Peru em foco na Rádio Vozes

Como é chegar a Machu Picchu por trilhas incas longe dos turistas? A nova série de podcasts do Programa Repórter Viageiro, da Rádio Vozes, tem o Peru como tema e responde a esta pergunta. Em outubro, Daniel Nunes esteve pela quarta vez no país, desta vez para percorrer a Rota de Lares e Vale Sagrado, um caminho de 5 dias com hospedagem nos lodges da grife Mountain Lodges. Os boletins do Repórter Viageiro, que Daniel estreou a convite da radialista Patrícia Palumbo em agosto de 2016 contando os bastidores dos Jogos Olímpicos do Rio, já apresentaram várias partes do planeta. Os ouvintes da rádio digital on-demand seguiram as andanças de Daniel por Tailândia, Vietnã, Nova York, Portugal e Alemanha. Dessa vez, o Peru é destrinchado por meio de sons, experiências e depoimentos de outros viajantes que percorreram a rota – como os participantes do Projeto TerraMundi Creators. Quem quiser acompanhar os boletins pode baixar o app da rádio no celular ou acessar o site.

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Vida no deserto

Vítima do genocídio alemão há apenas 110 anos e do apartheid durante o domínio sul-africano, o país se reinventou e celebra as bodas de prata de sua liberdade praticando um turismo sustentável e seguro

Lugar onde não existe nada. Quem observa pela janela do avião a vastidão inabitada da Namíbia logo entende esse curioso significado do nome do país na língua dos nama, uma das 13 etnias locais. Parece que lá embaixo tem apenas deserto. O nada-sem-fim só é interrompido quando o avião se aproxima da pequena capital Windhoek, destino do voo da South African Airways vindo da cidade sul-africana de Johannesburgo – rota mais direta para quem viaja do Brasil. Naquele centro urbano quase sem prédios vivem 340 mil dos poucos 2,3 milhões de habitantes dessa nação que se renova: em 2015 celebra-se 25 anos de independência da Namíbia, que desde março é liderada por seu terceiro presidente, Hage Geingob.

 

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Basta pousar e caminhar pelo centro urbano para se surpreender com uma peculiaridade namibiana. Tanto as ruas como a população, 90% negra, adotam nomes alemães: Fritz, Wolfgang, Frida. A arquitetura germânica salta aos olhos e, nas igrejas, nota-se a dominância do cristianismo luterano. Embora o português Diogo Cão tenha chegado à região em 1484, ele desprezou aquela sucessão de desertos pouco atraente. Assim, o lugar preservou-se de invasores por exatos 400 anos. Até que a Alemanha chegou para colonizar a então chamada África do Sudoeste, em 1884, ficando até 1915, quando saiu em plena Primeira Guerra Mundial. Não por acaso, os alemães são os visitantes mais comuns atualmente – e a cerveja da Namíbia tenha qualidade e boa fama comparável à dos colonizadores.

 

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Cicatrizes históricas

A colonização europeia, como se sabe, foi bem violenta em países da África e da América. Na Namíbia, em especial, a ocupação alemã deixou feridas dolorosas. Ali aconteceu aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20, entre 1904 e 1908, quando o mundo ainda nem sonhava com os terrores de Adolf Hitler. Há documentos comprovando que o general alemão Lothar Von Trotha ordenou o extermínio de todos os herero que se recusassem a deixar o país. A Alemanha nunca admitiu a tragédia oficialmente. Mas o impacto nas duas etnias mais perseguidas foi devastador: restaram apenas 15 mil herero (dos 85 mil existentes na época) e 10 mil nama (dos 20 mil que teriam se rebelado no conflito). Parte desse episódio pouco difundido mundo afora pode ser conhecido no Independence Memorial Museum, inaugurado em 2014 na capital.

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Igualmente traumática é a outra mancha na história recente da Namíbia. A África do Sul, que tinha invadido o país durante a Primeira Guerra, instaurou em 1948 o mesmo regime racista do Apartheid que segregava brancos e negros – o que fez com que até hoje exista uma minoria branca no topo da cadeia sócio-econômica do país. O apartheid namibiano só caiu em 1990. Foi quando, depois de quase um século de sofrimento, a Namíbia conquistou a sua independência. Mas com uma vantagem: nesses 25 anos, ela não sucumbiu mais a grandes conflitos, como aconteceu com vários países da região após se tornarem livres.

 

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Himba vendendo boneca na estrada

 

Pelo contrário. Rica em minérios como diamante e urânio e habitada por tribos de cultura preservada, a Namíbia incluiu a conservação de seus recursos naturais na constituição e descobriu no turismo uma fonte econômica importante. “É um país único, que se diferencia de outras nações africanas por proporcionar muito mais que safáris fantásticos”, define Danilo Rondinelli, proprietário da operadora TerraMundi, que há seis anos leva brasileiros para lá. De fato, a partir de Windhoek, os viajantes costumam fazer safári no Etosha e depois seguem para visitar sítios arqueológicos, tribos superfotogênicas, um litoral peculiar e desertos com paisagens de outro planeta. “Depois de 2012, o número de visitantes que levamos para lá dobrou”, conta Danilo. São exploradores que evitam destinos de massa e curtem ir aonde pouco gente foi.”

 

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Etnia Damara em apresentação para visitantes

 

 

Dunas de Sossusvlei, Playground para fotógrafos

Se a Namíbia fosse um destino pop e tivesse de escolher uma imagem como seu cartão-postal, ela seria Sossusvlei. A cada amanhecer, um punhado de estrangeiros sonolentos mira todo tipo de lente fotográfica para este verdadeiro mar de dunas gigantes avermelhadas. As câmeras costumam registrar os momentos mais sublimes no trecho chamado Deadvlei, no centro de um desses areais. É onde troncos tortos projetam a sombra de seus galhos no chão esbranquiçado por sal e argila, em um contraste impactante com a duna ao fundo e o céu azul. Não por acaso Deadvlei, que nada mais é que o leito seco do Rio Tsauchab cujo fluxo foi interrompido pelas areias móveis, se tornou objeto de desejo de fotógrafos profissionais como Sebastião Salgado e J.R.Duran. “Passei seis dias fazendo um safári aéreo e jamais vou me esquecer da cena impressionante do deserto chegando até o mar”, conta Duran.

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Localizado a 300 quilômetros de Windhoek, Sossusvlei pertence ao Deserto de Namibe, que batiza o país e cobre seu interior de sul a norte. Com estimados 55 milhões de anos, ele é considerado um dos mais velhos e secos da Terra, além de dono das dunas mais altas do mundo, com cerca de 300 metros. Junto com a outra grande região desértica nacional, a do Kalahari, que avança aos limites de Botsuana e possui mais água e árvores, Sossusvlei contribui para que dois terços do país sejam dominados por áreas desérticas.

 

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Partindo da capital, chega-se a Sossusvlei tanto por ar – normalmente, voando nos teco-tecos que levam aos lodges – quanto por terra – de preferência, em veículos 4×4. Na Namíbia, dirige-se por horas sem ver viv’alma – e assim entende-se a baixa densidade demográfica de 2 habitantes por quilômetro quadrado em um território de 850 quilômetros quadrados, pouco maior que três estados de São Paulo. O contraste dos ventos quentes do interior com a brisa gelada do mar provoca neblina no vasto trecho onde o deserto encontra o litoral – e por vezes adia ou atrasa os voos pela região.

 

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Como no deserto quase nunca chove, hotéis como o Little Kulala (www.wilderness-safaris.com/camps/little-kulala) deixam a opção de o hóspede dormir em uma cama fora, ao ar livre, no terraço de cada chalé. Me rendi à experiência por duas noite e garanto: poucos prazeres são maiores do que abrir os olhos no meio da noite e se deparar com uma infinidade de estrelas forrando o céu. Para melhorar, um bom edredon protege do vento do deserto, e praticamente não há insetos no local. A imersão na natureza fica mais profunda quando, antes de dormir, o jantar acontece também no meio do nada namibiano: um caminho de tochas leva os hóspedes até as mesas e a fogueira central – onde os petiscos, as cervejas da Namíbia e os bons vinhos sul-africanos são servidos.

 

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Ao acordar, outra surpresa. Enquanto se toma café da manhã na sacada do restaurante do hotel, parece que o safári vem até você: dá para ver alguns orix e springboks, os antílopes mais comuns do pedaço, tomando água na poça d’água que fica poucos metros adiante. Os belos selvagens costumam posar para zooms potentes nos passeios de cada dia, como a aventura de pilotar quadriciclos, a caminhada em meio ao cânion Sesriem, os voos de balão e a subida nas dunas que levam ao Deadvlei – caso da famosa Big Daddy. Observar as pegadas dos animais na areia é uma das diversões durante o belo trekking de 1 hora em meio ao deserto de Sossusvlei. Só não é bom deixar-se levar pela beleza e parar demais no caminho. Quem perde as primeiras luzes em Deadvlei corre o risco de voltar sem boas fotos do lindo cartão-postal Namíbia.

 

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Heróis da resistência vivos em Damaraland

Os viajantes chegam a Damaraland atraídos por pinturas rupestres e florestas petrificadas, mas deixam o lugar encantados ainda mais pelo contato com as tradições do povos Damara e Himba

 

Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas
Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas

 

Sabe aqueles corais africanos supercontagiantes, com a voz estridente das mulheres contrastando com o tom grave dos homens – e todo mundo esbanjando alegria e molejo enquanto dança? É um desses que recebe os visitantes do lodge Doro Nawas (wilderness-safaris.com/camps/doro-nawas-camp), na região de Damaraland, no centro-norte do país. Não por acaso o staff do hotel ganhou um concurso nacional de cantores. Eles conseguem melhorar até o mal-estar de quem pousa enjoado dos voos nos aviões pequenos bem comuns no transporte interno pela Namíbia. A recepção amigável costuma ter ainda drinks e uma toalha úmida e gelada para amenizar o calor seco do deserto. Nada impressiona mais, porém, que a simpatia dos anfitriões do povo damara, que dá nome a região, assim como de outros nativos da área.

 

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O atrativo número 1 de quem inclui essa parada em sua exploração da Namíbia é arqueológico. Fica aí, a 430 quilômetros de Windhoek, o Patrimônio da Humanidade Twyfelfontein, uma sucessão de rochas muito bem preservadas em seu sítio original e onde estão 2500 pinturas e inscrições rupestres datadas da Idade da Pedra. As imagens retratam animais como rinocerontes, girafas e até um leão cujo rabo tem a forma de uma mão. “Como não havia metal para fazer as gravuras, nossos antepassados Bushman usavam rochas de quartzo como ferramentas”, conta a damara Sylvia Thanises, uma das 17 guias.

 

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Twyfelfontein, as pinturas que se transformaram em Patrimônio da Humanidade

 

Mais antigas que as obras de arte de Twyfelfontein são as florestas petrificadas vizinhas. Não se trata de um bosque em pé. Cerca de 50 troncos de árvores coníferas medindo até 34 metros de comprimento, e com mais de 200 milhões de anos, estão caídos no solo. Segundo os cientistas, elas foram trazidas em enxurradas e cobertas pelo deserto. “Protegidas” nesse ambiente de oxigênio zero, sem chuva e forradas por sedimentos de sílica, as madeiras foram “mineralizadas” e viraram fósseis. Pedra mesmo! Entre elas espalham-se várias Welwitschia mirabilis, planta nacional da Namíbia. Rasteira, ela tem só duas folhas que ultrapassam 8 metros de comprimento. “Elam resistem a cinco anos sem chuva”, explicou o guia Justus Sûxub. “E podem viver bem mais de um milênio.

 

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Enfim, os humanos.

É no caminho para esses verdadeiros museus ao ar livre que pode-se fazer outro contato com o povo. Seja qual for a etnia do guia, do motorista ou do anfitrião, ele costuma sempre se divertir ao mostrar diferenças culturais como os “cliques”, sons de estalos que fazem ao pronunciar várias das mais de 10 línguas tribais. É o caso dos 27 descendentes damara que trabalham no Museu Vivo dos Damara (lcfn.info/damara). Encravado entre rochas lindas e gigantes a 8 quilômetros do Parque de Twyfelfontein, o centro cultural permite conhecer moradas e danças tradicionais, além do artesanato feito de couro e rocha. “Queremos resgatar a cultura que se perdeu ao longo da colonização”, diz a anfitriã Maureen Hoes. A experiência seria mais autêntica se, ao final do expediente, não tivéssemos visto as mesmas pessoas que tinham se apresentado com poucas roupas e estilo “primitivo” passarem por nosso jipe vestindo mochila, tênis e calça jeans ao voltarem para suas vilas. Mas a visita vale a pena.

 

 

Felizmente, em uma das esquinas da desabitada estrada de volta ao hotel, nos deparamos com duas mulheres e uma criança da fotogênica etnia himba. Dessa vez, não era pra-gringo-ver que as nativas usavam seios à mostra e saias feitas de couro de bode. Nômades, Vezapopare e Veriazako tinham viajado 200 quilômetros para vender colares e pequenas bonecas. As miniaturas reproduziam a estética das himba, que lambuzam o corpo com um barro avermelhado – o mesmo usado para decorar seus cabelos com uma espécie de dreadlock de rastafári.

 

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“Só voltamos para casa, em Opuwo, depois de vender tudo”, disse, na língua himba, Vezapopare. Ainda que o turismo esteja engatinhando na Namíbia, as himba já aprenderam que os turistas são carentes de souvenires do país. E que, caso queiram fotografá-las, devem desembolsar alguns dólares namibianos.

 

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Nômades de etnia himba: barro nos dreadlocks

 

Safári no Etosha: Cara-a-cara com o leão

Safáris são todos iguais? Na opinião dos especialistas, não é bem assim. Safáris de várias partes do mundo têm em comum a caçada fotográfica a animais ao ar livre, normalmente a bordo de jipões 4×4. Mas sempre mudam os bichos, o ambiente, os tipos de hospedagem, os outros atrativos do país. Nessa disputa, o do Parque Nacional de Etosha, criado em 1907 no Norte da Namíbia, quase fronteira com Angola, é tido como de elite. “Ele está entre meus 4 safáris top do planeta,” afirma Danilo Rondinelli, que já esteve em 20 parques de safári de 12 países africanos. “Há abundância de animais raros em paisagens espetaculares como o lago de sal Etosha Pan”, explica Rondinelli, dono da agência TerraMundi. Segundo ele, a viagem à Namíbia costuma ser combinada com esticadas a África do Sul, passagem obrigatória para os brasileiros, e Botsuana, o país vizinho que tem safáris diferentes desse, em regiões mais úmidas e verdes.

 

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Superameaçados de extinção, são facilmente avistadas no Etosha. A mais bem sucedida ação de preservação desses últimos, iniciativa da rede hoteleira Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com), tem contribuído para evitar o desaparecimento dos cerca de 4.000 rinocerontes-negros sobreviventes em ambiente selvagem: alguns animais chegam a ser transportados em aviões para que procriem em áreas selvagens mais seguras. Até os temidos leões, escassos em outras partes do continente, dão as caras várias vezes aos visitantes do Etosha. “Existem uns 400 deles espalhados por essa área”, orgulhava-se Gabriel Zuma, guia do Ongava Tented Camp (www.wilderness-safaris.com/camps/ongava-tented-camp), enquanto o Land Rover do grupo chegava a 5 metros de uma família de leões com a cara ensanguentada após devorar uma zebra.

 

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Uma das experiências mais marcantes da visita à região foi justamente se hospedar em uma das oito barracas de lona desse acampamento de luxo na Reserva Privada de Ongava, que fica colada ao Parque de Etosha. E se um leão resolvesse rasgá-la? Para fazer lembrar que não estávamos em uma inofensiva réplica da Disney World, na calada da noite foi possível ouvir rugidos assustadores no entorno da tenda. E, pela manhã, tomei um susto ao sair e quase pisar em uma tal cobra zebra, que cospe o veneno em suas vítimas. Felizmente aquela era ruim de mira: me safei do cuspe da peçonhenta. Os dois episódios foram suficientes para eu entender o porquê de os hóspedes serem proibidos de circular da tenda para o restaurante ou a recepção sem um segurança armado ao lado. Todo cuidado é válido para curtir a vida animal realmente selvagem da região de Etosha.

 

Etosha Pan e a tempestade chegando
Etosha Pan e a tempestade chegando

 

Amyr Klink: da travessia do

Atlântico à road trip em família

A Namíbia foi o país escolhido pelo navegador Amyr Klink como ponto de partida do seu primeiro grande desafio como explorador: a travessia solitária do Oceano Atlântico a remo. Em 1984, então com 29 anos, ele zarpou com o barco I.A.T. do porto de Lüderitz, cidade vizinha à perigosa Costa dos Esqueletos, que tem esse nome em função dos ossos, tanto de humanos quanto de animais, espalhados pela praia. “A partir dali a corrente de Benguela se afasta da orla e deflete para dentro do Atlântico; é o lugar onde começam os ventos alísios que sopram fortes e regulares até o Nordeste do Brasil”, descreveu no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, best seller com 340 mil cópias vendidas. A jornada deu certo: o barco superou ondas bravas e tempestades, chegando enfim à Bahia. Amyr realizaria outros feitos que o transformaram em um navegador respeitado, e a paixão pela Namíbia jamais cessou. “O país é seguro e econômico”, analisa. “Voltei duas vezes e tenho planos de retornar ainda esse ano.”

 

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Sua última viagem ao país foi em 2013, com a esposa e as três filhas, dessa vez para uma empreitada de 4 semanas que incluía também a África do Sul. “Voamos para Windhoek, alugamos um 4×4 e cruzamos o país por terra sentido litoral”, recorda Amyr. “As meninas se divertiram especialmente com os animais”, conta. O interior desértico do país tem os bichos terrestres típicos dos safáris, enquanto o litoral das cidades de Lüderitz, Walvis Bay e Swakopmond é morada de espécies de focas, pinguins, flamingos e pelicanos. “Foi na costa que matei as saudades dos amigos que fiz e dos ótimos frutos do mar”.

 

Placa em homenagem ao navegador brasileiro
Placa em homenagem ao navegador brasileiro (foto MARINA KLINK)

 

Estes centros urbanos litorâneos preservam a arquitetura europeia e ventos fortes que transformaram a região em um oásis para praticantes de esportes à vela como kitesurfe e windsurfe. Já a Costa dos Esqueletos, que sobe até a fronteira com Angola, tem um clima de mistério no ar, causado pela neblina frequente e pelos cascos de navios naufragados que restaram na praia. Um ambiente sombrio paira também sobre Elizabeth Bay, 25 quilômetros ao sul de Lüderitz, um longevo centro de exploração de diamantes que ganhou fama de povoado-fantasma. E até o refúgio natural de Shark Island, balneário de Lüderitz, guarda a memória de quando o local era campo de prisioneiros das etnias perseguidas pelos colonizadores alemães.

 

Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)
Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)

 

Aos poucos, os namibianos vão aprendendo a valorizar sua história de resistência. Na praça de Lüderitz onde foi instalada a Klink Plake, placa em homenagem ao marinheiro brasileiro, já não existe a estátua vizinha em referência ao fundador da cidade, o alemão Adolf Lüderitz – escultura que Amyr viu em sua histórica partida a remo em 1984. “Decidiram trocá-la pela de Cornelius Frederiks, um dos heróis rebeldes que lutaram contra a ocupação alemã”, relata Amyr. Outro ponto interessante de visita para brasileiros que queiram seguir os passos de Capitão Klink é a Lüderitz Safaris & Tours. Agência e loja de souvenirs, a empresa é comandada por Marion Schelkle, que junto com seu ex-marido Gunther deram abrigo ao brasileiro antes da partida heroica do I.A.T. Vale a pena passar ali para, quem sabe, ouvir as histórias da preparação de Amyr antes de encarar sua grande saga pelo Atlântico Sul. Foi o que fizeram os Klink ao visitar Lüderitz, de carro, há dois anos. De lá eles dirigiram até a Cidade do Cabo, onde concluíram os quase 5.000 quilômetros rodados e pegaram o voo de volta ao Brasil.

 

Orix, um dos mais belos animais da região
Orix, um dos mais belos animais da região

 

 

Pílulas de curiosidades:

  • Já ouviu falar dos círculos das fadas da Namíbia? Em Damaraland, uma infinidade de círculos parece ter sido desenhada no campo de gramíneas baixas. Ali, no entanto, não cresce mato algum. Há quem diga que são obras de cupins – mas o povo himba chama de “pegadas dos deuses”.

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  • O jeito mais espetacular – e exclusivo – de ver as dunas gigantes coladas ao mar, os círculos das fadas e os barcos naufragados da Costa do Esqueleto é de cima. Por 4 a 6 dias – e 15 mil dólares – pode-se explorar o melhor da Namíbia em aviões particulares para 2 a 8 pessoas.

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. O fotógrafo e jornalista Haroldo Castro (viajologia.com.br) costuma conduzir grupos de brasileiros em um safári fotográfico pelo melhor da Namíbia. No roteiro estão o Parque Nacional de Etosha, a tribo himba e as dunas avermelhadas de Sossusvlei, onde fica o Parque Namib-Naukluft.

 

Para entender a Namíbia

Visto: Não é preciso visto prévio para entrar no país.

Melhor época: na seca, de junho a outubro, fica mais fácil avistar os animais, todos concentrados no entorno da água.

Moeda: dólar namibiano, o nad. 1 real equivale a cerca de 3,74 nads. 1 dólar americano compra 12 nads.

Língua: Cerca de 20 línguas são usadas no país, mas o inglês é a oficial – embora boa parte dos namibianos fale alemão e africâner (a língua de origem holandesa presente também na África do Sul).

Quem leva: A agência de viagens TERRAMUNDI produz roteiros personalizados e em grupo para a Namíbia (www.terramundi.com.br).

Onde ficar: Uma das pioneiras do continente, a rede de lodges e acampamentos de luxo Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com) tem unidades em toda a Namíbia.

 

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O REPÓRTER SE HOSPEDOU NA NAMÍBIA A CONVITE DA WILDERNESS SAFARIS (www.wilderness-safaris.com)

Todas as fotos são de autoria de Daniel Nunes Gonçalves/SAMESAMEPHOTO

O prazer de ser bem ciceroneado na África do Sul

Abri o laptop aqui no voo de volta da South African Airways de Johannesburgo para o Brasil para rabiscar alguns highlights afetivos da marcante semana que acabo de viver na África do Sul e confirmei uma impressão corriqueira das minhas viagens: as pessoas são fundamentais para que se possa ter uma experiência de viagem positiva.

 

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O incrível entardecer no topo da Table Mountain, cartão-postal por excelência da Cidade do Cabo (foto samesamephoto)

 

 

Eu vi o famoso por do sol do alto da Table Mountain da Cidade de Cabo, tomei umas e outras na frente da casa do Mandela em Johannesburgo, pedalei entre os vinhedos da Região das Winelands. Mas quando eu dou uma rebobinada para decupar que emoção ficou mais gravada no hd interno, me vêm à mente primeiro as gargalhadas com nativos, e só depois os lugares bonitos da terra de Mandela.

 

Pedalada entre os vinhedos do Babylonstoren, em Franschhoek (foto samesamephoto)
Pedalada entre os vinhedos do Babylonstoren, em Franschhoek (foto samesamephoto)

 

Que essa constatação não apequene minha impressão do país. A velejada na baía de Cape Town ventilou minha mente e arejou meu coração, assim como os grafites e o frescor da arquitetura do revitalizado bairro de Maboneng, em Joburg, me inspiraram a voltar para São Paulo com vontade de agir para que o Minhocão que me avizinha se torne um dia uma experiência igualmente transformadora de realidades – não só imobiliárias, mas especialmente sociais.

 

Estufa de plantas onde é servido o café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren
Estufa de plantas onde é servido o café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren (foto samesamephoto)

 

Daria para incluir na listinha de embelezar os olhos as estradas litorâneas que conectam a Cidade do Cabo ao extremo sul do continente, a estufa de plantas onde tomei café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren, entre Stellenbosch e Franschhoek, e até a impecabilidade na apresentação de cada prato do menu-degustação no The Pot Luck Club, o restaurante bacanudo do chef número 1 da Cidade do Cabo, Luke Dale-Roberts – a casa fica entre as lojas de design do bairro de Woodstock – outro exemplo cidadão de como salvar bairros abandonados.

 

 

Vista a partir da entrada do The Pot Luck, em Woodstock, na Cidade do Cabo: com a Table Mountain ao fundo
Vista a partir da entrada do The Pot Luck, em Woodstock, na Cidade do Cabo: com a Table Mountain ao fundo (foto samesamephoto)

 

Mas se alguém me perguntar quais foram as experiências mais marcantes que vivi, elas serão sempre lembradas com um anfitrião buena gente à frente – e bem distante das atrações turísticas. A começar da sunset party WaxOn, na Maboneng johannesburguiana, para onde fomos levados praticamente direto do aeroporto por minha amiga Meruschka Govender.

 

Festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: no fim de tarde do sábado, à beira da piscina e ao lado do Museu de Design Africano
Festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: no fim de tarde do sábado, à beira da piscina e ao lado do Museu de Design Africano

 

Travelblogger-fera que eu tinha conhecido exatamente um ano antes na expedição por Kerala, na Índia, Meruschka é apaixonada por sua cidade natal. E no dia seguinte, o domingo, fez questão de conectar – a mim e aos meus sete companheiros de viagem – aos músicos do BCUC, uma baita banda do Soweto, assim como ao fotógrafo Monde Nyovane e ao designer Pule Magopa, que acabaram sendo nossos guias informais pelo bairro-símbolo da luta anti-racial durante os anos tenebrosos do Apartheid.

 

Da dir. para a esq., Tiago Múcio, eu, Meruschka Govender e Victor Affaro, na festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo
Da dir. para a esq., Tiago Múcio, eu, Meruschka Govender e Victor Affaro, na festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: ter as conexões certas ajuda a saber o que rola de melhor na cidade

 

Meruschka, danada como esse nome difícil de soletrar, foi a terrível responsável pelas duas noites em que praticamente troquei a cama pela pista de dança. Para minha sorte, a do meu segundo sábado em Joburg foi justamente no aniversário dela, muito bem comemorado no festival Drum Beats em pleno modernoso Teatro do Soweto. E, claro, com mais uma pá de amigos baladeiros. Pronto: jazia ali a minha imagem clichê do Soweto pobre, violento, feio.

 

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Drum Beats, no Soweto Theatre: três palcos, bandas de black music da boa e o fim da imagem-clichê de um bairro feio, pobre e violento (foto samesamephot0)

 

Com o Jabu, o taxista que tinha me levado para o Soweto, a conversa foi uma divertidíssima filosofada a dois. Por que diacho um branco chegou a achar que é melhor que um preto ou um ‘verde’ (como brincou Jabu)?. E para que judeus e muçulmanos seguem se matando se nem eles sabem ao certo se o Deus que reivindicam existe mesmo? Rimos pensando ser provável que, caso exista, dê-lhes uma bela sova quando forem fazer o acerto de contas no hora do juízo final.

 

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Tiago Múcio, Manoel Mendes, eu e Patrícia Palumbo no V&A Waterfront, da Cidade do Cabo: observando focas e ouvindo histórias do lobo do mar

 

Outra frase – e mais boas risadas – foram disparadas pelo Manoel Mendes, um marinheiro angolano radicado no V&A Waterfront, quando defendia que navegar é tão preciso quanto viver a vida intensamente. “Temos que pensar fora da caixinha agora, afinal vamos ter muito tempo depois dentro da outra caixinha debaixo da terra”, disse o lobo do mar, que insistiu para que velejássemos por aquelas águas – o que rendeu imagens lindas da Table Mountain vista a partir do mar. Sósia do Hemingway e idealizador da Fundação Izivunguvungu, que transforma menores de rua em marujos e construtores de barco, Mané é o sujeito que preparou o veleiro Picolé, que o brasileiro Beto Pandiani usou para cruzar o Atlântico desde a Cidade do Cabo até Ilhabela em 2013.

 

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Velejando pela Cidade do Cabo entre bons amigos: de barco dá para visitar a Robben Island, onde Nelson Mandela ficou preso por quase duas décadas (foto samesamephoto)

 

Os anfitriões bons de papo foram muitos. No restaurante The Tasting Room, que fica no hotel Le Quartier Français da Região dos Vinhos, a chef Margot Janse contou sobre como deixou a Holanda para seguir um amor na África do Sul – mas deixou o príncipe de lado e acabou apaixonada mesmo foi pelo país. Os garçons do seu salão nem pareciam estar numa casa estrelada: deixaram o carão de lado e trocavam ideias com a gente numa boa. Meu preferido foi o Bradley Isaacs, que passou a noite tirando onda do atendente que dizíamos ser a cara do jogador de futebol Robinho.

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Bradley Isaacs, simpático garçom do restaurante The Tasting Room, do hotel Le Quartier Français, em Franschhoek (foto samesamephoto)

 

No entorno de outras mesas, teve ainda o jantar com a encantadora Elmine Nel, na charcuteria da Babylonstoren, e o papo com o chocolatier Anthony Gird, da doçaria Honest, já na Cidade do Cabo. Já no Nobu do hotel One&Only da Cidade do Cabo, os onipresentes vinhos sul-africanos deram lugar a boas rodadas de saquê em uma longa mesa para doze. Aos meus colegas de viagem que já eram bons de história – gente do quilate de Baba Vacaro, Helena Mattar (do site Noz Moscada), Mercedes Tristão, Patrícia Palumbo, Ronaldo Fraga, Tiago Múcio e Victor Affaro – se juntaram quatro nativos. O Miguel Brunido, agente de viagens da Triumph Travel, já tinha virado brother e até nos levado para andar descalços à beira-mar em Camps Bay. Aí veio o blogueiro de moda Malibongwe Tyilo, ressaltando o jeito estiloso de os homens sul-africanos se vestirem (mais diferentão que o das mulheres). E as colegas de trabalho do Creative Cape Town Caroline Jordan e Didintle Ntsie, compartilhando como fazem para atrair empreendedores criativos aos bairros em vias de renovação. Só não lembro do que rimos tanto. Deve ser efeito do saquê.

 

Os oito viajantes da expedição urbana TERRAMUNDI Creators e quatro convidados da Cidade do Cabo: jantar divertido e foto tirada na porta do banheiro!
Os oito viajantes da expedição urbana TERRAMUNDI Creators e quatro convidados da Cidade do Cabo: jantar divertido e foto tirada na porta do banheiro!

 

Inesquecíveis foram as duas horas de roda de djembê que toquei na rua, depois de uma boa conversa com o Mestre Manan Ide. Assim como os tambores que fazem, vendem na loja Touareg Trading e ensinam a tocar, Manan e seus irmãos Aziz e Ibrahim são três nativos de Gana que enchem de vibração a Long Street nas tardes de sábado. E curioso é como fiquei sabendo desse programaço – logo eu, que tive aulas de djembê em São Paulo por quase um ano tempos atrás.

 

Roda de djembê em uma travessa da Long Street, superdica do Eduardo Shimahara e na companhia dos amigos Raul Cilento e Bruna Faria, recém-mudados para a a cidade (foto samesamephoto)
Roda de djembê em uma travessa da Long Street, superdica do Eduardo Shimahara e na companhia dos amigos Raul Cilento e Bruna Faria, recém-mudados para a a cidade (foto samesamephoto)

 

Quem deu a dica foi um amigo de SP, o Raul Cilento, que se mudou com a namorada Bruna Faria para Cape Town e embarcou, casualmente, no mesmo voo que eu. O Raul, por sua vez, tinha lido em um blog o post do Eduardo Shimahara, outro apaixonado pela cidade que escolheu para viver – e um engajado atuante na questão da sustentabilidade. O ciclo se completou quando tocamos, os quatro juntos – entre outros da minha turma de viagem – os tambores de Manan e seus irmãos.

 

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Azis e Manan Ide, os irmão de Gana que fazem uma roda aberta ao ar livre de tocadores de djembê nos sábados à tarde na Cidade do Cabo (foto samesamephoto)

 

Mas a conversa que melhor traduziu a impressionante transformação recente vivida pela África do Sul foi com o Mithey. DJ figuraça que usa aqueles “oclões” de mosca, ele vende LPs na Mabu Vynil, nas bandas da descolada Kloof Street (que por sua vez fica em Gardens, uma espécie de bairro dos Jardins da Cidade do Cabo). A portinha é simplesmente a loja de um fã que descobriu o fabuloso destino de seu ídolo, o músico Sixto Rodriguez – tema do documentário Searching for the Sugar Man. Mithey tem motivos dolorosos para pregar que vivamos o “One Love” e acreditar que só a música salva. Ele não esquece de quando era criança, sentado nos ombros do pai, e via o velho apelando para a violência na luta contra o apartheid. “Para eu não me assustar com os tiros, ouvia música com fones de ouvido no último volume.” Porrada a conversa com o Mithey. E o cara é um doce de pessoa, acredite. Pela sua história de superação me ajudou a voltar com a melhor das impressões de um país vivo, pulsante, em plena transformação positiva – e com alguns dos melhores anfitriões que já conheci.

 

DJ Mithey, que trabalha na loja de CDs Mabu Vynil, que ficou famosa pelo filme Searchinfg for the Sugar Man, sobre o cantor Rodriguez
DJ Mithey, que trabalha na loja de CDs Mabu Vinyl,  famosa pelo filme Searchinfg for the Sugar Man, sobre o cantor Rodriguez (foto samesamephoto)

 

Código de ética Same Same:

O jornalista Daniel Nunes Gonçalves viajou para a África do Sul a convite da operadora de viagens TERRAMUNDI e do Projeto TERRAMUNDI Creators, que busca conceber roteiros criativos a partir de experiências de interação com moradores antenados. E voltou mais inspirado do que nunca.