Buenos Aires e no Rio de Janeiro.

Telas na República Checa
Depois de atrair 145 mil pessoas à Nationalgalerie, em Berlim, por cinco meses de 2015, a série de 44 retratos do povo maori pintados na virada do século 19 para o 20 pelo artista checo Gottfried Lindauer (1839–1926) chegou ao berço do artista. A exibição estará no West Bohemian Museum, em Pilsen, a cerca de 90 quilômetros de Praga, até 20 de setembro.
plzen2015.cz/en/

 

Helicóptero Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do alto é (ainda) mais bonito
A natureza neozelandesa dá um show quando vista de cima, em sobrevoos de helicóptero. Na Ilha Norte, a Salt Air sobrevoa as ilhas de Bay of Islands e pousa em uma rocha no meio do mar. A VolcanicAir leva desde Rotorua até o vulcão de White Island. E poucas cenas são tão lindas na vida quanto a que se vê no voo da Over the Top desde Queenstown até os fiordes de Milford Sound.
saltair.co.nz
volcanicair.co.nz
flynz.co.nz

Onde está o kiwi?
Engana-se quem pensa que os neozelandeses ganharam o apelido de “kiwis” por cultivarem a fruta homônima. Quem também tem esse nome é um pássaro bicudo que não voa e tem hábitos noturnos. Dificilmente alguém vê um deles fora de cativeiro (há alguns no Te Puia, o parque maori de Rotorua). A ilha Stewart, no extremo sul, é o melhor lugar pra encontrá-los soltos na natureza.

 

White Island em quadro
Ruínas em White Island

Jardim do Éden

Respirei fundo, olhei para o alto, apertei as fivelas da mochila com 12 quilos de carga e comecei a subir. A ladeira desaparecia montanha acima e o suor do meu rosto se misturava aos respingos do Passo das Lágrimas, um trecho da trilha banhado pelas gotas de uma cachoeira que começava no alto dos paredões de pedra com 800 metros de altura e, dispersa pelo vento, quase não tocava o chão. Estávamos no terceiro dia de um trekking planejado para durar uma semana, e havia 4 horas que eu usava pernas e braços para seguir despenhadeiro acima, me apoiando nas árvores daquele bosque espetacular. Mal acreditei quando meu grupo atingiu a superfície plana do topo, a quase 3 mil metros de altitude, em meio a nuvens que davam um ar misterioso àquele cenário raro. Entre as rochas estranhas do Monte Roraima eu notei que, na escalada de um tepui, alcançar o cume não significa chegar ao fim da linha. Aquele era, sim, o verdadeiro início de uma exploração.

 

P1160875

 

A aventura havia começado bem antes daquela pirambeira decorada por bromélias, orquídeas e espécies de plantas que só existem naquele pedaço pitoresco do planeta ― a região da Gran Sabana, onde o Norte do Brasil faz divisa com a Venezuela e a Guiana. Havíamos voado de Manaus para Boa Vista, capital do estado de Roraima, a tempo de participar, 24 horas antes da partida, de um briefing dos 12 expedicionários do nosso grupo (cinco homens e sete mulheres). De lá, cruzamos de carro a fronteira venezuelana, após 3 horas de viagem, até encontrar, na cidade de Santa Elena de Uairén, nossos dois guias locais, Leo Tarolla e Tirso Leiva. “Mais 1h30 de carro, dessa vez em veículos 4×4 por estrada de terra, e chegaremos ao povoado de Paraitepuy”, avisou Leo, um grandalhão místico que há oito anos conduz andarilhos ao cume. Ponto de partida para os clássicos trekkings de seis, sete ou oito dias pelo Monte Roraima, o vilarejo abriga um posto do Inparques, órgão venezuelano que administra o Parque Nacional Canaima ― onde está o único acesso conhecido ao morro, pelo lado sul. Registrada nossa entrada, conhecemos alguns dos 300 moradores indígenas do lugar, os chamados pemons, todos da etnia taurepang. Oito deles seriam responsáveis por carregar nossas barracas e preparar nossa comida. Pé ante pé, iniciamos os 15 quilômetros do primeiro dia.

 

P1160853

 

Tanto os taurepangs como os índios de outras etnias da região ― como os macuxis e os ingarikós ― acreditam que o Monte Roraima é o lar do deus Makunáima (mito que inspirou o escritor paulista Mário de Andrade a criar seu famoso personagem Macunaíma). Visto de Paraitepuy, que fica a 1.300 metros de altitude, o suntuoso Roraima impõe respeito com seus 34 quilômetros quadrados como se fosse uma divindade: distante, alto demais, aparentemente inalcançável ― tanto que só no fim do século 19 ele foi explorado pela primeira vez. Trata-se de um legítimo tepui, assim como o vizinho Kukenan e outras 20 formações do parque. Tepuis são mesetas com paredes abruptas e topos achatados reconhecidas como as formações expostas mais antigas da Terra: datam do período pré-cambriano, que se iniciou há 4,5 bilhões de anos. Sua aparência pré-histórica inspirou relatos como o do livro O Mundo Perdido, escrito há um século pelo escocês Arthur Conan Doyle (criador do detetive Sherlock Holmes), e serviu como cenário para a série Jurassic Park e a animação Up Altas Aventuras.

Embora nosso imaginário esperasse encontrar logo aquele território de outro planeta, onde um dinossauro poderia surgir a qualquer momento por trás das brumas constantes, não foi isso o que os dois dias iniciais nos reservaram. Os sobes e desces eram suaves, bucólicos riachos apareciam a cada hora, uma igrejinha cuidada pelos pemons decorava a savana e o céu azul com sol de menos de 30 graus desmistificou a fama de lugar com temperatura inconstante e imprevisível: até o arco-íris deu as boas-vindas aos 70 viajantes que partiram da vila indígena naquele sábado, dia 29. Tanto o primeiro pernoite, à beira do Rio Tök (lê-se “Tek”), quanto o segundo, depois de mais 8 quilômetros, no Acampamento Base, a 1.850 metros de altitude, também foram relativamente confortáveis (apesar dos persistentes insetos chamados puri-puris). Em barracões cobertos, os jantares e cafés da manhã incluíram trutas, massas, sopas e arepas venezuelanas ― “o melhor da autêntica comida roraimera”, como brincou o carismático guia Tirso, que celebrava sua 30a ida ao topo. Riachos de água gelada para o banho não ficavam distantes. E até os “banheiros” funcionaram com uma lona ou uma barraca protegendo a intimidade ― luxo que não teríamos no cume. Todos os dejetos orgânicos e o lixo produzido na excursão seriam transportados de volta pelos carregadores, no final do passeio, até sua aldeia.

 

P1160830

 

Cenário jurássico

Até que chegou o terceiro dia, o do Passo das Lágrimas, demandando uma “escalaminhada” quase vertical sobre pedras escorregadias à beira do paredão rochoso. Toda a expectativa para descobrir o que havia no topo, a mais de 2.700 metros, se transformou em estupefação. Surgia diante de nós um reino de vastidão, silêncio, delicadeza. As enormes rochas erodidas se assemelhavam a rostos de guardiões indígenas (a primeira delas, segundo os nativos, era o próprio Makunáima), a naves espaciais, castelos mágicos, cachorros bravos como os do filme Up, aos pterodáctilos de Jurassic Park. Em vez de uma floresta tropical verde e alta, a vegetação surpreendia com esparsas árvores baixas e de troncos retorcidos. E, na hora de caminhar por mais 1h30 rumo ao nosso QG das próximas três noites, então em um terreno escuro e plano, composto por quartzito e arenito, uma constatação: tão impactante quanto as rochas de formas surreais que víamos ao olhar para cima era o maravilhoso universo das pequenas coisas que se multiplicavam aos nossos pés. Flores minúsculas, semelhantes a mandalas psicodélicas, liquens e fungos de todas as cores, miniplantas carnívoras e insetívoras, com tentáculos cheios de detalhes, e até um sapinho preto, menor que um dedão, chamando a atenção como uma das espécies que só existem ali.

Nossa virada de ano no platô do Monte Roraima seria uma experiência única. Naquelas alturas, os grupos de campistas se abrigam das garoas constantes em cavernas e grutas curiosamente apelidadas de “hotéis”. Tem o Hotel Índio, o Sucre, o Basilio… Ficaríamos no Guácharo, batizado assim em homenagem a um pássaro local de hábitos noturnos ― e nome também da longa caverna que exploraríamos, nos arrastando como minhocas, dois dias depois. Quando o pôr do sol já dourava os paredões dos abismos diante de nós e a temperatura despencava de mais de 20°C para perto de zero grau, os mais corajosos ainda tomaram banho em uma das lagoas congelantes dos arredores. Os menos exigentes se contentaram com a higiene à base de lenços umedecidos. Ceia especial, um minúsculo champanhe bebericado por umas 20 bocas, abraços e desejos de feliz ano-novo. Nada de barulheira ou fogos de artifício. “Hoje somos da mesma família”, disse Teodoro Pérez, um simpático pemon de 50 anos que desde os 15 leva turistas ao monte. Suas duas filhas e outras duas parentes que integravam nosso staff entoaram algumas belas canções indígenas. Respondemos com dois ou três sambinhas. E, por volta de 10 horas da noite, sob uma bela lua cheia e um céu incrivelmente estrelado, todo o nosso grupo de pernas cansadas já dormia profundamente nas barracas.

 

P1160707

 

Feliz ano-novo

Acordar com o brilho do sol, entre 5 e 6 horas da manhã, foi uma rotina naqueles sete dias ― assim como dormir logo depois de cair a noite, entre 20 e 21 horas. Quanto mais andávamos no quarto e quinto dias, já na extensa planície, mais lugares incríveis conhecíamos. Vimos beija-flores, gaviões, cobras, aranhas, lagartos. E nos 24 quilômetros percorridos no primeiro dia do ano, trilhamos caminhos repletos de milhões de cristais de quartzo, mergulhamos nas águas amareladas do El Foso e atingimos o chamado Ponto Triplo. É onde um monumento demarca as fronteiras entre Venezuela (que tem 80% do Monte), Guiana (com 15%, ainda que sob contestação dos venezuelanos) e Brasil (com apenas 5%, onde o Parque Nacional do Monte Roraima brilha como um raro trecho do país situado acima da Linha do Equador, já no Hemisfério Norte). Se nosso roteiro fosse o de oito dias, teríamos ido além do incrível labirinto de pedras daquele dia, chegando até o chamado Hotel Coati para conhecer o abismo da Proa, no extremo norte do maciço, assim como o Lago Gladys (nome dado a uma das filhas do índio Teodoro). Não menos belas foram as paradas durante os 6 quilômetros do dia seguinte: o mirante La Ventana, onde uma sequência de arco-íris encantou a todos; as piscinas naturais denominadas “Jacuzzis”, com fundo forrado de cristais; a delicada cascata do Salto Catedral; e La Ventana de Kukenán (de onde se vê a cachoeira dos sonhos do velhinho Carl Fredricksen, do filme Up).

Como as espessas nuvens do Monte Roraima cobriram a Pedra Maverick, ponto mais alto já medido naquela montanha, o grupo ― bem sintonizado, depois de uma semana na trilha compartilhando bolhas nos pés e histórias de vida ― decidiu que a conquista da rocha em forma de carro ficaria para o dia seguinte. Acordaríamos de madrugada e subiríamos ao cume, a 2.810 metros de altitude, antes de iniciar a temida descida de volta. O tempo extra no entardecer alaranjado seria útil para descansar as peP1160622rnas, que seriam bastante exigidas ao trilharmos em dois dias os 28 quilômetros feitos em três dias na subida, completando 98 quilômetros de trekking. E foi a oportunidade perfeita para que cada um pudesse contemplar, pela última vez, as plantas minúsculas, as pedras surreais e os misteriosos penhascos do templo de Makunáima.

 

 

 

+55 95

INFO: Roraima Adventures ― Rua Coronel Pinto, 86, Sala 106, Boa Vista, tel. 3624-9611, roraima-brasil.com.br; Inparques ― inparques.gob.ve

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Hotel Euzebio’s ― Rua Cecília Brasil, 1.517, Boa Vista, tel. 2121-0300, hoteleuzebios.com.br

Orgulho inca

 

 P1190175

Primeiro o rei inca reverencia o sol. “Fonte quente e princípio da vida, te saudamos na sua mansão sagrada de Cusco, onde vives com a lua”, diz em quechua, a língua oficial do império. Em seguida, sopra folhas de coca aos quatro ventos e invoca os “apus”, espíritos que habitam as grandes montanhas dos Andes peruanos. “Apu Ausangate, apu Salqantay, apu Saqsaywaman, vamos à grande cerimônia”. Repleto de adereços dourados e penas, passa a realizar, uma a uma, as oferendas: despeja do jarro um pouco de chicha, bebida feita à base de milho fermentado, acende quatro fogueiras, oferece aos céus um pão sagrado… O rito de agradecimento pelo calor e pelo alimento dá sequência a mais uma série de cantos e danças de 682 súditos – entre eles 80 músicos. Todos seguem em procissão, bem paramentados com roupas coloridas e reluzentes como as do imperador índio.

P1180825

É 24 de junho e estamos em pleno solstício de inverno no Hemisfério Sul. Não fossem os celulares, os óculos de sol e as câmeras fotográficas que se multiplicam entre os 40.000 espectadores estimados, daria quase para acreditar que a cena se passa no século 15, durante a celebração original do Inti Raymi, a Festa do Sol. Este era o principal evento do calendário dos incas, que entre 1438 e 1533 formaram o maior império da América pré-Colombiana e que tinham em Cusco sua capital. Segundo os relatos do historiador Garcilaso de la Vega (1539-1616), cidadão cuzquenho filho de uma princesa inca e um invasor espanhol que escreveu quase tudo o que se sabe sobre a festa, o festival homenageia Inti, o Deus Sol da mitologia inca. Por meio da festa, rogava-se para que o astro rei garantisse abrigo e comida durante os dias frios vindouros. Cinco séculos depois, o Inti Raymi moderno reproduz esse mise-en-scène em forma de espetáculo, o maior do Peru. Ele encerra quase um mês de festas em Cusco, que fica a 1 hora de voo da capital Lima. E tem sido o principal atrativo para que, em cada um dos últimos dois anos, 180.000 turistas tenham desembarcado na cidade em junho, lotando os 94 hotéis locais.

P1190186
Saqsaywaman

SANGUE INDÍGENA

Os 3.800 turistas, estrangeiros em sua maioria, que se apertam por duas horas nas arquibancadas do sítio arqueológico de Saqsaywaman, onde acontece o terceiro e mais importante ato da Festa do Sol, provavelmente não sabem. Mas, sem o Inti Raymi, Cusco não teria se transformado em um dos mais procurados destinos do planeta. Só em 2012 foram quase 2 milhões de visitantes. “O resgate dessa cerimônia, nos anos 1940, mostrou aos cuzquenhos que deveríamos ter orgulho das nossas raízes incas”, conta Carlos Milla Vidal, dono do hotel boutique Casa San Blas e estudioso do tema. Segundo Milla, nessa época, quando Cusco tinha só 20.000 habitantes (hoje são 500.000), ter sangue indígena ali não era motivo de honra. Bacana naquela cidade que não conhecia o turismo e tampouco o progresso era ter traços hispânicos como os dos colonizadores europeus.

P1190140

Foi quando Humberto Vidal, o tio de Milla, teve a sacada de repetir a cerimônia do Sol, que havia acontecido pela última vez em 1535 e desaparecido junto com a cultura inca. “Ao vestirem seus ponchos tradicionais e repetirem tradições de seus ancestrais, os cuzquenhos passariam a resgatar sua auto-estima indígena e a se tratar como irmãos”, conta Roger Valencia Espinoza, proprietário da agência de viagens Andean Lodges e também fascinado pelo assunto. Deu certo. A ressurreição da Festa do Sol 400 anos depois da sua extinção passou a ser o ápice da celebração do aniversário de Cusco – não por acaso comemorado no mesmo dia. Em junho passado, alunos de diferentes colégios e integrantes de associações  e grupos de bairros disputaram quem tinha a performance folclórica mais festiva na charmosa Plaza de Armas. A praça ganhou uma estátua dourada do rei inca e, em seus postes antigos de luz amarelada, foram hasteadas várias bandeiras do arco-íris, cor oficial da cidade.

P1190006

TEMPLO SAGRADO

Três décadas antes da Festa do Sol ressurgir em Cusco, uma descoberta científica 110 quilômetros a noroeste dali nascia como embrião do que se tornaria mais tarde outro importante propulsor da revalorização da cultura inca. Foi em 1911 que o explorador norte-americano Hiram Bingham encontrou Machu Picchu, escondida sob uma floresta à beira do Rio Urubamba. Formada por construções de pedras erguidas de forma a bem aproveitar as águas das chuvas, a inclinação do terreno, os tremores de terra e os raios do sol, a maior relíquia arqueológica da América do Sul foi um discreto parque de diversões de arqueólogos até que o turismo começasse a acontecer ali e em Cusco, na segunda metade do século 20.

P1170790
Machu Picchu

Muito se aprendeu sobre os incas a partir de Machu Picchu. Depois de passar um século sob os cuidados dos estudiosos da Universidade de Yale, em Connecticut, nos Estados Unidos, 366 objetos incas encontrados pela equipe de Bingham voltaram, em 2011, ao solo cuzquenho. Eles agora fazem parte do Museo Machu Picchu Casa Concha e, assim como obras do Museo Inka e do Museo de Arte Precolombino de Cusco, servem de inspiração para os artesãos locais. A cruz inca e uma série de grafismos estão presentes tanto nas peças em ouro e prata vendidos na rede local de joalherias Inka Treasure como nos tecidos coloridos feitos com lã de lhamas e alpacas andinos – e comercializados em fantásticas feiras de lugarejos como Pisac, a meia hora de Cusco, no chamado Vale Sagrado.

P1170664
Feira de artesanato de Pisac

TREKKING NAS ALTURAS

Convertido em destino obrigatório para amantes de relíquias arqueológicas e para pessoas do mundo todo que passaram a se interessar pela cultura andina, Machu Picchu se tornou o templo inca por excelência – mesmo que a ciência ainda não afirme categoricamente se aquilo foi um altar, um ponto privilegiado de observação astrológica, um refúgio de inverno do rei ou uma comunidade agrícola de técnicas avançadas. Não importa. Todos os meses, 100.000 pessoas, 70% delas vindas do exterior, batem perna por lugares fotogênicos da cidade sagrada como a Porta do Sol e o cume da montanha vizinha, o Wayna Picchu.

Machu Picchu vista do alto do pico Wayna Picchu
Machu Picchu vista do alto do pico Wayna Picchu

A maioria dos turistas chega de trem, mas são os apreciadores das longas caminhadas que descobrem o quanto os incas tinham de fôlego. Na Trilha Inca clássica, é possível conhecer ao menos quatro sítios arqueológicos ao subir e descer ladeiras ao longo de 42 quilômetros e quatro dias. Como há limitação no número de caminhantes por dia, a fila de espera é longa: em junho, só havia reserva para quem quisesse fazer o roteiro em outubro (e desembolsando cerca de 350 dólares para as agências).

Ausangate
Ausangate

O efeito positivo dessa superlotação é que os andarilhos foram obrigados a descobrir outras rotas andinas tão ou mais belas que a Trilha Inca, como as de Lares e Salkantay. A menos explorada turisticamente chama-se Ausangate e permite mais interação com comunidades tradicionais e suas heranças da cultura inca. Em caminhadas de 5 dias por altitudes entre 4 e 5 mil metros, em meio a picos nevados, costuma-se ficar hospedado em alojamentos quentinhos onde a comida e a música ficam por conta de legítimos descendentes incas.

P1180369
Vale de Ausangate

 

GASTRONOMIA DE RAIZ

O passado inca foi apagado da paisagem quando o conquistador Francisco Pizarro dominou Cusco, em 1533, mas as raízes peruanas sobrevivem nos hábitos dos cusquenhos. A comida continua sendo aquela ofertada ao Deus Sol nas cerimônias de Inti Raymi. Com grãos dos mais variados tamanhos e cores, o milho — que representava 65% da dieta dos moradores de Machu Picchu — é vendido como doce ou salgado nas ruas, ou mesmo cru, em mercados como o de San Pedro. A chicha é consumida pura ou na forma de um refresco roxo chamado chicha morada, tão doce quanto a folclórica Inka Cola (que, dizem, é mais vendida do que a Coca-Cola). E, embora a Plaza de Armas tenha McDonald’s e Starbucks, muitos turistas preferem os estabelecimentos tradicionais para comer pastel de choclo (doce de milho) e tomar chá de coca (bom para amenizar o mal-estar causado pelos 3.400 metros de altitude de Cusco).

Plaza de Armas, Cusco
Plaza de Armas, Cusco

Mas é nos bons restaurantes que os chefs têm exibido por que a cozinha do Peru se tornou um atrativo e tanto. A começar pelo Chicha, de Gaston Acurio, o cozinheiro mais famoso do país – que, por sinal, se prepara para abrir uma segunda casa na cidade. Ali seu time serve desde pratos feitos com carne de alpaca até criações como o costa y sierra, um risoto picante à base de frutos do mar. Outro favorito dos turistas é o Cicciolina, de ambiente animado e todo tipo de pimenta pendurada sobre o balcão. Seu menu vai além dos clássicos ceviches, pisco sours e lomos saltados (carne de vaca servida com cebolas, arroz e batatas), avançando em receitas contemporâneas de influência asiática.

 

Restaurante do Museo de Arte Precolombino
Restaurante do Museo de Arte Precolombino

 

LUXO E TRADIÇÃO

Não é difícil entender por que meia dúzia de hotéis cinco estrelas concentram nada menos que um terço dos 2.153 leitos da hotelaria cusquenha (um bom jeito de escolher um hotel para o seu bolso é pelo trivago).  Essa grandes construções coloniais seculares cheias de clima atraem os visitantes para uma imersão na história e na cultura peruanas. O Monastério, por exemplo, reciclou clausuras minúsculas habitadas por monges do Mosteiro de Santo Antônio Abade em 1600 para transformá-los em aconchegantes ninhos de luxo – e com um restaurante que apresenta até ópera ao vivo no jantar. Foi ali que Antônio Fagundes, Paola Oliveira e quase 60 participantes da novela Amor à Vida ocuparam 33 dos 126 quartos por 20 dias de abril.

Hotel Monastério, da rede Orient-Express
Hotel Monastério, da rede Orient-Express

Com suítes mais amplas e modernas, o vizinho Palácio Nazarenas pertence à mesma rede, a Orient-Express, e paparica seus hóspedes com chão do banheiro aquecido, roupões de seda e mordomo para dar aula de pisco sour no quarto. Mas é no Sumaq, localizado em Aguas Calientes, povoado-base para quem visita Machu Picchu, que os viajantes melhor aliam conforto e tradição. Após visitar as ruínas, qualquer hóspede pode participar de uma cerimônia de gratidão a Pachamama, a mãe Terra, exatamente como faziam os incas.

 

Palácio Nazarenas Hotel
Palácio Nazarenas Hotel 

SERVIÇO

PARA PESQUISAR SOBRE O PERU:

Promperu

promperu.gob.pe

 

PARA PLANEJAR SUA IDA DURANTE A FESTA DO SOL:

Inti Raymi

emufec.gob.pe

 

PARA SABER MAIS SOBRE A RUÍNA MAIS LEGAL DA AMÉRICA:

Machu Picchu

machupicchu.gob.pe

 

Crédito das fotos: samesamephoto (siga no Instagram!)

Nas montanhas do Grand Canyon

Todas as pessoas do mundo deveriam conhecer o Grand Canyon. Nem que fosse por um dia na vida, só para acompanhar a rotina curiosa de um vilarejo no meio do deserto do Estado do Arizona, no sudoeste dos Estados Unidos, em sua reverência à natureza fascinante do lugar. Noite ainda, por volta das 5 da manhã, grupos de viajantes deixam seus hotéis e acampamentos na Vila do Grand Canyon e seguem para o alto dos paredões. Vão observar um nascer do sol especial, em que os primeiros raios são jogados num buraco gigantesco onde os cânions foram cavados dentro de outros cânions, milhões de anos atrás. Suas cores variam em tons de vermelho, amarelo e verde à medida que são banhados pela luz. Silêncio, contemplação. Aqui, a natureza é tão grandiosa que faz todo mundo se entender como uma parte minúscula de um universo imenso e intrigantemente belo.

“As pessoas ficam assim fascinadas porque esse é um lugar sagrado”, diz, em tom de segredo, a sempre sorridente guarda-florestal Phyllis Yoyetewa, uma gordinha de 40 anos que trabalha no centro de visitantes da vila. Yoyetewa é uma autêntica nativa norte-americana, de olhos puxados, pele morena e cabelos negros escorridos até a cintura, que trabalha há dezessete anos no Parque Nacional do Grand Canyon. Poucos dos 2500 habitantes da vila, base para quem visita os principais mirantes do lugar, nas bordas Sul, Leste e Oeste, conhecem as preciosidades do Grand Canyon como essa descendente direta dos hopis, uma das sete tribos que já habitaram o Grand Canyon. “Para minha gente, todas as pessoas desceram para esse mundo por um buraco no céu que fica bem acima do Grand Canyon”, conta ela. “É para o Canyon que os espíritos das pessoas seguem quando elas morrem.”

Sagrado para índios nativos e deslumbrante para brancos de todas as partes do mundo, o Grand Canyon ganhou o título de uma das sete maravilhas naturais do mundo por ser o exemplo mais gritante do poder da erosão em forma de espetáculo geológico. As cores das dezenas de estratos visíveis em suas rochas surpreendem os geólogos com evidências de formações pré-cambrianas de 2 bilhões de anos, mas o período de formação do cânion é recente para a ciência. Faz apenas 5 milhões de anos que as águas arrasadoras do Rio Colorado cavaram abismos nas rochas daquele deserto. Quem desce dos mirantes e caminha até o rio ou as cachoeiras da Reserva dos Havasupais – última tribo que ainda vive dentro do Grand Canyon, fora dos 4 950 km2 que delimitam o parque – fica marcado para sempre pela imagem desse recanto tão desafiador ao homem.

A experiência de conhecer o Grand Canyon selvagem é tão marcante que tem sido estimulada. Por ser um cenário único no planeta, o parque recebe cada vez mais visitantes – foram 4,5 milhões em 1998. Desde o século XIX, quando os primeiros brancos chegaram ali e descobriram que aquelas reentrâncias indígenas não serviam para ser minas de cobre e amianto, como se pensava, o turismo virou um meio de vida. O parque foi criado para preservar os cânions, em 1919, mas a supervisitação ameaça agredi-lo. O plano de manejo, de 1995, estabeleceu que a visitação deve ser mais ecológica a partir do ano 2000.

Só 1% de aventureiros. Diferentemente do que acontece nos picos do verão americano, em junho e julho, quando a vila fica lotada, espera-se que a partir do ano que vem as pessoas andem menos de carro, caminhem mais e se distribuam por uma área maior. “Queremos que todos tenham tranqüilidade de assistir a um pôr-do-sol e observar os animais em silêncio”, diz Sandra Perl, relações-públicas do parque. Atualmente, menos de 1% dos visitantes se aventura por alguma trilha. Lugares distantes como a Borda Norte, a cinco horas de carro da vila, raramente são visitados.

As proporções do Grand Canyon são assustadoras: 4950 quilômetros quadrados, ou 443 quilômetros de paredões ao longo do Colorado. A largura do menor dos cânions, o belo Marble Canyon da capa desta edição, avistável na Borda Leste próximo à reserva dos índios navajos, é de 180 metros. Toda a área do parque está dentro do Estado do Arizona, mas suas continuações invadem o Estado de Nevada, no oeste, e os outros três Estados que formam com o Arizona a desértica paisagem das Four Courners, ou Quatro Esquinas americanas: Utah, Colorado e Novo México.

A riqueza arqueológica do Grand Canyon também impressiona. Graças a 3500 itens encontrados em apenas 3% do parque, como pequenos cavalos de madeira feitos de ossos e gravetos, já se sabe que a presença humana data de muito antes da descoberta da América pelos brancos espanhóis, no século XV. Os primeiros povos do Grand Canyon, chamados de anasazis e cohoninas, estiveram ali há 10000 anos e são os antepassados diretos dos hopis, a tribo da guarda-florestal Yoyetewa. Os chamados Pueblos – ruínas de pequenas casas onde esses índios viviam e guardavam as produções de milho, feijão e abóbora – podem ser vistos até hoje no Museu Tusayan, na Borda Leste, e nas ruínas que ficam ao lado do Rancho Fantasma, para onde seguem os aventureiros do Grand Canyon. Só quem desce até o fundo do Grand Canyon tem idéia de como deve ter sido dura a vida dos primeiros índios.

Falta sombra, e não há de onde extrair água na trilha de South Kaibab, que leva à beira do Rio Colorado. No verão, a temperatura desse ponto semi-árido do Arizona começa em 29 graus, no alto do platô, e esquenta conforme os ventos diminuem no fundo dos paredões. A temperatura média no Rancho Fantasma, como é chamada a vila de dezessete pessoas no final da trilha, é de 40 graus. Neste lugar, o ar é tão seco que o corpo parece não produzir suor nem saliva.

A paisagem da descida faz lembrar os filmes de bangue-bangue: paredes de pedra alaranjada de formas estranhas, cactos, trilhas estreitas de pedra e terra ziguezagueando à beira dos abismos. Quem desce montado nas mulas de aluguel passa mais medo nos cotovelos dos despenhadeiros (e se o cavalo tropeçar?!) mas cansa bem menos as pernas. No caminho, as formas de vida surgem esparsamente: muitos lagartos e esquilos, alguns veados, águias e corvos vez por outra. Raros, mas presentes, são os coiotes, as cobras e os escorpiões. Triste é chegar lá embaixo num dos freqüentes períodos em que o caudaloso Colorado desce barrento por causa das chuvas. Nessas épocas, o banho em seus pequenos afluentes não refresca muito e é preciso ferver ou potabilizar a água antes de bebê-la. Quem tiver feito reservas com antecedência no chamado Phantom Ranch ganha, como recompensa, lugar para comer, dormir e tomar banho.

Considerado um dos mais extensos rios do mundo, o Colorado é uma espécie de pai criador do Grand Canyon, já que foram suas águas que esculpiram esses e outros cânions norte-americanos. Apenas um sexto de seus 2333 quilômetros, porém, passa dentro do Grand Canyon. Nascido nas Montanhas Rochosas do Estado do Colorado, o rio recebe água de sete Estados e deságua no Golfo da Califórnia, já no México. Quando passa ao lado do Rancho Fantasma, ele tem 90 metros de largura e corre com força, trazendo muitos dos grupos que fazem as descidas de rafting a partir da Represa de Glen Canyon, 24 quilômetros a nordeste do parque, na região da cidade de Page. Alguns botes param para descansar próximo ao Rancho Fantasma, num dos intervalos das expedições fluviais que podem durar dias.

Peixes em extinção. A importância do Colorado para o Grand Canyon é tamanha que, nas últimas três décadas, os ecologistas travaram uma guerra contra a Represa de Glen Canyon. Ao ser criada, a barragem alterou as características do rio, controlando seu fluxo. A água ficou mais gelada, as enchentes naturais deixaram de acontecer e os sedimentos trazidos pelas correntezas diminuíram, alterando a rotina dos peixes acostumados com a dança natural do Colorado cânion abaixo. Os estudos que avaliam quanto o ecossistema pode ter sido prejudicado ainda não foram concluídos. Já se sabe, no entanto, que os peixes são as espécies do Grand Canyon mais ameaçadas de extinção. A outra ameaça vem do ar. A poluição por dióxido de enxofre dos centros urbanos das cidades próximas tem prejudicado, cada vez mais, a visibilidade do horizonte dos cânions a partir dos mirantes.

No fundo do Grand Canyon só se enxerga um céu muito azul, durante o dia, e totalmente estrelado, quando a noite se aprofunda. Um quadro preparado pelos guarda-parques deixa sempre exposto o desenho das estrelas a cada mês, para que os vitoriosos possam divertir-se à noite, deitados no gramado. Pouca gente agüenta ficar no forno que é o Rancho Fantasma por mais de duas noites. A partir dali, um caminho pode levar para a Borda Norte, pela trilha de North Kaibab. Outro, mais comum, segue para a Borda Sul, pela trilha de Bright Angel. Mais uma vez, o ritual das pessoas caminhando antes do nascer do sol se repete. No caso das trilhas, o objetivo é andar o maior tempo possível sem enfrentar o sol a pino.

De tão íngreme, a metade final da Bright Angel, antes da chegada ao centro histórico da Vila do Grand Canyon, parece um ensaio da subida ao purgatório. Incrível é que os funcionários do Rancho Fantasma repetem aquelas trilhas a cada dez dias. Isso porque só há duas outras maneiras de descer até a beira do rio: de mula ou de helicóptero. Os vôos são a única alternativa para carregar cargas que as mulas não agüentam.

De acesso tão difícil quanto o Rancho Fantasma é a Reserva dos Havasupais. É preciso dirigir pelo menos três horas desde a Vila do Grand Canyon até o Alto da Colina dos Hualapais. Fica ali um estacionamento e um trailer, que serve de escritório para um índio solitário que organiza as descidas a cavalo. No final da trilha de 12,8 quilômetros até a Vila Supai moram 450 dos 650 membros que restaram da última tribo que ainda vive isolada dentro do Grand Canyon. As outras comunidades indígenas que ficam nos limites do parque estão na parte alta dos paredões. A Vila Supai é formada por pequenas fazendas de casebres de madeira, um restaurante, um hotelzinho e um camping. Há ainda uma igreja evangélica, onde o casal de missionários Scott e Lynanne Palmer tem dedicado os últimos vinte anos de suas pregações para traduzir o Novo Testamento da Bíblia para a complicada língua havasupai.

Arredios a câmeras fotográficas e bem reticentes antes de qualquer aproximação, os havasupais conversam entre si na própria língua. São ressentidos porque a reserva criada para eles pelo governo norte-americano, em 1882, só lhes deixou uma parte mínima da área original. “Perdemos até a nossa montanha sagrada”, lamenta Jerry Wescogame, 57 anos, que toma conta do único camping da vila. Jerry é um dos raros índios que se dispõem a conversar. “A montanha era o lugar de nossas cerimônias, que hoje não acontecem mais.” Além da festa dedicada à colheita do pêssego, em agosto, os únicos eventos tradicionais mantidos pelos havasupais são as sessões de cura, que acontecem em casebres fechados e cheios de vapor, tão quentes quanto as saunas.

Os havasupais assimilam cada vez mais a cultura dos brancos. Os jovens vestem camisetas dos times de basquete, ouvem rap, fazem rodas de rodeio e grafitam as paredes da única escola local – onde se aprende tudo em inglês e em havasupai. Os mais velhos se orgulham de sua língua, de sua terra, de hábitos tradicionais como o de nunca dizer tchau. “O Grande Canyon é nossa casa”, diz Jerry. Até hoje, os paredões de vegetação baixa e seca dos arredores de Supai são cenário da busca dos cavaleiros por bichos de caça, como o veado e o carneiro montês. Além da caça e da agropecuária, a pobre economia do lugar é sustentada pelo ecoturismo crescente: muitas famílias vivem de trocados recebidos para orientar os visitantes na viagem a cavalo do Alto da Colina até a vila da tribo.

Voar é para as aves. Assim como no Rancho Fantasma, as formas de acesso de visitantes e de carga ao enorme corredor abafado da Vila Supai se restringem a caminhadas, cavalgadas e vôos de helicóptero. São só dez minutos de vôo até o Alto da Colina, mas que oferecem um visual impressionante. Os índios, no entanto, não são chegados às hélices. “Na única vez em que voei, passei mal e vomitei”, conta Clayton Watahomigie, 45 anos, um índio caladão que trabalha com Jerry no camping. “Voar é para os pássaros”, conta. Watahomigie prefere usar as próprias pernas para chegar, com seus filhos, às quatro cachoeiras mais belas do Grand Canyon, que ficam 4 quilômetros ao sul da vila e deságuam no Rio Colorado. A mais bela é a Mooney Falls, com 60 metros de altura, acessível por uma trilha bela e perigosa. Num desfiladeiro onde foi colocado um cabo de aço para segurança, passa-se até por uma caverna para chegar à beira do riacho. Suas águas em tons de verde e azul deram origem à palavra havasupai, que significa povo das águas verde-azuladas. Um banho ali – antes, durante ou depois de mais um nascer ou pôr-do-sol inesquecível – recompensa pela trajetória dura de quem se aventurou a conhecer as raízes mais profundas e marcantes do Grand Canyon.

 

AS MELHORES TRILHAS DO ARIZONA

Apenas 52,8 dos 800 quilômetros de trilhas do Grand Canyon são abertos aos visitantes, em caminhos já bem pisados. E ninguém pode dizer que experimentou a imensidão da maior riqueza do Arizona se não tiver percorrido pelo menos algumas delas. Destacamos em vermelho, ao lado, as sete principais trilhas, com detalhes das três mais desafiadoras, que ligam as bordas ao Rancho Fantasma, no fundo do cânion. Em todas, é impreterível que se leve muita água, alimentos energéticos e quase nenhum peso. O parque nacional é cercado pelos pinheiros da gigantesca Floresta Nacional de Kaibab, ao norte e ao sul, e por três áreas indígenas, como se vê no mapa abaixo. A reserva dos navajos, maior tribo norte-americana, fica no leste e protege também o território dos hopis. A dos hualapais beira os paredões do sudoeste, enquanto a dos havasupais avança ao fundo do cânion no centro-sul.

BRIGHT ANGEL – 12,4 km

Feita em sete horas, é mais usada por quem sobe do Rio Colorado ao alto da Borda Sul, no centro histórico da Vila do Grand Canyon. A primeira metade é sombreada e embelezada pelo rio. Há até dois pontos para beber água. A última parte é exaustiva, com uma longa e íngreme subida em ziguezague.

SOUTH KAIBAB – 9,7 km

Usada freqüentemente por quem desce ao Rio Colorado, a trilha parte do Yaki Point, na Borda Leste, não oferece água nem sombra e é percorrida em pelo menos quatro horas. Com ladeiras íngremes de chão de pedra e terra, exige bastante das pernas, que têm que controlar o peso do corpo.

NORTH KAIBAB – 23,3 km

Longa e cansativa, liga o Rancho Fantasma à isolada Borda Norte. Os mais preparados usam-na como parte da travessia de 34 quilômetros desde a Borda Norte, com suas cachoeiras, ao alto dos paredões no outro lado do rio, nas bordas Sul e Leste, pelas trilhas de South Kaibab e Bright Angel.

 

UM CAMINHO ALTERNATIVO PELA ROTA 66

Mais lendária das rodovias norte-americanas, a Rota 66 beira o Grand Canyon em parte do caminho de 320 quilômetros que liga o portão principal do parque à reserva dos índios havasupais. A fama da primeira estrada dos Estados Unidos que interligou as costas do Atlântico e do Pacífico nasceu das viagens de sonho até a Califórnia, feitas depois da Depressão americana da década de 30, e das aventuras de hippies e de motoqueiros depois dos anos 50. Com o crescimento de outras vias, a highway foi abandonada. Os 50 quilômetros que passam por Williams e Seligman, ladeados por imensas planícies e por uma velha estrada de ferro, fazem parte do raro trecho da 66 que preserva sua memória. E adiciona um molho especial ao Grand Canyon.

 

O VER E O VIVER

Há um abismo do tamanho do Grand Canyon separando a experiência de vê-lo da sensação de vivê-lo. Quem observa a seqüência de cânions mais famosos do planeta a partir dos mirantes se emociona e se cala diante de tamanha grandeza. Quem, porém, caminha até seu fundo, conhece a força do Rio Colorado, visita a última tribo de índios e se deslumbra com os 60 metros de altura da Mooney Falls (foto). E volta marcado para sempre pela beleza de um dos recantos mais desafiadores que o homem já conheceu.

 

O VIVER E O MORRER

O encantamento desse lugar cheio de lendas atrai os amantes da natureza até a beira de seus abismos. Em locais como a Borda Leste (foto da esquerda), os desfiladeiros medem 1600 metros até o fundo, numa altitude de 2400 metros acima do nível do mar. O desmoronamento de caminhos tortuosos como a trilha de South Kaibab (à direita), no entanto, já matou muitos desbravadores do passado. Ainda em 1998, dezessete pessoas morreram supreendidas pela imprevisibilidade da mesma natureza que enche o lugar de vida.

 

COMO SE PREPARAR

Nos Estados Unidos, as viagens são programadas com um ano de antecedência. Para encontrar vagas e pagar menos deve-se reservar tudo antes, com cartão de crédito internacional. Pela internet, a melhor opção, acesse o site www.thecanyon.com/nps Por telefone, ligue para (00211) 602 638-2401 para reservas no parque. Para ir à Reserva dos Havasupais, ligue para 602 448-2111.

COMO CHEGAR

A rota mais fácil para quem parte do Brasil é via Los Angeles, no sul da Califórnia. De lá siga para Las Vegas, no Estado vizinho de Nevada. Um último vôo, da Scenic, leva passageiros até o pequeno Aeroporto de Grand Canyon, em Tusayan, com direito a vista panorâmica sobre os cânions. Quem preferir a viagem de carro vai rodar 919 quilômetros desde L.A. até o parque, ou 447 quilômetros desde Las Vegas. A partir de Phoenix, já no Arizona, que também tem aeroporto, a viagem percorre 362 quilômetros. Dá para chegar também por Flagstaff, a 129 quilômetros. Todas as estradas são bem asfaltadas, mas faltam placas em algumas delas. No centro de visitantes da vila pode-se conseguir mapas e todo tipo de informação.

QUANDO IR

A temperatura é mais agradável entre março e outubro, mas nos meses de junho e julho, no verão americano, tudo lota. No final do ano, a neve diferencia as paisagens mas impede as caminhadas. Melhor evitar.

ONDE VER O SOL

O sol se exibe em dois espetáculos diários na Vila do Grand Canyon. Os bons mirantes para ver o pôr-do-sol, porém, não são os mesmos onde se fotografa seu nascer.

AMANHECER

Mather, Yaki, Yavapai, Lipan

ENTARDECER

Hopi, Mojave, Pima, Desert View

COMO CIRCULAR

Os mirantes das bordas Sul, Leste e Oeste ficam na Vila do Grand Canyon e são acessíveis de carro ou em ônibus circulares. Na Borda Norte só se chega de carro ou andando muito. Além das duras caminhadas, é possível conhecer as profundezas do Grand Canyon num rafting no Rio Colorado (acima à esquerda), que pode durar de três dias a um mês, em sobrevôos de helicóptero na Borda Leste e na Reserva dos Havasupais (foto do meio) e em lombo de mula e cavalo (à esquerda).

ONDE FICAR

Dentro do parque, na Vila do Grand Canyon, há três campings e seis hotéis — os dois mais baratos são o Yavapai Lodge e o Maswik Lodge, de US$ 80. Outros oito hotéis, como o Moqui Lodge (foto), e três campings ficam em Tusayan. No Rancho Fantasma, vale a pena pagar pelo único alojamento, só para não ter que carregar a barraca. Para acampar dentro do parque é preciso uma autorização especial na vila. Quem visitar a Reserva dos Havasupais só contará com um alojamento e um belo camping (foto), entre paredões estreitos, ao lado do rio e das cachoeiras.

COMO GASTAR MENOS

O Grand Canyon é um lugar caro. Pelo menos para os viajantes que preferem os hotéis e vão gastar em diárias no mínimo US$ 80. É possível, porém, fazer uma viagem econômica acampando por diárias de US$ 10. Levar a barraca facilita na hora de conseguir um lugar para dormir sem reserva antecipada. Alto também é o preço cobrado pelas duas locadoras de carros em Tusayan, cidadezinha que tem até McDonald’s e fica a 6,5 quilômetros da entrada principal do parque. Tanto a Enterprise quanto a Dolar cobram cerca de US$ 50 a diária. Quem alugar em outras cidades pagará até US$ 20 a menos.

DICA DO AUTOR

“Apesar da boa infra-estrutura do parque, não esqueça que o Grand Canyon está em pleno Deserto do Arizona. Mercados e postos de gasolina parecem miragens, principalmente nas viagens de carro até a Borda Norte e a Reserva dos Havasupais. Melhor se abastecer sempre.”

Daniel Nunes Gonçalves