Minha primeira aurora boreal

Estávamos terminando o jantar, por volta das 22h de uma quarta-feira de setembro, quando um grupo de hóspedes invadiu o restaurante do hotel aos gritos: “Northern lights! Northern lights!”. As mesas se esvaziaram tão rápido que parecia até incêndio: em segundos, tínhamos corrido todos para o lado de fora em busca das “luzes do norte”, como são chamadas em inglês as auroras boreais. E lá estavam elas! Minha primeira aurora boreal era verde e branca, linda, fascinante, e não se intimidou com a concorrência da lua cheia. Sob suspiros e urros dos espectadores – como os que a gente dá quando vê estrela cadente –, luzes sublimes pareciam dançar de um ponto a outro do céu, se metamorfoseando às vezes em forma de círculo, de espinha de peixe, de pentes, de asas. Devem ter ficado ali dando o show por uns 15 minutos – o suficiente para emocionar a todos.

 

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Ainda que todo viajante amante da natureza sonhe ter essa experiência ao menos uma vida, eu tinha viajado à Islândia sem essa esperança. Setembro marca apenas o inicio da temporada, que vai se intensificando à medida que as temperaturas caem e as noites ficam mais longas, e termina em meados de abril, quando se aproxima o verão. Explicando de um jeito simplificado, o fenômeno visual só pode ser visto à noite nas regiões polares quando partículas expelidas pelo sol atingem o perímetro da alta atmosfera da Terra, canalizadas pelo campo magnético do planeta. Pela internet ou aplicativos de celular, os islandeses tentam saber da probabilidade de as auroras ocorrerem. Mas a visualização sempre depende das condições climáticas do lugar onde está o espectador.

 

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É difícil planejar uma “caçada” às auroras. No dia seguinte, por exemplo, o céu fechou e só vimos nuvens cinzas espessas. A sorte bateu de novo à nossa porta dois dias depois, quando aconteceu uma tempestade solar justamente quando estávamos em outro ponto da ilha, também distante do Centro, em uma casa de campo alugada. Novamente durante a hora do jantar, o guia saiu na varanda e gritou que as auroras tinham voltado. Mais abraços, daqueles felizes de réveillon. Dessa vez, no entanto, as cores estavam diferentes e a dança durou o dobro do tempo. Agora as luzes verdes e brancas tinham ganhado também tons de azul e roxo. Fotografá-las, no entanto, não foi tão fácil. Nem toda lente capta a cor. Sem tripé a foto treme. E a imagem fica melhor quando existe o contorno de uma pessoa, uma casa ou uma árvore com as luzes ao fundo. Ter visto a aurora por duas noites – em apenas sete que passei na ilha –  justifica a fama da Islândia como um dos melhores pontos de observação no planeta. Ela está localizada à beira do Círculo Polar Ártico, onde ficam outros lugares bons para ver auroras, como Noruega, Suécia, Finlândia e Groenlândia, além de partes do Alasca e da Rússia. Ainda que exista também a aurora austral, esta é menos famosa porque são poucas as pessoas próximas das calotas de gelo da Antártica onde elas ocorrem – basicamente pesquisadores e turistas de cruzeiros.

 

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Na Islândia, há agências que vendem pacotes com esse foco. Para garantir que os viajantes não percam o fenômeno, alguns hotéis do interior da ilha acordam seus hóspedes no meio da noite. “Na hora do check-in, o turista anota o número do seu quarto em uma folha caso queira ser despertado para ver as luzes”, explica Fridrik Pálsson, o proprietário do Hotel Rangá (www.hotelranga.is), onde vi minha primeira aurora. Localizado a 100 quilômetros da capital Reykjavík, o Rangá se tornou um dos principais destinos dos caçadores de auroras na Islândia. “Ela nos garante uma boa taxa de ocupação de 84% no ano”, conta ele, que deixa um monitor exibindo filmagens de auroras anteriores permanentemente no hall de entrada, ao lado de um urso polar empalhado (que veio da Groenlândia). “Só quem não gosta da aurora é nosso chef de cozinha, que sempre vê os clientes desaparecerem subitamente quando a aurora aparece bem na hora do jantar”, brinca.

 

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