Cultura maori é uma boa surpresa da Nova Zelândia

Nariz com nariz. Não estranhe se você pousar na Nova Zelândia e se deparar com gente se cumprimentando assim.

 

Hongi nose to nose maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este é o hongi, tradicional saudação dos maori, primeiros habitantes da ilha. Eles acreditam que o homem, Deus e a natureza são uma coisa só, e sentir a respiração do outro é uma forma de comungar o sopro sagrado da vida. Depois de ter sido rechaçada em meados do século 20, a cultura maori está em voga. Não só entre seus descendentes de sangue, muitos com lindas tatuagens tribais pelo corpo – às vezes, até no rosto dos homens e no queixo das mulheres, como reza o costume secular.

 

Lago aérea Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O resgate do orgulho maori tem contagiado também os brancos cujos antepassados são os europeus, em especial os britânicos, que colonizaram o país. A língua maori voltou a ser ensinada nas escolas, pelo menos duas grandes exposições sobre sua arte estão rodando o mundo – uma delas chega ao Brasil em outubro – e até sua dança cerimonial, a haka, ganha mais e mais adeptos desde que passou a ser popularizada pelo poderoso time de rúgbi local, o All Blacks.

 

DSC03019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jovem, o último país a ser povoado no planeta tem o respeito à natureza e o fascínio pela aventura no DNA. Ali nasceu Sir Edmund Hillary, primeiro homem a escalar o Everest, em 1953. As paisagens do país sediaram o primeiro bungee jump do planeta, em 1988. E a fascinante diversidade natural neozelandesa seduziu o mundo, nos últimos 15 anos, com as trilogias de O Senhor dos Anéis e O Hobbit. A terra sagrada dos maori respira vida.

 

Road Trip New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrada pela ilha Norte
(ou Ao Norte, o mar)

É na ilha Norte, a mesma onde chegaram os primeiros desbravadores polinésios no século 13, que desembarcam os viajantes do século 21 dispostos a explorar a enorme variedade de ecossistemas desse pequeno território da Oceania.

 

Aérea de Bay of Islands
Bay of Islands, vista durante sobrevoo pelas ilhas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Auckland, maior cidade do país, tem 1,5 milhão de habitantes e traduz bem a faceta contemporânea tanto da porção Norte quanto da ilha Sul. Ao mesmo tempo em que seu centro cosmopolita à beira-mar esbanja soluções urbanas criativas e sustentáveis, pode-se ver ali as seculares danças maori apresentadas no Auckland Museum (o mesmo que guarda o diário de bordo de Sir Hillary no Everest).

 

Águas verdes Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O espetáculo cultural se mostra mais completo para quem dirige por 3 horas ao extremo da ilha Norte e visita o Waitangi Treaty Grounds. Localizado onde a sucessão de ilhas de Bay of Islands leva ao delírio mergulhadores e amantes de praias de sonho, Waitangi é o principal sítio histórico da nação. Em 1840, 540 líderes maori assinaram ali o primeiro acordo com os colonizadores ingleses – e que lhes garantia, entre outras coisas, a posse da terra.

 

carranca maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa e outras histórias são contadas por meio de música, de canto e da haka – a dança maori – diante de uma casa cerimonial. Também em exposição está uma waka, canoa de guerra com 35 metros e que precisa de 76 remadores para entrar na água. Os maori sempre guiaram sua navegação pelas estrelas, e há apenas dois anos empreenderam uma expedição, a Waka Tapu, navegando sem instrumentos da Nova Zelândia à Ilha de Páscoa.

aucklandmuseum.com
waitangi.org.nz
wakatapu.com

 

performance maori waitangi
Performance Maori em Waitangi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coração cultural
(ou No centro, o fogo)

Seja de barco ou de helicóptero, dá um frio na barriga se aproximar da fumaceira expelida do vulcão da White Island, embranquecendo o céu sobre o azul do Pacífico.

 

 

White Island visto de longe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bolhas de lama cinza-chumbo fervem no chão, o cheiro ruim impera, o enxofre amarelo colore o chão laranja à beira da cratera de águas verdes.

 

Vulcão borbulhante White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mais ativo dos cerca de 60 vulcões do país pode ser acessado a partir de Rotorua, cidade 3 horas de carro ao sul de Auckland.

 

helicopt White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Famosa por seus spas com poços de águas termais, Rotorua é lar de boa parte dos quase 600 mil maoris do país, que correspondem a 15% da população.

 

Te Puia geral
Gêiseres no Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cidade fica no vale geotermal de Whakarewarewa, bem em cima do chamado Anel de Fogo do Pacífico, e sempre impressionou por seus gêiseres. O famoso Pohutu, que jorra a 30 metros de altura 20 vezes por dia, é a estrela do Centro Cultural Te Puia, espécie de QG maori onde funciona sua escola de escultura em madeira e tecelagem, além de uma bela loja de artesanato.

 

Artesão maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os maori demonstraram uma imensa capacidade de adaptação nesses 700 anos e nunca pararam no tempo. O canibalismo e o poligamia viraram coisa do passado. “Temos representantes no parlamento, canal de tv, estações de rádio”, diz Karl Johnstone, diretor do Maori Arts and Crafts Institute (MACI).

 

Casa maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não somos uma cultura ancestral, mas sim um legado vivo”. Antenados nas tendências, sabem explorar seu potencial turístico. Quem visita o Te Puia degusta a comida típica (frango, legumes) cozida em caixas de alumínio dentro daqueles caldeirões naturais ferventes. Uma experiência gastronômica sem igual.

tepuia.com

 

 

Chef Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas profundezas do Sul
(ou Ao Sul, o abismo – ou a floresta)

Já teve vontade de sair voando? Basta chegar à beira dos precipícios espetaculares de fiordes como o famoso Milford Sound, cartão-postal da Nova Zelândia, para entender por quê o bungee jump só poderia mesmo ter nascido no templo natural dos maori.

 

Bungee Jump New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dona também de paisagens encantadoras como os glaciares de Franz Josef e Fox e as trilhas à beira-mar do Parque Nacional Abel Tasman, a ilha Sul tem vocação para esportes de natureza.

 

Cachoeira Milford Sound
Cachoeira em Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se os primeiros saltos de abismos começaram na ponte Kawarau, com 43 metros de profundidade, hoje as distâncias se multiplicaram: dá para saltar de 47 e de 134 metros, se lançar em pêndulos, fazer skydive.

 

Passeio de jet boat
Adrenalina no passeio de jet boat

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde 1965, adrenalina é palavra de ordem também no passeio de jetboat. “Aceleramos a 85 quilômetros por hora entre cânions de 40 metros de altura”, explica Wayne Paton, que em 2014 fez gritar de emoção naquelas águas azuis até o jovem casal real britânico, o Príncipe William e a Kate Middleton.

 

Neve Milford
Parada em topo de montanha nevada durante sobrevoo na região de Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A charmosa Queenstown, cercada por montanhas nevadas e que descansa à beira do lago azul Wakatipu, é a base para explorar desde os fiordes (de barco, de helicóptero ou em caminhadas de vários dias) até locações de O Senhor dos Anéis e O Hobbit.

 

Queenstown beira lago
Beira-lago na charmosa Queenstown

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao final de cada dia de atividade ao ar livre, amantes da natureza de todo canto do mundo transformam os 120 bares e restaurantes da pacata Queenstown em um pico de agito. E não se surpreenda se, no caminho da balada, você se deparar, como eu, com um grupo de neozelandeses gritando e simulando a haka na rua. É apenas o orgulho maori de ter nascido em uma terra tão especial.

bungy.co.nz
shotoverjet.com
milford-sound.co.nz

 

Garimpeiro Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INFO: newzeland.com; tourismnewzealand.com

FOTOS: Todas as fotos desse post foram produzidas por Daniel Nunes/@samesamephoto

 

Eagle's Nest Hotel
Vista da sacada de um único apartamento do Eagle’s Nets, em Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ONDE DORMIR:

Auckland: hilton.com
Bay of Islands: eaglesnest.co.nz
Rotorua: solitairelodge.com
Queenstown: matakaurilodge.com

Matakauri Hotel Nova Zelandia
Vista interna do hotel Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OUTRAS CURIOSIDADES:

Rúgbi ao vivo
A haka foi celebrizada internacionalmente graças às apresentações feitas mundo afora pela seleção neozelandesa de rúgbi, apelidada oficialmente de All Blacks. Se tiver oportunidade, assista ao vivo a uma partida do esporte número 1 do país. Em 17 de julho eles enfrentam a Argentina em Christchurch, e em 15 de agosto acontece o jogo contra a Austrália em Auckland.
allblacks.com

 

Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri
Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte maori no Brasil
O Brasil também viu ao vivo a exposição Tuku Iho – Legado Vivo, que já difundiu a arte maori na China e na Malásia, e que em 2015 está excursionando pela América Latina. Mais de oitenta peças esculpidas em materiais como madeira, bronze e pedra fizeram sucesso em Santiago, em Buenos Aires e no Rio de Janeiro.

Telas na República Checa
Depois de atrair 145 mil pessoas à Nationalgalerie, em Berlim, por cinco meses de 2015, a série de 44 retratos do povo maori pintados na virada do século 19 para o 20 pelo artista checo Gottfried Lindauer (1839–1926) chegou ao berço do artista. A exibição estará no West Bohemian Museum, em Pilsen, a cerca de 90 quilômetros de Praga, até 20 de setembro.
plzen2015.cz/en/

 

Helicóptero Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do alto é (ainda) mais bonito
A natureza neozelandesa dá um show quando vista de cima, em sobrevoos de helicóptero. Na Ilha Norte, a Salt Air sobrevoa as ilhas de Bay of Islands e pousa em uma rocha no meio do mar. A VolcanicAir leva desde Rotorua até o vulcão de White Island. E poucas cenas são tão lindas na vida quanto a que se vê no voo da Over the Top desde Queenstown até os fiordes de Milford Sound.
saltair.co.nz
volcanicair.co.nz
flynz.co.nz

Onde está o kiwi?
Engana-se quem pensa que os neozelandeses ganharam o apelido de “kiwis” por cultivarem a fruta homônima. Quem também tem esse nome é um pássaro bicudo que não voa e tem hábitos noturnos. Dificilmente alguém vê um deles fora de cativeiro (há alguns no Te Puia, o parque maori de Rotorua). A ilha Stewart, no extremo sul, é o melhor lugar pra encontrá-los soltos na natureza.

 

White Island em quadro
Ruínas em White Island

A cidade floresce

O espetáculo do encontro dos rios Negro e Solimões. O fantástico Teatro Amazonas, palco de disputados recitais de ópera. E só. Depois de cinco anos sem aterrissar em Manaus, eu achava que estes ainda fossem os dois passeios bacanas que um forasteiro tinha para explorar no principal portal da Amazônia brasileira. Ledo e delicioso engano. Bastou o fotógrafo Adriano Fagundes e eu sairmos do Eduardo Gomes, o aeroporto internacional, e entrar no carro do Leleco, nosso amigo carioca que adotou como sua a capital do Amazonas, para começar a sucessão de boas surpresas enquanto rodávamos pela cidade. “Uau, que ponte estaiada é aquela sobre o Rio Negro? Olhem quanta gente praticando stand-up paddle no rio! Que bacana estão a ciclovia e o calçadão de Ponta Negra…” Leleco respondia apontando mais novidades: “Ali fica o estádio da Copa do Mundo,  o Arena da Amazônia. Para lá está um dos shoppings recém-inaugurados. Por aqui se chega a um hotel de golfe aberto há 3 anos…” Nosso anfitrião tinha uma proposta de agenda tentadora: como não estávamos na época baixa dos rios (julho a fevereiro), quando surgem as belas praias de água doce, iríamos a alguns restaurantes de comida amazônica contemporânea, ao ensaio para o festival de Parintins e optaríamos entre degustar alguns dos 900 rótulos da Cachaçaria do Dedé ou uns drinques no O Chefão, transado bar do Centro Histórico inspirado no filme O Poderoso Chefão. Mal tínhamos começado a suar com o calor de mais de 30 graus daqueles trópicos e já notávamos que Manaus não era mais a mesma. Em pouco mais de meia década, havia aprendido a reciclar a riqueza dos rios e da floresta à sua volta para se transformar em uma metrópole com mais qualidade de vida, autêntica, cosmopolita e surpreendente.

A nova ponte estaiada da capital
A nova ponte estaiada da capital

O URBANO NA SELVA É claro que a capital do estado do Amazonas nunca perdeu sua vocação de ponto de partida para mais de uma dezena de bons hotéis de selva. A poucas horas da metrópole de 1,8 milhão de habitantes estão as principais bases para explorar a floresta com árvores de mais de 30 metros de altura e os rios de margens inalcançáveis, habitados por piranhas com dentaduras ameaçadoras, botos tucuxi saltitantes e jacarés gigantescos. Nós mesmos encerraríamos nossa jornada tendo contato com toda essa fauna em três dias intensos no mais badalado deles, o Anavilhanas Lodge, a 180 quilômetros de Manaus. O percurso leva 2h30, 2 horas a menos do que as 4h30 necessárias antes de  serem inaugurados, em 2011, os 3,6 quilômetros do novo cartão-postal da cidade, a Ponte Rio Negro. A construção da maior ponte fluvial e estaiada do Brasil acabou com a necessidade de uma balsa para cruzar o rio, facilitando o acesso ao hotel e a toda a região turística de Novo Airão, base para conhecer o arquipélago de Anavilhanas, formado por mais de 400 ilhas. Com 16 chalés, quatro bangalôs e acesso wi-fi até na área da piscina de borda infinita, o único hotel da rede Roteiros de Charme no Norte do país virou exemplo de hospedaria tão bem estruturada que atrai até aquele turista urbanóide que não consegue se desconectar da metrópole mesmo estando no meio do mato. Mas o caminho contrário, com a realidade da floresta invadindo o ambiente urbano, é o fluxo mais recente em Manaus. Graças ao resgate das raízes amazônicas promovido pela juventude local, certas preciosidades culturais estão mais acessíveis dentro da própria capital.

Um dos quartos do Anavilhana Lodge, em Novo Airão
Um dos quartos do Anavilhanas Lodge, em Novo Airão

MENU AMAZÔNICO Com apenas 27 anos, o catarinense radicado em Manaus Felipe Schaedler é o melhor representante da geração que tem transformado a exuberância da selva em atrativo de primeira linha na cidade. Felipe e seu empreendimento, o Banzeiro, ganharam os prêmios de chef e restaurante do ano em 2011 e 2012, segundo a revista Veja Comer & Beber – Manaus. Curioso, Felipe costuma partir em expedições à floresta explorando ingredientes para suas criações gastronômicas. No ano passado, o mestre-cuca foi condecorado pela própria presidente Dilma Rousseff, em Brasília, com a Ordem do Mérito Cultural. “Minhas influências são caboclas e indígenas”, define ele, que vive na cidade desde os 16 anos. “Amo Manaus e daqui não saio.” Sua paixão pelo ambiente selvagem está evidente na decoração da casa, localizada no bairro de Nossa Senhora das Graças, e inclui uma canoa típica pendurada na parede, lustres feitos de fibras naturais e fotos de ribeirinhos clicadas pelo próprio chef. Dos dadinhos de tapioca servidos na entrada às suas premiadas costelas de tambaqui, finalizando no petit gateau recheado de cupuaçu, todas as delícias que experimentamos ali têm uma pitada de Amazônia.

Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica da cidade
Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica

Não é só no templo do chef mais badalado de Manaus, porém, que a nova cozinha da Amazônia viria a se revelar para nós. O sushiman Hiroya Takano, do restaurante Shin Suzuran, em Vieiralves, surpreende usando peixes de rio em suas criações. “Para realçar o sabor, ralo pimenta murupi sobre o sashimi de tucunaré e mergulho o pirarucu no missô com castanhas por um dia inteiro”, conta. Sem nada de moderno – mas com uma fartura única ––, o Chapéu de Palha da Benção sustenta esse nome em função das formas do telhado, feito com trançado típico a mais de 12 metros de altura. “Fiquem à vontade para se servir em nosso bufê com mais de dez espécies de peixes de água doce”, nos diria o  proprietário, o evangélico Manoel Pestana. A comida, simples e saborosa, parece realmente abençoada.   TACACÁ MUSICAL Antes de chegar às boas mesas manauaras, todo esse quase exótico universo de pescados, pimentas, ervas e frutas costuma colorir e aromatizar os corredores do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Erguido em 1883, a construção art nouveau de ferro beira o Rio Negro justamente no ponto de onde saem os clássicos passeios de barco que mencionei no início do texto: em uma hora, as embarcações atingem o ponto onde as águas amarronzadas do Solimões – extensão do Amazonas, o maior rio do planeta – ladeiam, sem se misturar, as escuras correntes do Negro. Se você, como nós, já teve esse prazer, invista nas bancas do mercado, com todo tipo de farinha de mandioca (seca, d’água, de tapioca, Uarini…), todo um novo alfabeto de frutas (abiu, camu-camu, taperebá, uxi…) e ervas que, dizem, levantam até defunto. “Em 56 anos trabalhando com isso, aprendi as propriedades curativas de cerca de 1000 plantas”, orgulha-se a simpática Dona Judith Formoso, 77 anos. Delícias de rua como o x-caboclinho (sanduíche com lascas de uma fruta chamada tucumã e queijo coalho), o famoso tacacá (aquele caldo de tucupi com goma de tapioca, folhas de jambu e camarão seco) e o açaí (aqui comido salgado, com farinha) também podem ser provados por ali mesmo – embora se espalhem também pelo entorno do Largo de São Sebastião, a mais famosa praça da cidade, diante do Teatro Amazonas. Nas noites de quarta-feira, de abril a dezembro, o ilustre Tacacá da Gisela mescla seus sabores amazônicas com boa música no chamado Tacacá na Bossa. Até Ed Motta já deu uma canjinha entre os músicos que se apresentam.

Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus
Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus

ÓPERA INDÍGENA Coração cultural de Manaus, o entorno do teatro abriga boas lojas de artesanato dos índios da Amazônia, sorveterias incríveis, o quarentão Bar do Armando e o frescor do Boutique Hotel Casa Teatro, aberto há um ano e meio em um dos fantásticos casarões históricos do Centro. E ganha um glamour único entre abril e maio. É quando o Teatro Amazonas abriga o Festival Amazonas de Ópera, o único do gênero na América Latina. Em 2013, foram 33 atrações ao longo de 45 dias. “É uma honra difundir a música erudita para a gente da minha cidade”, diz a soprano Carol Martins, 31 anos, solista da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi. No encerramento do 17o festival, em maio, ela também cantou na ópera O Morcego, de Johann Strauss Filho, que reuniu 15 mil pessoas ao ar livre, no Largo de São Sebastião, diante do teatro, mesmo debaixo de chuva. A tradição das óperas nesse peculiar teatro com uma bandeira do Brasil na cúpula vem do século 19, tempo em que Manaus virou uma espécie de Paris das Selvas em função de toda a fortuna que circulava na cidade. Foi graças à exploração massiva da borracha de seus seringais que a cidade inaugurou, já em 1896, um teatro daquele porte. Tão portentosos quanto as óperas, mas bem mais populares, são os ensaios para o Festival Folclórico de Parintins, que chegam a arrastar cerca de 10 mil pessoas ao Centro de Convenções de Manaus, o chamado Sambódromo, e à Arena do Hotel Tropical de março a junho. Embora a grande festa do boi, com temática inspirada em lendas indígenas e costumes ribeirinhos, aconteça a distantes 370 quilômetros dali e só por três dias do mês de junho, partem da capital do estado cerca de 50 mil pessoas que ajudam a fazer a festa dos bois Garantido, o vermelho, e Caprichoso, o azul. A vibração do público e as alegorias fantásticas de personagens míticos da floresta, como a índia mais bela e o poderoso pajé, convencem qualquer viajante a querer estar, ao menos uma vida, na festa do boi de Parintins.

Show no  Jack’n’Blues Snooker Pub
Show no Jack’n’Blues Snooker Pub

A BIENAL DA MATA Em julho, os ouvidos dos manauaras buscam outro ritmo: o de jazz. O 8o  Festival Amazonas de Jazz mobilizou, em 2013, 60 músicos tanto na capital quanto no município vizinho de Manacapuru, a 70 quilômetros. O jazz, por sinal, tem espaço cativo na agenda de entretenimento da cidade: assistimos um belo show no Jack’n’Blues Snooker Pub, no agitado bairro noturno de Vieiralves, e uma jam session de primeira linha na Universidade do Estado do Amazonas – UEA, com direito a performance da artista Hadna Abreu pintando um quadro enquanto a banda tocava. Hadna tem 24 anos e exibe sua primeira mostra individual na Galeria do Largo, diante do teatro Amazonas, até 15 de setembro. “Me inspirei na estética dos meus avós para criar personagens fantásticos que interagem com árvores e pássaros do ambiente amazônico.”

 

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Grafitti em muro diante do sambódromo

 

O mesmo resgate das raízes culturais e históricas realizado com sucesso pelos espetáculos de ópera e do boi começa a ser trilhado também pelas artes plásticas. Como se não bastassem os belos grafites pelas ruas da cidade – como os lambe-lambes de Hadna, colados com goma de tapioca ­–, ainda em 2013 Manaus planeja ser a principal sede da Amazônica I, primeira bienal de artes visuais do estado. “Com base no sucesso do formato da megaexposição Documenta, em Kassel, na Alemanha, criamos uma mostra descentralizada, espalhada por diferentes pontos da cidade e do estado”, diz Cléia Vianna, comandante da Galeria do Largo e uma das organizadoras do evento. “Teremos desde desenhos de Di Cavalcanti até obras de novos artistas locais”, conta. Mais um exemplo de como os habitantes de Manaus aprenderam a beber da fonte natural e cultural da grande floresta que os circunda.

 

SERVIÇO:

amazonasfestivalopera.com amazoniagolf.com.br anavilhanaslodge.com arenadaamazonia.com.br restaurantebanzeiro.com.br www.casateatro.com.br cachacariadodede.com.br festivalamazonasjazz.com.br parintins.com suzuran.com.br tropicalmanaus.com.br visitamazonas.am.gov.br

Retrospectiva: minhas top trips 2013

Especialmente para produzir o livro sobre o rio Amazonas, rodei um bocado pelo Brasil no ano passado. Comecei 2013 no Monte Roraima, nas alturas do Norte do país. Fiz também uma rota oeste-leste completa: entrei na Tabatinga amazônica navegando desde Santa Rosa, no Peru, e Letícia, na Colômbia, e alcancei o Atlântico logo ali no Amapá, pertinho do Oiapoque. Sem planejar, acabaria o ano também ao nível do mar no extremo Sul, cruzando a fronteira do Chuí. E acabei fazendo o ranking das minhas 10 melhores experiências de viagem no ano. Continuar lendo Retrospectiva: minhas top trips 2013