Oficina de jornalismo de viagem na Cásper

Técnicas de reportagem e de texto para quem escreve sobre viagem: este será o foco principal do primeiro curso livre que darei na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, em junho. Idealizado para atender tanto a alunos de jornalismo quanto a blogueiros e outros viajantes que curtem escrever, a oficina criativa vai ser uma oportunidade também pra compartilhar macetes da desafiadora experiência de trabalhar direto da estrada. A proposta é apresentar uma visão realista dessa carreira que muita gente vê como o ofício dos sonhos. Como vender uma pauta de viagem? De que forma descrever bem uma cachoeira, um hotel, uma experiência inspiradora? O convite para dar aula partiu do diretor Carlos Costa, que comandava a redação da Revista Quatro Rodas quando eu era um repórter iniciante, nos anos 1990. Vai ser legal compartilhar um pouco do que sei e de trocar ideias com outros amantes das viagens e da escrita. As aulas acontecem entre os dias 27 de junho, uma segunda-feira, e 30, quinta, sempre das 19h às 23h, ali no número 900 da Avenida Paulista. O curso custa R$360 e as inscrições podem ser feitas por aqui.

A Fórmula Indy invade São Paulo

Bastou Rubens Barrichello anunciar que disputaria a temporada 2012 da Fórmula Indy para que os ingressos da São Paulo Indy 300, etapa brasileira da categoria, tivessem uma disparada nas vendas. O piloto paulistano será a grande novidade da prova de rua do Anhembi, terceira das 16 etapas do campeonato, a se realizar em 29 de abril, com a TAM Viagens como operadora oficial. Apesar de Barrichello ter participado de 19 temporadas da Fórmula 1 e conquistado 11 vitórias e dois vice-campeonatos (2002 e 2004), na Fórmula Indy ele é novato. E alinhará seu carro em um grid com um time nacional de feras: Helio Castroneves, ribeirão-pretano três vezes vencedor das míticas 500 Milhas de Indianápolis (2001, 2002 e 2009); Tony Kanaan, que se mudou da Bahia para a capital paulista ainda criança e foi campeão da Indy em 2004; e Bia Figueiredo, paulistana que é a primeira mulher brasileira a pilotar em uma categoria top do automobilismo mundial. TAM Nas Nuvens entrevistou os quatro nos treinos pré-temporada realizados em março na pista de Sebring, na Flórida.

Gostou da foto ao lado? Pois saiba que não é fácil reunir quatro pilotos em um intervalo de treinos, quando todos querem correr contra o cronômetro para reduzir seu tempo na pista em incontáveis milésimos de segundo. Especialmente em uma categoria como a Fórmula Indy, que, em suas largadas em movimento, costuma espremer mais de 20 carros em velocidade parecida. Nos treinos classificatórios, a diferença entre o pole position e o último colocado não costuma passar de um segundo.

“Que cachos lindos, Bia!”, brinca Tony Kanaan, 37 anos e 15 vitórias na Indy. “Passe o telefone do seu cabeleireiro pro Helinho”, continua, gargalhando. “Ô, tira a mão daí, Tony”, grita Barrichello, 39 anos, veterano da turma. Os bastidores da produção desta foto revelam o ambiente descontraído em que vivem esses jovens que se profissionalizaram fazendo o que amam: acelerar carros de corrida. Os quatro não veem a hora de se confrontar em São Paulo a mais de 300 quilômetros por hora, na prova de 300 milhas (482 quilômetros) que acontece no Anhembi. O circuito inclui o entorno deste grande centro de convenções da capital, o Sambódromo e a via da Marginal Tietê que forma a maior reta do campeonato, com 1,5 quilômetro de extensão.

HOMEM-ARANHA DANÇARINO

Quando acaba a sessão de fotos e eles voltam para a pista, Rubens, Helio, Tony e Bia não são tão amigos assim. Ali, é cada um por si. No primeiro embate, os mais rápidos foram Barrichello e Castroneves. Mesmo sem conhecer o carro e a pista, Rubinho surpreendeu e fez valer a experiência de 322 provas de F1. Seu tempo de volta foi quase idêntico ao de Helio Castroneves, 36 anos. Helinho, que ganhou o apelido de Homem-Aranha por celebrar suas 25 vitórias escalando as cercas dos autódromos, é uma celebridade nos Estados Unidos, onde vive desde 1996. Além das vitórias na Indy, em 2007 o “Spider-Man” venceu o dancing with the Stars, um popular concurso de dança de celebridades. Em 2009, Helinho foi parar nos tribunais norte-americanos acusado de sonegação de impostos — crime do qual seria inocentado por um júri popular. O drama está detalhado na biografia O Caminho da Vitória, lançada no Brasil em dezembro pela Editora Gaia.

Castroneves nunca teve nas pistas maior inimigo que Tony Kanaan. Os dois se enfrentam desde a in- fância no kart e migraram juntos para o automobilismo norte-americano, em 1996. Com 14 temporadas de Indy cada um, são os mais experientes brasileiros da história da categoria, tendo superado até o pioneiro Emerson Fittipaldi, que correu 13 campeonatos. Uma briga nas pistas, no GP de Chicago de 2006, quase provoca um rompimento definitivo entre os dois. “Eu disputava a vitória e o título, e o Tony, que era retardatário, não facilitou minha ultrapassagem”, lembra Helio. “Fiquei muito chateado.” Passaram dois anos sem se falar. “Um dia, tivemos de nos sentar à mesa juntos em um evento em Indianápolis. Olhamos um para o outro e resolvemos conversar”, lembra Kanaan. “Estamos maduros, viramos pais, não somos mais os moleques que brigavam até nos videogames”, continua Tony, que também mora na América há 15 anos e é pai de leonardo, quatro anos. A filha de Helio, Mikaella, tem dois anos.

O FEIO E O NARIGUDO

Tony sempre lutou como gato e rato com Helio nas pistas. Fora delas, nenhum piloto é mais íntimo de Kanaan que Barrichello. “A gente se chama de irmão, briga como irmão”, conta Rubinho, que adora xingar Tony de narigudo. “Um é padrinho do filho do outro, e até cria- mos juntos uma ONG, o Instituto Barrichello Kanaan”, diz Tony, que retruca dizendo que Rubens é feio. Então um promissor kartista descendente de libaneses, o pequeno Antoine Rizkallah Kanaan Filho perdeu o pai aos 13 anos e foi afetivamente “adotado” pelos Barrichello, quando Rubinho já era a maior revelação surgida nas pistas brasileiras depois de Ayrton Senna. Mas Rubens nunca chegou a enfrentar o “caçula” — embora tenham competido 15 vezes, se revezando como colegas de equipe, nas 500 Milhas da Granja Viana. Trata-se da corrida de kart promovida por alguns dos oito pilotos Giaffone, família de Silvana, esposa de Rubens. A disputa entre os dois, especialmente em São Paulo, é uma das mais aguardadas de 2012. Foi o próprio Tony quem levou Barrichello para a Indy, e logo como seu companheiro na equipe KV — um time médio que tem a missão de bater as favoritas Penske, onde corre Helio, e Chip Ganassi, do atual campeão, o escocês dario Franchitti (que levou os títulos também de 2007, 2009 e 2010).

Se confirmar sua performance nos treinos, Barrichello vai deixar o mano Tony comendo poeira. “Me apaixonei pelo carro, e por isso convenci minha mulher a me deixar correr nos ovais”, conta Rubinho. Silvana viu de perto seus primos Felipe e Affonsinho Giaffone disputarem a categoria e havia pedido ao marido que jamais corresse nessas difíceis pistas circulares. E serão justamente os cinco ovais do calendário, onde se atinge perto dos 400 quilômetros por hora com o carro quase colado ao muro, os maiores desafios de Barrichello na nova em- preitada. “Tenho de me adaptar também aos volantes sem direção hidráulica, aos pneus sem aquecedores, a todos os circuitos.” Além disso, Rubinho está trocando o glamour de ter vivido por 15 anos em Mônaco pelo pinga-pinga de viajar por 11 cidades dos Estados Unidos (do total de 16 etapas, que inclui também China, Brasil e duas no Canadá). “Sonho viajar pelo país de motorhome com minha mulher e os meninos”, conta ele, referindo-se a Eduardo, de 10 anos, e Fernando, de 6. Seus maiores desejos, no entanto, são outros: ganhar em São Paulo (“e dar uma sambadinha no pódio do Sambódromo”, brinca) e, é claro, as 500 Milhas de Indianápolis.

A BElA ATREVIDA

O sonho é o mesmo de Ana Beatriz Figueiredo, a Bia, a mais jovem do grupo. Aos 26 anos, a paulistana bela e atrevida, que aprendeu a amar o automobilismo vendo Senna e Barrichello pela TV, mal pode acreditar que alinhará o carro no mesmo grid que Rubinho. “Quando eu entrar na pista, prefiro nem saber quem está ao meu lado”, diz ela, que disputou quatro etapas em 2010 e teve uma complicada temporada em 2011. Apadrinhada pelo ex-piloto André Ribeiro, que ganhou a prova da Indy no Rio de Janeiro em 1996, Ana Beatriz é competitiva: conquistou duas vitórias na categoria de acesso à Indy, a Fórmula Indy lights, e ficou em terceiro lugar no campeonato de 2008. Na Indy, disputa a admiração do público com as outras mulheres da categoria, a inglesa Katherine Legge e a suíça Simona de Silvestro. “Sinto que os pilotos brasileiros até me protegem fora da pista, mas dentro dela me respeitam como um piloto qualquer”, conta. “Melhor assim.” Que assim seja, especialmente quando os carros dessa turma derem a largada diante das 40.000 pessoas esperadas no circuito do Anhembi.

 

Linha do tempo

 

Conheça a história do Brasil na Fórmula Indy, que já teve mais de 20 pilotos do país

 

1911

Primeira edição das 500 Milhas de Indianápolis (origem dos “Indy Cars”)

 

1984

Campeão de F1 (1972 e 1974), Emerson Fittipaldi vai pra Indy

 

1985

Também ex-pilotos de F1, Raul Boesel e Roberto Moreno entram na categoria

 

1989

Emerson vence as 500 Milhas de Indianápolis e leva o título da temporada

 

1992

Nelson Piquet sofre grave acidente nos treinos para as

500 Milhas de Indianápolis

 

1993

Emerson vence de novo a Indy 500, e Maurício Gugelmin, ex-F1, entra na categoria

 

1995

Primeira “invasão jovem” de brasileiros na Indy: estreiam Christian Fittipaldi, Gil de Ferran e André ribeiro

 

1996

Emerson sofre acidente no Gp de Michigan e se aposenta

 

André Ribeiro vence a primeira corrida da Fórmula Indy no Brasil, a Rio 400

 

2000

Gil de Ferran sagra-se campeão

 

2001

Helinho vence as 500 Milhas de Indianápolis e Gil é bicampeão

 

2002

Cristiano da Matta é campeão da Indy e Helinho vence pela segunda vez em Indianápolis

 

2003

Gil de Ferran conquista as 500 Milhas de Indianápolis

 

2004

Tony Kanaan é o quarto brasileiro campeão da Fórmula Indy

 

2009

Castroneves vence pela terceira vez a Indy 500

 

2010

Primeira corrida da Fórmula Indy em são paulo, com estreia de Bia Figueiredo

 

2012

Depois de 19 temporadas na Fórmula 1, Rubens Barrichello estreia na Fórmula Indy

 

Grande Prêmio São Paulo De Fórmula Indy

O circuito: A largada da São Paulo Indy 300 (saopauloindy300.com.br) acontece no sambódromo.

Os carros passam pela Av. Olavo Fontoura, pelo centro de convenções do Anhembi, pela rua Massinet Sorcinelli e pela Marginal tietê. No total, são 4.180 metros.

NA TV: A São Paulo Indy 300 terá transmissão ao vivo pelos canais Band e Bandsports, além das rádios Bandeirantes e BandNews FM.

QUANDO: 28 (treino) e 29 (corrida) de abril de 2012, 14 horas

Um ônibus ecológico

Água e energia elétrica. São essas as matérias-primas que farão circular o primeiro ônibus do Brasil movido a hidrogênio, com o objetivo de reduzir a poluição em grandes cidades como São Paulo. Depois de três anos de pesquisa, a novidade deve ir para as ruas em julho. O veículo está na garagem vizinha ao prédio da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), em São Bernardo do Campo. Passa por testes finais até que possa se juntar aos 200 ônibus a diesel e 78 trólebus do corredor ABD, que liga São Mateus ao Jabaquara, atravessando os municípios de Santo André, São Bernardo e Diadema. Silencioso e com emissão zero de poluentes, o ônibus ecológico não contamina o meio ambiente nem usa combustível fóssil, como seus irmãos a diesel e a gás, e não requer cabos nem fios, como os trólebus. “Ele só emite vapor-d’água”, diz o presidente da EMTU, Júlio de Freitas Gonçalves.
O processo que transforma água em combustível é simples. Na estação de produção de São Bernardo, as moléculas de água (H2O) são separadas pelo processo de eletrólise. O oxigênio é liberado na atmosfera, enquanto o hidrogênio passa por compressão para ser armazenado em nove tanques que ficam sobre o teto do ônibus. Esse gás é injetado em duas células de hidrogênio automotivas (caixas com 80 centímetros de comprimento, 40 centímetros de largura e 25 centímetros de altura). Como usinas móveis, elas criam por reação química a energia que aciona os dois motores elétricos, permitindo uma autonomia de até 300 quilômetros. Embora os Estados Unidos, a Alemanha e a China também tenham tecnologia para produzir ônibus a hidrogênio, só o experimento nacional conta com o diferencial da hibridez. “Além das células de hidrogênio, o ônibus tem três baterias de alta performance que armazenam a carga extra produzida e também a energia poupada nas frenagens, como faz o novo sistema kers da Fórmula 1”, explica Carlos Zündt, gerente de Desenvolvimento da EMTU. “Isso é revertido em força extra para subir uma ladeira, por exemplo.”
O uso de energia elétrica na eletrólise e os altos custos são dois inconvenientes do projeto. A ONG Global Environment Facility (GEF), que incentiva o desenvolvimento sustentável em 178 países, financia o equivalente a 45 milhões de reais nessa empreitada que mobilizou cerca de cinquenta especialistas de oito empresas – entre eles o engenheiro alemão Ferdinand Panik, criador do primeiro carro a hidrogênio do mundo. “Acreditamos que o investimento será compensado quando o Brasil se tornar um polo exportador de veículos a hidrogênio”, diz Zündt. A previsão é que outros quatro ônibus idênticos sejam produzidos até 2010. Cada um deve custar 2 milhões de reais. O preço de um ônibus convencional é 500 000 reais.

Salvadores de orquídeas

Sabe aquela orquídea que enfeita a sala de casa por duas a seis semanas e depois perde a flor? Alguns paulistanos têm descoberto que é possível resgatar os caules jogados no lixo e plantá-los em troncos de árvores. Até um ano depois, eles voltam a florescer. “Salvamos uma flor e deixamos a cidade mais bonita”, diz a arquiteta Adriana Irigoyen, que a cada quinze dias se reúne com outros moradores da Avenida Nove de Julho, no Jardim Europa, para desovar cerca de cinquenta exemplares. “Boa parte nos é dada por floriculturas e empresas, como é o caso da Rubens Flores, especializada em decorações para festas”, conta o advogado Paulo Visani, vizinho de Adriana que ajudou a amarrar mais de 500 orquídeas em oito árvores do canteiro central da avenida no último ano. “Há quem pense que essas plantas morrem quando a flor seca, mas elas sobrevivem tirando o seu sustento de outro caule”, explica o engenheiro agrônomo Mário Bertinatto, que ajuda a carregar, com o assistente Reginaldo Barros, escada, arames e adubo para cada replantio.
Com cerca de 35 000 espécies no mundo – 5 800 no Brasil -, as orquídeas têm uma multidão de admiradores. São esperados 30 000 deles na 80ª edição da Feira de Orquídeas, promovida entre sexta (13) e domingo (15) na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, na Liberdade, pela Associação Orquidófila de São Paulo (informações, 3207-5703 e www.aosp.com.br). A maior das sete principais exposições anuais trará 2 000 exemplares de 150 colecionadores, com preços que vão de 40 a 600 reais. “Sempre reaproveitamos as plantas sem flor em árvores de prédios e sítios particulares, mas agora essa moda foi também para as ruas”, diz a geógrafa Lúcia Morimoto, relações-públicas da entidade.
“A cada dez dias reaproveito umas quinze orquídeas do meu restaurante”, afirma o restaurateur Carlos Whately, do Bistrô Charlô. “Realoquei mais de 200 em frente ao meu prédio e ao restaurante.” Moradora da mesma rua do Charlô, no Jardim Paulista, a paisagista Kika Samara, responsável pelos jardins do Club Athletico Paulistano, se inspirou com a ideia. “Depois que passamos a estimular as doações de associados, há quase um ano, já replantamos mais de 400 unidades”, revela. “Dois noivos trouxeram uma orquídea de seu casamento e fizeram questão que mostrássemos onde ela foi colocada. A árvore virou, além da nova moradia de uma bela flor, um símbolo de amor.”

Precioso berço da vida

Um boto cinza salta na frente do barco, mergulha, reaparece com outros botos. Garças, biguás e colhereiros batem asas nos manguezais das duas margens. Durante a navegação entre Cananéia e a Ilha do Cardoso, ambas no litoral sul de São Paulo, um delicado espetáculo de vida se descortina no canal de água salobra ladeado por montanhas de até 800 metros. Na vasta, densa e deserta paisagem do Lagamar, dá para entender por que a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) considera este santuário um ponto prioritário de preservação. Os botos, as 430 espécies de aves, as dez praias extensas, as 986 espécies vegetais e a invisível vida aquática do estuário fazem da Ilha do Cardoso um raro ponto da Terra onde a natureza vive em estado bruto.

 

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Talvez não fosse um lugar tão especial, menina dos olhos de biólogos de todo o mundo, se não estivesse situada bem no coração do Lagamar. Gigantesco berçário natural de 110 quilômetros que se estende em forma de estuário desde Iguape, no litoral sul de São Paulo, até Paranaguá, no canto norte do Paraná, o Lagamar é um dos cinco maiores criadouros de espécies marinhas do Atlântico Sul. É formado por extensas ilhas que protegem o continente, criando uma espécie de mar de dentro, e pela desembocadura de vários rios, entre eles o caudaloso Ribeira de Iguape, que cruza todo o Vale do Ribeira. A água doce dos rios encontra-se com os braços de mar, num ambiente rico e complexo. Peixes, crustáceos e moluscos dependem dos pequenos seres desses estuários para se alimentar e viver – e por isso a paisagem da chamada Baía do Trapandé está sempre pontilhada por coloridos barquinhos de pesca. Soma-se à invisível riqueza aquática o verde escuro e denso da maior área de Mata Atlântica contínua do Brasil, um extenso território preservado entre o Rio de Janeiro e o Paraná.

“Esta ilha é a mais representativa porção do Lagamar, pois reúne vários ecossistemas num único lugar”, explica o oceanógrafo Marcos Campolim, responsável pelo Parque Estadual da Ilha do Cardoso, criado em 1962 e gerenciado pelo Instituto Florestal de São Paulo. De fato, como se não bastasse ter cerca de 90% de seu território coberto de Mata Atlântica preservada, essa ilha de 22500 hectares – que tem o tamanho da cidade pernambucana do Recife – é um raro ponto que reúne quatro tipos de ecossistemas importantes (veja quadro na pág. 29). A existência de uma Mata Atlântica que conserva riquezas como 118 espécies de orquídeas e 41 de bromélias levou o parque a ser reconhecido pela Unesco como parte da Reserva da Biosfera desde 1992.

Pássaros migrantes. Com tanto reconhecimento internacional, a ilha só poderia ser um paraíso idolatrado pelos ecologistas também do Brasil. “Este é o centro de fantásticas migrações de pássaros”, lembra a estudiosa de aves Judith Cortesão, apaixonada pelo lugar. Não há na costa brasileira lugar algum com uma diversidade de aves tão grande. Além disso, este é um dos dois lugares da porção neotropical do planeta que protegem a maior quantidade de espécies de aves raras e ameaçadas de extinção. Não são somente os pássaros que dão sua paradinha na Ilha do Cardoso para comer, reproduzir-se ou descansar sempre que migram pelo mundo. Pingüins e lobos marinhos passam por ali nos invernos, fatigados e com o corpo sujo de óleo do mar. Desde junho, técnicos que atuam no parque têm desenvolvido trabalhos de resgate e reabilitação desses animais.

Surpreendente é a Ilha do Cardoso preservar seus bugios, veados e jaguatiricas mesmo estando a apenas 272 quilômetros de São Paulo, a maior metrópole do país. A história mostra que a natureza tem sobrevivido a diferentes povoações. O caminho que os barcos percorrem para chegar ao Núcleo Perequê, onde fica a sede do parque, ou à Vila de Marujá, centro turístico da ilha, é uma prova disso. A rota passa por vários sambaquis, sítios arqueológicos onde estão misturados conchas, restos de fogueira e esqueletos de homens e animais datados de mais de 1500 anos. Depois dos índios, a ilha teve como moradores os portugueses, que chegaram a Cananéia em 1502 (veja quadro) e transformaram a região em zona portuária até o século passado.

No início do século XX, existiam mais pessoas morando na Ilha do Cardoso do que em Cananéia. Motivo: o solo era mais fértil e os peixes, a fauna, a flora e a água potável eram abundantes. Até hoje a Ilha guarda ruínas de construções coloniais e de engenhos – como o que fica na trilha da Cachoeira Grande, a mais visitada das catorze cachoeiras. A beleza do lugar continuou atraindo moradores depois da criação do parque: há duas décadas, grandes empresários compraram terrenos dos nativos para construir mansões ilegais. Recentemente, a Justiça ordenou a demolição de algumas dessas casas.

Estilo pantaneiro. O plano de manejo que tem sido colocado em prática no parque há três anos é uma experiência ainda rara no Brasil. Feito com a participação das seis comunidades da ilha, esse plano concilia a preservação da área natural com a presença de moradores na reserva. Nem sempre foi assim. Na década de 60, quando a ilha virou parque, muita gente foi expulsa sem desculpas nem indenizações. A família do monitor ambiental Romeu Mário Rodrigues, nativo da ilha, foi uma das que mais sofreram. “Eles foram jogados no continente sem ter nem uma roça pra viver”, conta seu Romeu, com tristeza. Aos 53 anos, esse baixinho simpático, de pele acostumada com os infernais mosquitos-pólvora da lua cheia, orienta estudiosos e visitantes por trilhas que levam, por exemplo, à bela piscina natural do Poço das Antas, à distante Praia de Ipanema ou aos manguezais para que seja feita a focagem noturna do jacaré-de-papo-amarelo, no melhor estilo pantaneiro.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Hoje 400 pessoas vivem espalhadas pela Ilha do Cardoso. A exploração do palmito, antes bastante comum, foi proibida e a população passou a viver da pesca. Até os 23 índios guaranis, que desde 1992 migraram para dois pontos do arquipélago, são aceitos. Eles só deixam o isolamento do grupo para vender artesanato, participar das reuniões do comitê gestor da ilha e visitar o vizinho João Cardoso. Aos 72 anos, João é o último Cardoso, da família que dá nome ao lugar, que ainda vive na ilha, sustentando uma mulher e uma filha com os poucos trocados que tira da pesca. Como ele, todos os pescadores respeitam as regras que evitam a extinção de algumas espécies de peixes, previstas no plano de manejo. Os homens da ilha tiram o seu ganha-pão diário dos tradicionais cercos de pesca artesanais. Conhecidos nas praias do Nordeste como currais, esses cercos são armações de madeira onde os peixes entram e não conseguem sair. Os botos chegam, inclusive, a ajudar na pesca. “Eles usam os cercos como barreira e tocam cardumes inteiros para dentro do cercado”, explica o biólogo Fernando de Oliveira, do Instituto de Pesquisas Cananéia, o Ipec, uma das ONGs que pesquisam os botos na região da Ilha do Cardoso. O espetáculo da despesca do cerco, quando os pescadores esvaziam a armadilha, é belíssimo: botos e dezenas de aves se aproximam para roubar um pouco de alimento, enquanto os pescadores enchem seus barcos de tainhas, no inverno, e de paratis e robalos, no verão.

A estreita Vila da Restinga. O isolamento torna mais dura a vida dos ilhéus. A falta de energia elétrica tem sido suprida com o uso de painéis que captam a energia solar. A idéia é ecológica, mas a população reclama que um dos fornecedores dos serviços de energia não tem feito a manutenção dos painéis – deixando muita gente sem luz. Para as famílias que vivem nas comunidades mais distantes ou nos sítios isolados isso é um transtorno a mais. Afinal, todos precisam navegar pelo menos meia hora de barco até Cananéia, por exemplo, para ir ao hospital ou para estudar em escolas a partir da quinta série do ensino fundamental. Além disso, o sistema de saneamento ainda é precário e 25% do esgoto vai para o mar sem receber tratamento algum. Espera-se que, a partir de julho, esse problema seja sanado. Uma ONG da Alemanha se juntou ao parque e à Associação de Moradores do Marujá para implantar um tratamento de esgotos completo na principal vila do lugar.

Na restinga ao sul da ilha, Marujá é um vilarejo tão estreito que a distância entre o Canal de Ararapira, onde os barcos aportam, e a praia principal, a do Marujá, não passa de 300 metros. Seus 150 habitantes vivem da pesca ou do turismo: há três pousadas, oito casas de moradores transformadas em hospedarias nos finais de semana, três restaurantes e três bares – um deles vira casa de forró de vez em quando. A luz é produzida por geradores barulhentos, só há um telefone na vila e os chuveiros são aquecidos a gás. Apesar de as dez praias da Ilha do Cardoso, extensas e com areia batida como é comum no litoral sul do Estado, serem menos atraentes que as pequenas baías recortadas pelas montanhas do badalado litoral norte, Marujá costuma lotar nos feriados. Todos os caminhos – aonde não chegam carros e portanto não há ruas ou calçadas – lotam de barracas de camping.

“Temos tentado organizar o turismo ecológico orientando os visitantes para que não sujem as trilhas e separem o lixo reciclável dos restos orgânicos”, diz o pescador Ezequiel de Oliveira, 59 anos, líder da comunidade e defensor da manutenção de atividades tradicionais como a pesca de cerco, a roça e a produção de farinha. No intuito de orientar os turistas, quinze monitores ambientais foram treinados em dezembro para acompanhar os visitantes nas caminhadas mais longas, como a que leva às piscinas naturais. Um camping comunitário deve passar a funcionar no segundo semestre. Há planos ainda para a instalação de um centro de pesquisas do Projeto Tamar, já que este é um dos mais importantes pontos de alimentação de cinco espécies de tartarugas marinhas. Outro projeto, esse em parceria com a Unesp de Rio Claro, vai iniciar um roteiro monitorado de rapel em árvores, usando alguns cedros e jequitibás de mais de 50 metros de altura do Perequê.

Os planos são muitos e a comunidade vê com bons olhos a exploração do ecoturismo. Não só pela renda a mais mas também porque têm consciência ecológica. Prova disso é que as três últimas autuações de exploradores clandestinos e caçadores foram feitas com a ajuda de índios e pescadores – exemplo raro de mobilização social. Os privilegiados habitantes da Ilha do Cardoso sabem que têm uma das regiões naturais mais ricas do planeta. E preservá-la é prioridade para eles e para todo o mundo.

Para ir mais longe

Descubra o Lagamar, livro de Nicia Wendel de Magalhães, editado pela Associação para Estudos do Ambiente, tel. 011/212-5538.

 

 

GUIA DA TERRA

COMO CHEGAR

Apesar de estar em pleno litoral de São Paulo, a Ilha do Cardoso conseguiu manter-se preservada porque o acesso não é tão fácil. De carro, é preciso seguir até Cananéia pela perigosa BR-116, também conhecida como Rodovia da Morte pela freqüência de acidentes com os muitos caminhões que por ela circulam. São 272 quilômetros de distância de São Paulo. Do Porto de Cananéia partem barcos até Marujá, que levam cerca de 3 horas de viagem. Além do barco do Dersa e do barco Lagamar para o Marujá, existem as pequenas voadeiras de pescadores, que podem ser alugadas para viagens a Marujá ou Perequê.

QUANDO IR

Como em todo o Vale do Ribeira, chove muito na Ilha do Cardoso – pelo menos uma vez por semana. O período de julho a agosto é bom porque a umidade diminui, com temperatura média de 18 graus, dias quentes e noites que baixam aos 10 graus. No verão, entre dezembro e fevereiro, cai muita água e a temperatura passa dos 25 graus. É bom para ver jacarés, que estão procriando.

ONDE FICAR

Perequê, onde está a sede do Parque (tel. 013/851-1163), oferece passeio organizado, com alojamento para oitenta pessoas (foto), quatro trilhas por manguezais, restingas, praias e Mata Atlântica, além de boa comida no refeitório. Há doze agências de ecoturismo que fazem viagens à Ilha do Cardoso, informe-se no parque. Em Marujá, cada um pode cuidar de seu próprio passeio — embora existam também guias à disposição. Comunitário, o único telefone da vila (tel. 013/852-1161) pode fazer reservas para as pousadas. Na do Ezequiel dá para acampar, alugar quartos e comer bem. O preço da diária com pensão completa é 30 reais, o mesmo do Hotel do Celestino Trudes, o mais próximo da praia, e do Recanto do Marujá (tel. 013/851-1488), à beira do canal.

DICA DO AUTOR

”Hospedar-se no Perequê é mais tranqüilo, mas, caso você prefira ficar no Marujá, evite ir nos feriados, pois a vila fica cheia. Ao escolher um lugar para se alojar, verifique se não há por perto um barulhento gerador de energia. E você dormirá ouvindo o som da natureza.”

Daniel Nunes Gonçalves

 

 

A RIQUEZA DO LITORAL SUL PAULISTA

Um dos principais méritos da Ilha do Cardoso é aglutinar quatro ecossistemas importantes em um só lugar: o coração do Lagamar, uma área que leva o pomposo nome de Complexo Estuarino-Lagunar de Iguape, Cananéia e Paranaguá e que reúne ainda a Juréia, a Ilha do Mel, o Superagui e a Ilha Comprida.

Mangue

Ocupando 8% da ilha, os manguezais são emaranhados de árvores que deixam suas raízes à mostra, banhadas em água salobra. Têm aparência estranha, mas são moradia de caranguejos e muitos outros animais aquáticos.

Floresta Atlântica

A floresta atlântica engloba a maior parte da Ilha do Cardoso. Tem arbustos, gramíneas e árvores de até 50 metros de altura, que surgem nas planícies onde estão as restingas e seguem para o alto dos morros de até 840 metros. Tem riachos, cachoeiras e coloridas espécies de orquídeas e bromélias.

Restinga

Vegetação baixa, formada basicamente por arbustos que crescem em terrenos arenosos entre as praias e a floresta atlântica do interior da ilha. É bastante procurada por aves migratórias, que buscam frutos maduros para se alimentar. Parte da restinga é inundável, em complexos de água doce e salgada, e habitada por lontras, cágados e jacarés-de-papo-amarelo.

Dunas

A Ilha do Cardoso não tem dunas de areia altas como as que existem em Cabo Frio (RJ) e Genipabu (RN). Aqui, o que se chama de vegetação de dunas é o mato que fixa as pequenas elevações de areia da praia, que não ultrapassam 2 metros de altura. Esse ambiente arenoso acumula restos de seres marinhos e é vital para a alimentação de várias espécies de pássaros.

 

Publicado na revista Os Caminhos da Terra, edição 87, Julho/1999

A rota dos vitrais

Nem o martelo de 1955 para testar o reflexo nos
joelhos dos pacientes, nem a foto de dom Pedro II
visitando o hospital em 1886. As relíquias que mais
se destacam no prédio da Beneficência Portuguesa,
na Bela Vista, em meio à recém-aberta exposição
que comemora seus 150 anos, são 48 vitrais. Em
especial os 33 que cobrem, desde os anos 50, três
paredes do Salão Nobre. Eles compõem o acervo
de mais de cinquenta conjuntos instalados em São
Paulo pela Casa Conrado. A empresa foi fundada em
1889 pelo alemão Conrado Sorgenicht (1835-1901),
que havia desembarcado no país catorze anos antes,
depois do fim da Guerra Franco-Prussiana. Pela
primeira vez, produziam-se vitrais nacionais como os
que eram importados da Europa e haviam iluminado
o período da Idade Média. Originária do Oriente no
século X, essa técnica minuciosa ganharia espaço
nos principais prédios públicos, igrejas e mansões
paulistanos ao longo dos últimos 120 anos.

É o caso do Mercado Municipal, da Catedral da Sé
e da Sala São Paulo, com vitrais executados ou
restaurados pelos três homens de mesmo nome
que ligaram a história da família à da capital
paulista. O patriarca não desenhava. Importava
os vidros coloridos e os colava com um filete
de chumbo conforme o desenho de artistas
convidados, seguindo a técnica difundida nas igrejas
góticas de seu país. Foi um de seus herdeiros, o
também alemão Conrado Sorgenicht Filho (1869-
1935), quem realmente exibiu talento artístico e
impulsionou a vidraria. Os painéis com ilustrações
rurais que colorem o Mercadão, no centro, desde
1932 foram feitos por Conrado Filho após uma
viagem pelo campo para fotografar referências.
Por abrigar os soldados que lutavam na Revolução
Constitucionalista, o mercado sofreu com vidros
quebrados por tiros e teve sua inauguração adiada
para o ano seguinte.

Entre os anos 20 e 30, a arte em vitrais viveu seu
primeiro auge na cidade. O quase monopólio da
Casa Conrado se deveu, em parte, a uma parceria
com o engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo.
Além de ilustrar os vitrais do Mercadão, Conrado
Filho executou as obras do Palácio das Indústrias,
de 1924, da Faculdade de Direito do Largo São
Francisco e da mansão da Avenida Paulista hoje
conhecida como Casa das Rosas, ambas de 1934. O
segundo pico de encomendas veio nas décadas de
50 e 60, já sob o comando de Conrado Adalberto
Sorgenicht (1902-1994), neto do fundador e único
dos três Conrado nascido em São Paulo. Ele levantou
os vitrais da Beneficência e da Faap, com 58 obras
de diferentes artistas – entre eles Tarsila do Amaral,
Carybé, Lina Bo Bardi, Portinari e Tomie Ohtake –
que começaram a ser instaladas em uma parede de
vitrais com 230 metros quadrados a partir dos anos
50.

“A obra preferida de meu avô era A Veneração de
São Vicente, reprodução do pintor português Nuno
Gonçalves, que está na Beneficência”, conta a artista
plástica Regina Lara Silveira Mello, neta de Conrado
Adalberto. “Essa é uma arte cara, demorada e que
está em extinção. Cada metro quadrado custa entre
3 000 e 3 500 reais.” Também vitralista, Regina é
professora da Universidade Mackenzie e ensina sobre
a história dos vitrais. “Meu avô quase morreu de
desgosto quando a Igreja Nossa Senhora do Brasil
substituiu seus originais por réplicas de acrílico”,
diz. Regina prepara o guia dos vitrais de São Paulo,
ainda em busca de patrocínio. Entre as surpresas da
publicação está o mais antigo dos 600 trabalhos da
Casa Conrado catalogados no Brasil: uma rosácea
da Igreja Luterana, na Avenida Rio Branco, no
centro, datada de 1908. Conrado Adalberto teve
apenas uma filha, Iolanda, mãe de Regina, que se
casou a contragosto do pai aos 16 anos. Por isso,
pouco antes de sua morte, o terceiro Conrado não
quis que ela assumisse a empresa e a repassou à
sua secretária. Hoje, a outrora mais importante
fábrica de vitrais da cidade funciona com apenas
seis funcionários em um escritório em M’Boi Mirim.
Vive de restaurações, como a que faz dos vitrais do
Teatro Municipal, e da fama do passado glorioso.

O Brasil cowboy

O aposentado catarinense Léo Sebold, 70 anos, foi o
primeiro a chegar, com nove dias de antecedência.
Cuidadosamente, escolheu a melhor entre as 5.300
vagas do camping e estacionou ali o trailer
importado. Ligou o som numa rádio sertaneja e
desceu para montar o toldo e a mesa de damas.
Logo o colega Henrique Dias, 65 anos, apareceu com
uma lata de cerveja para iniciar a primeira rodada
de uma série muito, muito longa. “Faz nove anos
que eu venho. É cada vez mais difícil achar lugar
bom, então decidi chegar cedo”, explica Sebold,
exibindo o planejamento a longo prazo permitido
pela idade e um figurino híbrido — camisa
estampada com a bandeira dos Estados Unidos,
cigarro de palha no canto da boca. O catarinense,
que viajou 1.400 quilômetros para garantir o lugar,
foi o precursor da romaria que superlota a cidade de
Barretos, no interior de São Paulo, no final de agosto
para a Festa do Peão de Boiadeiro, o maior evento
regional do país. A festa, que começou na sexta-
feira passada e vai até o próximo domingo, atrai
uma multidão que causa congestionamentos de oito
horas nas estradas da região, lota todos os hotéis
num raio de 150 quilômetros e faz com que diárias
de modestos estabelecimentos de três estrelas
cheguem a 375 reais, preço de um cinco-estrelas em
Paris. Barretos, durante dez dias, é a meca de um
fenômeno que começou no interior de São Paulo e
se irradiou para outros pontos do país, o rodeio. Não

um rodeio qualquer, com a peãozada montando em
bichos bravos, como sempre existiu no Brasil, mas
um festival cada vez mais calcado nos moldes
americanos.

A arena de Barretos está para o mundo do rodeio
como Wimbledon para o tênis. É a segunda maior
festa do gênero no mundo, depois de Las Vegas,
nos Estados Unidos, e a única competição do circuito
mundial de rodeio de touros realizada fora de um
país de língua inglesa. Há 700 jornalistas do mundo
inteiro credenciados para o evento. As finais serão
transmitidas pelo canal country de TV por assinatura,
CMT. Enviados de jornais como Financial Times e
Chicago Tribune, redes de TV como Fox News e
revistas como a Opa, do Japão, baterão ponto na
arena. Há 22 competidores americanos, canadenses
e australianos. No meio dessa porção de gringos,
porém, a grande estrela do show é o brasileiro
Adriano Moraes, de 27 anos, nascido na pequena
cidade de Matão, a 300 quilômetros de São Paulo.
No próximo fim de semana, enquanto o tenista
Gustavo Kuerten deverá estar lutando nas quadras
do US Open para se manter na nona posição do
ranking mundial, Moraes defenderá, com amplo
favoritismo, seu posto de primeiro colocado na lista
da Professional Bull Riders, a federação dos peões
montadores de touros. No início de agosto, Moraes,
com 7 190 pontos, tinha uma liderança tranqüila
sobre o segundo colocado, o americano Michael
Gaffney, com 4 715 pontos.

Uísque importado — A Festa do Peão de Barretos
existe desde 1955. Na época, a cidade sediava o
maior frigorífico do país e recebia tropeiros que
traziam gado de vários Estados. Para matar o tempo
enquanto esperavam o abate das reses, eles faziam
rodeios no estilo caipira, nos quais se compete para
ver qual o peão que fica mais tempo no lombo de
um cavalo chucro ou qual o laçador mais habilidoso.
Durante três décadas, a festa foi atraindo cada vez
mais gente, entre fazendeiros endinheirados e o
pessoal da região, geralmente mais interessados
em se divertir. O modelo, no entanto, continuava
tradicional. Foi no final dos anos 80 que empresários
locais farejaram ali uma mina de ouro. Inspirados no
sucesso da música sertaneja, que unia a guitarra da
música country à viola da toada caipira, decidiram
transformar a festa num torneio à texana, para
atrair o público de classe média que jamais iria a
uma festa “caipira”, mas compareceria alegremente
a um evento country. Uma agência de publicidade
foi contratada para divulgar o evento, os cartazes
passaram às mãos de artistas como Siron Franco
e Manabu Mabe, as barracas começaram a vender
uísque importado. Barretos estourou.

A Polícia Militar calcula que, durante os dez dias
de festa, 900.000 pessoas circulam pelo Parque

do Peão. Isso não quer dizer, observe-se, que a
cidade, de 100.000 habitantes, seja invadida por
800.000 turistas. Se um morador local, por exemplo,
resolve comparecer ao parque durante os dez dias
seguidos, será computado como dez pessoas. Mesmo
assim, é uma monstruosidade de gente. Mais que
a Oktoberfest, de Santa Catarina, que pelo mesmo
critério atrai 500.000 pessoas, e que o Festival do
Boi de Parintins, no Amazonas, que junta 150.000.

Aluguel estratosférico — A grande maioria dos
freqüentadores calça botas sete-léguas e poderia
perfeitamente ter participado do primeiro rodeio, há
42 anos. Mas o que interessa aos organizadores é
aquela fatia de público que usa chapéu à moda de
J.R. Ewing, de Dallas, e vende boi virtual na Bolsa
de Mercadorias & Futuros. No aeroporto da cidade,
que costuma receber uma dúzia de aviões por dia,
o movimento esperado ao longo da festa é de 1.000
pousos e decolagens. Fora o heliporto, sempre
lotado, com capacidade para trinta helicópteros. Para
atender aos celulares que teimam em estrilar mesmo
durante os momentos mais emocionantes do rodeio,
no Parque do Peão foram cravadas três antenas
de telefonia, com capacidade para 10.000 ligações
simultâneas.

Entre os 4.000 metros quadrados de estandes
montados no parque não há apenas barracas de
comes e bebes. O Mappin, uma das maiores lojas
de departamentos do país, montou uma filial pré-
fabricada, com 120 funcionários. Há até um estande
da Valmet, que no ano passado vendeu quarenta
tratores. “O espírito da festa é rústico, mas nosso
público é a classe média das grandes cidades do
interior”, diz Flávio Silva Filho, diretor do clube Os
Independentes, que organiza a festa. A invasão
turística gera oportunidades de negócios também
fora do parque. O comerciante Geraldo Rodrigues
adiou a mudança para a nova casa em duas semanas
porque durante o rodeio ela estará ocupada por
famílias de turistas, ao estratosférico preço de 1.000
reais a diária. “Não podia perder uma chance de
embolsar essa grana, né não?”, raciocina.

O filão aberto por Barretos revelou-se uma mina
de ouro. Até o final do ano serão realizados em
todo o país 1.200 rodeios, que, entre ingressos,
movimento turístico e de restaurantes, farão
circular 1 bilhão de dólares. O público estimado é
de 24 milhões de pessoas, sete vezes mais que os
espectadores do Campeonato Brasileiro de Futebol.
Os números, como de hábito, estão sujeitos a chutes
e arredondamentos duvidosos, mas são endossados
por quem entende do ramo. “O mercado de rodeios,
leilões e exposições agropecuárias no país deve
passar de 2 bilhões de dólares”, calcula Antônio
Ernesto de Salvo, presidente da Confederação
Nacional de Agricultura.

O rodeio, no mundo, é dividido em duas grandes
federações, montaria de touros e rodeio completo.
Na primeira, o peão precisa manter-se pelo menos
oito segundos no lombo de um touro furioso.
Completado o tempo mínimo, os juízes lhe atribuem
pontos em função do estilo. Já o rodeio completo é
dividido em sete provas. Além da montaria em touro,
há o bulldogging, que implica saltar da montaria e
derrubar um bezerro pelos chifres. Laço, em que
o objetivo é laçar um garrote no tempo mínimo
possível, e laço em dupla, em que dois cavaleiros
dominam a cabeça e as patas traseiras do bezerro.
Há uma prova feminina, na qual as amazonas devem
contornar três obstáculos no menor tempo possível,
e dois tipos de prova de montaria em cavalos,
com e sem sela (o bareback). No Brasil, há ainda
a montaria na cela típica dos caipiras, chamada
cutiano.

Os humanos vêm se exibindo dessa maneira
desde a domesticação do cavalo, mas as regras
e modalidades vigentes hoje vieram dos Estados
Unidos, onde os campeonatos de rodeio profissional
existem desde 1929 e os espetáculos atraem 34
milhões de espectadores. Há competições exclusivas
para mulheres, um torneio gay em Utah e rodeios
em que os peões são detentos de penitenciárias.
Nessa categoria, o público torce pelos touros e
reserva os maiores aplausos da noite para o animal
que mais pisoteia um peão. Há um canal de TV
que só transmite rodeios e, nas bancas de jornais,
vendem-se cartões, conhecidos por qualquer
criança como cards, com as figuras dos peões mais
célebres. Neles, o brasileiro Adriano Moraes aparece
como natural de Keller, Texas, a cidade onde fixa
residência durante a temporada americana.

Coleção de fraturas — Adriano se divide entre
o campeonato americano e os principais rodeios
brasileiros. Em 1996, entre prêmios e patrocínio, ele
faturou 300.000 dólares. Em dez anos de carreira,
conseguiu juntar seu primeiro milhão de dólares e
uma coleção de fraturas. Quebrou um braço, uma
perna e uma costela, perdeu um dente e rompeu os
ligamentos dos dois joelhos. Por sorte, seu contrato
com os patrocinadores estabelece que eles são
responsáveis pelas despesas médicas. No Brasil,
onde morrem em média cinco peões por ano em
acidentes de trabalho, as seguradoras se recusam a
fazer seguro de vida para a categoria. Nos Estados
Unidos, com dezoito óbitos por ano, as apólices
custam dezenas de milhares de dólares. Quando
se preparava para entrar na arena para vencer seu
primeiro título mundial, em 1994, Adriano viu um
touro esmagar o crânio de um amigo, o americano
Brent Thurman.

Religioso daqueles que beiram a pieguice, Adriano é
adepto da Renovação Carismática Católica. Fundou

um grupo de oração chamado Peões de Deus, em
contraposição aos Caubóis de Cristo, evangélicos,
e dedica suas vitórias a Nossa Senhora Aparecida.
No início do ano, doou 100.000 reais à comunidade
cristã de Cachoeira Paulista. “Meu sonho é que um
de meus filhos seja padre”, explica. Ídolo nos EUA,
respeitado como um dos três cowboys da história
que conseguiram montar dez touros, um após o
outro, sem cair, ele é permanentemente servido pela
mulher, Flávia, preocupada com o assédio das fãs.

Laço com jatinho — Nos bastidores da arena,
os peões são tratados como astros de TV. E, com
alguma sorte, acumulam pequenas fortunas. Vilmar
Felipe, bicampeão de touros em Barretos, ainda
guarda na garagem três dos 24 carros que ganhou
em várias competições. Os outros, juntamente com
25 motos, mais os prêmios em dinheiro, foram
trocados por terras e cabeças de gado. Administrar
o dinheiro e a carreira é a maior dificuldade da
profissão. Muitos peões arruínam as vértebras e as
articulações por competir demais, sem descanso.
O paranaense João Henrique Giannasi, 30 anos, o
primeiro colocado no ranking nacional de montaria
a cavalo, categoria bareback, previne-se fazendo
fisioterapia. Nas semanas que antecedem as grandes
competições, ele evita qualquer torneio. “Não dá
para ficar de fora justamente do que interessa”,
argumenta.

Há peões que competem apenas pela emoção. O
fazendeiro Henrique Prata, dono do Hospital do
Câncer de Barretos e de 20.000 cabeças de gado,
costuma pegar o jatinho com o filho e a filha para
disputar etapas qualificatórias das provas de laço em
cidades distantes. “Montar é a melhor parte da nossa
vida”, alegra-se. O maringaense Renato Garcia, de
20 anos, herdeiro de uma empresa de ônibus que
fatura 60 milhões de reais, também monta apenas
por diversão. Mas está entre os dez melhores do
ranking brasileiro. Quando terminar a faculdade de
zootecnia, Garcia pretende assumir de vez a carreira
de peão.

O rodeio traz fama também aos coadjuvantes do
espetáculo. Os palhaços salva-vidas, que distraem
os animais quando os caubóis caem, são conhecidos
do público e ganham 2.500 reais por final de
semana. Mas o trabalho é, digamos, estressante.
Antônio Carlos Damasceno, o “Django”, de Barretos,
contabiliza onze costelas quebradas, além dos
maxilares superior e inferior. “Meu irmão tem
mais sorte, quebrou só sete costelas, um joelho e
uma omoplata”, enumera. Os touros mais ferozes,
como “Pedra 90” e “The Flash”, também têm fã-
clube. O que poucos espectadores sabem é que a
fúria dos animais não decorre apenas de um mau
gênio de nascença. Touros e cavalos são atiçados por
cordas apertadas em suas virilhas e, eventualmente,

esporadas ou choques elétricos. “O rodeio é uma
tortura para os bichos”, protesta Milton Moura
Leite, presidente da União Internacional Protetora
dos Animais do Brasil. Os organizadores de rodeio
desconversam. “O animal não é judiado. É tratado
com as melhores rações e fica incomodado só porque
sente cócegas”, afirma Flávio Silva Filho, um dos
organizadores do rodeio de Barretos.

O universo dos rodeios é misterioso para quem
não está acostumado com música country, botas
de couro de jacaré e fumo de mascar. Em julho,
no rodeio de Jaguariúna, a principal atração da
noite não era uma dupla sertaneja, e sim Billy Ray
Cyrus, “O rei do Kentucky”, um breguíssimo astro
country americano. Nesse Texas de fantasia, não há
sem-terra nem gente com o nome sujo no crédito
rural do Banco do Brasil. Há apenas caubóis ricos
e caubóis pobres, que se identificam por sinais
claros como uma estrela de xerife. Em Barretos, por
exemplo, não faltam picapes ostentando adesivos da
Festa do Patrão, um baile country que reúne 5.000
pessoas nas noites de rodeio. A entrada custa 100
reais e, com duas semanas de antecedência, 70%
dos ingressos já estavam vendidos.

No ambiente de um rodeio, a receita de
elegância é a mesma de qualquer outra festa do
circuito ostentatório: produzir-se ao máximo e
desembarcar de um carro vistoso. O que muda
são os ingredientes. No mundo country, os carros
valorizados são picapes como a Mitsubishi Pajero
e jipes como o Chrysler Grand Cherokee. Quanto
às roupas, o figurino Chitãozinho e Xororó está por
fora. “Foi-se o tempo em que bastava usar camisa
de franja. Agora é preciso seguir a tendência da
estação”, explica Valdomiro Poliselli Júnior, dono
da VPJ Western, a maior importadora de roupas
country, com 152 lojas e faturamento de 7 milhões
de reais. A dobra do chapéu de caubói, por exemplo,
muda da mesma maneira que o comprimento das
saias femininas. Quem usa os chapéus do ano
passado é classificado como “faiado” (“falhado”,
caubói fajuto, no dialeto peonês) ou “abeia”
(“abelha”, equivalente a “brega”).

Pele de avestruz — Durante o dia, o caubói que
se preza usa chapéu branco. À noite, preto, de
preferência de pêlo de castor, que pode custar até
1.500 reais. As botas de couro de cobra foram a
coqueluche do ano passado. Hoje, o quente são
as de avestruz, australianas, que, por 840 reais,
derrubam muita Prada ou Gucci. Para ditar a moda
nos rodeios, as griffes apelam para o clássico
mecanismo do jabá, enviando roupas de presente
a peões e locutores. O acessório que completa o
uniforme é a calça jeans. É Wrangler, americana. “A
brasileira não presta”, sentencia Fernanda Cordeiro
Camargo, aluna do 2º ano de veterinária, que na

semana passada desfilava pelo Rodeio Universitário
de Londrina. Seguindo o padrão cowboy, as calças
precisam ser absurdamente justas. A tática de
patricinhas e mauricinhos interioranos para domá-las
é comprá-las na véspera da festa, enfiar-se dentro
delas com grande esforço muscular e dormir com o
jeans no corpo, de forma a amaciá-lo.

Se nas revistas de moda o estilo vigente nos grandes
centros urbanos é heroína-chique, aquela aparência
intermediária entre a ressaca, a anorexia e a
hepatite, nos rodeios o modelo são os cowboys de
anúncios de cigarro. Não só no trajar, mas até no
hábito de mascar fumo. Não aqueles rolos fedorentos
dos caipiras de antanho, é claro. Em Londrina, nos
dias de rodeio, as lojas country vendem cerca de
200 caixinhas de tabaco americano, em tabletes,
para ser mastigado como chiclete. Para o público
feminino, há o produto nos sabores cereja e menta.
Como o cigarro comum, a versão ruminante pode
causar câncer no esôfago, estômago e fígado. “Estou
tentando parar”, explica o peão Renato Garcia, uma
assumida vítima da moda.

A indumentária texana não indica apenas que há
muita gente disposta a brincar de caubói. Mostra
também que as elites do interior do país estão
firmando uma identidade diferente da de seus
similares das metrópoles. No final do século passado,
as famílias abastadas do Rio de Janeiro e de São
Paulo fizeram uma opção preferencial pelo estilo
importado da França, então uma potência cultural,
política e científica, além de sinônimo de erudição
e refinamento. Ao adotar a imagem de texanos,
os homens debaixo do chapéu de castor criam
para si próprios uma imagem diferente daquela do
caipira ignorante ou do fazendeiro rude, ao mesmo
tempo que estabelecem diferenças em relação ao
figurino Fiesp. “As picapes importadas dizem: não
somos cariocas nem paulistanos, mas somos ricos
e importantes”, teoriza o antropólogo Everardo
Rocha, da PUC do Rio, especialista em fenômenos de
consumo.

O interior não quer apenas parecer com o Texas.
Pretende, também, consumir como ele. A Alpha
Consultoria, instituto que faz prospecções de
mercado para várias empresas, tem uma projeção
de quanto cada região do país pode consumir, com
base em indicadores como renda per capita, número
de telefones, consumo de energia elétrica e média
de carros por habitante. Segundo a última pesquisa
da empresa, a região com mais dinheiro esperando
para ser gasto é a Grande São Paulo, com 14,2% do
potencial nacional de consumo. A segunda, com
13,3%, é o interior paulista. Não é difícil atestar
isso. A Forum, uma das mais caras franquias de
moda jovem, obtém 40% de suas vendas no interior
do país, embora possua na região menos de um

terço de suas lojas. As vendas de picapes
importadas cresceram 27 vezes nos últimos cinco
anos, principalmente no interior, mas os modelos
preferidos não são os paus-para-toda-obra e sim os
de luxo. Talvez por isso, na última contagem
populacional do IBGE, se descobriu que há hoje mais
gente migrando das capitais para o interior do que
fazendo o caminho contrário. Quem vai com alguma
reserva no banco pode tratar de comprar o chapelão
de caubói para se adaptar.

Fumo de mascar é a última moda entre os caubóis
brasileiros. Existe até em versões com sabor de
menta ou de cereja

Chapéu americano feito com pêlo de castor, da
Resistol. Os preços dos modelos variam de 600 a 1
500 reais

Cinto de crina de cavalo, importado, pode chegar a
custar 150 reais. O falsificado, de náilon, sai por um
terço disso

Bota de couro de cobra misturado com couro de boi
custa 150 reais. As de cobra pura chegam a 700
reais

Estrelas da arena e do disco

Os locutores de rodeio arrombaram a porteira
das lojas de discos. Nos últimos meses, várias
gravadoras despejaram na praça CDs que prometem
reproduzir no estéreo o espírito de um rodeio de
verdade. Para que o ouvinte se sinta cercado por
cavalos, touros e caubóis, as gravações do gênero
alternam música sertaneja com aquele blablablá que
os locutores costumam disparar pelas caixas de som
das arenas. Entram nos discos saudações como “alô,
meu povo!”, gritos de “segura, peão!” e até piadas
de salão (“Você sabe qual a semelhança entre minha
sogra e uma garrafa de cerveja? As duas ficam
ótimas geladas, em cima da mesa”). Tudo é dito com
entonação característica, algo entre a narração de
uma partida de futebol e a de um páreo no jóquei.
Um dos lançamentos do gênero, Bailão de Peão, já
vendeu 400 000 cópias, número que bate de longe
as vendagens habituais das estrelas da MPB.

De olho na moda, até o clube Os Independentes,
que organiza o rodeio de Barretos, lançou o disco
oficial da festa. A previsão é de que sejam vendidas
150 000 cópias até o final do mês. Com o sucesso
do filão, a carreira dos locutores avança para além
das arenas de rodeio. O veterano Asa Branca, ex-
peão que depois de um acidente teve de trocar os
arreios pelo microfone, já montou uma banda para

excursionar pelo país. Com idéias originais, como
saltar de pára-quedas sobre a arena ou fazer a
abertura de um rodeio de dentro de um helicóptero,
ele se tornou um dos animadores mais conhecidos.
Seu disco Cowboy Country esgotou a tiragem de 180
000 exemplares.

O locutor Marco Brasil, recordista de vendas no
segmento, apresentava um programa de rádio
quando teve a idéia de lançar o primeiro LP do
gênero no país. Hoje, divide seu tempo entre
rodeios, pelos quais cobra até 12 000 reais,
bailes e shows. As festas country se tornaram
tão importantes para a indústria do disco que
conseguem projetar artistas que pouco aparecem no
rádio e na TV. É o caso da cantora Jayne, a “rainha
dos rodeios”, que se apresenta no palco fazendo
evoluções sobre um cavalo branco. Seu último disco
vendeu 80 000 cópias e carimbou-lhe o passaporte
para Nashville, Tennessee, a capital da música
country, onde ela acaba de gravar mais um CD.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Franco Iacomini (com reportagem de Rachel Verano, de Belo Horizonte)

Surge uma Barra Funda remodelada

A Barra Funda não é mais a mesma. Que o diga o barbeiro Milton Greggio, de 64 anos, um dos mais antigos do bairro. Desde 1961, esse descendente de imigrantes italianos observa as redondezas. De sua portinha na Lopes Chaves, a mesma rua onde viveu o escritor modernista Mário de Andrade, Greggio percebe parte da transformação do bairro pelos clientes que se sentam nas tradicionais cadeiras Ferrante vermelhas de seu salão despojado. “Antes só vinham meus contemporâneos, moradores
dos casarões antigos e funcionários das fábricas”, conta. “Hoje
a clientela é mais jovem, com rapazes tatuados que gostam de
longas costeletas, cabelos modernos e barbas esquisitas.” Greggio
se refere aos freqüentadores das casas noturnas, aos artistas
e aos recém-chegados moradores dos novos empreendimentos
imobiliários.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Filipe Vilicic

Espalhada por uma área de 5,6 quilômetros quadrados entre a
Marginal Tietê e os bairros de Perdizes, Lapa, Pompéia, Campos
Elíseos e Bom Retiro (veja mapa ), a Barra Funda recebeu suas
primeiras edificações no fim do século XIX. A inauguração de
estações das estradas de ferro Santos–Jundiaí e Sorocabana, além
de fábricas como as das Indústrias Matarazzo, atraiu moradores à
região. Imigrantes italianos se estabeleceram em vilas operárias
e sobrados estreitos, alguns preservados até hoje. Na virada dos
anos 70, o bairro entrou em um súbito processo de deterioração
por causa da construção do Minhocão, que derrubou o preço dos
imóveis de seu entorno.

A situação começou a mudar com a abertura, em 1988, do
terminal de trem, metrô e ônibus urbanos, intermunicipais e
interestaduais. Diariamente, 500 000 pessoas passam por ali.
Em uma cidade que tanto sofre por causa do trânsito, a fartura
de transporte público conta como ponto positivo. Outro trunfo
é sua localização estratégica – perto da Marginal Tietê e de
avenidas como Pacaembu e Sumaré, mais o próprio Minhocão,
que faz a ligação das zonas Oeste e Leste. Na esteira da facilidade
de acesso, galpões e sobrados caindo aos pedaços foram
transformados em ateliês e estúdios, em um processo semelhante
ao de bairros nova-iorquinos como SoHo e Chelsea. “A Barra
Funda nasceu residencial e depois virou centro de indústria e de
comércio, mas agora volta a atrair moradores”, diz o corretor
Ricardo Gutierrez, da Imobiliária Osvaldo Gomes, desde 1965
na Rua Barra Funda. Segundo a incorporadora Klabin Segall,
nos últimos três anos o preço do metro quadrado dos novos
empreendimentos valorizou-se mais de 35%.

De 2003 para cá, oito casas noturnas passaram a animar as
madrugadas e pelo menos cinco galerias ou lojas de objetos de
decoração se instalaram ali. Centros culturais como o Memorial
da América Latina e o Teatro São Pedro tiveram sua programação
reforçada. Com a Operação Urbana Água Branca, projeto da
prefeitura que estimula a urbanização da região, já são onze

prédios residenciais saindo da planta. Em março, a prestigiada
Galeria Fortes Vilaça abriu uma unidade por lá e na próxima
semana será inaugurada a Gran Fornalha, uma superpadaria com
1100 metros quadrados. A Barra Funda renasce – como é possível
perceber nas próximas páginas – e os moradores comemoram. “É
ótimo poder sair a pé para assistir a apresentações do Memorial
com minha mulher nas sextas à noite”, anima-se o barbeiro
Greggio, que já curtiu até show de rock no badalado CB Bar.
Sua única preocupação é que o boom imobiliário traga com ele a
descaracterização. “A Barra Funda precisa crescer sem perder a
alma.”

Atrações ao longo da ferrovia

Os trilhos dos trens dividem o bairro entre Barra Funda Alta,
vizinha de Perdizes, e Baixa Barra Funda, ao lado da Marginal Tietê

Comer e beber

1. Bacalhau, Vinho & Cia.

Rua Barra Funda, 1067, 3666-0381, www.bacalhauevinho.com.br

2. Dulca Doceria

Rua Lopes Chaves, 134, 3666-4766, www.dulca.com.br

3. Fazendinha da Pompéia

Avenida Nicolas Boer, 120, 3611-1114,
www.fazendinhadapompeia.com.br

4.

Rua Lopes Chaves, 105, 3663-0433

5. Fogão Gaúcho

Avenida Marquês de São Vicente, 1767-B, 3611-3008/3289,
www.fogaogaucho.com.br

6. Gran Fornalha

Avenida Doutor Abraão Ribeiro, 79, 3392-
3466,www.granfornalha.com.br

7. Novilho de Prata

Avenida Marquês de São Vicente, 1215, 3619-5454/5458,
www.novilhodeprata.com.br

8. Ponto Chic

Largo Padre Péricles, 139, 3826-0500, www.pontochic.com.br

9. Royal

Rua Lopes Chaves, 116, 3666-5548 e 3361-0193

10. Tanta Felicità

Rua da Várzea, 418, 3392-3001

Noite

1. Berlin

Rua Cônego Vicente Miguel Marino, 85, 3392-4594,
www.clubeberlin.com.br

2.

Rua Brigadeiro Galvão, 723, 3666-1616, www.bluespace.com.br

3. Café Concerto Uranus

Rua Doutor Carvalho de Mendonça, 40, 3822-2801

4.

Rua Sousa Lima, 67, 3822-1364, www.cbbar.com.br

5. CB Bar

Rua Brigadeiro Galvão, 871, 3666-8371, www.cbbar.com.br

6.

Rua Barra Funda, 969, 3661-1500, www.clashclub.com.br

7. D-Edge

Alameda Olga, 170, 3666-9022, www.d-edge.com.br

8.

Rua Marquês de São Vicente, 1767, 3611-3121, www.eazy.com.br

9. Livraria da Esquina

Rua do Bosque, 1254, 3392-3089, www.livrariadaesquina.com.br

10.

Avenida Francisco Matarazzo, 774, 3868-5858,
www.villacountry.com.br

Arte

1. Casa das Caldeiras

Avenida Francisco Matarazzo, 2000, 3873-6696

2. Casa de Cultura Mário de Andrade

Rua Lopes Chaves, 546, 3666-5803

3. Funarte

Alameda Nothmann, 1058, 3662-5177

4. Galpão Fortes Vilaça

Rua James Holland, 71, 3392-3942

5.

Rua Brigadeiro Galvão, 996, 3662-5530

6. Memorial da América Latina

Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, 3823-4600

7. Teatro São Pedro

Rua Barra Funda, 171, 3667-0499

Arte

De volta ao circuito

Memorial reforça programação e jovens artistas criam galerias em
antigos galpões

Polêmico e feioso ícone arquitetônico e cultural da Barra Funda,
o Memorial da América Latina, projetado pelo arquiteto Oscar
Niemeyer e inaugurado em 1989, estava um tanto esquecido. No
início desta década, seus seis espaços de eventos eram usados
quase exclusivamente como palco de solenidades oficiais. Havia
cupins em obras da artista plástica Tomie Ohtake e infiltrações
nos prédios. A situação melhorou a partir de 2005. Hoje, o
elefantão recebe quase 700 000 pessoas por ano e sedia eventos
disputados, festivais como o Anima Mundi, a partir de quarta
(23), e o de Cinema Latino-Americano, que terminou domingo
(13). “O desenvolvimento da região ajudou a revitalizar lugares
que estavam em decadência”, afirma Fernando Calvozo, diretor
de atividades culturais do Memorial e ex-diretor do Teatro São
Pedro. Ele explica que estudantes, clientes de casas noturnas,
funcionários de empresas ali instaladas e o grande movimento
criado pelos fóruns criminal e trabalhista – cerca de 25 000
pessoas por dia útil – aumentaram a freqüência do público. É o
caso do apresentador Britto Junior, um dos 3 000 funcionários
da Rede Record, que fica na Rua do Bosque. “Já morei em dois
endereços da Barra Funda e acredito que essa renovação estimula
as pessoas a redescobrir a região central”, diz Britto.

Dono da loja de objetos de decoração para atacado Marco
500, o empresário Marco Aurélio Pulchério faz parte dessa
leva de redescobridores. Em 1999, ele montou seu show-room
para lojistas na Rua Brigadeiro Galvão e se mudou para um
apartamento na Alameda Barão de Limeira. “Desde que cheguei,
a vizinhança foi tomada por ateliês e galerias”, conta Pulchério,
que plantou duas árvores diante da fachada colorida de sua
empresa e fundou com amigos o Curto Circuito Barra Funda, do
qual fazem parte outras três lojas do gênero. Nenhuma novidade
no ramo das artes, porém, foi mais marcante que a abertura,
em março, da galeria Fortes Vilaça, representante de artistas
contemporâneos como osgemeos e Beatriz Milhazes. Na segunda
unidade – a primeira fica na Vila Madalena – são comercializadas
obras avaliadas em mais de 350 000 reais.

Noite

Comando da madrugada

Uma dezena de clubes noturnos atrai cowboys urbanos, gays,
roqueiros e fãs de música eletrônica

Em 2001, após uma temporada de um ano e meio na Holanda
trabalhando como cozinheiro e barman, o artista plástico Diego
Belda voltou a São Paulo atrás de um lugar para morar e montar
seu ateliê. Por indicação de colegas, mudou-se para a Barra Funda.
Dois anos depois, decidiu abrir, com um amigo, a Casa Belfiore, na
Rua Sousa Lima. “Não havia nas redondezas um lugar que servisse
um bom hambúrguer e cerveja de qualidade”, lembra. Com a
divulgação boca a boca, em menos de um ano o público subiu
de quinze pessoas por dia para mais de 100. Como a vizinhança
começou a reclamar do barulho dos shows de rock, ele inaugurou,
em 2006, mais uma casa, o CB Bar, que passou a abrigar essas
apresentações. O galpão de 300 metros quadrados na Rua
Brigadeiro Galvão chega a receber 500 baladeiros num sábado.

A Barra Funda ferve de madrugada desde 2003, quando foi
aberto, na Alameda Olga, o D-Edge, eleito pela revista inglesa DJ
Magazine, referência em música eletrônica, como um dos melhores
clubes do mundo. A guinada rumo ao agito continuou com o Berlin,
em 2005, e com a Clash e a festa GLS Flex (na Eazy), ambas de
2007. Em agosto passado chegou a Livraria da Esquina, um misto
de livraria e casa de shows alternativos que antes funcionava em
Perdizes. “A Vila Olímpia e a Vila Madalena estão abarrotadas”,
diz Marco Tobal Junior, sócio do Grupo Olympia, dono do Villa
Country e das casas de eventos Expo Barra Funda e Espaço das
Américas. “A Barra Funda virou alternativa para quem quer dançar
e curtir sem encarar trânsito e muvuca.”

Comer

Novidades à mesa

Uma descolada feijoada com chorinho e uma nova superpadaria
somam-se a restaurantes tradicionais

Nas tardes de sábado, um chorinho tocado ao vivo ecoa de um
sobrado cheio de plantas na Rua Lopes Chaves. Não há placa na
porta, mas os iniciados já sabem: é dia da Feijoada da Bia. Ao
chegar ao bairro, há quatro anos, a chef Bia Braga só buscava um
imóvel grande e barato onde pudesse preparar os pratos de seu
bufê. “Mas um almoço para quarenta amigos deu tão certo que,
um ano depois, se tornou programação fixa”, diz Bia. No início, o
fundo musical era um sambinha, resgatando a tradição do local,
que reunia os bambas no Largo da Banana, no início do século XX.
Como o som estava alto demais, optou-se pelo chorinho. Figuras
conhecidas, como o escritor Ignácio de Loyola Brandão e o médico
Drauzio Varella, costumam aparecer por lá.

Apesar de ter muitas casas para dançar, a Barra Funda ainda
reúne poucos lugares para comer e beber. Entre as opções
tradicionais, há a doceria Dulca e a lanchonete Ponto Chic. Para
suprir parte dessa lacuna, está prevista para agosto a abertura do
La Barre, com cozinha coordenada pelo chef francês Emmanuel
Bassoleil, onde funcionava a Chez Victor Brasserie. Na próxima
semana deve ser inaugurada a Padaria Gran Fornalha, na
Avenida Doutor Abraão Ribeiro. Com investimento de 3 milhões
de reais, ela terá 1 100 metros quadrados, 120 funcionários e
estacionamento para trinta carros. “O movimento dos fóruns e dos

novos prédios comerciais dessa parte do bairro vai transformar a
Marquês de São Vicente em uma nova Berrini”, exagera um dos
sócios, Florinaldo Quirino, referindo-se à conhecida avenida do
Brooklin.

Imóveis

Paisagem

Onze novos prédios residenciais quebram a monotonia plana da
antiga várzea

Exibir Infográficos

Paisagem

O gestor cultural Felipe Arruda tinha um sonho quando deixou
a casa dos pais na Vila Nova Conceição, há quatro anos, para
morar sozinho em um apartamento de 70 metros quadrados na
Barra Funda. “Queria conversar com os vizinhos e viver um clima
de bairro”, lembra. A aposta foi certeira. Arruda montou seu
canto no 3º e último andar de um edifício dos anos 50, em uma
rua pacata. Paga 500 reais de aluguel e faz boa parte de seus
passeios no entorno. Ali perto, por 125 000 reais, o economista
Pablo Luiz Cezario e sua mulher, a administradora Flávia Carneiro,
compraram um apartamento de 63 metros quadrados ainda na
planta, em 2004. Mudaram-se para lá há um mês. “O bairro é
pacífico, e nosso imóvel já vale 170 000 reais”, diz Pablo, feliz da
vida.

Jovens como eles compõem a maior parte dos compradores das
3 100 unidades dos vinte empreendimentos imobiliários lançados
desde 2002. Onze deles apareceram nos últimos dois anos, sendo
quatro prédios com apartamentos de quatro dormitórios e preço
superior a 500 000 reais. O valor do metro quadrado em novos
apartamentos dessa zona da cidade, que era de 1 900 reais em
2005, já passa de 2 500 reais, segundo a incorporadora Klabin
Segall, que constrói três empreendimentos no bairro. Embora os
espigões ameacem quebrar a monotonia plana da paisagem, os
amplos terrenos disponíveis indicam que a Barra Funda ainda tem
muito espaço para crescer.

Um mergulho no centro da Terra

A gaiola dá um tranco e começa a descer vagarosamente. Dentro
do elevador, dez operários se distanciam da luz natural, do vento
e dos sons da rua. Próximo à futura Estação Vila Prudente, o Poço
Cavour, um buraco de 30 metros de profundidade, é um dos 42
canteiros de obras do metrô paulistano. “Os túneis de escavação
são as áreas de maior risco”, explica a auxiliar de segurança
Adriana do Couto, responsável por conferir se todos usam os
equipamentos necessários: capacetes, botas, máscaras, óculos,
protetores de ouvido e, em alguns casos, roupas plásticas, capas
de chuva e luvas. Mais um baque e chega-se ao fundo. “Andem
com atenção”, recomenda Adriana, que imediatamente retorna à
superfície. Segundo os operários que trabalham em túneis,
conhecidos como tuneleiros, mulher ali dá azar. O caminho pelo
barro rumo ao escuro da caverna, enquanto se sentem o
gotejamento das paredes úmidas e o cheiro de diesel das
máquinas barulhentas, anuncia a visão de um admirável mundo
subterrâneo, por onde circula parte do batalhão que desde 2004
constrói 17 quilômetros de vias e catorze estações. Com
investimento de 10,1 bilhões de reais, a maior obra de engenharia
urbana de túneis da história do Brasil busca tirar o atraso na
expansão dos trilhos. “O objetivo é concluir até 2012 o equivalente
a um terço do que foi produzido nos quarenta anos anteriores”,
afirma o secretário de Transportes Metropolitanos, José Luiz
Portella. Atualmente, a cidade conta com 61,3 quilômetros de vias
em quatro linhas, que ligam 55 estações muito pouco para seus
3,3 milhões de usuários por dia.

Debaixo da terra, a rotina sob a pacata Rua Cavour, que dá
nome ao poço, é a mesma do subterrâneo de vias movimentadas
como a Avenida Rebouças e a Rua Oscar Freire. Para amenizar a
escuridão do ambiente há refletores de luz de 15 em 15 metros.
Turbinas de ventilação colocadas em respiros abertos a cada
500 metros trazem ar da superfície, ao mesmo tempo em que
expelem gases tóxicos de caminhões e tratores levados às
profundezas por guindastes. Quem tem tendência à claustrofobia
é imediatamente reprovado no teste de admissão das nove
empreiteiras responsáveis pelas obras. Divididos em três turnos,
8.500 homens trabalham 24 horas por dia na expansão do metrô.
Constroem a Linha 4 – Amarela (que terá 12,8 quilômetros e vai
ligar a Luz à Vila Sônia) e expandem a Linha 2 – Verde (que por
enquanto vai da Vila Madalena ao Alto do Ipiranga, mas que, com
mais 4,3 quilômetros, chegará à Vila Prudente).

“O serviço era bem mais difícil 22 anos atrás”, conta Laércio
do Nascimento, “frentista de túnel” na Estação Sacomã, que
aos 8 anos de idade se esfalfava em uma mina de carvão e
virou tuneleiro em 1987. “Eu suava feito doido para preparar o
concreto manualmente, sem as máquinas que existem hoje.”
Orgulhoso por ter furado “no braço” quatro estações da Linha 1
– Azul, Nascimento comanda um robô programado para fazer o
trabalho duro. A evolução da tecnologia é evidente quando se
comparam os métodos de escavação. Hoje em dia, o impacto na
superfície é mínimo. “Para os primeiros 6,5 quilômetros de galerias
metroviárias do Brasil, entre o Jabaquara e a Vila Mariana, em
1968, abríamos valas com 15 metros de profundidade ao longo
de todo o percurso”, lembra o presidente do Metrô, José Jorge
Fagali, que entrou na empresa naquele ano e hoje é o segundo
funcionário com mais tempo de casa. “Por causa desse método,
vias movimentadas como as ruas Vergueiro e Domingos de Moraes
e a Avenida Jabaquara ficaram parcialmente interditadas por até
três anos.” O número de desapropriações também foi reduzido
drasticamente desde então: de 74 imóveis por quilômetro da
Linha 1 – Azul para dezesseis imóveis por quilômetro na Linha 4 –
Amarela. Nas intersecções com as linhas já existentes, o topo dos
novos túneis chega a ficar a apenas 7 metros de distância da base
dos túneis em operação.

Vedete dos canteiros por onde passa, o chamado megatatuzão é
um dos principais responsáveis pelo nível de excelência das
construções. Com o peso de 1.800 toneladas (o equivalente a 1
400 peruas Kombi), a escavadeira rastejante foi construída na
Alemanha especialmente para furar os 7,5 quilômetros entre as
estações Luz e Faria Lima. Suas peças vieram do Porto de Santos
para o Largo da Batata, em Pinheiros, em 120 carretas. Com 75
metros de comprimento, foi montada a 30 metros de
profundidade. A cavidade que abre na terra tem 9,5 metros de
diâmetro e serve de passagem para duas pistas do metrô, uma de
ida e outra de volta. Movida por energia eletro-hidráulica, utiliza
uma potência de 5 400 kVA, igual à usada em uma cidade de 40
000 habitantes. Tudo isso para se mover apenas 5 centímetros por
minuto. A supermáquina de 90 milhões de reais mobiliza 200
pessoas para funcionar. “O megatatuzão faz tudo: escava em
média 20 metros por dia ao mesmo tempo que cobre as paredes

do túnel com anéis de concreto”, afirma o ajudante de produção
Paulo César Nóbrega, ex-vigilante da cidade paulista de Fartura,
que tem sua primeira experiência profissional debaixo da terra.
Embora o capacete vermelho mostre que Nóbrega se encontra no
degrau mais baixo da hierarquia das obras (os engenheiros, de
cinza, estão no topo da paleta de cores), ele conhece bem a
máquina que maneja. Fala com propriedade dos anéis que
impedem o túnel de desmoronar. Cada um deles é formado por
nove partes de 4 toneladas e 35 centímetros de espessura. Hoje, o
megatatuzão está parado na área da nova Estação República. Em
maio, volta ao batente para concluir o último 1,8 quilômetro da
Linha Amarela. Sairá das profundezas em julho, por uma vala
próxima ao Terminal da Luz. “Estudamos a possibilidade de
aproveitar 40% de sua estrutura nas obras de ampliação da Linha
5 – Lilás”, diz o gerente de produção Carlos Henrique Maia. “O
resto vai para o lixo.”

Ao contrário dos tatuzões menores, que tinham sido usados no
trecho do centro, na Linha 1 – Azul, e da Avenida Paulista, na Linha
2 – Verde, o megatatuzão possui uma câmara frontal que equilibra
as pressões da terra e de possíveis lençóis freáticos que encontre
pelo caminho – daí seu nome verdadeiro, Shield Earth Pressure
Balanced, algo como “escavadeira de pressão balanceada de
terra”. A novidade acaba com a antiga prática de preenchimento
de uma parte do túnel com ar comprimido para evitar
desmoronamentos. “Os funcionários precisavam trabalhar em
turnos menores, pois era insalubre fazer esforço físico por muito
tempo com pressão elevada”, conta o engenheiro civil Tarcísio
Celestino, presidente do Comitê Brasileiro de Túneis. “Tratava-
se de um método pouco produtivo.” No sistema atual, apenas a
frente do megatatuzão, que pesa sozinha 700 toneladas, tem uma
pressão equivalente à do entorno. Depois de passarem três horas
ali para realizar limpeza e eventuais consertos, técnicos esperam
duas horas em uma câmara hiperbárica. “É como aquelas usadas
por mergulhadores de profundidade para regularizar a pressão do
corpo antes de voltar à superfície”, explica o mecânico colombiano
Luiz Gimenez, que ajudou a implementar metrôs em Portugal e
na Venezuela. Ele é um dos vinte estrangeiros de cinco países que
vivem em São Paulo especialmente para manejar o Shield.

Uma realidade menos confortável é encarada pelos trabalhadores
envolvidos na construção das estações propriamente ditas e dos
túneis de terrenos rochosos ou mistos – caso do percurso entre
a Faria Lima e a Vila Sônia, na Linha 4 – Amarela. O sistema de
escavação ideal para esses trechos é o semimecânico, chamado
NATM (New Austrian Tunneling Method, método austríaco que,
apesar do nome, não tem nada de novo, pois foi patenteado na
década de 60). A uma velocidade de 4 metros por dia, os caminhos
são abertos por homens pilotando escavadeiras, instalando aros
metálicos de sustentação e jateando concreto manualmente.
Quando o terreno é muito rígido, entram em ação os “cabos de
fogo”, operários responsáveis pelo manuseio de explosivos. “Com
a escavadeira, levamos de duas a três horas para avançar 80
centímetros”, afirma o mestre-de-obras da Estação Tamanduateí,
Sivaldo Gomes da Silva, com experiência de dezesseis anos em
tunelaria. “Já fiquei só de cueca para aguentar o calor de 48
graus.” Entre os macetes que o ofício lhe ensinou está o uso de
jornais entre as meias e as botas para reduzir a umidade nos
pés. “Tenho amigos que falam alto e gesticulam muito, de tanto
que trabalharam com barulho acima de 90 decibéis no tempo em
que não se usavam protetores de ouvido”, conta.

A engenharia tuneleira é complexa. São necessários cerca de
três anos para fazer a investigação geológica, o mapeamento das
eventuais redes de tubulação subterrâneas e o desvio de dutos
de água, gás, esgoto e telefone, além de cabos elétricos. Uma
equipe de arqueologia escarafuncha o terreno: louças e cerâmicas
do século XIX foram encontrados em Pinheiros e uma estrutura
residencial do início do século XX, em Higienópolis. Alguns terrenos
exigem que sejam rebaixados provisoriamente os lençóis freáticos.
No entorno do novo Terminal da Luz, foi preciso abrir 89 poços de
cerca de 30 centímetros de diâmetro, até que se baixasse o nível
da água para mais de 45 metros. Maior que a Sé e com previsão
de receber 600 000 pessoas por dia em suas duas linhas de metrô
e três da CPTM, a nova Luz consumiu, sozinha, mais de 10 000
metros cúbicos de concreto, o que daria para encher mais de cinco
piscinas olímpicas. Também impressiona a quantidade retirada
de areia, argila e rochas. Só a câmara dianteira do megatatuzão
engoliu 1,2 milhão de metros cúbicos até agora, com todo esse
material sendo transportado por uma esteira que chegou a medir
5 quilômetros entre a Praça da República e a futura Estação Faria
Lima. Dali, a terra foi removida em caçambas içadas por gruas e
transportada em caminhões para aterros em São Caetano do Sul e
Carapicuíba. Se ela enchesse uma caixa do tamanho de um campo
de futebol, teria a altura de um prédio de cinquenta andares.

Por trás desse esforço está uma massa de homens-tatu anônimos
com histórias de vida bastante parecidas. São migrantes do Norte
e do Nordeste, como o ex-faxineiro pernambucano Samuel Ferreira
da Silva e o ex-garimpeiro baiano Geraldo Dourado Ramos, que
trabalham como assistentes gerais ganhando perto de 1 000
reais por mês. Muitos vivem longe da família, dividindo moradia
na periferia com outros peões. Os mais experientes se orgulham
de ter no currículo túneis de rodovias e de usinas hidrelétricas.
Disputam ainda quem abriu mais quilômetros de metrô. Contados
como feitos heroicos, os perigos de sua profissão são lembrados
nas rodas de sinuca e cerveja no fim do expediente. O acidente
na Estação Pinheiros, em janeiro de 2007, no qual morreram
sete pessoas, tornou-se o episódio mais marcante, relembrado
no último dia 25 com o tombamento de um caminhão à beira do
abismo da mesma estação.

É por correrem riscos assim que os tuneleiros botam fé na
proteção de Santa Bárbara, considerada a padroeira dos
trabalhadores subterrâneos. Sua imagem pode ser encontrada
nos canteiros de obras. Os momentos de maior comemoração são
os encontros de túneis, quando as várias frentes de escavação
semimecânica se cruzam debaixo da terra. “No dia do encontro, a
gente desce de roupa limpa sabendo que vai ter pelo menos uma
caixa de espumante de cada lado da parede a ser rompida”, afirma
o tuneleiro Laércio do Nascimento. Satisfação ainda maior é ver a
obra pronta. “Eu não resisto. Quando passo de metrô em alguma
estação onde trabalhei, cutuco o passageiro ao lado e digo: ‘Fui
eu que fiz'”, conta Nascimento. “Ainda que a pessoa olhe para
toda aquela estrutura e responda, como fizeram uma vez: ‘Você?
Duvido!'”.

Legendas das fotos:
VESTIDOS PARA CAVAR

Com luz e ventilação artificiais, operários jateiam concreto em túnel da Linha 2 – Verde que leva à Estação Vila Prudente.
Capacetes, máscaras, botas, protetores auriculares, luvas e óculos
especiais são acessórios obrigatórios

Operado por 200 trabalhadores, como o ajudante de produção
Paulo César Nóbrega, o megatatuzão é a grande estrela das obras
da Linha 4 – Amarela. Custou 90 milhões de reais

TRABALHO MANUAL

O peão Adriano Pereira esguicha água no concreto armado do túnel
da Estação Sacomã, com previsão de inauguração para dezembro.
A Linha 2 – Verde usa o método semimecânico de escavação

DEPOIS

Buraco da Estação Pinheiros, que passou de 40 para 80 metros de
diâmetro depois da tragédia que matou sete pessoas em janeiro
de 2007: o terreno instável exigiu que o túnel fosse aberto com
escavadeiras e explosivos

PONTO DE ENCONTRO

Escavadeira recolhe a lama no fosso de 45 metros de profundidade
da nova Estação Luz da Linha 4 – Amarela, que consumiu 10 000
metros cúbicos de concreto

SALVE,

Ela está nos 42 canteiros de obras do metrô, como o da Vila
Prudente. Protetora dos tuneleiros, Santa Bárbara tem como
devotos os operários Geraldo Ramos (à esq.) e Samuel Ferreira da
Silva

VÁLVULA

Trabalho de remoção de pedaços do solo na futura Estação Faria
Lima. Por ali foi escoado 1,2 milhão de metros cúbicos de detritos
retirados pelo megatatuzão

TÚNEL DO TEMPO

Juliano Nichimura e Almir Gomes, responsáveis pelo preparo da
massa que une placas de concreto às paredes de terra, sob a Rua
Oscar Freire: sem noção da hora e do clima na superfície