No Egito aprendi

Salamaleikum. Foi assim, desejando algo como “que a paz  esteja com você”, que aprendi a cumprimentar as pessoas no Egito. Ashraf e Amr, que eu tive a sorte de ter como anfitriões por 10 dias, me ensinaram também a não cruzar as pernas para jamais virar a sola do calçado na direção de alguém, algo considerado ofensa grave nos países árabes. Tanto é que os faraós, ancestrais desse povo milenar, eram frequentemente desenhados ou esculpidos com os pés sobre seus inimigos, como vimos no fantástico Museu do Egito, no Cairo. O prédio fica ali à beira da Praça Tahir, ainda enfeiada com um tanque de guerra aqui e um prédio queimado ali, mas lindamente grafitada com registros dramáticos das duas revoluções que o país viveu desde 2011. Ao ser um dos primeiros da região a florescer para a primavera árabe, o povo egípcio deu um exemplo de coragem ao mundo, ainda que esteja até hoje pagando o alto preço da crise econômica deflagrada pela deposição de dois presidentes em dois anos. Na Praça Tahir eu repeti a tradição de ser cliente de uma barbearia tradicional, entendi por que o enervante trânsito do Cairo merece – mesmo – o título de pior do planeta e fiquei admirado com os grafittis que contam a história recente do país.

 

Esfinge

 

No Egito entendi um pouco do significado de pirâmides, esfinges, esculturas, sarcófagos, múmias e sítios arqueológicos espetaculares que registram a história que a humanidade viveu no Vale do Nilo 10.000 anos antes que chegasse à Terra um sujeito chamado de Jesus, o Cristo – que, só aprendi agora também, é um dos profetas respeitados pelos islamismo, religião de 90% do país. Como recomenda a tradição de Maomé, reza-se virado para Meca cinco vezes ao dia. Muitas mulheres ainda vestem véus, têm de andar sempre atrás dos homens e aceitam resignadamente que seus maridos tenham outras esposas. Até os homens se orgulham de casar virgens, cumprimentam outros machos com três beijinhos, caminham de braços dados com os amigos (embora gays não sejam tolerados e tenham de fazer tudo bem escondido). Curioso foi ver que, na balada, ninguém toma álcool, mas cigarro ainda fuma-se em todo canto – de restaurantes a quartos de hotel –, sendo a shisha (ou narguilé) a paixão nacional que esfumaça cada café ou casa de chá (os de hibisco e de menta viraram os meus preferidos).

 

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Foi ao realizar o sonho de conhecer o Egito que eu tive um sonho lindo, desses pra levar à sessão de terapia junguiana, que me remeteu à um lugar tão antigo do meu inconsciente quanto aquela terra ancestral que eu respirava. No misterioso universo onírico eu chorava em gratidão ao Rio Nilo, o grande berço da vida na África, por sinal o continente onde nasceu o ser humano como conhecemos. Ao acordar, naveguei por suas águas azuis e montei um camelo por boas léguas às suas margens. Ainda em Aswan, agora minha cidade egípcia favorita, fui bem recebido numa autêntica aldeia núbia ribeirinha. Fazendo do êxtase rotina, lavei boca, rosto, ouvidos, braços e pés quando fui convidado a bater cabeça pra Alá à beira do rei – ops, rio – Nilo, e diante do fantástico templo da Deusa Ísis, o Philae. Ganhei as benção do sol nascente voando de balão sobre Luxor, me perdi entre as colunas de Karnak no poente, invadi a tumba de Tutankâmon, Ramsés II e outras múmias do Vale dos Reis. Sofri a maldição de Quéops quando praguejei contra os ambulantes de Gizé e vi a câmera ir ao chão. Pisei na terra onde Cleópatra, aquela danada, encerrou as dinastias dos faraós, e na beira do Mediterrâneo me deslumbrei com o que virou a biblioteca de Alexandria: um efervescente pólo de conhecimento da consciente juventude egípcia.

 

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Ajudei a festejar dois casamentos. Me refestelei de comer – com as mãos, claro – tahinis, babaganuches e doces árabes. Visitei mercados de rua, restaurantes, centros culturais e galerias de arte que alimentam a alma cosmopolita do Cairo, aquele caos urbano tão populoso e fascinante quanto minha São Paulo natal. E o que foi o concerto na Ópera House? Mais êxtase. As belas mesquita e sinagoga do Centro que me entendam, mas, com todo respeito à diversidade, nada foi mais marcante para um cristão abençoado na pia batismal que visitar a capela onde Jesus, Maria e José se esconderam quando Herodes matava criancinhas, 2013 anos atrás. Lembrei de minha mãe, de meus irmãos, avós, tias e padrinhos. Antes que as saudades incomodassem, o Egito já tinha me premiado com uma família. Como se não bastasse ter sido tratado como um faraó em alguns dos melhores hotéis nesses anos de andarilho (até uma sensacional massagem núbia ganhei), fui brindado com uma despedida de rei no banquete oferecido pela família do Senhor Nabil, um dos homens mais generosos e inspiradores que conheci, ao meu grupo de gentes boas, formado também pelos queridos Enzo, Juliana e Beth. Na hora do adeus, não teve jeito. Lágrimas vieram dizer tchau ao Ashraf e ao Amr enquanto eu repetia a palavra mais importante do dicionário que me eles ensinaram às margens do Nilo, a de gratidão: Shukran, Egito. Um dia eu volto.

 

 

Praça Tahir, o coração da Primavera Árabe

Há algo de fascinante do desleixo com que são exibidas as 12.000 peças do Museu do Egito, meu primeiro programa na cidade do Cairo – onde pisei na quarta-feira, 11 de dezembro de 2013. Qualquer mortal pode chegar a um centímetro de praticamente qualquer obra, até mesmo cheirar e tocar sarcófagos e estátuas originais de milhares de anos antes de Cristo. Há no máximo um vidro cheio de marcas de dedos protegendo peças mal iluminadas e identificadas apenas por um pedaço de sulfite carcomido. Algo que deve dar urticária nos museólogos que cuidam tão bem das peças-irmãs exibidas no Louvre ou no British Museum. Mas as autoridades egípcias parecem não se importar, acostumadas que estão a conviver com maravilhas arqueológicas tão resistentes ao tempo e fartas (só o acervo permanente tem 150.000 peças). E não há melhor momento para mergulhar na cultura desse país tão importante para a humanidade: como os turistas escassearam desde a eclosão da chamada Primavera Árabe no Egito, em 2011, os viajantes não enfrentam filas e os preços estão ainda mais baratos que antes.

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