12 experiências marcantes das minhas 12 viagens de 2014

Já são quase 25 anos viajando compulsivamente – desde meu primeiro camping selvagem, em 1990 – e quase metade deles dedicados ao jornalismo de viagem. Em alguns anos – como em 2001 e 2002, quando eu cobria Fórmula Indy e morava em Nova York –, cheguei a viajar mais: cheguei a contar 150 voos por uns 15 países naquele período. Também tive anos com poucas e intensas viagens – foi o caso de 2011, quando realizei o sonho de conhecer a Antártica com o Amyr Klink –, assim como vivi anos em que fui muitas vezes para o mesmo lugar – em 2013, viajei 3 vezes e passei no total quase 3 meses na Amazônia. Mas 2014 foi especial pela altíssima média tanto no quesito quantidade como qualidade. Comecei o ano em Punta del Diablo, no Uruguai, pulei carnaval em Recife e Olinda, assisti à Copa do Mundo de futebol em Belo Horizonte. Pirei em algumas das metrópoles mais fascinantes do mundo, como Nova York, Berlin, Roma, Viena. Tive o privilégio de voltar à Índia, à Tailândia, à Etiópia, à Islândia. E quando eu achei que a overdose de beleza tinha acabado, recebi o convite-surpresa para enfim conhecer a Nova Zelândia – por quem agora morro de amores. Vários posts e matérias sobre cada um já foram compartilhados pelo Same Same. Agora faço um resumo dos highlights das experiências nos 12 destinos que visitei nesses 12 meses. Que 2015 seja tão ou mais intenso.

 

PUNTA DEL DIABLO, URUGUAI:

Entrei em 2014 como mais gosto: na praia e com gente amada. Apesar da água fria, Punta del Diablo, no Uruguai, não tem muvuca, oferece um chalé mais lindo que o outro, comida de primeira e aquele povo muy buena onda.

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KERALA, ÍNDIA:

Ganhei um concurso de Facebook e viajei com 27 blogueiros de 14 países por 17 dias pelo Sul da Índia. Amei aquela Torre de Babel contemporânea, as incríveis massagens ayurvédicas, a imersão no pedaço mais suave da Índia.

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RECIFE e OLINDA, PERNAMBUCO:

Meu amado Rio que me perdoe, mas tive de repetir o carnaval nas ruas de Recife e Olinda. Me vesti de palhaço, hippie e índio no mais democrático dos grandes carnavais brasileiros. Crianças, travestis e vovós dançando juntos!

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BANGKOK, PUKHET E CHIANG RAI, TAILÂNDIA:

Eu já gostava dos templos, do aroma de incenso e dos sabores de Bangkok, da cor do mar de Pukhet, das massagens incríveis e baratinhas da Tailândia. Mas dessa vez conheci Chiang Rai, ao norte, e aprendi a pilotar elefantes!

Apresentação en um dos restaurantes do Hotel Mandarin Oriental
Apresentação en um dos restaurantes do Hotel Mandarin Oriental

 

LALIBELA E ADDIS ABEBA, ETIÓPIA:

A capital Addis eu tinha conhecido em 2013, mas dessa vez subi ao norte do país e vivi os rituais espirituais fantásticos a São Jorge e Santa Maria. Tive de acordar no meio da noite para orar nas incríveis igrejas de pedra de Lalibela.

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NOVA YORK, EUA:

Vivi 48 horas de arte na cidade mais legal do mundo – e me surpreendi vendo o trabalho dos brasileiros Lygia Clark, Kobra, Tunga e Adriana Varejão brilhando em Nova York. Ah, e enfim conheci o sensacional DIA/Beacon.

Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

 

BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS

Quase tive uma taquicardia fatal no jogo Brasil x Chile da Copa do Mundo de futebol em Belo Horizonte, que terminou com disputa de pênaltis. Eu e minha família fomos pra lá de ônibus, em cima da hora. E adoramos a nossa copa.

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ROMA, ITÁLIA:

Fiz uma imersão na Roma Imperial: pedalei na Via Ápia antiga, conheci o subterrâneo do Coliseu, desci a catacumbas milenares. Foi demais assistir a projeções sobre ruínas para conhecer a saga de Augusto, Júlio César, Nero…

Fórum de Augusto com projeção multidimensional
Fórum de Augusto com projeção multidimensional

 

ISLÂNDIA:

Na minha primeira vez, no verão de 2010, eu vi a Bjork na balada e pirei no sol da meia-noite. Dessa vez, em setembro, eu caminhei em glaciar, voei sobre um vulcão ativo e, quem diria, vi minhas primeiras auroras boreais.

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NOVA ZELÂNDIA

Recebi o convite numa quarta, viajei na sexta. E fiquei perdidamente apaixonado pela Nova Zelândia, onde fiz 3 sobrevoos de helicóptero, interagi com os maori e sobrevoei o vulcão de White Island, pousando na sua boca.

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BERLIM, ALEMANHA

Entrei em um bunker que virou a galeria de arte Boros, celebrei 25 anos da Queda do Muro de Berlim, entendi como a reciclagem do passado triste em presente feliz transformaram Berlim na capital mais vibrante da atualidade.

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VIENA, ÁUSTRIA

Bebi muito vinho quente nas “quermesses” dos superiluminados mercados de Natal, conheci palácios e museus centenários cheios de história, segui os passos de Klimt e Freud pela Ringstrasse. E vou querer voltar, mas no verão.

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Renascida das ondas

Aconteceu em 2547. Uma onda de 30 metros de altura ergueu-se no litoral do antigo Reino do Sião e avançou terra adentro. Destruiu casas, afogou pessoas, engoliu o que viu pela frente — e de forma tão avassaladora que pareceu deixar o lugar irrecuperável. Descrito assim, parece até uma lenda remota. Mas o ano de 2547 da era budista equivale ao 2004 do calendário gregoriano ocidental, e o velho Sião nada mais é que o atual Reino da Tailândia, onde morreram 8 mil vítimas do gigantesco tsunami do Oceano Índico – entre eles, 2 mil turistas de 16 países.

 

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Nove anos se completaram no último dia 26 de dezembro de 2013 – ou de 2556, como preferem os súditos do rei Bhumibol Adulyadej, no trono desde 1946. E, para surpresa dos visitantes que têm desembarcado anualmente no antes devastado litoral sul do país (mais de 5 milhões de pessoas, um recorde nunca atingido antes da tragédia), a região parece absolutamente recuperada. Sua nova face é fundamental para que a Tailândia, que já recebe 19 milhões de estrangeiros por ano, dobre até 2016 os dividendos trazidos pelo turismo.

Busquei evidências dessa renovação desde que pousei, em junho, vindo da capital Bangcoc, no aeroporto de Phuket, principal base para explorar as idílicas praias tailandesas. Já no caminho para o hotel percebi que a cidade que me recebia com sorrisos não mais chorava seu passado triste. Os pontiagudos templos e imagens de Buda se exibiam aqui e ali, turistas chineses e americanos aproveitavam os preços baratos do comércio para encherem suas sacolas com roupas e artesanato nos arredores da agitada praia de Patong, outdoors anunciavam brutas lutas de muay thai e delicadas apresentações de dança e música típicas.

 

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Em meio a muitas obras pelas ruas, a hotelaria se renovou de forma a não preservar qualquer resquício dos tempos de abalo – quando seis da cada dez hotéis desapareceram em praias como Khao Lak e Ko Phi Phi (esta última celebrizada mundialmente pelo filme A Praia, protagonizado por Leonardo Di Caprio). Com cerca de 50.000 leitos na região de Phuket, os hotéis disputam qual é o mais cênico e original, qual ostenta mais luxo, qual traduz melhor a alma exótica e tropical da Tailândia.

 

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No alto dos abismos da Baía de Kamala, o staff do exclusivíssimo hotel Paresa nos recebeu com água de coco gelada e toalhinha refrescante no check-in – além de 270 graus de visão do Mar de Andaman. Seu azul se confundia com o das piscinas de vista infinita (presentes na maioria das 49 acomodações, assim como as máquinas de café expresso e os tocadores de mp3). O spa, naturalmente, oferecia o que a Tailândia tem de melhor: suas massagens incríveis. E, em meio ao cenário vertiginoso avistado de qualquer parte, um conforto especial: estar a uma altura que tsunami algum alcançaria.

 

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O ambiente desse e do outro hotel chique que eu conheceria – o premiado The Sarojin, na província vizinha de Phang Nga – não esconde ter sido pensado especialmente para casais em lua de mel (7% dos turistas do país). No The Sarojin, tudo inspira romantismo. A começar da iluminação dos restaurantes: um deles tem pé-na-areia e apresentações culturais noturnas à luz de tochas, outro fica colado a um bar com degustações de surpreendentes vinhos tailandeses. Os terraços contam com piscinas privadas. E, orgulho nacional, a gastronomia tailandesa mescla com perfeição os sabores salgado, doce, azedo e picante em receitas que usam e abusam de curries, coco, capim-limão – vale a pena investir em algumas das aulas de culinária oferecidas nos hotéis.

 

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Por mais simpáticos que sejam os funcionários dos hotéis e restaurantes, eles jamais se arriscam a falar a palavra “tsuna…”. Por culpa do dito cujo, todo mundo perdeu alguém querido. Os turistas respeitam. E deixam para trocar ideias sobre os bons prazeres dos mergulhos nas ilhas Similan e Surin, as escaladas em rocha em Krabi, os passeios de caiaque e escuna entre as cavernas marinhas e altas rochas da Baía de Phang Nga (onde fica a ilhota onde foi gravado 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro) ou os passeios em lombo de elefantes, animal reverenciado nacionalmente por ser símbolo de sabedoria e força. Não são poucos os relatos, por sinal, desses mamíferos emitindo sons estranhos de alerta ou fugindo para o alto das montanhas horas antes da chegada do tsunami de 2547 – ops, de 2004 –, em uma suposta evidência de que teriam sensibilidade para captar com antecedência as vibrações de terremotos como os que originaram aquele tsunami.

 

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Quase uma década depois do susto, os elefantes do litoral tailandês caminham em paz e são bem treinados para divertir os turistas – o meu nem se importou de cruzar um riacho e me dar um belo banho. Nas ruas do centro ou nas vilas de pescadores, só o que faz lembrar a tragédia são os alto-falantes e placas que orientam rotas de fuga para o caso de – toc, toc, toc – algo parecido voltar a ocorrer. Em todos os dias em que viajei por ali, a única lembrança física que encontrei (além das reconstruções impecáveis da infraestrutura turística) foi um simplório memorial do tsunami erguido em torno de um barco policial que foi empurrado a quase 2 quilômetros da praia de Khao Lak.

Felizmente, do mesmo jeito que veio, a onda se foi. E as praias da Tailândia, agora voltadas para o futuro, continuam a encantar seus visitantes.

 

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MEMORIAL Única lembrança do tsunami de 2004 facilmente visitável a partir da praia da Khao Lak, o barco policial 813 Buretpadungkit foi empurrado a quase 2 quilômetros da praia. Hoje, diante dele, uma barraca despojada vende livros e exibe placas recontando uma das maiores tragédias da história recente da humanidade, que matou 230 mil pessoas em 14 países.

 

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ONDE FICAR   PARESA Resort de luxo localizado no alto do morro na Baía de Kamala, com visão panorâmica do mar e dois restaurantes. Incríveis piscinas de vista infinita. 49 Moo 6, Layi-Nakalay Road, Kamala Kratu, tel. +66/76 30-2000, paresaresorts.com   THE SAROJIN Térreo, de frente para o mar, o hotel cinco estrelas fica na Baía de Phang Nga e também conta com dois restaurantes. Fácil acesso para pontos de mergulho. 60 Moo 2, Kukkak, Takuapa, tel. +66/76 427-9004  

ONDE COMER RAYA THAI CUISINE Despojado restaurante familiar de comida típica tailandesa localizado em um sobrado de arquitetura sino-portuguesa. Capricha nos frutos do mar. 48 New Debuk Rd., Muang Phuket, tel. +66/76 23-2236  

ONDE PASSEAR SEA CANOE Passeios de barco e de caiaque feitos a partir de Phuket que exploram a Baía de Phang Nga e a região de Krabi. 125/461 Moo 5, T. Rassada, A. Muang, tel. +66/76 5288-3940, seacanoe.net  

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Embaixada Real da Tailândia – thaiembassybrazil.com; Tourism Authority of Thailand – tourismthailand.org

Devorando Bangcoc

Sawadee ka!, disse, alongando-se ao pronunciar o último “a”, a sorridente morena de olhos puxados que nos deu as boas-vindas no aeroporto internacional de Bangcoc, em uma tarde de junho. Fez isso com as mãos em forma de prece, como manda o protocolo dos cumprimentos na Tailândia. “Mulheres dizem sawadee ka, homens falam sawadee krap“, ensinou, em português, Tassanee Norma, poliglota tailandesa que trabalha como guia há 23 anos. Estava acompanhada de outro nativo, Lert Narongchaisakun, um baixinho simpático que formaria com ela nossa dupla de anfitriões na missão de compartilhar os melhores sabores da cidade em pouco menos de uma semana. “Kop khun krap”, agradeci, já usando a segunda expressão que aprendi na língua local, enquanto seguíamos para o hotel cruzando arranha-céus, placas em língua estranha, fotos do supervenerado rei Bhumibol Adulyadej por todo lado e o sedutor caos de ruas atulhadas de carros e gente.

 

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JANTAR APERITIVO. As próximas aulas sobre os costumes locais seriam dadas no jantar, depois do descanso para se recompor de mais de 20 horas de voo desde São Paulo. Por recomendação da chef Siripen Sriyabhaya, a Yui, que dá aula de culinária em Chiang Mai, no norte do país, e volta e meia visita o Brasil, fomos ao despojado Taling Pling, que tem uma de suas quatro unidades em Silom, bairro da região central especialmente animado à noite. A placa da porta tem o desenho de um cozinheiro com seu pilão usado para macerar especiarias. Be-a-bá para iniciantes: pimentas, gengibre, coentro e capim-limão são alguns dos muitos ingredientes socados ali e usados em receitas frequentemente aromáticas e pratos muito bem apresentadas que se caracterizam por misturar os sabores salgado, doce, azedo e picante. À mesa, come-se com colher, sendo que o garfo é auxiliar e a faca nunca vai à mesa. Também não existe o hábito ocidental de servir primeiro a entrada, depois a sopa ou a salada, e só então o prato principal e a sobremesa: todos vêm ao mesmo tempo. Estreamos conhecendo saborosos pratos que levavam três tipos de curry – verde, amarelo e vermelho – e incluíam frango, peixe e carne de porco. Tudo acompanhado de arroz, que alivia o ardor das colheradas mais picantes e vem servido desde a forma de salgadinho aperitivo até adocicado, com leite de coco, na deliciosa sobremesa acompanhada de manga.

 

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Eu com meus anfitriões Norma e Lert

 

SALADA ASIÁTICA. Logo no passeio da primeira manhã vimos que petisca-se de tudo nas onipresentes bancas de rua de Bangcoc: desde noodles, prato preferido do café da manhã do nosso anfitrião Lert, a gafanhotos fritos, encontrados apenas na época da colheita do arroz. “Não fazemos só três refeições ao dia”, contou ele. “Aqui comemos seis ou sete vezes ao dia.” Muitos dos pratos são líquidos, em forma de sopa, e a maioria não é tão picante. Diferente do que se pode imaginar, as pimentas são foram introduzidas pelos mercadores indianos, que chegaram naquele pedaço do Sudeste Asiático no século 1, mas sim pelos portugueses, que trouxeram a novidade da América do Sul nos anos 1600. Ao caminhar pelos bairros indiano e chinês, percebemos que estes vizinhos influenciaram a Tailândia não só na comida, com seus curries e noodles, mas também na religião, como se nota nos suntuosos templos da Cidade Antiga. A começar pelo Grand Palace, parada de praticamente todos os 19 milhões de visitantes anuais que fazem do turismo a principal fonte de renda da Tailândia (o número é quatro vezes maior que o de estrangeiros que viajam ao Brasil). Coração do centro histórico e espiritual de Bangcoc, o grande templo que nasceu em 1782 junto com a fundação da cidade abriga a estátua de um Buda de esmeralda, em meio a telhados supercoloridos, painéis com pinturas milenares e imagens que fazem referência também ao hinduísmo e à mitologia chinesa – embora a religião oficial do reinado da Tailândia seja o budismo.

 

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FEIRA FLUTUANTE. Aproveitando que estávamos à beira do Chao Phray, o grande rio que cruza a metrópole, Norma nos levou a um de seus lugares favoritos para comer à beira rio: o Deck by the River, restaurante do hotel butique Sala Arun. Comemos salada de pomelo e um delicioso porco grelhado com capim limão diante de outro templo, o Wat Arun, vendo o vai-e-vém de todo tipo de embarcação: as que servem como ônibus flutuantes, as turísticas onde se come refeições a bordo, as que transportam ao turístico mercado flutuante de Damnoen Saduak, a duas horas dali, e os típicos barcos de cauda longa que nos levariam, à tarde, a uma navegação pelos canais estreitos da auto-entitulada Veneza Asiática.

 

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SOPA DE CULTURAS. Se durante o dia o passeio pelo rio retrata a vida como ela é para a população humilde, o compromisso da noite nos catapulta ao seleto grupo dos bons vivants amantes da alta gastronomia tailandesa. No Nahm, eleito um dos 50 melhores restaurantes do mundo em 2012 pelo ranking da revista inglesa Restaurant, jantamos sopa de pato ao leite de coco e curry de caranguejo com açafrão em meio a um ambiente repleto de peças de ouro e seda. A casa foi aberta há dois anos dentro do hotel butique Metropolitan, no bairro empresarial de Sathorn, pelo conceituado chef australiano David Thompson, autor de livros como Thai Street Food. “Nossa inspiração é a autêntica comida de rua”, conta o cozinheiro Troy Sutton. O nome do restaurante repete o do original de Londres, primeiro tailandês a ser estrelado pelo Guia Michelin na Europa.

 

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HORA DE IR PRO FOGÃO. O reconhecimento do potencial da culinária tailandesa como negócio milionário também foi feito por um estrangeiro no Blue Elephant, nossa parada na manhã seguinte. Foi depois do sucesso do restaurante thai aberto em Bruxelas em 1980 que o proprietário belga Karl Steppe decidiu abrir a grife em Bangcoc, 10 anos atrás. “Hoje temos 10 unidades espalhadas pelo mundo”, orgulha-se a tailandesa Nooror Somany, esposa de Karl, que é quem toca a empreitada. O casal se especializou em um filão de sucesso: ali acontece um curso de culinária considerado um dos melhores entre os 20 oferecidos na cidade – entre eles o da escola francesa Le Cordon Bleu. A aula ajuda a entender a complexidade da cozinha local. Depois de visitarmos uma feira de rua onde são comprados os ingredientes, voltamos à escola para aprender a preparar quatro receitas, com direito a degustar a criação no final. Minha melhor obra foi justamente o pad thai, prato que mistura noodles, camarão, ovo, amendoim, nabo e tofu, bem popular entre estrangeiros.

 

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O aprendiz e a mestra Nooror Somany

 

DEITADO COM BUDA. Caminhar ao longo dos 46 metros de extensão do famoso Buda deitado do templo Wat Pho, o maior de Bangcoc, parecia ser o melhor jeito de fazer digestão naquela tarde. Embora belíssimo, o monastério acabou sendo ofuscado pelo prazer proporcionado por uma de suas atrações: o centro de massagem. Aberta em 1955 como primeira escola de medicina tradicional do país, a universidade de massagem cresceu tanto que teve de ser transferida para fora do templo. Ali dentro, felizmente, restou um salão onde 60 profissionais atendem ao público. Uma hora de relaxamento no corpo ou nos pés custa apenas 15 dólares, cerca de 30 reais, e é tão boa que dá vontade de fazer três vezes ao dia. Existem respeitáveis casas de massagem em todo canto de Bangcoc, das barracas de rua na Khaosan Road, a famosa rua dos albergues e pubs de mochileiros, aos requintados spas de resorts como o Rarinjinda, no Grande Centre Point Hotel. Mas nenhuma substitui a experiência do Wat Pho.

 

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A pitoresca Khaosan Road

 

MUAY THAI E LADY BOYS. É também com hora marcada, diariamente às 18h, que se percebe outra curiosa tradição tailandesa: parar de caminhar ou trabalhar enquanto toca o hino nacional nas estações de rádio e auto-falantes das ruas. A cena impressiona especialmente em lugares movimentados, como na feira de Chatuchak, que acontece todos os fins de semana no bairro de mesmo nome e concentra centenas de barracas que vendem desde frutas exóticas – como rambutan e dragon fruit — até estátuas das típicas dançarinas tailandesas. Chega-se ali de metrô, evitando os megacongestionamentos. Os peculiares táxis rosa-choque, no entanto, são opção mais confortável e econômica à noite, quando não há trânsito. Vale a pena usá-los para conferir atrações populares como as lutas de muay thai (um dos estádios mais famosos fica em Lumpini) e os shows de dança no Calypso Cabaret, em Riverfront, protagonizados por 60 lady boys – como são chamados os superproduzidos travestis locais.

 

Passeando de tuc-tuc
Passeando de tuc-tuc

 

Outro clássico noturno são os jantares com shows de música e danças tradicionais, como a khon. Assistimos a um deles comendo muito bem na Sala Rim Naam, um dos três restaurantes do luxuosíssimo hotel Mandarin Oriental. Inaugurado em 1876, este ícone da hotelaria mundial surpreende tanto pelo luxo de suas instalações quanto pela excelência do serviço. Não é preciso, no entanto, pagar no mínimo 400 dólares para se hospedar ali: dá para conhecer o spa, fazer aulas de culinária ou simplesmente parar para um drink à beira-rio.

 

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DRINK NAS ALTURAS. A regra de “no mínimo um drink e um petisco” serve também para ver do alto Bangcoc em grande estilo, se possível no pôr-do-sol, a partir do bar Moon e do restaurante Vertigo, localizados no 61º andar do hotel Banyan Tree, ou do Sky Bar e do restaurante Sirocco, localizados no 63º andar do hotel lebua. Já no nível térreo, duas recomendações sofisticadas da restaurateur tailandesa radicada em São Paulo Marina Pipatpan foram testadas e aprovadas no badalado bairro de Sukhumvit. No Face, a arquitetura tradicional de um casarão de madeira compõe o cenário ideal para conhecer misturas de comida tailandesa com japonesa e indiana. Perto dali, antes de abrir sua pista para uma moderninha balada de música eletrônica, o todo-branco Bed Supperclub oferece, entre performances surpresas às sextas e sábados, incríveis menus-degustação. De comida thai, é claro.

 

Eu, Andréa e Norma
Eu, Andréa e Norma

 

Quando nossos dias de comilança, templos e massagens chegaram ao fim, não tivemos dúvida. Antes de viajar, voltamos ao Wat Pho para ganhar uma última sessão de relaxamento nos pés. E, no aeroporto, passamos na livraria para comprar alguns dos muitos livros de receitas que permitiriam tentar reproduzir em casa um pouquinho da deliciosa gastronomia tailandesa.

 

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SERVIÇO:

+ 66 2

INFO: Bed Supperclub – 26 Sukhumvit Soi 11, tel. 651-3537,

bedsupperclub.com; Blue Elephant – 233 South Sathorn Road Yannawa,

tel. 673-9353, blueelephant.com;  Calypso Cabaret – Asia Hotel, 296

Phayathai Road, tel. 653-3960, calypsocabaret.com; Cha Tu Chak Weekend

Market – Chatuchak Park MRT Station, chatuchak.org; Deck by the River

– Arun Residence, 36-38 Soi Pratu Nokyung, Maharat Road, tel.

221-9158, arunresidence.com; Face – 29 Sukhumvit Soi 38,, tel.

713-6048, facebars.com; Le Cordon Bleu Culinary School – 946 The Dusit

Thani Building,  tel. 237-8877, cordonbleudusit.com; Mandarin Oriental

– 48 Oriental Avenue, tel. 659-9000, mandarinoriental.com; Muay Thai

Lumpinee Boxing Stadium, Rama 4 Road, tel. 251-4303,

muaythailumpini.com; Nahm – The Metropolitan Hotel, 27 South Sathorn

Road, tel. 625-3388, nahm.como.bz; Rarinjinda Spa – Grande Centre

Point Hotel, 8th Floor, 153/2 Soi Mahatlek Luang 1, tel. 670-5599,

rarinjinda.com; Sirocco Restaurant/Sky Bar – Lebua Hotel, 1055 Silom

Road, tel. 624-9555, lebua.com; Taling Pling Thai Cuisine, 25

Sukhumvit Soi 34, tel. 258-5308, talingpling.com; The Metropolitan

Hotel, 27 South Sathorn Road, tel. 625-3333,

metropolitan.bangkok.como.bz; Vertigo Restaurant/Moon Bar – Banyan

Tree, 61st Floor, 21/100 South Sathon Road, tel. 679-1200,

banyantree.com; Watpo Massage – 2 Sanamchai Road, tel. 221-2974,

watpomassage.com;

AGRADECIMENTOS/SPECIAL THANKS: Embaixada Real da Tailândia em

Brasília; Mandarin Oriental (mandarinoriental.com); chef Marina

Pipatpan; guia Norma Tassanee (tassaneenorma@yahoo.com); Tourism

Authority of Thailand, tourismthailand.org; chef Siripen Sriyabhaya

(alotofthai.com)

Em Bangcoc, no show de pompoarismo

Bastou descer do táxi na Patpong Road, a difamada rua das casas de pompoarismo de Bangcoc, para começar o assédio. Os tailandeses enfiavam na nossa cara os “menus” com uma lista de mais de uma dezena de modalidades que poderiam ser assistidas nos mundialmente famosos “ping pong shows”. Eram 23h30 de uma quinta-feira de junho de 2012, as barraquinhas de rua vendiam de vibradores gigantes a estatuetas de Buda e eu viajava com uma moça de respeito, a fotógrafa Andréa D’Amato – o que exigia um cuidado maior nesta missão delicada de visitar estas atípicas casas da luz vermelha da Tailândia. Decidimos ignorar os caras e sair andando pela feira noturna até entender como agir naquela Babel de gente, neons, música estranha e comida de rua com aparência duvidosa.

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