A Fórmula Indy invade São Paulo

Bastou Rubens Barrichello anunciar que disputaria a temporada 2012 da Fórmula Indy para que os ingressos da São Paulo Indy 300, etapa brasileira da categoria, tivessem uma disparada nas vendas. O piloto paulistano será a grande novidade da prova de rua do Anhembi, terceira das 16 etapas do campeonato, a se realizar em 29 de abril, com a TAM Viagens como operadora oficial. Apesar de Barrichello ter participado de 19 temporadas da Fórmula 1 e conquistado 11 vitórias e dois vice-campeonatos (2002 e 2004), na Fórmula Indy ele é novato. E alinhará seu carro em um grid com um time nacional de feras: Helio Castroneves, ribeirão-pretano três vezes vencedor das míticas 500 Milhas de Indianápolis (2001, 2002 e 2009); Tony Kanaan, que se mudou da Bahia para a capital paulista ainda criança e foi campeão da Indy em 2004; e Bia Figueiredo, paulistana que é a primeira mulher brasileira a pilotar em uma categoria top do automobilismo mundial. TAM Nas Nuvens entrevistou os quatro nos treinos pré-temporada realizados em março na pista de Sebring, na Flórida.

Gostou da foto ao lado? Pois saiba que não é fácil reunir quatro pilotos em um intervalo de treinos, quando todos querem correr contra o cronômetro para reduzir seu tempo na pista em incontáveis milésimos de segundo. Especialmente em uma categoria como a Fórmula Indy, que, em suas largadas em movimento, costuma espremer mais de 20 carros em velocidade parecida. Nos treinos classificatórios, a diferença entre o pole position e o último colocado não costuma passar de um segundo.

“Que cachos lindos, Bia!”, brinca Tony Kanaan, 37 anos e 15 vitórias na Indy. “Passe o telefone do seu cabeleireiro pro Helinho”, continua, gargalhando. “Ô, tira a mão daí, Tony”, grita Barrichello, 39 anos, veterano da turma. Os bastidores da produção desta foto revelam o ambiente descontraído em que vivem esses jovens que se profissionalizaram fazendo o que amam: acelerar carros de corrida. Os quatro não veem a hora de se confrontar em São Paulo a mais de 300 quilômetros por hora, na prova de 300 milhas (482 quilômetros) que acontece no Anhembi. O circuito inclui o entorno deste grande centro de convenções da capital, o Sambódromo e a via da Marginal Tietê que forma a maior reta do campeonato, com 1,5 quilômetro de extensão.

HOMEM-ARANHA DANÇARINO

Quando acaba a sessão de fotos e eles voltam para a pista, Rubens, Helio, Tony e Bia não são tão amigos assim. Ali, é cada um por si. No primeiro embate, os mais rápidos foram Barrichello e Castroneves. Mesmo sem conhecer o carro e a pista, Rubinho surpreendeu e fez valer a experiência de 322 provas de F1. Seu tempo de volta foi quase idêntico ao de Helio Castroneves, 36 anos. Helinho, que ganhou o apelido de Homem-Aranha por celebrar suas 25 vitórias escalando as cercas dos autódromos, é uma celebridade nos Estados Unidos, onde vive desde 1996. Além das vitórias na Indy, em 2007 o “Spider-Man” venceu o dancing with the Stars, um popular concurso de dança de celebridades. Em 2009, Helinho foi parar nos tribunais norte-americanos acusado de sonegação de impostos — crime do qual seria inocentado por um júri popular. O drama está detalhado na biografia O Caminho da Vitória, lançada no Brasil em dezembro pela Editora Gaia.

Castroneves nunca teve nas pistas maior inimigo que Tony Kanaan. Os dois se enfrentam desde a in- fância no kart e migraram juntos para o automobilismo norte-americano, em 1996. Com 14 temporadas de Indy cada um, são os mais experientes brasileiros da história da categoria, tendo superado até o pioneiro Emerson Fittipaldi, que correu 13 campeonatos. Uma briga nas pistas, no GP de Chicago de 2006, quase provoca um rompimento definitivo entre os dois. “Eu disputava a vitória e o título, e o Tony, que era retardatário, não facilitou minha ultrapassagem”, lembra Helio. “Fiquei muito chateado.” Passaram dois anos sem se falar. “Um dia, tivemos de nos sentar à mesa juntos em um evento em Indianápolis. Olhamos um para o outro e resolvemos conversar”, lembra Kanaan. “Estamos maduros, viramos pais, não somos mais os moleques que brigavam até nos videogames”, continua Tony, que também mora na América há 15 anos e é pai de leonardo, quatro anos. A filha de Helio, Mikaella, tem dois anos.

O FEIO E O NARIGUDO

Tony sempre lutou como gato e rato com Helio nas pistas. Fora delas, nenhum piloto é mais íntimo de Kanaan que Barrichello. “A gente se chama de irmão, briga como irmão”, conta Rubinho, que adora xingar Tony de narigudo. “Um é padrinho do filho do outro, e até cria- mos juntos uma ONG, o Instituto Barrichello Kanaan”, diz Tony, que retruca dizendo que Rubens é feio. Então um promissor kartista descendente de libaneses, o pequeno Antoine Rizkallah Kanaan Filho perdeu o pai aos 13 anos e foi afetivamente “adotado” pelos Barrichello, quando Rubinho já era a maior revelação surgida nas pistas brasileiras depois de Ayrton Senna. Mas Rubens nunca chegou a enfrentar o “caçula” — embora tenham competido 15 vezes, se revezando como colegas de equipe, nas 500 Milhas da Granja Viana. Trata-se da corrida de kart promovida por alguns dos oito pilotos Giaffone, família de Silvana, esposa de Rubens. A disputa entre os dois, especialmente em São Paulo, é uma das mais aguardadas de 2012. Foi o próprio Tony quem levou Barrichello para a Indy, e logo como seu companheiro na equipe KV — um time médio que tem a missão de bater as favoritas Penske, onde corre Helio, e Chip Ganassi, do atual campeão, o escocês dario Franchitti (que levou os títulos também de 2007, 2009 e 2010).

Se confirmar sua performance nos treinos, Barrichello vai deixar o mano Tony comendo poeira. “Me apaixonei pelo carro, e por isso convenci minha mulher a me deixar correr nos ovais”, conta Rubinho. Silvana viu de perto seus primos Felipe e Affonsinho Giaffone disputarem a categoria e havia pedido ao marido que jamais corresse nessas difíceis pistas circulares. E serão justamente os cinco ovais do calendário, onde se atinge perto dos 400 quilômetros por hora com o carro quase colado ao muro, os maiores desafios de Barrichello na nova em- preitada. “Tenho de me adaptar também aos volantes sem direção hidráulica, aos pneus sem aquecedores, a todos os circuitos.” Além disso, Rubinho está trocando o glamour de ter vivido por 15 anos em Mônaco pelo pinga-pinga de viajar por 11 cidades dos Estados Unidos (do total de 16 etapas, que inclui também China, Brasil e duas no Canadá). “Sonho viajar pelo país de motorhome com minha mulher e os meninos”, conta ele, referindo-se a Eduardo, de 10 anos, e Fernando, de 6. Seus maiores desejos, no entanto, são outros: ganhar em São Paulo (“e dar uma sambadinha no pódio do Sambódromo”, brinca) e, é claro, as 500 Milhas de Indianápolis.

A BElA ATREVIDA

O sonho é o mesmo de Ana Beatriz Figueiredo, a Bia, a mais jovem do grupo. Aos 26 anos, a paulistana bela e atrevida, que aprendeu a amar o automobilismo vendo Senna e Barrichello pela TV, mal pode acreditar que alinhará o carro no mesmo grid que Rubinho. “Quando eu entrar na pista, prefiro nem saber quem está ao meu lado”, diz ela, que disputou quatro etapas em 2010 e teve uma complicada temporada em 2011. Apadrinhada pelo ex-piloto André Ribeiro, que ganhou a prova da Indy no Rio de Janeiro em 1996, Ana Beatriz é competitiva: conquistou duas vitórias na categoria de acesso à Indy, a Fórmula Indy lights, e ficou em terceiro lugar no campeonato de 2008. Na Indy, disputa a admiração do público com as outras mulheres da categoria, a inglesa Katherine Legge e a suíça Simona de Silvestro. “Sinto que os pilotos brasileiros até me protegem fora da pista, mas dentro dela me respeitam como um piloto qualquer”, conta. “Melhor assim.” Que assim seja, especialmente quando os carros dessa turma derem a largada diante das 40.000 pessoas esperadas no circuito do Anhembi.

 

Linha do tempo

 

Conheça a história do Brasil na Fórmula Indy, que já teve mais de 20 pilotos do país

 

1911

Primeira edição das 500 Milhas de Indianápolis (origem dos “Indy Cars”)

 

1984

Campeão de F1 (1972 e 1974), Emerson Fittipaldi vai pra Indy

 

1985

Também ex-pilotos de F1, Raul Boesel e Roberto Moreno entram na categoria

 

1989

Emerson vence as 500 Milhas de Indianápolis e leva o título da temporada

 

1992

Nelson Piquet sofre grave acidente nos treinos para as

500 Milhas de Indianápolis

 

1993

Emerson vence de novo a Indy 500, e Maurício Gugelmin, ex-F1, entra na categoria

 

1995

Primeira “invasão jovem” de brasileiros na Indy: estreiam Christian Fittipaldi, Gil de Ferran e André ribeiro

 

1996

Emerson sofre acidente no Gp de Michigan e se aposenta

 

André Ribeiro vence a primeira corrida da Fórmula Indy no Brasil, a Rio 400

 

2000

Gil de Ferran sagra-se campeão

 

2001

Helinho vence as 500 Milhas de Indianápolis e Gil é bicampeão

 

2002

Cristiano da Matta é campeão da Indy e Helinho vence pela segunda vez em Indianápolis

 

2003

Gil de Ferran conquista as 500 Milhas de Indianápolis

 

2004

Tony Kanaan é o quarto brasileiro campeão da Fórmula Indy

 

2009

Castroneves vence pela terceira vez a Indy 500

 

2010

Primeira corrida da Fórmula Indy em são paulo, com estreia de Bia Figueiredo

 

2012

Depois de 19 temporadas na Fórmula 1, Rubens Barrichello estreia na Fórmula Indy

 

Grande Prêmio São Paulo De Fórmula Indy

O circuito: A largada da São Paulo Indy 300 (saopauloindy300.com.br) acontece no sambódromo.

Os carros passam pela Av. Olavo Fontoura, pelo centro de convenções do Anhembi, pela rua Massinet Sorcinelli e pela Marginal tietê. No total, são 4.180 metros.

NA TV: A São Paulo Indy 300 terá transmissão ao vivo pelos canais Band e Bandsports, além das rádios Bandeirantes e BandNews FM.

QUANDO: 28 (treino) e 29 (corrida) de abril de 2012, 14 horas

Em Portillo, a primeira vez de um esquiador

Você começa calçando botas pesadas, de uns 5 quilos cada uma. Veste os óculos que tapam a cara inteira, depois as luvas grossas, e então agarra os bastões. Protegido por casacos impermeáveis que cobrem até o pescoço, parece um super-herói poderoso. Mas basta dar o primeiro passo para cair: primeiro, na dura realidade de que, nesta empreitada, você está na estaca zero; e depois, cair literalmente. Uma, duas, muitas vezes. No meu caso, seis, só na manhã de estreia. Mas era para pagar mico e aprender a esquiar que eu estava ali, na aula básica da escolinha de Portillo, que já viu o tombo de muita gente desde que foi construída pelo governo chileno nos anos 1940 (posteriormente comprada por norte-americanos, em 1962).

Lição número 1: perca a vergonha. Todo esquiador estreante anda feito um pato. Ou talvez um pinguim, ou como o próprio mico — afinal, os animais estão ali, representados com placas do tamanho de um ser humano na pista El Corralito, repleta de crianças. A rampa diante da porta dos fundos do hotel é uma espécie de jardim da infância também para marmanjos como eu. A segunda aula era óbvia. “Levante a coluna, olhe para a frente, flexione os joelhos, relaxe os ombros”, dizia o instrutor. Nada fácil fazer tudo isso ao mesmo tempo… Era preciso imitar as crianças, que não têm medo e, em nome da diversão, se jogam.

Eu havia alugado os equipamentos na tarde anterior, um sábado, quando começam os pacotes semanais. Mas passaria só quatro dias: como Portillo está no meio do caminho entre Santiago e Mendoza, na Argentina, aquela seria apenas uma parada naquelas férias para degustação dos melhores vinhos latinos. Os quase 3 mil metros de altitude me deixaram sonolento, sem fôlego até para subir escadas, e decidi tirar a primeira tarde para alugar acessórios e conhecer o hotel. Queria descobrir refúgios para o caso de perceber que esqui não era para mim. E achei a piscina, a sauna, as aulas de ioga… Aproveitei também para contratar os professores: teria três aulas coletivas e uma particular, com tempo livre para treinar sem monitores.

Era grande a pressão naquela primeira aula, no domingo. Com as condições climáticas ideais — céu azul de setembro, oito da manhã, 5° C, sol ainda manso e 90 centímetros de neve na base —, invejei não só as destemidas crianças que desciam voando a um centímetro de mim na pista El Corralito, mas também o colorido balé que eu via nas pistas azuis, vermelhas e pretas no alto da montanha, onde deslizavam até os profissionais das seleções norte-americana e canadense de esqui. E eu ali, caindo, levantando e aprendendo pacientemente o beabá de frear, fazer curva e ziguezaguear. E me questionava: quando vão me deixar subir no teleférico e esquiar lá no alto?

No segundo dia, tive duas boas surpresas: ser promovido para a pista La Princesa — onde, em vez de usar uma esteira rolante lenta como a de El Corralito, eu subia esquiando em pé puxado por um lift chamado Va et Vient até poder descer esquiando em uma pista mais íngreme — e o convite para conhecer o restaurante Tio Bob’s, no alto da montanha. Para chegar lá, eu subiria no teleférico, finalmente. “Portillo é uma estação pequena, familiar, e vai continuar assim”, disse o proprietário Henry Purcell, que conheci no restaurante. “Para garantir a qualidade dos serviços, não queremos crescer.”

A frase de Purcell era uma resposta a quem reclama do fato de que, diferentemente de outras estações, Portillo não tem prédios variados e modernos, mil pistas ou um centrinho urbano para badalar. Mas a proposta daquela espécie de transatlântico amarelo atracado na imensidão branca dos Andes é mesmo essa: ser uma espécie de navio familiar. Quando voltam da pista, os esquiadores se encontram em incríveis piscinas aquecidas ao ar livre bem diante da congelada Laguna del Inca. Nos dois restaurantes, os hóspedes sentam-se à mesma mesa e são atendidos pelos mesmos garçons em todas as refeições. Come-se muito. E bem. Para ser um cruzeiro, só faltam o mar e o cassino.

 

Alcancei a glória no último dia. O instrutor considerou-me apto a pegar o teleférico novamente e descer esquiando a pista verde mais difícil, a El Puma. Agora sim: desci cambaleando da cadeira, endireitei o corpo, controlei a velocidade, fiz o zigue-zague direitinho — embora, preciso confessar, tenha levado um último tombo. Mas, com aquela falta de vergonha típica das crianças, levantei e desci destemido, sentindo o vento e o êxtase de surfar no oceano de neve. Tirei a roupa de Robocop e relaxei os pés aliviados na piscina diante do lago. No jantar, é claro, brindei o sucesso da minha primeira vez retomando a proposta original da viagem: tomando um bom vinho chileno.

PANORAMA

Portillo concentra suas 30 pistas, acessíveis por 14 meios de elevação, no entorno de sua única base, o Hotel Portillo, a 2.880 metros. Fica na imensidão branca dos Andes, bem no alto dos “caracoles”, trecho da espetacular estrada em zigue-zague que leva à burocrática travessia fronteiriça entre o Chile e a Argentina.

ESTRUTURA

Tem pistas para todos os níveis: as crianças se divertem na El Corralito, os diletantes passeiam na El Princesa e os experientes descem a El Puma. Como não há centro urbano por perto, a diversão está toda ali: sauna, bares, sala de internet, quadras. E o melhor: piscinas aquecidas e ao ar livre.

TEMPORADA

De junho a setembro

 

COMO CHEGAR

O próprio hotel pode programar o traslado desde o aeroporto de Santiago, a 164 quilômetros (duas horas). Ônibus para Mendoza, na Argentina, também a duas horas, param diante do hotel se combinado com antecedência.

 

ONDE FICAR

Com 123 apartamentos, o Hotel Portillo (tel. +562/263-0606, skiportillo.com) tem uma decoração antiquada, mas cheia de clima. Uma semana custa a partir de 1.700 dólares por pessoa. Já os lodges Octagon e Inca, com quartos e banheiros compartilhados, podem sair por menos da metade — com direito a usufruir da completa estrutura do hotel.

 

Publicado na revista TAM Nas Nuvens de dezembro de 2011.