A cidade floresce

O espetáculo do encontro dos rios Negro e Solimões. O fantástico Teatro Amazonas, palco de disputados recitais de ópera. E só. Depois de cinco anos sem aterrissar em Manaus, eu achava que estes ainda fossem os dois passeios bacanas que um forasteiro tinha para explorar no principal portal da Amazônia brasileira. Ledo e delicioso engano. Bastou o fotógrafo Adriano Fagundes e eu sairmos do Eduardo Gomes, o aeroporto internacional, e entrar no carro do Leleco, nosso amigo carioca que adotou como sua a capital do Amazonas, para começar a sucessão de boas surpresas enquanto rodávamos pela cidade. “Uau, que ponte estaiada é aquela sobre o Rio Negro? Olhem quanta gente praticando stand-up paddle no rio! Que bacana estão a ciclovia e o calçadão de Ponta Negra…” Leleco respondia apontando mais novidades: “Ali fica o estádio da Copa do Mundo,  o Arena da Amazônia. Para lá está um dos shoppings recém-inaugurados. Por aqui se chega a um hotel de golfe aberto há 3 anos…” Nosso anfitrião tinha uma proposta de agenda tentadora: como não estávamos na época baixa dos rios (julho a fevereiro), quando surgem as belas praias de água doce, iríamos a alguns restaurantes de comida amazônica contemporânea, ao ensaio para o festival de Parintins e optaríamos entre degustar alguns dos 900 rótulos da Cachaçaria do Dedé ou uns drinques no O Chefão, transado bar do Centro Histórico inspirado no filme O Poderoso Chefão. Mal tínhamos começado a suar com o calor de mais de 30 graus daqueles trópicos e já notávamos que Manaus não era mais a mesma. Em pouco mais de meia década, havia aprendido a reciclar a riqueza dos rios e da floresta à sua volta para se transformar em uma metrópole com mais qualidade de vida, autêntica, cosmopolita e surpreendente.

A nova ponte estaiada da capital
A nova ponte estaiada da capital

O URBANO NA SELVA É claro que a capital do estado do Amazonas nunca perdeu sua vocação de ponto de partida para mais de uma dezena de bons hotéis de selva. A poucas horas da metrópole de 1,8 milhão de habitantes estão as principais bases para explorar a floresta com árvores de mais de 30 metros de altura e os rios de margens inalcançáveis, habitados por piranhas com dentaduras ameaçadoras, botos tucuxi saltitantes e jacarés gigantescos. Nós mesmos encerraríamos nossa jornada tendo contato com toda essa fauna em três dias intensos no mais badalado deles, o Anavilhanas Lodge, a 180 quilômetros de Manaus. O percurso leva 2h30, 2 horas a menos do que as 4h30 necessárias antes de  serem inaugurados, em 2011, os 3,6 quilômetros do novo cartão-postal da cidade, a Ponte Rio Negro. A construção da maior ponte fluvial e estaiada do Brasil acabou com a necessidade de uma balsa para cruzar o rio, facilitando o acesso ao hotel e a toda a região turística de Novo Airão, base para conhecer o arquipélago de Anavilhanas, formado por mais de 400 ilhas. Com 16 chalés, quatro bangalôs e acesso wi-fi até na área da piscina de borda infinita, o único hotel da rede Roteiros de Charme no Norte do país virou exemplo de hospedaria tão bem estruturada que atrai até aquele turista urbanóide que não consegue se desconectar da metrópole mesmo estando no meio do mato. Mas o caminho contrário, com a realidade da floresta invadindo o ambiente urbano, é o fluxo mais recente em Manaus. Graças ao resgate das raízes amazônicas promovido pela juventude local, certas preciosidades culturais estão mais acessíveis dentro da própria capital.

Um dos quartos do Anavilhana Lodge, em Novo Airão
Um dos quartos do Anavilhanas Lodge, em Novo Airão

MENU AMAZÔNICO Com apenas 27 anos, o catarinense radicado em Manaus Felipe Schaedler é o melhor representante da geração que tem transformado a exuberância da selva em atrativo de primeira linha na cidade. Felipe e seu empreendimento, o Banzeiro, ganharam os prêmios de chef e restaurante do ano em 2011 e 2012, segundo a revista Veja Comer & Beber – Manaus. Curioso, Felipe costuma partir em expedições à floresta explorando ingredientes para suas criações gastronômicas. No ano passado, o mestre-cuca foi condecorado pela própria presidente Dilma Rousseff, em Brasília, com a Ordem do Mérito Cultural. “Minhas influências são caboclas e indígenas”, define ele, que vive na cidade desde os 16 anos. “Amo Manaus e daqui não saio.” Sua paixão pelo ambiente selvagem está evidente na decoração da casa, localizada no bairro de Nossa Senhora das Graças, e inclui uma canoa típica pendurada na parede, lustres feitos de fibras naturais e fotos de ribeirinhos clicadas pelo próprio chef. Dos dadinhos de tapioca servidos na entrada às suas premiadas costelas de tambaqui, finalizando no petit gateau recheado de cupuaçu, todas as delícias que experimentamos ali têm uma pitada de Amazônia.

Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica da cidade
Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica

Não é só no templo do chef mais badalado de Manaus, porém, que a nova cozinha da Amazônia viria a se revelar para nós. O sushiman Hiroya Takano, do restaurante Shin Suzuran, em Vieiralves, surpreende usando peixes de rio em suas criações. “Para realçar o sabor, ralo pimenta murupi sobre o sashimi de tucunaré e mergulho o pirarucu no missô com castanhas por um dia inteiro”, conta. Sem nada de moderno – mas com uma fartura única ––, o Chapéu de Palha da Benção sustenta esse nome em função das formas do telhado, feito com trançado típico a mais de 12 metros de altura. “Fiquem à vontade para se servir em nosso bufê com mais de dez espécies de peixes de água doce”, nos diria o  proprietário, o evangélico Manoel Pestana. A comida, simples e saborosa, parece realmente abençoada.   TACACÁ MUSICAL Antes de chegar às boas mesas manauaras, todo esse quase exótico universo de pescados, pimentas, ervas e frutas costuma colorir e aromatizar os corredores do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Erguido em 1883, a construção art nouveau de ferro beira o Rio Negro justamente no ponto de onde saem os clássicos passeios de barco que mencionei no início do texto: em uma hora, as embarcações atingem o ponto onde as águas amarronzadas do Solimões – extensão do Amazonas, o maior rio do planeta – ladeiam, sem se misturar, as escuras correntes do Negro. Se você, como nós, já teve esse prazer, invista nas bancas do mercado, com todo tipo de farinha de mandioca (seca, d’água, de tapioca, Uarini…), todo um novo alfabeto de frutas (abiu, camu-camu, taperebá, uxi…) e ervas que, dizem, levantam até defunto. “Em 56 anos trabalhando com isso, aprendi as propriedades curativas de cerca de 1000 plantas”, orgulha-se a simpática Dona Judith Formoso, 77 anos. Delícias de rua como o x-caboclinho (sanduíche com lascas de uma fruta chamada tucumã e queijo coalho), o famoso tacacá (aquele caldo de tucupi com goma de tapioca, folhas de jambu e camarão seco) e o açaí (aqui comido salgado, com farinha) também podem ser provados por ali mesmo – embora se espalhem também pelo entorno do Largo de São Sebastião, a mais famosa praça da cidade, diante do Teatro Amazonas. Nas noites de quarta-feira, de abril a dezembro, o ilustre Tacacá da Gisela mescla seus sabores amazônicas com boa música no chamado Tacacá na Bossa. Até Ed Motta já deu uma canjinha entre os músicos que se apresentam.

Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus
Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus

ÓPERA INDÍGENA Coração cultural de Manaus, o entorno do teatro abriga boas lojas de artesanato dos índios da Amazônia, sorveterias incríveis, o quarentão Bar do Armando e o frescor do Boutique Hotel Casa Teatro, aberto há um ano e meio em um dos fantásticos casarões históricos do Centro. E ganha um glamour único entre abril e maio. É quando o Teatro Amazonas abriga o Festival Amazonas de Ópera, o único do gênero na América Latina. Em 2013, foram 33 atrações ao longo de 45 dias. “É uma honra difundir a música erudita para a gente da minha cidade”, diz a soprano Carol Martins, 31 anos, solista da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi. No encerramento do 17o festival, em maio, ela também cantou na ópera O Morcego, de Johann Strauss Filho, que reuniu 15 mil pessoas ao ar livre, no Largo de São Sebastião, diante do teatro, mesmo debaixo de chuva. A tradição das óperas nesse peculiar teatro com uma bandeira do Brasil na cúpula vem do século 19, tempo em que Manaus virou uma espécie de Paris das Selvas em função de toda a fortuna que circulava na cidade. Foi graças à exploração massiva da borracha de seus seringais que a cidade inaugurou, já em 1896, um teatro daquele porte. Tão portentosos quanto as óperas, mas bem mais populares, são os ensaios para o Festival Folclórico de Parintins, que chegam a arrastar cerca de 10 mil pessoas ao Centro de Convenções de Manaus, o chamado Sambódromo, e à Arena do Hotel Tropical de março a junho. Embora a grande festa do boi, com temática inspirada em lendas indígenas e costumes ribeirinhos, aconteça a distantes 370 quilômetros dali e só por três dias do mês de junho, partem da capital do estado cerca de 50 mil pessoas que ajudam a fazer a festa dos bois Garantido, o vermelho, e Caprichoso, o azul. A vibração do público e as alegorias fantásticas de personagens míticos da floresta, como a índia mais bela e o poderoso pajé, convencem qualquer viajante a querer estar, ao menos uma vida, na festa do boi de Parintins.

Show no  Jack’n’Blues Snooker Pub
Show no Jack’n’Blues Snooker Pub

A BIENAL DA MATA Em julho, os ouvidos dos manauaras buscam outro ritmo: o de jazz. O 8o  Festival Amazonas de Jazz mobilizou, em 2013, 60 músicos tanto na capital quanto no município vizinho de Manacapuru, a 70 quilômetros. O jazz, por sinal, tem espaço cativo na agenda de entretenimento da cidade: assistimos um belo show no Jack’n’Blues Snooker Pub, no agitado bairro noturno de Vieiralves, e uma jam session de primeira linha na Universidade do Estado do Amazonas – UEA, com direito a performance da artista Hadna Abreu pintando um quadro enquanto a banda tocava. Hadna tem 24 anos e exibe sua primeira mostra individual na Galeria do Largo, diante do teatro Amazonas, até 15 de setembro. “Me inspirei na estética dos meus avós para criar personagens fantásticos que interagem com árvores e pássaros do ambiente amazônico.”

 

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Grafitti em muro diante do sambódromo

 

O mesmo resgate das raízes culturais e históricas realizado com sucesso pelos espetáculos de ópera e do boi começa a ser trilhado também pelas artes plásticas. Como se não bastassem os belos grafites pelas ruas da cidade – como os lambe-lambes de Hadna, colados com goma de tapioca ­–, ainda em 2013 Manaus planeja ser a principal sede da Amazônica I, primeira bienal de artes visuais do estado. “Com base no sucesso do formato da megaexposição Documenta, em Kassel, na Alemanha, criamos uma mostra descentralizada, espalhada por diferentes pontos da cidade e do estado”, diz Cléia Vianna, comandante da Galeria do Largo e uma das organizadoras do evento. “Teremos desde desenhos de Di Cavalcanti até obras de novos artistas locais”, conta. Mais um exemplo de como os habitantes de Manaus aprenderam a beber da fonte natural e cultural da grande floresta que os circunda.

 

SERVIÇO:

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O Brasil cowboy

O aposentado catarinense Léo Sebold, 70 anos, foi o
primeiro a chegar, com nove dias de antecedência.
Cuidadosamente, escolheu a melhor entre as 5.300
vagas do camping e estacionou ali o trailer
importado. Ligou o som numa rádio sertaneja e
desceu para montar o toldo e a mesa de damas.
Logo o colega Henrique Dias, 65 anos, apareceu com
uma lata de cerveja para iniciar a primeira rodada
de uma série muito, muito longa. “Faz nove anos
que eu venho. É cada vez mais difícil achar lugar
bom, então decidi chegar cedo”, explica Sebold,
exibindo o planejamento a longo prazo permitido
pela idade e um figurino híbrido — camisa
estampada com a bandeira dos Estados Unidos,
cigarro de palha no canto da boca. O catarinense,
que viajou 1.400 quilômetros para garantir o lugar,
foi o precursor da romaria que superlota a cidade de
Barretos, no interior de São Paulo, no final de agosto
para a Festa do Peão de Boiadeiro, o maior evento
regional do país. A festa, que começou na sexta-
feira passada e vai até o próximo domingo, atrai
uma multidão que causa congestionamentos de oito
horas nas estradas da região, lota todos os hotéis
num raio de 150 quilômetros e faz com que diárias
de modestos estabelecimentos de três estrelas
cheguem a 375 reais, preço de um cinco-estrelas em
Paris. Barretos, durante dez dias, é a meca de um
fenômeno que começou no interior de São Paulo e
se irradiou para outros pontos do país, o rodeio. Não

um rodeio qualquer, com a peãozada montando em
bichos bravos, como sempre existiu no Brasil, mas
um festival cada vez mais calcado nos moldes
americanos.

A arena de Barretos está para o mundo do rodeio
como Wimbledon para o tênis. É a segunda maior
festa do gênero no mundo, depois de Las Vegas,
nos Estados Unidos, e a única competição do circuito
mundial de rodeio de touros realizada fora de um
país de língua inglesa. Há 700 jornalistas do mundo
inteiro credenciados para o evento. As finais serão
transmitidas pelo canal country de TV por assinatura,
CMT. Enviados de jornais como Financial Times e
Chicago Tribune, redes de TV como Fox News e
revistas como a Opa, do Japão, baterão ponto na
arena. Há 22 competidores americanos, canadenses
e australianos. No meio dessa porção de gringos,
porém, a grande estrela do show é o brasileiro
Adriano Moraes, de 27 anos, nascido na pequena
cidade de Matão, a 300 quilômetros de São Paulo.
No próximo fim de semana, enquanto o tenista
Gustavo Kuerten deverá estar lutando nas quadras
do US Open para se manter na nona posição do
ranking mundial, Moraes defenderá, com amplo
favoritismo, seu posto de primeiro colocado na lista
da Professional Bull Riders, a federação dos peões
montadores de touros. No início de agosto, Moraes,
com 7 190 pontos, tinha uma liderança tranqüila
sobre o segundo colocado, o americano Michael
Gaffney, com 4 715 pontos.

Uísque importado — A Festa do Peão de Barretos
existe desde 1955. Na época, a cidade sediava o
maior frigorífico do país e recebia tropeiros que
traziam gado de vários Estados. Para matar o tempo
enquanto esperavam o abate das reses, eles faziam
rodeios no estilo caipira, nos quais se compete para
ver qual o peão que fica mais tempo no lombo de
um cavalo chucro ou qual o laçador mais habilidoso.
Durante três décadas, a festa foi atraindo cada vez
mais gente, entre fazendeiros endinheirados e o
pessoal da região, geralmente mais interessados
em se divertir. O modelo, no entanto, continuava
tradicional. Foi no final dos anos 80 que empresários
locais farejaram ali uma mina de ouro. Inspirados no
sucesso da música sertaneja, que unia a guitarra da
música country à viola da toada caipira, decidiram
transformar a festa num torneio à texana, para
atrair o público de classe média que jamais iria a
uma festa “caipira”, mas compareceria alegremente
a um evento country. Uma agência de publicidade
foi contratada para divulgar o evento, os cartazes
passaram às mãos de artistas como Siron Franco
e Manabu Mabe, as barracas começaram a vender
uísque importado. Barretos estourou.

A Polícia Militar calcula que, durante os dez dias
de festa, 900.000 pessoas circulam pelo Parque

do Peão. Isso não quer dizer, observe-se, que a
cidade, de 100.000 habitantes, seja invadida por
800.000 turistas. Se um morador local, por exemplo,
resolve comparecer ao parque durante os dez dias
seguidos, será computado como dez pessoas. Mesmo
assim, é uma monstruosidade de gente. Mais que
a Oktoberfest, de Santa Catarina, que pelo mesmo
critério atrai 500.000 pessoas, e que o Festival do
Boi de Parintins, no Amazonas, que junta 150.000.

Aluguel estratosférico — A grande maioria dos
freqüentadores calça botas sete-léguas e poderia
perfeitamente ter participado do primeiro rodeio, há
42 anos. Mas o que interessa aos organizadores é
aquela fatia de público que usa chapéu à moda de
J.R. Ewing, de Dallas, e vende boi virtual na Bolsa
de Mercadorias & Futuros. No aeroporto da cidade,
que costuma receber uma dúzia de aviões por dia,
o movimento esperado ao longo da festa é de 1.000
pousos e decolagens. Fora o heliporto, sempre
lotado, com capacidade para trinta helicópteros. Para
atender aos celulares que teimam em estrilar mesmo
durante os momentos mais emocionantes do rodeio,
no Parque do Peão foram cravadas três antenas
de telefonia, com capacidade para 10.000 ligações
simultâneas.

Entre os 4.000 metros quadrados de estandes
montados no parque não há apenas barracas de
comes e bebes. O Mappin, uma das maiores lojas
de departamentos do país, montou uma filial pré-
fabricada, com 120 funcionários. Há até um estande
da Valmet, que no ano passado vendeu quarenta
tratores. “O espírito da festa é rústico, mas nosso
público é a classe média das grandes cidades do
interior”, diz Flávio Silva Filho, diretor do clube Os
Independentes, que organiza a festa. A invasão
turística gera oportunidades de negócios também
fora do parque. O comerciante Geraldo Rodrigues
adiou a mudança para a nova casa em duas semanas
porque durante o rodeio ela estará ocupada por
famílias de turistas, ao estratosférico preço de 1.000
reais a diária. “Não podia perder uma chance de
embolsar essa grana, né não?”, raciocina.

O filão aberto por Barretos revelou-se uma mina
de ouro. Até o final do ano serão realizados em
todo o país 1.200 rodeios, que, entre ingressos,
movimento turístico e de restaurantes, farão
circular 1 bilhão de dólares. O público estimado é
de 24 milhões de pessoas, sete vezes mais que os
espectadores do Campeonato Brasileiro de Futebol.
Os números, como de hábito, estão sujeitos a chutes
e arredondamentos duvidosos, mas são endossados
por quem entende do ramo. “O mercado de rodeios,
leilões e exposições agropecuárias no país deve
passar de 2 bilhões de dólares”, calcula Antônio
Ernesto de Salvo, presidente da Confederação
Nacional de Agricultura.

O rodeio, no mundo, é dividido em duas grandes
federações, montaria de touros e rodeio completo.
Na primeira, o peão precisa manter-se pelo menos
oito segundos no lombo de um touro furioso.
Completado o tempo mínimo, os juízes lhe atribuem
pontos em função do estilo. Já o rodeio completo é
dividido em sete provas. Além da montaria em touro,
há o bulldogging, que implica saltar da montaria e
derrubar um bezerro pelos chifres. Laço, em que
o objetivo é laçar um garrote no tempo mínimo
possível, e laço em dupla, em que dois cavaleiros
dominam a cabeça e as patas traseiras do bezerro.
Há uma prova feminina, na qual as amazonas devem
contornar três obstáculos no menor tempo possível,
e dois tipos de prova de montaria em cavalos,
com e sem sela (o bareback). No Brasil, há ainda
a montaria na cela típica dos caipiras, chamada
cutiano.

Os humanos vêm se exibindo dessa maneira
desde a domesticação do cavalo, mas as regras
e modalidades vigentes hoje vieram dos Estados
Unidos, onde os campeonatos de rodeio profissional
existem desde 1929 e os espetáculos atraem 34
milhões de espectadores. Há competições exclusivas
para mulheres, um torneio gay em Utah e rodeios
em que os peões são detentos de penitenciárias.
Nessa categoria, o público torce pelos touros e
reserva os maiores aplausos da noite para o animal
que mais pisoteia um peão. Há um canal de TV
que só transmite rodeios e, nas bancas de jornais,
vendem-se cartões, conhecidos por qualquer
criança como cards, com as figuras dos peões mais
célebres. Neles, o brasileiro Adriano Moraes aparece
como natural de Keller, Texas, a cidade onde fixa
residência durante a temporada americana.

Coleção de fraturas — Adriano se divide entre
o campeonato americano e os principais rodeios
brasileiros. Em 1996, entre prêmios e patrocínio, ele
faturou 300.000 dólares. Em dez anos de carreira,
conseguiu juntar seu primeiro milhão de dólares e
uma coleção de fraturas. Quebrou um braço, uma
perna e uma costela, perdeu um dente e rompeu os
ligamentos dos dois joelhos. Por sorte, seu contrato
com os patrocinadores estabelece que eles são
responsáveis pelas despesas médicas. No Brasil,
onde morrem em média cinco peões por ano em
acidentes de trabalho, as seguradoras se recusam a
fazer seguro de vida para a categoria. Nos Estados
Unidos, com dezoito óbitos por ano, as apólices
custam dezenas de milhares de dólares. Quando
se preparava para entrar na arena para vencer seu
primeiro título mundial, em 1994, Adriano viu um
touro esmagar o crânio de um amigo, o americano
Brent Thurman.

Religioso daqueles que beiram a pieguice, Adriano é
adepto da Renovação Carismática Católica. Fundou

um grupo de oração chamado Peões de Deus, em
contraposição aos Caubóis de Cristo, evangélicos,
e dedica suas vitórias a Nossa Senhora Aparecida.
No início do ano, doou 100.000 reais à comunidade
cristã de Cachoeira Paulista. “Meu sonho é que um
de meus filhos seja padre”, explica. Ídolo nos EUA,
respeitado como um dos três cowboys da história
que conseguiram montar dez touros, um após o
outro, sem cair, ele é permanentemente servido pela
mulher, Flávia, preocupada com o assédio das fãs.

Laço com jatinho — Nos bastidores da arena,
os peões são tratados como astros de TV. E, com
alguma sorte, acumulam pequenas fortunas. Vilmar
Felipe, bicampeão de touros em Barretos, ainda
guarda na garagem três dos 24 carros que ganhou
em várias competições. Os outros, juntamente com
25 motos, mais os prêmios em dinheiro, foram
trocados por terras e cabeças de gado. Administrar
o dinheiro e a carreira é a maior dificuldade da
profissão. Muitos peões arruínam as vértebras e as
articulações por competir demais, sem descanso.
O paranaense João Henrique Giannasi, 30 anos, o
primeiro colocado no ranking nacional de montaria
a cavalo, categoria bareback, previne-se fazendo
fisioterapia. Nas semanas que antecedem as grandes
competições, ele evita qualquer torneio. “Não dá
para ficar de fora justamente do que interessa”,
argumenta.

Há peões que competem apenas pela emoção. O
fazendeiro Henrique Prata, dono do Hospital do
Câncer de Barretos e de 20.000 cabeças de gado,
costuma pegar o jatinho com o filho e a filha para
disputar etapas qualificatórias das provas de laço em
cidades distantes. “Montar é a melhor parte da nossa
vida”, alegra-se. O maringaense Renato Garcia, de
20 anos, herdeiro de uma empresa de ônibus que
fatura 60 milhões de reais, também monta apenas
por diversão. Mas está entre os dez melhores do
ranking brasileiro. Quando terminar a faculdade de
zootecnia, Garcia pretende assumir de vez a carreira
de peão.

O rodeio traz fama também aos coadjuvantes do
espetáculo. Os palhaços salva-vidas, que distraem
os animais quando os caubóis caem, são conhecidos
do público e ganham 2.500 reais por final de
semana. Mas o trabalho é, digamos, estressante.
Antônio Carlos Damasceno, o “Django”, de Barretos,
contabiliza onze costelas quebradas, além dos
maxilares superior e inferior. “Meu irmão tem
mais sorte, quebrou só sete costelas, um joelho e
uma omoplata”, enumera. Os touros mais ferozes,
como “Pedra 90” e “The Flash”, também têm fã-
clube. O que poucos espectadores sabem é que a
fúria dos animais não decorre apenas de um mau
gênio de nascença. Touros e cavalos são atiçados por
cordas apertadas em suas virilhas e, eventualmente,

esporadas ou choques elétricos. “O rodeio é uma
tortura para os bichos”, protesta Milton Moura
Leite, presidente da União Internacional Protetora
dos Animais do Brasil. Os organizadores de rodeio
desconversam. “O animal não é judiado. É tratado
com as melhores rações e fica incomodado só porque
sente cócegas”, afirma Flávio Silva Filho, um dos
organizadores do rodeio de Barretos.

O universo dos rodeios é misterioso para quem
não está acostumado com música country, botas
de couro de jacaré e fumo de mascar. Em julho,
no rodeio de Jaguariúna, a principal atração da
noite não era uma dupla sertaneja, e sim Billy Ray
Cyrus, “O rei do Kentucky”, um breguíssimo astro
country americano. Nesse Texas de fantasia, não há
sem-terra nem gente com o nome sujo no crédito
rural do Banco do Brasil. Há apenas caubóis ricos
e caubóis pobres, que se identificam por sinais
claros como uma estrela de xerife. Em Barretos, por
exemplo, não faltam picapes ostentando adesivos da
Festa do Patrão, um baile country que reúne 5.000
pessoas nas noites de rodeio. A entrada custa 100
reais e, com duas semanas de antecedência, 70%
dos ingressos já estavam vendidos.

No ambiente de um rodeio, a receita de
elegância é a mesma de qualquer outra festa do
circuito ostentatório: produzir-se ao máximo e
desembarcar de um carro vistoso. O que muda
são os ingredientes. No mundo country, os carros
valorizados são picapes como a Mitsubishi Pajero
e jipes como o Chrysler Grand Cherokee. Quanto
às roupas, o figurino Chitãozinho e Xororó está por
fora. “Foi-se o tempo em que bastava usar camisa
de franja. Agora é preciso seguir a tendência da
estação”, explica Valdomiro Poliselli Júnior, dono
da VPJ Western, a maior importadora de roupas
country, com 152 lojas e faturamento de 7 milhões
de reais. A dobra do chapéu de caubói, por exemplo,
muda da mesma maneira que o comprimento das
saias femininas. Quem usa os chapéus do ano
passado é classificado como “faiado” (“falhado”,
caubói fajuto, no dialeto peonês) ou “abeia”
(“abelha”, equivalente a “brega”).

Pele de avestruz — Durante o dia, o caubói que
se preza usa chapéu branco. À noite, preto, de
preferência de pêlo de castor, que pode custar até
1.500 reais. As botas de couro de cobra foram a
coqueluche do ano passado. Hoje, o quente são
as de avestruz, australianas, que, por 840 reais,
derrubam muita Prada ou Gucci. Para ditar a moda
nos rodeios, as griffes apelam para o clássico
mecanismo do jabá, enviando roupas de presente
a peões e locutores. O acessório que completa o
uniforme é a calça jeans. É Wrangler, americana. “A
brasileira não presta”, sentencia Fernanda Cordeiro
Camargo, aluna do 2º ano de veterinária, que na

semana passada desfilava pelo Rodeio Universitário
de Londrina. Seguindo o padrão cowboy, as calças
precisam ser absurdamente justas. A tática de
patricinhas e mauricinhos interioranos para domá-las
é comprá-las na véspera da festa, enfiar-se dentro
delas com grande esforço muscular e dormir com o
jeans no corpo, de forma a amaciá-lo.

Se nas revistas de moda o estilo vigente nos grandes
centros urbanos é heroína-chique, aquela aparência
intermediária entre a ressaca, a anorexia e a
hepatite, nos rodeios o modelo são os cowboys de
anúncios de cigarro. Não só no trajar, mas até no
hábito de mascar fumo. Não aqueles rolos fedorentos
dos caipiras de antanho, é claro. Em Londrina, nos
dias de rodeio, as lojas country vendem cerca de
200 caixinhas de tabaco americano, em tabletes,
para ser mastigado como chiclete. Para o público
feminino, há o produto nos sabores cereja e menta.
Como o cigarro comum, a versão ruminante pode
causar câncer no esôfago, estômago e fígado. “Estou
tentando parar”, explica o peão Renato Garcia, uma
assumida vítima da moda.

A indumentária texana não indica apenas que há
muita gente disposta a brincar de caubói. Mostra
também que as elites do interior do país estão
firmando uma identidade diferente da de seus
similares das metrópoles. No final do século passado,
as famílias abastadas do Rio de Janeiro e de São
Paulo fizeram uma opção preferencial pelo estilo
importado da França, então uma potência cultural,
política e científica, além de sinônimo de erudição
e refinamento. Ao adotar a imagem de texanos,
os homens debaixo do chapéu de castor criam
para si próprios uma imagem diferente daquela do
caipira ignorante ou do fazendeiro rude, ao mesmo
tempo que estabelecem diferenças em relação ao
figurino Fiesp. “As picapes importadas dizem: não
somos cariocas nem paulistanos, mas somos ricos
e importantes”, teoriza o antropólogo Everardo
Rocha, da PUC do Rio, especialista em fenômenos de
consumo.

O interior não quer apenas parecer com o Texas.
Pretende, também, consumir como ele. A Alpha
Consultoria, instituto que faz prospecções de
mercado para várias empresas, tem uma projeção
de quanto cada região do país pode consumir, com
base em indicadores como renda per capita, número
de telefones, consumo de energia elétrica e média
de carros por habitante. Segundo a última pesquisa
da empresa, a região com mais dinheiro esperando
para ser gasto é a Grande São Paulo, com 14,2% do
potencial nacional de consumo. A segunda, com
13,3%, é o interior paulista. Não é difícil atestar
isso. A Forum, uma das mais caras franquias de
moda jovem, obtém 40% de suas vendas no interior
do país, embora possua na região menos de um

terço de suas lojas. As vendas de picapes
importadas cresceram 27 vezes nos últimos cinco
anos, principalmente no interior, mas os modelos
preferidos não são os paus-para-toda-obra e sim os
de luxo. Talvez por isso, na última contagem
populacional do IBGE, se descobriu que há hoje mais
gente migrando das capitais para o interior do que
fazendo o caminho contrário. Quem vai com alguma
reserva no banco pode tratar de comprar o chapelão
de caubói para se adaptar.

Fumo de mascar é a última moda entre os caubóis
brasileiros. Existe até em versões com sabor de
menta ou de cereja

Chapéu americano feito com pêlo de castor, da
Resistol. Os preços dos modelos variam de 600 a 1
500 reais

Cinto de crina de cavalo, importado, pode chegar a
custar 150 reais. O falsificado, de náilon, sai por um
terço disso

Bota de couro de cobra misturado com couro de boi
custa 150 reais. As de cobra pura chegam a 700
reais

Estrelas da arena e do disco

Os locutores de rodeio arrombaram a porteira
das lojas de discos. Nos últimos meses, várias
gravadoras despejaram na praça CDs que prometem
reproduzir no estéreo o espírito de um rodeio de
verdade. Para que o ouvinte se sinta cercado por
cavalos, touros e caubóis, as gravações do gênero
alternam música sertaneja com aquele blablablá que
os locutores costumam disparar pelas caixas de som
das arenas. Entram nos discos saudações como “alô,
meu povo!”, gritos de “segura, peão!” e até piadas
de salão (“Você sabe qual a semelhança entre minha
sogra e uma garrafa de cerveja? As duas ficam
ótimas geladas, em cima da mesa”). Tudo é dito com
entonação característica, algo entre a narração de
uma partida de futebol e a de um páreo no jóquei.
Um dos lançamentos do gênero, Bailão de Peão, já
vendeu 400 000 cópias, número que bate de longe
as vendagens habituais das estrelas da MPB.

De olho na moda, até o clube Os Independentes,
que organiza o rodeio de Barretos, lançou o disco
oficial da festa. A previsão é de que sejam vendidas
150 000 cópias até o final do mês. Com o sucesso
do filão, a carreira dos locutores avança para além
das arenas de rodeio. O veterano Asa Branca, ex-
peão que depois de um acidente teve de trocar os
arreios pelo microfone, já montou uma banda para

excursionar pelo país. Com idéias originais, como
saltar de pára-quedas sobre a arena ou fazer a
abertura de um rodeio de dentro de um helicóptero,
ele se tornou um dos animadores mais conhecidos.
Seu disco Cowboy Country esgotou a tiragem de 180
000 exemplares.

O locutor Marco Brasil, recordista de vendas no
segmento, apresentava um programa de rádio
quando teve a idéia de lançar o primeiro LP do
gênero no país. Hoje, divide seu tempo entre
rodeios, pelos quais cobra até 12 000 reais,
bailes e shows. As festas country se tornaram
tão importantes para a indústria do disco que
conseguem projetar artistas que pouco aparecem no
rádio e na TV. É o caso da cantora Jayne, a “rainha
dos rodeios”, que se apresenta no palco fazendo
evoluções sobre um cavalo branco. Seu último disco
vendeu 80 000 cópias e carimbou-lhe o passaporte
para Nashville, Tennessee, a capital da música
country, onde ela acaba de gravar mais um CD.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Franco Iacomini (com reportagem de Rachel Verano, de Belo Horizonte)

Surge uma Barra Funda remodelada

A Barra Funda não é mais a mesma. Que o diga o barbeiro Milton Greggio, de 64 anos, um dos mais antigos do bairro. Desde 1961, esse descendente de imigrantes italianos observa as redondezas. De sua portinha na Lopes Chaves, a mesma rua onde viveu o escritor modernista Mário de Andrade, Greggio percebe parte da transformação do bairro pelos clientes que se sentam nas tradicionais cadeiras Ferrante vermelhas de seu salão despojado. “Antes só vinham meus contemporâneos, moradores
dos casarões antigos e funcionários das fábricas”, conta. “Hoje
a clientela é mais jovem, com rapazes tatuados que gostam de
longas costeletas, cabelos modernos e barbas esquisitas.” Greggio
se refere aos freqüentadores das casas noturnas, aos artistas
e aos recém-chegados moradores dos novos empreendimentos
imobiliários.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Filipe Vilicic

Espalhada por uma área de 5,6 quilômetros quadrados entre a
Marginal Tietê e os bairros de Perdizes, Lapa, Pompéia, Campos
Elíseos e Bom Retiro (veja mapa ), a Barra Funda recebeu suas
primeiras edificações no fim do século XIX. A inauguração de
estações das estradas de ferro Santos–Jundiaí e Sorocabana, além
de fábricas como as das Indústrias Matarazzo, atraiu moradores à
região. Imigrantes italianos se estabeleceram em vilas operárias
e sobrados estreitos, alguns preservados até hoje. Na virada dos
anos 70, o bairro entrou em um súbito processo de deterioração
por causa da construção do Minhocão, que derrubou o preço dos
imóveis de seu entorno.

A situação começou a mudar com a abertura, em 1988, do
terminal de trem, metrô e ônibus urbanos, intermunicipais e
interestaduais. Diariamente, 500 000 pessoas passam por ali.
Em uma cidade que tanto sofre por causa do trânsito, a fartura
de transporte público conta como ponto positivo. Outro trunfo
é sua localização estratégica – perto da Marginal Tietê e de
avenidas como Pacaembu e Sumaré, mais o próprio Minhocão,
que faz a ligação das zonas Oeste e Leste. Na esteira da facilidade
de acesso, galpões e sobrados caindo aos pedaços foram
transformados em ateliês e estúdios, em um processo semelhante
ao de bairros nova-iorquinos como SoHo e Chelsea. “A Barra
Funda nasceu residencial e depois virou centro de indústria e de
comércio, mas agora volta a atrair moradores”, diz o corretor
Ricardo Gutierrez, da Imobiliária Osvaldo Gomes, desde 1965
na Rua Barra Funda. Segundo a incorporadora Klabin Segall,
nos últimos três anos o preço do metro quadrado dos novos
empreendimentos valorizou-se mais de 35%.

De 2003 para cá, oito casas noturnas passaram a animar as
madrugadas e pelo menos cinco galerias ou lojas de objetos de
decoração se instalaram ali. Centros culturais como o Memorial
da América Latina e o Teatro São Pedro tiveram sua programação
reforçada. Com a Operação Urbana Água Branca, projeto da
prefeitura que estimula a urbanização da região, já são onze

prédios residenciais saindo da planta. Em março, a prestigiada
Galeria Fortes Vilaça abriu uma unidade por lá e na próxima
semana será inaugurada a Gran Fornalha, uma superpadaria com
1100 metros quadrados. A Barra Funda renasce – como é possível
perceber nas próximas páginas – e os moradores comemoram. “É
ótimo poder sair a pé para assistir a apresentações do Memorial
com minha mulher nas sextas à noite”, anima-se o barbeiro
Greggio, que já curtiu até show de rock no badalado CB Bar.
Sua única preocupação é que o boom imobiliário traga com ele a
descaracterização. “A Barra Funda precisa crescer sem perder a
alma.”

Atrações ao longo da ferrovia

Os trilhos dos trens dividem o bairro entre Barra Funda Alta,
vizinha de Perdizes, e Baixa Barra Funda, ao lado da Marginal Tietê

Comer e beber

1. Bacalhau, Vinho & Cia.

Rua Barra Funda, 1067, 3666-0381, www.bacalhauevinho.com.br

2. Dulca Doceria

Rua Lopes Chaves, 134, 3666-4766, www.dulca.com.br

3. Fazendinha da Pompéia

Avenida Nicolas Boer, 120, 3611-1114,
www.fazendinhadapompeia.com.br

4.

Rua Lopes Chaves, 105, 3663-0433

5. Fogão Gaúcho

Avenida Marquês de São Vicente, 1767-B, 3611-3008/3289,
www.fogaogaucho.com.br

6. Gran Fornalha

Avenida Doutor Abraão Ribeiro, 79, 3392-
3466,www.granfornalha.com.br

7. Novilho de Prata

Avenida Marquês de São Vicente, 1215, 3619-5454/5458,
www.novilhodeprata.com.br

8. Ponto Chic

Largo Padre Péricles, 139, 3826-0500, www.pontochic.com.br

9. Royal

Rua Lopes Chaves, 116, 3666-5548 e 3361-0193

10. Tanta Felicità

Rua da Várzea, 418, 3392-3001

Noite

1. Berlin

Rua Cônego Vicente Miguel Marino, 85, 3392-4594,
www.clubeberlin.com.br

2.

Rua Brigadeiro Galvão, 723, 3666-1616, www.bluespace.com.br

3. Café Concerto Uranus

Rua Doutor Carvalho de Mendonça, 40, 3822-2801

4.

Rua Sousa Lima, 67, 3822-1364, www.cbbar.com.br

5. CB Bar

Rua Brigadeiro Galvão, 871, 3666-8371, www.cbbar.com.br

6.

Rua Barra Funda, 969, 3661-1500, www.clashclub.com.br

7. D-Edge

Alameda Olga, 170, 3666-9022, www.d-edge.com.br

8.

Rua Marquês de São Vicente, 1767, 3611-3121, www.eazy.com.br

9. Livraria da Esquina

Rua do Bosque, 1254, 3392-3089, www.livrariadaesquina.com.br

10.

Avenida Francisco Matarazzo, 774, 3868-5858,
www.villacountry.com.br

Arte

1. Casa das Caldeiras

Avenida Francisco Matarazzo, 2000, 3873-6696

2. Casa de Cultura Mário de Andrade

Rua Lopes Chaves, 546, 3666-5803

3. Funarte

Alameda Nothmann, 1058, 3662-5177

4. Galpão Fortes Vilaça

Rua James Holland, 71, 3392-3942

5.

Rua Brigadeiro Galvão, 996, 3662-5530

6. Memorial da América Latina

Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, 3823-4600

7. Teatro São Pedro

Rua Barra Funda, 171, 3667-0499

Arte

De volta ao circuito

Memorial reforça programação e jovens artistas criam galerias em
antigos galpões

Polêmico e feioso ícone arquitetônico e cultural da Barra Funda,
o Memorial da América Latina, projetado pelo arquiteto Oscar
Niemeyer e inaugurado em 1989, estava um tanto esquecido. No
início desta década, seus seis espaços de eventos eram usados
quase exclusivamente como palco de solenidades oficiais. Havia
cupins em obras da artista plástica Tomie Ohtake e infiltrações
nos prédios. A situação melhorou a partir de 2005. Hoje, o
elefantão recebe quase 700 000 pessoas por ano e sedia eventos
disputados, festivais como o Anima Mundi, a partir de quarta
(23), e o de Cinema Latino-Americano, que terminou domingo
(13). “O desenvolvimento da região ajudou a revitalizar lugares
que estavam em decadência”, afirma Fernando Calvozo, diretor
de atividades culturais do Memorial e ex-diretor do Teatro São
Pedro. Ele explica que estudantes, clientes de casas noturnas,
funcionários de empresas ali instaladas e o grande movimento
criado pelos fóruns criminal e trabalhista – cerca de 25 000
pessoas por dia útil – aumentaram a freqüência do público. É o
caso do apresentador Britto Junior, um dos 3 000 funcionários
da Rede Record, que fica na Rua do Bosque. “Já morei em dois
endereços da Barra Funda e acredito que essa renovação estimula
as pessoas a redescobrir a região central”, diz Britto.

Dono da loja de objetos de decoração para atacado Marco
500, o empresário Marco Aurélio Pulchério faz parte dessa
leva de redescobridores. Em 1999, ele montou seu show-room
para lojistas na Rua Brigadeiro Galvão e se mudou para um
apartamento na Alameda Barão de Limeira. “Desde que cheguei,
a vizinhança foi tomada por ateliês e galerias”, conta Pulchério,
que plantou duas árvores diante da fachada colorida de sua
empresa e fundou com amigos o Curto Circuito Barra Funda, do
qual fazem parte outras três lojas do gênero. Nenhuma novidade
no ramo das artes, porém, foi mais marcante que a abertura,
em março, da galeria Fortes Vilaça, representante de artistas
contemporâneos como osgemeos e Beatriz Milhazes. Na segunda
unidade – a primeira fica na Vila Madalena – são comercializadas
obras avaliadas em mais de 350 000 reais.

Noite

Comando da madrugada

Uma dezena de clubes noturnos atrai cowboys urbanos, gays,
roqueiros e fãs de música eletrônica

Em 2001, após uma temporada de um ano e meio na Holanda
trabalhando como cozinheiro e barman, o artista plástico Diego
Belda voltou a São Paulo atrás de um lugar para morar e montar
seu ateliê. Por indicação de colegas, mudou-se para a Barra Funda.
Dois anos depois, decidiu abrir, com um amigo, a Casa Belfiore, na
Rua Sousa Lima. “Não havia nas redondezas um lugar que servisse
um bom hambúrguer e cerveja de qualidade”, lembra. Com a
divulgação boca a boca, em menos de um ano o público subiu
de quinze pessoas por dia para mais de 100. Como a vizinhança
começou a reclamar do barulho dos shows de rock, ele inaugurou,
em 2006, mais uma casa, o CB Bar, que passou a abrigar essas
apresentações. O galpão de 300 metros quadrados na Rua
Brigadeiro Galvão chega a receber 500 baladeiros num sábado.

A Barra Funda ferve de madrugada desde 2003, quando foi
aberto, na Alameda Olga, o D-Edge, eleito pela revista inglesa DJ
Magazine, referência em música eletrônica, como um dos melhores
clubes do mundo. A guinada rumo ao agito continuou com o Berlin,
em 2005, e com a Clash e a festa GLS Flex (na Eazy), ambas de
2007. Em agosto passado chegou a Livraria da Esquina, um misto
de livraria e casa de shows alternativos que antes funcionava em
Perdizes. “A Vila Olímpia e a Vila Madalena estão abarrotadas”,
diz Marco Tobal Junior, sócio do Grupo Olympia, dono do Villa
Country e das casas de eventos Expo Barra Funda e Espaço das
Américas. “A Barra Funda virou alternativa para quem quer dançar
e curtir sem encarar trânsito e muvuca.”

Comer

Novidades à mesa

Uma descolada feijoada com chorinho e uma nova superpadaria
somam-se a restaurantes tradicionais

Nas tardes de sábado, um chorinho tocado ao vivo ecoa de um
sobrado cheio de plantas na Rua Lopes Chaves. Não há placa na
porta, mas os iniciados já sabem: é dia da Feijoada da Bia. Ao
chegar ao bairro, há quatro anos, a chef Bia Braga só buscava um
imóvel grande e barato onde pudesse preparar os pratos de seu
bufê. “Mas um almoço para quarenta amigos deu tão certo que,
um ano depois, se tornou programação fixa”, diz Bia. No início, o
fundo musical era um sambinha, resgatando a tradição do local,
que reunia os bambas no Largo da Banana, no início do século XX.
Como o som estava alto demais, optou-se pelo chorinho. Figuras
conhecidas, como o escritor Ignácio de Loyola Brandão e o médico
Drauzio Varella, costumam aparecer por lá.

Apesar de ter muitas casas para dançar, a Barra Funda ainda
reúne poucos lugares para comer e beber. Entre as opções
tradicionais, há a doceria Dulca e a lanchonete Ponto Chic. Para
suprir parte dessa lacuna, está prevista para agosto a abertura do
La Barre, com cozinha coordenada pelo chef francês Emmanuel
Bassoleil, onde funcionava a Chez Victor Brasserie. Na próxima
semana deve ser inaugurada a Padaria Gran Fornalha, na
Avenida Doutor Abraão Ribeiro. Com investimento de 3 milhões
de reais, ela terá 1 100 metros quadrados, 120 funcionários e
estacionamento para trinta carros. “O movimento dos fóruns e dos

novos prédios comerciais dessa parte do bairro vai transformar a
Marquês de São Vicente em uma nova Berrini”, exagera um dos
sócios, Florinaldo Quirino, referindo-se à conhecida avenida do
Brooklin.

Imóveis

Paisagem

Onze novos prédios residenciais quebram a monotonia plana da
antiga várzea

Exibir Infográficos

Paisagem

O gestor cultural Felipe Arruda tinha um sonho quando deixou
a casa dos pais na Vila Nova Conceição, há quatro anos, para
morar sozinho em um apartamento de 70 metros quadrados na
Barra Funda. “Queria conversar com os vizinhos e viver um clima
de bairro”, lembra. A aposta foi certeira. Arruda montou seu
canto no 3º e último andar de um edifício dos anos 50, em uma
rua pacata. Paga 500 reais de aluguel e faz boa parte de seus
passeios no entorno. Ali perto, por 125 000 reais, o economista
Pablo Luiz Cezario e sua mulher, a administradora Flávia Carneiro,
compraram um apartamento de 63 metros quadrados ainda na
planta, em 2004. Mudaram-se para lá há um mês. “O bairro é
pacífico, e nosso imóvel já vale 170 000 reais”, diz Pablo, feliz da
vida.

Jovens como eles compõem a maior parte dos compradores das
3 100 unidades dos vinte empreendimentos imobiliários lançados
desde 2002. Onze deles apareceram nos últimos dois anos, sendo
quatro prédios com apartamentos de quatro dormitórios e preço
superior a 500 000 reais. O valor do metro quadrado em novos
apartamentos dessa zona da cidade, que era de 1 900 reais em
2005, já passa de 2 500 reais, segundo a incorporadora Klabin
Segall, que constrói três empreendimentos no bairro. Embora os
espigões ameacem quebrar a monotonia plana da paisagem, os
amplos terrenos disponíveis indicam que a Barra Funda ainda tem
muito espaço para crescer.