BRASIL, Terra de Todas as Cores

Texto, edição e coordenação editorial de livro do Ministério do Turismo (www.turismo.gov.br) apresentando a diversidade natural e cultural do país a partir das 12 cidades-sede da Copa do Mundo de 2014. Editado em parceria com o artista plástico Fernando Vilela (www.fernandovilela.com.br).

Ano de edição: 2010

Editora: Artebr (www.artebr.com)

Idiomas: português/inglês/espanhol; português/inglês/francês; português/inglês/italiano; português/inglês/alemão

Formato: 31 x 31 cm

Páginas: 320

ISBN: 978 85 63554 00 0

 

Nas montanhas do Grand Canyon

Todas as pessoas do mundo deveriam conhecer o Grand Canyon. Nem que fosse por um dia na vida, só para acompanhar a rotina curiosa de um vilarejo no meio do deserto do Estado do Arizona, no sudoeste dos Estados Unidos, em sua reverência à natureza fascinante do lugar. Noite ainda, por volta das 5 da manhã, grupos de viajantes deixam seus hotéis e acampamentos na Vila do Grand Canyon e seguem para o alto dos paredões. Vão observar um nascer do sol especial, em que os primeiros raios são jogados num buraco gigantesco onde os cânions foram cavados dentro de outros cânions, milhões de anos atrás. Suas cores variam em tons de vermelho, amarelo e verde à medida que são banhados pela luz. Silêncio, contemplação. Aqui, a natureza é tão grandiosa que faz todo mundo se entender como uma parte minúscula de um universo imenso e intrigantemente belo.

“As pessoas ficam assim fascinadas porque esse é um lugar sagrado”, diz, em tom de segredo, a sempre sorridente guarda-florestal Phyllis Yoyetewa, uma gordinha de 40 anos que trabalha no centro de visitantes da vila. Yoyetewa é uma autêntica nativa norte-americana, de olhos puxados, pele morena e cabelos negros escorridos até a cintura, que trabalha há dezessete anos no Parque Nacional do Grand Canyon. Poucos dos 2500 habitantes da vila, base para quem visita os principais mirantes do lugar, nas bordas Sul, Leste e Oeste, conhecem as preciosidades do Grand Canyon como essa descendente direta dos hopis, uma das sete tribos que já habitaram o Grand Canyon. “Para minha gente, todas as pessoas desceram para esse mundo por um buraco no céu que fica bem acima do Grand Canyon”, conta ela. “É para o Canyon que os espíritos das pessoas seguem quando elas morrem.”

Sagrado para índios nativos e deslumbrante para brancos de todas as partes do mundo, o Grand Canyon ganhou o título de uma das sete maravilhas naturais do mundo por ser o exemplo mais gritante do poder da erosão em forma de espetáculo geológico. As cores das dezenas de estratos visíveis em suas rochas surpreendem os geólogos com evidências de formações pré-cambrianas de 2 bilhões de anos, mas o período de formação do cânion é recente para a ciência. Faz apenas 5 milhões de anos que as águas arrasadoras do Rio Colorado cavaram abismos nas rochas daquele deserto. Quem desce dos mirantes e caminha até o rio ou as cachoeiras da Reserva dos Havasupais – última tribo que ainda vive dentro do Grand Canyon, fora dos 4 950 km2 que delimitam o parque – fica marcado para sempre pela imagem desse recanto tão desafiador ao homem.

A experiência de conhecer o Grand Canyon selvagem é tão marcante que tem sido estimulada. Por ser um cenário único no planeta, o parque recebe cada vez mais visitantes – foram 4,5 milhões em 1998. Desde o século XIX, quando os primeiros brancos chegaram ali e descobriram que aquelas reentrâncias indígenas não serviam para ser minas de cobre e amianto, como se pensava, o turismo virou um meio de vida. O parque foi criado para preservar os cânions, em 1919, mas a supervisitação ameaça agredi-lo. O plano de manejo, de 1995, estabeleceu que a visitação deve ser mais ecológica a partir do ano 2000.

Só 1% de aventureiros. Diferentemente do que acontece nos picos do verão americano, em junho e julho, quando a vila fica lotada, espera-se que a partir do ano que vem as pessoas andem menos de carro, caminhem mais e se distribuam por uma área maior. “Queremos que todos tenham tranqüilidade de assistir a um pôr-do-sol e observar os animais em silêncio”, diz Sandra Perl, relações-públicas do parque. Atualmente, menos de 1% dos visitantes se aventura por alguma trilha. Lugares distantes como a Borda Norte, a cinco horas de carro da vila, raramente são visitados.

As proporções do Grand Canyon são assustadoras: 4950 quilômetros quadrados, ou 443 quilômetros de paredões ao longo do Colorado. A largura do menor dos cânions, o belo Marble Canyon da capa desta edição, avistável na Borda Leste próximo à reserva dos índios navajos, é de 180 metros. Toda a área do parque está dentro do Estado do Arizona, mas suas continuações invadem o Estado de Nevada, no oeste, e os outros três Estados que formam com o Arizona a desértica paisagem das Four Courners, ou Quatro Esquinas americanas: Utah, Colorado e Novo México.

A riqueza arqueológica do Grand Canyon também impressiona. Graças a 3500 itens encontrados em apenas 3% do parque, como pequenos cavalos de madeira feitos de ossos e gravetos, já se sabe que a presença humana data de muito antes da descoberta da América pelos brancos espanhóis, no século XV. Os primeiros povos do Grand Canyon, chamados de anasazis e cohoninas, estiveram ali há 10000 anos e são os antepassados diretos dos hopis, a tribo da guarda-florestal Yoyetewa. Os chamados Pueblos – ruínas de pequenas casas onde esses índios viviam e guardavam as produções de milho, feijão e abóbora – podem ser vistos até hoje no Museu Tusayan, na Borda Leste, e nas ruínas que ficam ao lado do Rancho Fantasma, para onde seguem os aventureiros do Grand Canyon. Só quem desce até o fundo do Grand Canyon tem idéia de como deve ter sido dura a vida dos primeiros índios.

Falta sombra, e não há de onde extrair água na trilha de South Kaibab, que leva à beira do Rio Colorado. No verão, a temperatura desse ponto semi-árido do Arizona começa em 29 graus, no alto do platô, e esquenta conforme os ventos diminuem no fundo dos paredões. A temperatura média no Rancho Fantasma, como é chamada a vila de dezessete pessoas no final da trilha, é de 40 graus. Neste lugar, o ar é tão seco que o corpo parece não produzir suor nem saliva.

A paisagem da descida faz lembrar os filmes de bangue-bangue: paredes de pedra alaranjada de formas estranhas, cactos, trilhas estreitas de pedra e terra ziguezagueando à beira dos abismos. Quem desce montado nas mulas de aluguel passa mais medo nos cotovelos dos despenhadeiros (e se o cavalo tropeçar?!) mas cansa bem menos as pernas. No caminho, as formas de vida surgem esparsamente: muitos lagartos e esquilos, alguns veados, águias e corvos vez por outra. Raros, mas presentes, são os coiotes, as cobras e os escorpiões. Triste é chegar lá embaixo num dos freqüentes períodos em que o caudaloso Colorado desce barrento por causa das chuvas. Nessas épocas, o banho em seus pequenos afluentes não refresca muito e é preciso ferver ou potabilizar a água antes de bebê-la. Quem tiver feito reservas com antecedência no chamado Phantom Ranch ganha, como recompensa, lugar para comer, dormir e tomar banho.

Considerado um dos mais extensos rios do mundo, o Colorado é uma espécie de pai criador do Grand Canyon, já que foram suas águas que esculpiram esses e outros cânions norte-americanos. Apenas um sexto de seus 2333 quilômetros, porém, passa dentro do Grand Canyon. Nascido nas Montanhas Rochosas do Estado do Colorado, o rio recebe água de sete Estados e deságua no Golfo da Califórnia, já no México. Quando passa ao lado do Rancho Fantasma, ele tem 90 metros de largura e corre com força, trazendo muitos dos grupos que fazem as descidas de rafting a partir da Represa de Glen Canyon, 24 quilômetros a nordeste do parque, na região da cidade de Page. Alguns botes param para descansar próximo ao Rancho Fantasma, num dos intervalos das expedições fluviais que podem durar dias.

Peixes em extinção. A importância do Colorado para o Grand Canyon é tamanha que, nas últimas três décadas, os ecologistas travaram uma guerra contra a Represa de Glen Canyon. Ao ser criada, a barragem alterou as características do rio, controlando seu fluxo. A água ficou mais gelada, as enchentes naturais deixaram de acontecer e os sedimentos trazidos pelas correntezas diminuíram, alterando a rotina dos peixes acostumados com a dança natural do Colorado cânion abaixo. Os estudos que avaliam quanto o ecossistema pode ter sido prejudicado ainda não foram concluídos. Já se sabe, no entanto, que os peixes são as espécies do Grand Canyon mais ameaçadas de extinção. A outra ameaça vem do ar. A poluição por dióxido de enxofre dos centros urbanos das cidades próximas tem prejudicado, cada vez mais, a visibilidade do horizonte dos cânions a partir dos mirantes.

No fundo do Grand Canyon só se enxerga um céu muito azul, durante o dia, e totalmente estrelado, quando a noite se aprofunda. Um quadro preparado pelos guarda-parques deixa sempre exposto o desenho das estrelas a cada mês, para que os vitoriosos possam divertir-se à noite, deitados no gramado. Pouca gente agüenta ficar no forno que é o Rancho Fantasma por mais de duas noites. A partir dali, um caminho pode levar para a Borda Norte, pela trilha de North Kaibab. Outro, mais comum, segue para a Borda Sul, pela trilha de Bright Angel. Mais uma vez, o ritual das pessoas caminhando antes do nascer do sol se repete. No caso das trilhas, o objetivo é andar o maior tempo possível sem enfrentar o sol a pino.

De tão íngreme, a metade final da Bright Angel, antes da chegada ao centro histórico da Vila do Grand Canyon, parece um ensaio da subida ao purgatório. Incrível é que os funcionários do Rancho Fantasma repetem aquelas trilhas a cada dez dias. Isso porque só há duas outras maneiras de descer até a beira do rio: de mula ou de helicóptero. Os vôos são a única alternativa para carregar cargas que as mulas não agüentam.

De acesso tão difícil quanto o Rancho Fantasma é a Reserva dos Havasupais. É preciso dirigir pelo menos três horas desde a Vila do Grand Canyon até o Alto da Colina dos Hualapais. Fica ali um estacionamento e um trailer, que serve de escritório para um índio solitário que organiza as descidas a cavalo. No final da trilha de 12,8 quilômetros até a Vila Supai moram 450 dos 650 membros que restaram da última tribo que ainda vive isolada dentro do Grand Canyon. As outras comunidades indígenas que ficam nos limites do parque estão na parte alta dos paredões. A Vila Supai é formada por pequenas fazendas de casebres de madeira, um restaurante, um hotelzinho e um camping. Há ainda uma igreja evangélica, onde o casal de missionários Scott e Lynanne Palmer tem dedicado os últimos vinte anos de suas pregações para traduzir o Novo Testamento da Bíblia para a complicada língua havasupai.

Arredios a câmeras fotográficas e bem reticentes antes de qualquer aproximação, os havasupais conversam entre si na própria língua. São ressentidos porque a reserva criada para eles pelo governo norte-americano, em 1882, só lhes deixou uma parte mínima da área original. “Perdemos até a nossa montanha sagrada”, lamenta Jerry Wescogame, 57 anos, que toma conta do único camping da vila. Jerry é um dos raros índios que se dispõem a conversar. “A montanha era o lugar de nossas cerimônias, que hoje não acontecem mais.” Além da festa dedicada à colheita do pêssego, em agosto, os únicos eventos tradicionais mantidos pelos havasupais são as sessões de cura, que acontecem em casebres fechados e cheios de vapor, tão quentes quanto as saunas.

Os havasupais assimilam cada vez mais a cultura dos brancos. Os jovens vestem camisetas dos times de basquete, ouvem rap, fazem rodas de rodeio e grafitam as paredes da única escola local – onde se aprende tudo em inglês e em havasupai. Os mais velhos se orgulham de sua língua, de sua terra, de hábitos tradicionais como o de nunca dizer tchau. “O Grande Canyon é nossa casa”, diz Jerry. Até hoje, os paredões de vegetação baixa e seca dos arredores de Supai são cenário da busca dos cavaleiros por bichos de caça, como o veado e o carneiro montês. Além da caça e da agropecuária, a pobre economia do lugar é sustentada pelo ecoturismo crescente: muitas famílias vivem de trocados recebidos para orientar os visitantes na viagem a cavalo do Alto da Colina até a vila da tribo.

Voar é para as aves. Assim como no Rancho Fantasma, as formas de acesso de visitantes e de carga ao enorme corredor abafado da Vila Supai se restringem a caminhadas, cavalgadas e vôos de helicóptero. São só dez minutos de vôo até o Alto da Colina, mas que oferecem um visual impressionante. Os índios, no entanto, não são chegados às hélices. “Na única vez em que voei, passei mal e vomitei”, conta Clayton Watahomigie, 45 anos, um índio caladão que trabalha com Jerry no camping. “Voar é para os pássaros”, conta. Watahomigie prefere usar as próprias pernas para chegar, com seus filhos, às quatro cachoeiras mais belas do Grand Canyon, que ficam 4 quilômetros ao sul da vila e deságuam no Rio Colorado. A mais bela é a Mooney Falls, com 60 metros de altura, acessível por uma trilha bela e perigosa. Num desfiladeiro onde foi colocado um cabo de aço para segurança, passa-se até por uma caverna para chegar à beira do riacho. Suas águas em tons de verde e azul deram origem à palavra havasupai, que significa povo das águas verde-azuladas. Um banho ali – antes, durante ou depois de mais um nascer ou pôr-do-sol inesquecível – recompensa pela trajetória dura de quem se aventurou a conhecer as raízes mais profundas e marcantes do Grand Canyon.

 

AS MELHORES TRILHAS DO ARIZONA

Apenas 52,8 dos 800 quilômetros de trilhas do Grand Canyon são abertos aos visitantes, em caminhos já bem pisados. E ninguém pode dizer que experimentou a imensidão da maior riqueza do Arizona se não tiver percorrido pelo menos algumas delas. Destacamos em vermelho, ao lado, as sete principais trilhas, com detalhes das três mais desafiadoras, que ligam as bordas ao Rancho Fantasma, no fundo do cânion. Em todas, é impreterível que se leve muita água, alimentos energéticos e quase nenhum peso. O parque nacional é cercado pelos pinheiros da gigantesca Floresta Nacional de Kaibab, ao norte e ao sul, e por três áreas indígenas, como se vê no mapa abaixo. A reserva dos navajos, maior tribo norte-americana, fica no leste e protege também o território dos hopis. A dos hualapais beira os paredões do sudoeste, enquanto a dos havasupais avança ao fundo do cânion no centro-sul.

BRIGHT ANGEL – 12,4 km

Feita em sete horas, é mais usada por quem sobe do Rio Colorado ao alto da Borda Sul, no centro histórico da Vila do Grand Canyon. A primeira metade é sombreada e embelezada pelo rio. Há até dois pontos para beber água. A última parte é exaustiva, com uma longa e íngreme subida em ziguezague.

SOUTH KAIBAB – 9,7 km

Usada freqüentemente por quem desce ao Rio Colorado, a trilha parte do Yaki Point, na Borda Leste, não oferece água nem sombra e é percorrida em pelo menos quatro horas. Com ladeiras íngremes de chão de pedra e terra, exige bastante das pernas, que têm que controlar o peso do corpo.

NORTH KAIBAB – 23,3 km

Longa e cansativa, liga o Rancho Fantasma à isolada Borda Norte. Os mais preparados usam-na como parte da travessia de 34 quilômetros desde a Borda Norte, com suas cachoeiras, ao alto dos paredões no outro lado do rio, nas bordas Sul e Leste, pelas trilhas de South Kaibab e Bright Angel.

 

UM CAMINHO ALTERNATIVO PELA ROTA 66

Mais lendária das rodovias norte-americanas, a Rota 66 beira o Grand Canyon em parte do caminho de 320 quilômetros que liga o portão principal do parque à reserva dos índios havasupais. A fama da primeira estrada dos Estados Unidos que interligou as costas do Atlântico e do Pacífico nasceu das viagens de sonho até a Califórnia, feitas depois da Depressão americana da década de 30, e das aventuras de hippies e de motoqueiros depois dos anos 50. Com o crescimento de outras vias, a highway foi abandonada. Os 50 quilômetros que passam por Williams e Seligman, ladeados por imensas planícies e por uma velha estrada de ferro, fazem parte do raro trecho da 66 que preserva sua memória. E adiciona um molho especial ao Grand Canyon.

 

O VER E O VIVER

Há um abismo do tamanho do Grand Canyon separando a experiência de vê-lo da sensação de vivê-lo. Quem observa a seqüência de cânions mais famosos do planeta a partir dos mirantes se emociona e se cala diante de tamanha grandeza. Quem, porém, caminha até seu fundo, conhece a força do Rio Colorado, visita a última tribo de índios e se deslumbra com os 60 metros de altura da Mooney Falls (foto). E volta marcado para sempre pela beleza de um dos recantos mais desafiadores que o homem já conheceu.

 

O VIVER E O MORRER

O encantamento desse lugar cheio de lendas atrai os amantes da natureza até a beira de seus abismos. Em locais como a Borda Leste (foto da esquerda), os desfiladeiros medem 1600 metros até o fundo, numa altitude de 2400 metros acima do nível do mar. O desmoronamento de caminhos tortuosos como a trilha de South Kaibab (à direita), no entanto, já matou muitos desbravadores do passado. Ainda em 1998, dezessete pessoas morreram supreendidas pela imprevisibilidade da mesma natureza que enche o lugar de vida.

 

COMO SE PREPARAR

Nos Estados Unidos, as viagens são programadas com um ano de antecedência. Para encontrar vagas e pagar menos deve-se reservar tudo antes, com cartão de crédito internacional. Pela internet, a melhor opção, acesse o site www.thecanyon.com/nps Por telefone, ligue para (00211) 602 638-2401 para reservas no parque. Para ir à Reserva dos Havasupais, ligue para 602 448-2111.

COMO CHEGAR

A rota mais fácil para quem parte do Brasil é via Los Angeles, no sul da Califórnia. De lá siga para Las Vegas, no Estado vizinho de Nevada. Um último vôo, da Scenic, leva passageiros até o pequeno Aeroporto de Grand Canyon, em Tusayan, com direito a vista panorâmica sobre os cânions. Quem preferir a viagem de carro vai rodar 919 quilômetros desde L.A. até o parque, ou 447 quilômetros desde Las Vegas. A partir de Phoenix, já no Arizona, que também tem aeroporto, a viagem percorre 362 quilômetros. Dá para chegar também por Flagstaff, a 129 quilômetros. Todas as estradas são bem asfaltadas, mas faltam placas em algumas delas. No centro de visitantes da vila pode-se conseguir mapas e todo tipo de informação.

QUANDO IR

A temperatura é mais agradável entre março e outubro, mas nos meses de junho e julho, no verão americano, tudo lota. No final do ano, a neve diferencia as paisagens mas impede as caminhadas. Melhor evitar.

ONDE VER O SOL

O sol se exibe em dois espetáculos diários na Vila do Grand Canyon. Os bons mirantes para ver o pôr-do-sol, porém, não são os mesmos onde se fotografa seu nascer.

AMANHECER

Mather, Yaki, Yavapai, Lipan

ENTARDECER

Hopi, Mojave, Pima, Desert View

COMO CIRCULAR

Os mirantes das bordas Sul, Leste e Oeste ficam na Vila do Grand Canyon e são acessíveis de carro ou em ônibus circulares. Na Borda Norte só se chega de carro ou andando muito. Além das duras caminhadas, é possível conhecer as profundezas do Grand Canyon num rafting no Rio Colorado (acima à esquerda), que pode durar de três dias a um mês, em sobrevôos de helicóptero na Borda Leste e na Reserva dos Havasupais (foto do meio) e em lombo de mula e cavalo (à esquerda).

ONDE FICAR

Dentro do parque, na Vila do Grand Canyon, há três campings e seis hotéis — os dois mais baratos são o Yavapai Lodge e o Maswik Lodge, de US$ 80. Outros oito hotéis, como o Moqui Lodge (foto), e três campings ficam em Tusayan. No Rancho Fantasma, vale a pena pagar pelo único alojamento, só para não ter que carregar a barraca. Para acampar dentro do parque é preciso uma autorização especial na vila. Quem visitar a Reserva dos Havasupais só contará com um alojamento e um belo camping (foto), entre paredões estreitos, ao lado do rio e das cachoeiras.

COMO GASTAR MENOS

O Grand Canyon é um lugar caro. Pelo menos para os viajantes que preferem os hotéis e vão gastar em diárias no mínimo US$ 80. É possível, porém, fazer uma viagem econômica acampando por diárias de US$ 10. Levar a barraca facilita na hora de conseguir um lugar para dormir sem reserva antecipada. Alto também é o preço cobrado pelas duas locadoras de carros em Tusayan, cidadezinha que tem até McDonald’s e fica a 6,5 quilômetros da entrada principal do parque. Tanto a Enterprise quanto a Dolar cobram cerca de US$ 50 a diária. Quem alugar em outras cidades pagará até US$ 20 a menos.

DICA DO AUTOR

“Apesar da boa infra-estrutura do parque, não esqueça que o Grand Canyon está em pleno Deserto do Arizona. Mercados e postos de gasolina parecem miragens, principalmente nas viagens de carro até a Borda Norte e a Reserva dos Havasupais. Melhor se abastecer sempre.”

Daniel Nunes Gonçalves

7 lições numa sala de aula selvagem

Era uma noite quente de setembro à beira de um abismo da serra Ricardo Franco, uma desconhecida preciosidade ecológica no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, na fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Durante o dia, os termômetros superavam 40 graus, e a expedição de 13 jovens e três instrutores havia sofrido para encontrar míseros 16 litros de água escura para saciar a desesperada sede. Aqueles primeiros dias de uma sessão de trekking de 90 quilômetros que duraria um mês tinham deixado o grupo cansado. Todos já se preparavam para dormir quando um pânico coletivo se instaurou. Um exército de milhares de formigas saúvas se espalhou, devorando, como num filme de horror, as mochilas, as roupas e até as barracas. “Parecia um pesadelo, começamos a sofrer com as picadas e corremos para desmontar o acampamento”, conta o paraibano Edmilson Fonseca, 32 anos, o único brasileiro entre os estudantes do segundo curso-expedição realizado no Brasil pela norte-americana Nols (National Outdoor Leadership School), a mais respeitada instituição de ensino experiencial ao ar livre do planeta. “Acampo desde os 13 anos, quando era escoteiro, e nunca tinha visto uma cena daquelas”, contou.

A recepção nada amigável das saúvas era o inesperado “batismo” de boas-vindas do cerrado brasileiro ao grupo dos Estados Unidos, a maioria com idade entre 18 e 20 anos, que tinha co- meçado sua viagem na Chapada dos Guimarães (MT), sede da Nols no país. O episódio foi usado como lição sobre onde acampar, e se juntou ao caldeirão de ensinamentos da escola. Ao longo de três meses, Edmilson, o felizardo ganhador da única bolsa de estudos anual da Nols destinada a brasileiros, cruzaria com seus colegas de classe a Amazônia de sul a norte numa sala de aula selvagem, gigante e diferente. Durante a expedição, os alunos aprendem técnicas de trekking e canoagem com instrutores conceituados. Conhecem a diversidade cultural do país por meio da convivência com caboclos, índios, quilombolas e seringueiros. E têm acesso a uma grade curricular feita sob medida para amantes das atividades outdoor. Ela pode ser resumida em sete lições básicas, que passamos adiante nas próximas páginas.

 

1a LIÇÃO: APRENDA A ACAMPAR

Foi no 22o dia da expedição, na ilha do Boto, próxima a Vila Bela, que me integrei ao grupo e ouvi os relatos sobre o ataque das saúvas e a falta d’água na serra. O acampamento tinha quatro barracas, uma para cada grupo de quatro alunos e outra para os três instrutores (dos oito que se revezariam ao longo do curso). A lua cheia já prateava o caudaloso rio Guaporé diante de nós e o astral da galera fazia lembrar minhas viagens da adolescência, 20 anos atrás. Vi-me ali, parecido com o ruivinho de 18 anos do estado do Oregon, Seth Walton, que tocava Radiohead no violão enquanto a turma assava um bolo no fogareiro — sim, bolo, é possível. Em seguida, rolaria um “Parabéns a você” bilíngüe pelo aniversário de 50 anos do chefe dos instrutores, o britânico Jonathan Kempsey, ou Jon. Meus dez dias ali prometiam ser uma mamata.

Eu achava que sabia viajar e que já conhecia as principais manhas do excursionismo e do camping selvagem. E me frustrei logo que tive minha mochila de 65 litros checada pelos instrutores, procedimento pelo qual já tinham passado os alunos no início da caminhada. A idéia era que eu não carregasse peso desnecessário e pudesse levar panelas, comida, cilindro de benzina inflamável para o fogareiro e parte do equipamento do grupo dos instrutores, ao qual eu me integraria e com quem eu dividiria refeições. De repente, foram tirados da minha mala papel higiênico, sabonete, minixampu, toalha e tênis extra. Até canivete, capa de mochila, garfo e faca dançaram. Fui obrigado a seguir viagem com apenas duas peças de cada tipo de roupa — cuecas, meias, calças e camisetas — e uma única colher. Canivete, bastaria o do instrutor.

Um pouco contrariado, cá entre nós, burlei a fiscalização carre- gando um desodorante compacto no bolso lateral e decidi assimi- lar as outras instruções. Primeira regra: os rios no caminho seriam nossas banheiras naturais, assim como serviriam para lavar a roupa suja e a louça das refeições (embora a bucha e o detergente também fossem artigos vetados, tendo seus efeitos desengorduran- tes substituídos pela areia e pelas folhas das árvores). “E na hora de ‘ir ao banheiro’, como faço?”, perguntei. “Para quê o papel?”, responderam. Primeiro, seria obrigatório vestir os gaitors, aquelas polainas para proteção das pernas contra picada de cobras. Depois de definido o esconderijo a pelo menos 60 metros do rio, eu deveria usar uma pequena pá coletiva para cavar um buraco, onde o “produto” seria enterrado, evitando a atração de moscas. A limpeza seria feita com água. E só. No fim, as mãos seriam lava- das com desinfetante. Ao longo dos dias seguintes, criaria minha própria rotina de tomar banho logo depois de “usar o banheiro”, e aprenderia outros macetes para uma viagem ecológica e social- mente correta, o que não foi tão fácil assim.

 

2a LIÇÃO: SAIBA LIDERAR

Com 42 anos de tradição, a Nols foi criada com a idéia de for- mar bons instrutores de educação ao ar livre. “Acreditamos que o formato de expedição é o que melhor permite o exercício da liderança”, diz o norte-americano Atila Rego-Monteiro, 41, que coordena a nova Nols Amazon e foi um dos responsáveis pela vinda da escola ao país. Filho de um diplomata brasileiro e uma imigrante alemã, ele foi quem mais vibrou quando, sete anos atrás, uma pesquisa entre os alunos apontou que a Amazônia e a Nova Zelândia eram as novas locações preferidas para serem incluídas no menu de destinos da escola. Era o que ele precisava para articular a operação, resgatando suas raízes verde-e-ama- relas e impulsionando no país uma idéia pela qual ele tinha se apaixonado em 1992. O conceito de educação outdoor começou a ser difundido por aqui em 2000, com a chegada da Outward Bound, escola inglesa pioneira no tema há 65 anos e que inspirou Paul Petzolt a criar a Nols nos Estados Unidos (leia quadro). Apesar de concorrentes, as escolas têm instrutores em comum e objetivos parecidos. Quem já cursou as duas considera a OBB (Outward Bound Brasil) mais voltada para o desenvolvimento pessoal — quase um degrau de acesso à Nols, respeitada pelo aprofundamento técnico.

“Uma das coisas mais excitantes em um curso novo como este é saber que estamos passando por lugares que quase não foram explorados”, definiu Peter Carr, 19, um estudante de história do Novo México que acampara com a Nols no Wyoming quando tinha 14 anos. “É mais emocionante saber que a rota é desconhecida até pelos instrutores”, continua Peter, que ganhou o apelido de Pedro (todos os alunos da Nols Amazônia ganham nomes aportuguesados) e que, aficionado pela Segunda Guerra Mundial, passou os 82 dias da expedição vestindo um uniforme verde-musgo original de um soldado norte-americano. “Nos Estados Unidos, as escolas repetem os mesmos percursos há décadas”, lamenta seu colega Thomas Loftis, 19, estudante de antropologia do Colorado que fizera um curso da Outward Bound anos atrás.

Os cenários brasileiros foram diferentes nas duas primeiras expedições, e a edição de 2008 também deve ter novidades. Em 2006, outros 13 jovens passaram pelo Pantanal, remaram nos rios Aripuanã e Madeira, e fizeram a expedição final, que sempre acontece sem instrutores, na serra Curicuriari, em São Gabriel da Cachoeira (AM), perto de Manaus. Ano passado, os pântanos deram lugar ao cerrado da serra Ricardo Franco, em Vila Bela, onde aconteceu o trekking. Depois, o grupo voltou à base da Nols na Chapada dos Guimarães, reorganizou comida e equipamento e seguiu viagem de dois dias em ônibus até o ponto do rio Juruena onde começaram os 600 quilômetros de canoagem, ao longo de quatro semanas, também pelo rio Tapajós. De Santarém, voaram à Venezuela para a expedição de volta ao Brasil, ao longo de uma semana pelo monte Roraima. Curiosamente, os rios Aripuanã e Juruena ficam em localidades remotas na rota dos maiores desmatamentos criminosos do país — tanto que as cidades homônimas à beira desses rios registram algumas das maiores taxas de homicídios por causas ambientais.

Foi exatamente com esse objetivo — delinear um roteiro desa- fiador tanto por terrenos remotos de difícil navegação como por rios com corredeiras de alto nível — que a cúpula da Nols brasilei- ra realizou dez viagens de prospecção, como pelo Pantanal (MT) em 2002 e pelo rio Roosevelt (PA) em 2003. Foi nessa expedição de 25 dias que o instrutor Jon tomou um choque de um peixe elétrico que poderia ter sido fatal. Além de Jon e do comandante Atila, estavam no grupo outros figurões respeitados da escola: o canadense Jim Chisholm, que passou os últimos 25 anos (do total de 50) trabalhando para a escola e acumula 480 semanas em campo — o equivalente a nove anos dormindo em barracas! —; o paulista Flávio Kunreuther, 38, um dos instrutores de remo da expedição de 2007, também instrutor OBB; e o também paulista Fábio Raimo de Oliveira, 39, o primeiro brasileiro a se tornar instrutor da Nols internacional, em 1998. Como se não bastasse ter o emprego dos sonhos de quem ama o universo outdoor, essa turma tem a vantagem de poder programar suas próprias expedições de professores bancadas pela Nols como uma espécie de treinamento. E, no início de cada ano, eles têm a chance de propor em quais países e com quem gostariam de expedicionar.

 

 

3a LIÇÃO: CONVIVA BEM COM O GRUPO

Nas conversas de trilha, percebi que o grupo era mais diversificado do que eu imaginava. Os objetivos eram distintos e mui- tos ali não tinham experiência alguma na natureza. Era o caso do economista Alex Melnyk, um gordinho de 26 anos que nunca tinha acampado antes de se licenciar do trabalho, num banco de investimentos em Chicago, para conhecer a Amazônia. Ele viajara com a idéia de transferir as lições de liderança outdoor para os negócios. No primeiro dia de caminhada pela serra, quando teve de subir pedras durante cinco horas em meio ao calor abafado pelas nuvens das queimadas da região, Alex penou um bocado. “Achei que não fosse agüentar”, contou, com o nariz avermelhado em conseqüência de uma irritação causada pelo medicamento antimalárico obrigatório.

Apesar da pouca idade, a loirinha Rebecca Stone, a Becca, de 19 anos, trazia a experiência de ter passado os últimos verões de Idaho reparando trilhas em parques norte-americanos, e desem- barcou no Brasil com a intenção de trabalhar monitorando ati- vidades outdoor. Porém, ninguém tinha pretensões mais ousadas que Edmilson Fonseca, o bolsista que organiza uma das corridas de aventura mais antigas do Brasil, o Desafio Costa do Sol, e que há sete anos planejava fazer o curso. “Meu sonho é ser um instrutor da Nols”, confessou Edmilson, que já escalou montanhas como o Mont Blanc europeu e que pediu demissão da escola de inglês onde dá aula para viajar à Amazônia. Ele sabe que ser instrutor é ter a chance de viajar por alguns dos mais alucinantes refúgios naturais do planeta, com despesas pagas, salário razoável e a chance de virar fera em modalidades outdoor presentes nos cursos, como rafting, esqui, espeleologia e vela — além de trekking e canoagem.

Mesmo com históricos e objetivos distintos, os 13 alunos aprenderam que todos os grupos passam por processos semelhantes de integração que incluem a formação, o conflito, o desempenho e a transformação. Para que se preparassem para a expedição final do curso, os viajantes tiveram uma rotina permeada por aulas que poderiam ser úteis a executivos, como processos de tomada de decisão, a esportistas, como técnicas para fazer nós, e também que poderiam ser ensinadas por nossas avós, como costurar os furos feitos pelas saúvas na barraca e preparar deliciosos bolos e pães assados. “Este é um curso que ensina o valor das coisas sim- ples”, define Atila, líder também no trecho da canoagem. Nesse aprendizado empírico, o cronograma de aulas se altera conforme o temperamento do grupo e do clima, e cada aventureiro é responsável por carregar caderno, caneta e um livro da biblioteca Nols da Chapada. Os alunos se concentram para ler em qualquer tempo livre, como o descanso nas caminhadas ou a espera por um barco ou um ônibus em meio aos traslados.

Dinâmicas coletivas são parte fundamental do método de ensino. As rodas de conversa que acontecem ao menos duas vezes ao dia alternam os integrantes dos subgrupos e revezam os líderes, evi- denciando as características pessoais num ambiente distante das referências cotidianas. Na Amazônia, todos estão longe da família e dos amigos, assim como da cultura de televisão, da internet e da dieta de fast-food a que estão acostumados. Ninguém tem a chance de apertar um botão de “off” quando o programa fica chato. E a resolução das diferenças só acontece quando os participantes de- senvolvem seu poder de comunicação e seu bom comportamento expedicionário, de forma a serem reconhecidos como mediadores de conflitos e como pessoas de iniciativa — virtudes que vão se evidenciando à medida que a expedição avança e os instrutores se tornam mais conselheiros e observadores do que mestres.

A disciplina exigida pelos instrutores da Nols em questões de organização, cumprimento de horários e de tarefas faz lembrar o regime que os brasileiros de 19 anos enfrentam ao servirem às Forças Armadas. Atrasos são seguidos de longos esporros e a higiene pessoal é cobrada para minimizar o desgaste das relações dos alunos, obrigados a dormir em barracas de quatro pessoas ao longo de três meses. Como também acontece no escotismo, a aventura no ambiente natural adverso desenvolve no grupo a lealdade e a coesão. “A diferença é que, no Exército, as ações do soldado acontecem para cumprir ordens de um superior, sob a pena de ser humilhado ou punido severamente”, pondera o instrutor paranaense Dálio Zippin Neto, 40, um cabeludo com um divertido jeitão rebelde que fez dele o instrutor preferido pela turma. “Aqui, os alunos são motivados a assumirem deter- minadas atitudes de forma consciente, pelo bem das pessoas e do meio ambiente”, continua Dálio. Advogado de formação e escalador “desde os sete anos”, ele foi aprovado como instrutor Nols graças a um currículo de atividades outdoor que enchem 24 páginas e que incluem quatro cumes do El Captain, no parque nacional norte-americano Yosemite, além do Aconcágua argentino — onde, por sinal, foi um dos sobreviventes da tragédia que matou Mozart Catão, Alexandre Oliveira e Othon Leonardos em uma avalanche em 1998. Sua formação como instrutor da Nols incluiu 22 dias sobre um glaciar do Alasca e 80 horas (dez dias) de um treinamento em primeiros socorros no estado norte-ame- ricano do Oregon que exige uma atualização a cada três anos.

 

 

4a LIÇÃO: SEJA HÁBIL NOS ESPORTES OUTDOOR

Os instrutores são o maior patrimônio da Nols. São eles quem trazem uma vasta experiência no universo outdoor para servir como exemplo aos alunos, ainda que em territórios desconheci- dos até mesmo para eles. Foi o que aconteceu em boa parte do rio Juruena, onde o desafio era passar por 18 corredeiras com níveis I a III (numa escala até VI), com portagens nas quedas maiores, duas a três horas de chuva diariamente e sob tempes- tades de raios. Apesar da prudência, várias canoas viraram e três delas foram furadas. Sem problemas: treinado, o grupo consertou os botes em seis horas, desempenando o alumínio e costurando a lona. E voltaram à rotina de 20 quilômetros de remadas diárias por rios com piranhas, arraias, peixes elétricos e jacarés.

Além da esperteza para improvisos, os professores têm a res- ponsabilidade de formatar várias aulas de cerca de uma hora com a estrutura de que dispõem na natureza. As apresentações abrangem desde técnicas dos esportes até a história local, como a de Chico Mendes e a da escravidão no Brasil. A didática é baseada nas pesquisas pessoais e em vários livros publicados pela própria Nols sobre navegação, cozinha e medicina em ambientes outdoor, por exemplo. Entre os rígidos protocolos da escola, está a obrigação de serem feitas avaliações freqüentes de professor para aluno, vice-versa e até de aluno para aluno. Muito além da mera função de guias, os instrutores costumam dedicar o fim dos dias para realizar minuciosos relatórios em inglês para serem encaminhados à sede norte-americana.

A Nols é rigorosa também com seu corpo docente. “O curso de formação de instrutores mais parece uma entrevista de emprego que dura um mês”, brinca Jon Kimpsey, também advogado de formação, que há 16 anos tornou-se um clássico instrutor Nols: solteirão, sem filhos ou casa fixa (seus pertences estão espalhados entre Alasca, México, Chile e Chapada dos Guimarães). Na noite em que eu era o responsável pela cozinha do meu grupo, Jon me ensinou a fazer panquecas, uma verdadeira sofisticação que quebrou minha tradição de só preparar macarrões instantâ- neos em acampamentos. E me contou alguns dos episódios mais pitorescos que protagonizou em suas 190 semanas em campo. Como o dia em que um gato-maltês grudou na sua cabeça, no México, há oito anos, quando estava dormindo num saco de dormir, fazendo com que Jon tivesse de ser resgatado para tomar injeção contra raiva; ou quando estava ao lado de um aluno que ficou preso sob uma pedra de duas toneladas, durante uma avalanche no Eastern Alaska Range, dez anos atrás, e sobreviveu após esperar horas pelo resgate.

 

 

5a LIÇÃO: TENHA RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL

Os cuidados com a natureza e as comunidades no caminho da expedição são rigorosos. No passado, as excursões chegavam a ter 30 alunos nas trilhas, mas a preocupação com o impacto nos am- bientes naturais fez com que a Nols reunisse grupos cada vez me- nores. Além disso, os expedicionários são divididos em subgrupos e aprendem, nas aulas de Leave No Trace (Não deixe vestígio), a não deixar qualquer tipo de marca na natureza. As cinzas da fogueira devem ser enterradas. Contam pontos negativos na avaliação os grãos de arroz deixados ao ar livre na hora de desmontar o acam- pamento. Os restos orgânicos precisam ser cobertos e todo o lixo produzido precisa ser carregado até a cidade grande mais próxima, sendo que o lixo reciclável deve estar lavado e seco.

Questões ecológicas são lembradas nas aulas, como na de aque- cimento global, ministrada pela carioca Renata Bradford, a Kika, uma arqueóloga e escaladora de 30 anos que já foi guia da Exum Mountain Guides, considerada a escola de guias de montanha mais exigente da América do Norte. Entre as montanhas já exploradas por ela, estão as de Yosemite e Tetons (EUA), além de várias vias de escalada conquistadas. Utilizando um grande saco de farinha adaptado como uma lousa rabiscada com pincéis atômicos, Kika contou como a compra de créditos de carbono pode minimizar o estrago feito pelo desmatamento. “Calculamos o impacto desta expedição somando itens como os vôos, os traslados por terra e o consumo dos fogareiros, espaço e concluímos que precisamos plantar 57 árvores para neutralizar nossa passagem por aqui, mas vamos enterrar mais de 300 sementes”, explicou à platéia sentada no gramado sob a sombra de uma árvore à beira-rio. Como essa escola não tem paredes, é freqüente a dispersão pelo canto de um pássaro ou pelo surgimento de um boto no rio. Sem problemas. Ao longo da viagem, os alunos apresentam suas observações nos “na- ture nuggets”, pequenos seminários em que o estudante disseca algum aspecto da natureza.

Uma das peculiaridades dos cursos em lugares remotos é a experiência da diferença cultural e da interação com a população local. Nos dez dias que passei com eles em Vila Bela, percebi a surpresa com que viram um carneiro sendo morto para o churrasco no quilombo e o fascí- nio da constatação da felicidade em uma casinha pobre, de chão de terra e fogão a lenha. Aprenderam a pescar e a limpar o peixe, construíram um banheiro com paredes feitas de palha de babaçu, carregaram toras para erguer uma ponte. Semanas mais tarde, já na floresta amazônica do Pará, ficaram ainda mais encantados quando passaram quatro dias nas comunidades de Pedreira e Piquiatuba, à beira do rio Tapajós, dormindo cada um em uma casa de família. “Foi o momento da viagem mais importante para mim”, considerou Alex Melnyk, que até aprendeu a fazer farinha de mandioca. “O estilo de vida deles é muito diferente e nunca vou esquecer da generosidade e do carinho com que me receberam.”

A experiência do encontro com os índios mundurucu também foi marcante. Os alunos tinham passado sete dias sem cruzar mais que dois barquinhos de pesca no rio Juruena, e se depararam com os índios na margem — naturalmente estupefatos com aquela tribo de estrangeiros remando com roupas e barcos inéditos por aquelas bandas. A aproximação foi amigável e o grupo aproveitou para perguntar por qual dos três canais do rio deveriam seguir, já que estavam em um trecho desconhecido e cheio de corredeiras e desníveis. Os índios sugeriram um caminho, mas os alunos líderes do dia preferiram o outro canto, onde a descida poderia ser mais emocionante. Aconteceu, é claro, o pior: canoas viraram e foram furadas pelas pedras, e o grupo aprendeu, pelo erro, que não se deve desprezar o conhecimento dos nativos.

 

 

6a LIÇÃO: ESTEJA SEMPRE ALERTA

É por sujeitar seus alunos aos riscos inerentes ao ambiente natural que a Nols investe cerca de 2 milhões de dólares anuais em seguros e só viaja com um plano de ação para emergências que inclui estrutura de comunicação via satélite e resgate de helicóptero para hospitais de plantão. É compreensível. Nada menos que 14 alunos morreram em expedições, quatro deles nos últimos 20 anos. A maior parte dos familiares move processos contra a es- cola. Há casos de afogamento em rio, queda em buraco de glaciar e, o que é mais freqüente, soterramento em avalanches. Acampamentos já foram destruídos por ursos e muita gente foi picada por cobras. Os incidentes mais comuns puderam ser constatados na Nols Amazônia 2007: vários alunos tiveram desarranjos gastroin- testinais; o nova-iorquino Andrew Leitman, 20, torceu o joelho e teve de ser resgatado, e Jane McNeal, 20, da Geórgia, teve quei- maduras de segundo grau ao abrir a panela de pressão.

São as picadas, sejam elas de saúvas, abelhas ou pernilongos, os inimigos mais pentelhos de quem se aventura pelos rincões da Amazônia por tanto tempo. Além do episódio das formigas que picotavam até o material sintético de roupas e barracas, os mochileiros enfrentaram ataques de abelhas e de lambe-lambes,minúsculos insetos que atingem o olho humano em busca de sais minerais. E as tantas picadas que os alunos sofreram remando no rio Juruena parecem ter originado uma reação alérgica em quatro pessoas, com bolinhas vermelhas e pus em torno das axilas. Fe- lizmente, os instrutores carregavam quilos de medicamentos que permitiram aliviar o incômodo. A situação foi bem distinta daquela enfrentada pelos 13 jovens que fizeram o primeiro curso, em 2006, e foram acometidos de uma irritação nos pés conhecida como rói-rói. “A dor nos pés era tanta que não podíamos pisar no chão”, lembra o instrutor Atila, que precisou ser carregado.

A expedição de 2006, por sinal, foi um batismo de fogo também para os instrutores da Nols no Brasil. Além do imprevisto dos rói- róis e de duas picadas de escorpiões, eles tiveram de lidar com o fato de três dos 13 alunos não completarem a viagem, um com fratura no punho e dois por pura falta de motivação. O clima dentro do grupo e com os instrutores, ao final dos três meses, também não era dos melhores, especialmente depois que a su- bida ao pico da Neblina foi cancelada em função de um bloqueio feito pelos índios ianomâmi. A verdade todo mundo sabe: a união de pessoas tão diferentes enfrentando uma rotina de desconfor- to por tanto tempo deixa qualquer mortal com os nervos à flor da pele e o equilíbrio do grupo depende de fatores como afinidades, respeito e bom humor.

Já em 2007 o clima es- tava bem mais leve. Em um dos dias em que eu estava com o grupo, fla- grei o momento em que o instrutor Dálio trocou de roupa, discretamente, fora da barraca. Uns riram, ou- tros não deram bola, mas a naturalidade da situação deu origem a uma curiosa conversa sobre os áureos tempos em que a Nols, em meio ao movimento hippie e de contracultura da década de 1970 nos Estados Unidos, era uma escola liberal. Grupos de estudantes remadores en- frentavam o mar nus como vieram ao mundo, professores dormiam com alunas e até o baseadinho à beira da fogueira era um ritual tão natural quanto em tantas rodas de acampamento selvagem do planeta. Os tempos mudaram, a sociedade norte-americana careteou e a Nols hoje tem fama de escola conservadora. Durante o curso, namoricos são desestimulados (devem ser absolutamente discretos), uma latinha de cerveja ou um cigarro de maconha são motivos para expulsão (cerca de dez alunos são eliminados anu- almente por porte de droga) e qualquer militância pró-naturismo é imediatamente banida. Até um ingênuo tocador de mp3 é um mau elemento, proibido em prol da interação do grupo entre si e com o ambiente.

 

 

7a LIÇÃO: DESENVOLVA SUAS VIRTUDES

Ao fim do segundo mês da expedição, quando o grupo concluiu o trecho de rio em Alter do Chão (PA), os instrutores eram quase que apenas colegas observadores, com os alunos tendo autono- mia para decisões sérias. Foram eles quem elegeram os líderes dos dois grupos que enfrentariam o desafio final: a expedição de uma semana pelo monte Roraima (RR). Os mais virtuosos eleitos para a função foram Edmilson, o bolsista brasileiro, e Alex, o eco- nomista de Chicago, curiosamente os mais velhos do grupo. Dois dos instrutores os seguiram de longe, apenas para uma eventual emergência — o que não aconteceu. “Foi ótimo perceber que eu tinha evoluído tanto em apenas três meses, pois vim para a Amazônia sem nunca ter acampado na vida”, conta Alex, que chegaria ao fim da expedição nada menos que 11 quilos mais magro e sabendo identificar plantas, nuvens e estrelas. “Tenho certeza de que levarei as lições desta experiência para o meu trabalho”, continua ele, que levou nota A. “Você vê como uma expedição na natureza muda a mente das pessoas?”, questiona o experiente instrutor Jim Chisholm. “É fazendo coisas difíceis que as pessoas se fortalecem”, diz.

De uma forma geral, o grupo se despediu entre festas e lágri- mas, como era de se esperar de quem vive uma experiência tão intensa, com promessas de reencontro e discursos de que tinham se tornado pessoas melhores. Edmilson, por sua vez, tinha uma satisfação maior. No fim do primeiro mês de curso, ele tinha ga- nhado uma nota B porque, segundo os instrutores, estava aquém do seu potencial. “Eu sabia que tinha mais experiência que os outros, mas não queria despertar antipatia por isso ou por ser o mais velho”, lembra. No fim da saga amazônica, ele estava feliz por ter exteriorizado sua faceta de líder. Ganhou nota A e um convite para fazer, também com bolsa de estudos, o curso de instrutores da Nols em 2008. A escola se prepara para lançar dois novos cursos no país este ano — esse e o de primeiros-socorros, em julho — e pretende expandir sua atuação no país contratando novos instrutores. Depois da expedição, Edmilson é o primeiro candidato. Alguém mais se habilita?

 

RAIO X:

Desde que a Nols (nols.edu) foi criada pelo guia de montanha Paul Petzolt, em 1965, na cidade de Lander, no esta- do norte-americano do Wyoming, nada menos que 85 mil alunos já viajaram para alguns dos 14 campi naturais da escola espalhados por nove países (cinco deles nos Estados Unidos). O catálogo 2008 inclui 96 cursos que acontecem em 253 datas e que podem durar de dez dias a um ano, atraindo cerca de 3 mil alunos anualmente. A Nols treina guarda-parques, como os da Patagônia chilena, e oferece expedições que misturam às modalidades esportivas expe- riências que vão da hospedagem em ashrams indianos até contatos com aborígines australianos. O curso anual que acontece no Brasil desde 2006 atrai especialmente univer- sitários dos Estados Unidos porque, graças a um convênio da Nols com a Universidade de Utah, tem disciplinas que contam créditos para a faculdade: biologia, ética ambiental, técnicas de liderança, gerenciamento de risco. As aulas mis- turam sofisticadas lições de técnicas de montanhismo com receitas culinárias da vovó, num cardápio que transformou a Nols numa potente organização não-governamental sem fins lucrativos, que emprega 980 funcionários em sua sede, durante a alta temporada, e que despacha 560 instrutores de campo para recantos remotos como o Campo de Gelo Sul, na Patagônia, e os 6 mil metros do pico Denali, no Alasca. O semestre brasileiro custa aos pais desta molecada bem- nascida a bagatela de US$ 13.300 (R$ 25 mil), sem contar o seguro e a taxa de crédito pelas disciplinas escolhidas (cada uma por US$ 45).

 

37 curiosidades sobre o GP Brasil de Fórmula 1

Ainda que 7 pontos atrás do líder Lewis Hamilton,
da McLaren, o paulistano Felipe Massa, da Ferrari,
chegou à última prova da temporada na disputa
pelo Mundial de Fórmula 1. Desde que Ayrton Senna
conquistou o título em 1991, é a primeira vez que
um brasileiro participa da corrida final com chances
reais de ser campeão. Mas isso todo mundo sabe.
Nas páginas a seguir, revelamos em 37 tópicos alguns bastidores
e surpresas do nosso Grande Prêmio, que tem neste
domingo de 2008 a sua 37ª edição.

 

1. O evento mais lucrativo da cidade

140 000 espectadores são esperados para os três
dias de competição, metade deles especificamente
para o domingo da corrida

615 reais é quanto cada turista brasileiro deixa por
dia, em média, na cidade

6 em cada 10 visitantes vêm de fora de São Paulo,
sendo que dois são estrangeiros

420 reais era o preço dos ingressos mais baratos
para o dia da corrida (eles se esgotaram em maio)

230 milhões de reais é o total movimentado no setor
turístico (a conta engloba de gastos com alimentação
a hospedagem). Trata-se do evento mais lucrativo
de São Paulo

 

2. Roupa suja se lava no hotel


Durante a semana do GP, as lavanderias do Grand
Hyatt (foto) e do Hilton, dois hotéis que têm 80% de
seus quartos reservados para as escuderias, ficam
lotadas de macacões dos pilotos de suas equipes.
De terça a domingo, cada uma delas lava pelo
menos 120 uniformes – o Grand Hyatt cobra 100
reais por peça e o Hilton, 47. Para não prejudicar
o acabamento, os macacões são enxaguados em
água morna e secados ao ar livre. Confeccionados
com uma fibra chamada Nomex, que suporta
temperaturas de até 400 graus, eles são projetados
para proteger o piloto de incêndios por pelo menos
doze segundos.

 

3. As superstições de Massa

• Vai vestir a surrada cueca branca que usa desde sua vitória no GP da Turquia, em 2006.

• No dia da corrida sai com o pé direito da cama e, já
na pista, calça primeiro a sapatilha e a luva direitas.

• Se no dia do treino for bem e tiver escovado os
dentes da esquerda para a direita, repetirá o ritual
no dia da prova.

• Antes da corrida, sua mulher, a empresária Anna
Raffaela Bassi, devota de Santa Teresinha, costuma
colocar uma imagem da santa sobre o macacão do
marido e rezar o terço, comprado em Roma.

• No Grande Prêmio da China deste ano, o casal
entrou na sala de descanso montada pela Ferrari
dentro do autódromo e notou que o tapete era o
mesmo que havia sido utilizado no Grande Prêmio da
Malásia, prova que Massa não conseguiu terminar. O
piloto pediu para a escuderia mudar o tapete o mais
rápido possível. Pedido atendido.

 

4. A doce vida dos astros das escuderias

Há dezesseis anos, o chefão da Fórmula 1, Bernie
Ecclestone, se hospeda na mesma suíte Itamaraty
de 138 metros quadrados e diária de 4 526 reais do
Hotel Transamérica. Já o lar brasileiro do manda-
chuva da McLaren, Ron Dennis, é a suíte presidencial
do Hilton (foto). Ao custo de 15 000 reais por dia,
Dennis tem a seu dispor 360 metros quadrados.
Hospeda-se ali desde 2002.

 

5. Comboio de 120 caminhões

Vindos do último GP da China, seis Boeings 747
aterrissaram na semana passada no Aeroporto de
Viracopos, em Campinas, carregando 600 toneladas
de equipamento. Pneus, motores, caixas de câmbio,
computadores, aparelhos eletrônicos e milhares
de peças são acondicionados em caixas e estojos
protegidos. Os carros viajam em boxes separados.
Para transportar toda a carga até o Autódromo de
Interlagos, são necessários cerca de 120 caminhões,
350 funcionários e a escolta armada de veículos
particulares e da Polícia Militar.

 

6. Tudo por um lugarzinho na arquibancada

Os ingressos para o domingo se esgotaram em
maio. Para os paulistanos fanáticos e pouco
prevenidos, uma alternativa foi adquirir entradas
atreladas a pacotes. Resultado: houve gente
comprando ingresso casado com hotel, traslados
e festas oferecidos pelas nove agências de viagem
cadastradas pela prefeitura. Os preços do bilhete
com a festa chegavam a 1 900 reais por pessoa.

 

7. “Só não aceito sogra e cachorro”

Ao final do Grande Prêmio do ano passado, 25 instituições de caridade foram beneficiadas com
as sobras de alimentos (cerca de 1 tonelada
de verduras, frutas e massas) dos diversos
banquetes oferecidos em espaços vips e boxes
das equipes. A responsável por fazer o meio-
de-campo entre doadores e entidades é Claudia
Troncoso, coordenadora da Associação Brasileira de
Redistribuição de Excedentes. “Recebemos também
fogões, microondas, guardanapos, copos e talheres”,
conta. “Só não aceito sogra e cachorro.”

 

8. Em busca do melhor ângulo

Cerca de 350 jornalistas de todo o mundo estão
credenciados para a cobertura do GP Brasil em
Interlagos. Dos setenta fotógrafos, doze são
daqui. “O final da reta é o ponto mais disputado”,
diz Miguel Costa Junior, que fotografou todos os GPs
Brasil nos últimos 27 anos. “Mas é a organização
que decide onde cada um vai ficar. Sempre prioriza
as agências internacionais.” Mesmo antes de
carregar a bolsa com 15 quilos de equipamentos
(só de lentes, são 6), Costa Junior já freqüentava
o autódromo. “Assisti a todas as etapas de São
Paulo desde 1972 e fotografei Barrichello, Massa e
Nelsinho quando eram crianças, no kart.”

 

9. Dois quilos a menos 7 voltas depois

Entre os dezoito circuitos da temporada, o de
Interlagos é o mais desgastante, segundo o
preparador físico de Felipe Massa, Vanderlei Pereira.
O trecho da Curva do Sol, por exemplo, chega a
exercer uma pressão de cerca de 50 quilos sobre
o pescoço dos pilotos. “Se o dia estiver quente,
perdem-se até 2 quilos e 1 500 calorias numa
corrida”, diz Pereira, que usa um aparelho que
simula as condições da pista no treinamento de seus
pupilos.

 

10. O dia em que Barrichello queimou o
bumbum

Os médicos de pista fazem 200 atendimentos
no fim de semana da corrida, remediando desde
contusões até simples dores de cabeça. “Há uns
dez anos Rubens Barrichello chegou com o bumbum
queimado de combustível”, lembra o cirurgião Dino
Altmann. “Sorte que não foi nada grave.”

 

11. Caipirinha, o combustível dos mecânicos

Durante a semana do GP, hotéis como o Hilton e
o Transamérica vendem o triplo de caipirinhas (a
tradicional, de pinga e limão, é a preferida). “Boa
parte dos hóspedes começa a beber já no café-
da-manhã”, afirma Vania Aibara, gerente-geral de
vendas do Transamérica. “À noite, eles repetem o
ritual.” Ou melhor, a dose.

 

12. Louco por picanha malpassada

O piloto inglês Lewis Hamilton adora uma
churrascaria. Na última terça (28), como registrado
na foto abaixo, ele se esbaldou com picanha
malpassada fatiada e batatas fritas. Onze pessoas
participaram do rega-bofe no rodízio Fogo de Chão
da Avenida dos Bandeirantes. Outra unidade da
rede, em Santo Amaro, foi palco de uma cena
inusitada no ano passado. Após perder a corrida final
para Kimi Raikkonen, da Ferrari, Hamilton encontrou
o time rival na mesa vizinha. Cumprimentou a todos,
um a um, e ainda autografou a roupa de alguns
mecânicos da Ferrari.

 

13.  A gorjeta de 500 dólares de Ron Dennis

Ainda na Fogo de Chão. O inglês Ron Dennis, o
todo-poderoso da McLaren, sabe como conseguir
um atendimento diferenciado na churrascaria. “Ele
chega, coloca 500 dólares na mesa e pede o de
sempre”, diz Jandir Dalberto, diretor de operações
da rede. O de sempre é um peito de peru recheado
com bacon, acompanhado de molho à base de
pimenta. “No fim, além de deixar o dinheiro ali,
ainda paga 15% pelo serviço.”

 

14. Havaianas, paixão mundial

A franquia das Havaianas em Moema vende 150
pares por dia durante a semana do GP, 30% mais
que o movimento normal. A loja tem funcionários
bilíngües para atender a leva de estrangeiros, boa
parte deles membros das equipes. O modelo mais
procurado é aquele tradicional, com a bandeirinha
do Brasil (foto), que custa 19,90 reais. Os chinelos
personalizados com cristais Swarovski também saem
bastante. Nesse caso, por 260 reais.

 

15. 2.000 homens para organizar o trânsito

Para ninguém perder a largada do GP, a prefeitura
organizou uma operação que mobilizará 2 000
agentes (praticamente todo o seu efetivo) e 300
veículos. A coordenação ficará a cargo de uma
central de operações montada dentro do autódromo.
Nas ruas em torno do circuito serão reservados
espaços para estacionamento de 25 000 carros
de passeio. Já para quem pretende deixar o carro
em casa, a SPTrans vai colocar à disposição 240
ônibus articulados partindo de cinco miniterminais
e estimular o uso do trem, com uma estação a 600
metros da pista. Essa estrutura custará 1,3 milhão
de reais aos cofres municipais.

 

16. A vira-lata de Schumacher

Autografado por nomes como Damon Hill e
Michael Schumacher, o livro de hóspedes do Hotel
Transamérica tem também a marca de uma das
patas da cadela Floh (pulga, em alemão). Em 1996,
o piloto alemão encontrou a vira-lata dando sopa
no Autódromo de Interlagos e a levou para casa. Na época, a cachorra foi tratada a pão-de-ló, com
direito a pratos preparados por chefs de cozinha e
massagens num pet shop cuja diária custava 190
reais.

 

17. O troféu reciclável de Niemeyer

Quem terminar a prova deste ano nas três primeiras
posições vai levar um troféu desenhado por Oscar
Niemeyer. O arquiteto se baseou nas curvas do
Palácio da Alvorada, em Brasília, e usou material
de origem vegetal, conhecido como plástico verde.
A vantagem desse produto é ele ser totalmente
renovável. Resta saber que campeão vai querer
reciclar o seu troféu…

A Daslu se transforma em filial de Interlagos na
sexta e no sábado que antecedem a corrida. “São
os dias mais cheios do ano. Só perdem para o
Natal”, diz a proprietária, Eliana Tranchesi. Michael
Schumacher já passou por lá em 2006 e Nelsinho
Piquet é cliente cativo. “Nessas ocasiões, tem gente
que gasta até 70 000 reais”, conta. Pilotos são fãs
das camisas pólo da marca e as mulheres costumam
abastecer o guarda-roupa de bolsas Chanel.

 

19. Esquadrão de carros brancos

As empresas de táxi da cidade destinaram 1 500
veículos para atender aos bolsões de estacionamento
do Autódromo de Interlagos. Para 3 000 dos 34 000
taxistas de São Paulo que trabalharão na semana do
GP, este é o momento melhor para fazer um pé-de-
meia. “Nesta época, a gente trabalha o dobro para
compensar o baixo movimento de janeiro e fevereiro
do ano seguinte”, diz o taxista Wellington Lima de
Araújo, a bordo de um Fiat Doblò. Na semana do
GP, ele roda cerca de 200 quilômetros e ganha 200
reais por dia. Gorjetas em euro, dólar e iene são
comuns. “No ano passado, um turista me deixou 50
dólares (cerca de 100 reais) para pagar uma corrida
que custou 40 reais”, lembra.

 

20. A homenagem do chefão da Williams

Quando vem ao GP Brasil, Frank Williams, chefe da
escuderia de mesmo nome, visita o túmulo de Ayrton
Senna, que morreu num dos carros da equipe,
em 1994. O manda-chuva também é fiel a outras
tradições: hospeda-se sempre no Transamérica e
detesta ser visto. Só sai da suíte pelo elevador de
serviço, que dá acesso direto à garagem do hotel.

 

21. Cinquenta médicos de 12 especialidades

Esporte de alto risco, a Fórmula 1 exige um suporte
médico impressionante. A equipe de 120 pessoas
do Hospital São Luiz, há oito anos responsável
pelo atendimento médico de emergência, inclui cinqüenta profissionais de doze especialidades, de
cirurgia plástica a ortopedia. Com UTI e sala especial
para queimados, o centro médico de Interlagos, no
interior do circuito, ganhou neste ano uma estrutura
fixa de hospital. Os acidentados serão transportados
para ali em um dos dezesseis veículos de resgate, e
as vítimas mais graves, transferidas para a unidade
hospitalar do Morumbi em um dos dois helicópteros
de plantão.

 

22. As garotas do grid

Em um ambiente tipicamente masculino como o da
Fórmula 1, são as beldades que chamam atenção.
No grid, serão 22 modelos posicionadas ao lado dos
pilotos para segurar um guarda-sol. A ordem em que
ficarão só será definida minutos antes da largada,
mas elas já têm os preferidos. “Se pudesse escolher,
pediria para ficar ao lado do Fernando Alonso”, diz
Denise Bertelli, de 24 anos. Mas, enquanto a prova
não começa, elas têm de levar na esportiva os
comentários dos mecânicos que param o trabalho
para vê-las passar. “Eles falam algumas gracinhas
para a gente, mas o jeito é tapar os ouvidos para
essas provocações”, afirma Nathalia Melandre, de 22
anos. Porém, se o gracejo for feito com delicadeza,
elas garantem não reclamar. “Faz bem para o ego”,
admite Roma Santa, de 23 anos.

 

23. Festão antes do bye-bye

No circuito desde 1994, o piloto escocês David
Coulthard, da Red Bull, fará sua última corrida em
Interlagos. E marcou a despedida com um jantar
fechado para 100 íntimos na casa noturna Museum,
no Brooklin. Ele, aliás, já teve laços na cidade.
O piloto manteve um relacionamento duradouro,
digamos, com uma brasileira. Conheceu sua ex-
noiva, a arquiteta e ex-modelo Simone Abdelnur,
em uma festa promovida por Ana Paula Junqueira na
semana do GP de 2001. Os dois ficaram juntos por
cinco anos.

 

24. Reforço no Café Photo

A semana da Fórmula 1 é a mais aguardada pelas
casas de diversão masculinas da cidade. O Café
Photo, por exemplo, quadruplicou o número de
garotas. Seiscentas moças se preparam para dar
conta do aumento no número de clientes. Em dias
normais, 150 trabalham no local.

 

25. Acelera, Galvão!

Em 34 anos de Fórmula 1, o locutor Galvão Bueno
coleciona histórias. A mais marcante para ele tem
como protagonista o piloto Ayrton Senna. Em 1991,
com problemas no câmbio, ele venceu a prova
de maneira dramática em Interlagos. Exausto, o
piloto teve dificuldade até para subir ao pódio. A
caminho do heliponto, acompanhado de Galvão e de seu filho Cacá (hoje piloto da Stock Car), o
tricampeão mundial deu a taça ao garoto para que
ele a carregasse até a aeronave. “Cacá tinha 14
anos e era kartista. Ele não sabia nem o que fazer
quando recebeu um troféu de Fórmula 1 das mãos
de Senna”, lembra. Neste ano, Galvão estará a
postos para mais uma transmissão pela Rede Globo.
A estrutura montada conta com 22 câmeras e 400
profissionais.

 

26. Ele foi a todos os últimos doze GPs!

O administrador de empresas Augusto Roque, 28
anos, nasceu durante a vitória de Rene Arnoux, da
Renault, no GP Brasil de 1980. “Meu pai deixou o
autódromo e foi direto para o hospital acompanhar o
parto de minha mãe”, diz ele, que acabou herdando
o mesmo fanatismo pelos motores. Desde 1996
não falha em uma única corrida. “Para garantir o
ingresso, compro no primeiro dia de abertura das
bilheterias”, afirma. No ano passado, achou na pista
uma parte do carro do finlandês Heikki Kovalainen,
da McLaren. Voltou para casa todo contente,
enquadrou o troféu e o pendurou na sala.

 

27. Os bambambãs de Interlagos

Os pilotos que mais venceram no autódromo
paulistano

Quatro vezes: Michael Schumacher – 1994, 1995, 2000 e 2002

Duas vezes: Juan Pablo Montoya – 2004 e 2005

 

28. Depois do pódio, a gandaia

Pelo quarto ano consecutivo, a escuderia Red Bull
prepara uma balada de encerramento para 2 500
convidados na cidade. Tradicionalmente realizada
em lugares descolados, a festa será no auditório do
Memorial da América Latina. O público também deve
ser diferente. Em vez das celebridades de sempre,
esperam-se muitas modelos desconhecidas e vários
marmanjos das equipes.

 

29. Pintor de capacetes fica de plantão

Uma das personalidades do automobilismo nacional
que ficam em alerta no fim de semana do GP
do Brasil é Cloacyr Sidney Mosca, o Sid Mosca.
Com mais de 35 anos de experiência na pintura
personalizada de capacetes, ele já precisou retocar a imagem de cascos e até de carros em corridas
passadas. “Em 2005, passei a noite de sexta para
sábado redesenhando o capacete de Giancarlo
Fisichella, da Renault, pois uma asa tinha sido
removida”, lembra Mosca, que normalmente leva
uma semana para fazer uma pintura completa.
Neste ano, ele pintou o novo capacete que Rubens
Barrichello estreará em homenagem ao piloto
paulistano Ingo Hoffmann. O da foto, também criado
por ele, Barrichello usou na sua corrida de número
257, em maio, na Turquia.

 

30. Uma Fittipaldi na torre de controle

Oito em cada dez pessoas que trabalham no
staff do GP Brasil são mulheres. Fica na torre de
controle, com a cúpula da Federação Internacional
de Automobilismo, uma das mais experientes:
Susy Fittipaldi, mãe de Christian, ex-mulher de
Wilsinho e cunhada de Emerson. “Eu queria estar
por perto da família, mas ficava aflita ao assistir
às corridas, então passei a trabalhar com isso”,
conta Susy, que fala sete idiomas. Inicialmente fazia
cronometragem, depois foi para a sala de imprensa
e hoje é secretária dos comissários da prova. É
ela quem comunica, por exemplo, as punições às
equipes.

 

31. Eles não vivem sem massa

Além das toneladas de equipamentos, a escuderia
da Ferrari carrega para todas as corridas uma carga
indispensável à equipe: 100 quilos de macarrão
grano duro. Esse é o combustível do time italiano
nas 600 refeições servidas de quinta a domingo.

 

32. Identidade secreta

O concierge do Hilton, Alessandro Cordeiro, costuma
fazer reservas para os pilotos em restaurantes como
o D.O.M. e o Figueira Rubaiyat com nomes fictícios
dois meses antes do GP. “Como sei que sempre
querem ir de última hora, já me antecipo”, diz ele,
que revela a verdadeira identidade dos craques
apenas no dia do jantar.

 

33. Assim na terra como no céu

Além de provocar filas quilométricas nas ruas, o
GP causa trânsito intenso no céu. No sábado e no
domingo da corrida, uma revoada de cinqüenta
helicópteros deve transportar 1 800 pessoas e
realizar 600 pousos e decolagens. Para fugirem
dos congestionamentos, pilotos, celebridades e
profissionais da corrida costumam desembolsar 1
500 reais por viagem. “No mercado de táxi aéreo,
esse é o maior evento em toda a América Latina”,
diz Luís Roberto Coutinho Nogueira, presidente
da LRC Eventos, responsável pelo serviço no
autódromo. Segundo ele, o transporte aéreo em
competições de Fórmula 1 é invenção brasileira. Nasceu em 1990 como alternativa para driblar
o trânsito. Hoje, o tráfego de helicópteros em
Interlagos está entre os mais intensos de todos
os GPs. “Equivale ao de Silverstone e ganha do de
Monza”, afirma Nogueira.

 

34. O médico piloto

Apaixonado por automobilismo desde criança, o
cirurgião Dino Altmann começou a trabalhar como
médico do GP Brasil em 1990 para ficar próximo
dos motores. “É ótimo poder juntar o automobilismo
e o atendimento de emergência”, diz o atual
diretor médico da prova, que correu de kart por
quinze temporadas e chegou a vencer uma corrida
de fórmulas em Donington Park, na Inglaterra,
em 1997. “Nos últimos sete anos, só fiz corridas
esporádicas”, diz. Nas doze etapas nacionais da
Stock Car, Altmann acumula a função de diretor
médico com a de piloto do carro médico, o primeiro
a se aproximar de um competidor acidentado.
Se ele gostaria de fazer o mesmo na Fórmula 1?
”Até gostaria de pilotar”, afirma. “Mas a Federação
Internacional de Automobilismo já tem outro médico
piloto, o francês Jacques Tropenat.” Por enquanto,
pilotar o carro médico da Fórmula 1 é apenas um
sonho.

 

35. Um batalhão de voluntários

Os 600 voluntários que trabalham nas atividades
de pista têm uma rotina desgastante. Encontram-
se às 5 horas da manhã, trabalham de sol a sol e
ganham em troca lanchinhos, uniforme emprestado
e satisfação. “Estou aqui por amor ao esporte”, diz o
consultor de segurança Flavio Perillo, que passou os
últimos trinta anos, dos seus 50, prestando serviços
gratuitos ao GP. Antes de conseguir essa boquinha,
ele entrava na pista escondido nos caminhões das
equipes. Outro hobby era colecionar partes de
carros quebrados. “Guardei um bico da Brabham
e um aerofólio do Copersucar”, conta. Hoje em dia
Perillo abriu mão da coleção. “O regulamento pede
que todas as partes dos carros sejam devolvidas às
equipes.”

 

36. O mais solicitado

Apesar de ser o segundo colocado no ranking
do campeonato, Felipe Massa é líder em pedidos
de entrevistas: até o último dia 29 foram trinta,
embora só tenha concedido dez. Por isso, desde
que aterrissou por aqui no último dia 21, quase
não ficou em seu apartamento no Panamby.
Compareceu a oito compromissos e teve de negar
outros dois. Ainda arrumou tempo para ciceronear
seu empresário e padrinho de casamento, Nicolas
Todt – filho do ex-diretor da Ferrari Jean Todt – , que
está hospedado em sua casa. Dono de um Porsche
Cayenne e de uma Ferrari, ele tem circulado por aí com um Fiat Linea, carro com o qual deve ir a
Interlagos no domingo.

 

37. Para evitar gafes na bandeirada

A cantora Fafá de Belém cantará o Hino Nacional no
domingo. Já a bandeirada final não ficará a cargo
de ninguém famoso. Até segunda ordem, o próprio
diretor de provas, o arquiteto Carlos Montagner,
balançará a bandeira quadriculada sobre os carros
dos primeiros colocados. “A experiência com o Pelé
não deu certo”, diz Montagner, lembrando a prova
de 2002, quando o vencedor, Michael Schumacher,
passou tão rápido que o rei do futebol nem
conseguiu mexer a bandeira. Em 2004, a modelo
Gisele Bündchen cumpriu a função direitinho.

 

Reportagem feita para a Revista Veja São Paulo e finalista do Prêmio Abril de Jornalismo

Apurada e escrita por Daniel Nunes Gonçalves, Fernando
Cassaro e Maria Paola de Salvo

 

O Brasil cowboy

O aposentado catarinense Léo Sebold, 70 anos, foi o
primeiro a chegar, com nove dias de antecedência.
Cuidadosamente, escolheu a melhor entre as 5.300
vagas do camping e estacionou ali o trailer
importado. Ligou o som numa rádio sertaneja e
desceu para montar o toldo e a mesa de damas.
Logo o colega Henrique Dias, 65 anos, apareceu com
uma lata de cerveja para iniciar a primeira rodada
de uma série muito, muito longa. “Faz nove anos
que eu venho. É cada vez mais difícil achar lugar
bom, então decidi chegar cedo”, explica Sebold,
exibindo o planejamento a longo prazo permitido
pela idade e um figurino híbrido — camisa
estampada com a bandeira dos Estados Unidos,
cigarro de palha no canto da boca. O catarinense,
que viajou 1.400 quilômetros para garantir o lugar,
foi o precursor da romaria que superlota a cidade de
Barretos, no interior de São Paulo, no final de agosto
para a Festa do Peão de Boiadeiro, o maior evento
regional do país. A festa, que começou na sexta-
feira passada e vai até o próximo domingo, atrai
uma multidão que causa congestionamentos de oito
horas nas estradas da região, lota todos os hotéis
num raio de 150 quilômetros e faz com que diárias
de modestos estabelecimentos de três estrelas
cheguem a 375 reais, preço de um cinco-estrelas em
Paris. Barretos, durante dez dias, é a meca de um
fenômeno que começou no interior de São Paulo e
se irradiou para outros pontos do país, o rodeio. Não

um rodeio qualquer, com a peãozada montando em
bichos bravos, como sempre existiu no Brasil, mas
um festival cada vez mais calcado nos moldes
americanos.

A arena de Barretos está para o mundo do rodeio
como Wimbledon para o tênis. É a segunda maior
festa do gênero no mundo, depois de Las Vegas,
nos Estados Unidos, e a única competição do circuito
mundial de rodeio de touros realizada fora de um
país de língua inglesa. Há 700 jornalistas do mundo
inteiro credenciados para o evento. As finais serão
transmitidas pelo canal country de TV por assinatura,
CMT. Enviados de jornais como Financial Times e
Chicago Tribune, redes de TV como Fox News e
revistas como a Opa, do Japão, baterão ponto na
arena. Há 22 competidores americanos, canadenses
e australianos. No meio dessa porção de gringos,
porém, a grande estrela do show é o brasileiro
Adriano Moraes, de 27 anos, nascido na pequena
cidade de Matão, a 300 quilômetros de São Paulo.
No próximo fim de semana, enquanto o tenista
Gustavo Kuerten deverá estar lutando nas quadras
do US Open para se manter na nona posição do
ranking mundial, Moraes defenderá, com amplo
favoritismo, seu posto de primeiro colocado na lista
da Professional Bull Riders, a federação dos peões
montadores de touros. No início de agosto, Moraes,
com 7 190 pontos, tinha uma liderança tranqüila
sobre o segundo colocado, o americano Michael
Gaffney, com 4 715 pontos.

Uísque importado — A Festa do Peão de Barretos
existe desde 1955. Na época, a cidade sediava o
maior frigorífico do país e recebia tropeiros que
traziam gado de vários Estados. Para matar o tempo
enquanto esperavam o abate das reses, eles faziam
rodeios no estilo caipira, nos quais se compete para
ver qual o peão que fica mais tempo no lombo de
um cavalo chucro ou qual o laçador mais habilidoso.
Durante três décadas, a festa foi atraindo cada vez
mais gente, entre fazendeiros endinheirados e o
pessoal da região, geralmente mais interessados
em se divertir. O modelo, no entanto, continuava
tradicional. Foi no final dos anos 80 que empresários
locais farejaram ali uma mina de ouro. Inspirados no
sucesso da música sertaneja, que unia a guitarra da
música country à viola da toada caipira, decidiram
transformar a festa num torneio à texana, para
atrair o público de classe média que jamais iria a
uma festa “caipira”, mas compareceria alegremente
a um evento country. Uma agência de publicidade
foi contratada para divulgar o evento, os cartazes
passaram às mãos de artistas como Siron Franco
e Manabu Mabe, as barracas começaram a vender
uísque importado. Barretos estourou.

A Polícia Militar calcula que, durante os dez dias
de festa, 900.000 pessoas circulam pelo Parque

do Peão. Isso não quer dizer, observe-se, que a
cidade, de 100.000 habitantes, seja invadida por
800.000 turistas. Se um morador local, por exemplo,
resolve comparecer ao parque durante os dez dias
seguidos, será computado como dez pessoas. Mesmo
assim, é uma monstruosidade de gente. Mais que
a Oktoberfest, de Santa Catarina, que pelo mesmo
critério atrai 500.000 pessoas, e que o Festival do
Boi de Parintins, no Amazonas, que junta 150.000.

Aluguel estratosférico — A grande maioria dos
freqüentadores calça botas sete-léguas e poderia
perfeitamente ter participado do primeiro rodeio, há
42 anos. Mas o que interessa aos organizadores é
aquela fatia de público que usa chapéu à moda de
J.R. Ewing, de Dallas, e vende boi virtual na Bolsa
de Mercadorias & Futuros. No aeroporto da cidade,
que costuma receber uma dúzia de aviões por dia,
o movimento esperado ao longo da festa é de 1.000
pousos e decolagens. Fora o heliporto, sempre
lotado, com capacidade para trinta helicópteros. Para
atender aos celulares que teimam em estrilar mesmo
durante os momentos mais emocionantes do rodeio,
no Parque do Peão foram cravadas três antenas
de telefonia, com capacidade para 10.000 ligações
simultâneas.

Entre os 4.000 metros quadrados de estandes
montados no parque não há apenas barracas de
comes e bebes. O Mappin, uma das maiores lojas
de departamentos do país, montou uma filial pré-
fabricada, com 120 funcionários. Há até um estande
da Valmet, que no ano passado vendeu quarenta
tratores. “O espírito da festa é rústico, mas nosso
público é a classe média das grandes cidades do
interior”, diz Flávio Silva Filho, diretor do clube Os
Independentes, que organiza a festa. A invasão
turística gera oportunidades de negócios também
fora do parque. O comerciante Geraldo Rodrigues
adiou a mudança para a nova casa em duas semanas
porque durante o rodeio ela estará ocupada por
famílias de turistas, ao estratosférico preço de 1.000
reais a diária. “Não podia perder uma chance de
embolsar essa grana, né não?”, raciocina.

O filão aberto por Barretos revelou-se uma mina
de ouro. Até o final do ano serão realizados em
todo o país 1.200 rodeios, que, entre ingressos,
movimento turístico e de restaurantes, farão
circular 1 bilhão de dólares. O público estimado é
de 24 milhões de pessoas, sete vezes mais que os
espectadores do Campeonato Brasileiro de Futebol.
Os números, como de hábito, estão sujeitos a chutes
e arredondamentos duvidosos, mas são endossados
por quem entende do ramo. “O mercado de rodeios,
leilões e exposições agropecuárias no país deve
passar de 2 bilhões de dólares”, calcula Antônio
Ernesto de Salvo, presidente da Confederação
Nacional de Agricultura.

O rodeio, no mundo, é dividido em duas grandes
federações, montaria de touros e rodeio completo.
Na primeira, o peão precisa manter-se pelo menos
oito segundos no lombo de um touro furioso.
Completado o tempo mínimo, os juízes lhe atribuem
pontos em função do estilo. Já o rodeio completo é
dividido em sete provas. Além da montaria em touro,
há o bulldogging, que implica saltar da montaria e
derrubar um bezerro pelos chifres. Laço, em que
o objetivo é laçar um garrote no tempo mínimo
possível, e laço em dupla, em que dois cavaleiros
dominam a cabeça e as patas traseiras do bezerro.
Há uma prova feminina, na qual as amazonas devem
contornar três obstáculos no menor tempo possível,
e dois tipos de prova de montaria em cavalos,
com e sem sela (o bareback). No Brasil, há ainda
a montaria na cela típica dos caipiras, chamada
cutiano.

Os humanos vêm se exibindo dessa maneira
desde a domesticação do cavalo, mas as regras
e modalidades vigentes hoje vieram dos Estados
Unidos, onde os campeonatos de rodeio profissional
existem desde 1929 e os espetáculos atraem 34
milhões de espectadores. Há competições exclusivas
para mulheres, um torneio gay em Utah e rodeios
em que os peões são detentos de penitenciárias.
Nessa categoria, o público torce pelos touros e
reserva os maiores aplausos da noite para o animal
que mais pisoteia um peão. Há um canal de TV
que só transmite rodeios e, nas bancas de jornais,
vendem-se cartões, conhecidos por qualquer
criança como cards, com as figuras dos peões mais
célebres. Neles, o brasileiro Adriano Moraes aparece
como natural de Keller, Texas, a cidade onde fixa
residência durante a temporada americana.

Coleção de fraturas — Adriano se divide entre
o campeonato americano e os principais rodeios
brasileiros. Em 1996, entre prêmios e patrocínio, ele
faturou 300.000 dólares. Em dez anos de carreira,
conseguiu juntar seu primeiro milhão de dólares e
uma coleção de fraturas. Quebrou um braço, uma
perna e uma costela, perdeu um dente e rompeu os
ligamentos dos dois joelhos. Por sorte, seu contrato
com os patrocinadores estabelece que eles são
responsáveis pelas despesas médicas. No Brasil,
onde morrem em média cinco peões por ano em
acidentes de trabalho, as seguradoras se recusam a
fazer seguro de vida para a categoria. Nos Estados
Unidos, com dezoito óbitos por ano, as apólices
custam dezenas de milhares de dólares. Quando
se preparava para entrar na arena para vencer seu
primeiro título mundial, em 1994, Adriano viu um
touro esmagar o crânio de um amigo, o americano
Brent Thurman.

Religioso daqueles que beiram a pieguice, Adriano é
adepto da Renovação Carismática Católica. Fundou

um grupo de oração chamado Peões de Deus, em
contraposição aos Caubóis de Cristo, evangélicos,
e dedica suas vitórias a Nossa Senhora Aparecida.
No início do ano, doou 100.000 reais à comunidade
cristã de Cachoeira Paulista. “Meu sonho é que um
de meus filhos seja padre”, explica. Ídolo nos EUA,
respeitado como um dos três cowboys da história
que conseguiram montar dez touros, um após o
outro, sem cair, ele é permanentemente servido pela
mulher, Flávia, preocupada com o assédio das fãs.

Laço com jatinho — Nos bastidores da arena,
os peões são tratados como astros de TV. E, com
alguma sorte, acumulam pequenas fortunas. Vilmar
Felipe, bicampeão de touros em Barretos, ainda
guarda na garagem três dos 24 carros que ganhou
em várias competições. Os outros, juntamente com
25 motos, mais os prêmios em dinheiro, foram
trocados por terras e cabeças de gado. Administrar
o dinheiro e a carreira é a maior dificuldade da
profissão. Muitos peões arruínam as vértebras e as
articulações por competir demais, sem descanso.
O paranaense João Henrique Giannasi, 30 anos, o
primeiro colocado no ranking nacional de montaria
a cavalo, categoria bareback, previne-se fazendo
fisioterapia. Nas semanas que antecedem as grandes
competições, ele evita qualquer torneio. “Não dá
para ficar de fora justamente do que interessa”,
argumenta.

Há peões que competem apenas pela emoção. O
fazendeiro Henrique Prata, dono do Hospital do
Câncer de Barretos e de 20.000 cabeças de gado,
costuma pegar o jatinho com o filho e a filha para
disputar etapas qualificatórias das provas de laço em
cidades distantes. “Montar é a melhor parte da nossa
vida”, alegra-se. O maringaense Renato Garcia, de
20 anos, herdeiro de uma empresa de ônibus que
fatura 60 milhões de reais, também monta apenas
por diversão. Mas está entre os dez melhores do
ranking brasileiro. Quando terminar a faculdade de
zootecnia, Garcia pretende assumir de vez a carreira
de peão.

O rodeio traz fama também aos coadjuvantes do
espetáculo. Os palhaços salva-vidas, que distraem
os animais quando os caubóis caem, são conhecidos
do público e ganham 2.500 reais por final de
semana. Mas o trabalho é, digamos, estressante.
Antônio Carlos Damasceno, o “Django”, de Barretos,
contabiliza onze costelas quebradas, além dos
maxilares superior e inferior. “Meu irmão tem
mais sorte, quebrou só sete costelas, um joelho e
uma omoplata”, enumera. Os touros mais ferozes,
como “Pedra 90” e “The Flash”, também têm fã-
clube. O que poucos espectadores sabem é que a
fúria dos animais não decorre apenas de um mau
gênio de nascença. Touros e cavalos são atiçados por
cordas apertadas em suas virilhas e, eventualmente,

esporadas ou choques elétricos. “O rodeio é uma
tortura para os bichos”, protesta Milton Moura
Leite, presidente da União Internacional Protetora
dos Animais do Brasil. Os organizadores de rodeio
desconversam. “O animal não é judiado. É tratado
com as melhores rações e fica incomodado só porque
sente cócegas”, afirma Flávio Silva Filho, um dos
organizadores do rodeio de Barretos.

O universo dos rodeios é misterioso para quem
não está acostumado com música country, botas
de couro de jacaré e fumo de mascar. Em julho,
no rodeio de Jaguariúna, a principal atração da
noite não era uma dupla sertaneja, e sim Billy Ray
Cyrus, “O rei do Kentucky”, um breguíssimo astro
country americano. Nesse Texas de fantasia, não há
sem-terra nem gente com o nome sujo no crédito
rural do Banco do Brasil. Há apenas caubóis ricos
e caubóis pobres, que se identificam por sinais
claros como uma estrela de xerife. Em Barretos, por
exemplo, não faltam picapes ostentando adesivos da
Festa do Patrão, um baile country que reúne 5.000
pessoas nas noites de rodeio. A entrada custa 100
reais e, com duas semanas de antecedência, 70%
dos ingressos já estavam vendidos.

No ambiente de um rodeio, a receita de
elegância é a mesma de qualquer outra festa do
circuito ostentatório: produzir-se ao máximo e
desembarcar de um carro vistoso. O que muda
são os ingredientes. No mundo country, os carros
valorizados são picapes como a Mitsubishi Pajero
e jipes como o Chrysler Grand Cherokee. Quanto
às roupas, o figurino Chitãozinho e Xororó está por
fora. “Foi-se o tempo em que bastava usar camisa
de franja. Agora é preciso seguir a tendência da
estação”, explica Valdomiro Poliselli Júnior, dono
da VPJ Western, a maior importadora de roupas
country, com 152 lojas e faturamento de 7 milhões
de reais. A dobra do chapéu de caubói, por exemplo,
muda da mesma maneira que o comprimento das
saias femininas. Quem usa os chapéus do ano
passado é classificado como “faiado” (“falhado”,
caubói fajuto, no dialeto peonês) ou “abeia”
(“abelha”, equivalente a “brega”).

Pele de avestruz — Durante o dia, o caubói que
se preza usa chapéu branco. À noite, preto, de
preferência de pêlo de castor, que pode custar até
1.500 reais. As botas de couro de cobra foram a
coqueluche do ano passado. Hoje, o quente são
as de avestruz, australianas, que, por 840 reais,
derrubam muita Prada ou Gucci. Para ditar a moda
nos rodeios, as griffes apelam para o clássico
mecanismo do jabá, enviando roupas de presente
a peões e locutores. O acessório que completa o
uniforme é a calça jeans. É Wrangler, americana. “A
brasileira não presta”, sentencia Fernanda Cordeiro
Camargo, aluna do 2º ano de veterinária, que na

semana passada desfilava pelo Rodeio Universitário
de Londrina. Seguindo o padrão cowboy, as calças
precisam ser absurdamente justas. A tática de
patricinhas e mauricinhos interioranos para domá-las
é comprá-las na véspera da festa, enfiar-se dentro
delas com grande esforço muscular e dormir com o
jeans no corpo, de forma a amaciá-lo.

Se nas revistas de moda o estilo vigente nos grandes
centros urbanos é heroína-chique, aquela aparência
intermediária entre a ressaca, a anorexia e a
hepatite, nos rodeios o modelo são os cowboys de
anúncios de cigarro. Não só no trajar, mas até no
hábito de mascar fumo. Não aqueles rolos fedorentos
dos caipiras de antanho, é claro. Em Londrina, nos
dias de rodeio, as lojas country vendem cerca de
200 caixinhas de tabaco americano, em tabletes,
para ser mastigado como chiclete. Para o público
feminino, há o produto nos sabores cereja e menta.
Como o cigarro comum, a versão ruminante pode
causar câncer no esôfago, estômago e fígado. “Estou
tentando parar”, explica o peão Renato Garcia, uma
assumida vítima da moda.

A indumentária texana não indica apenas que há
muita gente disposta a brincar de caubói. Mostra
também que as elites do interior do país estão
firmando uma identidade diferente da de seus
similares das metrópoles. No final do século passado,
as famílias abastadas do Rio de Janeiro e de São
Paulo fizeram uma opção preferencial pelo estilo
importado da França, então uma potência cultural,
política e científica, além de sinônimo de erudição
e refinamento. Ao adotar a imagem de texanos,
os homens debaixo do chapéu de castor criam
para si próprios uma imagem diferente daquela do
caipira ignorante ou do fazendeiro rude, ao mesmo
tempo que estabelecem diferenças em relação ao
figurino Fiesp. “As picapes importadas dizem: não
somos cariocas nem paulistanos, mas somos ricos
e importantes”, teoriza o antropólogo Everardo
Rocha, da PUC do Rio, especialista em fenômenos de
consumo.

O interior não quer apenas parecer com o Texas.
Pretende, também, consumir como ele. A Alpha
Consultoria, instituto que faz prospecções de
mercado para várias empresas, tem uma projeção
de quanto cada região do país pode consumir, com
base em indicadores como renda per capita, número
de telefones, consumo de energia elétrica e média
de carros por habitante. Segundo a última pesquisa
da empresa, a região com mais dinheiro esperando
para ser gasto é a Grande São Paulo, com 14,2% do
potencial nacional de consumo. A segunda, com
13,3%, é o interior paulista. Não é difícil atestar
isso. A Forum, uma das mais caras franquias de
moda jovem, obtém 40% de suas vendas no interior
do país, embora possua na região menos de um

terço de suas lojas. As vendas de picapes
importadas cresceram 27 vezes nos últimos cinco
anos, principalmente no interior, mas os modelos
preferidos não são os paus-para-toda-obra e sim os
de luxo. Talvez por isso, na última contagem
populacional do IBGE, se descobriu que há hoje mais
gente migrando das capitais para o interior do que
fazendo o caminho contrário. Quem vai com alguma
reserva no banco pode tratar de comprar o chapelão
de caubói para se adaptar.

Fumo de mascar é a última moda entre os caubóis
brasileiros. Existe até em versões com sabor de
menta ou de cereja

Chapéu americano feito com pêlo de castor, da
Resistol. Os preços dos modelos variam de 600 a 1
500 reais

Cinto de crina de cavalo, importado, pode chegar a
custar 150 reais. O falsificado, de náilon, sai por um
terço disso

Bota de couro de cobra misturado com couro de boi
custa 150 reais. As de cobra pura chegam a 700
reais

Estrelas da arena e do disco

Os locutores de rodeio arrombaram a porteira
das lojas de discos. Nos últimos meses, várias
gravadoras despejaram na praça CDs que prometem
reproduzir no estéreo o espírito de um rodeio de
verdade. Para que o ouvinte se sinta cercado por
cavalos, touros e caubóis, as gravações do gênero
alternam música sertaneja com aquele blablablá que
os locutores costumam disparar pelas caixas de som
das arenas. Entram nos discos saudações como “alô,
meu povo!”, gritos de “segura, peão!” e até piadas
de salão (“Você sabe qual a semelhança entre minha
sogra e uma garrafa de cerveja? As duas ficam
ótimas geladas, em cima da mesa”). Tudo é dito com
entonação característica, algo entre a narração de
uma partida de futebol e a de um páreo no jóquei.
Um dos lançamentos do gênero, Bailão de Peão, já
vendeu 400 000 cópias, número que bate de longe
as vendagens habituais das estrelas da MPB.

De olho na moda, até o clube Os Independentes,
que organiza o rodeio de Barretos, lançou o disco
oficial da festa. A previsão é de que sejam vendidas
150 000 cópias até o final do mês. Com o sucesso
do filão, a carreira dos locutores avança para além
das arenas de rodeio. O veterano Asa Branca, ex-
peão que depois de um acidente teve de trocar os
arreios pelo microfone, já montou uma banda para

excursionar pelo país. Com idéias originais, como
saltar de pára-quedas sobre a arena ou fazer a
abertura de um rodeio de dentro de um helicóptero,
ele se tornou um dos animadores mais conhecidos.
Seu disco Cowboy Country esgotou a tiragem de 180
000 exemplares.

O locutor Marco Brasil, recordista de vendas no
segmento, apresentava um programa de rádio
quando teve a idéia de lançar o primeiro LP do
gênero no país. Hoje, divide seu tempo entre
rodeios, pelos quais cobra até 12 000 reais,
bailes e shows. As festas country se tornaram
tão importantes para a indústria do disco que
conseguem projetar artistas que pouco aparecem no
rádio e na TV. É o caso da cantora Jayne, a “rainha
dos rodeios”, que se apresenta no palco fazendo
evoluções sobre um cavalo branco. Seu último disco
vendeu 80 000 cópias e carimbou-lhe o passaporte
para Nashville, Tennessee, a capital da música
country, onde ela acaba de gravar mais um CD.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Franco Iacomini (com reportagem de Rachel Verano, de Belo Horizonte)

A descoberta da Costa do Sal

O cenário é estranho. O mato ralo e os cactos da caatinga chegam pertinho do litoral, misturando jegues e cabras típicos do sertão seco e pobre com a beira-mar de praias belas e intocadas, coloridas por manguezais, dunas e jangadas. Justamente aí surgem as salinas, vastos alagados onde a água do mar fica represada em tanques ladeados por montanhas de sal brancas como a neve. Com essas paisagens exóticas, o extremo norte do Rio Grande do Norte, a quase 300 quilômetros de Natal, abriga os 250 quilômetros da Costa do Sal, um litoral onde a vida depende totalmente do mar — para pescar o peixe de cada dia e para extrair a essência do oceano: o sal.

(foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

Por ser o lugar do planeta mais propício à extração de sal marinho, com sol constante e dez meses sem chuva, esse trecho do Rio Grande do Norte se tornou o maior produtor de sal do Brasil. De Macau, Areia Branca, Grossos e Galinhos, principais cidades salineiras do Estado, saem 90% da extração nacional. Seu mar de águas verdes, calmas e mornas tem a segunda maior salinidade do planeta, perdendo apenas para o Mar Morto. Ficam aí a maioria das 150 salinas brasileiras, onde 8 000 homens vivem aguardando a evaporação lenta da água do mar.

Em meio à dureza de uma das principais atividades econômicas do Nordeste, a surpreendente sucessão de praias virgens surge como agradável compensação. O sol dessa região tão próxima da linha do Equador bate mais forte e dá o prazer de sua presença durante todo o ano. Faz dois anos que ninguém vê uma gota d’água cair do céu na Costa do Sal. Isso é bom para os salineiros, pois a produção cresce, mas fatal para quem explora a agropecuária. Como não há lavoura ou gado que resista a tanto calor, come-se carne de bode e de cabra — que, por sua vez, se alimentam da duradoura vegetação do mangue.

O mesmo sol que doura as praias sacrifica especialmente os trabalhadores das chamadas salinas artesanais, que ainda não foram mecanizadas. Várias delas podem ser vistas nos arredores de Mossoró, a 277 quilômetros de Natal, mais conhecida por ser a segunda maior cidade do Estado, principal produtora de melão do Brasil e centro do maior número de refinarias que transformam o sal bruto das salinas em nosso sal de cozinha (acrescido de iodo, obrigatório pelo Ministério da Saúde, para evitar a doença do bócio). As salinas artesanais acompanham os dois lados da estrada que liga Mossoró à cidade litorânea de Tibau. Junto à divisa com o Ceará e conhecida pelo artesanato das garrafas de areia colorida, Tibau tem uma extensa faixa de areia onde carros, mesmo sem tração nas quatro rodas, podem circular até a vizinha Grossos, quando a maré está baixa. Aqui, a mecanização que revolucionou o método de extração do sal, quinze anos atrás, tem chegado a passos lentos.

Sal moeda. Os métodos usados nas rústicas salinas de Grossos, que ficam ao lado dos recifes da isolada Praia de Pernambuquinho, são primitivos. Charmosa, a orla é a única do roteiro onde os barcos coloridos dos pescadores ficam ancorados junto às montanhas alvas de sal, num contraste inusitado. No lado branco, as salinas são tão simples que fazem lembrar até os primeiros registros arqueológicos da extração do sal, no Período Neolítico, cerca de 10 000 anos atrás. Embora a importância desse alimento sagrado tenha variado bastante — ele já foi usado como moeda tão valiosa quanto o ouro e como iguaria rara, motivo de muitos conflitos entre países ao longo da História —, a forma de explorá-lo não mudou muito.

Represada, a água do mar vai sendo transferida de um tanque raso para outro — em Grossos, impulsionadas por antiquados moinhos de vento. Aquecido pelo sol, o líquido muda de cor e fica denso até ser evaporado, restando o sal. Num calor infernal, a pele fica grudenta pela maresia desse ambiente úmido e os olhos ardem por causa do reflexo dos branquíssimos montes de sal.

(foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

“Esse é um trabalho pra cabra corajoso”, orgulha-se o salineiro Francisco José do Nascimento, 20 anos, que desde os 15 usa uma espécie de picareta, chamada de chibanca, para extrair o sal. Em março, Francisco e seu colega Antônio José da Silva, o Pitão, de 21 anos, se dedicaram à ingrata missão de picar o sal de um tanque — também chamado de balde — de 50 por 50 metros de uma salina da cidade de Areia Branca, a 15 minutos de balsa de Grossos. “Precisamos de dez homens trabalhando três semanas para extrair o sal de um único balde”, enfatiza Pitão. A pele dos pés de quem não tem dinheiro para comprar botas fica dura e machucada pelo contato com o chão rasgante. “Fiz um corte pequeno na sola do pé, que com sal virou uma enorme ferida”, reclama o salineiro Zenildo de Assis dos Santos, 26 anos, que usa uma atadura no pé esquerdo. Seu companheiro, o operador de trator Francisco Pereira da Silva, 58 anos, usa um óculos fundo-de-garrafa para tratar dos quase 3 graus de miopia adquiridos ao trabalhar no sal, por quarenta anos, ofuscando os olhos sem os óculos especiais usados nas grandes salinas. A recomendação do feitor — o chefe — é que os salineiros protejam o corpo do sal e do sol.

Câncer. As mesmas montanhas alvas das salinas de Areia Branca que causaram, décadas atrás, glaucomas, problemas de visão e de pele em trabalhadores, hoje são uma atração da cidade. Tanto é que, dois anos atrás, atores como Du Moscovis e Letícia Sabatella circularam pela cidade para gravar imagens para o filme Bela Donna, de Fábio Barreto. Nenhum set deve ter sido tão agradável, porém, como as praias de Areia Branca — principalmente aquelas distantes do centro. A Praia Redonda, por exemplo, vive com a mesma calma de sua grande parcela de aposentados, que permanecem sentados ao redor da pracinha central e da igreja dia após dia.

Apesar do típico sossego caiçara, há moradores que reclamam do sobe-e-desce pelas dunas, obrigatório para chegar à beira-mar de Redonda. “Duro é voltar da praia carregando balaios cheios de peixe”, resmunga Gilvan Pereira da Costa, 21 anos, pescador de um dos treze barquinhos locais. “Dizem que a vida era bem melhor no tempo da vila antiga, que ficava em frente à praia e foi engolida pelas dunas quarenta anos atrás”, conta. Apesar disso, Gilvan adora o cantinho onde vive, o ofício da pesca, a companhia dos golfinhos no barco e o entardecer visto das dunas. O novo centro de Redonda, erguido na parte alta, virou um mirante onde se avista, além do pôr-do-sol ardente do céu potiguar, o Porto Ilha, gigantesca plataforma construída em alto-mar, a 25 quilômetros de Areia Branca. É para lá que seguem as barcaças de sal que partem de todas as salinas da região. Elas repassam sua carga de 1 500 tonelada para navios de 35 000 toneladas que rumam para o sudeste do Brasil ou a costa leste dos Estados Unidos.

O entardecer é igualmente belo na praia de São Cristóvão, ideal para caminhadas diante de sua bela seqüência de falésias. No alto de uma delas fica um pitoresco cemitério de cruzes coloridas, num cenário idílico de frente para a imensidão do oceano. São Cristóvão só rivaliza em beleza com a Ponta do Mel, pérola da Costa do Sal e única dessas vilas onde é possível se hospedar. A casa de Eloísa Rodrigues de Oliveira, a dona Luquinha, de 66 anos, dá hospedagem a poucos passos da praia, serve comida aos forasteiros e oferece a simpatia dos membros da família Oliveira. Naide, de 20 anos, uma das filhas de dona Luquinha, cuida da pousada. Sua irmã Néia toca o Bar Beirão, de frente para o mar com sua parede coberta de conchas e com telhado de palha de carnaúba trançada. Dos outros irmãos, Ernan cuida da oficina da cidade, Eliane atende o único telefone e Elialva é diretora da creche. “É bom que estamos no ponto da cidade onde tudo acontece”, anima-se Naide. Isso quer dizer que a Rua Manoel Filgueiras dos Santos, paralela à praia com rochas de formas curiosas, é o centro onde ficam a padaria, a mercearia e o posto da Telern — aquele onde Eliane trabalha.

Enquanto os pescadores de Ponta do Mel vão ao mar, a vila segue sua rotina mansa, a passos lentos, ao som de forró. Oito habitantes da cidade — inclusive dois pescadores — montaram um conjunto local, o Cheiro de Caju, que toca até no centro de Areia Branca. À noite, o céu estrelado, invariavelmente sem nuvens, cobre os casebres onde as pessoas dormem em redes, com as portas abertas para suportar o calor. O caminho que leva ao Farol de Ponta do Mel, de onde se tem uma vista ampla de sua praia de areias fofas e amareladas, é o mesmo que segue acompanhando o mar até Porto do Mangue: uma longa estrada de cascalho — aqui chamado de piçarro — que mescla paisagens com coqueiros do litoral, cactos da caatinga, montes de cabras e de jegues torrando sob o sol. A cidade, portuária e com salinas, abriga as desertas dunas da Costinha, a meia hora de barco pelo meio de um manguezal quase virgem.

  • (foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

Piçarro. Mangues preservados são raros na região das salinas, já que eles costumam ser inundados na criação de cada balde de sal. Ironicamente, o problema ecológico cria um visual curioso: as melhores praias de Macau, a próxima cidade da rota, são decoradas por troncos de manguezais ressecados pelas salinas, em areias cobertas por conchas do mar. Pontilham o caminho os chamados “cavalos”, máquinas semelhantes a grandes gangorras que extraem o petróleo da terra em poços com até 3 000 metros de profundidade. Mantidos pela Petrobrás, os milhares de cavalos do Rio Grande do Norte transformaram o Estado no líder nacional desse tipo de extração e empregam tanta gente quanto as salinas.

Primeira cidade onde os navegadores portugueses perceberam o potencial de exploração do sal brasileiro, Macau ganhou o mesmo nome de uma colônia lusitana na China e vive do sal explorado basicamente por grandes salinas, como a Álcalis e a Henrique Lages. Com linhas de produção modernas e trabalho noturno para evitar a inclemência do sol, as salinas de Macau só possuem moinhos como enfeite, movimentados pelo mesmo vento que afasta para longe as nuvens formadas pela evaporação dos tanques. Além dos moinhos, também os salineiros estão em extinção, substituídos por operadores de máquinas: as grandes salinas empregam apenas um quarto do número de funcionários que trabalhavam antes da mecanização. A monotonia da seqüência de baldes de sal de Macau só é quebrada pela paisagem simples das praias de Diogo Lopes, Barreiras e Soledade, todas desertas, com muitas conchinhas e acessíveis apenas por buggies. Coqueiros, barcos de pesca, casas de pau-a-pique e varais de secagem de peixes tornam deslumbrantes as vistas do alto das vilas.

A paz também é a primeira boa impressão para quem chega de barco à Ilha de Galinhos, a partir de Guamaré. Não há carros nas ruas de areia dessa que é a terra do saboroso peixe-galo. Guiadas por crianças, as charretes puxadas por burros e jegues, também chamadas de jumentáxis, são o único meio de transporte da cidade. A simpatia da gente local e as águas cristalinas das praias desertas começam a conquistar visitantes esporádicos. Duas das únicas três pousadas, por exemplo, são de propriedade de italianos que se apaixonaram pelo lugar.

As belas salinas de Galinhos, apesar de ficarem no continente, também são o ganha-pão de alguns moradores locais. Todos os dias, quando o sol ainda nasce, esses trabalhadores pegam carona no barco dos pescadores até as montanhas de sal. As embarcações são as mesmas que levam os raros aventureiros para conhecer as dunas da Ilha do Capim e a bucólica praia de Galos, do outro lado da ilha. E o caminho, mais uma vez, é o mar — a inesgotável fonte de vida de jangadeiros e salineiros.

Para ir mais longe

Barro Blanco, romance de José Mauro de Vasconcelos, Ed. Melhoramentos.

Minhas Memórias de Areia Branca, de Luiz Fausto de Medeiros, Coleção Mossoroense — romance regional com histórias da pesca e do sal.

 

DO MAR À COZINHA

 

A água do mar é represada em tanques chamados de baldes, passando de um ao outro até que seja evaporada durante seis meses.

Uma crosta de 20 centímetros de sal cristalizado é colhida por uma máquina que funciona como as que varrem a neve das ruas.

Carrinhos levam o sal para esteiras lavadoras. Em seguida, o sal bruto é curado em pilhas de até 12 metros de altura.

Escavadeiras tiram o sal da pilha e colocam em esteiras que os levam para navios ou caminhões, para que vire sal grosso ou refinado.

 

GUIA DA TERRA:

COMO CHEGAR – Não é preciso ir de buggy de Natal para a Costa do Sal, embora ele garanta viajar pela areia das praias. Um carro comum chega em todos os lugares e é mais confortável na viagem de até 4 horas pelo asfalto até as cidades base do roteiro: Mossoró, a 277 quilômetros pela BR-304, e Macau, a 190 quilômetros pela BR-406. O asfalto de todas as estradas, inclusive as vicinais, está bem conservado. A pequena RN-012 beira a praia entre Tibau e Grossos. Daí pega-se uma balsa de 15 minutos até Areia Branca. A estrada de piçarro que leva a todas as praias de Areia Branca não tem placas, fique atento. A pista de Ponta do Mel até Porto do Mangue é precária mas tem um visual fantástico. Para ir a Macau é preciso rodear o Rio Assu por estradas regionais via Pendências. E de Macau a Guamaré, de onde saem os barcos para Galinhos, dirige-se pela RN-221 por quase 2 horas. O barco funciona em horário comercial, e o carro fica em um estacionamento no Portinho. Caso você vá chegar durante a noite, solicite um barco aos donos das pousadas.

ONDE FICAR – Melhor evitar as cidades grandes, como Mossoró e Macau. Prefira praias menores, mais charmosas e hospitaleiras. O problema é a precariedade da estrutura: nos quartos da Pousada da Dona Luquinha (tel. 084/ 332-2269), em Ponta do Mel, e da Dalva (tel. 084/525-2260 e 2261, ramal 26), em Galinhos, não há nem portas separando dormitórios e banheiros. Muito simples, ambas servem refeições e fazem o hóspede se sentir parte da família. Em Galinhos, existem ainda os Chalés Oásis (tel. 084/9431-9672) e a Pousada Adoro Vocês (mesmo telefone da Pousada da Dalva), dos italianos. Leve roupa de cama e banho. Atenção: postos de gasolina são raros nesses 250 quilômetros. Quem preferir dormir em Areia Branca, a 110 quilômetros de Mossoró pela BR-110, tem como opção a confortável Pousada Porto do Sal (tel. 084/332-2386).

MELHOR ÉPOCA – É o ano todo. Mas no inverno, entre março e maio, chove nas salinas.

DICA DO AUTOR

“Algumas estradas do roteiro são fantásticas, em especial a que liga Ponta do Mel a Porto do Mangue, de cascalho. Deserta, ela mistura paisagens de caatinga, praias, falésias e dunas. Cuidado para não atolar nos trechos invadidos pela areia. E sinta-se o viajante mais solitário do planeta.”

Daniel Nunes Gonçalves

Ao sabor das marés

Vocês viajaram de bugue pela praia desde Natal?”, perguntou com ar surpreso a mulher que descascava mandioca numa casa de farinha da cidade potiguar de São Miguel do Gostoso. “Tem louco pra tudo!”, continuou Vera Lúcia da Silva, depois de uma sonora gargalhada. Para ela, a viagem dos forasteiros em bugues parecia um sacrifício. Acostumada à rotina de pesca de parte dos doze filhos e ao trabalho com farinha na simpática praia onde vive, a perplexa Verinha, como é conhecida, 38 anos, não entendia que uma empreitada com sol na cabeça, pouca roupa e brisa no rosto é o que todo mortal estressado pediria a Deus. Estávamos apenas no fim do segundo dia de uma aventura que duraria uma semana e que percorreria 700 quilômetros e 100 praias do extremo Nordeste do Brasil, desde Natal, no Rio Grande do Norte, até Fortaleza, no Ceará. E tudo com calma, tendo como única preocupação a escolha das vilas de pescadores onde tomar banho de mar, beber água-de-coco e comer lagosta fresca.

(Ponta Grossa, foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

 

Gostosa, a gargalhada de Verinha traduz bem o alto-astral do lugar do primeiro pernoite fora de Natal. No século passado, a pacata vila de São Miguel teve adicionado ao seu nome o curioso complemento “do Gostoso“, em homenagem a um comerciante contador de histórias engraçadas conhecido por sua risada divertida, “gostosa“, como a de Vera. Apesar de o nome oficial ser São Miguel de Touros, a maior parte dos 5000 habitantes do centro urbano prefere o outro título. Até a placa na entrada da cidade dá as boas-vindas com a mensagem “Aqui você faz gostoso“. Depois do dia anterior em Natal ter sido dedicado aos preparativos da viagem, o primeiro dia de deslocamento dos dois bugues terminava feliz, sem imprevistos. À medida que se dirige para o norte, a praia vai ficando mais bela e as casas de veraneio da orla dão lugar às vilas de pescadores em praias desertas.

No ritmo da natureza. Os passeios de bugue pela praia acontecem na região há quinze anos. Poucas pessoas se arriscam a trocar a velocidade na estrada asfaltada entre Natal e Fortaleza pela aventura a 40 km/h na areia. “Uma longa rota de bugue requer macetes de pilotagem“, diz o bugueiro Cláudio Chueiri, 47 anos, que repetiu o trajeto seis vezes nos últimos oito anos. O motorista precisa enxergar desníveis do solo, trechos de areia fofa e riachos que desembocam no mar. Deve ainda dirigir apenas nos horários em que a maré permite – e isso varia conforme a fase da Lua. Sempre que a maré sobe, o trecho de areia seca diminui, obrigando o viajante a esperar a vazante ou dirigir em estradas paralelas. Com a maré baixa, os obstáculos são os trechos com pedras e os rios, onde nativos oferecem a travessia em jangadas.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

A variedade das paisagens impressiona. Depois da seqüência inicial de dunas e lagoas de Genipabu, despontam os extensos coqueirais do Cabo de São Roque, ponto da América mais próximo do continente Africano. Em seguida, as piscinas naturais de Maracajaú, a 7 quilômetros da costa, surpreendem os mergulhadores com o desfile de budiões, moréias e polvos em águas azuis incríveis. O cenário paradisíaco se repete à frente, nas piscinas de Rio do Fogo.

Ao norte, a orla de areia fina curva-se para a esquerda e delineia a esquina nordestina brasileira, em Touros, onde o Farol do Calcanhar, com seus 62 metros de altura, evita que novos naufrágios ocorram na região. Considerado o maior da América Latina, ele oferece um mirante no alto de seus 298 degraus, de onde se avista São Miguel do Gostoso e se percebe que os bugues passarão, no dia seguinte, a circular no litoral virado para o norte, e não mais para o leste. A tábua de marés, que orienta pescadores e bugueiros apontando os horários de cheia e vazante, muda totalmente.

Nordeste pré-histórico. O primeiro barco se preparava para deixar a praia de Gostoso, às 6 horas da manhã do dia seguinte, quando os dois bugues partiram pertinho do mar, onde a areia é mais dura. Os homens da jangada comentavam o evento da noite anterior, a apresentação de um circo itinerante com direito a show da Tiazinha. “A Tiazinha da televisão?“, pergunta alguém. “Não, uma igualzinha, veio lá do Recife“, responde outro, entusiasmado. São Miguel do Gostoso é realmente uma cidade engraçada… O papo sobre os atributos da moça continuou enquanto os pescadores ajeitavam os 100 covos, gaiolas de pescar lagosta que seriam deixadas no mar até o dia seguinte. Zarparam. Um visitante caminhava na praia, anunciando o turismo discreto que começa a descobrir Gostoso. A cena dificilmente seria vista um ano atrás, quando o asfalto da BR-101 ligando Natal a Touros não estava concluído.

As formações rochosas que aparecem no terceiro dia têm tanto valor que já se tentou criar ali um parque. Em Tourinhos despontam paredes escuras, de até 5 metros de altura, que parecem ter sido lapidadas e polidas pela chuva e pelo vento. “São dunas petrificadas que existem há pelo menos 7500 anos“, explica o geólogo Eduardo Bagnoli. Nos areais que beiram a praia, surgem os bosques petrificados, um fenômeno mundial raríssimo.

Quem não tocar não vai perceber, mas os troncos secos brotando do chão são pedras. Há milhares de anos as árvores foram cobertas pelas dunas, endureceram e ressurgiram quando a areia se moveu. Na Ponta dos Três Irmãos, perto dos galhos, muitas conchas escondem pedras lascadas usadas como ferramentas indígenas. “Talvez os índios se alimentassem dessas conchas na sombra do bosque“, diz Bagnoli. Se a rodovia litorânea Touros–Fortaleza, que será construída em 2001, não evitar passar por ali, essas relíquias se perderão.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Os cactos da caatinga beirando esta costa de ondas fortes comprova que estamos no trecho mais árido e isolado da viagem. Água doce é um artigo tão raro que as lagoas formadas pela chuva nas dunas são usadas para regar plantações de batata e mandioca, para que as lavadeiras lavem roupas e para que homens e animais tomem banho. “Eu e o Campineiro andamos uma hora para chegar aqui“, diz o vaqueiro Cícero César, 19 anos, enquanto lava seu boi, o tal Campineiro.

Banquete indígena. A Praia do Marco, onde foi cravado o primeiro marco português no Brasil, em 1501, remete a um passado mais curioso do que aparenta a réplica local da cruz portuguesa (a original está em Natal, no Forte dos Reis Magos). Depois de fixar o monumento, a expedição de Gaspar de Lemos se aproximou, de bote, dos índios potiguares que descansavam na areia fofa da praia vizinha de Ponta do Santo Cristo. Foi quando os índios mostraram sua ferocidade. Nadaram até um dos barcos e dele retiraram um padre, que foi arrastado até a praia e, diante dos olhares de outros portugueses, morto e devorado pelos selvagens. Os potiguares continuaram resistentes até o final do século, ocasião em que foram enfim dominados.

O sol parece mais forte e a água do mar, mais salgada, na Ilha de Galinhos, ponto final do terceiro dia e inicial da chamada Costa do Sal. Os golfinhos costumam acompanhar a balsa que leva a esta vila de 1800 habitantes e chão de areia. Como praticamente não há carro em terra firme, os viajantes se locomovem em charretes puxadas por jumentos, os jumentáxis. Simpática vila de casas coloridas, Galinhos é comandada há décadas pelo pulso firme da prefeita Jardelina Pereira, 73 anos, espécie de coronel local. Ao entardecer, ela costuma arrastar uma cadeira até a frente de casa, onde, sentada com toda pompa, escuta os lamentos das moradoras.

A cor branca das salinas e dos belos bancos de areia da Ponta do Tubarão é a mesma do triste cenário dos galhos secos nos manguezais que foram destruídos pelas empresas salineiras, deixando sem lar aves de mangue como garças e maçaricos. O sal é a principal fonte de renda da população do Rio Grande do Norte, além do petróleo extraído das plataformas terrestres da Petrobras, nas quais os chamados cavalos puxam óleo desde 3000 metros de profundidade.

Em Porto do Mangue, onde se concentram as paisagens mais bonitas do dia, o destaque é a seqüência de falésias de cores vermelha, amarela e alaranjada que beiram o mar azul até as praias de Ponta do Mel, São Cristóvão e Redonda. O melhor mirante para observá-las é o alto de cada morro, como no cemitério de São Cristóvão. Nesta região, famílias inteiras dormem em redes com a porta da casa aberta. “Só fecho quando o vento bate forte na boca da noite“, diz Cosme Olivar das Neves, 53 anos, que trabalha na salina artesanal de Grossos, cidade vizinha de Tibau, última parada do dia. “Mas o vento é bom. A gente nem precisa balançar a rede debaixo do cajueiro“, diz, feliz com o sossego de onde mora.

A extinção da lagosta. A entrada no Estado do Ceará, no quinto dia, é indicada por um mar mais verde, protegido por paredões avermelhados, como o de Barreira, Redondas (com “s“, diferente da Praia Redonda do dia anterior) e Ponta Grossa. De uma beleza surpreendente, as três praias ficam em isoladas vilas de pescadores cheias de jangadas de velas brancas. Todos os anos, no dia 15 de agosto, elas engrossam uma procissão de 150 barcos em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes. “Só a santa e o governo podem ajudar a melhorar nossa vida“, reclama o pescador João de Deus, 48 anos, morador de Redondas. Acostumado a viver da venda da lagosta, João de Deus tem sofrido com a escassez causada pela pesca predatória, que tem dizimado os filhotes. O volume dos pescados baixou de 20 quilos por mês, dez anos atrás, para 2 quilos.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Em Canoa Quebrada, ponto do próximo pernoite, a pesca deixou de ser o principal ganha-pão há duas décadas. O turismo explodiu de tal forma que a maioria dos 3000 moradores atuais veio de fora, atraída pela badalação que rondou a praia na década de 70, depois que a atriz Vera Fischer passou a freqüentá-la. Canoa continua bela, com dunas e falésias, mas cresceu demais.

O ícone da lua com a estrela, nascido do símbolo do islamismo e transformado em marca registrada de Canoa, também permanece em um paredão rochoso da praia – agora, porém, em meio a milhares de nomes rabiscados. Cosmopolita, a Canoa de hoje fala várias línguas, tem agitação noturna e costuma ter no céu parapentes coloridos, como o do suíço Jérôme Saunier, 37 anos, pioneiro do esporte no Brasil. Ele se mudou para cá há nove anos e montou uma academia. “Canoa Quebrada será sempre uma praia especial“, diz.

As falésias brancas que aparecem nos primeiros quilômetros do sexto dia, na rota final até Fortaleza, anunciam a aproximação da Barra de Sucatinga, que ficou popular há cinco meses por ter sido palco das gravações da série de televisão No Limite. Basta o bugue encostar na recém-batizada Praia dos Anjos para os filhos dos pescadores pararem de brincar com suas jangadinhas e oferecer passeios guiados. “O turismo está ajudando a vila a crescer“, anima-se Belarmino Torres, que está construindo em sua barraca de praia um museu com peças usadas pelo elenco, como estilingues e panelas.

Desviando-se das jangadas, dos campos de futebol e dos alagados formados durante a maré alta, os bugues seguem pela Praia das Fontes, com suas discretas nascentes despencando das falésias, e por Morro Branco, famosa pelo artesanato de areias coloridas. Depois da plácida paisagem dos bancos de areia em Águas Belas, a urbanidade se aproxima com a chegada à Praia de Porto das Dunas, em frente ao Beach Park. Hora de voltar à estrada, para que o descanso do sétimo dia seja desfrutado na Praia do Futuro, em Fortaleza. O bugue entra no asfalto da metrópole e recebe a primeira baforada de fumaça de caminhão. Como dizia Verinha, a da risada gostosa, tem louco pra tudo nesse mundo. Até para voltar à cidade, deixando lá atrás a vida mansa de sol e a brisa deliciosa da beira-mar nordestina.

 

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Para quando você for:

 

Aos Bugues!

Qualquer pessoa pode viajar pelas praias alugando um bugue em uma das locadoras de Natal ou de Fortaleza. Para as aventuras mais longas, no entanto, é mais seguro e recomendável contratar o serviço de bugueiros profissionais, como Cláudio Chueiri (tel. 0_ _84/641-2019) e Marcelo Cossi (tel. 0_ _84/236-4217), ambos de Natal. A Top Buggy (tel. 0_ _84/219-2820) oferece os mesmos serviços em Natal, enquanto a HM (tel. 0_ _85/242-7799) faz o trajeto inverso ao nosso, desde Fortaleza.

Durma bem

Fora os pernoites em Natal e em Fortaleza, os outros quatro podem acontecer na cidade que o viajante quiser. Na hora de decidir onde parar para almoçar e para dormir, prefira as praias mais charmosas. No segundo dia, a melhor opção é São Miguel do Gostoso, na Pousada dos Ponteiros (foto do alto, tel. 0_ _84/984-5951). Galinhos, no terceiro dia, tem cinco pousadas. A mais simpática é a Chalés Oásis (foto do meio, tel. 0_ _84/9431-9672). Urbanas, as praias de Tibau (onde passamos a quarta noite, meio sem graça), Canoa Quebrada (quinta noite, www.canoaquebrada.com) e Fortaleza (sexta noite) têm muitos hotéis. Uma hora antes de Fortaleza, o Resort Praia das Fontes (foto debaixo, tel. 0_ _85/338-2122) é o melhor do roteiro Outras praias agradáveis para pernoitar são a Do Marco (RN), de Ponta do Mel (RN) e de Redondas (CE).

Pela terra do sol

Há sol no Nordeste em qualquer época do ano, mas as chuvas costumam aparecer entre março e junho. Planeje sua viagem usando as informações turísticas dos sites www.turismorn.com.br, do Rio Grande do Norte, e www.cearatour.com.br, do Ceará.

Outros toques

O bugue é aberto e o vento das praias pode desaparecer com seus óculos de sol, boné e guia de viagem. Proteja-se do vento, do sol e da areia que voa para dentro do carro. A água do mar também costuma molhar bagagens, câmera fotográfica…

Dica do autor

”Os sítios arqueológicos encontrados nas praias entre Touros e Galinhos merecem cuidado. Perto da Ponta dos Três Irmãos, os bugues desviam das pedras na beira de um morro e passam sobre uma concentração de conchas que se assemelha a um sambaqui. Evite rodar por ali para não atropelar as relíquias.”

Daniel Nunes Gonçalves

A Florianópolis mais natural

Ninguém chega sem ser anunciado ao casebre de seu Miro. Basta se aproximar para que oito cachorros e cinco gansos abram o berreiro num escarcéu danado. “Podem se achegar”, avisa do alto da trilha o senhor de 61 anos, sorriso estampado pela alegria dessas visitas raras. O gaúcho surge de uma casa amarela secular em meio à densa Mata Atlântica. Chimarrão na mão, é um voluntário isolado nesse cafundó no alto do Morro do Ribeirão, de 540 metros, o maior da Ilha de Santa Catarina. Passa dias ali, cuidando da terra, mirando o horizonte da mata com o olhar misterioso típico dos ilhéus, acostumados a ver coisa nenhuma onde o mar encontra o céu. Seu Valmiro dos Santos convida para entrar, espanta uma galinha de cima da pia, observa uma revoada de tucanos-do-bico-verde, puxa prosa. “Mudei para cá para fugir do barulho da cidade”, conta. Forasteiro como tantos em Florianópolis, seu Miro só nessas situações vê gente. Ou quando caminha até o Sertão para beber a pinguinha do seu Acari e olhar o horizonte de algumas das 100 praias da ilha, com o centro e a Ponte Hercílio Luz bem ao fundo. Não parece, mas o tranqüilo paraíso verde onde seu Miro se esconde está bem no meio de uma capital com 300 000 habitantes.

Seu Miro não é o único que vive ilhado dentro de uma ilha. Os 79 moradores do Sertão do Peri também moram afastados, num cenário rural de poucas casas, distantes entre si. Há vários grupos assim, com natureza e cultura preservadas, em Florianópolis, a capital do Estado de Santa Catarina, que ocupa toda a ilha de mesmo nome e um pedaço do continente. Gente que nunca ouviu falar do tenista Gustavo Kuerten, a maior estrela entre os esportistas famosos da cidade. Apesar de ser um grande pólo turístico desde a década de 60, a ilha guardou esses segredos pelo fato de estarem em pontos de difícil acesso. Chegar ao Sertão, só por uma estrada de terra ruim ou pela trilha da Cachoeira do Peri, que parte da Lagoa do Peri, o maior reservatório de água potável da cidade, com 5 km2. Bem diferente das urbanizadas praias de Canasvieiras e Ingleses, que atraem uma multidão de argentinos ao norte da ilha durante o verão, a região do Parque Municipal da Lagoa do Peri é um desses fascinantes redutos quase intocados da ilha.

Esguia, com 53 quilômetros de extensão por 18 de largura, a Ilha de Santa Catarina é um privilegiado ponto do Brasil, onde o urbano convive com os rústicos recantos caipiras e caiçaras, entre praias, montanhas cobertas de Mata Atlântica, mais de dez ilhas, duas grandes lagoas e quilômetros de dunas, restingas e manguezais. Mesmo sendo parte da quarta cidade que mais recebe visitantes no país (são 2 milhões por ano), essa ilha de geografia exuberante é morada de pescadores e artesãs de renda de bilro. “És manezinho da ilha?”, pergunta seu Acari Romalino Siqueira, 43 anos, que cuida do bar do Sertão, falando com os “esses” puxados do típico sotaque português. Manezinho da ilha é como são chamados os florianopolitanos locais. A palavra foi criada pelos colonos alemães que habitavam o interior do Estado no século XVIII para definir os muitos Manuel e Joaquim da colônia de portugueses, vindos dos Açores, que viviam no litoral.

Os manezinhos dispõem de uma invejável qualidade de vida. Podem se dar ao luxo de correr diariamente na Avenida Beira-Mar, similar à Avenida Atlântica da Copacabana carioca, ou escalar a rocha do Morro da Cruz, com 285 metros de altura e uma bela vista aérea. Quem vem de fora pode conhecer um pouco da rotina provinciana e das maravilhas naturais da Ilha de Santa Catarina de carro, beirando todas as praias em dois dias. Ou a pé, como fazem os trekkers e os corredores da maratona Volta à Ilha, percorrendo praias, trilhas na mata, costões e estradas à beira-mar em até uma semana. O lado selvagem, no entanto, só é desbravado por trilhas. A maior parte segue para as praias desertas e vilas pacatas como a de Tapera, no sul. Para evitar que até elas recebam muita gente nos feriados, os moradores fogem mesmo é para o interior. Caminham para as lagoas e rumo a mirantes de onde se vê o contraste dos azuis das lagoas, do mar e do céu. Quanto mais alto o ponto de onde se vê a ilha, mais surpreendente ela parece.

A maior das lagoas, a da Conceição, encravada bem no coração da ilha, torna-se deslumbrante quando avistada do alto das trilhas que levam à Costa da Lagoa, comunidade tão ou mais isolada que o Sertão do Peri. Trata-se de um gigantesco espelho d’água de 20 km2 ligado ao mar por um canal. A trilha que parte do bairro de Ratones permite que se veja o Rio Ratones imperar como o maior da ilha, sustentando o manguezal da Estação Ecológica de Carijós, onde ainda vivem lontras e jacarés-de-papo-amarelo. Em outro caminho para a Costa da Lagoa, partindo da Estrada Geral do Canto das Araçás, cruza-se com engenhos de farinha de mandioca e de cana-de-açúcar, que foram a base da economia desses ilhéus desde a colonização até o início do século. “Os açorianos letrados habitavam o centro à beira-mar, enquanto os analfabetos seguiram para as roças e engenhos do interior”, explica o sociólogo Nereu do Vale Pereira, 71 anos, estudioso da cultura açoriana que cuida do Ecomuseu do Ribeirão da Ilha.

Dois povoados situados no lado oeste, voltado para o continente, carregam de forma mais intensa a influência dos Açores. Tanto Santo Antônio de Lisboa, na Baía Norte, como Ribeirão da Ilha, na Baía Sul, ambos com praias sem ondas, guardam casas e igrejas construídas no estilo português: as paredes são conjugadas, as casas que pertenceram às famílias de posses ainda exibem suas eiras e beiras, do jeitinho que faziam os primeiros 4000 açorianos que aqui chegaram, em 1746. Apesar de ter sido colonizada pela população do arquipélago dos Açores, a Ilha de Santa Catarina tem na sua origem a mesma variedade de povos que se percebe hoje. O primeiro branco que deparou com os habitantes índios da tribo carijó foi o espanhol Juan Dias de Solis, também fundador de Buenos Aires, em 1514. Por volta de 1536, o navegador veneziano Sebastião Caboto deu o nome à ilha – uns dizem que em homenagem à Virgem Martir de Alexandria, outros acreditam que para agradar à sua esposa, Catarina. Só em 1675 o bandeirante português Francisco Dias Velho fundou o povoado de Nossa Senhora do Desterro, que teria seu nome trocado para Florianópolis em 1895, em homenagem ao marechal alagoano Floriano Peixoto, ex-presidente da Primeira República brasileira.

Os estrangeiros continuam por ali. Muitos adoram a pequena enseada da Galheta, freqüentada por naturistas e acessível por trilha desde a Praia Mole. Outros preferem o Costão do Santinho, invadido por um condomínio gigantesco, mas recanto de dunas, belos costões e inscrições dos carijós nas pedras. Os surfistas, porém, vindos de todo o mundo, escolheram as ondas da Joaquina, da Praia Mole e da Armação, todas no mar aberto do leste, como passagem obrigatória. Com poucas casas, elas mantêm a natureza ainda bem preservada: Joaquina tem dunas procuradas por praticantes de surfe na areia, Praia Mole é protegida por montanhas verdes em todos os lados, e grandes rochas negras beiram a Armação. Fora de temporada, quando pertencem apenas aos nativos praticantes de parapente, mountain-bike e escalada em rocha, elas preservam o que se convencionou chamar de “magia” da ilha. Também nascidas nos Açores, as lendas falam de bruxas, destinos cruzados e da estranha energia que convida as pessoas a voltar um dia para suas praias — às vezes para sempre.

A Armação ganhou esse nome por ter sido, desde o século passado até a primeira metade deste, um ponto de aprisionamento e matança de baleias. Até hoje, em todas as primaveras, as baleias franca migram da Antártida para se acasalar, reproduzir e amamentar filhotes no litoral de Santa Catarina. A Armação ainda é um dos melhores pontos para observá-las, além das praias Mole, do Campeche e de Moçambique – esta última é a mais extensa da ilha, com 11,5 quilômetros, dentro do Parque Florestal do Rio Vermelho. Deserta, Moçambique é morada de gaivotões, fragatas e atobás, além de escala de aves migrantes como as batuíras e os gaviões-tesoura. “Cerca de 270 espécies, entre residentes e migratórias, foram registradas aqui”, atesta o biólogo Andrei Roos, 24 anos, que estuda esses pássaros.

Os pingüins também costumam aportar na costa leste. Quando o mar das Malvinas esfria demais, eles sobem para o litoral brasileiro, onde a água é mais quente mesmo no inverno, época em que eles costumam chegar. Vítimas da poluição dos mares, esses animais aportam na ilha com as penas cobertas de óleo despejado por navios. Resultado: as penas endurecem, permitindo que a água gelada entre em pequenos vincos e resfrie seu corpo. “Eles param na areia cansados e com frio, e precisam ser limpos para que possam prosseguir viagem”, afirma o sargento Marcelo Duarte, 26 anos. Ele é um dos homens da Polícia Ambiental do Parque Florestal do Rio Vermelho que desenvolve o trabalho de recuperação de animais machucados ou apreendidos em cativeiro. No ano passado, o grupo do sargento Marcelo resgatou 253 pingüins, cuidou deles e reintroduziu no mar, próximo à Ilha de Xavier, os 171 que sobreviveram.

As ilhas ao redor da grande Ilha de Santa Catarina são um espetáculo à parte, motivo para muitas viagens. A Ilha do Arvoredo ostenta a fama de perfeito ponto para mergulho. Anhatomirim, ao norte, é morada de golfinhos. Ao sul, a Ilha de Moleques do Sul guarda um gigantesco ninhal de atobás e fragatas. Campeche, em frente da praia de mesmo nome, tem a maior quantidade de inscrições rupestres do litoral sulista e uma prainha solitária e convidativa.

Bem diante das ilhas Três Irmãs, no extremo sul da Ilha de Santa Catarina, estão as praias mais cobiçadas e inexploradas. A Lagoinha do Leste, tida como a mais bonita da ilha, é acessível pela vila de pescadores de Pântano do Sul, onde ainda podem ser encontrados lobos-marinhos, ou pelo costão desde a Praia de Matadeiro, ao lado da Armação. Vista do alto da montanha, quando suas areias claras se descortinam depois da subida de uma caminhada, ela parece a mais bela do mundo. Lagoinha fica numa enseada de 1 quilômetro protegida por costões laterais. Não há ninguém morando por perto, e a lagoinha de águas quentes e escuras, formada por um riacho que desce do morro, tem apenas a natureza como companhia.

A série de praias isoladas segue a partir daí, sempre com acesso difícil. De uma estrada de terra que parte de Pântano do Sul chega-se a Solidão, que tem uma cachoeira e uma piscina natural. Desse ponto caminha-se por um dos costões mais entrecortados da ilha até a Praia do Saquinho, onde há uma comunidade de pescadores, com apenas vinte casas, que ainda não têm energia elétrica. Gente que não vê televisão, que não assiste aos jogos do manezinho Gustavo Kuerten.Com 5 quilômetros de extensão e areias brancas, Saquinho é vizinha de Naufragados, um lugar de ondas fortes que em 1753 causaram o afundamento de duas embarcações que traziam 250 açorianos. Apenas 77 náufragos sobreviveram, e parte deles passou a viver ali, no ponto mais ao sul da ilha. Construíram um engenho, adaptaram-se à roça e à pesca e deram início a mais um grupo de manezinhos que viveriam uma relação de amor com a Ilha de Santa Catarina. Até hoje há uma pequena comunidade de ilhéus em Naufragados. Vivem em paz com a natureza, ao som do chorinho do mar e mantendo o hábito de olhar à toa para o horizonte, numa espécie de encantamento que só quem vive em uma ilha como a de Santa Catarina consegue entender.

MATA NATIVA

Maior reservatório de água potável da cidade, a Lagoa do Peri é protegida por um raro trecho da Mata Atlântica primária que resta na ilha: abrigo da cachoeira e morada da isolada comunidade do Sertão do Peri.

DIA DE PESCA

Homens da vila de Pântano do Sul arrastam rede em mais um dia de trabalho: dessa praia de pescadores, um dos poucos lugares onde ainda existem lobos-marinhos, partem trilhas para as praias desertas do sul.

DUNAS AO SOL

Na Praia da Joaquina, montes de areia erguem-se entre o mar e as restingas: ponto preferido pelos surfistas do mar e das dunas quentes.

Para ir mais longe

Florianópolis das 100 Praias, fotos e informações de todo o litoral, feitas pelo professor Nereu do Vale Pereira, Editora Mares do Sul, encontrado no Ecomuseu do Ribeirão da Ilha (tel. 0_ _48/237-8148).

Uma Cidade numa Ilha, relatório sobre os problemas ambientais da Ilha de Santa Catarina, editado pelo Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA).

 

Box:

A bela ameaçada

Por ter uma natureza privilegiada, a Ilha de Santa Catarina é alvo de várias agressões. O inimigo número 1 sempre foi a urbanização, responsável pela construção de condomínios e hotéis nas praias mais paradisíacas, principalmente as do norte. As áreas rosadas do mapa, para se ter uma idéia, representam esses núcleos urbanos. Várias reservas foram criadas nos espaços verdes, mas nem sempre a lei que proíbe construções é respeitada. Como se não bastasse o impacto que causou a implantação de um aterro na Baía Norte, para a construção de uma estrada, também a Baía Sul está sendo aterrada, para que uma rodovia ligue o centro ao aeroporto. Há planos ainda de acentuar a urbanização da Praia do Campeche, construir um autódromo, um campo de golfe e de aumentar o nível da Lagoa do Peri para que ela seja a grande fonte de água potável da ilha. A natureza sofre calada, e o único protesto vem das ONGs ecológicas.

 

GUIA DA TERRA

 

Como chegar

Acessível pela BR-101, Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina, fica a 300 quilômetros de Curitiba e a 476 quilômetros de Porto Alegre. Quem não for de carro pode chegar às praias em ônibus que partem do centro, próximo ao Mercado Público. As trilhas são bem marcadas, mas é sempre bom ter a companhia de alguém da região. O site www.guiafloripa.com.br detalha as catorze principais trilhas, com mapas e link para a página da Recriarte (tel. 0_ _ 48/962-9632), agência de ecoturismo que programa até caminhadas na chuva e durante a noite. Outra agência é a Paz na Terra (tel. 0_ _ 48/222-7075).

Onde ficar

Há mais de sessenta pousadas, a maioria espalhada pelas praias — muitas delas citadas no site acima. Tanto o guia digital www.gdsc.com.br como a Secretaria de Turismo (0_ _ 48/244-5822) dão informações turísticas. Para conhecer a cultura açoriana, melhor se hospedar em Santo Antônio de Lisboa (foto) ou no Ribeirão da Ilha. A Pousada Caminho dos Açores (tel. 0_ _48/235-1363) é uma boa sugestão em Santo Antônio de Lisboa, enquanto no Ribeirão a Pousada e Restaurante do Museu (tel. 0_ _ 48/237-8148) se destaca por servir pratos típicos e ficar junto ao Ecomuseu. Na beira da Lagoa da Conceição, existem os charmosos Chalés Tranquilli (0_ _48/232-6311) e os Chalés do Canto (0_ _48/232-0471). Na Lagoa do Peri, destaca-se a agradável Pousada Alémdomar (0_ _48/237-5600). Há vários campings e dois Albergues da Juventude, na Praia de Canasvieiras e no Centro (res. tel. 0_ _ 11/258-0388).

Quando ir

Abril e maio são os melhores meses, pois quase não chove e as trilhas estão floridas. As praias ficam mais quentes entre dezembro e março, mas também mais cheias, principalmente no Carnaval. Evite os meses de agosto e setembro: chove demais. É em setembro, no entanto, que as baleias franca costumam aparecer.

Dica do autor

“Quando estiver em Pântano do Sul, de onde parte a trilha para a Lagoinha, aproveite para experimentar a comida do Arante Bar. O restaurante fica de frente para os barquinhos de pesca da praia, e serve pratos do mar incríveis.”

Daniel Nunes Gonçalves

San Francisco verde

Você pousa na cidade mais linda da Califórnia, aluga um carro elétrico e se hospeda em um green hotel. Deixa as malas, toma um bonde elétrico para comer em um restaurante de comida sem agrotóxicos e dali passeia de bike pela ciclovia até uma fazenda urbana. O lanche da tarde pode ser cachorro-quente orgânico, seguido de umas comprinhas de roupas feitas com garrafas pet recicladas. Até a happy hour pode ser em um barzinho que serve legumes plantados no teto do prédio vizinho, com direito a encerrar a noite com um jantar vegetariano refinado. Se sobrar comida no prato, ela será transformada em adubo pela própria prefeitura, não se preocupe. Seu único cuidado na volta ao hotel é conectar um fio do capô do carro a uma tomada elétrica qualquer, como se recarregasse o telefone celular, para que tenha bateria suficiente para visitar uma vinícola nos arredores – de produção ecológica, naturalmente.

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Acredite. Isto não é uma projeção futurista ecochata, mas a reprodução resumida da rotina dos cinco dias que vivemos em San Francisco, em setembro. Fomos conferir por que ela acaba de ser reconhecida como a cidade mais verde das Américas pelo Green Index, um estudo desenvolvido por especialistas da Economist Intelligence Unit e patrocinado pela Siemens. Sua liderança ambiental vem de longa data: em 1892, um sujeito chamado John Muir fundou ali o Sierra Club, que viria a se tornar a mais longeva organização conservacionista dos Estados Unidos, hoje com 1,4 milhão de associados. E John, o pai do Movimento Verde, virou o nome de batismo da Muir Woods, uma floresta de sequoias-gigantes nas redondezas. San Francisco sempre esteve na vanguarda. Na região nasceram a Organização das Nações Unidas (em 1945) e os movimentos beat (nos anos 50), hippie (na década seguinte) e gay (nos 70), entre outras iniciativas que mudaram o mundo, como a produção daqueles computadores com logotipo em forma de maçã, conhece?

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FLORES NA CABEÇA

Logo na estrada do aeroporto, o rádio do carro dava o clima. “If you are going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair”, cantava Scott McKenzie a letra de John Phillips, do The Mamas & The Papas. Bote aí no YouTube para lembrar: este é aquele famoso convite para que viajantes a caminho da cidade ostentassem flores no cabelo, e se transformou no hino de paz e amor que embalou 25.000 hippies nos gramados verdinhos do Golden Gate Park durante o festival de Monterey, de 1967 – dois anos antes do mítico Woodstock. Quase 45 anos depois, bastou darmos aquela voltinha de reconhecimento pelas ruas para perceber as pessoas se reunindo no parque que leva o nome da ponte mais famosa da cidade, assim como nas outras áreas verdes que cobrem 17% do seu território. Em uma das praças mais cênicas, a Alamo Square, encontramos amigas com crianças e cachorros, casais de namorados e até os integrantes de uma banda, a Chamberlin, gravando seu videoclipe. “Adoramos esta cidade, seu clima, sua paisagem”, contou Eric Maier, um dos integrantes do grupo de Vermont.

Com uma geografia privilegiada por beirar o Oceano Pacífico de um lado e a baía de outro, San Francisco convida a explorações a pé ou de bike. Deixamos nosso Leaf recarregando na garagem do hotel, o W, e aproveitamos a oferta gratuita de bicicletas. Redes como Carlton, Intercontinental e Hilton, além do pioneiro The Orchard, integram um seleto grupo de hotéis verdes. As placas de Green Business que ostentam na fachada indicam que suas práticas vão além de quartos cujas luzes se apagam na ausência dos hóspedes: as soluções se estendem até o uso de tecidos reciclados nas roupas de cama e de produtos biodegradáveis na faxina. Os disputados certificados Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), dados aos prédios mais sustentáveis do planeta, estão em mais de 130 edificações do skyline da metrópole, como no AT&T Park – o estádio do time de beisebol Giants, iluminado por mais de 500 painéis solares.

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Escolhemos as ciclovias mais planas, que beiram a baía entre as duas grandes pontes, partindo da Bay Bridge, passando diante do píer turístico Fisherman’s Wharf e seguindo até a Golden Gate Bridge. Cruzar os 2.700 metros da gigante vermelha que se tornou o maior cartão-postal da cidade não é exatamente o passeio mais gostoso durante o verão, tamanha a quantidade de pedestres, mas o downhill que espera os bikers do lado de lá, a caminho de Sausalito, no condado de Marin, encerra o trajeto com adrenalina. Antes de embarcar na balsa de volta para San Francisco, vale a pena curtir o panorama e bater perna entre as lojas e os bares da cidadezinha.

YERBA BUENA

Se o plano para o dia seguinte for conhecer o zigue-zague da Lombard Street, as ladeiras de Chinatown ou a ilha de Alcatraz, é menos cansativo deixar a bike pra lá. Espalhada em um sobe-e-desce de 50 colinas, San Francisco usa desde 1873 os chamados cable cars, que hoje somam 40 carros puxados por cabos de aço subterrâneos. Os bondinhos amados pelos turistas são as vedetes do mais vasto sistema de transporte público dos Estados Unidos – maior até que o de Nova York. Somam-se a eles 26 trólebus históricos chamados de street cars e outros 333 ônibus elétricos, todos impulsionados por cabos suspensos, além do metrô e dos 86 ônibus híbridos, que utilizam tanto diesel quanto eletricidade. Assim, metade dos coletivos locais não emite carbono algum no ar, algo fundamental no trânsito de uma cidade de 800.000 habitantes. O número é mil vezes maior que o da vila de Yerba Buena quando ela deixou de pertencer ao México e foi incorporada pelos EUA com o nome do santo italiano São Francisco de Assis, em 1847.

Recarregador de celulares de fazenda urbana (SameSame Photo)

A miscigenação pacífica de americanos, latinos – mexicanos, na maioria – e chineses está tão incorporada à rotina local que muitas placas incluem as três línguas: inglês, espanhol e mandarim. É o caso dos informativos sobre como separar o lixo, visto que a bem-sucedida coleta seletiva da cidade, implementada nos anos 70, obriga os moradores – sob pena de multa – a colocar todos os recicláveis juntos no cesto azul, lixo imprestável no preto e, na lata verde, orgânicos. “Restos de comida e de podas de árvores são transformados em adubo e vendidos a 200 vinícolas”, explica Robert Reed, relações-públicas da Recology, empresa privada que coleta e dá um fim sustentável aos dejetos urbanos. Na pesquisa The Green Index, San Francisco se destacou especialmente por reciclar 77% do seu lixo. Miami só trata 18% e São Paulo cuida de apenas 1%.

Mandatória desde 2010, a compostagem foi bem-aceita. “Passei a criar minhocas em casa para que minhas cascas de legumes e frutas servissem de alimento para elas”, contou Leora Sharone, vendedora que conhecemos no Heart of the City Farmers’ Market, feira de rua que acontece às quartas e aos domingos na frente do City Hall, o prédio da prefeitura (ficam diante dele, por sinal, alguns dos 30 locais públicos para recarregar baterias de carros elétricos como o nosso Nissan Leaf). Em outra tarde, ao visitar a Hayes Valley Farm, uma fazenda urbana, nos deparamos com um grupo de jovens levando em carrinhos de pedreiro galões de lixo repletos de sobras de um restaurante da vizinhança para compostagem. “Acreditamos que podemos ser um exemplo para outros bairros”, explicou um dos 100 voluntários que trabalham semanalmente ali, Jay Rosenberg. A fazendinha faz seu próprio mel, fornece a produção da horta orgânica a pacientes de câncer do hospital local, tem um recarregador de baterias de celular movido a energia solar e se propõe a ensinar os princípios da permacultura, um método de planejamento de assentamentos humanos sustentáveis.

(SameSame Photo)

PATINETE ELÉTRICO

O engajamento para educar os sanfranciscanos é o propulsor também da California Academy of Sciences, no coração do Golden Gate Park. No terraço, chama a atenção o jardim em formato de abóbada, onde janelas circulares permitem a entrada de sol e a circulação de ar. Sob esse cenário lunar fica uma estufa com espécies amazônicas que, por sua vez, está um andar acima de um aquário impressionante. Ali, grupos de crianças podem entrevistar o mergulhador enquanto ele está submerso. Fora da academia, fileiras de pessoas são vistas passeando em segway, aquele patinete elétrico. E a poucas quadras do parque está a portinha colorida do Underdog, onde cachorro-quente não é sinônimo de junk food: as salsichas vêm de gado criado sem rações químicas, e são servidas em pães caseiros frescos com mostarda e ketchup orgânicos.

Se quiser quebrar preconceitos e matar a curiosidade, o Underdog serve bolo gelado de cannabis sativa – sim, a maconha. A pioneira San Francisco liberou o consumo comedido do cigarro da planta para pacientes com receitas médicas apropriadas. Não doentes têm acesso apenas a processados feitos a partir da erva, como roupas, sabonetes e energéticos vendidos legalmente em várias lojas temáticas da Haight Street. Ali, na altura do cruzamento com a Ashbury Street, o antigo reduto hippie abriga mercadinhos naturebas, como o Haight Street Market. Quando o assunto é sustentabilidade, porém, nenhuma mercearia da cidade é mais respeitada que a Rainbow Grocery, nascida em 1975 como uma cooperativa de seguidores vegetarianos do guru indiano Maharaj Ji. Como foi inevitável que a cooperativa abrisse suas gôndolas para industrializados, o guru deixou o negócio. Restaram os 237 donos-funcionários, entre eles Mary Murtagh, uma das pioneiras. “Muita coisa aqui é vendida a granel para minimizar o consumo de embalagens, do arroz à farinha, das ervas aos diferentes tipos de pasta”, diz Mary. Em tempo: San Francisco foi vanguarda também no banimento completo do uso de sacolas plásticas, em 2007.

Entrada de fazenda urbana (SameSame Photo)

TIROLESA SOBRE A FEIRA

Foi outro grupo espiritual da região, o Zen Center, que deu origem ao restaurante Greens, primeiro vegetariano da cidade, aberto em 1979. Bem localizado, em um galpão envidraçado diante da marina de Fort Mason, uma base militar transformada em centro cultural, o estabelecimento até hoje serve os monges budistas com ingredientes produzidos em fazenda própria. A lista de restaurantes verdes, não necessariamente vegetarianos, é vasta. Todos se abastecem com pequenos produtores e cobram preços quase 10% mais caros que os restaurantes comuns. Mas compensa. Recomendo o Bar Jones, ao lado da fazenda Hayes, animado na happy hour; o Neptunes, no Fisherman’s Wharf, que compra peixes de pescadores artesanais; o Farmer Brown, com um brunch regado a soul music ao vivo nos fins de semana; e o chique Millenium, o restaurante do Hotel California, que não é aquele da música, mas vai fazer você sair de lá cantarolando de tão boa que é a comida! Ali, repare na carta de vinhos: S aponta rótulos de produção sustentável, pouco agressiva ao meio ambiente; O indica produção orgânica, sem uso de agrotóxicos; e B é a inicial de biodinâmico, um termo que explica que a casa segue princípios da antroposofia, como rotação de cultivos e plantio conforme as fases da lua.

Você pode planejar bons dias ao ar livre dando uma esticada até vinícolas sustentáveis dos vales de Napa e Sonoma. Se estiver com um carro elétrico como o nosso, não se esqueça de recarregá-lo antes, pois as tomadas elétricas públicas ainda são escassas. Ou renda-se à paixão californiana por programas ao ar livre praticando, durante o verão, a tirolesa da Ziptrek Ecotours sobre a feira de artesanato diante do Ferry Building. Depois, cruze a rua e se perca entre as barraquinhas de frutas, legumes e verduras do Ferry Building Market, que acontece às terças, às quintas e aos sábados. Os vendedores puxam conversa, oferecem delícias para degustação, sempre tem algum maluco com roupa divertida. Foi ali que conhecemos Joseph Minocchi, um produtor de ervas e de flores de Sonoma. “San Francisco pode estar orgulhosa de ser considerada a mais verde da América, mas tem muita coisa para melhorar”, contestou, lembrando que as tecnologias sustentáveis ainda oneram os bolsos dos produtores por ser mais cara. Mas Joseph estava tranquilo por fazer a sua parte. Afinal, é um californiano típico, meio “ripongo”. E sabe o que ele carrega no chapéu toda vez que vem para a feira de San Francisco? Flores.

Dias de majestade

Vestimos as pesadas saias xadrez, ajeitamos as gravatas-borboleta, demos cinco voltas dos cadarços dos sapatos em cada perna, prendemos as facas nas longas meias e amarramos as pochetes na cintura. Faltavam três horas para a partida do trem – programada britanicamente para 13h41 – quando terminamos de experimentar os kilts. Era nossa primeira vez alugando vestimentas tradicionais, e aquele ritual coroava com uma dose de glamour o que vinha pela frente: três dias a bordo do The Royal Scotsman, o expresso de luxo da mítica rede Orient-Express na Escócia. Ostentar os trajes da Kinloch Anderson já era sinônimo de nobreza: a marca existe desde 1868 e provê roupas para a Rainha Elizabeth e o Príncipe Charles. A partir dali, os reis seríamos nós – especialmente no jantar da última noite a bordo, que requeria vestimenta formal. Penduramos os cabides no típico táxi preto e aceleramos para a Edinburgh Waverley Station, onde xícaras de chá inglês nos esperavam na sala vip da estação e um tocador de gaita de fole conduziria a fileira de passageiros para o mais sofisticado trem do Reino Unido.

Daniel Nunes e o fotógrafo Adriano Fagundes na cabine do trem (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

“Welcome, ladies and gentlemen, good morning and thank you”, nos recebeu solenemente o anfitrião, Michael Andrew, no vagão panorâmico, decorado com tons quentes de bordô e dourado. “Aproveitem para observar a paisagem e tomar um drinque enquanto aguardam sua vez de serem levados às habitações.” Degustar os melhores whiskies do planeta justamente ali, no berço deles, era um dos prazeres mais aguardados dessa viagem. Mais de 600 garrafas são consumidas no trem a cada temporada de maio a setembro (não há serviço no inverno), e havia mais de 40 delas à disposição no bar. Das bebidas alcoólicas aos passeios feitos em terra a cada parada, tudo está incluído no preço do pacote: 2.140 libras (cerca de 5.500 reais) por aqueles três dias de passeio de ida e volta entre Edimburgo e as Highlands, as altas montanhas do Norte da Escócia. A Orient-Express opera ainda outras seis rotas, num total de 25 viagens pelo Reino Unido a cada ano, e elas podem durar até uma semana – a maior delas custa para cada passageiro 8.870 libras, ou uns 23 mil reais.

(interior da cabine, fotos de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Começamos por um Glenkinchie 12 anos, leve e com aroma floral. “Gostou desse ou prefere algo mais smoky?”, perguntou o simpático barman Fraser Robson, 21 anos, escocês de Edimburgo. Um dos mais de 60 funcionários escalados para atender aquele grupo seleto de 28 passageiros (embora a capacidade total seja de 36 pessoas), Fraser servia as bebidas de forma segura, enquanto o trem apitava e já entrava em movimento. Sinal de que aproveitou bem o treinamento rigoroso feito ao longo de um mês antes do início da temporada, quando os empregados aprendem detalhes sobre o funcionamento e a história do The Royal Scotsman: embora tenha começado a circular em 1985, o trem tem a maior parte de sua estrutura datada da década de 1960. “Nenhum aprendizado é mais importante do que o de lidar com uma clientela exigente”, contou Fraser. “O trabalho é prazeroso: várias vezes me flagro olhando pelas janelas, admirando paisagens de tirar o fôlego.”

(foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Minutos depois já atravessávamos a cozinha, a biblioteca e os cinco vagões-dormitório daquela centopeia mecânica de 200 metros e corredores estreitos. A compensação viria dentro dos vinte quartos, maiores do que se espera encontrar em um trem. Adriano, meu colega fotógrafo, ficou na cabine M. “M de majestade”, brincou, dando uma piscada de olhos. Eu fui levado ao próximo quarto disponível, o da letra P – “P de príncipe”, retruquei, rindo. “Precisando de algo do nosso serviço de concierge, basta tocar este botão”, disse o simpático francês que carregou nossas malas. Minutos depois eu faria o teste, pedindo que levassem uma camisa para tirar um leve amassado. Revestido de madeira decorada com marchetaria, meu quarto tinha duas camas de solteiro confortáveis diante de dois metros de janela, uma escrivaninha, guarda-roupa com roupões e, no banheiro privado, aquecedor para toalhas. Como se não fosse suficiente, o trem para durante a noite, garantindo melhor sono aos passageiros.

Os maquinistas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

A primeira parada aconteceria na destilaria da Dalwhinnie, a mais alta das 14 destilarias das montanhas de Speyside. As duas doses do final do tour davam continuidade às degustações que terminariam depois do jantar informal daquela primeira noite. No vagão Raven, cujas várias mesas acomodam 20 dos passageiros, nos sentamos à mesa com todos os talheres e taças a que tínhamos direito. À medida que montanhas com picos nevados, lagos e pastagens de ovelhas dançavam na paisagem, éramos apresentados ao menu: salada acompanhada de terrine de legumes com chutney de tomate e azeitonas pretas e filé de halibut com purê de batatas e aspargos – tudo sempre harmonizado com vinhos de primeira linha. A noite só caiu por volta das 23 horas, depois de assistirmos a uma apresentação de música típica escocesa no vagão panorâmico, já com o trem parado diante de um campo de golfe verdinho na estação Boat of Garten. E, claro, depois de mais algumas doses de puro malte.

Quando despertamos para o café da manhã, o trem já estava em movimento para mais um trecho da viagem de 870 quilômetros. Os maquinistas Daniel Forbes, 70 anos, e Jim Waddell, 53, tinham levantado cedo, às 6 horas, para ligar o grande propulsor que impulsiona a locomotiva na velocidade média de 100 quilômetros por hora em uma linha exclusiva, diferente da usada por outros trens. “Motores bons como este, feito em 1957 e ainda na ativa, são um verdadeiro patrimônio”, nos contaria Jim mais tarde. “É um privilégio encerrar nossa carreira neste trem”, emendou seu colega Daniel. “Eu me aposentei, mas continuo aqui por amor ao ofício, com a vantagem de comer boa comida e de conhecer gente amável do mundo todo.” É no fim do dia que essa dupla relaxa e pode também tomar sua dose de whisky. E qual é o melhor destilado escocês? – perguntei. “É aquele que um amigo paga para você”, respondeu gargalhando o velho Jim.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Naquela manhã, os passageiros trocaram o trem por uma van até o Rothiemurchus Estate, em meio a uma floresta de pinheiros do Parque Nacional Cairngorms, onde teriam de optar por qual passeio fazer: caminhar por 3 quilômetros e fazer observação de pássaros, uma paixão dos britânicos; passear por estradas mais distantes em veículos 4×4; praticar clay pigeon shooting, um jogo de tiro que tem como alvos discos de argila lançados ao alto; ou praticar fly-fishing, aquele tipo de pesca com uma vara de linha longa onde são colocadas iscas coloridas que se assemelham a mosquitos. À tarde, depois da volta ao trem em Aviemore (quando fomos recebidos com drinques) e do almoço (bouillabaisse de frutos do mar), a parada foi outra: o campo de batalhas de Culloden. “Aqui aconteceu o último grande conflito em terras britânicas, em 1746, quando morreram mais de 1.200 pessoas em apenas uma hora”, contou o guia e ator Ray Owens, vestido como um highlander.

 

O programa mais esperado da viagem, no entanto, aconteceria naquela segunda noite: o jantar formal. Dessa vez, fomos acomodados na única mesa coletiva do segundo vagão-refeitório, o Victory, construído em 1945. “Sempre usamos os mais frescos ingredientes escoceses, como estes salmões defumados”, contou o jovem chef Ian Steel, 33, escocês que já trabalhou em alguns dos melhores restaurantes de Glasgow e que foi chamado à mesa para ser aplaudido pelos comensais. Para nós, estrangeiros, mais marcante que a excelente comida era a pompa do evento. Como recomendado previamente, todos eram convidados a vestir black tie, tuxedo ou o traje típico escocês – que foi, claro, a nossa preferência.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Nos vestimos com gravata-borboleta, faca na canela, nada por baixo do kilt. O assunto das conversas na grande mesa variou de casamento real a filmes de Bollywood enquanto papeávamos com a família de Harsh Singhania, indiano de Nova Délhi, e com o casal Ian e Deborah Griffiths, britânicos de Londres em lua de mel. O trem parou para o segundo pernoite em Dundee, vizinha de outra destilaria da rota, a Chivas, e todos que terminavam o jantar iam ouvir música ao vivo no vagão panorâmico. Alguns foram dormir logo, já que o Orient-Express terminaria a viagem na estação de Edimburgo às 9h49. Adriano e eu, porém, preferimos curtir mais um pouco nosso dia de lordes. “Mais uma dose?”, perguntou o barman Fraser. O rapaz baixou sobre a mesa uma garrafa de single malt The MacAllan, que passa por processo triplo de destilação. Cheios de pompa, acrescentamos um pouco de água para sentir o aroma, molhamos os lábios, fizemos um brinde. Encerramos nossa noite ali, degustando com aparente maturidade um autêntico whisky 21 anos. E, evidentemente, orgulhosos de nossos saiotes.

INFO: The Royal Scotsman (royalscotsman.com); Kinloch Anderson – Commercial Street/Dock Street, Leith, EH6 6EY, kinlochanderson.com

(SPECIAL THANKS: Orient-Express (orient-express.com)

(Quadro)

Traje típico escocês

Conheça a roupa formal usada por Adriano Fagundes (à esq.) e Daniel Nunes

GRAVATA: Sempre preta, a modelo borboleta é exigida apenas em eventos solenes

COLETE: Com três botões, deve sempre cobrir a camisa branca

PALETÓ: O modelo pequeno, usado aberto, não é o único – existem jaquetas e paletós maiores

KILT: É grande, pesada e com estampas (tartans) que fazem menção a clãs tradicionais

POCHETE: O sporran levava a comida dos highlanders; hoje guarda carteira, celular e chaves

MEIAS: Compridas e pretas, recebem adereços com estampa xadrez que asseguram que estejam sempre altas