Vida no deserto

Vítima do genocídio alemão há apenas 110 anos e do apartheid durante o domínio sul-africano, o país se reinventou e celebra as bodas de prata de sua liberdade praticando um turismo sustentável e seguro

Lugar onde não existe nada. Quem observa pela janela do avião a vastidão inabitada da Namíbia logo entende esse curioso significado do nome do país na língua dos nama, uma das 13 etnias locais. Parece que lá embaixo tem apenas deserto. O nada-sem-fim só é interrompido quando o avião se aproxima da pequena capital Windhoek, destino do voo da South African Airways vindo da cidade sul-africana de Johannesburgo – rota mais direta para quem viaja do Brasil. Naquele centro urbano quase sem prédios vivem 340 mil dos poucos 2,3 milhões de habitantes dessa nação que se renova: em 2015 celebra-se 25 anos de independência da Namíbia, que desde março é liderada por seu terceiro presidente, Hage Geingob.

 

DSCsossusvlei00285-13

 

Basta pousar e caminhar pelo centro urbano para se surpreender com uma peculiaridade namibiana. Tanto as ruas como a população, 90% negra, adotam nomes alemães: Fritz, Wolfgang, Frida. A arquitetura germânica salta aos olhos e, nas igrejas, nota-se a dominância do cristianismo luterano. Embora o português Diogo Cão tenha chegado à região em 1484, ele desprezou aquela sucessão de desertos pouco atraente. Assim, o lugar preservou-se de invasores por exatos 400 anos. Até que a Alemanha chegou para colonizar a então chamada África do Sudoeste, em 1884, ficando até 1915, quando saiu em plena Primeira Guerra Mundial. Não por acaso, os alemães são os visitantes mais comuns atualmente – e a cerveja da Namíbia tenha qualidade e boa fama comparável à dos colonizadores.

 

cerv00729-45

 

Cicatrizes históricas

A colonização europeia, como se sabe, foi bem violenta em países da África e da América. Na Namíbia, em especial, a ocupação alemã deixou feridas dolorosas. Ali aconteceu aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20, entre 1904 e 1908, quando o mundo ainda nem sonhava com os terrores de Adolf Hitler. Há documentos comprovando que o general alemão Lothar Von Trotha ordenou o extermínio de todos os herero que se recusassem a deixar o país. A Alemanha nunca admitiu a tragédia oficialmente. Mas o impacto nas duas etnias mais perseguidas foi devastador: restaram apenas 15 mil herero (dos 85 mil existentes na época) e 10 mil nama (dos 20 mil que teriam se rebelado no conflito). Parte desse episódio pouco difundido mundo afora pode ser conhecido no Independence Memorial Museum, inaugurado em 2014 na capital.

jipeSC00372-30

 

Igualmente traumática é a outra mancha na história recente da Namíbia. A África do Sul, que tinha invadido o país durante a Primeira Guerra, instaurou em 1948 o mesmo regime racista do Apartheid que segregava brancos e negros – o que fez com que até hoje exista uma minoria branca no topo da cadeia sócio-econômica do país. O apartheid namibiano só caiu em 1990. Foi quando, depois de quase um século de sofrimento, a Namíbia conquistou a sua independência. Mas com uma vantagem: nesses 25 anos, ela não sucumbiu mais a grandes conflitos, como aconteceu com vários países da região após se tornarem livres.

 

Himba vendendo boneca na estrada
Himba vendendo boneca na estrada

 

Pelo contrário. Rica em minérios como diamante e urânio e habitada por tribos de cultura preservada, a Namíbia incluiu a conservação de seus recursos naturais na constituição e descobriu no turismo uma fonte econômica importante. “É um país único, que se diferencia de outras nações africanas por proporcionar muito mais que safáris fantásticos”, define Danilo Rondinelli, proprietário da operadora TerraMundi, que há seis anos leva brasileiros para lá. De fato, a partir de Windhoek, os viajantes costumam fazer safári no Etosha e depois seguem para visitar sítios arqueológicos, tribos superfotogênicas, um litoral peculiar e desertos com paisagens de outro planeta. “Depois de 2012, o número de visitantes que levamos para lá dobrou”, conta Danilo. São exploradores que evitam destinos de massa e curtem ir aonde pouco gente foi.”

 

DamaraemfilaSCdamara00919-75
Etnia Damara em apresentação para visitantes

 

 

Dunas de Sossusvlei, Playground para fotógrafos

Se a Namíbia fosse um destino pop e tivesse de escolher uma imagem como seu cartão-postal, ela seria Sossusvlei. A cada amanhecer, um punhado de estrangeiros sonolentos mira todo tipo de lente fotográfica para este verdadeiro mar de dunas gigantes avermelhadas. As câmeras costumam registrar os momentos mais sublimes no trecho chamado Deadvlei, no centro de um desses areais. É onde troncos tortos projetam a sombra de seus galhos no chão esbranquiçado por sal e argila, em um contraste impactante com a duna ao fundo e o céu azul. Não por acaso Deadvlei, que nada mais é que o leito seco do Rio Tsauchab cujo fluxo foi interrompido pelas areias móveis, se tornou objeto de desejo de fotógrafos profissionais como Sebastião Salgado e J.R.Duran. “Passei seis dias fazendo um safári aéreo e jamais vou me esquecer da cena impressionante do deserto chegando até o mar”, conta Duran.

DSC00351-21

 

 

Localizado a 300 quilômetros de Windhoek, Sossusvlei pertence ao Deserto de Namibe, que batiza o país e cobre seu interior de sul a norte. Com estimados 55 milhões de anos, ele é considerado um dos mais velhos e secos da Terra, além de dono das dunas mais altas do mundo, com cerca de 300 metros. Junto com a outra grande região desértica nacional, a do Kalahari, que avança aos limites de Botsuana e possui mais água e árvores, Sossusvlei contribui para que dois terços do país sejam dominados por áreas desérticas.

 

CasalSosusDSC_sossusvlei0082-25

 

 

Partindo da capital, chega-se a Sossusvlei tanto por ar – normalmente, voando nos teco-tecos que levam aos lodges – quanto por terra – de preferência, em veículos 4×4. Na Namíbia, dirige-se por horas sem ver viv’alma – e assim entende-se a baixa densidade demográfica de 2 habitantes por quilômetro quadrado em um território de 850 quilômetros quadrados, pouco maior que três estados de São Paulo. O contraste dos ventos quentes do interior com a brisa gelada do mar provoca neblina no vasto trecho onde o deserto encontra o litoral – e por vezes adia ou atrasa os voos pela região.

 

guia sossusvlei DSC_sossusvlei1012-7

 

Como no deserto quase nunca chove, hotéis como o Little Kulala (www.wilderness-safaris.com/camps/little-kulala) deixam a opção de o hóspede dormir em uma cama fora, ao ar livre, no terraço de cada chalé. Me rendi à experiência por duas noite e garanto: poucos prazeres são maiores do que abrir os olhos no meio da noite e se deparar com uma infinidade de estrelas forrando o céu. Para melhorar, um bom edredon protege do vento do deserto, e praticamente não há insetos no local. A imersão na natureza fica mais profunda quando, antes de dormir, o jantar acontece também no meio do nada namibiano: um caminho de tochas leva os hóspedes até as mesas e a fogueira central – onde os petiscos, as cervejas da Namíbia e os bons vinhos sul-africanos são servidos.

 

CamaSossusvDSC00055

 

Ao acordar, outra surpresa. Enquanto se toma café da manhã na sacada do restaurante do hotel, parece que o safári vem até você: dá para ver alguns orix e springboks, os antílopes mais comuns do pedaço, tomando água na poça d’água que fica poucos metros adiante. Os belos selvagens costumam posar para zooms potentes nos passeios de cada dia, como a aventura de pilotar quadriciclos, a caminhada em meio ao cânion Sesriem, os voos de balão e a subida nas dunas que levam ao Deadvlei – caso da famosa Big Daddy. Observar as pegadas dos animais na areia é uma das diversões durante o belo trekking de 1 hora em meio ao deserto de Sossusvlei. Só não é bom deixar-se levar pela beleza e parar demais no caminho. Quem perde as primeiras luzes em Deadvlei corre o risco de voltar sem boas fotos do lindo cartão-postal Namíbia.

 

crosscountryDSC00066-1

 

 

Heróis da resistência vivos em Damaraland

Os viajantes chegam a Damaraland atraídos por pinturas rupestres e florestas petrificadas, mas deixam o lugar encantados ainda mais pelo contato com as tradições do povos Damara e Himba

 

Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas
Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas

 

Sabe aqueles corais africanos supercontagiantes, com a voz estridente das mulheres contrastando com o tom grave dos homens – e todo mundo esbanjando alegria e molejo enquanto dança? É um desses que recebe os visitantes do lodge Doro Nawas (wilderness-safaris.com/camps/doro-nawas-camp), na região de Damaraland, no centro-norte do país. Não por acaso o staff do hotel ganhou um concurso nacional de cantores. Eles conseguem melhorar até o mal-estar de quem pousa enjoado dos voos nos aviões pequenos bem comuns no transporte interno pela Namíbia. A recepção amigável costuma ter ainda drinks e uma toalha úmida e gelada para amenizar o calor seco do deserto. Nada impressiona mais, porém, que a simpatia dos anfitriões do povo damara, que dá nome a região, assim como de outros nativos da área.

 

hoteldamaraland0074-65

 

O atrativo número 1 de quem inclui essa parada em sua exploração da Namíbia é arqueológico. Fica aí, a 430 quilômetros de Windhoek, o Patrimônio da Humanidade Twyfelfontein, uma sucessão de rochas muito bem preservadas em seu sítio original e onde estão 2500 pinturas e inscrições rupestres datadas da Idade da Pedra. As imagens retratam animais como rinocerontes, girafas e até um leão cujo rabo tem a forma de uma mão. “Como não havia metal para fazer as gravuras, nossos antepassados Bushman usavam rochas de quartzo como ferramentas”, conta a damara Sylvia Thanises, uma das 17 guias.

 

ArqueoDSCarqueolo00845-62
Twyfelfontein, as pinturas que se transformaram em Patrimônio da Humanidade

 

Mais antigas que as obras de arte de Twyfelfontein são as florestas petrificadas vizinhas. Não se trata de um bosque em pé. Cerca de 50 troncos de árvores coníferas medindo até 34 metros de comprimento, e com mais de 200 milhões de anos, estão caídos no solo. Segundo os cientistas, elas foram trazidas em enxurradas e cobertas pelo deserto. “Protegidas” nesse ambiente de oxigênio zero, sem chuva e forradas por sedimentos de sílica, as madeiras foram “mineralizadas” e viraram fósseis. Pedra mesmo! Entre elas espalham-se várias Welwitschia mirabilis, planta nacional da Namíbia. Rasteira, ela tem só duas folhas que ultrapassam 8 metros de comprimento. “Elam resistem a cinco anos sem chuva”, explicou o guia Justus Sûxub. “E podem viver bem mais de um milênio.

 

MontedepedrasDSC00946-77

 

Enfim, os humanos.

É no caminho para esses verdadeiros museus ao ar livre que pode-se fazer outro contato com o povo. Seja qual for a etnia do guia, do motorista ou do anfitrião, ele costuma sempre se divertir ao mostrar diferenças culturais como os “cliques”, sons de estalos que fazem ao pronunciar várias das mais de 10 línguas tribais. É o caso dos 27 descendentes damara que trabalham no Museu Vivo dos Damara (lcfn.info/damara). Encravado entre rochas lindas e gigantes a 8 quilômetros do Parque de Twyfelfontein, o centro cultural permite conhecer moradas e danças tradicionais, além do artesanato feito de couro e rocha. “Queremos resgatar a cultura que se perdeu ao longo da colonização”, diz a anfitriã Maureen Hoes. A experiência seria mais autêntica se, ao final do expediente, não tivéssemos visto as mesmas pessoas que tinham se apresentado com poucas roupas e estilo “primitivo” passarem por nosso jipe vestindo mochila, tênis e calça jeans ao voltarem para suas vilas. Mas a visita vale a pena.

 

 

Felizmente, em uma das esquinas da desabitada estrada de volta ao hotel, nos deparamos com duas mulheres e uma criança da fotogênica etnia himba. Dessa vez, não era pra-gringo-ver que as nativas usavam seios à mostra e saias feitas de couro de bode. Nômades, Vezapopare e Veriazako tinham viajado 200 quilômetros para vender colares e pequenas bonecas. As miniaturas reproduziam a estética das himba, que lambuzam o corpo com um barro avermelhado – o mesmo usado para decorar seus cabelos com uma espécie de dreadlock de rastafári.

 

leve_artehimba0047-58

 

 

“Só voltamos para casa, em Opuwo, depois de vender tudo”, disse, na língua himba, Vezapopare. Ainda que o turismo esteja engatinhando na Namíbia, as himba já aprenderam que os turistas são carentes de souvenires do país. E que, caso queiram fotografá-las, devem desembolsar alguns dólares namibianos.

 

Himbas2horizDSC_himba0034-57
Nômades de etnia himba: barro nos dreadlocks

 

Safári no Etosha: Cara-a-cara com o leão

Safáris são todos iguais? Na opinião dos especialistas, não é bem assim. Safáris de várias partes do mundo têm em comum a caçada fotográfica a animais ao ar livre, normalmente a bordo de jipões 4×4. Mas sempre mudam os bichos, o ambiente, os tipos de hospedagem, os outros atrativos do país. Nessa disputa, o do Parque Nacional de Etosha, criado em 1907 no Norte da Namíbia, quase fronteira com Angola, é tido como de elite. “Ele está entre meus 4 safáris top do planeta,” afirma Danilo Rondinelli, que já esteve em 20 parques de safári de 12 países africanos. “Há abundância de animais raros em paisagens espetaculares como o lago de sal Etosha Pan”, explica Rondinelli, dono da agência TerraMundi. Segundo ele, a viagem à Namíbia costuma ser combinada com esticadas a África do Sul, passagem obrigatória para os brasileiros, e Botsuana, o país vizinho que tem safáris diferentes desse, em regiões mais úmidas e verdes.

 

elefC00711-42

 

Superameaçados de extinção, são facilmente avistadas no Etosha. A mais bem sucedida ação de preservação desses últimos, iniciativa da rede hoteleira Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com), tem contribuído para evitar o desaparecimento dos cerca de 4.000 rinocerontes-negros sobreviventes em ambiente selvagem: alguns animais chegam a ser transportados em aviões para que procriem em áreas selvagens mais seguras. Até os temidos leões, escassos em outras partes do continente, dão as caras várias vezes aos visitantes do Etosha. “Existem uns 400 deles espalhados por essa área”, orgulhava-se Gabriel Zuma, guia do Ongava Tented Camp (www.wilderness-safaris.com/camps/ongava-tented-camp), enquanto o Land Rover do grupo chegava a 5 metros de uma família de leões com a cara ensanguentada após devorar uma zebra.

 

LeaoSC01161-93

 

Uma das experiências mais marcantes da visita à região foi justamente se hospedar em uma das oito barracas de lona desse acampamento de luxo na Reserva Privada de Ongava, que fica colada ao Parque de Etosha. E se um leão resolvesse rasgá-la? Para fazer lembrar que não estávamos em uma inofensiva réplica da Disney World, na calada da noite foi possível ouvir rugidos assustadores no entorno da tenda. E, pela manhã, tomei um susto ao sair e quase pisar em uma tal cobra zebra, que cospe o veneno em suas vítimas. Felizmente aquela era ruim de mira: me safei do cuspe da peçonhenta. Os dois episódios foram suficientes para eu entender o porquê de os hóspedes serem proibidos de circular da tenda para o restaurante ou a recepção sem um segurança armado ao lado. Todo cuidado é válido para curtir a vida animal realmente selvagem da região de Etosha.

 

Etosha Pan e a tempestade chegando
Etosha Pan e a tempestade chegando

 

Amyr Klink: da travessia do

Atlântico à road trip em família

A Namíbia foi o país escolhido pelo navegador Amyr Klink como ponto de partida do seu primeiro grande desafio como explorador: a travessia solitária do Oceano Atlântico a remo. Em 1984, então com 29 anos, ele zarpou com o barco I.A.T. do porto de Lüderitz, cidade vizinha à perigosa Costa dos Esqueletos, que tem esse nome em função dos ossos, tanto de humanos quanto de animais, espalhados pela praia. “A partir dali a corrente de Benguela se afasta da orla e deflete para dentro do Atlântico; é o lugar onde começam os ventos alísios que sopram fortes e regulares até o Nordeste do Brasil”, descreveu no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, best seller com 340 mil cópias vendidas. A jornada deu certo: o barco superou ondas bravas e tempestades, chegando enfim à Bahia. Amyr realizaria outros feitos que o transformaram em um navegador respeitado, e a paixão pela Namíbia jamais cessou. “O país é seguro e econômico”, analisa. “Voltei duas vezes e tenho planos de retornar ainda esse ano.”

 

AmyrMarinaEm Luderitz_Namibia_2014_IMG_4970

 

 

Sua última viagem ao país foi em 2013, com a esposa e as três filhas, dessa vez para uma empreitada de 4 semanas que incluía também a África do Sul. “Voamos para Windhoek, alugamos um 4×4 e cruzamos o país por terra sentido litoral”, recorda Amyr. “As meninas se divertiram especialmente com os animais”, conta. O interior desértico do país tem os bichos terrestres típicos dos safáris, enquanto o litoral das cidades de Lüderitz, Walvis Bay e Swakopmond é morada de espécies de focas, pinguins, flamingos e pelicanos. “Foi na costa que matei as saudades dos amigos que fiz e dos ótimos frutos do mar”.

 

Placa em homenagem ao navegador brasileiro
Placa em homenagem ao navegador brasileiro (foto MARINA KLINK)

 

Estes centros urbanos litorâneos preservam a arquitetura europeia e ventos fortes que transformaram a região em um oásis para praticantes de esportes à vela como kitesurfe e windsurfe. Já a Costa dos Esqueletos, que sobe até a fronteira com Angola, tem um clima de mistério no ar, causado pela neblina frequente e pelos cascos de navios naufragados que restaram na praia. Um ambiente sombrio paira também sobre Elizabeth Bay, 25 quilômetros ao sul de Lüderitz, um longevo centro de exploração de diamantes que ganhou fama de povoado-fantasma. E até o refúgio natural de Shark Island, balneário de Lüderitz, guarda a memória de quando o local era campo de prisioneiros das etnias perseguidas pelos colonizadores alemães.

 

Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)
Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)

 

Aos poucos, os namibianos vão aprendendo a valorizar sua história de resistência. Na praça de Lüderitz onde foi instalada a Klink Plake, placa em homenagem ao marinheiro brasileiro, já não existe a estátua vizinha em referência ao fundador da cidade, o alemão Adolf Lüderitz – escultura que Amyr viu em sua histórica partida a remo em 1984. “Decidiram trocá-la pela de Cornelius Frederiks, um dos heróis rebeldes que lutaram contra a ocupação alemã”, relata Amyr. Outro ponto interessante de visita para brasileiros que queiram seguir os passos de Capitão Klink é a Lüderitz Safaris & Tours. Agência e loja de souvenirs, a empresa é comandada por Marion Schelkle, que junto com seu ex-marido Gunther deram abrigo ao brasileiro antes da partida heroica do I.A.T. Vale a pena passar ali para, quem sabe, ouvir as histórias da preparação de Amyr antes de encarar sua grande saga pelo Atlântico Sul. Foi o que fizeram os Klink ao visitar Lüderitz, de carro, há dois anos. De lá eles dirigiram até a Cidade do Cabo, onde concluíram os quase 5.000 quilômetros rodados e pegaram o voo de volta ao Brasil.

 

Orix, um dos mais belos animais da região
Orix, um dos mais belos animais da região

 

 

Pílulas de curiosidades:

  • Já ouviu falar dos círculos das fadas da Namíbia? Em Damaraland, uma infinidade de círculos parece ter sido desenhada no campo de gramíneas baixas. Ali, no entanto, não cresce mato algum. Há quem diga que são obras de cupins – mas o povo himba chama de “pegadas dos deuses”.

DSC00716-44

 

 

 

  • O jeito mais espetacular – e exclusivo – de ver as dunas gigantes coladas ao mar, os círculos das fadas e os barcos naufragados da Costa do Esqueleto é de cima. Por 4 a 6 dias – e 15 mil dólares – pode-se explorar o melhor da Namíbia em aviões particulares para 2 a 8 pessoas.

SobrevooSCsossusvlei00532-36

 

. O fotógrafo e jornalista Haroldo Castro (viajologia.com.br) costuma conduzir grupos de brasileiros em um safári fotográfico pelo melhor da Namíbia. No roteiro estão o Parque Nacional de Etosha, a tribo himba e as dunas avermelhadas de Sossusvlei, onde fica o Parque Namib-Naukluft.

 

Para entender a Namíbia

Visto: Não é preciso visto prévio para entrar no país.

Melhor época: na seca, de junho a outubro, fica mais fácil avistar os animais, todos concentrados no entorno da água.

Moeda: dólar namibiano, o nad. 1 real equivale a cerca de 3,74 nads. 1 dólar americano compra 12 nads.

Língua: Cerca de 20 línguas são usadas no país, mas o inglês é a oficial – embora boa parte dos namibianos fale alemão e africâner (a língua de origem holandesa presente também na África do Sul).

Quem leva: A agência de viagens TERRAMUNDI produz roteiros personalizados e em grupo para a Namíbia (www.terramundi.com.br).

Onde ficar: Uma das pioneiras do continente, a rede de lodges e acampamentos de luxo Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com) tem unidades em toda a Namíbia.

 

SunsetDSCetosha01181-95

 

 

O REPÓRTER SE HOSPEDOU NA NAMÍBIA A CONVITE DA WILDERNESS SAFARIS (www.wilderness-safaris.com)

Todas as fotos são de autoria de Daniel Nunes Gonçalves/SAMESAMEPHOTO

Eles sobreviveram

Navegando com o tripulante morto, por Júlio Esteves

 

 

“Ele estavabranco, boca aberta, olhar fixo no céu. Meu Deus, acho que ele está morto! Gritei, fiz massagem cardíaca, tentei contato por rádio, me descontrolei chorando como poucas vezes na vida.” 

O primeiro susto aconteceu no oitavo dia de navegação pelo oceano Atlântico, entre a África e o Brasil, em 1988. Eu e meu amigo Rafael Ribeiro, 33 anos, comandávamos nosso Supercat 17 — um catamarã de 5 metros preparado ao longo de um ano para a maior aventura da nossa vida — quando aconteceu o improvável: num piscar de olhos, o mastro do barco simplesmente tombou. Pasmos, constatamos que nenhum de nós tinha checado as manilhas que sustentavam o mastro, dando margem para que as ondas e os fortes ventos alísios de setembro o tirassem do lugar. Estávamos agora à deriva numa embarcação a vela, sem rádio de longo alcance e muito, muito distantes do fim da viagem, planejada para durar 35 dias.

Trabalhamos por um dia e meio sem parar até que levantarmos novamente o mastro para seguir em frente. A natureza não dava trégua e nossas roupas técnicas pareciam não ser suficientes para amenizar, por dias e dias, o sol inclemente, o vento cortante e a água fria na cara. Não havia uma cabine para dormirmos, apenas um compartimento, na proa, para comida e equipamentos. Éramos salpicados por água salgada dia e noite. Numa madrugada ao relento, às 4 horas da manhã, despertamos em meio a uma frente fria que levantou ondas de 5 metros, cobrindo a superfície do barco e quase nos jogando ao mar, não fosse o cabo de 8 mm que nos mantinha amarrados ao barco 24 horas por dia. Foi quando o impacto das ondas estourou o nosso leme. E lá fui eu enfrentar meu medo de tubarões mergulhando para trocar o leme danificado por um reserva.

Resolvido mais esse imprevisto, a expedição seguiu seu curso. Acordávamos com a luz do sol para velejar a uma velocidade média de 10 nós ao longo de 10 horas diárias e conversávamos rindo um bocado. Fazíamos intervalos apenas para as refeições — comida de exército especialmente preparada para aquela situação. Evoluíamos 100 milhas por dia e voltávamos 15 milhas por noite, quando o barco derivava embalado pela corrente de quase 2 nós. Era como se estivéssemos revivendo as sensações dos descobridores da América, aproveitando nossa experiência como marinheiros em aventuras anteriores.

Depois de 15 dias cruzando o Atlântico a caminho de nossa Bahia natal, a viagem perdeu o alto-astral. Rafael começou a se sentir mal, com desarranjos intestinais incontroláveis e gemidos enquanto dormia. Os remédios que tínhamos não adiantaram. Pensei que poderia ser cansaço, mas na 22a noite ele gemeu alto demais. Acordei e vi seus olhos amarelos como cerveja. Ele estava tão debilitado que não falava. Tentei lhe dar café, mas a bebida escorria pelos lábios. Levantei e disse: “Fael, você não está nada bem, vamos voltar”.

Amarrei-o bem fixo ao barco e, contra a corrente, retomei o rumo para a Nigéria. Horas depois ele parou de gemer. Cheguei perto e congelei. Ele estava branco, boca aberta, olhar fixo no céu. Gritei, fiz massagem cardíaca, mas ele já estava morto. Chorei como poucas vezes na vida.

Depois de três horas ali parado, o vento uivando, a vela sacudindo, resolvi navegar para São Tomé e Príncipe, a terra mais próxima. Meus pensamentos estavam tão mexidos quanto o mar: do que ele tinha morrido? Como seria entregar seu corpo à família?

Agora era eu quem lutava pela sobrevivência. O corpo seguia amarrado e coberto e eu repetia para mim mesmo que não iria morrer, aos 26 anos, no meio do oceano. Cinco dias depois, duas corvetas cruzaram o meu caminho, vindas da África. Disparei um sinalizador, eles responderam, e consegui comunicação com meu rádio portátil. Não acreditei quando eles se aproximaram: a tripulação era brasileira e, por nossa causa, tomou o caminho de volta para a África. Foram mais dois dias de barco e uma semana na casa do embaixador brasileiro na Nigéria esperando a autópsia. Rafael morrera de hepatite fulminante e contagiosa. Eu, milagrosamente, sobrevivi. E, 12 anos depois, fiz sozinho a travessia do Atlântico. Foi minha forma de homenagear meu amigo Rafael e de ter certeza de que o trauma estava superado.

[A travessia da África à Bahia, realizada em 2000 em comemoração aos 500 anos do Brasil, é o tema do livro 414 Horas, a ser lançado nos próximos meses].

 

ANÁLISE PROFISSIONAL: Não se sai da costa para uma viagem dessas, num barco sem cabine, sem um plano logístico minucioso. Uma boa preparação é 80% da viagem. É preciso usar roupas de última geração, carregar equipamentos eletrônicos de reserva e equipamentos de sobrevivência como dessalinizadores, balsa salva- vidas e primeiros-socorros. Um mastro só cai se você não tiver estais de reserva, como parece que aconteceu. Aliás, a escolha da embarcação também é fundamental. Na minha opinião, o barco usado não foi o ideal: o Supercat é um barco pequeno e de construção frágil. Um check- up médico antes de qualquer viagem também é necessário, assim como tomar todas as vacinas que a região a ser visitada requer. Não imagino fazer uma travessia de um oceano num barco aberto sem apoio das marinhas locais, tampouco o envolvimento de um bom meteorologista e um nutricionista que prepare uma dieta balanceada.

Beto Pandiani é velejador profissional e viajou entre a Antártica e o Ártico num catamarã de 21 pés sem cabine

 

2) Despencando de 75 metros de altura

Por Paulo Bruxo

“Enquanto meu amigo observava a incrível paisagem do oceano Atlântico diante de nós, aconteceu o pior: a agarra não suportou meu peso, quebrou e eu cheguei a esperar o tranco da segunda solteira, que não aconteceu.”

 

O ano era 1977 e o lugar o morro da Urca, no Rio de Janeiro, praticamente o quintal da minha casa. Eu tinha 16 anos, escalava desde os 13 e segui, com meu parceiro André Ilha, para fazer nossa segunda investida no Irmão Maior do Leblon. Calçava tênis Kichute, os mosquetões eram feitos em aço e eu me orgulhava por usar um capacete amarelo que parecia o auge da segurança naqueles tempos em que a escalada ainda engatinhava no Brasil. Meu pai nos deu carona até o início da trilha, onde hoje fica a favela do Vidigal, cruzamos a mata e iniciamos a via.

Na investida anterior, o André tinha conquistado uma via em diagonal (quase horizontal) para a direita com dois grampos de 0,5 polegada separados por 25 metros. Decidimos acrescentar um grampo intermediário para amenizar o trecho. O André foi na frente e fixou a corda no grampo mais distante. Em seguida, prendi a corda no primeiro grampo. Assim tínhamos um corrimão. Preparei as duas solteiras presas à cadeirinha, prendi-as no corrimão e me desencordei. Segui pelo corrimão até o meio do caminho e parei para fixar o novo grampo no ponto que nos parecia mais seguro. Passei uma cordinha com um nó prussik numa grande agarra protuberante e prendi um estribo (apoio para os pés) para ficar mais confortável.

Não sei por que — talvez por excesso de confiança por estar no meu território — tirei uma das solteiras do corrimão e a prendi no prussik. Sem pensar, tirei a segunda solteira também, achando que a outra estava presa, e fiquei ali, martelando o grampo preso apenas por uma cordinha enlaçada numa agarra, enquanto meu amigo observava a incrível paisagem do oceano Atlântico diante de nós. Aconteceu o pior: a agarra não suportou meu peso, quebrou e eu cheguei a esperar o tranco da segunda solteira, que não aconteceu porque ela não estava mais presa ao corrimão. Vi minha queda de frente, quicando duas vezes no paredão até cair na mata, 75 metros abaixo. Nos seis segundos no ar, vi minha vida inteira passar em flashback. Não apaguei, não senti dor e fiquei ali, caído de barriga pra cima, vendo o André preso, sem corda, ao paredão, perguntando se eu estava bem. “Me tirem daqui!”, gritei. Por sorte, alguém da comunidade vizinha assistiu a tudo e ali chegou, uns dez minutos depois, num grupo de oito homens. Eu sangrava muito, ouvia as pessoas dizendo que eu ia morrer. Fui transportado numa improvisada maca humana até a pista, onde um Fusca parou pra me resgatar. Fui para o hospital todo esbagaçado, sentado no banco de trás. Só mais tarde eu saberia que tinha fraturado a bacia, dobrado o joelho ao contrário, descolado o diafragma e rompido o baço de forma a ter uma hemorragia interna. Passei 15 dias no hospital, levei um ano para me recuperar e voltar a escalar. Não parei até hoje. Agora tenho 47 anos, trabalho com atividades e resgate em altura em ambiente urbano, já dei aula a mais de 800 alunos e passei a ser um militante pela segurança na montanha. Ao paredão da Urca, nunca mais voltei. O local passou a ser chamado de Paulo Ferreira em minha homenagem, e ganhei, não por acaso, o apelido de Bruxo.

 

ANÁLISE PROFISSIONAL: Ficar desancorado num ambiente exposto não é uma boa idéia. A complexidade do caso é que ele sempre esteve ancorado, ainda que numa agarra prestes a quebrar. Muitas vezes nós, escaladores, confiamos a nossa segurança a sensações. Em tese, sabemos que devemos checar e rechecar nossa segurança o tempo todo e que não podemos fazer isso baseados apenas na sensação. Ele se sentiu seguro por apoiar- se num cordelete (prussik) enroscado na agarra e por isso se desancorou da corda. Obviamente, foi um erro que custou caro. O Paulo executou um procedimento de risco inconscientemente e o azar foi o fato da agarra ter quebrado justamente naquela hora. Por outro lado, ele teve uma grande sorte em ter sobrevivido a uma queda de 75 metros. Ironicamente, seus alunos têm a sorte de ter instruções ministradas por uma pessoa que pode falar dos procedimentos de segurança com muita propriedade

Luiz Makoto Ishibe foi o primeiro escalador brasileiro a chegar ao cume das rochosas Fitz Roy e Cerro Torre, na Patagônia argentina.

 

3) Caindo por duas vezes quase fatais

Por Bito Meyer

Sempre gostei de altura. Quando conheci a escalada, tive certeza de que era um esporte que praticaria a vida inteira. Aos 13 anos — hoje tenho 50 — já ensinava os amigos a subir paredes. Em 1974, quando os 15 metros da pedra Lascada do Marum- bi, no Paraná, eram um desafio relevante, quase morri ao despencar lá do alto. Na minha décima descida, soltou-se o mos- quetão de ferro improvisado num ferreiro — o Brasil da ditadura não era aberto à importação de equipamentos esportivos. Caí desacordado e levei dez horas pra chegar, braço direito quebrado e cheio de hematomas, a um hospital de minha cidade, Curitiba. Passei 45 dias engessado e, quando me recuperei, voltei ao Marumbi pra tirar a zica. Refiz oito vezes o mesmo trecho e espantei as assombrações. Assim voltaria a explorar paredões e a dar aulas de escalada, meu ganha-pão até hoje.

Vinte anos depois, em 1994, a morte bateu à minha porta de novo. Eu tinha me encantado com o parapente e fiz uns 30 vôos, alguns enormes. Mas foi num salto básico a partir do campo-escola em São Francisco Xavier, no sul de Minas, que me dei mal. Fiz a decolagem a uns 150 metros, subi com o lift (vento que sobe as encostas das montanhas) para uns 300 e depois de brin- car por um tempo no ar comecei a descer com uma certa velocidade. Mas um inesperado vento de final de tarde fez de mimum pêndulo quando eu estava a apenas 50 metros do chão. Havia pouco espaço hábil para eu contornar o problema e controlar o aparelho. Virei uma pedra, girando em espiral numa velocidade cada vez maior. Deu tempo de pensar que, se eu escapasse vivo, iria me lesionar seriamente, talvez ficasse paraplégico.

Não lembro do impacto. Mas o apagão que se seguiu durou poucos segundos e vi o clássico clarão diante de um túnel que tanta gente descreve. Lembro do meu apego à vida e da desistência de seguir para o fim do túnel. Quando acordei, no chão, com a perna direita quebrada, dores dos calcanhares aos cotovelos e to- talmente ralado, não acreditei. Acho que meu anjo da guarda se jogou embaixo de mim para que eu vivesse um pouco mais. Já no hospital, depois da injeção de morfi- na (dá barato mesmo, pena que faça mal), os médicos me disseram, em tom fúnebre, que minha carreira de escalador estava encerrada. Eu ganharia uma placa no joelho que me faria andar para sempre com o joelho direito semi-rígido.

Três meses de fisioterapia intensa de- pois, derrubei o discurso dos médicos e segui para o parque do Yosemite, nos Es- tados Unidos, para ser o primeiro brasi- leiro a escalar um A5 (grau mais difícil da escalada artificialem rocha), dormindo pendurado em redes por nove dias. A perna lesionada só reduzia em 10% meu mo- vimento, o que permitiu que eu voltasse a fazer o que mais gosto: escalar montanhas.

Hoje, definitivamente, não temo a morte. Agradeço por estar vivo e me divertindo. Talvez um dia eu volte a voar, apesar da dificuldade que teria para pousar com o joelho enrijecido. Mas antes quero escalar por mais uns 15 anos. Aí, quem sabe, quando eu já estiver próximo da hora de desencarnar, eu pegue o parapente para ver o mundo ainda mais do alto.

 

ANÁLISE PROFISSIONAL: Quase todos os acidentes de parapente acontecem por falhas do piloto. O esporte é seguro, mas seus praticantes devem ter aptidão e reflexo e preparar-se corretamente, o que inclui pesquisar a meteorologia. Nada ocorre inesperadamente com o nosso clima. A atmosfera evolui durante o dia, dando sinais do que vai acontecer mais tarde. Além disso, o relato indica que o piloto poderia estar utilizando equipamento inadequado para o seu tempo de vôo. O efeito de pêndulo só acontece em equipamentos mais avançados, que devem ser utilizados por pilotos com mais de dois anos de vôo. Pilotos com 30 vôos (pouco mais de quatro meses de experiência) devem utilizar os chamados “parapentes saída de escola”, que não têm esse tipo de reação. E, embora não tenha sido mencionado, há sempre a possibilidade de o piloto usar o pára-quedas de emergência quando a situação sai do controle.

Alfio Vegni Jr., o Sargento, é vice-campeão brasileiro (2007) e diretor de parapente da Federação Gaúcha de Vôo Livre

 

4) Picado por abelhas durante a escalada

Por Ézio Vicente

Aquele domingo de sol de outubro parecia perfeito para escalar. Chamei meus amigos Fábio e Cléber para subir a rocha Visual das Águas, na fazenda Serrinha, entre Bragança Paulista e Piracaia (SP). Como eu era o mais experiente, guiei a subida pela via Urubu Malandro, fiquei ancorado a quase 20 metros de altura e passei a mesma corda para os caras subirem em seguida. Estávamos ali os três, curtindo a paisagem, quando nossa paz foi interrompida por uma abelha, daquelas amarelinhas que gostam de refrigerante.

Justamente naquele dia, não tínhamos trazido o inseticida que sempre carregamos para evitar surpresas desagradáveis com aranhas, escorpiões e marimbondos nas pedras. Bastou meu companheiro matar aquela bichinha para começar o maior pavor da minha vida. Centenas de abelhas surgiram do nada e começaram a nos atacar. Mal conseguíamos pensar, mas sabíamos que precisávamos sair dali o quanto antes.

Foi tudo rápido demais e nem lembro da dor das picadas. Estávamos tomados pelo desespero e começamos a gritar e a nos debater para afastar o enxame. O Cléber foi o primeiro a descer: tomou só oito picadas e, em instantes, liberou a corda. Depois foi o Fábio, já em pânico e fritando a mão na descida. Minha mão direita também ficou em carne viva quando fui baixar do mesmo jeito, já que não dava para ficar mais um segundo naquele inferno. Zumbindo aterrorizantemente, as abelhas cobriram meu corpo, dominaram meu cabelo, entraram pela boca, nariz, orelhas — só ficaram intactas as solas dos pés, por causa das sapatilhas. A uns 4 metros do chão, me joguei numa queda livre até um patamar à beira de um barranco. Estatelado no chão, percebi que tinha, no mínimo, lesionado um tornozelo. E me vi inteiramente pipocado de bolinhas roxas. Só minha mão esquerda tinha 72 picadas. No meu corpo todo, mais de mil! Felizmente, não sou alérgico a picadas.

Mesmo ferido, o Fábio tentou me levantar. Eu estava consciente, mas meu corpo não reagia. Como se eu fosse um bêbado que não sustenta o próprio peso, caí e arrastei o Fábio comigo barranco abaixo. Rolamos machucando ainda mais o corpo nas pedras. Eu tinha certeza de que morreria ali, aos 22 anos. Revi minha vida, pensei em Deus.

Entre a primeira picada e o resgate dos bombeiros que me levaram ao hospital, passaram- se duas horas. Fui direto para a UTI, onde ganhei doses cavalares de cortisona e passei 36 horas sob cuidado de médicos que não entendiam como eu tinha sobrevivido. Totalmente desfigurado, virei a atração dos funcionários do hospital. A quantidade de veneno das abelhas era tamanha que meus rins pararam de funcionar. Minha urina ficou negra. Cinco dias depois eu ainda expeli uma abelha das minhas vias respiratórias. Fui obrigado a passar 15 dias internado até que meu sangue se limpasse e meus rins voltassem a trabalhar.

Saí do hospital querendo escalar. Meu irmão tinha recuperado todo o meu equipamento no paredão, usando roupas especiais de apicultor para enfrentar a fúria das abelhas que continuavam intolerantes com os visitantes. Disseram-me que as abelhas ficaram agressivas depois que algumas queimadas da região acabaram com a morada delas. E eu, que não tinha nada a ver com isso, paguei o pato.

Três meses depois, voltei a escalar. Fiz umas 20 ascensões até que me deparei com marimbondos. Fui tomado por um medo que nunca sentira antes. Até quando vi uma abelha num restaurante tive uma reação exagerada, inconsciente. Foi por isso que decidi dar um tempo nas escaladas outdoor e passei a praticar mais mergulho, tênis e espeleologia. Ainda sonho em escalar. Mas… e se uma abelha aparecer?

 

ANÁLISE PROFISSIONAL: Pela descrição, os rapazes foram atacados pelas abelhas de mel, da espécie Apis mellifera. Quando alguém amassa ou é picado por uma abelha ocorre a liberação de feromônios de alarme, que chamam as outras abelhas para atacar. O objetivo delas é afastar o inimigo do ninho. Se houver muitas abelhas, é porque o ninho está perto. Quando a abelha pica, ela deixa o ferrão e as glândulas de veneno enterradas na pele da pessoa. A abelha morre em seguida, mas o ferrão continua injetando veneno e liberando feromônios de alarme. Neste momento, o mais importante é se afastar, preferencialmente entrando num lugar escuro. Quando as pessoas escalam, têm dificuldades em se afastar do perigo, o que pode provocar até a morte. Ao ser picado, o escalador deve tirar o ferrão com a unha antes de chegarem outras abelhas – se possível, passando folhas molhadas que ajudam a mascarar o cheiro. As abelhas tendem a atacar mais as áreas escuras, como roupas e meias. Os escaladores também devem evitar perfumes que tenham odores fortes. Duvido que inseticida possa ajudar nestes momentos. Depois de picada múltiplas vezes, a vítima deve procurar um médico para checar a possibilidade de uma reação alérgica.

David De Jong é professor-doutor do Laboratório de Genética de Abelhas da Faculdade de Medicina da USP, campus Ribeirão Preto (SP)