Navegando em um barco de arroz por Kerala

Passados 9 dos 17 dias da expedição de travelbloggers do #KeralaBlogExpress, promovida pelo #KeralaTourism, já passamos pelas lindas praias de pescadores de Poovar e pelos abismos do litoral de Varkala; fizemos birdwatching pelo santuário de pássaros de Kumarakon e tentativa de tigerwatching na Periyar Tiger Reserve; e conseguimos avistar elefantes (com filhotes!), bisões, um veado e um javali no safári de barco pela região de Thekkady. Mas o passeio mais diferente – e agradável – até agora foi o do 5o e 6o dias: um minicruzeiro em um antigo barco de transporte de arroz.

 

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O hoje famoso passeio de houseboat pelas backwaters de Kerala surgiu nos anos 1990. Antes, estes barcos longos com proa em forma de cobra e belos telhados de palha trançada eram usados basicamente para o transporte do arroz produzido no interior de Kerala. Com o desenvolvimento do transporte rodoviário, o deslocamento dessa carga passou a ser amplamente feito por terra, quase exterminando um ganha-pão importante na região. Sem dinheiro até para ter uma casa, vários trabalhadores passaram a habitar as embarcações. Até que alguém teve a ideia de transformar seus barcos-casas em hospedarias turísticas.

 

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Deu certo. Hoje, mais de 800 houseboats circulam pelos canais do Lago Vembanad com viajantes interessados em observar os vilarejos, plantações de arroz, escolas e igrejas ribeirinhas. Nosso passeio partiu de Kumarakon, mesma base  de nossa hospedagem mais fina até agora (pernoitei no Coconut Lagoon, mas outros integrante do grupo dormiram no The Zuri e no Kumarakon Lake Resort  – este último, famoso por ter hospedado o Príncipe Charles e a esposa Camilla Parker-Bowles recentemente). Como tanto os barcos da Lakes e Lagoons, que nos recebeu, quanto os do Rainbow Cruises, que abrigou o restante do grupo, têm entre dois e quatro quartos, acabamos pegando um de três quartos para a Gaía, o Oscar e eu.

 

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Os quatro tripulantes nos receberam superbem, ainda que não entendessem quase nada do nosso inglês (e nem nós entendíamos o que eles tentavam dizer). Conseguimos decorar apenas o nome do de menor patente entre os quatro, o Mobil (bastava lembrar do nome do óleo….) e nos comunicamos ao melhor estilo indiano, com sorrisos, olhares e mexidinhas de cabeça (sendo que o “sim”, aqui na Índia, é dito mexendo a cabeça como em uma balança, aproximando a orelha e o ombro pra um lado e depois para o outro). Como neste país ninguém tem o hábito de falar “bom dia”, “por favor”, “desculpa” e “obrigado”, como no Ocidente, nossos sorrisos e movimentos de cabeça foram suficientes para esses dois dias.

 

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O capitão “X” topou hastear na proa a bandeirinha do Brasil que sempre levo comigo e o português virou a língua oficial do barco (algo bem relaxante depois de dias mudando a chave interna do cérebro pra se comunicar em várias línguas com colegas de 14 países). Minha caixinha de som portátil passou a tocar, pelo computador, de Caetano a Comadre Fulozinha (a banda anterior da Karina Buhr) enquanto tomávamos as três garrafas de vinho indiano depois do entardecer.  Batizamos nosso houseboat de The Brazilian Pirates Boat, apelido amplamente difundido no grupo dos travelbloggers no WhatsApp – que virou a principal ferramenta de comunicação da galera, com 140 mensagens em uma única noite (fiquei sem checar por um tempo e foi esse o número de recados que perdi…).

 

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A brisa do barco em movimento deixou a experiência ainda mais gostosa, em meio a uma paisagem que misturava as curiosas redes de pesca de estilo chinês, adotadas há séculos por aqui, com os carregadores de sacas de arroz, enchendo barcos e caminhões nas margens. Vimos espécies de van escolares aquáticas lotadas de crianças uniformizadas e que faziam festa ao nos ver. As igrejas católicas mais uma vez se mostravam com arquitetura ousada e decoração psicodélica (com luzinhas piscantes coloridas, por exemplo), inspiradas evidentemente no politeísmo original indiano.

 

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Nossas instalações eram simples mas confortáveis, embora outros colegas tenham tido mais sorte e se hospedaram em barcos refinados, alguns com dois andares. A parte dianteira, logo atrás do manche do comandante, era a do nosso convívio social, com cadeiras fofinhas e uma espécie de sofá-lounge onde ficamos esparramados conversando, vendo a paisagem, atualizando nossas redes sociais (nossos celulares todos ganharam chips locais para facilitar a comunicação). Servidas ali mesmo em uma mesa ampla, as refeições – almoço, jantar e café da manhã – também foram saborosas, com peixe fresco, curry, arroz, frutas….

 

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O ponto alto do dia foi o pôr-do-sol. Ancoramos, vários dos barcos da expedição, colados um ao outro, e começou um entra-e-sai pra visitar as casas flutuantes da vizinhança. Depois de beber, jantar e dar até uma aula fajuta de samba-no-pé pra Roxane, blogueira indiana vizinha, fomos dormir. Eu viria a sofrer com o ar-condicionado gelado (não achei o controle remoto e tive que escancarar a porta do quarto para minimizar o frio). Mas antes disso eu tinha curtido tanto ficar deitado na proa, olhando o mar de estrelas, que o frio do resto da noite virou um detalhe pouco importante no contexto.

 

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Na verdade, só não dormi na proa porque o espaço da frente, que tinha sido o nosso lounge durante o dia, se transforma no dormitório ao ar livre da tripulação durante a noite. Não dava nem pra reclamar. Embora os barcos de arroz tivessem sido nossas inesquecíveis casas por um dia, eles são na verdade o lar-doce-lar da tripulação, formada por ex-produtores de arroz. Eles, sim, são os verdadeiros moradores das fascinantes backwaters de Kerala.

 

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Código de Ética SS:

Viajei a convite do Kerala Tourism após ficar em 23o lugar entre os bloggers de viagem mais votados do mundo (entre 600 inscritos) no concurso Kerala Blog Express. Os destinos, hotéis e restaurantes ofereceram seus serviços de graça.

Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines (www.ethiopianairlines.com), recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas entre São Paulo e Mumbai, via Addis Ababa, na Etiópia.

 

Kerala é uma doce “India for beginners”

Gente demais, sujeira demais, barulho demais, assédio demais, informação demais. Se você tem o desejo de conhecer a Índia mas tem receio de se incomodar com essa dura realidade do país, comece por Kerala.

 

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Meu segundo, terceiro e quarto dias estreando nesta tripa de terra que se alonga pelo sudoeste indiano chamada Kerala foram suficientes para eu ter uma primeira impressão radicalmente diferente daquele que experimentei dez anos atrás. Aqui a Índia te recebe sorrindo. O clima de praia deixa todo mundo zen. As pessoas te cumprimentam simpaticamente nas ruas sem querer nada em troca. O excesso de informação visual está aqui como em todo o resto do país – são muitos templos, tuc-tucs, pessoas de testa pintada vestindo roupas coloridas –, mas sem aquela sensação de overdose comum especialmente nas metrópoles do centro e do norte.

 

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Em 2004, Nova Dehli me recebeu com o trânsito mais assustadoramente caótico e barulhento da minha vida (eu ainda não tinha conhecido o Cairo). As ruas eram abarrotadas de lixo, turistas com cara de gringo como eu eram objeto de todo tipo de assédio. Ao final de quase dois meses explorando o Norte (Agra, Varanasi e cidades do Rajastão), terminei a trip em Mumbai (depois de dar um pulo em Goa e no Nepal) incomodado com os mendigos que puxavam meu braço pedindo esmola e os travestis implorando por comida porque são párias excluídos da sociedade.

 

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O lixo e as buzinas também existem nos lugares onde passei até agora, as cidades de Trivandrum, Kovalam, Varkala, Kollam e Kumarakon. Mas a beleza do cenário e o ambiente relaxado fazem o estrangeiro se acostumar com isso rapidamente. Há boas razões para eles serem tão agradáveis. Estamos no estado mais bem-educado do país: 93% dos habitantes sabem ler e escrever. O fato de ter se desenvolvido em meio a mercadores de especiarias e de marfim vindos de toda parte – chineses, árabes, romanos, portugueses… – há mais de 3.000 anos a deixou cosmopolita, acostumada com as diferenças, e pacífica. “No norte, o histórico deixou as pessoas mais duras”, me explicou o sábio Anil Kumar, gerente do Coconot Lagoon, um  rústico (e delicioso) hotel quatro estrelas à beira do rios de Kumarakon. O jantar com ele ontem foi uma aula de história e cultura indianas. E o hotel tem encantadores bangalôs de madeira (com banheiro ao ar livre, sem teto!) diante do lindo lago Vembanad.

 

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Ontem passamos a tarde passeando de barco pelos canais de Kumarakon, vendo a singela vida dos ribeirinhos e conhecendo lindas experiências de turismo comunitário que sustentam 7000 pessoas no estado. Daqui a pouco sigo para mais uma massagem ayurvédica – não vejo a hora – e passaremos a próxima noite embarcados em um dos luxuosos “boat houses” pelas backhouses.

Se eu fosse vocês, não perderia o próximo post.

 

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Código de Ética SS:

Viajei a convite do Kerala Tourism após ficar em 23o lugar entre os bloggers de viagem mais votados do mundo (entre 600 inscritos) no concurso Kerala Blog Express. Os destinos, hotéis e restaurantes ofereceram seus serviços de graça.

Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines (www.ethiopianairlines.com), recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas entre São Paulo e Mumbai, via Addis Ababa, na Etiópia.