Vida no deserto

Vítima do genocídio alemão há apenas 110 anos e do apartheid durante o domínio sul-africano, o país se reinventou e celebra as bodas de prata de sua liberdade praticando um turismo sustentável e seguro

Lugar onde não existe nada. Quem observa pela janela do avião a vastidão inabitada da Namíbia logo entende esse curioso significado do nome do país na língua dos nama, uma das 13 etnias locais. Parece que lá embaixo tem apenas deserto. O nada-sem-fim só é interrompido quando o avião se aproxima da pequena capital Windhoek, destino do voo da South African Airways vindo da cidade sul-africana de Johannesburgo – rota mais direta para quem viaja do Brasil. Naquele centro urbano quase sem prédios vivem 340 mil dos poucos 2,3 milhões de habitantes dessa nação que se renova: em 2015 celebra-se 25 anos de independência da Namíbia, que desde março é liderada por seu terceiro presidente, Hage Geingob.

 

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Basta pousar e caminhar pelo centro urbano para se surpreender com uma peculiaridade namibiana. Tanto as ruas como a população, 90% negra, adotam nomes alemães: Fritz, Wolfgang, Frida. A arquitetura germânica salta aos olhos e, nas igrejas, nota-se a dominância do cristianismo luterano. Embora o português Diogo Cão tenha chegado à região em 1484, ele desprezou aquela sucessão de desertos pouco atraente. Assim, o lugar preservou-se de invasores por exatos 400 anos. Até que a Alemanha chegou para colonizar a então chamada África do Sudoeste, em 1884, ficando até 1915, quando saiu em plena Primeira Guerra Mundial. Não por acaso, os alemães são os visitantes mais comuns atualmente – e a cerveja da Namíbia tenha qualidade e boa fama comparável à dos colonizadores.

 

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Cicatrizes históricas

A colonização europeia, como se sabe, foi bem violenta em países da África e da América. Na Namíbia, em especial, a ocupação alemã deixou feridas dolorosas. Ali aconteceu aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20, entre 1904 e 1908, quando o mundo ainda nem sonhava com os terrores de Adolf Hitler. Há documentos comprovando que o general alemão Lothar Von Trotha ordenou o extermínio de todos os herero que se recusassem a deixar o país. A Alemanha nunca admitiu a tragédia oficialmente. Mas o impacto nas duas etnias mais perseguidas foi devastador: restaram apenas 15 mil herero (dos 85 mil existentes na época) e 10 mil nama (dos 20 mil que teriam se rebelado no conflito). Parte desse episódio pouco difundido mundo afora pode ser conhecido no Independence Memorial Museum, inaugurado em 2014 na capital.

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Igualmente traumática é a outra mancha na história recente da Namíbia. A África do Sul, que tinha invadido o país durante a Primeira Guerra, instaurou em 1948 o mesmo regime racista do Apartheid que segregava brancos e negros – o que fez com que até hoje exista uma minoria branca no topo da cadeia sócio-econômica do país. O apartheid namibiano só caiu em 1990. Foi quando, depois de quase um século de sofrimento, a Namíbia conquistou a sua independência. Mas com uma vantagem: nesses 25 anos, ela não sucumbiu mais a grandes conflitos, como aconteceu com vários países da região após se tornarem livres.

 

Himba vendendo boneca na estrada
Himba vendendo boneca na estrada

 

Pelo contrário. Rica em minérios como diamante e urânio e habitada por tribos de cultura preservada, a Namíbia incluiu a conservação de seus recursos naturais na constituição e descobriu no turismo uma fonte econômica importante. “É um país único, que se diferencia de outras nações africanas por proporcionar muito mais que safáris fantásticos”, define Danilo Rondinelli, proprietário da operadora TerraMundi, que há seis anos leva brasileiros para lá. De fato, a partir de Windhoek, os viajantes costumam fazer safári no Etosha e depois seguem para visitar sítios arqueológicos, tribos superfotogênicas, um litoral peculiar e desertos com paisagens de outro planeta. “Depois de 2012, o número de visitantes que levamos para lá dobrou”, conta Danilo. São exploradores que evitam destinos de massa e curtem ir aonde pouco gente foi.”

 

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Etnia Damara em apresentação para visitantes

 

 

Dunas de Sossusvlei, Playground para fotógrafos

Se a Namíbia fosse um destino pop e tivesse de escolher uma imagem como seu cartão-postal, ela seria Sossusvlei. A cada amanhecer, um punhado de estrangeiros sonolentos mira todo tipo de lente fotográfica para este verdadeiro mar de dunas gigantes avermelhadas. As câmeras costumam registrar os momentos mais sublimes no trecho chamado Deadvlei, no centro de um desses areais. É onde troncos tortos projetam a sombra de seus galhos no chão esbranquiçado por sal e argila, em um contraste impactante com a duna ao fundo e o céu azul. Não por acaso Deadvlei, que nada mais é que o leito seco do Rio Tsauchab cujo fluxo foi interrompido pelas areias móveis, se tornou objeto de desejo de fotógrafos profissionais como Sebastião Salgado e J.R.Duran. “Passei seis dias fazendo um safári aéreo e jamais vou me esquecer da cena impressionante do deserto chegando até o mar”, conta Duran.

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Localizado a 300 quilômetros de Windhoek, Sossusvlei pertence ao Deserto de Namibe, que batiza o país e cobre seu interior de sul a norte. Com estimados 55 milhões de anos, ele é considerado um dos mais velhos e secos da Terra, além de dono das dunas mais altas do mundo, com cerca de 300 metros. Junto com a outra grande região desértica nacional, a do Kalahari, que avança aos limites de Botsuana e possui mais água e árvores, Sossusvlei contribui para que dois terços do país sejam dominados por áreas desérticas.

 

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Partindo da capital, chega-se a Sossusvlei tanto por ar – normalmente, voando nos teco-tecos que levam aos lodges – quanto por terra – de preferência, em veículos 4×4. Na Namíbia, dirige-se por horas sem ver viv’alma – e assim entende-se a baixa densidade demográfica de 2 habitantes por quilômetro quadrado em um território de 850 quilômetros quadrados, pouco maior que três estados de São Paulo. O contraste dos ventos quentes do interior com a brisa gelada do mar provoca neblina no vasto trecho onde o deserto encontra o litoral – e por vezes adia ou atrasa os voos pela região.

 

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Como no deserto quase nunca chove, hotéis como o Little Kulala (www.wilderness-safaris.com/camps/little-kulala) deixam a opção de o hóspede dormir em uma cama fora, ao ar livre, no terraço de cada chalé. Me rendi à experiência por duas noite e garanto: poucos prazeres são maiores do que abrir os olhos no meio da noite e se deparar com uma infinidade de estrelas forrando o céu. Para melhorar, um bom edredon protege do vento do deserto, e praticamente não há insetos no local. A imersão na natureza fica mais profunda quando, antes de dormir, o jantar acontece também no meio do nada namibiano: um caminho de tochas leva os hóspedes até as mesas e a fogueira central – onde os petiscos, as cervejas da Namíbia e os bons vinhos sul-africanos são servidos.

 

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Ao acordar, outra surpresa. Enquanto se toma café da manhã na sacada do restaurante do hotel, parece que o safári vem até você: dá para ver alguns orix e springboks, os antílopes mais comuns do pedaço, tomando água na poça d’água que fica poucos metros adiante. Os belos selvagens costumam posar para zooms potentes nos passeios de cada dia, como a aventura de pilotar quadriciclos, a caminhada em meio ao cânion Sesriem, os voos de balão e a subida nas dunas que levam ao Deadvlei – caso da famosa Big Daddy. Observar as pegadas dos animais na areia é uma das diversões durante o belo trekking de 1 hora em meio ao deserto de Sossusvlei. Só não é bom deixar-se levar pela beleza e parar demais no caminho. Quem perde as primeiras luzes em Deadvlei corre o risco de voltar sem boas fotos do lindo cartão-postal Namíbia.

 

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Heróis da resistência vivos em Damaraland

Os viajantes chegam a Damaraland atraídos por pinturas rupestres e florestas petrificadas, mas deixam o lugar encantados ainda mais pelo contato com as tradições do povos Damara e Himba

 

Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas
Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas

 

Sabe aqueles corais africanos supercontagiantes, com a voz estridente das mulheres contrastando com o tom grave dos homens – e todo mundo esbanjando alegria e molejo enquanto dança? É um desses que recebe os visitantes do lodge Doro Nawas (wilderness-safaris.com/camps/doro-nawas-camp), na região de Damaraland, no centro-norte do país. Não por acaso o staff do hotel ganhou um concurso nacional de cantores. Eles conseguem melhorar até o mal-estar de quem pousa enjoado dos voos nos aviões pequenos bem comuns no transporte interno pela Namíbia. A recepção amigável costuma ter ainda drinks e uma toalha úmida e gelada para amenizar o calor seco do deserto. Nada impressiona mais, porém, que a simpatia dos anfitriões do povo damara, que dá nome a região, assim como de outros nativos da área.

 

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O atrativo número 1 de quem inclui essa parada em sua exploração da Namíbia é arqueológico. Fica aí, a 430 quilômetros de Windhoek, o Patrimônio da Humanidade Twyfelfontein, uma sucessão de rochas muito bem preservadas em seu sítio original e onde estão 2500 pinturas e inscrições rupestres datadas da Idade da Pedra. As imagens retratam animais como rinocerontes, girafas e até um leão cujo rabo tem a forma de uma mão. “Como não havia metal para fazer as gravuras, nossos antepassados Bushman usavam rochas de quartzo como ferramentas”, conta a damara Sylvia Thanises, uma das 17 guias.

 

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Twyfelfontein, as pinturas que se transformaram em Patrimônio da Humanidade

 

Mais antigas que as obras de arte de Twyfelfontein são as florestas petrificadas vizinhas. Não se trata de um bosque em pé. Cerca de 50 troncos de árvores coníferas medindo até 34 metros de comprimento, e com mais de 200 milhões de anos, estão caídos no solo. Segundo os cientistas, elas foram trazidas em enxurradas e cobertas pelo deserto. “Protegidas” nesse ambiente de oxigênio zero, sem chuva e forradas por sedimentos de sílica, as madeiras foram “mineralizadas” e viraram fósseis. Pedra mesmo! Entre elas espalham-se várias Welwitschia mirabilis, planta nacional da Namíbia. Rasteira, ela tem só duas folhas que ultrapassam 8 metros de comprimento. “Elam resistem a cinco anos sem chuva”, explicou o guia Justus Sûxub. “E podem viver bem mais de um milênio.

 

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Enfim, os humanos.

É no caminho para esses verdadeiros museus ao ar livre que pode-se fazer outro contato com o povo. Seja qual for a etnia do guia, do motorista ou do anfitrião, ele costuma sempre se divertir ao mostrar diferenças culturais como os “cliques”, sons de estalos que fazem ao pronunciar várias das mais de 10 línguas tribais. É o caso dos 27 descendentes damara que trabalham no Museu Vivo dos Damara (lcfn.info/damara). Encravado entre rochas lindas e gigantes a 8 quilômetros do Parque de Twyfelfontein, o centro cultural permite conhecer moradas e danças tradicionais, além do artesanato feito de couro e rocha. “Queremos resgatar a cultura que se perdeu ao longo da colonização”, diz a anfitriã Maureen Hoes. A experiência seria mais autêntica se, ao final do expediente, não tivéssemos visto as mesmas pessoas que tinham se apresentado com poucas roupas e estilo “primitivo” passarem por nosso jipe vestindo mochila, tênis e calça jeans ao voltarem para suas vilas. Mas a visita vale a pena.

 

 

Felizmente, em uma das esquinas da desabitada estrada de volta ao hotel, nos deparamos com duas mulheres e uma criança da fotogênica etnia himba. Dessa vez, não era pra-gringo-ver que as nativas usavam seios à mostra e saias feitas de couro de bode. Nômades, Vezapopare e Veriazako tinham viajado 200 quilômetros para vender colares e pequenas bonecas. As miniaturas reproduziam a estética das himba, que lambuzam o corpo com um barro avermelhado – o mesmo usado para decorar seus cabelos com uma espécie de dreadlock de rastafári.

 

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“Só voltamos para casa, em Opuwo, depois de vender tudo”, disse, na língua himba, Vezapopare. Ainda que o turismo esteja engatinhando na Namíbia, as himba já aprenderam que os turistas são carentes de souvenires do país. E que, caso queiram fotografá-las, devem desembolsar alguns dólares namibianos.

 

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Nômades de etnia himba: barro nos dreadlocks

 

Safári no Etosha: Cara-a-cara com o leão

Safáris são todos iguais? Na opinião dos especialistas, não é bem assim. Safáris de várias partes do mundo têm em comum a caçada fotográfica a animais ao ar livre, normalmente a bordo de jipões 4×4. Mas sempre mudam os bichos, o ambiente, os tipos de hospedagem, os outros atrativos do país. Nessa disputa, o do Parque Nacional de Etosha, criado em 1907 no Norte da Namíbia, quase fronteira com Angola, é tido como de elite. “Ele está entre meus 4 safáris top do planeta,” afirma Danilo Rondinelli, que já esteve em 20 parques de safári de 12 países africanos. “Há abundância de animais raros em paisagens espetaculares como o lago de sal Etosha Pan”, explica Rondinelli, dono da agência TerraMundi. Segundo ele, a viagem à Namíbia costuma ser combinada com esticadas a África do Sul, passagem obrigatória para os brasileiros, e Botsuana, o país vizinho que tem safáris diferentes desse, em regiões mais úmidas e verdes.

 

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Superameaçados de extinção, são facilmente avistadas no Etosha. A mais bem sucedida ação de preservação desses últimos, iniciativa da rede hoteleira Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com), tem contribuído para evitar o desaparecimento dos cerca de 4.000 rinocerontes-negros sobreviventes em ambiente selvagem: alguns animais chegam a ser transportados em aviões para que procriem em áreas selvagens mais seguras. Até os temidos leões, escassos em outras partes do continente, dão as caras várias vezes aos visitantes do Etosha. “Existem uns 400 deles espalhados por essa área”, orgulhava-se Gabriel Zuma, guia do Ongava Tented Camp (www.wilderness-safaris.com/camps/ongava-tented-camp), enquanto o Land Rover do grupo chegava a 5 metros de uma família de leões com a cara ensanguentada após devorar uma zebra.

 

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Uma das experiências mais marcantes da visita à região foi justamente se hospedar em uma das oito barracas de lona desse acampamento de luxo na Reserva Privada de Ongava, que fica colada ao Parque de Etosha. E se um leão resolvesse rasgá-la? Para fazer lembrar que não estávamos em uma inofensiva réplica da Disney World, na calada da noite foi possível ouvir rugidos assustadores no entorno da tenda. E, pela manhã, tomei um susto ao sair e quase pisar em uma tal cobra zebra, que cospe o veneno em suas vítimas. Felizmente aquela era ruim de mira: me safei do cuspe da peçonhenta. Os dois episódios foram suficientes para eu entender o porquê de os hóspedes serem proibidos de circular da tenda para o restaurante ou a recepção sem um segurança armado ao lado. Todo cuidado é válido para curtir a vida animal realmente selvagem da região de Etosha.

 

Etosha Pan e a tempestade chegando
Etosha Pan e a tempestade chegando

 

Amyr Klink: da travessia do

Atlântico à road trip em família

A Namíbia foi o país escolhido pelo navegador Amyr Klink como ponto de partida do seu primeiro grande desafio como explorador: a travessia solitária do Oceano Atlântico a remo. Em 1984, então com 29 anos, ele zarpou com o barco I.A.T. do porto de Lüderitz, cidade vizinha à perigosa Costa dos Esqueletos, que tem esse nome em função dos ossos, tanto de humanos quanto de animais, espalhados pela praia. “A partir dali a corrente de Benguela se afasta da orla e deflete para dentro do Atlântico; é o lugar onde começam os ventos alísios que sopram fortes e regulares até o Nordeste do Brasil”, descreveu no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, best seller com 340 mil cópias vendidas. A jornada deu certo: o barco superou ondas bravas e tempestades, chegando enfim à Bahia. Amyr realizaria outros feitos que o transformaram em um navegador respeitado, e a paixão pela Namíbia jamais cessou. “O país é seguro e econômico”, analisa. “Voltei duas vezes e tenho planos de retornar ainda esse ano.”

 

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Sua última viagem ao país foi em 2013, com a esposa e as três filhas, dessa vez para uma empreitada de 4 semanas que incluía também a África do Sul. “Voamos para Windhoek, alugamos um 4×4 e cruzamos o país por terra sentido litoral”, recorda Amyr. “As meninas se divertiram especialmente com os animais”, conta. O interior desértico do país tem os bichos terrestres típicos dos safáris, enquanto o litoral das cidades de Lüderitz, Walvis Bay e Swakopmond é morada de espécies de focas, pinguins, flamingos e pelicanos. “Foi na costa que matei as saudades dos amigos que fiz e dos ótimos frutos do mar”.

 

Placa em homenagem ao navegador brasileiro
Placa em homenagem ao navegador brasileiro (foto MARINA KLINK)

 

Estes centros urbanos litorâneos preservam a arquitetura europeia e ventos fortes que transformaram a região em um oásis para praticantes de esportes à vela como kitesurfe e windsurfe. Já a Costa dos Esqueletos, que sobe até a fronteira com Angola, tem um clima de mistério no ar, causado pela neblina frequente e pelos cascos de navios naufragados que restaram na praia. Um ambiente sombrio paira também sobre Elizabeth Bay, 25 quilômetros ao sul de Lüderitz, um longevo centro de exploração de diamantes que ganhou fama de povoado-fantasma. E até o refúgio natural de Shark Island, balneário de Lüderitz, guarda a memória de quando o local era campo de prisioneiros das etnias perseguidas pelos colonizadores alemães.

 

Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)
Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)

 

Aos poucos, os namibianos vão aprendendo a valorizar sua história de resistência. Na praça de Lüderitz onde foi instalada a Klink Plake, placa em homenagem ao marinheiro brasileiro, já não existe a estátua vizinha em referência ao fundador da cidade, o alemão Adolf Lüderitz – escultura que Amyr viu em sua histórica partida a remo em 1984. “Decidiram trocá-la pela de Cornelius Frederiks, um dos heróis rebeldes que lutaram contra a ocupação alemã”, relata Amyr. Outro ponto interessante de visita para brasileiros que queiram seguir os passos de Capitão Klink é a Lüderitz Safaris & Tours. Agência e loja de souvenirs, a empresa é comandada por Marion Schelkle, que junto com seu ex-marido Gunther deram abrigo ao brasileiro antes da partida heroica do I.A.T. Vale a pena passar ali para, quem sabe, ouvir as histórias da preparação de Amyr antes de encarar sua grande saga pelo Atlântico Sul. Foi o que fizeram os Klink ao visitar Lüderitz, de carro, há dois anos. De lá eles dirigiram até a Cidade do Cabo, onde concluíram os quase 5.000 quilômetros rodados e pegaram o voo de volta ao Brasil.

 

Orix, um dos mais belos animais da região
Orix, um dos mais belos animais da região

 

 

Pílulas de curiosidades:

  • Já ouviu falar dos círculos das fadas da Namíbia? Em Damaraland, uma infinidade de círculos parece ter sido desenhada no campo de gramíneas baixas. Ali, no entanto, não cresce mato algum. Há quem diga que são obras de cupins – mas o povo himba chama de “pegadas dos deuses”.

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  • O jeito mais espetacular – e exclusivo – de ver as dunas gigantes coladas ao mar, os círculos das fadas e os barcos naufragados da Costa do Esqueleto é de cima. Por 4 a 6 dias – e 15 mil dólares – pode-se explorar o melhor da Namíbia em aviões particulares para 2 a 8 pessoas.

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. O fotógrafo e jornalista Haroldo Castro (viajologia.com.br) costuma conduzir grupos de brasileiros em um safári fotográfico pelo melhor da Namíbia. No roteiro estão o Parque Nacional de Etosha, a tribo himba e as dunas avermelhadas de Sossusvlei, onde fica o Parque Namib-Naukluft.

 

Para entender a Namíbia

Visto: Não é preciso visto prévio para entrar no país.

Melhor época: na seca, de junho a outubro, fica mais fácil avistar os animais, todos concentrados no entorno da água.

Moeda: dólar namibiano, o nad. 1 real equivale a cerca de 3,74 nads. 1 dólar americano compra 12 nads.

Língua: Cerca de 20 línguas são usadas no país, mas o inglês é a oficial – embora boa parte dos namibianos fale alemão e africâner (a língua de origem holandesa presente também na África do Sul).

Quem leva: A agência de viagens TERRAMUNDI produz roteiros personalizados e em grupo para a Namíbia (www.terramundi.com.br).

Onde ficar: Uma das pioneiras do continente, a rede de lodges e acampamentos de luxo Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com) tem unidades em toda a Namíbia.

 

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O REPÓRTER SE HOSPEDOU NA NAMÍBIA A CONVITE DA WILDERNESS SAFARIS (www.wilderness-safaris.com)

Todas as fotos são de autoria de Daniel Nunes Gonçalves/SAMESAMEPHOTO

A pulsante cena artística de Nova York

As exposições, as performances e as obras de rua mais quentes da cidade que não dorme

Brooklyn Bridge Park em manhã de domingo (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Brooklyn Bridge Park em manhã de domingo (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Andar, andar e andar – e, quase que a cada passo, observar a beleza, o ineditismo e a criatividade de todo tipo de expressão artística. Basta flanar livremente pelas ruas de Nova York, especialmente quando é verão no Hemisfério Norte, para respirar criações geniais. Pode ser a escultura temporária das nuvens de Olaf Breuning no Central Park, os grafites nos muros de Williamsburg ou o mural do brasileiro Kobra diante da Highline: criações de artistas do mundo todo estão tanto ao ar livre como no hall dos hotéis, lojas e empresas, nas 600 galerias de arte, em uma centena de museus. Para facilitar a vida dos amantes da arte que visitam Nova York, TAM Nas Nuvens preparou um delicioso roteiro de dois dias aproveitando o que a cidade mais legal do mundo tem de inspirador em agosto.

Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Dia 1 – Sábado em Manhattan 10h30 – Um enorme banner com o rosto de Lígia Clark (1920-1988) de olhos vendados recepciona quem começa o dia visitando o prédio principal do MoMA, o mais importante museu de arte moderna e contemporânea do planeta. Sim, até 24 de agosto, a artista brasileira que se definia como não-artista brilha como o principal destaque desse museu que é, desde que nasceu em 1929, o mais essencial para quem busca acompanhar a vanguarda artística mundial. É bom chegar assim que o museu abre, às 10h30, para dar conta de conferir os quase 300 desenhos, pinturas, esculturas e obras interativas da mostra O Abandono da Arte. Realizado entre 1948 e 1988, o conjunto de obras parte da fase abstrata de Lígia, passeia pela neo-concretista e culmina com suas inovadoras peças interativas com propósitos terapêuticos – e que são o maior sucesso de público.

Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

12h30 – Se você resistir a migrar das salas de Lígia Clark para encher os olhos com a Noite Estrelada, de Vincent van Gogh, as Latas de Sopa Campbell, do novaiorquiníssimo Andy Warhol, entre tantos Picassos e Matisses do acervo de 150.000 peças, dê aquela pausa para o almoço. Os três restaurantes do MoMA estão entre os melhores da cidade: o informal Cafe 2 mistura os visitantes em mesas coletivas; o Terrace 5 serve menu completo e vinhos até nas mesas da varanda do quinto andar, que dão vista para o jardim de esculturas do térreo; e o requintado The Modern ostenta uma estrela Michelin que atrai gourmets também por uma porta exclusiva, que dá para a rua, até 23h às sextas e sábados.

As Nuvens, obra pública no Central Park (foto de Gabriel Rinaldi www.gabrielrinaldi.com)
As Nuvens, obra pública no Central Park (foto de Gabriel Rinaldi www.gabrielrinaldi.com)

14h – Caminhar pelo Central Park, o gigantesco quadrado verde no coração da ilha de concreto, é a forma mais gostosa de fazer digestão. Na esquina sudeste do parque, onde a 5a Avenida exibe outro quadrado, os das paredes transparentes da Apple Store, repare na obra Nuvens, com seis balões azuis criados pelo artista suíço radicado na cidade Olaf Breuning. Até 24 de agosto, esta é uma das dezenas de obras públicas espalhadas para trazer graça e ludicidade às ruas das cinco regiões da cidade: Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens e Statent Island.

Exposição de Adriana Varejão visitada em Art Walking Tour no Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Exposição de Adriana Varejão visitada em Art Walking Tour no Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

15h30 – Hora de seguir o caminho do oeste, onde o bairro do Chelsea concentra nada menos que 300 das cerca de 600 galerias de arte da cidade. Para facilitar a vida de quem não sabe em qual das tantas portas entrar, o professor Ph.D. Rafael Risemberg criou há 12 anos um art walking tour que seleciona aquelas que, por seus critérios, abrigam as mais inovadoras exibições do momento. “Vou a dezenas de novas exposições a cada dia para fazer minha curadoria de quais serão aquelas que visitaremos por cerca de duas horas”, orgulha-se o argentino radicado na cidade. Os tours da sua New York Gallery Tours se multiplicaram: há um só para o Lower East Side e outro específico sobre arte LGBT, por exemplo. Entre os participantes de cada grupo há colecionadores verdadeiramente interessados em adquirir obras de milhões de dólares expostas em galerias de prestígio como Gagosian (considerada a principal rede de galerias de arte do mundo, com quatro unidades em Nova York), David Zwirner e Pace (que representa o brasileiro Vik Muniz e também tem quatro espaços na cidade).

Imagem de Kobra vista a partir da Highline (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Imagem de Kobra vista a partir da Highline (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

17h30 – É quando se aproxima o pôr-do-sol que muitos pedestres do Chelsea costumam subir para a High Line, a aposentada via férrea elevada que tem se transformado, desde 2009, em um parque urbano serpenteando desde a altura da rua 13 até, por enquanto, a rua 30. Além dos jardins suspensos e de trechos onde é possível caminhar descalço em uma poça de água corrente, a High Line se transformou em uma das atrações mais visitadas da cidade. Afinal, tem acesso gratuito, fica aberta até 23h e abriga ao menos dez obras de arte temporárias. “Nosso sucesso acabou atraindo novos prédios de arquitetura moderna e peças de arte independentes também para o entorno do parque”, orgulha-se a italiana Cecilia Alemani, curadora artística do local. Uma das obras não-oficiais da High Line é o mural O Beijo, do paulista Eduardo Kobra. Ele passou duas semanas nas escadas preparando essa releitura da foto de Alfred Eisenstaedt, que mostra um marinheiro beijando uma moça na Times Square, em 1945, durante a celebração do fim da Segunda Guerra Mundial. “Essa virou minha obra mais fotografada”, celebra Kobra, que ama andar por Nova York buscando novos muros para pintar. 20h – Entre tantas expressões artísticas que entretém moradores e visitantes na noite novaiorquina – como os shows do Carnegie Hall, os concertos do Lincoln Center, os tantos festivais de cinema e todos os musicais da Broadway –, um gênero em especial anda em voga: os jantares com performances. Em cartaz desde dezembro,  o Queen of The Night deixa boquiabertos todos os 220 convidados que vestem traje de gala, como manda o protocolo, para jantar com a rainha. Mistura de cabaré com circo, dança e balada, o espetáculo obriga os comensais a seguir os 31 artistas performáticos pela casa antes que seja servida a farta – e saborosa – refeição, em meio a drinks e vinhos. Ao longo de 3 horas, nada menos que 300 performances individuais acontecem no Diamond Horseshoe, um salão de eventos de 1938 cercado pelos teatros da Broadway.

Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

23h – Caminhar em meio aos psicodélicos neons da Time Square é “o” programa para depois do espetáculo – além de um estimulante esquenta para quem quiser estender a noite nos bares e clubes de bairros como Village e Hell’s Kitchen. DICA: Pertinho do MoMA ficam restaurantes favoritos dos gourmets: no 21, jóqueis e outros amantes dos cavalos se reúnem sob o fantástico teto forrado de brinquedos (reserve e fique atento ao dress code). Já o vizinho hotel Le Parker Meridien esconde, atrás das cortinas vermelhas da recepção (e vizinhos a uma pintura do inglês Damien Hirst) os premiados hambúrgueres do Burger Joint. DICA: O walking tour de artes pelo Chelsea do qual a equipe da TAM Nas Nuvens participou, em junho, incluiu, entre as sete galerias, duas que tinham mostras de artistas do Brasil. Polvo, de Adriana Varejão, era o destaque da Lehmann Maupin, enquanto na Luhring Augustine acontecia a exposição La Voie Humide (A Via Úmida), de Tunga – que estava presente e até falou um pouco sobre suas obras.

Encontro não-planejado com Tunga durante Art Walking Tour pelo Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Encontro não-planejado com Tunga durante Art Walking Tour pelo Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

DICA: Na High Line, conhecemos Faith Ringgold, uma artista de 83 anos que visitava pela primeira vez sua obra temporária na via elevada. “Vim mostrar para minha família esta ampliação do meu quadro Groovin High, que pintei em homenagem à noite do bairro do Harlem nas décadas de 1940 e 50, quando eu me divertia com vizinhos famosos como os músicos de jazz Duke Ellington e Sony Rollins.”

Rosetta, instalação científica exposta no Brooklin Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Rosetta, instalação científica exposta no Brooklin Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Dia 2 – Domingo no Brooklyn 10h – Que tal cruzar a Ponte do Brooklyn – seja a pé, de bike ou de metrô – para aproveitar o domingo de verão ao ar livre? Do lado de lá, o bairro mais populoso de Nova York exibe o Brooklyn Bridge Park, inaugurado em 2010 sob as pontes do Brooklyn e de Manhattan e com vista para a ilha. Beirando o Rio East com gramados verdinhos, um lindo carrossel e 6 píers transformados em quadras – de futebol, basquete, vôlei… ­–, ele virou palco também de instalações temporárias curiosas – como a réplica do cometa Rosetta, exposta como parte do Festival Mundial de Ciências, no início de junho – e de obras de arte públicas. Até dezembro, um dos 250 pedaços de uma réplica da Estátua da Liberdade feita de cobre pelo artista vietnamita Danh Vo fica em exposição diante do ícone-original que lhe deu origem. Outro fica dessa série chamada We the People fica no City Hall, em Manhattan, e o restante está em 15 países. O escultor usou as técnicas de construção da estátua-mãe, de 1886.

Obra pública We The People exposta no Brooklyn Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra pública We The People exposta no Brooklyn Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

11h – Domingo em Nova York é dia de brunch, e um famoso acontece nessa região cheia de galerias de arte chamada Dumbo (o nome vem de Down Under the Manhattan Bridge): o Superfine. Decorado por artistas locais, com mesa de sinuca e jazz ao vivo, ele costuma deliciar os frequentadores com seu menu de inspiração mediterrânea (e à noite fica aberto até 4h da manhã).

Banda tocando jazz no Superfine (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Banda tocando jazz no Superfine (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

14h – Se o passeio guiado pelas galerias de arte do Chelsea costuma juntar uns 50 endinheirados moradores de meia-idade de Manhattan, o walking tour para explorar a arte de rua do Brooklyn aglomera uma tribo diferente: uns 10 ou 20 jovens estudantes interessados em acompanhar as tendências desse efervescente pólo artístico. Acontece em Williamsburg, que na última década tornou-se a vizinhança mais hype do Brooklyn, uma caminhada de quase 2 quilômetros e 1h30 fotografando trabalhos efêmeros de artistas como Cernesto, Dain e ROA. “Ensinamos o público a diferenciar grafittis e arte de rua, lambe-lambes e stencils, assim como a reconhecer as assinaturas e adesivos dos autores”, conta Gabriel Schoenberg, guia e sócio-proprietário da Graff Tours.

Grafitti em Williamsburg visitado durante walking tour (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Grafitti em Williamsburg visitado durante walking tour (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

16h30 – Quem estiver em Nova York até 10 de agosto tem um motivo a mais para conhecer o Museu do Brooklyn, um dos maiores e mais antigos do país (foi inaugurado em 1895): ver os últimos dias da exposição do polêmico artista chinês Ai Weiwei, According to what? Entre as 40 peças estão objetos, instalações e esculturas que criticam o governo chinês, lembram os 81 dias do artista preso em 2011 e apresentam os 15 vasos da dinastia Han sobreviventes da série Vasos Coloridos: o 16o, com 2.000 anos e avaliado em 1 milhão de dólares, foi quebrado por um visitante da mesma exposição quando ela esteve no Pérez Art Museum, de Miami, em fevereiro. O artista dominicano autor do protesto quis reproduzir uma performance do próprio Ai Weiwei, que também quebrara um vaso antes.

Peças da exposição de Ai Weiwei no Museu do Brooklyn (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Peças da exposição de Ai Weiwei no Museu do Brooklyn (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

18h – O Museu do Brooklyn faz parte do complexo do Jardim Botânico, do Zoológico e do Prospect Park, que podem compor um bom passeio de dia inteiro. A melhor parada para comer, no entanto, é uma só: o restaurante Saul. A casa do chef Saul Bolton se mudou para dentro do Museu do Brooklyn em 2013 depois de 14 anos no bairro. Sua cozinha contemporânea ostenta uma estrela Michelin. 20h – Um programa de verão bem novaiorquino é trocar o escurinho do cinema pelas telonas ao ar livre. Alguns pontos de Manhattan, como o Bryant Park e o Pier I, ganham centenas de cadeiras para que a sétima arte seja exibida gratuitamente sob plátanos, estrelas e arranha-céus. Mas há um charme todo especial quando os filmes são exibidos no terraço de prédios seculares da cidade, como no da The Old American Can Factory, no Brooklyn. Ainda que pagas, as sessões organizadas há uns 10 anos pela turma do Rooftop Films são um sucesso. Os 45 filmes da agenda 2014 têm abertura de bandas e – algo que não acontece nos cinemas – costumam acabar em balada, com DJs, VJs e venda de drinks. É um jeito original de encerrar os dois dias de circuito artístico da cidade que não para.

Filme exibido no festival Rooftop Films, que acontece no verão (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Filme exibido no festival Rooftop Films, que acontece no verão (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

DICA: Prefere um piquenique à beira-rio? Então caminhe pelo Brooklyn Bridge Park até o píer 5, onde os domingos de verão recebem o Smorgasburg, uma das feiras gastronômicas mais bacanas da cidade. Ela reúne cerca de cem barracas que vendem comida de todo o mundo – de falafel a empanada, de injera etíope a yakissoba. Aos sábados, ela migra para o East River State Park, em Williamsburg. DICA: Com Williamsburg entrando para o mainstream, os preços subiram e muitos artistas migraram para a vizinhança de Bushwick, novo polo de arte de Nova York. No verão, centenas de designers, músicos e performers abrem seus ateliês para visita no Bushwick Open Studios. Mesmo fora dos fins de semana de eventos, o lugar anda efervescente como a Williamsburg de dez anos atrás. DICA: Os jovens novaiorquinos dessa região do Brooklyn ganharam em janeiro uma diversão noturna inusitada: o primeiro lugar da cidade para jogar shuffleboard. Espécie de bocha popular entre os aposentados da Flórida, o jogo ganhou um público descolado no The Royal Palms. O lugar tem um bar bacana e oferece “food truck” de qualidade em um caminhão estacionado ali dentro do bar.   BOX NY: Nos arredores, Dia:Beacon e Storm King

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Obra de Richard Serra exposta na galeria Dia:Beacon (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

A deliciosa combinação de arte e natureza pode ser feita no entorno da cidade para quem tem um ou dois dias a mais: as visitas ao Dia:Beacon e ao Storm King. Desde 2003 o primeiro deles tem transformado a rotina da pequena cidade de Beacon, que fica a 1h20 de trem da Central Station de Manhattan. Só a viagem beirando o Rio Hudson já vale o passeio (compre a passagem integrada com o ingresso do museu e peça, na ida, um assento do lado esquerdo do vagão, com vista deslumbrante). Instalado no prédio de 1929 de uma antiga fábrica dos biscoitos Nabisco que foi reformado para abrigar galerias bem iluminadas, este minimalista museu de arte contemporânea apresenta obras de artistas como Donald Judd e Richard Serra. Do outro lado do rio, em Mountainville, fica o Storm King Art Center, com mais de 100 esculturas ao ar livre no estilo do museu de Inhotim. Dá para chegar ali descendo na estação de Salisbury Mills depois de 1h de trem a partir da Penn Station de Manhattan. É possível comprar um passeio que inclui, além do ingresso e da passagem de ônibus, uma parada nos outlets de Woodbury. Quem estiver de carro pode visitar os dois museus no mesmo dia.   SERVIÇO:   Como se programar: nycgo.com   Onde ficar:

Recepção do Hotel Le Parker Meridien com obra de Demien Hirsch
Recepção do Hotel Le Parker Meridien com obra de Damien Hirst (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

  Le Parker Meridien 119 West 56th Street parkermeridien.com (B D E F N Q R)   The Surrey 20 East 76th Street thesurrey.com (4 5 6)

Hotel The Surrey (com foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Retrato de Kate Moss feito por Chuck Close e exposto no hall do hotel The Surrey (com foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Onde comer 21 21 West 52nd Street 21club.com (E M F B D)   Burger Joint (Le Parker Meridien Hotel) burgerjointny.com (B D E F N Q R)   Café 2/ Terrace 5 (MoMA) momacafes.com (E M F B D)   Saul (Brooklyn Museum) saulrestaurant.com (2 3 4)   Smorgasburg (feiras gastronômicas) smorgasburg.com   Superfine 126 Front Street, Brooklyn Tel. (1) 718 243-9005 (F)   The Modern (MoMA) themodernnyc.com (E M F B D)   O que fazer: Broadway www.broadwaycollection.com (N Q R A C E B D F M)   Brooklyn Bridge Park brooklynbridgepark.org (F R 2 3 A C)   Brooklyn Museum 200 Eastern Parkway,
Brooklyn brooklynmuseum.org (2 3 4)   Carnegie Hall 881 7th Avenue carnegiehall.org (N Q R F)   Cinema nos parques nycgovparks.org/events/free_summer_movies   David Zwirner Gallery davidzwirner.com   Dia:Beacon diaart.org   Gagosian Gallery gagosian.com   Graff Tours (tours de street art) grafftours.com   Lincoln Center 10 Lincoln Center Plaza lc.lincolncenter.org (1 2 A B C D)   Pace Gallery pacegallery.com   Public Art Fund publicartfund.org   New York Gallery Tours nygallerytours.com   MoMA 11 West 53 Street 
 moma.org (E M F B D)   Rooftop Films rooftopfilms.com   Storm King Art Center stormking.org   The Highline thehighline.org (L A C E)   The Queen of the Night Diamond Horseshoe (Paramount Hotel) 235 West 46th Street queenofthenightnyc.com (N Q R A C E)   BOX 2 Pingue-pongue Eduardo Kobra, autor do mural O Beijo, diante da Highline –       Como surgiu seu mural na Highline? Em 2012, uma galeria do Brooklyn me convidou para pintar outro muro da cidade. Mas aí o proprietário desse prédio do Chelsea nos autorizou pintar nesse espaço sensacional diante da Highline de Manhattan. Passei duas semanas trabalhando em escadas enormes, pois o prédio é tão antigo que não seria seguro usar andaimes ou balancinhos. –       Então esta não é uma obra oficial comissionada pela Highline? Não, mas já foi compartilhada pelas redes oficiais da Highline. Muita gente passa ali e comenta sobre o mural. Tenho trabalhos em várias partes do mundo, já expus em Nova York, sou representado pela galeria Unix Art, ali no Chelsea. Mas nenhum trabalho meu foi tão fotografado como este. –       Como é ter uma obra tão popular em uma cidade como Nova York? Sensacional. Nova York é uma cidade icônica no universo do grafitti e da street art, com trabalhos que muito me influenciaram. Meu plano agora é pintar 10 murais em diferentes pontos da cidade. Adoro ficar passeando para escolher quais serão meus próximos muros. – Por que você escolheu esta imagem? Gosto de fazer releituras de imagens antigas e a Times Square sempre me impressionou. “O Beijo” é uma versão daquela famosa foto de Alfred Eisenstaedt que mostra um marinheiro beijando uma moça na Times Square, em 1945, durante a celebração do fim da Segunda Guerra Mundial. __________________________________________________  Código de Ética Same Same: Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista TAM Nas Nuvens do mês de agosto de 2014. Os hotéis Le Parker Meridien e The Surrey nos ofereceram diárias de graça. Jantamos como convidados no Restaurante 21.

O império contra-ataca

Vinte e oito retratos de mulheres e homens comuns vestindo trajes andinos tradicionais fizeram sucesso entre limenhos e estrangeiros, de abril a setembro, que visitaram a MATE, galeria que o fotógrafo Mario Testino abriu em Lima há um ano e meio. Numa alusão provocativa aos ensaios de alta costura que costuma produzir para publicações como Vanity Fair e Vogue, o peruano radicado em Londres batizou a mostra de “Alta Moda”. “Voltei às raízes para explorar a herança do meu país e mostrar ao mundo a riqueza de nossa cultura”, afirmou, satisfeito pelo sucesso da exposição tê-la feito migrar para Nova York, onde vai decorar as salas do Instituto Espanhol Rainha Sofia até 29 de março. A missão de Testino parece estar sendo cumprida: o mesmo requinte da vestimenta dos camponeses de origem inca que ele fotografou na cidade colonial de Cusco ao longo de cinco anos pode ser notado no artesanato e na gastronomia do país, o que tem consagrado o Peru como o destino latino favorito de viajantes em busca de experiências legítimas.

 

Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Localizada a 1 hora de voo de Lima, Cusco tem aquele charme de cidades coloniais como Cartagena e Ouro Preto. Sua Plaza de Armas rodeada por sobrados avarandados típicos da arquitetura espanhola foi clicada por 2 milhões de turistas que ali chegaram em 2012 – mais que o dobro de oito anos atrás. Trajes típicos tais e quais aqueles registrados por Mario Testino continuam sendo orgulhosamente vestidos pela população. No entorno da cidade, que foi a capital do império inca, o mais importante da América do Sul entre 1438 e 1533, o chamado Vale Sagrado exibe uma série riquíssima de sítios arqueológicos, entre os quais se destaca o mais famoso do continente, Machu Picchu. Mesmo sem shopping-centers, parques temáticos ou atrativos artificiais,  Cusco vê sua infra-estrutura de turismo ganhar cada vez mais novos hotéis, restaurantes e museus. Com uma peculiaridade: a maioria dos investimentos foca no turismo de primeira linha.

 

Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

É na hotelaria que essa vocação para atender o viajante exigente fica mais evidente. Em 2013,  o Palácio del Inka, que surgiu nos anos 1980 sob a bandeira Libertador como o primeiro cinco-estrelas da cidade, entrou para a rede Luxury Collection Hotel depois de uma reforma de 15 milhões de dólares. Com quadros originais da famosa Escuela Cusqueña nas paredes, tetos pintados à mão e muros incas originais em sua estrutura, ele pertence ao seleto grupo de seis hotéis top que se destacam entre as 94 hospedarias de Cusco. “A elitização do turismo no Peru começou há apenas 10 anos e aconteceu ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a valorizar os destinos mais autênticos”, explica Patricio Zucconi Astete, veterano do turismo local. Ele gerencia atualmente o Miraflores Park, de Lima, unidade da rede de luxo Orient-Express, que detém na região de Cusco nada menos que 4 unidades para hospedagem de alto nível.

 

Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

No primeiro semestre de 2013, uma comitiva de 60 hóspedes da TV Globo escolheu o mais pomposo deles, o Monastério, um antigo mosteiro do século 17, para abrigar o elenco e a equipe de apoio da novela Amor à Vida. Nos jantares, Paolla Oliveira e seus colegas puderam assistir às apresentações de ópera que tinham no elenco Angela Merina, respeitada como melhor soprano do Peru. Mais moderno, o vizinho Palácio Nazarenas conta com habitações com chão do banheiro aquecido e oxigênio para amenizar o desconforto da altitude – Cusco está 3400 metros acima do nível do mar, 2500 metros mais alta que São Paulo. Único hotel que desfruta do privilégio de ficar a 20 passos da entrada de Machu Picchu, o Sanctuary Lodge costuma ter uma taxa de ocupação invejável, com média anual de 80 por cento (o que significa que mesmo na temporada das chuvas, de novembro a março, o movimento continua intenso). Mas é na viagem de trem de luxo entre Cusco e Machu Picchu que está o créme de la crème da grife: a jornada dá direito a jantar, vinhos e espumantes, aulas de pisco sour e música ao vivo no trem Hiram Bingham ­– batizado em homenagem ao americano que, em 1911, descobriu Machu Picchu.

 

Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Vem das relíquias encontradas pela equipe de Bingham, por sinal, outra das boas novidades de Cusco: o museu Machu Picchu Casa Concha. Inaugurado em 2011, ele conta com 366 peças arqueológicas incas que estiveram por um século no Museu de História Natural de Peabody, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. E soma-se a outros museus de boa curadoria da cidade, entre eles o de Arte Precolombino, que pertence ao grupo do Museo Larco, de Lima, dono da mais fina coleção de objetos de cerâmica, ouro e prata do Peru antigo. Suas peças inspiram o trabalho da designer de jóias  Maria Elena Guevara, proprietária da Inka Treasure, rede com nada menos que 9 joalherias em Cusco. “O Peru é o segundo maior exportador de prata do mundo, só perde para o México”, explica. “Temos o privilégio de trabalhar com a prata de melhor qualidade, além de pedras raras do país, como as de crisocola, a turquesa peruana”, conta a empresária, que já atendeu clientes como Bill Gates, Dalai Lama e Antônio Fagundes. Uma estátua de um guerreiro mochica que brilha em uma de suas vitrines e levou 3 meses para ser esculpida não sai por menos de 8.500 dólares.

 

Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Por preços menos salgados que os de São Paulo ou Rio de Janeiro, os bons restaurantes de Cusco são exemplos da gastronomia mais respeitada da América Latina na atualidade. Embora já seja sócio do Chicha, considerado o melhor restaurante da cidade, o embaixador da culinária peruana Gastón Acurio se prepara para abrir uma segunda casa em breve. Ele é o dono do Astrid & Gastón, de Lima, que em setembro renovou seus louros como o número 1 entre os 50 melhores da América Latina segundo os críticos da revista inglesa Restaurant. Hoje é difícil jantar sem reserva no Chicha, que tem esse nome em homenagem a uma bebida de origem inca, normalmente feita de milho fermentado. Uma vez à mesa, os comensais degustam receitas desenvolvidas com técnicas andinas e asiáticas. Os ceviches abrem o paladar para clássicos como o anticucho – ou espetinho ­– de coração de vaca e o lomo saltado, filé de carne frito no estilo chinês.

 

Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Mas é no vestuário que os turistas – 126 mil deles vindos do Brasil, segundo dados de 2012 da PromPeru, órgão governamental que promove o turismo do país – investem seus soles com maior custo-benefício. É claro que os gorros, suéteres e cachecóis coloridos, como aqueles clicados por Mario Testino, podem ser encontrados em cada esquina com tecidos e preços populares. Quem visita lojas locais renomadas como a Sol Alpaca e a Golden Alpaca, no entanto, descobre que vale a pena pagar mais pelos raríssimos tecidos de vicunha ou de baby alpaca – esses feitos da lã dos filhotes de alguns dos bichos mais avistados nessas alturas dos Andes. “Um gorro de qualidade não vai custar menos que uns 50 reais, mas vale a pena”, atesta a advogada Thalita Rosa, que viajou com o namorado, o engenheiro Mateus Carmona, em junho. “Contratamos um motorista exclusivo para explorar os arredores, comemos muito bem e ficamos fascinados com a riqueza das tradições do Peru”, conta Thalita, que voltou de viagem com outra recordação mais que especial. Foi nas alturas do Wayna Picchu, a maior montanha diante de Machu Picchu, que Matheus lhe surpreendeu com um par de alianças e um pedido de casamento. E deixou a experiência de conhecer o Peru ainda mais inesquecível.

 

Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)
Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)

 

Para ver a reportagem como publicada na Veja Luxo, inclusive com fotos de Mario Testino, baixe o PDF.

 

SERVIÇO:

CHICHA: www.chicha.com.pe

GOLDEN ALPACA: Plaza de Armas, 151, tel. +51 84 25-1724

INKA TREASURE: www.incatreasure.com.br

MACHU PICCHU: www.machupicchu.gob.pe

MATE (LIMA): www.mate.pe

MIRAFLORES PARK HOTEL (LIMA): www.miraflorespark.com

MONASTÉRIO: www.monasteriohotel.com

MUSEU DE ARTE PRECOLOMBINO: www.map.museolarco.org

MUSEU MACHU PICCHU CASA CONCHA: www.cuscoperu.com

PALÁCIO DEL INKA: www.starwoodhotels.com

PALÁCIO NAZARENAS: www.palacionazarenas.com

SANCTUARY LODGE: www.sanctuarylodgehotel.com

SOL ALPACA: www.solalpaca.com

TREM HIRAM BINGHAM: www.orient-express.com

Praça Tahir, o coração da Primavera Árabe

Há algo de fascinante do desleixo com que são exibidas as 12.000 peças do Museu do Egito, meu primeiro programa na cidade do Cairo – onde pisei na quarta-feira, 11 de dezembro de 2013. Qualquer mortal pode chegar a um centímetro de praticamente qualquer obra, até mesmo cheirar e tocar sarcófagos e estátuas originais de milhares de anos antes de Cristo. Há no máximo um vidro cheio de marcas de dedos protegendo peças mal iluminadas e identificadas apenas por um pedaço de sulfite carcomido. Algo que deve dar urticária nos museólogos que cuidam tão bem das peças-irmãs exibidas no Louvre ou no British Museum. Mas as autoridades egípcias parecem não se importar, acostumadas que estão a conviver com maravilhas arqueológicas tão resistentes ao tempo e fartas (só o acervo permanente tem 150.000 peças). E não há melhor momento para mergulhar na cultura desse país tão importante para a humanidade: como os turistas escassearam desde a eclosão da chamada Primavera Árabe no Egito, em 2011, os viajantes não enfrentam filas e os preços estão ainda mais baratos que antes.

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