Peru em foco na Rádio Vozes

Como é chegar a Machu Picchu por trilhas incas longe dos turistas? A nova série de podcasts do Programa Repórter Viageiro, da Rádio Vozes, tem o Peru como tema e responde a esta pergunta. Em outubro, Daniel Nunes esteve pela quarta vez no país, desta vez para percorrer a Rota de Lares e Vale Sagrado, um caminho de 5 dias com hospedagem nos lodges da grife Mountain Lodges. Os boletins do Repórter Viageiro, que Daniel estreou a convite da radialista Patrícia Palumbo em agosto de 2016 contando os bastidores dos Jogos Olímpicos do Rio, já apresentaram várias partes do planeta. Os ouvintes da rádio digital on-demand seguiram as andanças de Daniel por Tailândia, Vietnã, Nova York, Portugal e Alemanha. Dessa vez, o Peru é destrinchado por meio de sons, experiências e depoimentos de outros viajantes que percorreram a rota – como os participantes do Projeto TerraMundi Creators. Quem quiser acompanhar os boletins pode baixar o app da rádio no celular ou acessar o site.

Reporter_Viajeiro_square_temporario_670

 

Hoi An, no Vietnã, é um templo de charme e delicadeza

Era fim de tarde do meu primeiro dia no Vietnã e decidi fazer aquela caminhada inicial de exploração no entorno do meu hotel, o Anantara, que fica bem ao lado do Centro Histórico. Eu estava em Hoi An, uma cidade colonial tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco mas pouco visitada por brasileiros – que conhecem mais as metrópoles de Hanói e Ho Chi Min (a antiga Saigon) e a fantástica baía de Halong.

 

Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Assim que adentrei as ruas de paralelepípedos da Old Town, a Cidade Antiga, sempre fechadas ao trânsito motorizado, já me senti entrando em uma redoma de paz. Afinal, o enxame de motocicletas que buzinam o tempo todo no Vietnã tinha ficado para trás. Aos poucos me vi cercado por casarões e sobrados preservados de quando aquele era um importante porto do Sudeste Asiático, entre os séculos 15 e 19. Hoje ocupadas por cafés, restaurantes, galerias de arte e lojas, as construções incorporaram nas decorações internas e nas fachadas um costume oriental que se tornou o símbolo de Hoi An: as lanternas coloridas. Bastou a noite ameaçar chegar e as luzes foram sendo acesas uma a uma, enchendo meu caminho de cor e magia.

 

Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

O encantamento de boas-vindas estava só começando e se prolongaria pelos meus cinco dias ali. A começar pela surpresa daquele primeiro entardecer – que não tinha acabado. Quis me perder entrando em uma viela e me deparei com uma cena inesquecível. Do alto da pequena ponte que conecta o bulevar na beira do Rio Thu Bon com o mercado noturno da ilhota vizinha de An Hoi, dezenas de pessoas soltavam na correnteza umas espécies de barquinhos coloridos de papel com velas acesas.

 

Ritual de acender velas em barquinhos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara Hoi An)
Velas em barcos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara)

 

Eu já tinha visto antes algumas fotos daqueles arranjos em forma de flor de lótus flutuando entre os barcos do cais, mas acreditava se tratar de um ritual raro. No dia seguinte, meu guia Nguyen Van Trieu me explicaria: os visitantes têm repetido diariamente a cerimônia de encaminhar desejos a Buda que antes só era feita pelos nativos em datas especiais. Sorte de quem está lá na lua cheia: dizem que o comércio desliga suas luzes para que apenas as velas dos rios sejam o destaque no cenário de sonhos de Hoi An.

 

Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Ninguém diz exatamente quando a tradição teve início. Sabe-se apenas que o comércio fluvial no estuário do Rio Thu Bon data do século 7, quando o império do povo Cham dominava a região. “Hoi An sobreviveu incrivelmente aos muitos conflitos que o Vietnã tem vivido, ao longo da história, com países como China, Japão, França e Estados Unidos”, me contaria o guia Trieu, durante a caminhada histórica pela fascinante Old Town.

 

Ponte japonesa IMG_7758
A Ponte Japonesa, que aniversaria em 2017

 

A parada principal do tour, a Ponte Japonesa, por sinal, comemora 400 anos em 2017. Restrita a pedestres e com um altar a Buda em seu anexo, a ponte um dia dividiu Hoi An em chineses para um lado, japoneses para outro. E até hoje serve de fundo para as pomposas fotos dos casais de noivos da região.

 

Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Desde que Hoi An abriu suas portas ao turismo, nos anos 1990, quando se libertou do embargo imposto pelos Estados Unidos ao país desde a Guerra do Vietnã, antigos inimigos passaram a conviver em harmonia no ambiente cosmopolita de Hoi An.

 

Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Os chineses costumam constatar sua influência cultural nos muitos templos budistas. Japoneses adoram circular e fotografar sentados em algo parecido com um carrinho de bebê para adultos, sempre empurrados pela bicicleta de um vietnamita. Já os franceses se orgulham por terem inspirado a boa mesa em Hoi An. E os americanos são os campeões das encomendas de roupas sob medida nas muitas alfaiatarias da cidade.

 

Detalhe do passeio no barco do Anantara Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Detalhe do passeio no barco do Anantara (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Sete em cada dez habitantes vivem do turismo, conduzindo sempre de forma doce e sorridente os visitantes em passeios de barco (os noturnos são os mais charmosos), nas pedaladas até a praia no Mar do Sul da China (a 5 quilômetros dali, cruzando arrozais) e atendendo em lojas bacanas que vendem de pôsteres originais de inspiração socialista até réplicas dos lendários barcos que ancoraram no mítico porto de Hoi An.

 

Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool  (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Eu fiz e recomendo de tudo um pouco – os passeios, as roupas, a pedalada… E, é claro, o lindo ritual das velas no rio para perpetuar a tradição.

 

Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

SANTUÁRIO DE MY SON: VALE A ESTICADA

Investi um dia da minha estada em Hoi An para uma bela esticada: a visita ao Santuário de My Son. Localizada a 1 hora de Hoi An, My Son consiste em várias ruínas arqueológicas da antiga capital política e espiritual do Império Champa, do povo Cham, que habitou essas montanhas entre os séculos 4 e 13. Com pequenas torres e culto a deuses hindus, elas fazem lembrar a arquitetura de Angkor, os fantásticos templos do vizinho Camboja, e se tornaram outro Patrimônio da Humanidade vietnamita.

 

Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Serviço:

Durma bem

Dúvida crucial na hora de reservar seu hotel: é melhor ficar na cidade ou na praia? Eu optei pelo Anantara Hoi An, coladinho no Centro Histórico, que fica à beira-rio e está a poucos passos das principais atrações de Hoi An.  E amei. Quem preferir o sossego e a brisa à beira-mar pode conferir a nova faceta do The Nam Hai, que em dezembro passou a integrar a seleção dos hotéis da rede Four Seasons.

Hotel Anantara Hoi An: meu abrigo à beira-rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Coma bem

O The Morning Glory (106 Nguyen Thai Hoc St) é um clássico: amplo, mistura especialidades vietnamitas (como o cao lau, uma sopa de noodles com carne de porco) com pratos internacionais. Menor e escondido, o NU Eatary (10A Nguyen Thi Minh Khai St) comporta no máximo 20 pessoas e serve só delícias locais em ambiente caseiro.

Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Para uma experiência ímpar, tome um chá em silêncio no Reaching Out e seja servido pelo simpático staff só de moças surdas-mudas.

Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível
Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível

 

Viaje bem

Não existem voos diretos entre Brasil e Vietnã. A rota mais corriqueira é via Bangkok, na Tailândia, servida por várias companhias aéreas brasileiras. Da capital tailandesa, sim, voa-se, sem escalas em voos de 1h40, à Danang, cidade a 30 quilômetros de Hoi An. A viagem pelo Vietnã pode ser incrementada se incluir Hanoi, Halong Bay e Ho Chi Min.

Comércio local: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Comércio local de roupas: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Código de ética Same Same: o jornalista Daniel Nunes viajou ao Vietnã por sua conta e pagou suas despesas em Hoi An de transporte, alimentação e passeios. A hospedagem no hotel Anantara Hoi An foi uma cortesia.

Lançado livro sobre Rio Amazonas

Queridos amigos, leitores e parceiros, é com alegria que quero convidá-los para o lançamento do livro Dos Andes ao Atlântico – Uma Viagem pelo Rio Amazonas (ArteEnsaio, 208 páginas, R$63,00). Fruto de um trabalho delicioso ao qual me dediquei na maior parte de 2013, ele chega às livrarias nesta quarta-feira, 19 de fevereiro. A sessão de autógrafos acontece na Livraria Cultura do Shopping Iguatemi (Av. Brigadeiro Faria Lima, 2232). Eu e o fotógrafo Adriano Fagundes estaremos recebendo vocês para aquele abraço das 18h30 às 22h. De lá, vamos celebrar no Bar Estônia, subsolo do Ramona, no Centro (Av. São Luís, 282, esquina com Consolação). E com a opção de cair na pistinha de rock clássico do Alberta#3, a balada vizinha. Quem se animar para seguir com a gente na celebração dançante só precisa mandar o nome para daniel@samesame.com.br para que eu possa incluir na lista amiga (R$15,00 de entrada ou R$40,00 de consumação). E aí, vamos comemorar?

 

Convite_SP copy-1

Pedindo votos para ir a Kerala, Índia

Atenção, tripulação: termina na quarta, 15 de janeiro, a votação da #keralablogexpress para eleger os 20 blogueiros de viagem de todo o planeta que farão parte de um expedição por #Kerala, a linda região do sul da Índia. Trata-se de uma bela idéia do Departamento de Turismo de Kerala para incentivar o turismo utilizando a melhor ferramenta de divulgação de destinos da atualidade: os blogs. Seja um cabo eleitoral do Same Same! Clique em http://keralablogexpress.com/user/single_participant/8196 , dê seu voto, compartilhe pelo Facebook e convoque seus amigos a votar também!

Ritual a Pachamama nos Andes

Por estarmos entre as montanhas sagradas dos Andes peruanos em pleno dia do solstício de inverno, data sagrada para quase todos os povos tradicionais do planeta, decidimos não perder a oportunidade. Aceitamos a oferta de subir um dos morros no entorno de Espinar, no entardecer de 21 de junho, para realizar um “pago a la tierra”.

Tratava-se de uma oferenda de gratidão a Pachamama – a mãe Terra, segundo os povos andinos – e seria conduzida por Felix Encia, um autêntico “paco”, como são chamados os xamãs no Peru. Para mim e para meu amigo, o fotógrafo Adriano Fagundes, o ritual parecia auspicioso também para nosso projeto. Aquele seria o trecho inicial do livro sobre o Rio Amazonas, em que temos trabalhado intensamente nos últimos seis meses.

Continuar lendo Ritual a Pachamama nos Andes

A Florianópolis mais natural

Ninguém chega sem ser anunciado ao casebre de seu Miro. Basta se aproximar para que oito cachorros e cinco gansos abram o berreiro num escarcéu danado. “Podem se achegar”, avisa do alto da trilha o senhor de 61 anos, sorriso estampado pela alegria dessas visitas raras. O gaúcho surge de uma casa amarela secular em meio à densa Mata Atlântica. Chimarrão na mão, é um voluntário isolado nesse cafundó no alto do Morro do Ribeirão, de 540 metros, o maior da Ilha de Santa Catarina. Passa dias ali, cuidando da terra, mirando o horizonte da mata com o olhar misterioso típico dos ilhéus, acostumados a ver coisa nenhuma onde o mar encontra o céu. Seu Valmiro dos Santos convida para entrar, espanta uma galinha de cima da pia, observa uma revoada de tucanos-do-bico-verde, puxa prosa. “Mudei para cá para fugir do barulho da cidade”, conta. Forasteiro como tantos em Florianópolis, seu Miro só nessas situações vê gente. Ou quando caminha até o Sertão para beber a pinguinha do seu Acari e olhar o horizonte de algumas das 100 praias da ilha, com o centro e a Ponte Hercílio Luz bem ao fundo. Não parece, mas o tranqüilo paraíso verde onde seu Miro se esconde está bem no meio de uma capital com 300 000 habitantes.

Seu Miro não é o único que vive ilhado dentro de uma ilha. Os 79 moradores do Sertão do Peri também moram afastados, num cenário rural de poucas casas, distantes entre si. Há vários grupos assim, com natureza e cultura preservadas, em Florianópolis, a capital do Estado de Santa Catarina, que ocupa toda a ilha de mesmo nome e um pedaço do continente. Gente que nunca ouviu falar do tenista Gustavo Kuerten, a maior estrela entre os esportistas famosos da cidade. Apesar de ser um grande pólo turístico desde a década de 60, a ilha guardou esses segredos pelo fato de estarem em pontos de difícil acesso. Chegar ao Sertão, só por uma estrada de terra ruim ou pela trilha da Cachoeira do Peri, que parte da Lagoa do Peri, o maior reservatório de água potável da cidade, com 5 km2. Bem diferente das urbanizadas praias de Canasvieiras e Ingleses, que atraem uma multidão de argentinos ao norte da ilha durante o verão, a região do Parque Municipal da Lagoa do Peri é um desses fascinantes redutos quase intocados da ilha.

Esguia, com 53 quilômetros de extensão por 18 de largura, a Ilha de Santa Catarina é um privilegiado ponto do Brasil, onde o urbano convive com os rústicos recantos caipiras e caiçaras, entre praias, montanhas cobertas de Mata Atlântica, mais de dez ilhas, duas grandes lagoas e quilômetros de dunas, restingas e manguezais. Mesmo sendo parte da quarta cidade que mais recebe visitantes no país (são 2 milhões por ano), essa ilha de geografia exuberante é morada de pescadores e artesãs de renda de bilro. “És manezinho da ilha?”, pergunta seu Acari Romalino Siqueira, 43 anos, que cuida do bar do Sertão, falando com os “esses” puxados do típico sotaque português. Manezinho da ilha é como são chamados os florianopolitanos locais. A palavra foi criada pelos colonos alemães que habitavam o interior do Estado no século XVIII para definir os muitos Manuel e Joaquim da colônia de portugueses, vindos dos Açores, que viviam no litoral.

Os manezinhos dispõem de uma invejável qualidade de vida. Podem se dar ao luxo de correr diariamente na Avenida Beira-Mar, similar à Avenida Atlântica da Copacabana carioca, ou escalar a rocha do Morro da Cruz, com 285 metros de altura e uma bela vista aérea. Quem vem de fora pode conhecer um pouco da rotina provinciana e das maravilhas naturais da Ilha de Santa Catarina de carro, beirando todas as praias em dois dias. Ou a pé, como fazem os trekkers e os corredores da maratona Volta à Ilha, percorrendo praias, trilhas na mata, costões e estradas à beira-mar em até uma semana. O lado selvagem, no entanto, só é desbravado por trilhas. A maior parte segue para as praias desertas e vilas pacatas como a de Tapera, no sul. Para evitar que até elas recebam muita gente nos feriados, os moradores fogem mesmo é para o interior. Caminham para as lagoas e rumo a mirantes de onde se vê o contraste dos azuis das lagoas, do mar e do céu. Quanto mais alto o ponto de onde se vê a ilha, mais surpreendente ela parece.

A maior das lagoas, a da Conceição, encravada bem no coração da ilha, torna-se deslumbrante quando avistada do alto das trilhas que levam à Costa da Lagoa, comunidade tão ou mais isolada que o Sertão do Peri. Trata-se de um gigantesco espelho d’água de 20 km2 ligado ao mar por um canal. A trilha que parte do bairro de Ratones permite que se veja o Rio Ratones imperar como o maior da ilha, sustentando o manguezal da Estação Ecológica de Carijós, onde ainda vivem lontras e jacarés-de-papo-amarelo. Em outro caminho para a Costa da Lagoa, partindo da Estrada Geral do Canto das Araçás, cruza-se com engenhos de farinha de mandioca e de cana-de-açúcar, que foram a base da economia desses ilhéus desde a colonização até o início do século. “Os açorianos letrados habitavam o centro à beira-mar, enquanto os analfabetos seguiram para as roças e engenhos do interior”, explica o sociólogo Nereu do Vale Pereira, 71 anos, estudioso da cultura açoriana que cuida do Ecomuseu do Ribeirão da Ilha.

Dois povoados situados no lado oeste, voltado para o continente, carregam de forma mais intensa a influência dos Açores. Tanto Santo Antônio de Lisboa, na Baía Norte, como Ribeirão da Ilha, na Baía Sul, ambos com praias sem ondas, guardam casas e igrejas construídas no estilo português: as paredes são conjugadas, as casas que pertenceram às famílias de posses ainda exibem suas eiras e beiras, do jeitinho que faziam os primeiros 4000 açorianos que aqui chegaram, em 1746. Apesar de ter sido colonizada pela população do arquipélago dos Açores, a Ilha de Santa Catarina tem na sua origem a mesma variedade de povos que se percebe hoje. O primeiro branco que deparou com os habitantes índios da tribo carijó foi o espanhol Juan Dias de Solis, também fundador de Buenos Aires, em 1514. Por volta de 1536, o navegador veneziano Sebastião Caboto deu o nome à ilha – uns dizem que em homenagem à Virgem Martir de Alexandria, outros acreditam que para agradar à sua esposa, Catarina. Só em 1675 o bandeirante português Francisco Dias Velho fundou o povoado de Nossa Senhora do Desterro, que teria seu nome trocado para Florianópolis em 1895, em homenagem ao marechal alagoano Floriano Peixoto, ex-presidente da Primeira República brasileira.

Os estrangeiros continuam por ali. Muitos adoram a pequena enseada da Galheta, freqüentada por naturistas e acessível por trilha desde a Praia Mole. Outros preferem o Costão do Santinho, invadido por um condomínio gigantesco, mas recanto de dunas, belos costões e inscrições dos carijós nas pedras. Os surfistas, porém, vindos de todo o mundo, escolheram as ondas da Joaquina, da Praia Mole e da Armação, todas no mar aberto do leste, como passagem obrigatória. Com poucas casas, elas mantêm a natureza ainda bem preservada: Joaquina tem dunas procuradas por praticantes de surfe na areia, Praia Mole é protegida por montanhas verdes em todos os lados, e grandes rochas negras beiram a Armação. Fora de temporada, quando pertencem apenas aos nativos praticantes de parapente, mountain-bike e escalada em rocha, elas preservam o que se convencionou chamar de “magia” da ilha. Também nascidas nos Açores, as lendas falam de bruxas, destinos cruzados e da estranha energia que convida as pessoas a voltar um dia para suas praias — às vezes para sempre.

A Armação ganhou esse nome por ter sido, desde o século passado até a primeira metade deste, um ponto de aprisionamento e matança de baleias. Até hoje, em todas as primaveras, as baleias franca migram da Antártida para se acasalar, reproduzir e amamentar filhotes no litoral de Santa Catarina. A Armação ainda é um dos melhores pontos para observá-las, além das praias Mole, do Campeche e de Moçambique – esta última é a mais extensa da ilha, com 11,5 quilômetros, dentro do Parque Florestal do Rio Vermelho. Deserta, Moçambique é morada de gaivotões, fragatas e atobás, além de escala de aves migrantes como as batuíras e os gaviões-tesoura. “Cerca de 270 espécies, entre residentes e migratórias, foram registradas aqui”, atesta o biólogo Andrei Roos, 24 anos, que estuda esses pássaros.

Os pingüins também costumam aportar na costa leste. Quando o mar das Malvinas esfria demais, eles sobem para o litoral brasileiro, onde a água é mais quente mesmo no inverno, época em que eles costumam chegar. Vítimas da poluição dos mares, esses animais aportam na ilha com as penas cobertas de óleo despejado por navios. Resultado: as penas endurecem, permitindo que a água gelada entre em pequenos vincos e resfrie seu corpo. “Eles param na areia cansados e com frio, e precisam ser limpos para que possam prosseguir viagem”, afirma o sargento Marcelo Duarte, 26 anos. Ele é um dos homens da Polícia Ambiental do Parque Florestal do Rio Vermelho que desenvolve o trabalho de recuperação de animais machucados ou apreendidos em cativeiro. No ano passado, o grupo do sargento Marcelo resgatou 253 pingüins, cuidou deles e reintroduziu no mar, próximo à Ilha de Xavier, os 171 que sobreviveram.

As ilhas ao redor da grande Ilha de Santa Catarina são um espetáculo à parte, motivo para muitas viagens. A Ilha do Arvoredo ostenta a fama de perfeito ponto para mergulho. Anhatomirim, ao norte, é morada de golfinhos. Ao sul, a Ilha de Moleques do Sul guarda um gigantesco ninhal de atobás e fragatas. Campeche, em frente da praia de mesmo nome, tem a maior quantidade de inscrições rupestres do litoral sulista e uma prainha solitária e convidativa.

Bem diante das ilhas Três Irmãs, no extremo sul da Ilha de Santa Catarina, estão as praias mais cobiçadas e inexploradas. A Lagoinha do Leste, tida como a mais bonita da ilha, é acessível pela vila de pescadores de Pântano do Sul, onde ainda podem ser encontrados lobos-marinhos, ou pelo costão desde a Praia de Matadeiro, ao lado da Armação. Vista do alto da montanha, quando suas areias claras se descortinam depois da subida de uma caminhada, ela parece a mais bela do mundo. Lagoinha fica numa enseada de 1 quilômetro protegida por costões laterais. Não há ninguém morando por perto, e a lagoinha de águas quentes e escuras, formada por um riacho que desce do morro, tem apenas a natureza como companhia.

A série de praias isoladas segue a partir daí, sempre com acesso difícil. De uma estrada de terra que parte de Pântano do Sul chega-se a Solidão, que tem uma cachoeira e uma piscina natural. Desse ponto caminha-se por um dos costões mais entrecortados da ilha até a Praia do Saquinho, onde há uma comunidade de pescadores, com apenas vinte casas, que ainda não têm energia elétrica. Gente que não vê televisão, que não assiste aos jogos do manezinho Gustavo Kuerten.Com 5 quilômetros de extensão e areias brancas, Saquinho é vizinha de Naufragados, um lugar de ondas fortes que em 1753 causaram o afundamento de duas embarcações que traziam 250 açorianos. Apenas 77 náufragos sobreviveram, e parte deles passou a viver ali, no ponto mais ao sul da ilha. Construíram um engenho, adaptaram-se à roça e à pesca e deram início a mais um grupo de manezinhos que viveriam uma relação de amor com a Ilha de Santa Catarina. Até hoje há uma pequena comunidade de ilhéus em Naufragados. Vivem em paz com a natureza, ao som do chorinho do mar e mantendo o hábito de olhar à toa para o horizonte, numa espécie de encantamento que só quem vive em uma ilha como a de Santa Catarina consegue entender.

MATA NATIVA

Maior reservatório de água potável da cidade, a Lagoa do Peri é protegida por um raro trecho da Mata Atlântica primária que resta na ilha: abrigo da cachoeira e morada da isolada comunidade do Sertão do Peri.

DIA DE PESCA

Homens da vila de Pântano do Sul arrastam rede em mais um dia de trabalho: dessa praia de pescadores, um dos poucos lugares onde ainda existem lobos-marinhos, partem trilhas para as praias desertas do sul.

DUNAS AO SOL

Na Praia da Joaquina, montes de areia erguem-se entre o mar e as restingas: ponto preferido pelos surfistas do mar e das dunas quentes.

Para ir mais longe

Florianópolis das 100 Praias, fotos e informações de todo o litoral, feitas pelo professor Nereu do Vale Pereira, Editora Mares do Sul, encontrado no Ecomuseu do Ribeirão da Ilha (tel. 0_ _48/237-8148).

Uma Cidade numa Ilha, relatório sobre os problemas ambientais da Ilha de Santa Catarina, editado pelo Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA).

 

Box:

A bela ameaçada

Por ter uma natureza privilegiada, a Ilha de Santa Catarina é alvo de várias agressões. O inimigo número 1 sempre foi a urbanização, responsável pela construção de condomínios e hotéis nas praias mais paradisíacas, principalmente as do norte. As áreas rosadas do mapa, para se ter uma idéia, representam esses núcleos urbanos. Várias reservas foram criadas nos espaços verdes, mas nem sempre a lei que proíbe construções é respeitada. Como se não bastasse o impacto que causou a implantação de um aterro na Baía Norte, para a construção de uma estrada, também a Baía Sul está sendo aterrada, para que uma rodovia ligue o centro ao aeroporto. Há planos ainda de acentuar a urbanização da Praia do Campeche, construir um autódromo, um campo de golfe e de aumentar o nível da Lagoa do Peri para que ela seja a grande fonte de água potável da ilha. A natureza sofre calada, e o único protesto vem das ONGs ecológicas.

 

GUIA DA TERRA

 

Como chegar

Acessível pela BR-101, Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina, fica a 300 quilômetros de Curitiba e a 476 quilômetros de Porto Alegre. Quem não for de carro pode chegar às praias em ônibus que partem do centro, próximo ao Mercado Público. As trilhas são bem marcadas, mas é sempre bom ter a companhia de alguém da região. O site www.guiafloripa.com.br detalha as catorze principais trilhas, com mapas e link para a página da Recriarte (tel. 0_ _ 48/962-9632), agência de ecoturismo que programa até caminhadas na chuva e durante a noite. Outra agência é a Paz na Terra (tel. 0_ _ 48/222-7075).

Onde ficar

Há mais de sessenta pousadas, a maioria espalhada pelas praias — muitas delas citadas no site acima. Tanto o guia digital www.gdsc.com.br como a Secretaria de Turismo (0_ _ 48/244-5822) dão informações turísticas. Para conhecer a cultura açoriana, melhor se hospedar em Santo Antônio de Lisboa (foto) ou no Ribeirão da Ilha. A Pousada Caminho dos Açores (tel. 0_ _48/235-1363) é uma boa sugestão em Santo Antônio de Lisboa, enquanto no Ribeirão a Pousada e Restaurante do Museu (tel. 0_ _ 48/237-8148) se destaca por servir pratos típicos e ficar junto ao Ecomuseu. Na beira da Lagoa da Conceição, existem os charmosos Chalés Tranquilli (0_ _48/232-6311) e os Chalés do Canto (0_ _48/232-0471). Na Lagoa do Peri, destaca-se a agradável Pousada Alémdomar (0_ _48/237-5600). Há vários campings e dois Albergues da Juventude, na Praia de Canasvieiras e no Centro (res. tel. 0_ _ 11/258-0388).

Quando ir

Abril e maio são os melhores meses, pois quase não chove e as trilhas estão floridas. As praias ficam mais quentes entre dezembro e março, mas também mais cheias, principalmente no Carnaval. Evite os meses de agosto e setembro: chove demais. É em setembro, no entanto, que as baleias franca costumam aparecer.

Dica do autor

“Quando estiver em Pântano do Sul, de onde parte a trilha para a Lagoinha, aproveite para experimentar a comida do Arante Bar. O restaurante fica de frente para os barquinhos de pesca da praia, e serve pratos do mar incríveis.”

Daniel Nunes Gonçalves

Dias de majestade

Vestimos as pesadas saias xadrez, ajeitamos as gravatas-borboleta, demos cinco voltas dos cadarços dos sapatos em cada perna, prendemos as facas nas longas meias e amarramos as pochetes na cintura. Faltavam três horas para a partida do trem – programada britanicamente para 13h41 – quando terminamos de experimentar os kilts. Era nossa primeira vez alugando vestimentas tradicionais, e aquele ritual coroava com uma dose de glamour o que vinha pela frente: três dias a bordo do The Royal Scotsman, o expresso de luxo da mítica rede Orient-Express na Escócia. Ostentar os trajes da Kinloch Anderson já era sinônimo de nobreza: a marca existe desde 1868 e provê roupas para a Rainha Elizabeth e o Príncipe Charles. A partir dali, os reis seríamos nós – especialmente no jantar da última noite a bordo, que requeria vestimenta formal. Penduramos os cabides no típico táxi preto e aceleramos para a Edinburgh Waverley Station, onde xícaras de chá inglês nos esperavam na sala vip da estação e um tocador de gaita de fole conduziria a fileira de passageiros para o mais sofisticado trem do Reino Unido.

Daniel Nunes e o fotógrafo Adriano Fagundes na cabine do trem (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

“Welcome, ladies and gentlemen, good morning and thank you”, nos recebeu solenemente o anfitrião, Michael Andrew, no vagão panorâmico, decorado com tons quentes de bordô e dourado. “Aproveitem para observar a paisagem e tomar um drinque enquanto aguardam sua vez de serem levados às habitações.” Degustar os melhores whiskies do planeta justamente ali, no berço deles, era um dos prazeres mais aguardados dessa viagem. Mais de 600 garrafas são consumidas no trem a cada temporada de maio a setembro (não há serviço no inverno), e havia mais de 40 delas à disposição no bar. Das bebidas alcoólicas aos passeios feitos em terra a cada parada, tudo está incluído no preço do pacote: 2.140 libras (cerca de 5.500 reais) por aqueles três dias de passeio de ida e volta entre Edimburgo e as Highlands, as altas montanhas do Norte da Escócia. A Orient-Express opera ainda outras seis rotas, num total de 25 viagens pelo Reino Unido a cada ano, e elas podem durar até uma semana – a maior delas custa para cada passageiro 8.870 libras, ou uns 23 mil reais.

(interior da cabine, fotos de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Começamos por um Glenkinchie 12 anos, leve e com aroma floral. “Gostou desse ou prefere algo mais smoky?”, perguntou o simpático barman Fraser Robson, 21 anos, escocês de Edimburgo. Um dos mais de 60 funcionários escalados para atender aquele grupo seleto de 28 passageiros (embora a capacidade total seja de 36 pessoas), Fraser servia as bebidas de forma segura, enquanto o trem apitava e já entrava em movimento. Sinal de que aproveitou bem o treinamento rigoroso feito ao longo de um mês antes do início da temporada, quando os empregados aprendem detalhes sobre o funcionamento e a história do The Royal Scotsman: embora tenha começado a circular em 1985, o trem tem a maior parte de sua estrutura datada da década de 1960. “Nenhum aprendizado é mais importante do que o de lidar com uma clientela exigente”, contou Fraser. “O trabalho é prazeroso: várias vezes me flagro olhando pelas janelas, admirando paisagens de tirar o fôlego.”

(foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Minutos depois já atravessávamos a cozinha, a biblioteca e os cinco vagões-dormitório daquela centopeia mecânica de 200 metros e corredores estreitos. A compensação viria dentro dos vinte quartos, maiores do que se espera encontrar em um trem. Adriano, meu colega fotógrafo, ficou na cabine M. “M de majestade”, brincou, dando uma piscada de olhos. Eu fui levado ao próximo quarto disponível, o da letra P – “P de príncipe”, retruquei, rindo. “Precisando de algo do nosso serviço de concierge, basta tocar este botão”, disse o simpático francês que carregou nossas malas. Minutos depois eu faria o teste, pedindo que levassem uma camisa para tirar um leve amassado. Revestido de madeira decorada com marchetaria, meu quarto tinha duas camas de solteiro confortáveis diante de dois metros de janela, uma escrivaninha, guarda-roupa com roupões e, no banheiro privado, aquecedor para toalhas. Como se não fosse suficiente, o trem para durante a noite, garantindo melhor sono aos passageiros.

Os maquinistas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

A primeira parada aconteceria na destilaria da Dalwhinnie, a mais alta das 14 destilarias das montanhas de Speyside. As duas doses do final do tour davam continuidade às degustações que terminariam depois do jantar informal daquela primeira noite. No vagão Raven, cujas várias mesas acomodam 20 dos passageiros, nos sentamos à mesa com todos os talheres e taças a que tínhamos direito. À medida que montanhas com picos nevados, lagos e pastagens de ovelhas dançavam na paisagem, éramos apresentados ao menu: salada acompanhada de terrine de legumes com chutney de tomate e azeitonas pretas e filé de halibut com purê de batatas e aspargos – tudo sempre harmonizado com vinhos de primeira linha. A noite só caiu por volta das 23 horas, depois de assistirmos a uma apresentação de música típica escocesa no vagão panorâmico, já com o trem parado diante de um campo de golfe verdinho na estação Boat of Garten. E, claro, depois de mais algumas doses de puro malte.

Quando despertamos para o café da manhã, o trem já estava em movimento para mais um trecho da viagem de 870 quilômetros. Os maquinistas Daniel Forbes, 70 anos, e Jim Waddell, 53, tinham levantado cedo, às 6 horas, para ligar o grande propulsor que impulsiona a locomotiva na velocidade média de 100 quilômetros por hora em uma linha exclusiva, diferente da usada por outros trens. “Motores bons como este, feito em 1957 e ainda na ativa, são um verdadeiro patrimônio”, nos contaria Jim mais tarde. “É um privilégio encerrar nossa carreira neste trem”, emendou seu colega Daniel. “Eu me aposentei, mas continuo aqui por amor ao ofício, com a vantagem de comer boa comida e de conhecer gente amável do mundo todo.” É no fim do dia que essa dupla relaxa e pode também tomar sua dose de whisky. E qual é o melhor destilado escocês? – perguntei. “É aquele que um amigo paga para você”, respondeu gargalhando o velho Jim.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Naquela manhã, os passageiros trocaram o trem por uma van até o Rothiemurchus Estate, em meio a uma floresta de pinheiros do Parque Nacional Cairngorms, onde teriam de optar por qual passeio fazer: caminhar por 3 quilômetros e fazer observação de pássaros, uma paixão dos britânicos; passear por estradas mais distantes em veículos 4×4; praticar clay pigeon shooting, um jogo de tiro que tem como alvos discos de argila lançados ao alto; ou praticar fly-fishing, aquele tipo de pesca com uma vara de linha longa onde são colocadas iscas coloridas que se assemelham a mosquitos. À tarde, depois da volta ao trem em Aviemore (quando fomos recebidos com drinques) e do almoço (bouillabaisse de frutos do mar), a parada foi outra: o campo de batalhas de Culloden. “Aqui aconteceu o último grande conflito em terras britânicas, em 1746, quando morreram mais de 1.200 pessoas em apenas uma hora”, contou o guia e ator Ray Owens, vestido como um highlander.

 

O programa mais esperado da viagem, no entanto, aconteceria naquela segunda noite: o jantar formal. Dessa vez, fomos acomodados na única mesa coletiva do segundo vagão-refeitório, o Victory, construído em 1945. “Sempre usamos os mais frescos ingredientes escoceses, como estes salmões defumados”, contou o jovem chef Ian Steel, 33, escocês que já trabalhou em alguns dos melhores restaurantes de Glasgow e que foi chamado à mesa para ser aplaudido pelos comensais. Para nós, estrangeiros, mais marcante que a excelente comida era a pompa do evento. Como recomendado previamente, todos eram convidados a vestir black tie, tuxedo ou o traje típico escocês – que foi, claro, a nossa preferência.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Nos vestimos com gravata-borboleta, faca na canela, nada por baixo do kilt. O assunto das conversas na grande mesa variou de casamento real a filmes de Bollywood enquanto papeávamos com a família de Harsh Singhania, indiano de Nova Délhi, e com o casal Ian e Deborah Griffiths, britânicos de Londres em lua de mel. O trem parou para o segundo pernoite em Dundee, vizinha de outra destilaria da rota, a Chivas, e todos que terminavam o jantar iam ouvir música ao vivo no vagão panorâmico. Alguns foram dormir logo, já que o Orient-Express terminaria a viagem na estação de Edimburgo às 9h49. Adriano e eu, porém, preferimos curtir mais um pouco nosso dia de lordes. “Mais uma dose?”, perguntou o barman Fraser. O rapaz baixou sobre a mesa uma garrafa de single malt The MacAllan, que passa por processo triplo de destilação. Cheios de pompa, acrescentamos um pouco de água para sentir o aroma, molhamos os lábios, fizemos um brinde. Encerramos nossa noite ali, degustando com aparente maturidade um autêntico whisky 21 anos. E, evidentemente, orgulhosos de nossos saiotes.

INFO: The Royal Scotsman (royalscotsman.com); Kinloch Anderson – Commercial Street/Dock Street, Leith, EH6 6EY, kinlochanderson.com

(SPECIAL THANKS: Orient-Express (orient-express.com)

(Quadro)

Traje típico escocês

Conheça a roupa formal usada por Adriano Fagundes (à esq.) e Daniel Nunes

GRAVATA: Sempre preta, a modelo borboleta é exigida apenas em eventos solenes

COLETE: Com três botões, deve sempre cobrir a camisa branca

PALETÓ: O modelo pequeno, usado aberto, não é o único – existem jaquetas e paletós maiores

KILT: É grande, pesada e com estampas (tartans) que fazem menção a clãs tradicionais

POCHETE: O sporran levava a comida dos highlanders; hoje guarda carteira, celular e chaves

MEIAS: Compridas e pretas, recebem adereços com estampa xadrez que asseguram que estejam sempre altas