Hóspede de uma ecovila

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Um arco-íris coloria o céu azul do verão escocês quando desembarquei na estação de Forres, depois de quatro horas viajando de trem desde a capital, Edimburgo. Eram as boas-vindas para a semana de férias que eu passaria no povoado vizinho de Findhorn. Naquela comunidade pioneira, em 1962, nascera o embrião do que hoje chamamos de ecovila: um assentamento humano exemplar, com práticas coletivas saudáveis e sustentáveis que viraram alternativa à rotina insalubre e ao isolamento dos edifícios das metrópoles. Desci do táxi e me deparei com fileiras de casinhas de tetos verdes, com painéis fotovoltaicos e amplas áreas envidraçadas, quatro moinhos de energia eólica no horizonte, crianças brincando com cachorros entre jardins floridos. Parecia que eu entrava em um feliz comercial de margarina.

 

Pagando para limpar banheiro

Bastou eu me identificar – “vim para a Experience Week” – para ser levado ao Cluny College, um antigo hotel no alto de uma colina, onde seria acomodado em quarto coletivo e com banheiro compartilhado. Ali acontecem boa parte dos 250 cursos que mobilizam 2.500 visitantes anualmente. Eu e meus 14 colegas de turma (das mais variadas idades, origens e profissões) começamos a entender a experiência de estar ali logo no primeiro encontro. Nossos dois instrutores (os “focalizadores”), o inglês John e a francesa Priska, se apresentaram e nos fizeram sentar em roda em torno de uma vela acesa. Antes de tudo, devíamos fazer uma pequena meditação, prática que se repetiria na abertura e no encerramento de todas as reuniões e refeições. Não, ninguém precisava rezar. “O objetivo é entrar em sintonia, estar presente”, disse John. Em seguida, nos apresentamos e fomos divididos em grupos de trabalho para que circulássemos por diferentes áreas da comunidade ao longo dos próximos sete dias. Eu, que pagara 400 libras (cerca de 1.200 reais) para estar ali, lavaria as gigantes panelas do restaurante, cuidaria do jardim do colégio, aspiraria o pó dos carpetes do centro de visitantes e… limparia banheiros!

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Frutos dos repolhos gigantes

Quando tudo começou, há 50 anos, Findhorn era apenas o nome de uma vila à beira-mar para onde se mudaram, compartilhando o mesmo trailer, o casal Eileen e Peter Caddy com a amiga Dorothy Maclean, demitidos do hotel quatro-estrelas que funcionava em Cluny Hill. Para se manter, passaram a plantar o que consumiam, como repolhos gigantes que começaram a atrair curiosos – entre eles, os hippies que buscavam novos formatos sociais de vida. “Em 1995, sociedades alternativas semelhantes de várias partes do planeta se reuniram em Findhorn e cunharam o termo ecovila para assentamentos que se sustentassem no âmbito ecológico, social, econômico e espiritual”, conta a brasileira May East, ex-vocalista da banda de rock Gang 90, moradora há 20 anos e atual diretora de relações internacionais do local. Findhorn descobriu na educação o principal filão – entre outras 60 atividades econômicas, como edição de livros e produção de mel de abelhas – para se sustentar e remunerar os moradores que trabalham para a fundação: metade dos 250 habitantes das 70 casas da ecovila ganha por mês apenas 200 libras (pouco mais de 600 reais), além de casa coletiva e comida. As funções são rotativas – o prefeito de hoje pode ser o cozinheiro do ano que vem –, e todos recebem na moeda local, o Eko, com valor idêntico ao da libra e formato parecido com as cédulas do jogo Banco Imobiliário.

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Morando num tanque de whisky

Eu acordava às 7 horas, participava de uma roda de cantos cerimoniais, tomava café da manhã e descia a colina na van para The Park, o parque onde fica a ecovila de fato. Mais uma meditaçãozinha e recebia as incumbências do meu grupo de trabalho, formado por quatro divertidos moradores: um irlandês, uma canadense, um inglês e uma senhora suíço-alemã. Esta última, chamada Seynabou Soppelsa, foi quem me detalhou os destinos dados ao lixo local. Afora todos os recicláveis, restos de alimentos também são separados em crus (para virar adubo), cítricos (compostos especiais) e cozidos (para alimentar animais). Entre uma atividade e outra, conheci boas soluções ambientais, como a usina de biomassa (que queima dejetos orgânicos para aquecer as casas) e a Living Machine, sistema composto de tanques com plantas que trata o esgoto dos moradores e propicia a reutilização da água em toaletes e jardins. Nenhuma prática, porém, é mais peculiar que as casas construídas com velhos tanques antes usados no armazenamento de whisky – afinal, Findhorn está ao lado das Highlands, berço dos melhores destilados do planeta. Foi em um desses reservatórios de madeira, gigantes e circulares, que nasceram as duas filhas de May East, dentre outros filhos de Findhorn.

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Monastério eco-zen contemporâneo

Participar de um retiro não era exatamente a minha intenção quando viajei para Findhorn. Mas a semana de experiência ali me mostrou que um outro estilo de vida é possível – desde que se abra mão de certos confortos. É preciso aprender a escutar e conviver (e driblar as intrigas e fofocas do dia-a-dia), estar desprendido do poder e de posições fixas, ter alma aventureira. As 800 pessoas que se dizem da comunidade (várias delas moram fora dos limites da ecovila) praticam, de fato, o lema “Seja a mudança que você espera ver no mundo”. E tanto moradores quanto visitantes repetem que viveram ali transformações pessoais. Comigo não foi diferente, especialmente pelas ideias trocadas com gente de todo o mundo quando acabávamos o trabalho e íamos passear na praia, na floresta, fazer um som ou tomar whisky local no pub vizinho. “Findhorn deu certo porque mantém a inspiração da paixão de seus fundadores”, conta outra brasileira, Bettina Jespersen, que vive ali há mais de uma década, hoje com o marido Iain e a filha. “Preservamos a natureza pela qual Dorothy era apaixonada, cuidamos do espírito como pregava Eileen e vivemos coletivamente como sonhava Peter.” Por isso Findhorn não se tornou um mero monastério eco-zen passageiro ou um experimento de uma geração só, mas sim uma comunidade sustentável contemporânea – e uma lição viva para o planeta.

INFO: findhorn.org

Dias de majestade

Vestimos as pesadas saias xadrez, ajeitamos as gravatas-borboleta, demos cinco voltas dos cadarços dos sapatos em cada perna, prendemos as facas nas longas meias e amarramos as pochetes na cintura. Faltavam três horas para a partida do trem – programada britanicamente para 13h41 – quando terminamos de experimentar os kilts. Era nossa primeira vez alugando vestimentas tradicionais, e aquele ritual coroava com uma dose de glamour o que vinha pela frente: três dias a bordo do The Royal Scotsman, o expresso de luxo da mítica rede Orient-Express na Escócia. Ostentar os trajes da Kinloch Anderson já era sinônimo de nobreza: a marca existe desde 1868 e provê roupas para a Rainha Elizabeth e o Príncipe Charles. A partir dali, os reis seríamos nós – especialmente no jantar da última noite a bordo, que requeria vestimenta formal. Penduramos os cabides no típico táxi preto e aceleramos para a Edinburgh Waverley Station, onde xícaras de chá inglês nos esperavam na sala vip da estação e um tocador de gaita de fole conduziria a fileira de passageiros para o mais sofisticado trem do Reino Unido.

Daniel Nunes e o fotógrafo Adriano Fagundes na cabine do trem (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

“Welcome, ladies and gentlemen, good morning and thank you”, nos recebeu solenemente o anfitrião, Michael Andrew, no vagão panorâmico, decorado com tons quentes de bordô e dourado. “Aproveitem para observar a paisagem e tomar um drinque enquanto aguardam sua vez de serem levados às habitações.” Degustar os melhores whiskies do planeta justamente ali, no berço deles, era um dos prazeres mais aguardados dessa viagem. Mais de 600 garrafas são consumidas no trem a cada temporada de maio a setembro (não há serviço no inverno), e havia mais de 40 delas à disposição no bar. Das bebidas alcoólicas aos passeios feitos em terra a cada parada, tudo está incluído no preço do pacote: 2.140 libras (cerca de 5.500 reais) por aqueles três dias de passeio de ida e volta entre Edimburgo e as Highlands, as altas montanhas do Norte da Escócia. A Orient-Express opera ainda outras seis rotas, num total de 25 viagens pelo Reino Unido a cada ano, e elas podem durar até uma semana – a maior delas custa para cada passageiro 8.870 libras, ou uns 23 mil reais.

(interior da cabine, fotos de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Começamos por um Glenkinchie 12 anos, leve e com aroma floral. “Gostou desse ou prefere algo mais smoky?”, perguntou o simpático barman Fraser Robson, 21 anos, escocês de Edimburgo. Um dos mais de 60 funcionários escalados para atender aquele grupo seleto de 28 passageiros (embora a capacidade total seja de 36 pessoas), Fraser servia as bebidas de forma segura, enquanto o trem apitava e já entrava em movimento. Sinal de que aproveitou bem o treinamento rigoroso feito ao longo de um mês antes do início da temporada, quando os empregados aprendem detalhes sobre o funcionamento e a história do The Royal Scotsman: embora tenha começado a circular em 1985, o trem tem a maior parte de sua estrutura datada da década de 1960. “Nenhum aprendizado é mais importante do que o de lidar com uma clientela exigente”, contou Fraser. “O trabalho é prazeroso: várias vezes me flagro olhando pelas janelas, admirando paisagens de tirar o fôlego.”

(foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Minutos depois já atravessávamos a cozinha, a biblioteca e os cinco vagões-dormitório daquela centopeia mecânica de 200 metros e corredores estreitos. A compensação viria dentro dos vinte quartos, maiores do que se espera encontrar em um trem. Adriano, meu colega fotógrafo, ficou na cabine M. “M de majestade”, brincou, dando uma piscada de olhos. Eu fui levado ao próximo quarto disponível, o da letra P – “P de príncipe”, retruquei, rindo. “Precisando de algo do nosso serviço de concierge, basta tocar este botão”, disse o simpático francês que carregou nossas malas. Minutos depois eu faria o teste, pedindo que levassem uma camisa para tirar um leve amassado. Revestido de madeira decorada com marchetaria, meu quarto tinha duas camas de solteiro confortáveis diante de dois metros de janela, uma escrivaninha, guarda-roupa com roupões e, no banheiro privado, aquecedor para toalhas. Como se não fosse suficiente, o trem para durante a noite, garantindo melhor sono aos passageiros.

Os maquinistas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

A primeira parada aconteceria na destilaria da Dalwhinnie, a mais alta das 14 destilarias das montanhas de Speyside. As duas doses do final do tour davam continuidade às degustações que terminariam depois do jantar informal daquela primeira noite. No vagão Raven, cujas várias mesas acomodam 20 dos passageiros, nos sentamos à mesa com todos os talheres e taças a que tínhamos direito. À medida que montanhas com picos nevados, lagos e pastagens de ovelhas dançavam na paisagem, éramos apresentados ao menu: salada acompanhada de terrine de legumes com chutney de tomate e azeitonas pretas e filé de halibut com purê de batatas e aspargos – tudo sempre harmonizado com vinhos de primeira linha. A noite só caiu por volta das 23 horas, depois de assistirmos a uma apresentação de música típica escocesa no vagão panorâmico, já com o trem parado diante de um campo de golfe verdinho na estação Boat of Garten. E, claro, depois de mais algumas doses de puro malte.

Quando despertamos para o café da manhã, o trem já estava em movimento para mais um trecho da viagem de 870 quilômetros. Os maquinistas Daniel Forbes, 70 anos, e Jim Waddell, 53, tinham levantado cedo, às 6 horas, para ligar o grande propulsor que impulsiona a locomotiva na velocidade média de 100 quilômetros por hora em uma linha exclusiva, diferente da usada por outros trens. “Motores bons como este, feito em 1957 e ainda na ativa, são um verdadeiro patrimônio”, nos contaria Jim mais tarde. “É um privilégio encerrar nossa carreira neste trem”, emendou seu colega Daniel. “Eu me aposentei, mas continuo aqui por amor ao ofício, com a vantagem de comer boa comida e de conhecer gente amável do mundo todo.” É no fim do dia que essa dupla relaxa e pode também tomar sua dose de whisky. E qual é o melhor destilado escocês? – perguntei. “É aquele que um amigo paga para você”, respondeu gargalhando o velho Jim.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Naquela manhã, os passageiros trocaram o trem por uma van até o Rothiemurchus Estate, em meio a uma floresta de pinheiros do Parque Nacional Cairngorms, onde teriam de optar por qual passeio fazer: caminhar por 3 quilômetros e fazer observação de pássaros, uma paixão dos britânicos; passear por estradas mais distantes em veículos 4×4; praticar clay pigeon shooting, um jogo de tiro que tem como alvos discos de argila lançados ao alto; ou praticar fly-fishing, aquele tipo de pesca com uma vara de linha longa onde são colocadas iscas coloridas que se assemelham a mosquitos. À tarde, depois da volta ao trem em Aviemore (quando fomos recebidos com drinques) e do almoço (bouillabaisse de frutos do mar), a parada foi outra: o campo de batalhas de Culloden. “Aqui aconteceu o último grande conflito em terras britânicas, em 1746, quando morreram mais de 1.200 pessoas em apenas uma hora”, contou o guia e ator Ray Owens, vestido como um highlander.

 

O programa mais esperado da viagem, no entanto, aconteceria naquela segunda noite: o jantar formal. Dessa vez, fomos acomodados na única mesa coletiva do segundo vagão-refeitório, o Victory, construído em 1945. “Sempre usamos os mais frescos ingredientes escoceses, como estes salmões defumados”, contou o jovem chef Ian Steel, 33, escocês que já trabalhou em alguns dos melhores restaurantes de Glasgow e que foi chamado à mesa para ser aplaudido pelos comensais. Para nós, estrangeiros, mais marcante que a excelente comida era a pompa do evento. Como recomendado previamente, todos eram convidados a vestir black tie, tuxedo ou o traje típico escocês – que foi, claro, a nossa preferência.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Nos vestimos com gravata-borboleta, faca na canela, nada por baixo do kilt. O assunto das conversas na grande mesa variou de casamento real a filmes de Bollywood enquanto papeávamos com a família de Harsh Singhania, indiano de Nova Délhi, e com o casal Ian e Deborah Griffiths, britânicos de Londres em lua de mel. O trem parou para o segundo pernoite em Dundee, vizinha de outra destilaria da rota, a Chivas, e todos que terminavam o jantar iam ouvir música ao vivo no vagão panorâmico. Alguns foram dormir logo, já que o Orient-Express terminaria a viagem na estação de Edimburgo às 9h49. Adriano e eu, porém, preferimos curtir mais um pouco nosso dia de lordes. “Mais uma dose?”, perguntou o barman Fraser. O rapaz baixou sobre a mesa uma garrafa de single malt The MacAllan, que passa por processo triplo de destilação. Cheios de pompa, acrescentamos um pouco de água para sentir o aroma, molhamos os lábios, fizemos um brinde. Encerramos nossa noite ali, degustando com aparente maturidade um autêntico whisky 21 anos. E, evidentemente, orgulhosos de nossos saiotes.

INFO: The Royal Scotsman (royalscotsman.com); Kinloch Anderson – Commercial Street/Dock Street, Leith, EH6 6EY, kinlochanderson.com

(SPECIAL THANKS: Orient-Express (orient-express.com)

(Quadro)

Traje típico escocês

Conheça a roupa formal usada por Adriano Fagundes (à esq.) e Daniel Nunes

GRAVATA: Sempre preta, a modelo borboleta é exigida apenas em eventos solenes

COLETE: Com três botões, deve sempre cobrir a camisa branca

PALETÓ: O modelo pequeno, usado aberto, não é o único – existem jaquetas e paletós maiores

KILT: É grande, pesada e com estampas (tartans) que fazem menção a clãs tradicionais

POCHETE: O sporran levava a comida dos highlanders; hoje guarda carteira, celular e chaves

MEIAS: Compridas e pretas, recebem adereços com estampa xadrez que asseguram que estejam sempre altas