Vídeo sobre a rota do flamenco

Em Madri, além de produzir a reportagem de capa da RED Report de abril e maio de 2011, fiz meu segundo vídeo para a TV TAM Nas Nuvens, canal de entretenimento de bordo da companhia. Está também no YouTube. Ainda é meio amador, mas dizem que estou melhorando. Confiram no link.

Flamenco em Madri, TV TAM NAS NUVENS, Maio/2011

A rota dos vitrais

Nem o martelo de 1955 para testar o reflexo nos
joelhos dos pacientes, nem a foto de dom Pedro II
visitando o hospital em 1886. As relíquias que mais
se destacam no prédio da Beneficência Portuguesa,
na Bela Vista, em meio à recém-aberta exposição
que comemora seus 150 anos, são 48 vitrais. Em
especial os 33 que cobrem, desde os anos 50, três
paredes do Salão Nobre. Eles compõem o acervo
de mais de cinquenta conjuntos instalados em São
Paulo pela Casa Conrado. A empresa foi fundada em
1889 pelo alemão Conrado Sorgenicht (1835-1901),
que havia desembarcado no país catorze anos antes,
depois do fim da Guerra Franco-Prussiana. Pela
primeira vez, produziam-se vitrais nacionais como os
que eram importados da Europa e haviam iluminado
o período da Idade Média. Originária do Oriente no
século X, essa técnica minuciosa ganharia espaço
nos principais prédios públicos, igrejas e mansões
paulistanos ao longo dos últimos 120 anos.

É o caso do Mercado Municipal, da Catedral da Sé
e da Sala São Paulo, com vitrais executados ou
restaurados pelos três homens de mesmo nome
que ligaram a história da família à da capital
paulista. O patriarca não desenhava. Importava
os vidros coloridos e os colava com um filete
de chumbo conforme o desenho de artistas
convidados, seguindo a técnica difundida nas igrejas
góticas de seu país. Foi um de seus herdeiros, o
também alemão Conrado Sorgenicht Filho (1869-
1935), quem realmente exibiu talento artístico e
impulsionou a vidraria. Os painéis com ilustrações
rurais que colorem o Mercadão, no centro, desde
1932 foram feitos por Conrado Filho após uma
viagem pelo campo para fotografar referências.
Por abrigar os soldados que lutavam na Revolução
Constitucionalista, o mercado sofreu com vidros
quebrados por tiros e teve sua inauguração adiada
para o ano seguinte.

Entre os anos 20 e 30, a arte em vitrais viveu seu
primeiro auge na cidade. O quase monopólio da
Casa Conrado se deveu, em parte, a uma parceria
com o engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo.
Além de ilustrar os vitrais do Mercadão, Conrado
Filho executou as obras do Palácio das Indústrias,
de 1924, da Faculdade de Direito do Largo São
Francisco e da mansão da Avenida Paulista hoje
conhecida como Casa das Rosas, ambas de 1934. O
segundo pico de encomendas veio nas décadas de
50 e 60, já sob o comando de Conrado Adalberto
Sorgenicht (1902-1994), neto do fundador e único
dos três Conrado nascido em São Paulo. Ele levantou
os vitrais da Beneficência e da Faap, com 58 obras
de diferentes artistas – entre eles Tarsila do Amaral,
Carybé, Lina Bo Bardi, Portinari e Tomie Ohtake –
que começaram a ser instaladas em uma parede de
vitrais com 230 metros quadrados a partir dos anos
50.

“A obra preferida de meu avô era A Veneração de
São Vicente, reprodução do pintor português Nuno
Gonçalves, que está na Beneficência”, conta a artista
plástica Regina Lara Silveira Mello, neta de Conrado
Adalberto. “Essa é uma arte cara, demorada e que
está em extinção. Cada metro quadrado custa entre
3 000 e 3 500 reais.” Também vitralista, Regina é
professora da Universidade Mackenzie e ensina sobre
a história dos vitrais. “Meu avô quase morreu de
desgosto quando a Igreja Nossa Senhora do Brasil
substituiu seus originais por réplicas de acrílico”,
diz. Regina prepara o guia dos vitrais de São Paulo,
ainda em busca de patrocínio. Entre as surpresas da
publicação está o mais antigo dos 600 trabalhos da
Casa Conrado catalogados no Brasil: uma rosácea
da Igreja Luterana, na Avenida Rio Branco, no
centro, datada de 1908. Conrado Adalberto teve
apenas uma filha, Iolanda, mãe de Regina, que se
casou a contragosto do pai aos 16 anos. Por isso,
pouco antes de sua morte, o terceiro Conrado não
quis que ela assumisse a empresa e a repassou à
sua secretária. Hoje, a outrora mais importante
fábrica de vitrais da cidade funciona com apenas
seis funcionários em um escritório em M’Boi Mirim.
Vive de restaurações, como a que faz dos vitrais do
Teatro Municipal, e da fama do passado glorioso.

Dias de majestade

Vestimos as pesadas saias xadrez, ajeitamos as gravatas-borboleta, demos cinco voltas dos cadarços dos sapatos em cada perna, prendemos as facas nas longas meias e amarramos as pochetes na cintura. Faltavam três horas para a partida do trem – programada britanicamente para 13h41 – quando terminamos de experimentar os kilts. Era nossa primeira vez alugando vestimentas tradicionais, e aquele ritual coroava com uma dose de glamour o que vinha pela frente: três dias a bordo do The Royal Scotsman, o expresso de luxo da mítica rede Orient-Express na Escócia. Ostentar os trajes da Kinloch Anderson já era sinônimo de nobreza: a marca existe desde 1868 e provê roupas para a Rainha Elizabeth e o Príncipe Charles. A partir dali, os reis seríamos nós – especialmente no jantar da última noite a bordo, que requeria vestimenta formal. Penduramos os cabides no típico táxi preto e aceleramos para a Edinburgh Waverley Station, onde xícaras de chá inglês nos esperavam na sala vip da estação e um tocador de gaita de fole conduziria a fileira de passageiros para o mais sofisticado trem do Reino Unido.

Daniel Nunes e o fotógrafo Adriano Fagundes na cabine do trem (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

“Welcome, ladies and gentlemen, good morning and thank you”, nos recebeu solenemente o anfitrião, Michael Andrew, no vagão panorâmico, decorado com tons quentes de bordô e dourado. “Aproveitem para observar a paisagem e tomar um drinque enquanto aguardam sua vez de serem levados às habitações.” Degustar os melhores whiskies do planeta justamente ali, no berço deles, era um dos prazeres mais aguardados dessa viagem. Mais de 600 garrafas são consumidas no trem a cada temporada de maio a setembro (não há serviço no inverno), e havia mais de 40 delas à disposição no bar. Das bebidas alcoólicas aos passeios feitos em terra a cada parada, tudo está incluído no preço do pacote: 2.140 libras (cerca de 5.500 reais) por aqueles três dias de passeio de ida e volta entre Edimburgo e as Highlands, as altas montanhas do Norte da Escócia. A Orient-Express opera ainda outras seis rotas, num total de 25 viagens pelo Reino Unido a cada ano, e elas podem durar até uma semana – a maior delas custa para cada passageiro 8.870 libras, ou uns 23 mil reais.

(interior da cabine, fotos de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Começamos por um Glenkinchie 12 anos, leve e com aroma floral. “Gostou desse ou prefere algo mais smoky?”, perguntou o simpático barman Fraser Robson, 21 anos, escocês de Edimburgo. Um dos mais de 60 funcionários escalados para atender aquele grupo seleto de 28 passageiros (embora a capacidade total seja de 36 pessoas), Fraser servia as bebidas de forma segura, enquanto o trem apitava e já entrava em movimento. Sinal de que aproveitou bem o treinamento rigoroso feito ao longo de um mês antes do início da temporada, quando os empregados aprendem detalhes sobre o funcionamento e a história do The Royal Scotsman: embora tenha começado a circular em 1985, o trem tem a maior parte de sua estrutura datada da década de 1960. “Nenhum aprendizado é mais importante do que o de lidar com uma clientela exigente”, contou Fraser. “O trabalho é prazeroso: várias vezes me flagro olhando pelas janelas, admirando paisagens de tirar o fôlego.”

(foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Minutos depois já atravessávamos a cozinha, a biblioteca e os cinco vagões-dormitório daquela centopeia mecânica de 200 metros e corredores estreitos. A compensação viria dentro dos vinte quartos, maiores do que se espera encontrar em um trem. Adriano, meu colega fotógrafo, ficou na cabine M. “M de majestade”, brincou, dando uma piscada de olhos. Eu fui levado ao próximo quarto disponível, o da letra P – “P de príncipe”, retruquei, rindo. “Precisando de algo do nosso serviço de concierge, basta tocar este botão”, disse o simpático francês que carregou nossas malas. Minutos depois eu faria o teste, pedindo que levassem uma camisa para tirar um leve amassado. Revestido de madeira decorada com marchetaria, meu quarto tinha duas camas de solteiro confortáveis diante de dois metros de janela, uma escrivaninha, guarda-roupa com roupões e, no banheiro privado, aquecedor para toalhas. Como se não fosse suficiente, o trem para durante a noite, garantindo melhor sono aos passageiros.

Os maquinistas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

A primeira parada aconteceria na destilaria da Dalwhinnie, a mais alta das 14 destilarias das montanhas de Speyside. As duas doses do final do tour davam continuidade às degustações que terminariam depois do jantar informal daquela primeira noite. No vagão Raven, cujas várias mesas acomodam 20 dos passageiros, nos sentamos à mesa com todos os talheres e taças a que tínhamos direito. À medida que montanhas com picos nevados, lagos e pastagens de ovelhas dançavam na paisagem, éramos apresentados ao menu: salada acompanhada de terrine de legumes com chutney de tomate e azeitonas pretas e filé de halibut com purê de batatas e aspargos – tudo sempre harmonizado com vinhos de primeira linha. A noite só caiu por volta das 23 horas, depois de assistirmos a uma apresentação de música típica escocesa no vagão panorâmico, já com o trem parado diante de um campo de golfe verdinho na estação Boat of Garten. E, claro, depois de mais algumas doses de puro malte.

Quando despertamos para o café da manhã, o trem já estava em movimento para mais um trecho da viagem de 870 quilômetros. Os maquinistas Daniel Forbes, 70 anos, e Jim Waddell, 53, tinham levantado cedo, às 6 horas, para ligar o grande propulsor que impulsiona a locomotiva na velocidade média de 100 quilômetros por hora em uma linha exclusiva, diferente da usada por outros trens. “Motores bons como este, feito em 1957 e ainda na ativa, são um verdadeiro patrimônio”, nos contaria Jim mais tarde. “É um privilégio encerrar nossa carreira neste trem”, emendou seu colega Daniel. “Eu me aposentei, mas continuo aqui por amor ao ofício, com a vantagem de comer boa comida e de conhecer gente amável do mundo todo.” É no fim do dia que essa dupla relaxa e pode também tomar sua dose de whisky. E qual é o melhor destilado escocês? – perguntei. “É aquele que um amigo paga para você”, respondeu gargalhando o velho Jim.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Naquela manhã, os passageiros trocaram o trem por uma van até o Rothiemurchus Estate, em meio a uma floresta de pinheiros do Parque Nacional Cairngorms, onde teriam de optar por qual passeio fazer: caminhar por 3 quilômetros e fazer observação de pássaros, uma paixão dos britânicos; passear por estradas mais distantes em veículos 4×4; praticar clay pigeon shooting, um jogo de tiro que tem como alvos discos de argila lançados ao alto; ou praticar fly-fishing, aquele tipo de pesca com uma vara de linha longa onde são colocadas iscas coloridas que se assemelham a mosquitos. À tarde, depois da volta ao trem em Aviemore (quando fomos recebidos com drinques) e do almoço (bouillabaisse de frutos do mar), a parada foi outra: o campo de batalhas de Culloden. “Aqui aconteceu o último grande conflito em terras britânicas, em 1746, quando morreram mais de 1.200 pessoas em apenas uma hora”, contou o guia e ator Ray Owens, vestido como um highlander.

 

O programa mais esperado da viagem, no entanto, aconteceria naquela segunda noite: o jantar formal. Dessa vez, fomos acomodados na única mesa coletiva do segundo vagão-refeitório, o Victory, construído em 1945. “Sempre usamos os mais frescos ingredientes escoceses, como estes salmões defumados”, contou o jovem chef Ian Steel, 33, escocês que já trabalhou em alguns dos melhores restaurantes de Glasgow e que foi chamado à mesa para ser aplaudido pelos comensais. Para nós, estrangeiros, mais marcante que a excelente comida era a pompa do evento. Como recomendado previamente, todos eram convidados a vestir black tie, tuxedo ou o traje típico escocês – que foi, claro, a nossa preferência.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Nos vestimos com gravata-borboleta, faca na canela, nada por baixo do kilt. O assunto das conversas na grande mesa variou de casamento real a filmes de Bollywood enquanto papeávamos com a família de Harsh Singhania, indiano de Nova Délhi, e com o casal Ian e Deborah Griffiths, britânicos de Londres em lua de mel. O trem parou para o segundo pernoite em Dundee, vizinha de outra destilaria da rota, a Chivas, e todos que terminavam o jantar iam ouvir música ao vivo no vagão panorâmico. Alguns foram dormir logo, já que o Orient-Express terminaria a viagem na estação de Edimburgo às 9h49. Adriano e eu, porém, preferimos curtir mais um pouco nosso dia de lordes. “Mais uma dose?”, perguntou o barman Fraser. O rapaz baixou sobre a mesa uma garrafa de single malt The MacAllan, que passa por processo triplo de destilação. Cheios de pompa, acrescentamos um pouco de água para sentir o aroma, molhamos os lábios, fizemos um brinde. Encerramos nossa noite ali, degustando com aparente maturidade um autêntico whisky 21 anos. E, evidentemente, orgulhosos de nossos saiotes.

INFO: The Royal Scotsman (royalscotsman.com); Kinloch Anderson – Commercial Street/Dock Street, Leith, EH6 6EY, kinlochanderson.com

(SPECIAL THANKS: Orient-Express (orient-express.com)

(Quadro)

Traje típico escocês

Conheça a roupa formal usada por Adriano Fagundes (à esq.) e Daniel Nunes

GRAVATA: Sempre preta, a modelo borboleta é exigida apenas em eventos solenes

COLETE: Com três botões, deve sempre cobrir a camisa branca

PALETÓ: O modelo pequeno, usado aberto, não é o único – existem jaquetas e paletós maiores

KILT: É grande, pesada e com estampas (tartans) que fazem menção a clãs tradicionais

POCHETE: O sporran levava a comida dos highlanders; hoje guarda carteira, celular e chaves

MEIAS: Compridas e pretas, recebem adereços com estampa xadrez que asseguram que estejam sempre altas