Tudo pronto para viajar a Kerala

Bem, na verdade não está tudo tão pronto assim. Falta eu finalizar alguns trabalhos para poder viajar tranquilo. Mas a mala já está quase pronta, as passagens impressas, o visto de jornalista confirmado. A partir de segunda-feira, dia 10 de março, me junto a outros 26 viajantes que chegam de várias partes do planeta para começar uma expedição de 17 dias pelo Sul da Índia. O #keralablogexpress parte de Trivandrum, no Sul, e termina em Kochi, ao Norte, passando por lugares como Kovalam e Kumarakon.

Fort Kochi (foto Kerala Tourism)
Fort Kochi (foto Kerala Tourism)

O roteiro organizado pelo #Kerala Tourism já está detalhado no site deles, o www.keralablogexpress.com, mas minha saga começa bem antes. Graças a mais uma parceria de sucesso com a Ethiopian Airlines (que tem passagens de ida e volta para a Índia por cerca de 1.000 dólares!), meu voo parte de Guarulhos para Addis Ababa, capital do país africano, e de lá eu sigo em voo direto para Mumbai. Por fim, pego outro voo regional para Trivandrum.

Kovalam (foto Kerala Tourism)
Kovalam (foto Kerala Tourism)

A primeira dobradinha que fiz com a Ethiopian, em dezembro, foi fundamental para eu ter tido o prazer de publicar seis páginas no Caderno Viagem, do Estadão, sobre o Egito, na terça, 25 de fevereiro. Dessa vez, na volta de Índia, retornarei à Etiópia com 5 noites para produzir matérias sobre o país.

Apesar de uma comunicação inicialmente meio truncada com os organizadores, a viagem à Índia começou a ficar mais clara depois do anúncio oficial dos ganhadores via twitter. Depois disso, os expedicionários já fizeram várias conexões bacanas. Do Brasil, por exemplo, seremos três representantes. Eu, pelo Same Same, o Oscar Augusto Risch Neto, que mora na Nova Zelândia e toca com o namorado Maurício o excelente www.MauOscar.com, e a Gaía Passarelli, do suculento www.gaiapassarelli.com, também louca por música e ex-VJ da MTV. Os dois já estão chegando por lá.

Kumarakon (foto Kerala Tourism)
Kumarakon (foto Kerala Tourism)

Tem muito mais gente bacana. Acompanhem no link. E não deixem de frequentar o Same Same durante todo o mês de março. Para não perderem nada, sigam também os posts curtos no Twitter @samesameblog (compartilhem!) e as fotos pelo Instagram samesamephoto. Namasté!

 

 

Lançado livro sobre Rio Amazonas

Queridos amigos, leitores e parceiros, é com alegria que quero convidá-los para o lançamento do livro Dos Andes ao Atlântico – Uma Viagem pelo Rio Amazonas (ArteEnsaio, 208 páginas, R$63,00). Fruto de um trabalho delicioso ao qual me dediquei na maior parte de 2013, ele chega às livrarias nesta quarta-feira, 19 de fevereiro. A sessão de autógrafos acontece na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi (Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232). Eu e o fotógrafo Adriano Fagundes estaremos recebendo vocês para aquele abraço das 18h30 às 22h. De lá, vamos celebrar no Bar Estônia, subsolo do Ramona, no Centro (Av. São Luís, 282, esquina com Consolação). E com a opção de cair na pistinha de rock clássico do Alberta#3, a balada vizinha. Quem se animar para seguir com a gente na celebração dançante só precisa mandar o nome para daniel@samesame.com.br para que eu possa incluir na lista amiga (R$15,00 de entrada ou R$40,00 de consumação). E aí, vamos comemorar?

 

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Blog é eleito para viajar para a Índia

Vejam só a grande novidade do dia: “Hi Daniel, Greetings from Kerala Tourism! Congratulations! You are one of the bloggers shortlisted from over 500 entries for the Kerala Blog Express Road Trip organized by Kerala Tourism!” É isso mesmo, pessoal. Vou pra Índia. Eu achava que já estava fora, cheguei até a publicar que não tinha sido dessa vez. Que bom que eu estava errado. Segundo o anfitrião, 25 dos 500 inscritos (eu tinha entendido que seriam só 20…) conseguiram votos suficientes para fazer parte dessa expedição de blogueiros de todo o mundo, e eu fui um deles. Agora tenho de achar uma brecha na agenda de trabalhos para passar duas semanas de março experimentando as diferenças culturais do lugar. Estive no país 10 anos atrás, em 2004, mas não conheci o Sul. Agora não vejo a hora. Muito obrigado a todos que votaram e compartilharam!

Pedindo votos para ir a Kerala, Índia

Atenção, tripulação: termina na quarta, 15 de janeiro, a votação da #keralablogexpress para eleger os 20 blogueiros de viagem de todo o planeta que farão parte de um expedição por #Kerala, a linda região do sul da Índia. Trata-se de uma bela idéia do Departamento de Turismo de Kerala para incentivar o turismo utilizando a melhor ferramenta de divulgação de destinos da atualidade: os blogs. Seja um cabo eleitoral do Same Same! Clique em http://keralablogexpress.com/user/single_participant/8196 , dê seu voto, compartilhe pelo Facebook e convoque seus amigos a votar também!

Gelo à vista

As boas-vindas não parecem lá muito amigáveis. “Quatro questões jamais devem ser feitas a bordo: para onde vamos, quando chegaremos, por quanto tempo permaneceremos ali e como estará o clima.” Disparadas à queima-roupa logo após o embarque, num inglês com sotaque germânico, as frases proibidas no navio MF Fram não deixam dúvida de que estou em um cruzeiro diferente. “Na Antártica, quem manda é a natureza, e as mudanças climáticas são rápidas e imprevisíveis.” A dona da voz é Anja Erdmann, líder da expedição, que fala quando o barco da empresa norueguesa Hurtigruten afasta-se de Ushuaia, na Argentina, na pontinha mais ao sul da América. Os 207 passageiros de 16 nacionalidades zarpam sabendo apenas que, até chegar às abrigadas águas da Península Antártica, leva-se 3 dias percorrendo a Passagem de Drake, área famosa por seus naufrágios, onde Atlântico e Pacífico duelam. Depois de cruzá-la, continua a loirinha, a definição do roteiro se dá de acordo com os humores da neve, das ondas e dos ventos. A convocação para que o exército de aventureiros vista coletes salva-vidas e siga para a simulação da evacuação de emergência reforça: embarcar em um cruzeiro antártico é para viajantes com espírito desbravador.

 

Trekking na ilha Deception
Trekking na ilha Deception

 

Conhecer a Antártica nunca foi tão fácil. Segundo o guia de mochileiros Lonely Planet, o continente inexplorado brilha como o segundo lugar mais “quente” a visitar em 2014  – o primeiro é o Brasil, é claro, em função da Copa. Já existem 50 cruzeiros oferecendo pacotes a partir de 10 dias por cerca de 7.000 dólares, sem parte aérea. Na temporada passada, de novembro de 2012  a março de 2013, eles levaram nada menos que 35.000 pessoas. Em “cruzeiros de expedição” como este, não há cassino, shows a la Broadway, free-shops ou piscinas. Na minha cabine solitária, além de cama e banheiro (com água quente, ufa!), há apenas uma escotilha de onde se vê só céu e mar. Ah, e televisão, com 80% da programação tendo o extremo sul como tema. O entretenimento principal das duas centenas de horas na embarcação são as (ótimas) palestras. No primeiro dia, assisto a de pinguins, a de baleias e a de um geólogo norte-americano, Bob Rowland, que contou de seus estudos no Polo Sul em 1962 e 1963. Isso pouco depois do início das primeiras viagens turísticas à Antártica, em 1958, que provaram ao mundo que a última fronteira da Terra podia ser visitada por simples mortais como nós.

 

Port Lockroy: tem até correio
Port Lockroy: tem até correio

 

MEU PRIMEIRO ICEBERG

Terceiro dia. Para alívio dos marujos, superamos nas últimas 24 horas um Drake sem tempestades. O enjoo do mar chegou e foi embora. Já decorei o nome de vários dos 50 simpáticos tripulantes das Filipinas que atendem em locais como o restaurante e a sala de empréstimos de galochas. E meu fascínio pelas explorações antárticas cresceu substancialmente depois de assistir a documentários como o da conquista do Polo Sul, protagonizada pelo norueguês Roald Amundsen, em 1911, em um barco chamado Fram que inspirou o batismo deste. Também amei o longa sobre a saga de Sir Ernest Shackleton, o irlandês capitão do barco Endurance que tentou atravessar, com 27 homens, o continente gelado a pé em 1914, noventa anos atrás. Devoro mais um dos filmes da TV – acho que sobre as aves antárticas que acompanham o deslizar do navio – quando a voz daquela Angela Merkel dos mares ecoa, pelos auto-falantes, que um iceberg se aproxima.

Olho pela escotilha e lá está ele. Meu primeiro iceberg. Lindo. Gigante. Leve. É como se um quarteirão de 1,5 quilômetro com altura de um prédio de 3 andares flutuasse, quebrando com seu branco a monotonia azul de céu e mar. Um tom de turquesa-do-Caribe denuncia sua beleza submersa: como aprendi na lição-de-casa, 90% dos corpos desses blocos de gelo desprendidos dos glaciares esconde-se sob a superfície. Visto casaco para temperaturas negativas, corta-ventos, gorro, cachecol, luvas, óculos de sol. E, câmera na mão, corro para o terraço do sétimo andar para observá-lo em meio ao vento congelante. Meu iceberg não vem só. Outros correm em nossa direção. Chego a acreditar que nos aproximamos, enfim, da Antártica. Não há no horizonte, porém, sinal algum de terra à vista.

Engano meu. Quem chega à Península Antártica não aterrissa num grande continente no fim do caminho. Também não encontra um porto, o mar de outra cor ou qualquer referência que prove que alcançou o destino. No meio do marzão sem fim, surge uma ilha numa manhã, outra à tarde, e assim por diante: estamos na Antártica. A primeira em condição de desembarque aparece nesse terceiro dia, anunciada por uma nova chamada radiofônica. Aí sim nossa führer alemã dá todas as respostas e avisa: onde vamos – Baía Half Moon, no arquipélago das Shetland do Sul –, quando chegaremos – em 20 minutos –, por quanto tempo – 1h15 para cada grupo de 8 pessoas que lotar um bote inflável – e como está o clima – 1o C. Com apenas dois quilômetros, a ilhota parece um amontoado de rochas cinzas pontiagudas habitada por uns 2.000 casais de pinguins chinstrap (aqueles “de máscaras”) e seus filhotes. Um bote de madeira abandonado na praia de pedras dá o clima de que pisamos na terra firme do fim de mundo desabitado. Por estar vizinha à ilha Livingston, forrada por neve, Half Moon é um cenário fantástico para fotos.

 

Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo
Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo

 

DESEMBARQUE CANCELADO

A tal imprevisibilidade meteorológica da Antártica fica comprovada no quarto dia. Ventos de mais de 100 quilômetros por hora provocam o cancelamento da descida prevista para a ilha de Brown Bluff. Antes do vendaval, felizmente, conseguimos desembarcar sob o frio de apenas -4o C, ainda que com sensação térmica de -17o C, na Baía Esperanza. Ela abriga, desde 1951, uma base permanente da Argentina, país que está entre as 27 nações com estações científicas na região (a do Brasil, na Ilha Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica, foi totalmente destruída por um incêndio em 2012). Cerca de 50 pesquisadores argentinos integram o seleto grupo de moradores temporários do continente, que não costuma passar de 150 habitantes. A neve ininterrupta e o nevoeiro intimidador que assolam nosso passeio por algumas das 40 construções alaranjadas – o refeitório, a escola, a capela, o mini-museu… – dão uma ideia de quão sofrida foi a estada forçada dos três náufragos da expedição Nordenskjöld, entre 1901 a 1904 (conforme eu havia aprendido na palestra do engenheiro polonês Henryk Wolski). Os restos do abrigo de pedras improvisado estão intactos.

Mas é no quarto dia, na ilha Deception, que a Antártica se apresenta realmente como uma terra de ninguém.  Ao passar no corredor de 150 metros de largura entre as rochas apelidadas de “foles de Netuno” e adentrar na cratera submersa desse vulcão ativo, o MF Fram parece chegar a um lugar inóspito onde nem pinguins, navegadores do século passado ou cientistas pisaram. Com 12 quilômetros de diâmetro, a caldeira de águas verdes abrigadas tem praia e pedras negras vulcânicas lindamente cobertas pelo branco da neve. A caminhada ao alto de seu morro de 540 metros de altitude é o ápice da experiência de isolamento e pequeneza proporcionada por uma incursão dessas: só há a vastidão branca, o silêncio ensurdecedor, a paz sem fim. O trekking de 3 horas à tarde, na baía Whalers, um centro baleeiro abandonado, catapulta o grupo a um estado de contemplação tão ou mais nirvânico, tamanha a beleza das formas dos glaciares e o contraste das cores na paisagem. Afinal o céu azul agora está de volta, e com ele o Sol que reflete um brilho que pode cegar. Em Deception, os sedentos por uma experiência ainda mais sensorial são convidados a dar um tibum de no máximo 5 segundos nas águas menos frias do pedaço. É quando descubro o deleite incrível do oceano com 1o C.

 

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Passeio de bote para avistar o leopardo marinho

 

COMO EM UMA PRAIA DESERTA

Se desembarcar em Deception provoca uma espécie de versão polar daquele prazer único de encontrar uma praia paradisíaca só pra você, caminhar por Porto Neko, primeira parada do quinto dia, faz lembrar um safári africano – só que no gelo. Neste raro ponto da Península Antártica onde se caminha em solo continental, o mundaréu de pinguins gentoos nem se assusta com os estrondos das avalanche dos glaciares. Tampouco as focas, baleias, leopardos e elefantes marinhos que se exibem para os zooms das câmeras e binóculos durante os passeios de bote-inflável. À tarde, no casebre preto e vermelho de Port Lockroy, uma base britânica, todo aspirante a conquistador se rende à sua faceta de turista. Na loja de souvenirs do simplório museu local, dá para fazer um shopping rápido e despachar um cartão-postal na única caixa de correio do pedaço.

À medida que o navio chega ao ponto mais ao sul da expedição, a latitude 65o Sul, no sexto dia, uma série de montanhas nevadas passa a formar um corredor de 1,6 quilômetro de largura e 11 quilômetros de extensão. Estamos no Canal Lemaire, o cenário mais espetacular para demarcar a meia-volta e o início do longo caminho de volta, agora com a bússola apontada para o Norte. Antes, uma parada na Ilha Danco, para ver o pôr-do-sol entre os 1700 casais de pinguins gentoos. Bem disse a capitã: o clima da Antártica é mesmo surpreendente. E marca para sempre a vida do aprendiz de explorador que pisa naquele território onde pouca gente chegou.

 

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COMO IR

Tradicional operadora de cruzeiros de expedição à Antártica e ao Ártico, a norueguesa Hurtigruten opera saídas com número de dias e rotas variados. Entre as opções está a rota de 10 dias entre os 200 passageiros do navio Fram, apresentada nessa reportagem. Preços a partir de 6.300 dólares. www.hurtigruten.com

Especializada em roteiros ao extremo sul, a brasileira Zelfa Silva, da Antarctica Expeditions, trabalha com navios para 68 a 189 passageiros em viagens de 10 a 19 dias. Pode-se fazer toda a travessia da Passagem do Drake por barco desde Ushuaia ou voar a partir de Punta Arenas, no Chile. Os preços, sem aéreo, partem de 7.000 dólares. www.antartida.com.br

7 lições numa sala de aula selvagem

Era uma noite quente de setembro à beira de um abismo da serra Ricardo Franco, uma desconhecida preciosidade ecológica no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, na fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Durante o dia, os termômetros superavam 40 graus, e a expedição de 13 jovens e três instrutores havia sofrido para encontrar míseros 16 litros de água escura para saciar a desesperada sede. Aqueles primeiros dias de uma sessão de trekking de 90 quilômetros que duraria um mês tinham deixado o grupo cansado. Todos já se preparavam para dormir quando um pânico coletivo se instaurou. Um exército de milhares de formigas saúvas se espalhou, devorando, como num filme de horror, as mochilas, as roupas e até as barracas. “Parecia um pesadelo, começamos a sofrer com as picadas e corremos para desmontar o acampamento”, conta o paraibano Edmilson Fonseca, 32 anos, o único brasileiro entre os estudantes do segundo curso-expedição realizado no Brasil pela norte-americana Nols (National Outdoor Leadership School), a mais respeitada instituição de ensino experiencial ao ar livre do planeta. “Acampo desde os 13 anos, quando era escoteiro, e nunca tinha visto uma cena daquelas”, contou.

A recepção nada amigável das saúvas era o inesperado “batismo” de boas-vindas do cerrado brasileiro ao grupo dos Estados Unidos, a maioria com idade entre 18 e 20 anos, que tinha co- meçado sua viagem na Chapada dos Guimarães (MT), sede da Nols no país. O episódio foi usado como lição sobre onde acampar, e se juntou ao caldeirão de ensinamentos da escola. Ao longo de três meses, Edmilson, o felizardo ganhador da única bolsa de estudos anual da Nols destinada a brasileiros, cruzaria com seus colegas de classe a Amazônia de sul a norte numa sala de aula selvagem, gigante e diferente. Durante a expedição, os alunos aprendem técnicas de trekking e canoagem com instrutores conceituados. Conhecem a diversidade cultural do país por meio da convivência com caboclos, índios, quilombolas e seringueiros. E têm acesso a uma grade curricular feita sob medida para amantes das atividades outdoor. Ela pode ser resumida em sete lições básicas, que passamos adiante nas próximas páginas.

 

1a LIÇÃO: APRENDA A ACAMPAR

Foi no 22o dia da expedição, na ilha do Boto, próxima a Vila Bela, que me integrei ao grupo e ouvi os relatos sobre o ataque das saúvas e a falta d’água na serra. O acampamento tinha quatro barracas, uma para cada grupo de quatro alunos e outra para os três instrutores (dos oito que se revezariam ao longo do curso). A lua cheia já prateava o caudaloso rio Guaporé diante de nós e o astral da galera fazia lembrar minhas viagens da adolescência, 20 anos atrás. Vi-me ali, parecido com o ruivinho de 18 anos do estado do Oregon, Seth Walton, que tocava Radiohead no violão enquanto a turma assava um bolo no fogareiro — sim, bolo, é possível. Em seguida, rolaria um “Parabéns a você” bilíngüe pelo aniversário de 50 anos do chefe dos instrutores, o britânico Jonathan Kempsey, ou Jon. Meus dez dias ali prometiam ser uma mamata.

Eu achava que sabia viajar e que já conhecia as principais manhas do excursionismo e do camping selvagem. E me frustrei logo que tive minha mochila de 65 litros checada pelos instrutores, procedimento pelo qual já tinham passado os alunos no início da caminhada. A idéia era que eu não carregasse peso desnecessário e pudesse levar panelas, comida, cilindro de benzina inflamável para o fogareiro e parte do equipamento do grupo dos instrutores, ao qual eu me integraria e com quem eu dividiria refeições. De repente, foram tirados da minha mala papel higiênico, sabonete, minixampu, toalha e tênis extra. Até canivete, capa de mochila, garfo e faca dançaram. Fui obrigado a seguir viagem com apenas duas peças de cada tipo de roupa — cuecas, meias, calças e camisetas — e uma única colher. Canivete, bastaria o do instrutor.

Um pouco contrariado, cá entre nós, burlei a fiscalização carre- gando um desodorante compacto no bolso lateral e decidi assimi- lar as outras instruções. Primeira regra: os rios no caminho seriam nossas banheiras naturais, assim como serviriam para lavar a roupa suja e a louça das refeições (embora a bucha e o detergente também fossem artigos vetados, tendo seus efeitos desengorduran- tes substituídos pela areia e pelas folhas das árvores). “E na hora de ‘ir ao banheiro’, como faço?”, perguntei. “Para quê o papel?”, responderam. Primeiro, seria obrigatório vestir os gaitors, aquelas polainas para proteção das pernas contra picada de cobras. Depois de definido o esconderijo a pelo menos 60 metros do rio, eu deveria usar uma pequena pá coletiva para cavar um buraco, onde o “produto” seria enterrado, evitando a atração de moscas. A limpeza seria feita com água. E só. No fim, as mãos seriam lava- das com desinfetante. Ao longo dos dias seguintes, criaria minha própria rotina de tomar banho logo depois de “usar o banheiro”, e aprenderia outros macetes para uma viagem ecológica e social- mente correta, o que não foi tão fácil assim.

 

2a LIÇÃO: SAIBA LIDERAR

Com 42 anos de tradição, a Nols foi criada com a idéia de for- mar bons instrutores de educação ao ar livre. “Acreditamos que o formato de expedição é o que melhor permite o exercício da liderança”, diz o norte-americano Atila Rego-Monteiro, 41, que coordena a nova Nols Amazon e foi um dos responsáveis pela vinda da escola ao país. Filho de um diplomata brasileiro e uma imigrante alemã, ele foi quem mais vibrou quando, sete anos atrás, uma pesquisa entre os alunos apontou que a Amazônia e a Nova Zelândia eram as novas locações preferidas para serem incluídas no menu de destinos da escola. Era o que ele precisava para articular a operação, resgatando suas raízes verde-e-ama- relas e impulsionando no país uma idéia pela qual ele tinha se apaixonado em 1992. O conceito de educação outdoor começou a ser difundido por aqui em 2000, com a chegada da Outward Bound, escola inglesa pioneira no tema há 65 anos e que inspirou Paul Petzolt a criar a Nols nos Estados Unidos (leia quadro). Apesar de concorrentes, as escolas têm instrutores em comum e objetivos parecidos. Quem já cursou as duas considera a OBB (Outward Bound Brasil) mais voltada para o desenvolvimento pessoal — quase um degrau de acesso à Nols, respeitada pelo aprofundamento técnico.

“Uma das coisas mais excitantes em um curso novo como este é saber que estamos passando por lugares que quase não foram explorados”, definiu Peter Carr, 19, um estudante de história do Novo México que acampara com a Nols no Wyoming quando tinha 14 anos. “É mais emocionante saber que a rota é desconhecida até pelos instrutores”, continua Peter, que ganhou o apelido de Pedro (todos os alunos da Nols Amazônia ganham nomes aportuguesados) e que, aficionado pela Segunda Guerra Mundial, passou os 82 dias da expedição vestindo um uniforme verde-musgo original de um soldado norte-americano. “Nos Estados Unidos, as escolas repetem os mesmos percursos há décadas”, lamenta seu colega Thomas Loftis, 19, estudante de antropologia do Colorado que fizera um curso da Outward Bound anos atrás.

Os cenários brasileiros foram diferentes nas duas primeiras expedições, e a edição de 2008 também deve ter novidades. Em 2006, outros 13 jovens passaram pelo Pantanal, remaram nos rios Aripuanã e Madeira, e fizeram a expedição final, que sempre acontece sem instrutores, na serra Curicuriari, em São Gabriel da Cachoeira (AM), perto de Manaus. Ano passado, os pântanos deram lugar ao cerrado da serra Ricardo Franco, em Vila Bela, onde aconteceu o trekking. Depois, o grupo voltou à base da Nols na Chapada dos Guimarães, reorganizou comida e equipamento e seguiu viagem de dois dias em ônibus até o ponto do rio Juruena onde começaram os 600 quilômetros de canoagem, ao longo de quatro semanas, também pelo rio Tapajós. De Santarém, voaram à Venezuela para a expedição de volta ao Brasil, ao longo de uma semana pelo monte Roraima. Curiosamente, os rios Aripuanã e Juruena ficam em localidades remotas na rota dos maiores desmatamentos criminosos do país — tanto que as cidades homônimas à beira desses rios registram algumas das maiores taxas de homicídios por causas ambientais.

Foi exatamente com esse objetivo — delinear um roteiro desa- fiador tanto por terrenos remotos de difícil navegação como por rios com corredeiras de alto nível — que a cúpula da Nols brasilei- ra realizou dez viagens de prospecção, como pelo Pantanal (MT) em 2002 e pelo rio Roosevelt (PA) em 2003. Foi nessa expedição de 25 dias que o instrutor Jon tomou um choque de um peixe elétrico que poderia ter sido fatal. Além de Jon e do comandante Atila, estavam no grupo outros figurões respeitados da escola: o canadense Jim Chisholm, que passou os últimos 25 anos (do total de 50) trabalhando para a escola e acumula 480 semanas em campo — o equivalente a nove anos dormindo em barracas! —; o paulista Flávio Kunreuther, 38, um dos instrutores de remo da expedição de 2007, também instrutor OBB; e o também paulista Fábio Raimo de Oliveira, 39, o primeiro brasileiro a se tornar instrutor da Nols internacional, em 1998. Como se não bastasse ter o emprego dos sonhos de quem ama o universo outdoor, essa turma tem a vantagem de poder programar suas próprias expedições de professores bancadas pela Nols como uma espécie de treinamento. E, no início de cada ano, eles têm a chance de propor em quais países e com quem gostariam de expedicionar.

 

 

3a LIÇÃO: CONVIVA BEM COM O GRUPO

Nas conversas de trilha, percebi que o grupo era mais diversificado do que eu imaginava. Os objetivos eram distintos e mui- tos ali não tinham experiência alguma na natureza. Era o caso do economista Alex Melnyk, um gordinho de 26 anos que nunca tinha acampado antes de se licenciar do trabalho, num banco de investimentos em Chicago, para conhecer a Amazônia. Ele viajara com a idéia de transferir as lições de liderança outdoor para os negócios. No primeiro dia de caminhada pela serra, quando teve de subir pedras durante cinco horas em meio ao calor abafado pelas nuvens das queimadas da região, Alex penou um bocado. “Achei que não fosse agüentar”, contou, com o nariz avermelhado em conseqüência de uma irritação causada pelo medicamento antimalárico obrigatório.

Apesar da pouca idade, a loirinha Rebecca Stone, a Becca, de 19 anos, trazia a experiência de ter passado os últimos verões de Idaho reparando trilhas em parques norte-americanos, e desem- barcou no Brasil com a intenção de trabalhar monitorando ati- vidades outdoor. Porém, ninguém tinha pretensões mais ousadas que Edmilson Fonseca, o bolsista que organiza uma das corridas de aventura mais antigas do Brasil, o Desafio Costa do Sol, e que há sete anos planejava fazer o curso. “Meu sonho é ser um instrutor da Nols”, confessou Edmilson, que já escalou montanhas como o Mont Blanc europeu e que pediu demissão da escola de inglês onde dá aula para viajar à Amazônia. Ele sabe que ser instrutor é ter a chance de viajar por alguns dos mais alucinantes refúgios naturais do planeta, com despesas pagas, salário razoável e a chance de virar fera em modalidades outdoor presentes nos cursos, como rafting, esqui, espeleologia e vela — além de trekking e canoagem.

Mesmo com históricos e objetivos distintos, os 13 alunos aprenderam que todos os grupos passam por processos semelhantes de integração que incluem a formação, o conflito, o desempenho e a transformação. Para que se preparassem para a expedição final do curso, os viajantes tiveram uma rotina permeada por aulas que poderiam ser úteis a executivos, como processos de tomada de decisão, a esportistas, como técnicas para fazer nós, e também que poderiam ser ensinadas por nossas avós, como costurar os furos feitos pelas saúvas na barraca e preparar deliciosos bolos e pães assados. “Este é um curso que ensina o valor das coisas sim- ples”, define Atila, líder também no trecho da canoagem. Nesse aprendizado empírico, o cronograma de aulas se altera conforme o temperamento do grupo e do clima, e cada aventureiro é responsável por carregar caderno, caneta e um livro da biblioteca Nols da Chapada. Os alunos se concentram para ler em qualquer tempo livre, como o descanso nas caminhadas ou a espera por um barco ou um ônibus em meio aos traslados.

Dinâmicas coletivas são parte fundamental do método de ensino. As rodas de conversa que acontecem ao menos duas vezes ao dia alternam os integrantes dos subgrupos e revezam os líderes, evi- denciando as características pessoais num ambiente distante das referências cotidianas. Na Amazônia, todos estão longe da família e dos amigos, assim como da cultura de televisão, da internet e da dieta de fast-food a que estão acostumados. Ninguém tem a chance de apertar um botão de “off” quando o programa fica chato. E a resolução das diferenças só acontece quando os participantes de- senvolvem seu poder de comunicação e seu bom comportamento expedicionário, de forma a serem reconhecidos como mediadores de conflitos e como pessoas de iniciativa — virtudes que vão se evidenciando à medida que a expedição avança e os instrutores se tornam mais conselheiros e observadores do que mestres.

A disciplina exigida pelos instrutores da Nols em questões de organização, cumprimento de horários e de tarefas faz lembrar o regime que os brasileiros de 19 anos enfrentam ao servirem às Forças Armadas. Atrasos são seguidos de longos esporros e a higiene pessoal é cobrada para minimizar o desgaste das relações dos alunos, obrigados a dormir em barracas de quatro pessoas ao longo de três meses. Como também acontece no escotismo, a aventura no ambiente natural adverso desenvolve no grupo a lealdade e a coesão. “A diferença é que, no Exército, as ações do soldado acontecem para cumprir ordens de um superior, sob a pena de ser humilhado ou punido severamente”, pondera o instrutor paranaense Dálio Zippin Neto, 40, um cabeludo com um divertido jeitão rebelde que fez dele o instrutor preferido pela turma. “Aqui, os alunos são motivados a assumirem deter- minadas atitudes de forma consciente, pelo bem das pessoas e do meio ambiente”, continua Dálio. Advogado de formação e escalador “desde os sete anos”, ele foi aprovado como instrutor Nols graças a um currículo de atividades outdoor que enchem 24 páginas e que incluem quatro cumes do El Captain, no parque nacional norte-americano Yosemite, além do Aconcágua argentino — onde, por sinal, foi um dos sobreviventes da tragédia que matou Mozart Catão, Alexandre Oliveira e Othon Leonardos em uma avalanche em 1998. Sua formação como instrutor da Nols incluiu 22 dias sobre um glaciar do Alasca e 80 horas (dez dias) de um treinamento em primeiros socorros no estado norte-ame- ricano do Oregon que exige uma atualização a cada três anos.

 

 

4a LIÇÃO: SEJA HÁBIL NOS ESPORTES OUTDOOR

Os instrutores são o maior patrimônio da Nols. São eles quem trazem uma vasta experiência no universo outdoor para servir como exemplo aos alunos, ainda que em territórios desconheci- dos até mesmo para eles. Foi o que aconteceu em boa parte do rio Juruena, onde o desafio era passar por 18 corredeiras com níveis I a III (numa escala até VI), com portagens nas quedas maiores, duas a três horas de chuva diariamente e sob tempes- tades de raios. Apesar da prudência, várias canoas viraram e três delas foram furadas. Sem problemas: treinado, o grupo consertou os botes em seis horas, desempenando o alumínio e costurando a lona. E voltaram à rotina de 20 quilômetros de remadas diárias por rios com piranhas, arraias, peixes elétricos e jacarés.

Além da esperteza para improvisos, os professores têm a res- ponsabilidade de formatar várias aulas de cerca de uma hora com a estrutura de que dispõem na natureza. As apresentações abrangem desde técnicas dos esportes até a história local, como a de Chico Mendes e a da escravidão no Brasil. A didática é baseada nas pesquisas pessoais e em vários livros publicados pela própria Nols sobre navegação, cozinha e medicina em ambientes outdoor, por exemplo. Entre os rígidos protocolos da escola, está a obrigação de serem feitas avaliações freqüentes de professor para aluno, vice-versa e até de aluno para aluno. Muito além da mera função de guias, os instrutores costumam dedicar o fim dos dias para realizar minuciosos relatórios em inglês para serem encaminhados à sede norte-americana.

A Nols é rigorosa também com seu corpo docente. “O curso de formação de instrutores mais parece uma entrevista de emprego que dura um mês”, brinca Jon Kimpsey, também advogado de formação, que há 16 anos tornou-se um clássico instrutor Nols: solteirão, sem filhos ou casa fixa (seus pertences estão espalhados entre Alasca, México, Chile e Chapada dos Guimarães). Na noite em que eu era o responsável pela cozinha do meu grupo, Jon me ensinou a fazer panquecas, uma verdadeira sofisticação que quebrou minha tradição de só preparar macarrões instantâ- neos em acampamentos. E me contou alguns dos episódios mais pitorescos que protagonizou em suas 190 semanas em campo. Como o dia em que um gato-maltês grudou na sua cabeça, no México, há oito anos, quando estava dormindo num saco de dormir, fazendo com que Jon tivesse de ser resgatado para tomar injeção contra raiva; ou quando estava ao lado de um aluno que ficou preso sob uma pedra de duas toneladas, durante uma avalanche no Eastern Alaska Range, dez anos atrás, e sobreviveu após esperar horas pelo resgate.

 

 

5a LIÇÃO: TENHA RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL

Os cuidados com a natureza e as comunidades no caminho da expedição são rigorosos. No passado, as excursões chegavam a ter 30 alunos nas trilhas, mas a preocupação com o impacto nos am- bientes naturais fez com que a Nols reunisse grupos cada vez me- nores. Além disso, os expedicionários são divididos em subgrupos e aprendem, nas aulas de Leave No Trace (Não deixe vestígio), a não deixar qualquer tipo de marca na natureza. As cinzas da fogueira devem ser enterradas. Contam pontos negativos na avaliação os grãos de arroz deixados ao ar livre na hora de desmontar o acam- pamento. Os restos orgânicos precisam ser cobertos e todo o lixo produzido precisa ser carregado até a cidade grande mais próxima, sendo que o lixo reciclável deve estar lavado e seco.

Questões ecológicas são lembradas nas aulas, como na de aque- cimento global, ministrada pela carioca Renata Bradford, a Kika, uma arqueóloga e escaladora de 30 anos que já foi guia da Exum Mountain Guides, considerada a escola de guias de montanha mais exigente da América do Norte. Entre as montanhas já exploradas por ela, estão as de Yosemite e Tetons (EUA), além de várias vias de escalada conquistadas. Utilizando um grande saco de farinha adaptado como uma lousa rabiscada com pincéis atômicos, Kika contou como a compra de créditos de carbono pode minimizar o estrago feito pelo desmatamento. “Calculamos o impacto desta expedição somando itens como os vôos, os traslados por terra e o consumo dos fogareiros, espaço e concluímos que precisamos plantar 57 árvores para neutralizar nossa passagem por aqui, mas vamos enterrar mais de 300 sementes”, explicou à platéia sentada no gramado sob a sombra de uma árvore à beira-rio. Como essa escola não tem paredes, é freqüente a dispersão pelo canto de um pássaro ou pelo surgimento de um boto no rio. Sem problemas. Ao longo da viagem, os alunos apresentam suas observações nos “na- ture nuggets”, pequenos seminários em que o estudante disseca algum aspecto da natureza.

Uma das peculiaridades dos cursos em lugares remotos é a experiência da diferença cultural e da interação com a população local. Nos dez dias que passei com eles em Vila Bela, percebi a surpresa com que viram um carneiro sendo morto para o churrasco no quilombo e o fascí- nio da constatação da felicidade em uma casinha pobre, de chão de terra e fogão a lenha. Aprenderam a pescar e a limpar o peixe, construíram um banheiro com paredes feitas de palha de babaçu, carregaram toras para erguer uma ponte. Semanas mais tarde, já na floresta amazônica do Pará, ficaram ainda mais encantados quando passaram quatro dias nas comunidades de Pedreira e Piquiatuba, à beira do rio Tapajós, dormindo cada um em uma casa de família. “Foi o momento da viagem mais importante para mim”, considerou Alex Melnyk, que até aprendeu a fazer farinha de mandioca. “O estilo de vida deles é muito diferente e nunca vou esquecer da generosidade e do carinho com que me receberam.”

A experiência do encontro com os índios mundurucu também foi marcante. Os alunos tinham passado sete dias sem cruzar mais que dois barquinhos de pesca no rio Juruena, e se depararam com os índios na margem — naturalmente estupefatos com aquela tribo de estrangeiros remando com roupas e barcos inéditos por aquelas bandas. A aproximação foi amigável e o grupo aproveitou para perguntar por qual dos três canais do rio deveriam seguir, já que estavam em um trecho desconhecido e cheio de corredeiras e desníveis. Os índios sugeriram um caminho, mas os alunos líderes do dia preferiram o outro canto, onde a descida poderia ser mais emocionante. Aconteceu, é claro, o pior: canoas viraram e foram furadas pelas pedras, e o grupo aprendeu, pelo erro, que não se deve desprezar o conhecimento dos nativos.

 

 

6a LIÇÃO: ESTEJA SEMPRE ALERTA

É por sujeitar seus alunos aos riscos inerentes ao ambiente natural que a Nols investe cerca de 2 milhões de dólares anuais em seguros e só viaja com um plano de ação para emergências que inclui estrutura de comunicação via satélite e resgate de helicóptero para hospitais de plantão. É compreensível. Nada menos que 14 alunos morreram em expedições, quatro deles nos últimos 20 anos. A maior parte dos familiares move processos contra a es- cola. Há casos de afogamento em rio, queda em buraco de glaciar e, o que é mais freqüente, soterramento em avalanches. Acampamentos já foram destruídos por ursos e muita gente foi picada por cobras. Os incidentes mais comuns puderam ser constatados na Nols Amazônia 2007: vários alunos tiveram desarranjos gastroin- testinais; o nova-iorquino Andrew Leitman, 20, torceu o joelho e teve de ser resgatado, e Jane McNeal, 20, da Geórgia, teve quei- maduras de segundo grau ao abrir a panela de pressão.

São as picadas, sejam elas de saúvas, abelhas ou pernilongos, os inimigos mais pentelhos de quem se aventura pelos rincões da Amazônia por tanto tempo. Além do episódio das formigas que picotavam até o material sintético de roupas e barracas, os mochileiros enfrentaram ataques de abelhas e de lambe-lambes,minúsculos insetos que atingem o olho humano em busca de sais minerais. E as tantas picadas que os alunos sofreram remando no rio Juruena parecem ter originado uma reação alérgica em quatro pessoas, com bolinhas vermelhas e pus em torno das axilas. Fe- lizmente, os instrutores carregavam quilos de medicamentos que permitiram aliviar o incômodo. A situação foi bem distinta daquela enfrentada pelos 13 jovens que fizeram o primeiro curso, em 2006, e foram acometidos de uma irritação nos pés conhecida como rói-rói. “A dor nos pés era tanta que não podíamos pisar no chão”, lembra o instrutor Atila, que precisou ser carregado.

A expedição de 2006, por sinal, foi um batismo de fogo também para os instrutores da Nols no Brasil. Além do imprevisto dos rói- róis e de duas picadas de escorpiões, eles tiveram de lidar com o fato de três dos 13 alunos não completarem a viagem, um com fratura no punho e dois por pura falta de motivação. O clima dentro do grupo e com os instrutores, ao final dos três meses, também não era dos melhores, especialmente depois que a su- bida ao pico da Neblina foi cancelada em função de um bloqueio feito pelos índios ianomâmi. A verdade todo mundo sabe: a união de pessoas tão diferentes enfrentando uma rotina de desconfor- to por tanto tempo deixa qualquer mortal com os nervos à flor da pele e o equilíbrio do grupo depende de fatores como afinidades, respeito e bom humor.

Já em 2007 o clima es- tava bem mais leve. Em um dos dias em que eu estava com o grupo, fla- grei o momento em que o instrutor Dálio trocou de roupa, discretamente, fora da barraca. Uns riram, ou- tros não deram bola, mas a naturalidade da situação deu origem a uma curiosa conversa sobre os áureos tempos em que a Nols, em meio ao movimento hippie e de contracultura da década de 1970 nos Estados Unidos, era uma escola liberal. Grupos de estudantes remadores en- frentavam o mar nus como vieram ao mundo, professores dormiam com alunas e até o baseadinho à beira da fogueira era um ritual tão natural quanto em tantas rodas de acampamento selvagem do planeta. Os tempos mudaram, a sociedade norte-americana careteou e a Nols hoje tem fama de escola conservadora. Durante o curso, namoricos são desestimulados (devem ser absolutamente discretos), uma latinha de cerveja ou um cigarro de maconha são motivos para expulsão (cerca de dez alunos são eliminados anu- almente por porte de droga) e qualquer militância pró-naturismo é imediatamente banida. Até um ingênuo tocador de mp3 é um mau elemento, proibido em prol da interação do grupo entre si e com o ambiente.

 

 

7a LIÇÃO: DESENVOLVA SUAS VIRTUDES

Ao fim do segundo mês da expedição, quando o grupo concluiu o trecho de rio em Alter do Chão (PA), os instrutores eram quase que apenas colegas observadores, com os alunos tendo autono- mia para decisões sérias. Foram eles quem elegeram os líderes dos dois grupos que enfrentariam o desafio final: a expedição de uma semana pelo monte Roraima (RR). Os mais virtuosos eleitos para a função foram Edmilson, o bolsista brasileiro, e Alex, o eco- nomista de Chicago, curiosamente os mais velhos do grupo. Dois dos instrutores os seguiram de longe, apenas para uma eventual emergência — o que não aconteceu. “Foi ótimo perceber que eu tinha evoluído tanto em apenas três meses, pois vim para a Amazônia sem nunca ter acampado na vida”, conta Alex, que chegaria ao fim da expedição nada menos que 11 quilos mais magro e sabendo identificar plantas, nuvens e estrelas. “Tenho certeza de que levarei as lições desta experiência para o meu trabalho”, continua ele, que levou nota A. “Você vê como uma expedição na natureza muda a mente das pessoas?”, questiona o experiente instrutor Jim Chisholm. “É fazendo coisas difíceis que as pessoas se fortalecem”, diz.

De uma forma geral, o grupo se despediu entre festas e lágri- mas, como era de se esperar de quem vive uma experiência tão intensa, com promessas de reencontro e discursos de que tinham se tornado pessoas melhores. Edmilson, por sua vez, tinha uma satisfação maior. No fim do primeiro mês de curso, ele tinha ga- nhado uma nota B porque, segundo os instrutores, estava aquém do seu potencial. “Eu sabia que tinha mais experiência que os outros, mas não queria despertar antipatia por isso ou por ser o mais velho”, lembra. No fim da saga amazônica, ele estava feliz por ter exteriorizado sua faceta de líder. Ganhou nota A e um convite para fazer, também com bolsa de estudos, o curso de instrutores da Nols em 2008. A escola se prepara para lançar dois novos cursos no país este ano — esse e o de primeiros-socorros, em julho — e pretende expandir sua atuação no país contratando novos instrutores. Depois da expedição, Edmilson é o primeiro candidato. Alguém mais se habilita?

 

RAIO X:

Desde que a Nols (nols.edu) foi criada pelo guia de montanha Paul Petzolt, em 1965, na cidade de Lander, no esta- do norte-americano do Wyoming, nada menos que 85 mil alunos já viajaram para alguns dos 14 campi naturais da escola espalhados por nove países (cinco deles nos Estados Unidos). O catálogo 2008 inclui 96 cursos que acontecem em 253 datas e que podem durar de dez dias a um ano, atraindo cerca de 3 mil alunos anualmente. A Nols treina guarda-parques, como os da Patagônia chilena, e oferece expedições que misturam às modalidades esportivas expe- riências que vão da hospedagem em ashrams indianos até contatos com aborígines australianos. O curso anual que acontece no Brasil desde 2006 atrai especialmente univer- sitários dos Estados Unidos porque, graças a um convênio da Nols com a Universidade de Utah, tem disciplinas que contam créditos para a faculdade: biologia, ética ambiental, técnicas de liderança, gerenciamento de risco. As aulas mis- turam sofisticadas lições de técnicas de montanhismo com receitas culinárias da vovó, num cardápio que transformou a Nols numa potente organização não-governamental sem fins lucrativos, que emprega 980 funcionários em sua sede, durante a alta temporada, e que despacha 560 instrutores de campo para recantos remotos como o Campo de Gelo Sul, na Patagônia, e os 6 mil metros do pico Denali, no Alasca. O semestre brasileiro custa aos pais desta molecada bem- nascida a bagatela de US$ 13.300 (R$ 25 mil), sem contar o seguro e a taxa de crédito pelas disciplinas escolhidas (cada uma por US$ 45).