Hoi An, no Vietnã, é um templo de charme e delicadeza

Era fim de tarde do meu primeiro dia no Vietnã e decidi fazer aquela caminhada inicial de exploração no entorno do meu hotel, o Anantara, que fica bem ao lado do Centro Histórico. Eu estava em Hoi An, uma cidade colonial tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco mas pouco visitada por brasileiros – que conhecem mais as metrópoles de Hanói e Ho Chi Min (a antiga Saigon) e a fantástica baía de Halong.

 

Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Assim que adentrei as ruas de paralelepípedos da Old Town, a Cidade Antiga, sempre fechadas ao trânsito motorizado, já me senti entrando em uma redoma de paz. Afinal, o enxame de motocicletas que buzinam o tempo todo no Vietnã tinha ficado para trás. Aos poucos me vi cercado por casarões e sobrados preservados de quando aquele era um importante porto do Sudeste Asiático, entre os séculos 15 e 19. Hoje ocupadas por cafés, restaurantes, galerias de arte e lojas, as construções incorporaram nas decorações internas e nas fachadas um costume oriental que se tornou o símbolo de Hoi An: as lanternas coloridas. Bastou a noite ameaçar chegar e as luzes foram sendo acesas uma a uma, enchendo meu caminho de cor e magia.

 

Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

O encantamento de boas-vindas estava só começando e se prolongaria pelos meus cinco dias ali. A começar pela surpresa daquele primeiro entardecer – que não tinha acabado. Quis me perder entrando em uma viela e me deparei com uma cena inesquecível. Do alto da pequena ponte que conecta o bulevar na beira do Rio Thu Bon com o mercado noturno da ilhota vizinha de An Hoi, dezenas de pessoas soltavam na correnteza umas espécies de barquinhos coloridos de papel com velas acesas.

 

Ritual de acender velas em barquinhos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara Hoi An)
Velas em barcos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara)

 

Eu já tinha visto antes algumas fotos daqueles arranjos em forma de flor de lótus flutuando entre os barcos do cais, mas acreditava se tratar de um ritual raro. No dia seguinte, meu guia Nguyen Van Trieu me explicaria: os visitantes têm repetido diariamente a cerimônia de encaminhar desejos a Buda que antes só era feita pelos nativos em datas especiais. Sorte de quem está lá na lua cheia: dizem que o comércio desliga suas luzes para que apenas as velas dos rios sejam o destaque no cenário de sonhos de Hoi An.

 

Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Ninguém diz exatamente quando a tradição teve início. Sabe-se apenas que o comércio fluvial no estuário do Rio Thu Bon data do século 7, quando o império do povo Cham dominava a região. “Hoi An sobreviveu incrivelmente aos muitos conflitos que o Vietnã tem vivido, ao longo da história, com países como China, Japão, França e Estados Unidos”, me contaria o guia Trieu, durante a caminhada histórica pela fascinante Old Town.

 

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A Ponte Japonesa, que aniversaria em 2017

 

A parada principal do tour, a Ponte Japonesa, por sinal, comemora 400 anos em 2017. Restrita a pedestres e com um altar a Buda em seu anexo, a ponte um dia dividiu Hoi An em chineses para um lado, japoneses para outro. E até hoje serve de fundo para as pomposas fotos dos casais de noivos da região.

 

Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Desde que Hoi An abriu suas portas ao turismo, nos anos 1990, quando se libertou do embargo imposto pelos Estados Unidos ao país desde a Guerra do Vietnã, antigos inimigos passaram a conviver em harmonia no ambiente cosmopolita de Hoi An.

 

Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Os chineses costumam constatar sua influência cultural nos muitos templos budistas. Japoneses adoram circular e fotografar sentados em algo parecido com um carrinho de bebê para adultos, sempre empurrados pela bicicleta de um vietnamita. Já os franceses se orgulham por terem inspirado a boa mesa em Hoi An. E os americanos são os campeões das encomendas de roupas sob medida nas muitas alfaiatarias da cidade.

 

Detalhe do passeio no barco do Anantara Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Detalhe do passeio no barco do Anantara (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Sete em cada dez habitantes vivem do turismo, conduzindo sempre de forma doce e sorridente os visitantes em passeios de barco (os noturnos são os mais charmosos), nas pedaladas até a praia no Mar do Sul da China (a 5 quilômetros dali, cruzando arrozais) e atendendo em lojas bacanas que vendem de pôsteres originais de inspiração socialista até réplicas dos lendários barcos que ancoraram no mítico porto de Hoi An.

 

Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool  (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Eu fiz e recomendo de tudo um pouco – os passeios, as roupas, a pedalada… E, é claro, o lindo ritual das velas no rio para perpetuar a tradição.

 

Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

SANTUÁRIO DE MY SON: VALE A ESTICADA

Investi um dia da minha estada em Hoi An para uma bela esticada: a visita ao Santuário de My Son. Localizada a 1 hora de Hoi An, My Son consiste em várias ruínas arqueológicas da antiga capital política e espiritual do Império Champa, do povo Cham, que habitou essas montanhas entre os séculos 4 e 13. Com pequenas torres e culto a deuses hindus, elas fazem lembrar a arquitetura de Angkor, os fantásticos templos do vizinho Camboja, e se tornaram outro Patrimônio da Humanidade vietnamita.

 

Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Serviço:

Durma bem

Dúvida crucial na hora de reservar seu hotel: é melhor ficar na cidade ou na praia? Eu optei pelo Anantara Hoi An, coladinho no Centro Histórico, que fica à beira-rio e está a poucos passos das principais atrações de Hoi An.  E amei. Quem preferir o sossego e a brisa à beira-mar pode conferir a nova faceta do The Nam Hai, que em dezembro passou a integrar a seleção dos hotéis da rede Four Seasons.

Hotel Anantara Hoi An: meu abrigo à beira-rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Coma bem

O The Morning Glory (106 Nguyen Thai Hoc St) é um clássico: amplo, mistura especialidades vietnamitas (como o cao lau, uma sopa de noodles com carne de porco) com pratos internacionais. Menor e escondido, o NU Eatary (10A Nguyen Thi Minh Khai St) comporta no máximo 20 pessoas e serve só delícias locais em ambiente caseiro.

Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Para uma experiência ímpar, tome um chá em silêncio no Reaching Out e seja servido pelo simpático staff só de moças surdas-mudas.

Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível
Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível

 

Viaje bem

Não existem voos diretos entre Brasil e Vietnã. A rota mais corriqueira é via Bangkok, na Tailândia, servida por várias companhias aéreas brasileiras. Da capital tailandesa, sim, voa-se, sem escalas em voos de 1h40, à Danang, cidade a 30 quilômetros de Hoi An. A viagem pelo Vietnã pode ser incrementada se incluir Hanoi, Halong Bay e Ho Chi Min.

Comércio local: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Comércio local de roupas: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Código de ética Same Same: o jornalista Daniel Nunes viajou ao Vietnã por sua conta e pagou suas despesas em Hoi An de transporte, alimentação e passeios. A hospedagem no hotel Anantara Hoi An foi uma cortesia.

Renascida das ondas

Aconteceu em 2547. Uma onda de 30 metros de altura ergueu-se no litoral do antigo Reino do Sião e avançou terra adentro. Destruiu casas, afogou pessoas, engoliu o que viu pela frente — e de forma tão avassaladora que pareceu deixar o lugar irrecuperável. Descrito assim, parece até uma lenda remota. Mas o ano de 2547 da era budista equivale ao 2004 do calendário gregoriano ocidental, e o velho Sião nada mais é que o atual Reino da Tailândia, onde morreram 8 mil vítimas do gigantesco tsunami do Oceano Índico – entre eles, 2 mil turistas de 16 países.

 

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Nove anos se completaram no último dia 26 de dezembro de 2013 – ou de 2556, como preferem os súditos do rei Bhumibol Adulyadej, no trono desde 1946. E, para surpresa dos visitantes que têm desembarcado anualmente no antes devastado litoral sul do país (mais de 5 milhões de pessoas, um recorde nunca atingido antes da tragédia), a região parece absolutamente recuperada. Sua nova face é fundamental para que a Tailândia, que já recebe 19 milhões de estrangeiros por ano, dobre até 2016 os dividendos trazidos pelo turismo.

Busquei evidências dessa renovação desde que pousei, em junho, vindo da capital Bangcoc, no aeroporto de Phuket, principal base para explorar as idílicas praias tailandesas. Já no caminho para o hotel percebi que a cidade que me recebia com sorrisos não mais chorava seu passado triste. Os pontiagudos templos e imagens de Buda se exibiam aqui e ali, turistas chineses e americanos aproveitavam os preços baratos do comércio para encherem suas sacolas com roupas e artesanato nos arredores da agitada praia de Patong, outdoors anunciavam brutas lutas de muay thai e delicadas apresentações de dança e música típicas.

 

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Em meio a muitas obras pelas ruas, a hotelaria se renovou de forma a não preservar qualquer resquício dos tempos de abalo – quando seis da cada dez hotéis desapareceram em praias como Khao Lak e Ko Phi Phi (esta última celebrizada mundialmente pelo filme A Praia, protagonizado por Leonardo Di Caprio). Com cerca de 50.000 leitos na região de Phuket, os hotéis disputam qual é o mais cênico e original, qual ostenta mais luxo, qual traduz melhor a alma exótica e tropical da Tailândia.

 

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No alto dos abismos da Baía de Kamala, o staff do exclusivíssimo hotel Paresa nos recebeu com água de coco gelada e toalhinha refrescante no check-in – além de 270 graus de visão do Mar de Andaman. Seu azul se confundia com o das piscinas de vista infinita (presentes na maioria das 49 acomodações, assim como as máquinas de café expresso e os tocadores de mp3). O spa, naturalmente, oferecia o que a Tailândia tem de melhor: suas massagens incríveis. E, em meio ao cenário vertiginoso avistado de qualquer parte, um conforto especial: estar a uma altura que tsunami algum alcançaria.

 

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O ambiente desse e do outro hotel chique que eu conheceria – o premiado The Sarojin, na província vizinha de Phang Nga – não esconde ter sido pensado especialmente para casais em lua de mel (7% dos turistas do país). No The Sarojin, tudo inspira romantismo. A começar da iluminação dos restaurantes: um deles tem pé-na-areia e apresentações culturais noturnas à luz de tochas, outro fica colado a um bar com degustações de surpreendentes vinhos tailandeses. Os terraços contam com piscinas privadas. E, orgulho nacional, a gastronomia tailandesa mescla com perfeição os sabores salgado, doce, azedo e picante em receitas que usam e abusam de curries, coco, capim-limão – vale a pena investir em algumas das aulas de culinária oferecidas nos hotéis.

 

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Por mais simpáticos que sejam os funcionários dos hotéis e restaurantes, eles jamais se arriscam a falar a palavra “tsuna…”. Por culpa do dito cujo, todo mundo perdeu alguém querido. Os turistas respeitam. E deixam para trocar ideias sobre os bons prazeres dos mergulhos nas ilhas Similan e Surin, as escaladas em rocha em Krabi, os passeios de caiaque e escuna entre as cavernas marinhas e altas rochas da Baía de Phang Nga (onde fica a ilhota onde foi gravado 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro) ou os passeios em lombo de elefantes, animal reverenciado nacionalmente por ser símbolo de sabedoria e força. Não são poucos os relatos, por sinal, desses mamíferos emitindo sons estranhos de alerta ou fugindo para o alto das montanhas horas antes da chegada do tsunami de 2547 – ops, de 2004 –, em uma suposta evidência de que teriam sensibilidade para captar com antecedência as vibrações de terremotos como os que originaram aquele tsunami.

 

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Quase uma década depois do susto, os elefantes do litoral tailandês caminham em paz e são bem treinados para divertir os turistas – o meu nem se importou de cruzar um riacho e me dar um belo banho. Nas ruas do centro ou nas vilas de pescadores, só o que faz lembrar a tragédia são os alto-falantes e placas que orientam rotas de fuga para o caso de – toc, toc, toc – algo parecido voltar a ocorrer. Em todos os dias em que viajei por ali, a única lembrança física que encontrei (além das reconstruções impecáveis da infraestrutura turística) foi um simplório memorial do tsunami erguido em torno de um barco policial que foi empurrado a quase 2 quilômetros da praia de Khao Lak.

Felizmente, do mesmo jeito que veio, a onda se foi. E as praias da Tailândia, agora voltadas para o futuro, continuam a encantar seus visitantes.

 

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MEMORIAL Única lembrança do tsunami de 2004 facilmente visitável a partir da praia da Khao Lak, o barco policial 813 Buretpadungkit foi empurrado a quase 2 quilômetros da praia. Hoje, diante dele, uma barraca despojada vende livros e exibe placas recontando uma das maiores tragédias da história recente da humanidade, que matou 230 mil pessoas em 14 países.

 

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ONDE FICAR   PARESA Resort de luxo localizado no alto do morro na Baía de Kamala, com visão panorâmica do mar e dois restaurantes. Incríveis piscinas de vista infinita. 49 Moo 6, Layi-Nakalay Road, Kamala Kratu, tel. +66/76 30-2000, paresaresorts.com   THE SAROJIN Térreo, de frente para o mar, o hotel cinco estrelas fica na Baía de Phang Nga e também conta com dois restaurantes. Fácil acesso para pontos de mergulho. 60 Moo 2, Kukkak, Takuapa, tel. +66/76 427-9004  

ONDE COMER RAYA THAI CUISINE Despojado restaurante familiar de comida típica tailandesa localizado em um sobrado de arquitetura sino-portuguesa. Capricha nos frutos do mar. 48 New Debuk Rd., Muang Phuket, tel. +66/76 23-2236  

ONDE PASSEAR SEA CANOE Passeios de barco e de caiaque feitos a partir de Phuket que exploram a Baía de Phang Nga e a região de Krabi. 125/461 Moo 5, T. Rassada, A. Muang, tel. +66/76 5288-3940, seacanoe.net  

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Embaixada Real da Tailândia – thaiembassybrazil.com; Tourism Authority of Thailand – tourismthailand.org

A cidade floresce

O espetáculo do encontro dos rios Negro e Solimões. O fantástico Teatro Amazonas, palco de disputados recitais de ópera. E só. Depois de cinco anos sem aterrissar em Manaus, eu achava que estes ainda fossem os dois passeios bacanas que um forasteiro tinha para explorar no principal portal da Amazônia brasileira. Ledo e delicioso engano. Bastou o fotógrafo Adriano Fagundes e eu sairmos do Eduardo Gomes, o aeroporto internacional, e entrar no carro do Leleco, nosso amigo carioca que adotou como sua a capital do Amazonas, para começar a sucessão de boas surpresas enquanto rodávamos pela cidade. “Uau, que ponte estaiada é aquela sobre o Rio Negro? Olhem quanta gente praticando stand-up paddle no rio! Que bacana estão a ciclovia e o calçadão de Ponta Negra…” Leleco respondia apontando mais novidades: “Ali fica o estádio da Copa do Mundo,  o Arena da Amazônia. Para lá está um dos shoppings recém-inaugurados. Por aqui se chega a um hotel de golfe aberto há 3 anos…” Nosso anfitrião tinha uma proposta de agenda tentadora: como não estávamos na época baixa dos rios (julho a fevereiro), quando surgem as belas praias de água doce, iríamos a alguns restaurantes de comida amazônica contemporânea, ao ensaio para o festival de Parintins e optaríamos entre degustar alguns dos 900 rótulos da Cachaçaria do Dedé ou uns drinques no O Chefão, transado bar do Centro Histórico inspirado no filme O Poderoso Chefão. Mal tínhamos começado a suar com o calor de mais de 30 graus daqueles trópicos e já notávamos que Manaus não era mais a mesma. Em pouco mais de meia década, havia aprendido a reciclar a riqueza dos rios e da floresta à sua volta para se transformar em uma metrópole com mais qualidade de vida, autêntica, cosmopolita e surpreendente.

A nova ponte estaiada da capital
A nova ponte estaiada da capital

O URBANO NA SELVA É claro que a capital do estado do Amazonas nunca perdeu sua vocação de ponto de partida para mais de uma dezena de bons hotéis de selva. A poucas horas da metrópole de 1,8 milhão de habitantes estão as principais bases para explorar a floresta com árvores de mais de 30 metros de altura e os rios de margens inalcançáveis, habitados por piranhas com dentaduras ameaçadoras, botos tucuxi saltitantes e jacarés gigantescos. Nós mesmos encerraríamos nossa jornada tendo contato com toda essa fauna em três dias intensos no mais badalado deles, o Anavilhanas Lodge, a 180 quilômetros de Manaus. O percurso leva 2h30, 2 horas a menos do que as 4h30 necessárias antes de  serem inaugurados, em 2011, os 3,6 quilômetros do novo cartão-postal da cidade, a Ponte Rio Negro. A construção da maior ponte fluvial e estaiada do Brasil acabou com a necessidade de uma balsa para cruzar o rio, facilitando o acesso ao hotel e a toda a região turística de Novo Airão, base para conhecer o arquipélago de Anavilhanas, formado por mais de 400 ilhas. Com 16 chalés, quatro bangalôs e acesso wi-fi até na área da piscina de borda infinita, o único hotel da rede Roteiros de Charme no Norte do país virou exemplo de hospedaria tão bem estruturada que atrai até aquele turista urbanóide que não consegue se desconectar da metrópole mesmo estando no meio do mato. Mas o caminho contrário, com a realidade da floresta invadindo o ambiente urbano, é o fluxo mais recente em Manaus. Graças ao resgate das raízes amazônicas promovido pela juventude local, certas preciosidades culturais estão mais acessíveis dentro da própria capital.

Um dos quartos do Anavilhana Lodge, em Novo Airão
Um dos quartos do Anavilhanas Lodge, em Novo Airão

MENU AMAZÔNICO Com apenas 27 anos, o catarinense radicado em Manaus Felipe Schaedler é o melhor representante da geração que tem transformado a exuberância da selva em atrativo de primeira linha na cidade. Felipe e seu empreendimento, o Banzeiro, ganharam os prêmios de chef e restaurante do ano em 2011 e 2012, segundo a revista Veja Comer & Beber – Manaus. Curioso, Felipe costuma partir em expedições à floresta explorando ingredientes para suas criações gastronômicas. No ano passado, o mestre-cuca foi condecorado pela própria presidente Dilma Rousseff, em Brasília, com a Ordem do Mérito Cultural. “Minhas influências são caboclas e indígenas”, define ele, que vive na cidade desde os 16 anos. “Amo Manaus e daqui não saio.” Sua paixão pelo ambiente selvagem está evidente na decoração da casa, localizada no bairro de Nossa Senhora das Graças, e inclui uma canoa típica pendurada na parede, lustres feitos de fibras naturais e fotos de ribeirinhos clicadas pelo próprio chef. Dos dadinhos de tapioca servidos na entrada às suas premiadas costelas de tambaqui, finalizando no petit gateau recheado de cupuaçu, todas as delícias que experimentamos ali têm uma pitada de Amazônia.

Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica da cidade
Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica

Não é só no templo do chef mais badalado de Manaus, porém, que a nova cozinha da Amazônia viria a se revelar para nós. O sushiman Hiroya Takano, do restaurante Shin Suzuran, em Vieiralves, surpreende usando peixes de rio em suas criações. “Para realçar o sabor, ralo pimenta murupi sobre o sashimi de tucunaré e mergulho o pirarucu no missô com castanhas por um dia inteiro”, conta. Sem nada de moderno – mas com uma fartura única ––, o Chapéu de Palha da Benção sustenta esse nome em função das formas do telhado, feito com trançado típico a mais de 12 metros de altura. “Fiquem à vontade para se servir em nosso bufê com mais de dez espécies de peixes de água doce”, nos diria o  proprietário, o evangélico Manoel Pestana. A comida, simples e saborosa, parece realmente abençoada.   TACACÁ MUSICAL Antes de chegar às boas mesas manauaras, todo esse quase exótico universo de pescados, pimentas, ervas e frutas costuma colorir e aromatizar os corredores do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Erguido em 1883, a construção art nouveau de ferro beira o Rio Negro justamente no ponto de onde saem os clássicos passeios de barco que mencionei no início do texto: em uma hora, as embarcações atingem o ponto onde as águas amarronzadas do Solimões – extensão do Amazonas, o maior rio do planeta – ladeiam, sem se misturar, as escuras correntes do Negro. Se você, como nós, já teve esse prazer, invista nas bancas do mercado, com todo tipo de farinha de mandioca (seca, d’água, de tapioca, Uarini…), todo um novo alfabeto de frutas (abiu, camu-camu, taperebá, uxi…) e ervas que, dizem, levantam até defunto. “Em 56 anos trabalhando com isso, aprendi as propriedades curativas de cerca de 1000 plantas”, orgulha-se a simpática Dona Judith Formoso, 77 anos. Delícias de rua como o x-caboclinho (sanduíche com lascas de uma fruta chamada tucumã e queijo coalho), o famoso tacacá (aquele caldo de tucupi com goma de tapioca, folhas de jambu e camarão seco) e o açaí (aqui comido salgado, com farinha) também podem ser provados por ali mesmo – embora se espalhem também pelo entorno do Largo de São Sebastião, a mais famosa praça da cidade, diante do Teatro Amazonas. Nas noites de quarta-feira, de abril a dezembro, o ilustre Tacacá da Gisela mescla seus sabores amazônicas com boa música no chamado Tacacá na Bossa. Até Ed Motta já deu uma canjinha entre os músicos que se apresentam.

Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus
Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus

ÓPERA INDÍGENA Coração cultural de Manaus, o entorno do teatro abriga boas lojas de artesanato dos índios da Amazônia, sorveterias incríveis, o quarentão Bar do Armando e o frescor do Boutique Hotel Casa Teatro, aberto há um ano e meio em um dos fantásticos casarões históricos do Centro. E ganha um glamour único entre abril e maio. É quando o Teatro Amazonas abriga o Festival Amazonas de Ópera, o único do gênero na América Latina. Em 2013, foram 33 atrações ao longo de 45 dias. “É uma honra difundir a música erudita para a gente da minha cidade”, diz a soprano Carol Martins, 31 anos, solista da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi. No encerramento do 17o festival, em maio, ela também cantou na ópera O Morcego, de Johann Strauss Filho, que reuniu 15 mil pessoas ao ar livre, no Largo de São Sebastião, diante do teatro, mesmo debaixo de chuva. A tradição das óperas nesse peculiar teatro com uma bandeira do Brasil na cúpula vem do século 19, tempo em que Manaus virou uma espécie de Paris das Selvas em função de toda a fortuna que circulava na cidade. Foi graças à exploração massiva da borracha de seus seringais que a cidade inaugurou, já em 1896, um teatro daquele porte. Tão portentosos quanto as óperas, mas bem mais populares, são os ensaios para o Festival Folclórico de Parintins, que chegam a arrastar cerca de 10 mil pessoas ao Centro de Convenções de Manaus, o chamado Sambódromo, e à Arena do Hotel Tropical de março a junho. Embora a grande festa do boi, com temática inspirada em lendas indígenas e costumes ribeirinhos, aconteça a distantes 370 quilômetros dali e só por três dias do mês de junho, partem da capital do estado cerca de 50 mil pessoas que ajudam a fazer a festa dos bois Garantido, o vermelho, e Caprichoso, o azul. A vibração do público e as alegorias fantásticas de personagens míticos da floresta, como a índia mais bela e o poderoso pajé, convencem qualquer viajante a querer estar, ao menos uma vida, na festa do boi de Parintins.

Show no  Jack’n’Blues Snooker Pub
Show no Jack’n’Blues Snooker Pub

A BIENAL DA MATA Em julho, os ouvidos dos manauaras buscam outro ritmo: o de jazz. O 8o  Festival Amazonas de Jazz mobilizou, em 2013, 60 músicos tanto na capital quanto no município vizinho de Manacapuru, a 70 quilômetros. O jazz, por sinal, tem espaço cativo na agenda de entretenimento da cidade: assistimos um belo show no Jack’n’Blues Snooker Pub, no agitado bairro noturno de Vieiralves, e uma jam session de primeira linha na Universidade do Estado do Amazonas – UEA, com direito a performance da artista Hadna Abreu pintando um quadro enquanto a banda tocava. Hadna tem 24 anos e exibe sua primeira mostra individual na Galeria do Largo, diante do teatro Amazonas, até 15 de setembro. “Me inspirei na estética dos meus avós para criar personagens fantásticos que interagem com árvores e pássaros do ambiente amazônico.”

 

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Grafitti em muro diante do sambódromo

 

O mesmo resgate das raízes culturais e históricas realizado com sucesso pelos espetáculos de ópera e do boi começa a ser trilhado também pelas artes plásticas. Como se não bastassem os belos grafites pelas ruas da cidade – como os lambe-lambes de Hadna, colados com goma de tapioca ­–, ainda em 2013 Manaus planeja ser a principal sede da Amazônica I, primeira bienal de artes visuais do estado. “Com base no sucesso do formato da megaexposição Documenta, em Kassel, na Alemanha, criamos uma mostra descentralizada, espalhada por diferentes pontos da cidade e do estado”, diz Cléia Vianna, comandante da Galeria do Largo e uma das organizadoras do evento. “Teremos desde desenhos de Di Cavalcanti até obras de novos artistas locais”, conta. Mais um exemplo de como os habitantes de Manaus aprenderam a beber da fonte natural e cultural da grande floresta que os circunda.

 

SERVIÇO:

amazonasfestivalopera.com amazoniagolf.com.br anavilhanaslodge.com arenadaamazonia.com.br restaurantebanzeiro.com.br www.casateatro.com.br cachacariadodede.com.br festivalamazonasjazz.com.br parintins.com suzuran.com.br tropicalmanaus.com.br visitamazonas.am.gov.br

Retrospectiva: minhas top trips 2013

Especialmente para produzir o livro sobre o rio Amazonas, rodei um bocado pelo Brasil no ano passado. Comecei 2013 no Monte Roraima, nas alturas do Norte do país. Fiz também uma rota oeste-leste completa: entrei na Tabatinga amazônica navegando desde Santa Rosa, no Peru, e Letícia, na Colômbia, e alcancei o Atlântico logo ali no Amapá, pertinho do Oiapoque. Sem planejar, acabaria o ano também ao nível do mar no extremo Sul, cruzando a fronteira do Chuí. E acabei fazendo o ranking das minhas 10 melhores experiências de viagem no ano. Continuar lendo Retrospectiva: minhas top trips 2013

Orgulho inca

 

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Primeiro o rei inca reverencia o sol. “Fonte quente e princípio da vida, te saudamos na sua mansão sagrada de Cusco, onde vives com a lua”, diz em quechua, a língua oficial do império. Em seguida, sopra folhas de coca aos quatro ventos e invoca os “apus”, espíritos que habitam as grandes montanhas dos Andes peruanos. “Apu Ausangate, apu Salqantay, apu Saqsaywaman, vamos à grande cerimônia”. Repleto de adereços dourados e penas, passa a realizar, uma a uma, as oferendas: despeja do jarro um pouco de chicha, bebida feita à base de milho fermentado, acende quatro fogueiras, oferece aos céus um pão sagrado… O rito de agradecimento pelo calor e pelo alimento dá sequência a mais uma série de cantos e danças de 682 súditos – entre eles 80 músicos. Todos seguem em procissão, bem paramentados com roupas coloridas e reluzentes como as do imperador índio.

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É 24 de junho e estamos em pleno solstício de inverno no Hemisfério Sul. Não fossem os celulares, os óculos de sol e as câmeras fotográficas que se multiplicam entre os 40.000 espectadores estimados, daria quase para acreditar que a cena se passa no século 15, durante a celebração original do Inti Raymi, a Festa do Sol. Este era o principal evento do calendário dos incas, que entre 1438 e 1533 formaram o maior império da América pré-Colombiana e que tinham em Cusco sua capital. Segundo os relatos do historiador Garcilaso de la Vega (1539-1616), cidadão cuzquenho filho de uma princesa inca e um invasor espanhol que escreveu quase tudo o que se sabe sobre a festa, o festival homenageia Inti, o Deus Sol da mitologia inca. Por meio da festa, rogava-se para que o astro rei garantisse abrigo e comida durante os dias frios vindouros. Cinco séculos depois, o Inti Raymi moderno reproduz esse mise-en-scène em forma de espetáculo, o maior do Peru. Ele encerra quase um mês de festas em Cusco, que fica a 1 hora de voo da capital Lima. E tem sido o principal atrativo para que, em cada um dos últimos dois anos, 180.000 turistas tenham desembarcado na cidade em junho, lotando os 94 hotéis locais.

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Saqsaywaman

SANGUE INDÍGENA

Os 3.800 turistas, estrangeiros em sua maioria, que se apertam por duas horas nas arquibancadas do sítio arqueológico de Saqsaywaman, onde acontece o terceiro e mais importante ato da Festa do Sol, provavelmente não sabem. Mas, sem o Inti Raymi, Cusco não teria se transformado em um dos mais procurados destinos do planeta. Só em 2012 foram quase 2 milhões de visitantes. “O resgate dessa cerimônia, nos anos 1940, mostrou aos cuzquenhos que deveríamos ter orgulho das nossas raízes incas”, conta Carlos Milla Vidal, dono do hotel boutique Casa San Blas e estudioso do tema. Segundo Milla, nessa época, quando Cusco tinha só 20.000 habitantes (hoje são 500.000), ter sangue indígena ali não era motivo de honra. Bacana naquela cidade que não conhecia o turismo e tampouco o progresso era ter traços hispânicos como os dos colonizadores europeus.

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Foi quando Humberto Vidal, o tio de Milla, teve a sacada de repetir a cerimônia do Sol, que havia acontecido pela última vez em 1535 e desaparecido junto com a cultura inca. “Ao vestirem seus ponchos tradicionais e repetirem tradições de seus ancestrais, os cuzquenhos passariam a resgatar sua auto-estima indígena e a se tratar como irmãos”, conta Roger Valencia Espinoza, proprietário da agência de viagens Andean Lodges e também fascinado pelo assunto. Deu certo. A ressurreição da Festa do Sol 400 anos depois da sua extinção passou a ser o ápice da celebração do aniversário de Cusco – não por acaso comemorado no mesmo dia. Em junho passado, alunos de diferentes colégios e integrantes de associações  e grupos de bairros disputaram quem tinha a performance folclórica mais festiva na charmosa Plaza de Armas. A praça ganhou uma estátua dourada do rei inca e, em seus postes antigos de luz amarelada, foram hasteadas várias bandeiras do arco-íris, cor oficial da cidade.

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TEMPLO SAGRADO

Três décadas antes da Festa do Sol ressurgir em Cusco, uma descoberta científica 110 quilômetros a noroeste dali nascia como embrião do que se tornaria mais tarde outro importante propulsor da revalorização da cultura inca. Foi em 1911 que o explorador norte-americano Hiram Bingham encontrou Machu Picchu, escondida sob uma floresta à beira do Rio Urubamba. Formada por construções de pedras erguidas de forma a bem aproveitar as águas das chuvas, a inclinação do terreno, os tremores de terra e os raios do sol, a maior relíquia arqueológica da América do Sul foi um discreto parque de diversões de arqueólogos até que o turismo começasse a acontecer ali e em Cusco, na segunda metade do século 20.

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Machu Picchu

Muito se aprendeu sobre os incas a partir de Machu Picchu. Depois de passar um século sob os cuidados dos estudiosos da Universidade de Yale, em Connecticut, nos Estados Unidos, 366 objetos incas encontrados pela equipe de Bingham voltaram, em 2011, ao solo cuzquenho. Eles agora fazem parte do Museo Machu Picchu Casa Concha e, assim como obras do Museo Inka e do Museo de Arte Precolombino de Cusco, servem de inspiração para os artesãos locais. A cruz inca e uma série de grafismos estão presentes tanto nas peças em ouro e prata vendidos na rede local de joalherias Inka Treasure como nos tecidos coloridos feitos com lã de lhamas e alpacas andinos – e comercializados em fantásticas feiras de lugarejos como Pisac, a meia hora de Cusco, no chamado Vale Sagrado.

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Feira de artesanato de Pisac

TREKKING NAS ALTURAS

Convertido em destino obrigatório para amantes de relíquias arqueológicas e para pessoas do mundo todo que passaram a se interessar pela cultura andina, Machu Picchu se tornou o templo inca por excelência – mesmo que a ciência ainda não afirme categoricamente se aquilo foi um altar, um ponto privilegiado de observação astrológica, um refúgio de inverno do rei ou uma comunidade agrícola de técnicas avançadas. Não importa. Todos os meses, 100.000 pessoas, 70% delas vindas do exterior, batem perna por lugares fotogênicos da cidade sagrada como a Porta do Sol e o cume da montanha vizinha, o Wayna Picchu.

Machu Picchu vista do alto do pico Wayna Picchu
Machu Picchu vista do alto do pico Wayna Picchu

A maioria dos turistas chega de trem, mas são os apreciadores das longas caminhadas que descobrem o quanto os incas tinham de fôlego. Na Trilha Inca clássica, é possível conhecer ao menos quatro sítios arqueológicos ao subir e descer ladeiras ao longo de 42 quilômetros e quatro dias. Como há limitação no número de caminhantes por dia, a fila de espera é longa: em junho, só havia reserva para quem quisesse fazer o roteiro em outubro (e desembolsando cerca de 350 dólares para as agências).

Ausangate
Ausangate

O efeito positivo dessa superlotação é que os andarilhos foram obrigados a descobrir outras rotas andinas tão ou mais belas que a Trilha Inca, como as de Lares e Salkantay. A menos explorada turisticamente chama-se Ausangate e permite mais interação com comunidades tradicionais e suas heranças da cultura inca. Em caminhadas de 5 dias por altitudes entre 4 e 5 mil metros, em meio a picos nevados, costuma-se ficar hospedado em alojamentos quentinhos onde a comida e a música ficam por conta de legítimos descendentes incas.

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Vale de Ausangate

 

GASTRONOMIA DE RAIZ

O passado inca foi apagado da paisagem quando o conquistador Francisco Pizarro dominou Cusco, em 1533, mas as raízes peruanas sobrevivem nos hábitos dos cusquenhos. A comida continua sendo aquela ofertada ao Deus Sol nas cerimônias de Inti Raymi. Com grãos dos mais variados tamanhos e cores, o milho — que representava 65% da dieta dos moradores de Machu Picchu — é vendido como doce ou salgado nas ruas, ou mesmo cru, em mercados como o de San Pedro. A chicha é consumida pura ou na forma de um refresco roxo chamado chicha morada, tão doce quanto a folclórica Inka Cola (que, dizem, é mais vendida do que a Coca-Cola). E, embora a Plaza de Armas tenha McDonald’s e Starbucks, muitos turistas preferem os estabelecimentos tradicionais para comer pastel de choclo (doce de milho) e tomar chá de coca (bom para amenizar o mal-estar causado pelos 3.400 metros de altitude de Cusco).

Plaza de Armas, Cusco
Plaza de Armas, Cusco

Mas é nos bons restaurantes que os chefs têm exibido por que a cozinha do Peru se tornou um atrativo e tanto. A começar pelo Chicha, de Gaston Acurio, o cozinheiro mais famoso do país – que, por sinal, se prepara para abrir uma segunda casa na cidade. Ali seu time serve desde pratos feitos com carne de alpaca até criações como o costa y sierra, um risoto picante à base de frutos do mar. Outro favorito dos turistas é o Cicciolina, de ambiente animado e todo tipo de pimenta pendurada sobre o balcão. Seu menu vai além dos clássicos ceviches, pisco sours e lomos saltados (carne de vaca servida com cebolas, arroz e batatas), avançando em receitas contemporâneas de influência asiática.

 

Restaurante do Museo de Arte Precolombino
Restaurante do Museo de Arte Precolombino

 

LUXO E TRADIÇÃO

Não é difícil entender por que meia dúzia de hotéis cinco estrelas concentram nada menos que um terço dos 2.153 leitos da hotelaria cusquenha (um bom jeito de escolher um hotel para o seu bolso é pelo trivago).  Essa grandes construções coloniais seculares cheias de clima atraem os visitantes para uma imersão na história e na cultura peruanas. O Monastério, por exemplo, reciclou clausuras minúsculas habitadas por monges do Mosteiro de Santo Antônio Abade em 1600 para transformá-los em aconchegantes ninhos de luxo – e com um restaurante que apresenta até ópera ao vivo no jantar. Foi ali que Antônio Fagundes, Paola Oliveira e quase 60 participantes da novela Amor à Vida ocuparam 33 dos 126 quartos por 20 dias de abril.

Hotel Monastério, da rede Orient-Express
Hotel Monastério, da rede Orient-Express

Com suítes mais amplas e modernas, o vizinho Palácio Nazarenas pertence à mesma rede, a Orient-Express, e paparica seus hóspedes com chão do banheiro aquecido, roupões de seda e mordomo para dar aula de pisco sour no quarto. Mas é no Sumaq, localizado em Aguas Calientes, povoado-base para quem visita Machu Picchu, que os viajantes melhor aliam conforto e tradição. Após visitar as ruínas, qualquer hóspede pode participar de uma cerimônia de gratidão a Pachamama, a mãe Terra, exatamente como faziam os incas.

 

Palácio Nazarenas Hotel
Palácio Nazarenas Hotel 

SERVIÇO

PARA PESQUISAR SOBRE O PERU:

Promperu

promperu.gob.pe

 

PARA PLANEJAR SUA IDA DURANTE A FESTA DO SOL:

Inti Raymi

emufec.gob.pe

 

PARA SABER MAIS SOBRE A RUÍNA MAIS LEGAL DA AMÉRICA:

Machu Picchu

machupicchu.gob.pe

 

Crédito das fotos: samesamephoto (siga no Instagram!)

Encantadora para todo el siempre

Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias. Foi esse o tempo que o apaixonado Florentino Ariza esperou, suspirando pelas ruelas estreitas de Cartagena, para conquistar o coração de sua amada Fermina Daza. Não havia cenário mais apropriado que esta cidadela cercada por muralhas de 400 anos para o romance O Amor nos Tempos do Cólera, clássico da literatura escrito pelo colombiano Gabriel García Márquez. Com sobrados e chão de pedra, varandas forradas por primaveras e praças arborizadas onde casais namoram diante das igrejas, Cartagena seduz por essa sensação de que o tempo não precisa passar. É como se tudo ali, das muralhas aos amores, fosse feito para durar.

 

Quem desembarca no aeroporto local, depois de 1 hora de voo desde Bogotá, costuma ter uma impressão menos floreada. O que se vê é uma metrópole portuária de 1,1 milhão de habitantes, com arranha-céus de até 48 andares à beira-mar, obras por todo lado e contêineres sobrepostos entre os navios do porto mais importante do país. A cor do Mar do Caribe, que se choca com o calçadão da Avenida Santander (que faz lembrar o Malecón da Havana de Cuba), também não é aquele azul-turquesa dos nossos sonhos. Mas basta se acercar dos seus 13 quilômetros de muros para sentir o encantamento e começar a acreditar que aquele universo foi acondicionado em uma redoma invisível. Parece até mais um capítulo de realismo mágico dos livros do velho Gabo, ele próprio dono de uma mansão diante da parte interna dos paredões. O táxi amarelo cruza um dos portões e… pirlimpimpim! Entramos em um conto de fadas. Ou de marujos, piratas e amantes.

 

Segunda cidade colombiana fundada pelos colonizadores espanhóis, Cartagena das Índias surgiu em 1533. A geografia privilegiada e a temperatura média de 30 graus, regada à buena brisa caribenha, logo a transformaram em uma das principais bases do império espanhol na América. Por seu porto entraria a mão-de-obra escrava vinda da África (até hoje, 70% da população é de origem negra) e sairia muito ouro e prata. Tanta fartura levou a cidade a ser duramente saqueada por piratas ingleses e franceses até que a muralha começasse a ser erguida, no século 16 – e concluída dois séculos depois, pouco antes da expulsão dos espanhóis.

 

Alma amuralhada

Após mais 200 anos, outra riqueza é ostentada pelas 103 ruas estreitas da encantadora Cartagena amuralhada: sua alma. Não por acaso, o lugar foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. O progresso e o turismo têm sido recebidos com o cuidado que se deve dar a uma peça de antiquário, a um amor duradouro ou a uma joia feita com as esmeraldas encontradas na região. Senhores de boina jogam xadrez sob as árvores, atores divertem as crianças posando como estátuas vivas em praças repletas de pombinhas e senhoras de saias coloridas e cestos de frutas na cabeça ganham trocados posando para as fotos dos visitantes. Há sempre tocadores de ritmos como o vallenato e a cumbia se apresentando entre mesinhas ao ar livre na Plaza Santo Domingo. É onde está a igreja homônima, de 1552, considerada a mais antiga da cidade, além de La Gorda, escultura rechonchuda de Fernando Botero.

 

Restaurar e adaptar casarões coloniais de forma harmônica virou uma bem-vinda obsessão dos empresários locais, como se percebe na série de hotéis-butique e restaurantes inaugurados nos últimos anos. Bons exemplos são o Hard Rock Café e o renomado restaurante La Vitrola, que funcionam em belos casarões do século 16. A prática se difundiu também graças ao reconhecido curso sobre o tema ministrado a arquitetos do mundo todo nas instalações do Museu Naval Del Caribe. A construção do século 17 é frequentada por uma juventude de cabelos e roupas moderninhas que conhece de cor as melhores casas de rumba da cidade amuralhada e da vizinhança boêmia de Getsemani. Em fevereiro, a frente do museu marinho tem outro motivo para reunir gente interessante: o lugar fica diante da sede do badalado Festival de Cinema de Cartagena, que movimenta a cidade há cinquenta anos.

 

Delicada restauração

O que a estilista colombiana Silvia Tcherassi fez ao criar, no ano passado, o Tcherassi Hotel + Spa em uma construção de 250 anos, foi um primor típico da renovação cuidadosa a que tem se submetido Cartagena. Os sete quartos dão para um pátio interno com uma piscina ladeada por um jardim vertical com 3 mil plantas. O toque fashion é dado pelas funcionárias, que desfilam peças da grife que mantém uma loja de moda feminina a poucas quadras.

 

Já o cinco-estrelas Sofitel Santa Clara, apesar de ostentar 162 quartos, impressiona por manter o clima intimista neste bem restaurado convento de monjas clarissas de 1617. Suas instalações sediam eventos portentosos – como a festa do casamento do ex-piloto de F1 colombiano Juan Pablo Montoya, em 2002 –, e serviram como pano de fundo para outra obra de Garcia Márquez, Do Amor e Outros Demônios. Foi aí que o sacerdote Cayetano Delaura se apaixonou pela jovem que iria exorcizar, Sierva María de Todos los Ángeles.

 

Bem que poderiam ser extraídas de um livro de realismo fantástico as memórias verídicas do Palácio da Inquisição de Cartagena. Por trás de sua impressionante entrada barroca de pedra do século 16 funciona um museu que narra, a partir de uma dúzia de instrumentos de tortura horripilantes, como foram punidos cerca de 800 hereges que não seguiam a linha dura do tribunal do Santo Ofício católico. Já a Puerta del Reloj, entrada que dá acesso à praça onde esses escravos eram vendidos, trocou suas lembranças duras por uma realidade bem mais doce: os arcos do Portal De Los Dulces, onde caramelos típicos são vendidos em uma fileira de banquinhas de rua. Ali foram gravadas boa parte das cenas da versão cinematográfica de O Amor nos Tempos do Cólera, com os atores Javier Bardem e Giovanna Mezzogiorno interpretando os protagonistas.

 

Embora o território encantado de Cartagena se concentre entre seus muros de até 15 metros de espessura, há outros bons registros de sua história heroica do lado de fora. O Castillo de San Felipe de Barajas, que começou a ser erguido no século 17 no alto da colina vizinha de San Lázaro, organiza tours curiosos por seu complexo sistema de túneis. Em um morro ao lado, o Convento de La Popa oferece as melhores vistas para observar Cartagena de cima a partir do Convento de Nuestra Señora de La Candelária, de 1607.

 

Nenhum deles, porém, substitui o prazer de se caminhar ao lado – e até sobre – as míticas muralhas cartageneras. O ponto alto de quem flana por suas rochas seculares é o entardecer na ponta diante do oceano onde fica a filial colombiana do Café Del Mar, famoso lounge-bar da Ibiza espanhola. Mesas, balcões e tatames almofadados convidam a se largar, tomar um drinque e esperar o pôr-do-sol ao som de música eletrônica de primeira linha. Casais apaixonados estão sempre presentes – e, claro, solteiros também. Afinal, não há lugar melhor para arriscar um romance, talvez inspirado no de Florentino Ariza e Fermina Daza, do que sobre as muralhas românticas de Cartagena.

 

(BOX)

 

O melhor das ilhas do Rosário

Embora o charme de Cartagena esteja dentro de seus muros históricos, que ficam diante de praias que perdem feio para as brasileiras, a cidade acaba de ganhar, enfim, um hotel luxuoso para quem faz questão de se hospedar bem e à beira-mar. O Royal Decameron Baru (tel. 318/415 2063, www.decameron.com) foi recém-inaugurado em Baru, uma das ilhas do Rosário, normalmente conhecidas em passeios de barco por meio período. A última novidade entre os 36 hotéis da rede é acessada depois de 1 hora e meia de carro desde o aeroporto. Além das três piscinas, o resort tem spa, quatro restaurantes, uma praia particular, centro de convenções para 700 pessoas e serviço all inclusive. Até o início de 2011, estarão funcionando todos os 330 quartos com vista para o Caribe.

 

(SERVIÇO)

 

PARA FICAR

SOFITEL SANTA CLARA

(Calle Del Torno, 39-29, tel. 575/650 4700, www.hotelsantaclara.com) O mais badalado hotel da cidade antiga levou cinco anos para restaurar o convento onde funciona. Tem 162 quartos, restaurante, lounge-bar, auditório para 300 pessoas e seis salões de eventos.

 

HOTEL BOUTIQUE LA MERCED

(Centro Calle Don Sancho, 36-165, tel. 575/664 7727, www.lamercedcartagena.com) Estiloso e repleto de móveis de design, fica em um predinho do século 18. Tem até suíte avarandada com banheira de hidromassagem de frente para o mar, na mais chique das oito suítes.

 

TCHERASSI HOTEL + SPA

(Calle Del Sargento Mayor, 6-21, tel. 575/664 4445, www.tcherassihotels.com) Além dos sete quartos exclusivos, conta com o refinado restaurante Vera, de cozinha italiana, um deque com piscina na cobertura e o pequeno spa da rede espanhola Germaine de Capuccini.

 

PARA COMER

LA VITROLA

(Calle 33, 2-01, tel. 575/664 8243) Funciona em uma casa de 400 anos e leva o nome de uma relíquia musical de 1904, que fica na entrada. O chef Steven Acevedo é especialista em frutos do mar e o jantar costuma acompanhar música cubana ao vivo.

 

LA CASA DE SOCORRO

(Calle Larga, 8B-12, tel. 575/664 4658) Fica fora das muralhas e não tem luxo algum. Os salões com ornamentos de gosto duvidoso vivem lotados de locais, que buscam a verdadeira comida típica. Capricha nos frutos do mar.

 

PARA AGITAR

CAFÉ DEL MAR

(Baluarte de Santo Domingo, tel. 575/664 0506) Este é “o” lugar para se estar sobre as muralhas, especialmente no início da noite, apesar dos drinques caros. Tem bons DJs, brisa do mar, tatames com almofadas e gente bonita de todas as idades.

 

MISTER BABILLA

(Avenida Arsenal, 8B-137, tel. 575/664 7005, www.misterbabilla.com) Uma das melhores baladas desta agitada avenida no bairro de Getsemani recebe mais de mil bailadores nas rumbas animadas de sexta e sábado, e chama a atenção pelos salões exageradamente decorados.