Índia, a viagem que virou lenda – Parte I

Amados amigos e queridos leitores, não vai ser dessa vez que eu vou voltar à Índia. A votação do #keralablogexpress foi encerrada na quarta, dia 15, quando eu estava na posição 23 entre os mais votados. E apenas os 20 primeiros vão embarcar na expedição de blogueiros pelas praias de #Kerala. Mas eu fiquei tão feliz e lisonjeado com a carinhosa mobilização virtual – com esse Facebook a gente pode, mesmo, mudar o mundo… – que vou cumprir, mesmo candidato derrotado, uma das minhas promessas de campanha. Compartilho aqui uma das experiências – um vexame, na verdade – que vivi na minha primeira incursão à Índia e ao vizinho Nepal, exatos 10 anos atrás. Em 2004, viajei com três amigos e passei quase 2 meses entre templos-de-todos-os-santos, banheiros sem papel higiênico e vacas desgovernadas. Tudo ia bem até que chegou o dia em que eu caí do alto do trono da minha arrogância. Continuar lendo Índia, a viagem que virou lenda – Parte I

Gelo à vista

As boas-vindas não parecem lá muito amigáveis. “Quatro questões jamais devem ser feitas a bordo: para onde vamos, quando chegaremos, por quanto tempo permaneceremos ali e como estará o clima.” Disparadas à queima-roupa logo após o embarque, num inglês com sotaque germânico, as frases proibidas no navio MF Fram não deixam dúvida de que estou em um cruzeiro diferente. “Na Antártica, quem manda é a natureza, e as mudanças climáticas são rápidas e imprevisíveis.” A dona da voz é Anja Erdmann, líder da expedição, que fala quando o barco da empresa norueguesa Hurtigruten afasta-se de Ushuaia, na Argentina, na pontinha mais ao sul da América. Os 207 passageiros de 16 nacionalidades zarpam sabendo apenas que, até chegar às abrigadas águas da Península Antártica, leva-se 3 dias percorrendo a Passagem de Drake, área famosa por seus naufrágios, onde Atlântico e Pacífico duelam. Depois de cruzá-la, continua a loirinha, a definição do roteiro se dá de acordo com os humores da neve, das ondas e dos ventos. A convocação para que o exército de aventureiros vista coletes salva-vidas e siga para a simulação da evacuação de emergência reforça: embarcar em um cruzeiro antártico é para viajantes com espírito desbravador.

 

Trekking na ilha Deception
Trekking na ilha Deception

 

Conhecer a Antártica nunca foi tão fácil. Segundo o guia de mochileiros Lonely Planet, o continente inexplorado brilha como o segundo lugar mais “quente” a visitar em 2014  – o primeiro é o Brasil, é claro, em função da Copa. Já existem 50 cruzeiros oferecendo pacotes a partir de 10 dias por cerca de 7.000 dólares, sem parte aérea. Na temporada passada, de novembro de 2012  a março de 2013, eles levaram nada menos que 35.000 pessoas. Em “cruzeiros de expedição” como este, não há cassino, shows a la Broadway, free-shops ou piscinas. Na minha cabine solitária, além de cama e banheiro (com água quente, ufa!), há apenas uma escotilha de onde se vê só céu e mar. Ah, e televisão, com 80% da programação tendo o extremo sul como tema. O entretenimento principal das duas centenas de horas na embarcação são as (ótimas) palestras. No primeiro dia, assisto a de pinguins, a de baleias e a de um geólogo norte-americano, Bob Rowland, que contou de seus estudos no Polo Sul em 1962 e 1963. Isso pouco depois do início das primeiras viagens turísticas à Antártica, em 1958, que provaram ao mundo que a última fronteira da Terra podia ser visitada por simples mortais como nós.

 

Port Lockroy: tem até correio
Port Lockroy: tem até correio

 

MEU PRIMEIRO ICEBERG

Terceiro dia. Para alívio dos marujos, superamos nas últimas 24 horas um Drake sem tempestades. O enjoo do mar chegou e foi embora. Já decorei o nome de vários dos 50 simpáticos tripulantes das Filipinas que atendem em locais como o restaurante e a sala de empréstimos de galochas. E meu fascínio pelas explorações antárticas cresceu substancialmente depois de assistir a documentários como o da conquista do Polo Sul, protagonizada pelo norueguês Roald Amundsen, em 1911, em um barco chamado Fram que inspirou o batismo deste. Também amei o longa sobre a saga de Sir Ernest Shackleton, o irlandês capitão do barco Endurance que tentou atravessar, com 27 homens, o continente gelado a pé em 1914, noventa anos atrás. Devoro mais um dos filmes da TV – acho que sobre as aves antárticas que acompanham o deslizar do navio – quando a voz daquela Angela Merkel dos mares ecoa, pelos auto-falantes, que um iceberg se aproxima.

Olho pela escotilha e lá está ele. Meu primeiro iceberg. Lindo. Gigante. Leve. É como se um quarteirão de 1,5 quilômetro com altura de um prédio de 3 andares flutuasse, quebrando com seu branco a monotonia azul de céu e mar. Um tom de turquesa-do-Caribe denuncia sua beleza submersa: como aprendi na lição-de-casa, 90% dos corpos desses blocos de gelo desprendidos dos glaciares esconde-se sob a superfície. Visto casaco para temperaturas negativas, corta-ventos, gorro, cachecol, luvas, óculos de sol. E, câmera na mão, corro para o terraço do sétimo andar para observá-lo em meio ao vento congelante. Meu iceberg não vem só. Outros correm em nossa direção. Chego a acreditar que nos aproximamos, enfim, da Antártica. Não há no horizonte, porém, sinal algum de terra à vista.

Engano meu. Quem chega à Península Antártica não aterrissa num grande continente no fim do caminho. Também não encontra um porto, o mar de outra cor ou qualquer referência que prove que alcançou o destino. No meio do marzão sem fim, surge uma ilha numa manhã, outra à tarde, e assim por diante: estamos na Antártica. A primeira em condição de desembarque aparece nesse terceiro dia, anunciada por uma nova chamada radiofônica. Aí sim nossa führer alemã dá todas as respostas e avisa: onde vamos – Baía Half Moon, no arquipélago das Shetland do Sul –, quando chegaremos – em 20 minutos –, por quanto tempo – 1h15 para cada grupo de 8 pessoas que lotar um bote inflável – e como está o clima – 1o C. Com apenas dois quilômetros, a ilhota parece um amontoado de rochas cinzas pontiagudas habitada por uns 2.000 casais de pinguins chinstrap (aqueles “de máscaras”) e seus filhotes. Um bote de madeira abandonado na praia de pedras dá o clima de que pisamos na terra firme do fim de mundo desabitado. Por estar vizinha à ilha Livingston, forrada por neve, Half Moon é um cenário fantástico para fotos.

 

Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo
Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo

 

DESEMBARQUE CANCELADO

A tal imprevisibilidade meteorológica da Antártica fica comprovada no quarto dia. Ventos de mais de 100 quilômetros por hora provocam o cancelamento da descida prevista para a ilha de Brown Bluff. Antes do vendaval, felizmente, conseguimos desembarcar sob o frio de apenas -4o C, ainda que com sensação térmica de -17o C, na Baía Esperanza. Ela abriga, desde 1951, uma base permanente da Argentina, país que está entre as 27 nações com estações científicas na região (a do Brasil, na Ilha Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica, foi totalmente destruída por um incêndio em 2012). Cerca de 50 pesquisadores argentinos integram o seleto grupo de moradores temporários do continente, que não costuma passar de 150 habitantes. A neve ininterrupta e o nevoeiro intimidador que assolam nosso passeio por algumas das 40 construções alaranjadas – o refeitório, a escola, a capela, o mini-museu… – dão uma ideia de quão sofrida foi a estada forçada dos três náufragos da expedição Nordenskjöld, entre 1901 a 1904 (conforme eu havia aprendido na palestra do engenheiro polonês Henryk Wolski). Os restos do abrigo de pedras improvisado estão intactos.

Mas é no quarto dia, na ilha Deception, que a Antártica se apresenta realmente como uma terra de ninguém.  Ao passar no corredor de 150 metros de largura entre as rochas apelidadas de “foles de Netuno” e adentrar na cratera submersa desse vulcão ativo, o MF Fram parece chegar a um lugar inóspito onde nem pinguins, navegadores do século passado ou cientistas pisaram. Com 12 quilômetros de diâmetro, a caldeira de águas verdes abrigadas tem praia e pedras negras vulcânicas lindamente cobertas pelo branco da neve. A caminhada ao alto de seu morro de 540 metros de altitude é o ápice da experiência de isolamento e pequeneza proporcionada por uma incursão dessas: só há a vastidão branca, o silêncio ensurdecedor, a paz sem fim. O trekking de 3 horas à tarde, na baía Whalers, um centro baleeiro abandonado, catapulta o grupo a um estado de contemplação tão ou mais nirvânico, tamanha a beleza das formas dos glaciares e o contraste das cores na paisagem. Afinal o céu azul agora está de volta, e com ele o Sol que reflete um brilho que pode cegar. Em Deception, os sedentos por uma experiência ainda mais sensorial são convidados a dar um tibum de no máximo 5 segundos nas águas menos frias do pedaço. É quando descubro o deleite incrível do oceano com 1o C.

 

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Passeio de bote para avistar o leopardo marinho

 

COMO EM UMA PRAIA DESERTA

Se desembarcar em Deception provoca uma espécie de versão polar daquele prazer único de encontrar uma praia paradisíaca só pra você, caminhar por Porto Neko, primeira parada do quinto dia, faz lembrar um safári africano – só que no gelo. Neste raro ponto da Península Antártica onde se caminha em solo continental, o mundaréu de pinguins gentoos nem se assusta com os estrondos das avalanche dos glaciares. Tampouco as focas, baleias, leopardos e elefantes marinhos que se exibem para os zooms das câmeras e binóculos durante os passeios de bote-inflável. À tarde, no casebre preto e vermelho de Port Lockroy, uma base britânica, todo aspirante a conquistador se rende à sua faceta de turista. Na loja de souvenirs do simplório museu local, dá para fazer um shopping rápido e despachar um cartão-postal na única caixa de correio do pedaço.

À medida que o navio chega ao ponto mais ao sul da expedição, a latitude 65o Sul, no sexto dia, uma série de montanhas nevadas passa a formar um corredor de 1,6 quilômetro de largura e 11 quilômetros de extensão. Estamos no Canal Lemaire, o cenário mais espetacular para demarcar a meia-volta e o início do longo caminho de volta, agora com a bússola apontada para o Norte. Antes, uma parada na Ilha Danco, para ver o pôr-do-sol entre os 1700 casais de pinguins gentoos. Bem disse a capitã: o clima da Antártica é mesmo surpreendente. E marca para sempre a vida do aprendiz de explorador que pisa naquele território onde pouca gente chegou.

 

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COMO IR

Tradicional operadora de cruzeiros de expedição à Antártica e ao Ártico, a norueguesa Hurtigruten opera saídas com número de dias e rotas variados. Entre as opções está a rota de 10 dias entre os 200 passageiros do navio Fram, apresentada nessa reportagem. Preços a partir de 6.300 dólares. www.hurtigruten.com

Especializada em roteiros ao extremo sul, a brasileira Zelfa Silva, da Antarctica Expeditions, trabalha com navios para 68 a 189 passageiros em viagens de 10 a 19 dias. Pode-se fazer toda a travessia da Passagem do Drake por barco desde Ushuaia ou voar a partir de Punta Arenas, no Chile. Os preços, sem aéreo, partem de 7.000 dólares. www.antartida.com.br

Ao coração da floresta

Era como uma sinfonia com milhares de músicos na escuridão completa, tocando bem alto e com um resultado impressionantemente harmonioso. Sapos coaxavam, cigarras cantavam sem parar. Mas eram os macacos que chiavam de forma assustadora, especialmente o guariba, que guincha parecendo simular o rugido de uma onça-pintada. Lembrei-me do relato do Seu Manduca sendo atacado pelo felino, da cobra d’água, dos jacarés e aranhas que havia visto nos três dias anteriores. Me acalmei escutando a orquestra deitado em uma das três redes de um casebre sobre palafitas que ficava 2 metros acima da superfície do Rio Mamirauá e, em vez de paredes, tinha tela antimosquito.

 

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Através da tela e por trás das árvores, visualizei o nascer da lua cheia da Páscoa de 2013. E dormi imerso na música mais espetacular que já ouvi na vida.

 

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Outro concerto, menos misterioso e mais festivo, celebrou a bruma e a brisa da manhã. Agora comandado pelos pássaros, compôs o fundo ritmado de nosso retorno, de canoa, para a pousada, nossa base, onde o café da manhã regional em mesa comunitária nos esperava. Localizada a 10 minutos do casebre na floresta onde eu havia pernoitado com o guia Raimundo Morais e o fotógrafo Adriano Fagundes, a Uacari é uma hospedaria flutuante que boia solitária como o quartel-general de quem explora a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Trata-se de uma sucessão de dez bangalôs de telhados vermelhos, feitos de garrafa pet, que quebram a monotonia verde daquele trecho da região do Médio Solimões, entre o rio de mesmo nome e o Japurá. Sua localização, diante de uma bela curva do Rio Mamirauá, proporciona uma experiência tão rara de imersão na selva e de fácil avistamento de animais que o lugar se transformou na principal recomendação de turismo na Amazônia do guia de mochileiros Lonely Planet.

 

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Primeira experiência do gênero no Brasil, a área de mais de 1 milhão de hectares de Mamirauá nasceu do sonho do primatologista José Márcio Ayres (1954-2003), em 1990. Ele queria preservar o habitat do seu objeto de estudo, o uacari-branco, um macaco de cara vermelha que só existe nesse cafundó da Amazônia. Na contramão da prática dominante na época, que tirava as populações tradicionais de seus locais de origem em nome da preservação ambiental, Márcio liderou um movimento para mudar a lei. Ao se empenhar na fundação da primeira reserva de desenvolvimento sustentável, em 1996, o cientista deflagrou uma iniciativa para proteger a floresta, produzir pesquisas e estimular o turismo, permitindo que 10 mil ribeirinhos continuassem vivendo ali, cortando árvores, plantando e pescando para seu sustento – tudo de forma controlada. Deu tão certo que hoje há pelo menos mais cinco áreas do gênero Brasil afora. Ayres conseguiu ainda proteger o território vizinho de Mamirauá, criando a Reserva de Amanã, colada ao Parque Nacional do Jaú. Juntos, os três formam a maior extensão de floresta tropical protegida do planeta.

 

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A SAGA DA VIAGEM

Chegar a Mamirauá é uma aventura. Primeiro viajamos pela TAM por 3h40 de São Paulo a Manaus. De lá seguimos para Tefé, de onde partem as voadeiras, que navegam durante uma hora até a Pousada Uacari. A questão é a rota de mais de 500 quilômetros entre Manaus e Tefé. Levam-se 36 horas – um dia e meio – para fazer o deslocamento em navios de dois andares, onde embarcam 400 pessoas, cada uma acomodada na própria rede. Já nas lanchas rápidas, o tempo despenca para 12 horas. Os passageiros normalmente se sentam em poltronas reclináveis e têm direito a refrigeração e TV coletiva. Mais rápida e cara, embora sem a mesma experiência de interação com a realidade da Amazônia, foi nossa opção, o táxi aéreo: em duas horas completa-se o percurso, com a vantagem de se impressionar com a exuberância verde vista dos ares.

 

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O transporte aéreo, é verdade, não propiciou a mesma aura épica vivida nas embarcações pelos mochileiros que exploram Mamirauá – 85% deles estrangeiros. Quando, porém, entramos na lancha de Tefé para a pousada, uma tempestade carregou de emoção o passeio. Entre janeiro e julho, a temporada de chuvas na Amazônia transforma radicalmente cenários como o dessa região, conhecida como várzea. A superfície dos rios chega a subir 12 metros, obrigando os moradores a habitar casas erguidas sobre palafitas altíssimas. Construções flutuantes, como a pousada, também dançam ao sabor do rio por serem levantadas sobre madeiras leves como o açacu, que atua como boia. Em metade do ano, a população circula a pé, trabalha na roça, joga bola no campinho. Na outra parte, o ofício é a pesca e tudo depende do barco – até uma visita ao casebre do vizinho ou à igreja do bairro. Quem chega a Mamirauá nessa época do ano – como foi nosso caso – já é logo avisado: não há como percorrer as 16 trilhas locais praticando trekking; a mesma rota desses passeios é feita apenas em botes.

 

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O desembarque no calor úmido de Mamirauá é uma experiência especial. Todos os funcionários da Uacari se alinham para dar as boas-vindas aos novos hóspedes. “Hi, my name is Ednelza and I am the hotel manager”, apresentou-se Ednelza Martins da Silva, uma ex-empregada doméstica e ex-agricultora que há seis anos assumiu o cargo mais alto do estabelecimento. Depois dela falaram Judith, a cozinheira, Naíza, a copeira, e assim por diante. Todos exercitando a língua que aprendem em um dos mais de cem cursos ministrados pelo Instituto Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia que administra a reserva e as iniciativas ligadas a ela, como a pousada. “Fazemos parte do projeto de turismo de base comunitária, uma proposta pioneira na região e que há 15 anos serve como referência para outras unidades de conservação Brasil afora”, explica Ednelza. A pousada gera emprego por meio de passeios de mínimo impacto na reserva, tem seu lucro revertido para as 80 famílias da comunidade e utiliza práticas sustentáveis, como energia solar, captação de água da chuva, reciclagem e compostagem de lixo.

 

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INTERAÇÃO COM A COMUNIDADE

Ao longo dos quatro dias que passamos ali (há pacotes de três, quatro e sete diárias, com pernoite em quartos rústicos e avarandados, com mosquiteiros individuais), descobrimos que reside na vivência do turismo comunitário o grande diferencial de escolher Mamirauá como o local para desbravar a Amazônia. Pela manhã e depois do almoço, os hóspedes saem para observar animais ou visitar comunidades vizinhas. Nosso guia era o Morais, nosso companheiro na fantástica noite citada no começo deste texto, quando nos isolamos na mata. Morais é um cabeludo descendente de indígenas que contou já ter comido muita carne de peixe-boi quando a reserva ainda não existia e faltava àquela gente a consciência ecológica para cuidar dos recursos preciosos da região. “Hoje entendo que tudo isso vale ouro.” Foi uma delícia observar como Morais afiou seu ouvido para identificar os sons da densa floresta e simular o mesmo piado ou grunhido dos bichos, em busca de uma resposta do interlocutor. O grande barato de cada dia é justamente brincar de identificar quem cantou o quê e onde – e, sempre que possível, remar em busca do cantor em questão.

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Impressionante é que, mesmo passeando a 7 metros de altura do solo, como fizemos em março, driblando os galhos das árvores submersas, as grandes copas continuam lá nas alturas. No topo, é claro, se escondem os animais, dificultando o foco de nossos binóculos e câmeras fotográficas. O livreto de identificação dos pássaros catalogados na reserva lista 355 deles, com ilustrações, nomes populares e científicos de garças, gaviões, papagaios… Um dos mais belos é a cigana, que exibiu seu topete estilo moicano uma dezena de vezes durante nossas remadas silenciosas. Aranhas e sapos existem aos montes. No rio, botos, piranhas, jacaretingas e jacarés-açus são bem frequentes na seca, pois ficam mais concentrados. Mas são as cinco espécies de macacos do entorno da pousada as estrelas das observações: prego, guariba, de-cheiro, de-cheiro-de-cabeça-preta e uacari – estes últimos dois endêmicos, que praticamente só existem ali. “Nas pesquisas que fizemos entre 2007 e 2010, quando ocorreram 1.448 registros de grupos, constatamos que a presença humana não afasta os animais”, conta a bióloga gaúcha Fernanda Paim, que há oito anos acompanha a macacada em Mamirauá. “Ou seja, o turismo de mínimo impacto praticado aqui, com 20 turistas por fim de semana, não prejudica o ambiente dos primatas.”

 

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A onça-pintada, no entanto, vive escondida – ou nem tanto para o biólogo carioca Emiliano Esterci Ramalho e seu time, que se dedicam a rastrear os maiores gatos das Américas com uma antena de telemetria móvel e 40 câmeras em 20 pontos para observação. “Vi 30 onças nesses nove anos trabalhando aqui”, conta. Sorte tiveram os dez turistas hospedados na Uacari no início do ano, pois acompanharam parte da captura de Mudinha, Confuso, Zangado, Jandia e Cotó, todos atualmente soltos, mas seguidos virtualmente graças a coleiras com GPS. Não por acaso, a equipe de ecologia de vertebrados terrestres de Mamirauá trabalha para que, a partir de 2014, vire rotina os visitantes acompanharem o trabalho dos pesquisadores. Como a cheia amazônica isola várias onças na copa das árvores por meses a fio, não é difícil observá-las dos barcos.

 

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CIÊNCIA DE RESULTADOS

Atualmente, o contato com os pesquisadores se dá em palestras após o jantar. Foi assim que conhecemos, na última noite, um pouco mais sobre o boto-cor-de-rosa, na aula com a bióloga portuguesa Zulmira Gamito. “Já catalogamos 558 botos e 17 tucuxis na área do Lago Mamirauá.” Ela faz parte do grupo de cientistas que desenvolve no momento mais de cem pesquisas no Instituto Mamirauá e que frequenta as instalações da cidade de Tefé (e outras 12 bases flutuantes para trabalho de campo). Com laboratórios, biblioteca científica aberta às escolas da região, lojinha e uma estrutura de primeiro mundo, que não se espera encontrar nos confins da Amazônia, a sede do instituto é movimentada por 250 profissionais. Um estudo em andamento avalia a eficiência do sistema ecológico do esgoto doméstico da pousada. “A filtragem em tanques flutuantes remove quase 95% dos contaminantes quando a água volta ao rio”, diz o paulista João Paulo Borges Pedro, tecnólogo em meio ambiente. Graças àqueles que manejam o pirarucu, o peixe amazônico de até 3 metros – que já esteve ameaçado de extinção na região – aumentou em 425% sua população na última década: tudo porque os pescadores passaram a respeitar o período de reprodução e desova, fazendo com que seu comércio rendesse mais de 10 milhões de reais nesses dez anos. Já a equipe de manejo florestal empenhou-se para que o desmatamento fosse reduzido em 1.600% depois da criação da reserva.

 

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Os experimentos de Mamirauá têm dado certo porque unem com excelência o saber científico e o conhecimento tradicional. Pois é justamente nas conversas com os nativos que a imersão dos viajantes na realidade amazônica fica completa, especialmente nas visitas a algumas das oito comunidades situadas no território da reserva. No povoado Sítio São José, visitamos a sala de aula, onde pudemos acompanhar uma performance musical (com nosso guia Morais como percussionista!), ver como as hortaliças são plantadas sobre canoas flutuantes e comprar artesanato feito com sementes locais. Já em Vila Alencar, entendemos como os painéis que captam energia solar acionam o sistema de bombeamento de água do rio para a caixa d’água (e o sistema de purificação) que abastece as 28 famílias do vilarejo. Sem isso, os moradores teriam que carregar água desde o leito, que na seca passa a distantes 400 metros das casas mais próximas.

 

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Na hora de ir embora da Pousada Uacari, ao observar os funcionários sorridentes lado a lado, dando adeus ao barco, pensei em como a mudança na realidade dessa gente é tão valiosa quanto o desenvolvimento da ciência e a preservação do ecossistema amazônico. A gerente Ednelza, por exemplo, passou a difundir entre seus vizinhos o uso do mesmo sistema de banheiro seco ecológico de sua casa, e contou adorar multiplicar sua experiência quando viaja promovendo o torneio de futebol feminino com as mulheres de Mamirauá. Poucas transformações pessoais, no entanto, foram tão radicais quanto a do auxiliar de cozinha Vanderlei Rodrigues, o Seu Manduca. Ele viveu na pele o susto de encontrar uma onça, o que faz todos lembrarem que estamos em um dos locais mais selvagens do planeta. “Eu voltava de uma pescaria quando ela me atacou, mordeu meu rosto e caímos no rio”, contou. “Quase morri.” Hoje, os 28 pontos da cicatriz na face são discretos e o trauma foi superado, tanto que Seu Manduca já se deparou com outras cinco onças depois daquela, pois passou a integrar o grupo de apoio aos cientistas que capturam, monitoram e estudam o felino. E milita pela preservação da fera, orgulhoso por fazer parte da experiência pioneira de Mamirauá.

 

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SERVIÇO:

+55 97

INFO E AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá – tel. 3343-9700, mamiraua.org.br; Pousada Uacari – tel. 3343-4160, pousadauacari.com.br

Carta a Aung San Suu Kyi

Cara Aung San Suu Kyi, a Senhora não me conhece. Sou um viajante brasileiro que havia planejado passar férias no Sudeste Asiático, incluindo no roteiro a sua pátria, Mianmar, que desde 1989 também conhecemos como Birmânia – e que a Senhora prefere tratar com o nome original, Burma. Qual não foi minha surpresa ao descobrir, enquanto pesquisava sobre sua terra, que a vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1991 não incentivava o turismo de grupos de estrangeiros nestes tempos de transição da ditadura para o regime democrático. Entendo. Não deve ser fácil para uma ex-prisioneira política que viveu 15 de seus 77 anos em prisão domiciliar ver que ainda há tantas reformas a serem feitas, especialmente com relação aos direitos humanos.

O que me estimulou a embarcar foi ler que, em 2011, os movimentos pró-democracia derrubaram o boicote ao turismo de estrangeiros. E que a Senhora também passou a acreditar que viajantes independentes podem, sim, contribuir para o renascimento de Mianmar – especialmente se fizerem uso dos pequenos hotéis e restaurantes da população mais humilde. Foi o que fiz, e lhe escrevo para compartilhar. Voei primeiro à Tailândia e de lá parti para presenciar o despertar dessa nação tão isolada, onde celular e internet são novidades.

Nas ruas e hospedarias por onde passei ao longo de dez dias vi o retrato da Senhora – ou The Lady, com letra maiúscula, como a tratam ali –, sempre ao lado das fotos de seu pai, Aung San, mártir nacional da luta pela independência contra o colonialismo britânico nos anos 1940. E voltei deslumbrado com os cenários incríveis, as diferenças culturais marcantes e os sorrisos desse povo cheio de esperança que começa a se abrir para o mundo.

 

Yangon, a “terra do nunca”

Yangon é a “terra do nunca”. Bastou que a fotógrafa Andréa D’Amato e eu pousássemos na maior cidade do país para experimentarmos uma série de situações inéditas. Eu nunca havia visto saguão de embarque de aeroporto com publicidade de vasos sanitários, objeto de desejo para a maioria dos quase 60 milhões de habitantes que usam banheiros com um buraco no chão.

No caminho do táxi para a antiga capital, paramos para abastecer em um “posto” sem paredes nem teto: a gasolina ficava exposta ao sol, em garrafas pet. E ao encararmos o trânsito da região central, aquela Babel impressionava com um cenário que contrastava paus-de-arara abarrotados de gente com grupos de idosos praticando tai chi chuan sobre os viadutos. Homens vestiam saia até os pés – os longyis –, mulheres e crianças tinham as bochechas besuntadas de thanakha – um protetor solar feito da pasta da cortiça – e até os monges, descalços e com túnicas bordô, mascavam e cuspiam uma espécie de chiclete (comum em países da Ásia) feito com noz de areca, que deixa os dentes vermelhos como sangue.

Também nunca estivéramos em uma metrópole em que os carros, caindo aos pedaços, podem ter volante à direita ou à esquerda. A memória busca referências: aquelas carangas dos anos 1950 diante de prédios baixos de cores fortes, roupas no varal da sacada e emaranhados rocambolescos de fios nos postes remetem à Havana cubana, vitimada pela ditadura na mesma época que Mianmar. Na hora de fazer o câmbio para adquirir o kyat (lê-se djet), a moeda local, constatamos não ser lenda a rigidez para só trocar dólares americanos impecáveis. Se existir qualquer sujeirinha ou indício de que a cédula já foi dobrada, ela será devolvida. E sem chance de usar cartões de crédito ou débito.

Seguindo as instruções da Senhora, nos hospedamos em uma pensão familiar. May Fair Inn é limpinha, com banheiro privado, ventilador de teto e chuveiro de água quente. Pena que U Zaw Win, o dono, não falava uma palavra de inglês, assim como a maior parte dos 4,3 milhões de habitantes da cidade. Desenvolvemos a linguagem gestual, também para trocar dinheiro, comer e visitar algumas das 2 mil lojas do mercado Scott, construído em 1926 e rebatizado de Bogyoke Aung San em homenagem ao pai da Senhora. Além de comprar roupas e artesanato, ficamos intrigados com as balanças nas quais aquele que se pesa ganha a previsão astrológica do dia.

Astral mesmo foi conhecer o Shwedagon Paya. O mais reverenciado templo budista do país, erguido há pelo menos dez séculos, hoje exibe mais de 60 estupas (tipo de monumento cônico) repletas de estátuas de Buda. A placa da entrada indicava ser proibido entrar com calçados, meias, bermudas ou “spaghetti blouses” (camisetas com alças finas). Encantados por mantras e incensos, descobrimos na tabela de um dos guias do templo o dia da semana em que nascemos. Assim, pudemos repetir o curioso ritual de regar várias vezes a imagem do “nosso” Buda – o meu é o da quinta-feira. Para encerrar nossas boas-vindas douradas em Yangon, assistimos ao acender das luzes e ao mágico reflexo das torres no céu, algo que também nunca havíamos visto antes.

Os ETs de Mandalay

O albergue se chamava E.T. – porém, os extraterrestres éramos nós, desnorteados naquele feioso centro de Mandalay, cidade para onde voamos por 1 hora desde Yangon. Até que um anjo caiu do céu. “Ming la ba”, nos saudou um sorridente moreninho de nome Aung Aung (pronuncia-se Ã-Ã) , oferecendo seu serviço de motorista. Teríamos o luxo de contar com um condutor que queria praticar inglês e guiava um veículo pitoresco, o trickshaw, bike que carrega na lateral uma espécie de cesto sobre rodas onde se sentam dois passageiros. Graças às suas pernas fortes, rodamos tanto que no fim do dia já estávamos achando Mandalay bonitinha. Visitamos o secular monastério Shwenandaw Kyaung, todo esculpido em teca, uma forte madeira escura. Experimentamos a mohinga, uma típica sopa de noodles, no despojado restaurante local Aye-Myit-Tar (onde o guardanapo da mesa é um rolo de papel higiênico, como é prática em todo o país); e curtimos a noite de sexta-feira ao melhor estilo local, tomando chá preto adocicado com leite condensado sentados em mesinhas de criança.

Nosso novo-melhor-amigo-birmanês foi a boa companhia no espetacular teatro de marionetes. E Mandalay mostraria novamente por que é considerada a capital cultural de Mianmar no show de humor dos Moustache Brothers. Os três irmãos com bigode (o de um deles, postiço) se apresentam na garagem de casa ao som de música nacional em um saudoso tocador de fitas cassete. Repletas de piadas criticando desde a corrupção do governo até a produção de heroína no país, as apresentações do trio foram proibidas aos birmaneses e em espaços públicos. Eles não se esquecem de que a performance na casa da Senhora, em 1996, rendeu sete anos de prisão com trabalhos forçados a dois deles, Par Pa Lay e Lu Zaw. “Até hoje Aung San Suu Kyi defende nosso trabalho”, diz Lu Maw, o único que fala inglês, aos sete estrangeiros presentes no show de sábado.

Mais impressionados ficamos quando Aung Aung nos levou para conhecer a produção de folhas de ouro. Uma fila de homens passava horas dando marteladas em pequenas barras do precioso metal, causando um barulho interplanetário, até que elas fossem transformadas em quadrados minúsculos – mais tarde vendidos para serem esfregados nas estátuas de Buda nos rituais dos fiéis birmaneses (89% da população é budista, com maioria de seguidores da conservadora linhagem Theravada). Parecia de outro mundo também a sequência de estupas brancas avistadas do alto da Colina de Mandalay. Ali planejamos a exploração dos arredores no dia seguinte, por Inwa, Sagaing e Amarapura, capitais de reinados que se alternaram no poder de 850 a.C. até o domínio britânico no século 19.

Foi uma viagem ao passado. Em Sagaing, base do império Shan em 1315, cruzamos uma das pontes imponentes para ver do alto mais templos seculares – e ficamos fascinados com as casas feitas de bambu, trabalhadas como obras de arte. Em Inwa, capital real de Burma por mais de metade dos últimos 650 anos, chacoalhamos em charrete por estradas de areia entre altares budistas em ruínas, torres tortas e artesãs tecendo tapetes de palha ao ar livre. Mas foi em Amarapura, terra que abriga uma poética ponte de madeira de 1.200 metros, que passamos o entardecer de despedida de Mandalay. Cruzamos o Lago Taungthaman num barquinho. Na volta, fizemos o tradicional footing de pôr do sol sobre a ponte U Bein’s ao lado dos monges que habitam o monastério vizinho de Maha Ganayon Kyaung. E com eles emanamos boas vibrações budistas a Mianmar e a outros lindos lugares como aquele, fossem eles – ou não – desse planeta.

Ao mar de templos de Bagan

Não há sensação melhor – para quem gosta de explorar lugares aonde pouca gente chegou – do que viajar para Bagan, o cartão-postal dos cartões-postais de Mianmar, navegando no apaixonante Rio Ayeyarwady. Embarcáramos em Mandalay ainda à noite, às 5h30 de um domingão, empolgados por encarar, sentados no chão duro de madeira, as desconfortáveis 14 horas de passeio pelo maior rio do país, que cruza Mianmar de norte a sul. Uma oportunidade rara, já que a barcaça do governo só saía uma vez por semana naquela época do ano – em junho, tempo das monções, quando toda tarde despenca um oceano do céu.

A jornada se tornou um clássico entre os mochileiros justamente por forçar a interação entre os pouquíssimos turistas e a multidão de nativos em um convés abarrotado de sacos com roupas, cestos com mangas e abacaxis e toda sorte de carga. Aquelas infindáveis horas passariam rápido como se assistíssemos a um bom filme – repleto de cenas de um rio caudaloso, pescadores em comunidades ribeirinhas, ambulantes vendendo de samosas a belos tecidos coloridos em cada uma das escalas.

O impacto visual do destino coroou a epopeia. Bagan é um mar de mais de 3 mil templos alaranjados, cujos topos se sobressaem numa planície descampada a perder de vista. Fundada no ano de 849, durante o primeiro reinado birmanês, a cidade teve seus locais de culto construídos ao longo de 250 anos, entre os séculos 11 e 13. E, oito séculos depois da glória, se transformou em um museu a céu aberto, normalmente desbravado em bicicletas ou charretes. Na zona arqueológica da Velha Bagan não mora ninguém. Os visitantes se hospedam a cerca de meia hora, seja na Nova Bagan, núcleo urbano criado na década de 1990 e polo dos melhores hotéis, seja em Nyaung U, centrinho para mochileiros. Foi ali, numa travessa da chamada “rua dos restaurantes”, que decidimos nos hospedar. Escolhemos um dos bangalôs do New Park Hotel especialmente pela facilidade de alugar ali mesmo as bicicletas.

A rotina em Bagan não poderia ser diferente: acorda-se antes de o sol nascer para, já com a água e os lanches preparados, começar a pedalada a tempo de estar no topo de um templo quando o dia amanhecer. O espetáculo das brumas se dissipando na imensidão dourada só concorre em beleza com a luz batendo na outra lateral no fim de tarde. Não importa que você se perca um bocado indo para o templo x ou o y. Delicioso é navegar ao léu. E assistir ao pôr do sol no topo dos prédios mais altos, como o Shwesandaw Paya ou o Dhammyangyi Pahto, maior de todos.

Todos que chegam ali se sentem meio que como Marco Polo, que em sua suposta visita, no século 13, teria definido o lugar como “um dos mais refinados do mundo”. Durante o pôr do sol, no entanto, dá para notar: foi-se a época em que a maior concentração de templos do planeta estava inacessível. Em 2011, já após o fim do boicote, 100 mil turistas visitaram o parque. O cenário explica. E justifica escolhas como a da francesa que se apaixonou pelo guia birmanês, abandonou Paris e hoje toca com ele o The Black Bamboo, um dos charmosos restaurantes de Nyaung U, servindo deliciosos curries e sorvetes caseiros. Ali, o cansaço e a emoção do dia são processados em jantares à luz de velas no jardim, com pés na areia, no embalo das ondas musicais da bossa nova brasileira.

No Lago Inle, a vida flutua

Prazeroso, no Lago Inle, é se deixar levar. Porção de água com 22 quilômetros de extensão por 11 de largura, o último foco da viagem repousa às margens da pacata cidade-base de Nyaungshwe, para onde voamos desde Bagan. O Inle é cenário, lar, rua e fonte de vida para a gente que ali vive, no entorno ou mesmo nas casas de palafitas dentro do lago. Seu ganha-pão vem tanto da pesca quanto das fazendas flutuantes que produzem de arroz a tomate. Aproveitamos as pernas treinadas em Bagan para conhecer parte disso pedalando. No primeiro dia, saindo da pousada Queen Inn, do solícito casal Ko Myo e Ma Sue, beiramos campos de girassóis, experimentamos a massagem birmanesa da família de Win Nyunt e degustamos o vinho local.

Mas foi no deslizar silencioso do barco que mergulhamos na alma do Inle. Nas feiras à beira d’água, mulheres de minorias étnicas, usando turbantes coloridíssimos, comercializavam de tudo. Na vila de Inthein, fomos surpreendidos pelas esculturas preservadas nos altares em ruínas de Nyaung Ohak que pareciam saídas de um filme de guerra, assim como pelo complexo de 1054 estupas dos séculos 17 e 18 no alto do Shwe Inn Thein Paya. Tentamos ver o famoso monastério dos gatos que saltam – o Nga Hpe Kyaung –, mas quando ancoramos o lugar estava mais para ser batizado de “templo dos gatos que dormem”, já que os monges não conseguiram animar nenhum dos gatos treinados. Nada no Inle, porém, se mostrou mais peculiar do que o jeito de navegar dos pescadores. Ao sair para tentar pegar alguns peixes nas suas redes em forma de cesto cônico, os barqueiros navegam em pé na proa, mexendo o único remo com a perna, em um balé de habilidade e equilíbrio bonito de ser visto.

Impulsionado pelo vento que movia as águas mansas do Lago Inle, Miu Miu, nosso simpático barqueiro, nos levou a ateliês de artesãos que trabalham com prata, madeira e tecidos raros como os feitos com flores de lótus. Entre os artistas estavam as exóticas mulheres girafas, moças com pescoços esticados por colares rígidos que ficaram populares na Tailândia, mas são originais de Mianmar. É claro que elas posavam para as fotos à espera de gorjetas. É claro também que o guia Miu Miu aprendeu a ganhar suas comissões a cada souvenir comprado por um turista. Mas o crescimento do turismo é parte do processo de abertura desse país precioso, uma mostra de que ele não congelou no tempo. Em Mianmar, entre tantas mazelas, a vida flui. É, Aung San Suu Kyi, seu antigo reino encantado apaixona quem quer que o visite. E integra-se ao mundo global em um ritmo próprio, enquanto caminha para conquistar a liberdade tão sonhada pela Senhora.

 

INFOYANGON +95(0)1: May Fair Inn – 57 38th Street, tel. 25-3454; MANDALAY +95(0)2: E.T. Hotel – 129-A 83rd Street, tel. 6-5006; Aye-Myit-Tar Restaurant – 530 81st Street, tel. 00-2357; Mandalay Marionettes Theatre – 66th Street, tel. 3-4446, mandalaymarionettes.com; Moustache Brothers Show – 80 39th Street; BAGAN (Nyaung U) +95(0)61: New Park Hotel – Thiripyitsaya Block 4, tel. 6-0322, newparkmyanmar.com; The Black Bamboo Restaurant – Yar Khin Thar Street, tel. 6-0782; INLE LAKE (Nyaungshwe) + 95(0)81: Queen Inn Bungalows – Win Quarter, tel. 20-9544; Win Nyunt Massage – Yone Gyi Road.

 

PARA VER AS FOTOS DE ANDRÉA D’ AMATO, AUTORA DAS IMAGENS PUBLICADAS NA RED REPORT, ACESSE WWW.ANDREADAMATO.COM.BR

Eles sobreviveram

Navegando com o tripulante morto, por Júlio Esteves

 

 

“Ele estavabranco, boca aberta, olhar fixo no céu. Meu Deus, acho que ele está morto! Gritei, fiz massagem cardíaca, tentei contato por rádio, me descontrolei chorando como poucas vezes na vida.” 

O primeiro susto aconteceu no oitavo dia de navegação pelo oceano Atlântico, entre a África e o Brasil, em 1988. Eu e meu amigo Rafael Ribeiro, 33 anos, comandávamos nosso Supercat 17 — um catamarã de 5 metros preparado ao longo de um ano para a maior aventura da nossa vida — quando aconteceu o improvável: num piscar de olhos, o mastro do barco simplesmente tombou. Pasmos, constatamos que nenhum de nós tinha checado as manilhas que sustentavam o mastro, dando margem para que as ondas e os fortes ventos alísios de setembro o tirassem do lugar. Estávamos agora à deriva numa embarcação a vela, sem rádio de longo alcance e muito, muito distantes do fim da viagem, planejada para durar 35 dias.

Trabalhamos por um dia e meio sem parar até que levantarmos novamente o mastro para seguir em frente. A natureza não dava trégua e nossas roupas técnicas pareciam não ser suficientes para amenizar, por dias e dias, o sol inclemente, o vento cortante e a água fria na cara. Não havia uma cabine para dormirmos, apenas um compartimento, na proa, para comida e equipamentos. Éramos salpicados por água salgada dia e noite. Numa madrugada ao relento, às 4 horas da manhã, despertamos em meio a uma frente fria que levantou ondas de 5 metros, cobrindo a superfície do barco e quase nos jogando ao mar, não fosse o cabo de 8 mm que nos mantinha amarrados ao barco 24 horas por dia. Foi quando o impacto das ondas estourou o nosso leme. E lá fui eu enfrentar meu medo de tubarões mergulhando para trocar o leme danificado por um reserva.

Resolvido mais esse imprevisto, a expedição seguiu seu curso. Acordávamos com a luz do sol para velejar a uma velocidade média de 10 nós ao longo de 10 horas diárias e conversávamos rindo um bocado. Fazíamos intervalos apenas para as refeições — comida de exército especialmente preparada para aquela situação. Evoluíamos 100 milhas por dia e voltávamos 15 milhas por noite, quando o barco derivava embalado pela corrente de quase 2 nós. Era como se estivéssemos revivendo as sensações dos descobridores da América, aproveitando nossa experiência como marinheiros em aventuras anteriores.

Depois de 15 dias cruzando o Atlântico a caminho de nossa Bahia natal, a viagem perdeu o alto-astral. Rafael começou a se sentir mal, com desarranjos intestinais incontroláveis e gemidos enquanto dormia. Os remédios que tínhamos não adiantaram. Pensei que poderia ser cansaço, mas na 22a noite ele gemeu alto demais. Acordei e vi seus olhos amarelos como cerveja. Ele estava tão debilitado que não falava. Tentei lhe dar café, mas a bebida escorria pelos lábios. Levantei e disse: “Fael, você não está nada bem, vamos voltar”.

Amarrei-o bem fixo ao barco e, contra a corrente, retomei o rumo para a Nigéria. Horas depois ele parou de gemer. Cheguei perto e congelei. Ele estava branco, boca aberta, olhar fixo no céu. Gritei, fiz massagem cardíaca, mas ele já estava morto. Chorei como poucas vezes na vida.

Depois de três horas ali parado, o vento uivando, a vela sacudindo, resolvi navegar para São Tomé e Príncipe, a terra mais próxima. Meus pensamentos estavam tão mexidos quanto o mar: do que ele tinha morrido? Como seria entregar seu corpo à família?

Agora era eu quem lutava pela sobrevivência. O corpo seguia amarrado e coberto e eu repetia para mim mesmo que não iria morrer, aos 26 anos, no meio do oceano. Cinco dias depois, duas corvetas cruzaram o meu caminho, vindas da África. Disparei um sinalizador, eles responderam, e consegui comunicação com meu rádio portátil. Não acreditei quando eles se aproximaram: a tripulação era brasileira e, por nossa causa, tomou o caminho de volta para a África. Foram mais dois dias de barco e uma semana na casa do embaixador brasileiro na Nigéria esperando a autópsia. Rafael morrera de hepatite fulminante e contagiosa. Eu, milagrosamente, sobrevivi. E, 12 anos depois, fiz sozinho a travessia do Atlântico. Foi minha forma de homenagear meu amigo Rafael e de ter certeza de que o trauma estava superado.

[A travessia da África à Bahia, realizada em 2000 em comemoração aos 500 anos do Brasil, é o tema do livro 414 Horas, a ser lançado nos próximos meses].

 

ANÁLISE PROFISSIONAL: Não se sai da costa para uma viagem dessas, num barco sem cabine, sem um plano logístico minucioso. Uma boa preparação é 80% da viagem. É preciso usar roupas de última geração, carregar equipamentos eletrônicos de reserva e equipamentos de sobrevivência como dessalinizadores, balsa salva- vidas e primeiros-socorros. Um mastro só cai se você não tiver estais de reserva, como parece que aconteceu. Aliás, a escolha da embarcação também é fundamental. Na minha opinião, o barco usado não foi o ideal: o Supercat é um barco pequeno e de construção frágil. Um check- up médico antes de qualquer viagem também é necessário, assim como tomar todas as vacinas que a região a ser visitada requer. Não imagino fazer uma travessia de um oceano num barco aberto sem apoio das marinhas locais, tampouco o envolvimento de um bom meteorologista e um nutricionista que prepare uma dieta balanceada.

Beto Pandiani é velejador profissional e viajou entre a Antártica e o Ártico num catamarã de 21 pés sem cabine

 

2) Despencando de 75 metros de altura

Por Paulo Bruxo

“Enquanto meu amigo observava a incrível paisagem do oceano Atlântico diante de nós, aconteceu o pior: a agarra não suportou meu peso, quebrou e eu cheguei a esperar o tranco da segunda solteira, que não aconteceu.”

 

O ano era 1977 e o lugar o morro da Urca, no Rio de Janeiro, praticamente o quintal da minha casa. Eu tinha 16 anos, escalava desde os 13 e segui, com meu parceiro André Ilha, para fazer nossa segunda investida no Irmão Maior do Leblon. Calçava tênis Kichute, os mosquetões eram feitos em aço e eu me orgulhava por usar um capacete amarelo que parecia o auge da segurança naqueles tempos em que a escalada ainda engatinhava no Brasil. Meu pai nos deu carona até o início da trilha, onde hoje fica a favela do Vidigal, cruzamos a mata e iniciamos a via.

Na investida anterior, o André tinha conquistado uma via em diagonal (quase horizontal) para a direita com dois grampos de 0,5 polegada separados por 25 metros. Decidimos acrescentar um grampo intermediário para amenizar o trecho. O André foi na frente e fixou a corda no grampo mais distante. Em seguida, prendi a corda no primeiro grampo. Assim tínhamos um corrimão. Preparei as duas solteiras presas à cadeirinha, prendi-as no corrimão e me desencordei. Segui pelo corrimão até o meio do caminho e parei para fixar o novo grampo no ponto que nos parecia mais seguro. Passei uma cordinha com um nó prussik numa grande agarra protuberante e prendi um estribo (apoio para os pés) para ficar mais confortável.

Não sei por que — talvez por excesso de confiança por estar no meu território — tirei uma das solteiras do corrimão e a prendi no prussik. Sem pensar, tirei a segunda solteira também, achando que a outra estava presa, e fiquei ali, martelando o grampo preso apenas por uma cordinha enlaçada numa agarra, enquanto meu amigo observava a incrível paisagem do oceano Atlântico diante de nós. Aconteceu o pior: a agarra não suportou meu peso, quebrou e eu cheguei a esperar o tranco da segunda solteira, que não aconteceu porque ela não estava mais presa ao corrimão. Vi minha queda de frente, quicando duas vezes no paredão até cair na mata, 75 metros abaixo. Nos seis segundos no ar, vi minha vida inteira passar em flashback. Não apaguei, não senti dor e fiquei ali, caído de barriga pra cima, vendo o André preso, sem corda, ao paredão, perguntando se eu estava bem. “Me tirem daqui!”, gritei. Por sorte, alguém da comunidade vizinha assistiu a tudo e ali chegou, uns dez minutos depois, num grupo de oito homens. Eu sangrava muito, ouvia as pessoas dizendo que eu ia morrer. Fui transportado numa improvisada maca humana até a pista, onde um Fusca parou pra me resgatar. Fui para o hospital todo esbagaçado, sentado no banco de trás. Só mais tarde eu saberia que tinha fraturado a bacia, dobrado o joelho ao contrário, descolado o diafragma e rompido o baço de forma a ter uma hemorragia interna. Passei 15 dias no hospital, levei um ano para me recuperar e voltar a escalar. Não parei até hoje. Agora tenho 47 anos, trabalho com atividades e resgate em altura em ambiente urbano, já dei aula a mais de 800 alunos e passei a ser um militante pela segurança na montanha. Ao paredão da Urca, nunca mais voltei. O local passou a ser chamado de Paulo Ferreira em minha homenagem, e ganhei, não por acaso, o apelido de Bruxo.

 

ANÁLISE PROFISSIONAL: Ficar desancorado num ambiente exposto não é uma boa idéia. A complexidade do caso é que ele sempre esteve ancorado, ainda que numa agarra prestes a quebrar. Muitas vezes nós, escaladores, confiamos a nossa segurança a sensações. Em tese, sabemos que devemos checar e rechecar nossa segurança o tempo todo e que não podemos fazer isso baseados apenas na sensação. Ele se sentiu seguro por apoiar- se num cordelete (prussik) enroscado na agarra e por isso se desancorou da corda. Obviamente, foi um erro que custou caro. O Paulo executou um procedimento de risco inconscientemente e o azar foi o fato da agarra ter quebrado justamente naquela hora. Por outro lado, ele teve uma grande sorte em ter sobrevivido a uma queda de 75 metros. Ironicamente, seus alunos têm a sorte de ter instruções ministradas por uma pessoa que pode falar dos procedimentos de segurança com muita propriedade

Luiz Makoto Ishibe foi o primeiro escalador brasileiro a chegar ao cume das rochosas Fitz Roy e Cerro Torre, na Patagônia argentina.

 

3) Caindo por duas vezes quase fatais

Por Bito Meyer

Sempre gostei de altura. Quando conheci a escalada, tive certeza de que era um esporte que praticaria a vida inteira. Aos 13 anos — hoje tenho 50 — já ensinava os amigos a subir paredes. Em 1974, quando os 15 metros da pedra Lascada do Marum- bi, no Paraná, eram um desafio relevante, quase morri ao despencar lá do alto. Na minha décima descida, soltou-se o mos- quetão de ferro improvisado num ferreiro — o Brasil da ditadura não era aberto à importação de equipamentos esportivos. Caí desacordado e levei dez horas pra chegar, braço direito quebrado e cheio de hematomas, a um hospital de minha cidade, Curitiba. Passei 45 dias engessado e, quando me recuperei, voltei ao Marumbi pra tirar a zica. Refiz oito vezes o mesmo trecho e espantei as assombrações. Assim voltaria a explorar paredões e a dar aulas de escalada, meu ganha-pão até hoje.

Vinte anos depois, em 1994, a morte bateu à minha porta de novo. Eu tinha me encantado com o parapente e fiz uns 30 vôos, alguns enormes. Mas foi num salto básico a partir do campo-escola em São Francisco Xavier, no sul de Minas, que me dei mal. Fiz a decolagem a uns 150 metros, subi com o lift (vento que sobe as encostas das montanhas) para uns 300 e depois de brin- car por um tempo no ar comecei a descer com uma certa velocidade. Mas um inesperado vento de final de tarde fez de mimum pêndulo quando eu estava a apenas 50 metros do chão. Havia pouco espaço hábil para eu contornar o problema e controlar o aparelho. Virei uma pedra, girando em espiral numa velocidade cada vez maior. Deu tempo de pensar que, se eu escapasse vivo, iria me lesionar seriamente, talvez ficasse paraplégico.

Não lembro do impacto. Mas o apagão que se seguiu durou poucos segundos e vi o clássico clarão diante de um túnel que tanta gente descreve. Lembro do meu apego à vida e da desistência de seguir para o fim do túnel. Quando acordei, no chão, com a perna direita quebrada, dores dos calcanhares aos cotovelos e to- talmente ralado, não acreditei. Acho que meu anjo da guarda se jogou embaixo de mim para que eu vivesse um pouco mais. Já no hospital, depois da injeção de morfi- na (dá barato mesmo, pena que faça mal), os médicos me disseram, em tom fúnebre, que minha carreira de escalador estava encerrada. Eu ganharia uma placa no joelho que me faria andar para sempre com o joelho direito semi-rígido.

Três meses de fisioterapia intensa de- pois, derrubei o discurso dos médicos e segui para o parque do Yosemite, nos Es- tados Unidos, para ser o primeiro brasi- leiro a escalar um A5 (grau mais difícil da escalada artificialem rocha), dormindo pendurado em redes por nove dias. A perna lesionada só reduzia em 10% meu mo- vimento, o que permitiu que eu voltasse a fazer o que mais gosto: escalar montanhas.

Hoje, definitivamente, não temo a morte. Agradeço por estar vivo e me divertindo. Talvez um dia eu volte a voar, apesar da dificuldade que teria para pousar com o joelho enrijecido. Mas antes quero escalar por mais uns 15 anos. Aí, quem sabe, quando eu já estiver próximo da hora de desencarnar, eu pegue o parapente para ver o mundo ainda mais do alto.

 

ANÁLISE PROFISSIONAL: Quase todos os acidentes de parapente acontecem por falhas do piloto. O esporte é seguro, mas seus praticantes devem ter aptidão e reflexo e preparar-se corretamente, o que inclui pesquisar a meteorologia. Nada ocorre inesperadamente com o nosso clima. A atmosfera evolui durante o dia, dando sinais do que vai acontecer mais tarde. Além disso, o relato indica que o piloto poderia estar utilizando equipamento inadequado para o seu tempo de vôo. O efeito de pêndulo só acontece em equipamentos mais avançados, que devem ser utilizados por pilotos com mais de dois anos de vôo. Pilotos com 30 vôos (pouco mais de quatro meses de experiência) devem utilizar os chamados “parapentes saída de escola”, que não têm esse tipo de reação. E, embora não tenha sido mencionado, há sempre a possibilidade de o piloto usar o pára-quedas de emergência quando a situação sai do controle.

Alfio Vegni Jr., o Sargento, é vice-campeão brasileiro (2007) e diretor de parapente da Federação Gaúcha de Vôo Livre

 

4) Picado por abelhas durante a escalada

Por Ézio Vicente

Aquele domingo de sol de outubro parecia perfeito para escalar. Chamei meus amigos Fábio e Cléber para subir a rocha Visual das Águas, na fazenda Serrinha, entre Bragança Paulista e Piracaia (SP). Como eu era o mais experiente, guiei a subida pela via Urubu Malandro, fiquei ancorado a quase 20 metros de altura e passei a mesma corda para os caras subirem em seguida. Estávamos ali os três, curtindo a paisagem, quando nossa paz foi interrompida por uma abelha, daquelas amarelinhas que gostam de refrigerante.

Justamente naquele dia, não tínhamos trazido o inseticida que sempre carregamos para evitar surpresas desagradáveis com aranhas, escorpiões e marimbondos nas pedras. Bastou meu companheiro matar aquela bichinha para começar o maior pavor da minha vida. Centenas de abelhas surgiram do nada e começaram a nos atacar. Mal conseguíamos pensar, mas sabíamos que precisávamos sair dali o quanto antes.

Foi tudo rápido demais e nem lembro da dor das picadas. Estávamos tomados pelo desespero e começamos a gritar e a nos debater para afastar o enxame. O Cléber foi o primeiro a descer: tomou só oito picadas e, em instantes, liberou a corda. Depois foi o Fábio, já em pânico e fritando a mão na descida. Minha mão direita também ficou em carne viva quando fui baixar do mesmo jeito, já que não dava para ficar mais um segundo naquele inferno. Zumbindo aterrorizantemente, as abelhas cobriram meu corpo, dominaram meu cabelo, entraram pela boca, nariz, orelhas — só ficaram intactas as solas dos pés, por causa das sapatilhas. A uns 4 metros do chão, me joguei numa queda livre até um patamar à beira de um barranco. Estatelado no chão, percebi que tinha, no mínimo, lesionado um tornozelo. E me vi inteiramente pipocado de bolinhas roxas. Só minha mão esquerda tinha 72 picadas. No meu corpo todo, mais de mil! Felizmente, não sou alérgico a picadas.

Mesmo ferido, o Fábio tentou me levantar. Eu estava consciente, mas meu corpo não reagia. Como se eu fosse um bêbado que não sustenta o próprio peso, caí e arrastei o Fábio comigo barranco abaixo. Rolamos machucando ainda mais o corpo nas pedras. Eu tinha certeza de que morreria ali, aos 22 anos. Revi minha vida, pensei em Deus.

Entre a primeira picada e o resgate dos bombeiros que me levaram ao hospital, passaram- se duas horas. Fui direto para a UTI, onde ganhei doses cavalares de cortisona e passei 36 horas sob cuidado de médicos que não entendiam como eu tinha sobrevivido. Totalmente desfigurado, virei a atração dos funcionários do hospital. A quantidade de veneno das abelhas era tamanha que meus rins pararam de funcionar. Minha urina ficou negra. Cinco dias depois eu ainda expeli uma abelha das minhas vias respiratórias. Fui obrigado a passar 15 dias internado até que meu sangue se limpasse e meus rins voltassem a trabalhar.

Saí do hospital querendo escalar. Meu irmão tinha recuperado todo o meu equipamento no paredão, usando roupas especiais de apicultor para enfrentar a fúria das abelhas que continuavam intolerantes com os visitantes. Disseram-me que as abelhas ficaram agressivas depois que algumas queimadas da região acabaram com a morada delas. E eu, que não tinha nada a ver com isso, paguei o pato.

Três meses depois, voltei a escalar. Fiz umas 20 ascensões até que me deparei com marimbondos. Fui tomado por um medo que nunca sentira antes. Até quando vi uma abelha num restaurante tive uma reação exagerada, inconsciente. Foi por isso que decidi dar um tempo nas escaladas outdoor e passei a praticar mais mergulho, tênis e espeleologia. Ainda sonho em escalar. Mas… e se uma abelha aparecer?

 

ANÁLISE PROFISSIONAL: Pela descrição, os rapazes foram atacados pelas abelhas de mel, da espécie Apis mellifera. Quando alguém amassa ou é picado por uma abelha ocorre a liberação de feromônios de alarme, que chamam as outras abelhas para atacar. O objetivo delas é afastar o inimigo do ninho. Se houver muitas abelhas, é porque o ninho está perto. Quando a abelha pica, ela deixa o ferrão e as glândulas de veneno enterradas na pele da pessoa. A abelha morre em seguida, mas o ferrão continua injetando veneno e liberando feromônios de alarme. Neste momento, o mais importante é se afastar, preferencialmente entrando num lugar escuro. Quando as pessoas escalam, têm dificuldades em se afastar do perigo, o que pode provocar até a morte. Ao ser picado, o escalador deve tirar o ferrão com a unha antes de chegarem outras abelhas – se possível, passando folhas molhadas que ajudam a mascarar o cheiro. As abelhas tendem a atacar mais as áreas escuras, como roupas e meias. Os escaladores também devem evitar perfumes que tenham odores fortes. Duvido que inseticida possa ajudar nestes momentos. Depois de picada múltiplas vezes, a vítima deve procurar um médico para checar a possibilidade de uma reação alérgica.

David De Jong é professor-doutor do Laboratório de Genética de Abelhas da Faculdade de Medicina da USP, campus Ribeirão Preto (SP)

Em Portillo, a primeira vez de um esquiador

Você começa calçando botas pesadas, de uns 5 quilos cada uma. Veste os óculos que tapam a cara inteira, depois as luvas grossas, e então agarra os bastões. Protegido por casacos impermeáveis que cobrem até o pescoço, parece um super-herói poderoso. Mas basta dar o primeiro passo para cair: primeiro, na dura realidade de que, nesta empreitada, você está na estaca zero; e depois, cair literalmente. Uma, duas, muitas vezes. No meu caso, seis, só na manhã de estreia. Mas era para pagar mico e aprender a esquiar que eu estava ali, na aula básica da escolinha de Portillo, que já viu o tombo de muita gente desde que foi construída pelo governo chileno nos anos 1940 (posteriormente comprada por norte-americanos, em 1962).

Lição número 1: perca a vergonha. Todo esquiador estreante anda feito um pato. Ou talvez um pinguim, ou como o próprio mico — afinal, os animais estão ali, representados com placas do tamanho de um ser humano na pista El Corralito, repleta de crianças. A rampa diante da porta dos fundos do hotel é uma espécie de jardim da infância também para marmanjos como eu. A segunda aula era óbvia. “Levante a coluna, olhe para a frente, flexione os joelhos, relaxe os ombros”, dizia o instrutor. Nada fácil fazer tudo isso ao mesmo tempo… Era preciso imitar as crianças, que não têm medo e, em nome da diversão, se jogam.

Eu havia alugado os equipamentos na tarde anterior, um sábado, quando começam os pacotes semanais. Mas passaria só quatro dias: como Portillo está no meio do caminho entre Santiago e Mendoza, na Argentina, aquela seria apenas uma parada naquelas férias para degustação dos melhores vinhos latinos. Os quase 3 mil metros de altitude me deixaram sonolento, sem fôlego até para subir escadas, e decidi tirar a primeira tarde para alugar acessórios e conhecer o hotel. Queria descobrir refúgios para o caso de perceber que esqui não era para mim. E achei a piscina, a sauna, as aulas de ioga… Aproveitei também para contratar os professores: teria três aulas coletivas e uma particular, com tempo livre para treinar sem monitores.

Era grande a pressão naquela primeira aula, no domingo. Com as condições climáticas ideais — céu azul de setembro, oito da manhã, 5° C, sol ainda manso e 90 centímetros de neve na base —, invejei não só as destemidas crianças que desciam voando a um centímetro de mim na pista El Corralito, mas também o colorido balé que eu via nas pistas azuis, vermelhas e pretas no alto da montanha, onde deslizavam até os profissionais das seleções norte-americana e canadense de esqui. E eu ali, caindo, levantando e aprendendo pacientemente o beabá de frear, fazer curva e ziguezaguear. E me questionava: quando vão me deixar subir no teleférico e esquiar lá no alto?

No segundo dia, tive duas boas surpresas: ser promovido para a pista La Princesa — onde, em vez de usar uma esteira rolante lenta como a de El Corralito, eu subia esquiando em pé puxado por um lift chamado Va et Vient até poder descer esquiando em uma pista mais íngreme — e o convite para conhecer o restaurante Tio Bob’s, no alto da montanha. Para chegar lá, eu subiria no teleférico, finalmente. “Portillo é uma estação pequena, familiar, e vai continuar assim”, disse o proprietário Henry Purcell, que conheci no restaurante. “Para garantir a qualidade dos serviços, não queremos crescer.”

A frase de Purcell era uma resposta a quem reclama do fato de que, diferentemente de outras estações, Portillo não tem prédios variados e modernos, mil pistas ou um centrinho urbano para badalar. Mas a proposta daquela espécie de transatlântico amarelo atracado na imensidão branca dos Andes é mesmo essa: ser uma espécie de navio familiar. Quando voltam da pista, os esquiadores se encontram em incríveis piscinas aquecidas ao ar livre bem diante da congelada Laguna del Inca. Nos dois restaurantes, os hóspedes sentam-se à mesma mesa e são atendidos pelos mesmos garçons em todas as refeições. Come-se muito. E bem. Para ser um cruzeiro, só faltam o mar e o cassino.

 

Alcancei a glória no último dia. O instrutor considerou-me apto a pegar o teleférico novamente e descer esquiando a pista verde mais difícil, a El Puma. Agora sim: desci cambaleando da cadeira, endireitei o corpo, controlei a velocidade, fiz o zigue-zague direitinho — embora, preciso confessar, tenha levado um último tombo. Mas, com aquela falta de vergonha típica das crianças, levantei e desci destemido, sentindo o vento e o êxtase de surfar no oceano de neve. Tirei a roupa de Robocop e relaxei os pés aliviados na piscina diante do lago. No jantar, é claro, brindei o sucesso da minha primeira vez retomando a proposta original da viagem: tomando um bom vinho chileno.

PANORAMA

Portillo concentra suas 30 pistas, acessíveis por 14 meios de elevação, no entorno de sua única base, o Hotel Portillo, a 2.880 metros. Fica na imensidão branca dos Andes, bem no alto dos “caracoles”, trecho da espetacular estrada em zigue-zague que leva à burocrática travessia fronteiriça entre o Chile e a Argentina.

ESTRUTURA

Tem pistas para todos os níveis: as crianças se divertem na El Corralito, os diletantes passeiam na El Princesa e os experientes descem a El Puma. Como não há centro urbano por perto, a diversão está toda ali: sauna, bares, sala de internet, quadras. E o melhor: piscinas aquecidas e ao ar livre.

TEMPORADA

De junho a setembro

 

COMO CHEGAR

O próprio hotel pode programar o traslado desde o aeroporto de Santiago, a 164 quilômetros (duas horas). Ônibus para Mendoza, na Argentina, também a duas horas, param diante do hotel se combinado com antecedência.

 

ONDE FICAR

Com 123 apartamentos, o Hotel Portillo (tel. +562/263-0606, skiportillo.com) tem uma decoração antiquada, mas cheia de clima. Uma semana custa a partir de 1.700 dólares por pessoa. Já os lodges Octagon e Inca, com quartos e banheiros compartilhados, podem sair por menos da metade — com direito a usufruir da completa estrutura do hotel.

 

Publicado na revista TAM Nas Nuvens de dezembro de 2011.

Nas montanhas do Grand Canyon

Todas as pessoas do mundo deveriam conhecer o Grand Canyon. Nem que fosse por um dia na vida, só para acompanhar a rotina curiosa de um vilarejo no meio do deserto do Estado do Arizona, no sudoeste dos Estados Unidos, em sua reverência à natureza fascinante do lugar. Noite ainda, por volta das 5 da manhã, grupos de viajantes deixam seus hotéis e acampamentos na Vila do Grand Canyon e seguem para o alto dos paredões. Vão observar um nascer do sol especial, em que os primeiros raios são jogados num buraco gigantesco onde os cânions foram cavados dentro de outros cânions, milhões de anos atrás. Suas cores variam em tons de vermelho, amarelo e verde à medida que são banhados pela luz. Silêncio, contemplação. Aqui, a natureza é tão grandiosa que faz todo mundo se entender como uma parte minúscula de um universo imenso e intrigantemente belo.

“As pessoas ficam assim fascinadas porque esse é um lugar sagrado”, diz, em tom de segredo, a sempre sorridente guarda-florestal Phyllis Yoyetewa, uma gordinha de 40 anos que trabalha no centro de visitantes da vila. Yoyetewa é uma autêntica nativa norte-americana, de olhos puxados, pele morena e cabelos negros escorridos até a cintura, que trabalha há dezessete anos no Parque Nacional do Grand Canyon. Poucos dos 2500 habitantes da vila, base para quem visita os principais mirantes do lugar, nas bordas Sul, Leste e Oeste, conhecem as preciosidades do Grand Canyon como essa descendente direta dos hopis, uma das sete tribos que já habitaram o Grand Canyon. “Para minha gente, todas as pessoas desceram para esse mundo por um buraco no céu que fica bem acima do Grand Canyon”, conta ela. “É para o Canyon que os espíritos das pessoas seguem quando elas morrem.”

Sagrado para índios nativos e deslumbrante para brancos de todas as partes do mundo, o Grand Canyon ganhou o título de uma das sete maravilhas naturais do mundo por ser o exemplo mais gritante do poder da erosão em forma de espetáculo geológico. As cores das dezenas de estratos visíveis em suas rochas surpreendem os geólogos com evidências de formações pré-cambrianas de 2 bilhões de anos, mas o período de formação do cânion é recente para a ciência. Faz apenas 5 milhões de anos que as águas arrasadoras do Rio Colorado cavaram abismos nas rochas daquele deserto. Quem desce dos mirantes e caminha até o rio ou as cachoeiras da Reserva dos Havasupais – última tribo que ainda vive dentro do Grand Canyon, fora dos 4 950 km2 que delimitam o parque – fica marcado para sempre pela imagem desse recanto tão desafiador ao homem.

A experiência de conhecer o Grand Canyon selvagem é tão marcante que tem sido estimulada. Por ser um cenário único no planeta, o parque recebe cada vez mais visitantes – foram 4,5 milhões em 1998. Desde o século XIX, quando os primeiros brancos chegaram ali e descobriram que aquelas reentrâncias indígenas não serviam para ser minas de cobre e amianto, como se pensava, o turismo virou um meio de vida. O parque foi criado para preservar os cânions, em 1919, mas a supervisitação ameaça agredi-lo. O plano de manejo, de 1995, estabeleceu que a visitação deve ser mais ecológica a partir do ano 2000.

Só 1% de aventureiros. Diferentemente do que acontece nos picos do verão americano, em junho e julho, quando a vila fica lotada, espera-se que a partir do ano que vem as pessoas andem menos de carro, caminhem mais e se distribuam por uma área maior. “Queremos que todos tenham tranqüilidade de assistir a um pôr-do-sol e observar os animais em silêncio”, diz Sandra Perl, relações-públicas do parque. Atualmente, menos de 1% dos visitantes se aventura por alguma trilha. Lugares distantes como a Borda Norte, a cinco horas de carro da vila, raramente são visitados.

As proporções do Grand Canyon são assustadoras: 4950 quilômetros quadrados, ou 443 quilômetros de paredões ao longo do Colorado. A largura do menor dos cânions, o belo Marble Canyon da capa desta edição, avistável na Borda Leste próximo à reserva dos índios navajos, é de 180 metros. Toda a área do parque está dentro do Estado do Arizona, mas suas continuações invadem o Estado de Nevada, no oeste, e os outros três Estados que formam com o Arizona a desértica paisagem das Four Courners, ou Quatro Esquinas americanas: Utah, Colorado e Novo México.

A riqueza arqueológica do Grand Canyon também impressiona. Graças a 3500 itens encontrados em apenas 3% do parque, como pequenos cavalos de madeira feitos de ossos e gravetos, já se sabe que a presença humana data de muito antes da descoberta da América pelos brancos espanhóis, no século XV. Os primeiros povos do Grand Canyon, chamados de anasazis e cohoninas, estiveram ali há 10000 anos e são os antepassados diretos dos hopis, a tribo da guarda-florestal Yoyetewa. Os chamados Pueblos – ruínas de pequenas casas onde esses índios viviam e guardavam as produções de milho, feijão e abóbora – podem ser vistos até hoje no Museu Tusayan, na Borda Leste, e nas ruínas que ficam ao lado do Rancho Fantasma, para onde seguem os aventureiros do Grand Canyon. Só quem desce até o fundo do Grand Canyon tem idéia de como deve ter sido dura a vida dos primeiros índios.

Falta sombra, e não há de onde extrair água na trilha de South Kaibab, que leva à beira do Rio Colorado. No verão, a temperatura desse ponto semi-árido do Arizona começa em 29 graus, no alto do platô, e esquenta conforme os ventos diminuem no fundo dos paredões. A temperatura média no Rancho Fantasma, como é chamada a vila de dezessete pessoas no final da trilha, é de 40 graus. Neste lugar, o ar é tão seco que o corpo parece não produzir suor nem saliva.

A paisagem da descida faz lembrar os filmes de bangue-bangue: paredes de pedra alaranjada de formas estranhas, cactos, trilhas estreitas de pedra e terra ziguezagueando à beira dos abismos. Quem desce montado nas mulas de aluguel passa mais medo nos cotovelos dos despenhadeiros (e se o cavalo tropeçar?!) mas cansa bem menos as pernas. No caminho, as formas de vida surgem esparsamente: muitos lagartos e esquilos, alguns veados, águias e corvos vez por outra. Raros, mas presentes, são os coiotes, as cobras e os escorpiões. Triste é chegar lá embaixo num dos freqüentes períodos em que o caudaloso Colorado desce barrento por causa das chuvas. Nessas épocas, o banho em seus pequenos afluentes não refresca muito e é preciso ferver ou potabilizar a água antes de bebê-la. Quem tiver feito reservas com antecedência no chamado Phantom Ranch ganha, como recompensa, lugar para comer, dormir e tomar banho.

Considerado um dos mais extensos rios do mundo, o Colorado é uma espécie de pai criador do Grand Canyon, já que foram suas águas que esculpiram esses e outros cânions norte-americanos. Apenas um sexto de seus 2333 quilômetros, porém, passa dentro do Grand Canyon. Nascido nas Montanhas Rochosas do Estado do Colorado, o rio recebe água de sete Estados e deságua no Golfo da Califórnia, já no México. Quando passa ao lado do Rancho Fantasma, ele tem 90 metros de largura e corre com força, trazendo muitos dos grupos que fazem as descidas de rafting a partir da Represa de Glen Canyon, 24 quilômetros a nordeste do parque, na região da cidade de Page. Alguns botes param para descansar próximo ao Rancho Fantasma, num dos intervalos das expedições fluviais que podem durar dias.

Peixes em extinção. A importância do Colorado para o Grand Canyon é tamanha que, nas últimas três décadas, os ecologistas travaram uma guerra contra a Represa de Glen Canyon. Ao ser criada, a barragem alterou as características do rio, controlando seu fluxo. A água ficou mais gelada, as enchentes naturais deixaram de acontecer e os sedimentos trazidos pelas correntezas diminuíram, alterando a rotina dos peixes acostumados com a dança natural do Colorado cânion abaixo. Os estudos que avaliam quanto o ecossistema pode ter sido prejudicado ainda não foram concluídos. Já se sabe, no entanto, que os peixes são as espécies do Grand Canyon mais ameaçadas de extinção. A outra ameaça vem do ar. A poluição por dióxido de enxofre dos centros urbanos das cidades próximas tem prejudicado, cada vez mais, a visibilidade do horizonte dos cânions a partir dos mirantes.

No fundo do Grand Canyon só se enxerga um céu muito azul, durante o dia, e totalmente estrelado, quando a noite se aprofunda. Um quadro preparado pelos guarda-parques deixa sempre exposto o desenho das estrelas a cada mês, para que os vitoriosos possam divertir-se à noite, deitados no gramado. Pouca gente agüenta ficar no forno que é o Rancho Fantasma por mais de duas noites. A partir dali, um caminho pode levar para a Borda Norte, pela trilha de North Kaibab. Outro, mais comum, segue para a Borda Sul, pela trilha de Bright Angel. Mais uma vez, o ritual das pessoas caminhando antes do nascer do sol se repete. No caso das trilhas, o objetivo é andar o maior tempo possível sem enfrentar o sol a pino.

De tão íngreme, a metade final da Bright Angel, antes da chegada ao centro histórico da Vila do Grand Canyon, parece um ensaio da subida ao purgatório. Incrível é que os funcionários do Rancho Fantasma repetem aquelas trilhas a cada dez dias. Isso porque só há duas outras maneiras de descer até a beira do rio: de mula ou de helicóptero. Os vôos são a única alternativa para carregar cargas que as mulas não agüentam.

De acesso tão difícil quanto o Rancho Fantasma é a Reserva dos Havasupais. É preciso dirigir pelo menos três horas desde a Vila do Grand Canyon até o Alto da Colina dos Hualapais. Fica ali um estacionamento e um trailer, que serve de escritório para um índio solitário que organiza as descidas a cavalo. No final da trilha de 12,8 quilômetros até a Vila Supai moram 450 dos 650 membros que restaram da última tribo que ainda vive isolada dentro do Grand Canyon. As outras comunidades indígenas que ficam nos limites do parque estão na parte alta dos paredões. A Vila Supai é formada por pequenas fazendas de casebres de madeira, um restaurante, um hotelzinho e um camping. Há ainda uma igreja evangélica, onde o casal de missionários Scott e Lynanne Palmer tem dedicado os últimos vinte anos de suas pregações para traduzir o Novo Testamento da Bíblia para a complicada língua havasupai.

Arredios a câmeras fotográficas e bem reticentes antes de qualquer aproximação, os havasupais conversam entre si na própria língua. São ressentidos porque a reserva criada para eles pelo governo norte-americano, em 1882, só lhes deixou uma parte mínima da área original. “Perdemos até a nossa montanha sagrada”, lamenta Jerry Wescogame, 57 anos, que toma conta do único camping da vila. Jerry é um dos raros índios que se dispõem a conversar. “A montanha era o lugar de nossas cerimônias, que hoje não acontecem mais.” Além da festa dedicada à colheita do pêssego, em agosto, os únicos eventos tradicionais mantidos pelos havasupais são as sessões de cura, que acontecem em casebres fechados e cheios de vapor, tão quentes quanto as saunas.

Os havasupais assimilam cada vez mais a cultura dos brancos. Os jovens vestem camisetas dos times de basquete, ouvem rap, fazem rodas de rodeio e grafitam as paredes da única escola local – onde se aprende tudo em inglês e em havasupai. Os mais velhos se orgulham de sua língua, de sua terra, de hábitos tradicionais como o de nunca dizer tchau. “O Grande Canyon é nossa casa”, diz Jerry. Até hoje, os paredões de vegetação baixa e seca dos arredores de Supai são cenário da busca dos cavaleiros por bichos de caça, como o veado e o carneiro montês. Além da caça e da agropecuária, a pobre economia do lugar é sustentada pelo ecoturismo crescente: muitas famílias vivem de trocados recebidos para orientar os visitantes na viagem a cavalo do Alto da Colina até a vila da tribo.

Voar é para as aves. Assim como no Rancho Fantasma, as formas de acesso de visitantes e de carga ao enorme corredor abafado da Vila Supai se restringem a caminhadas, cavalgadas e vôos de helicóptero. São só dez minutos de vôo até o Alto da Colina, mas que oferecem um visual impressionante. Os índios, no entanto, não são chegados às hélices. “Na única vez em que voei, passei mal e vomitei”, conta Clayton Watahomigie, 45 anos, um índio caladão que trabalha com Jerry no camping. “Voar é para os pássaros”, conta. Watahomigie prefere usar as próprias pernas para chegar, com seus filhos, às quatro cachoeiras mais belas do Grand Canyon, que ficam 4 quilômetros ao sul da vila e deságuam no Rio Colorado. A mais bela é a Mooney Falls, com 60 metros de altura, acessível por uma trilha bela e perigosa. Num desfiladeiro onde foi colocado um cabo de aço para segurança, passa-se até por uma caverna para chegar à beira do riacho. Suas águas em tons de verde e azul deram origem à palavra havasupai, que significa povo das águas verde-azuladas. Um banho ali – antes, durante ou depois de mais um nascer ou pôr-do-sol inesquecível – recompensa pela trajetória dura de quem se aventurou a conhecer as raízes mais profundas e marcantes do Grand Canyon.

 

AS MELHORES TRILHAS DO ARIZONA

Apenas 52,8 dos 800 quilômetros de trilhas do Grand Canyon são abertos aos visitantes, em caminhos já bem pisados. E ninguém pode dizer que experimentou a imensidão da maior riqueza do Arizona se não tiver percorrido pelo menos algumas delas. Destacamos em vermelho, ao lado, as sete principais trilhas, com detalhes das três mais desafiadoras, que ligam as bordas ao Rancho Fantasma, no fundo do cânion. Em todas, é impreterível que se leve muita água, alimentos energéticos e quase nenhum peso. O parque nacional é cercado pelos pinheiros da gigantesca Floresta Nacional de Kaibab, ao norte e ao sul, e por três áreas indígenas, como se vê no mapa abaixo. A reserva dos navajos, maior tribo norte-americana, fica no leste e protege também o território dos hopis. A dos hualapais beira os paredões do sudoeste, enquanto a dos havasupais avança ao fundo do cânion no centro-sul.

BRIGHT ANGEL – 12,4 km

Feita em sete horas, é mais usada por quem sobe do Rio Colorado ao alto da Borda Sul, no centro histórico da Vila do Grand Canyon. A primeira metade é sombreada e embelezada pelo rio. Há até dois pontos para beber água. A última parte é exaustiva, com uma longa e íngreme subida em ziguezague.

SOUTH KAIBAB – 9,7 km

Usada freqüentemente por quem desce ao Rio Colorado, a trilha parte do Yaki Point, na Borda Leste, não oferece água nem sombra e é percorrida em pelo menos quatro horas. Com ladeiras íngremes de chão de pedra e terra, exige bastante das pernas, que têm que controlar o peso do corpo.

NORTH KAIBAB – 23,3 km

Longa e cansativa, liga o Rancho Fantasma à isolada Borda Norte. Os mais preparados usam-na como parte da travessia de 34 quilômetros desde a Borda Norte, com suas cachoeiras, ao alto dos paredões no outro lado do rio, nas bordas Sul e Leste, pelas trilhas de South Kaibab e Bright Angel.

 

UM CAMINHO ALTERNATIVO PELA ROTA 66

Mais lendária das rodovias norte-americanas, a Rota 66 beira o Grand Canyon em parte do caminho de 320 quilômetros que liga o portão principal do parque à reserva dos índios havasupais. A fama da primeira estrada dos Estados Unidos que interligou as costas do Atlântico e do Pacífico nasceu das viagens de sonho até a Califórnia, feitas depois da Depressão americana da década de 30, e das aventuras de hippies e de motoqueiros depois dos anos 50. Com o crescimento de outras vias, a highway foi abandonada. Os 50 quilômetros que passam por Williams e Seligman, ladeados por imensas planícies e por uma velha estrada de ferro, fazem parte do raro trecho da 66 que preserva sua memória. E adiciona um molho especial ao Grand Canyon.

 

O VER E O VIVER

Há um abismo do tamanho do Grand Canyon separando a experiência de vê-lo da sensação de vivê-lo. Quem observa a seqüência de cânions mais famosos do planeta a partir dos mirantes se emociona e se cala diante de tamanha grandeza. Quem, porém, caminha até seu fundo, conhece a força do Rio Colorado, visita a última tribo de índios e se deslumbra com os 60 metros de altura da Mooney Falls (foto). E volta marcado para sempre pela beleza de um dos recantos mais desafiadores que o homem já conheceu.

 

O VIVER E O MORRER

O encantamento desse lugar cheio de lendas atrai os amantes da natureza até a beira de seus abismos. Em locais como a Borda Leste (foto da esquerda), os desfiladeiros medem 1600 metros até o fundo, numa altitude de 2400 metros acima do nível do mar. O desmoronamento de caminhos tortuosos como a trilha de South Kaibab (à direita), no entanto, já matou muitos desbravadores do passado. Ainda em 1998, dezessete pessoas morreram supreendidas pela imprevisibilidade da mesma natureza que enche o lugar de vida.

 

COMO SE PREPARAR

Nos Estados Unidos, as viagens são programadas com um ano de antecedência. Para encontrar vagas e pagar menos deve-se reservar tudo antes, com cartão de crédito internacional. Pela internet, a melhor opção, acesse o site www.thecanyon.com/nps Por telefone, ligue para (00211) 602 638-2401 para reservas no parque. Para ir à Reserva dos Havasupais, ligue para 602 448-2111.

COMO CHEGAR

A rota mais fácil para quem parte do Brasil é via Los Angeles, no sul da Califórnia. De lá siga para Las Vegas, no Estado vizinho de Nevada. Um último vôo, da Scenic, leva passageiros até o pequeno Aeroporto de Grand Canyon, em Tusayan, com direito a vista panorâmica sobre os cânions. Quem preferir a viagem de carro vai rodar 919 quilômetros desde L.A. até o parque, ou 447 quilômetros desde Las Vegas. A partir de Phoenix, já no Arizona, que também tem aeroporto, a viagem percorre 362 quilômetros. Dá para chegar também por Flagstaff, a 129 quilômetros. Todas as estradas são bem asfaltadas, mas faltam placas em algumas delas. No centro de visitantes da vila pode-se conseguir mapas e todo tipo de informação.

QUANDO IR

A temperatura é mais agradável entre março e outubro, mas nos meses de junho e julho, no verão americano, tudo lota. No final do ano, a neve diferencia as paisagens mas impede as caminhadas. Melhor evitar.

ONDE VER O SOL

O sol se exibe em dois espetáculos diários na Vila do Grand Canyon. Os bons mirantes para ver o pôr-do-sol, porém, não são os mesmos onde se fotografa seu nascer.

AMANHECER

Mather, Yaki, Yavapai, Lipan

ENTARDECER

Hopi, Mojave, Pima, Desert View

COMO CIRCULAR

Os mirantes das bordas Sul, Leste e Oeste ficam na Vila do Grand Canyon e são acessíveis de carro ou em ônibus circulares. Na Borda Norte só se chega de carro ou andando muito. Além das duras caminhadas, é possível conhecer as profundezas do Grand Canyon num rafting no Rio Colorado (acima à esquerda), que pode durar de três dias a um mês, em sobrevôos de helicóptero na Borda Leste e na Reserva dos Havasupais (foto do meio) e em lombo de mula e cavalo (à esquerda).

ONDE FICAR

Dentro do parque, na Vila do Grand Canyon, há três campings e seis hotéis — os dois mais baratos são o Yavapai Lodge e o Maswik Lodge, de US$ 80. Outros oito hotéis, como o Moqui Lodge (foto), e três campings ficam em Tusayan. No Rancho Fantasma, vale a pena pagar pelo único alojamento, só para não ter que carregar a barraca. Para acampar dentro do parque é preciso uma autorização especial na vila. Quem visitar a Reserva dos Havasupais só contará com um alojamento e um belo camping (foto), entre paredões estreitos, ao lado do rio e das cachoeiras.

COMO GASTAR MENOS

O Grand Canyon é um lugar caro. Pelo menos para os viajantes que preferem os hotéis e vão gastar em diárias no mínimo US$ 80. É possível, porém, fazer uma viagem econômica acampando por diárias de US$ 10. Levar a barraca facilita na hora de conseguir um lugar para dormir sem reserva antecipada. Alto também é o preço cobrado pelas duas locadoras de carros em Tusayan, cidadezinha que tem até McDonald’s e fica a 6,5 quilômetros da entrada principal do parque. Tanto a Enterprise quanto a Dolar cobram cerca de US$ 50 a diária. Quem alugar em outras cidades pagará até US$ 20 a menos.

DICA DO AUTOR

“Apesar da boa infra-estrutura do parque, não esqueça que o Grand Canyon está em pleno Deserto do Arizona. Mercados e postos de gasolina parecem miragens, principalmente nas viagens de carro até a Borda Norte e a Reserva dos Havasupais. Melhor se abastecer sempre.”

Daniel Nunes Gonçalves

7 lições numa sala de aula selvagem

Era uma noite quente de setembro à beira de um abismo da serra Ricardo Franco, uma desconhecida preciosidade ecológica no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, na fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Durante o dia, os termômetros superavam 40 graus, e a expedição de 13 jovens e três instrutores havia sofrido para encontrar míseros 16 litros de água escura para saciar a desesperada sede. Aqueles primeiros dias de uma sessão de trekking de 90 quilômetros que duraria um mês tinham deixado o grupo cansado. Todos já se preparavam para dormir quando um pânico coletivo se instaurou. Um exército de milhares de formigas saúvas se espalhou, devorando, como num filme de horror, as mochilas, as roupas e até as barracas. “Parecia um pesadelo, começamos a sofrer com as picadas e corremos para desmontar o acampamento”, conta o paraibano Edmilson Fonseca, 32 anos, o único brasileiro entre os estudantes do segundo curso-expedição realizado no Brasil pela norte-americana Nols (National Outdoor Leadership School), a mais respeitada instituição de ensino experiencial ao ar livre do planeta. “Acampo desde os 13 anos, quando era escoteiro, e nunca tinha visto uma cena daquelas”, contou.

A recepção nada amigável das saúvas era o inesperado “batismo” de boas-vindas do cerrado brasileiro ao grupo dos Estados Unidos, a maioria com idade entre 18 e 20 anos, que tinha co- meçado sua viagem na Chapada dos Guimarães (MT), sede da Nols no país. O episódio foi usado como lição sobre onde acampar, e se juntou ao caldeirão de ensinamentos da escola. Ao longo de três meses, Edmilson, o felizardo ganhador da única bolsa de estudos anual da Nols destinada a brasileiros, cruzaria com seus colegas de classe a Amazônia de sul a norte numa sala de aula selvagem, gigante e diferente. Durante a expedição, os alunos aprendem técnicas de trekking e canoagem com instrutores conceituados. Conhecem a diversidade cultural do país por meio da convivência com caboclos, índios, quilombolas e seringueiros. E têm acesso a uma grade curricular feita sob medida para amantes das atividades outdoor. Ela pode ser resumida em sete lições básicas, que passamos adiante nas próximas páginas.

 

1a LIÇÃO: APRENDA A ACAMPAR

Foi no 22o dia da expedição, na ilha do Boto, próxima a Vila Bela, que me integrei ao grupo e ouvi os relatos sobre o ataque das saúvas e a falta d’água na serra. O acampamento tinha quatro barracas, uma para cada grupo de quatro alunos e outra para os três instrutores (dos oito que se revezariam ao longo do curso). A lua cheia já prateava o caudaloso rio Guaporé diante de nós e o astral da galera fazia lembrar minhas viagens da adolescência, 20 anos atrás. Vi-me ali, parecido com o ruivinho de 18 anos do estado do Oregon, Seth Walton, que tocava Radiohead no violão enquanto a turma assava um bolo no fogareiro — sim, bolo, é possível. Em seguida, rolaria um “Parabéns a você” bilíngüe pelo aniversário de 50 anos do chefe dos instrutores, o britânico Jonathan Kempsey, ou Jon. Meus dez dias ali prometiam ser uma mamata.

Eu achava que sabia viajar e que já conhecia as principais manhas do excursionismo e do camping selvagem. E me frustrei logo que tive minha mochila de 65 litros checada pelos instrutores, procedimento pelo qual já tinham passado os alunos no início da caminhada. A idéia era que eu não carregasse peso desnecessário e pudesse levar panelas, comida, cilindro de benzina inflamável para o fogareiro e parte do equipamento do grupo dos instrutores, ao qual eu me integraria e com quem eu dividiria refeições. De repente, foram tirados da minha mala papel higiênico, sabonete, minixampu, toalha e tênis extra. Até canivete, capa de mochila, garfo e faca dançaram. Fui obrigado a seguir viagem com apenas duas peças de cada tipo de roupa — cuecas, meias, calças e camisetas — e uma única colher. Canivete, bastaria o do instrutor.

Um pouco contrariado, cá entre nós, burlei a fiscalização carre- gando um desodorante compacto no bolso lateral e decidi assimi- lar as outras instruções. Primeira regra: os rios no caminho seriam nossas banheiras naturais, assim como serviriam para lavar a roupa suja e a louça das refeições (embora a bucha e o detergente também fossem artigos vetados, tendo seus efeitos desengorduran- tes substituídos pela areia e pelas folhas das árvores). “E na hora de ‘ir ao banheiro’, como faço?”, perguntei. “Para quê o papel?”, responderam. Primeiro, seria obrigatório vestir os gaitors, aquelas polainas para proteção das pernas contra picada de cobras. Depois de definido o esconderijo a pelo menos 60 metros do rio, eu deveria usar uma pequena pá coletiva para cavar um buraco, onde o “produto” seria enterrado, evitando a atração de moscas. A limpeza seria feita com água. E só. No fim, as mãos seriam lava- das com desinfetante. Ao longo dos dias seguintes, criaria minha própria rotina de tomar banho logo depois de “usar o banheiro”, e aprenderia outros macetes para uma viagem ecológica e social- mente correta, o que não foi tão fácil assim.

 

2a LIÇÃO: SAIBA LIDERAR

Com 42 anos de tradição, a Nols foi criada com a idéia de for- mar bons instrutores de educação ao ar livre. “Acreditamos que o formato de expedição é o que melhor permite o exercício da liderança”, diz o norte-americano Atila Rego-Monteiro, 41, que coordena a nova Nols Amazon e foi um dos responsáveis pela vinda da escola ao país. Filho de um diplomata brasileiro e uma imigrante alemã, ele foi quem mais vibrou quando, sete anos atrás, uma pesquisa entre os alunos apontou que a Amazônia e a Nova Zelândia eram as novas locações preferidas para serem incluídas no menu de destinos da escola. Era o que ele precisava para articular a operação, resgatando suas raízes verde-e-ama- relas e impulsionando no país uma idéia pela qual ele tinha se apaixonado em 1992. O conceito de educação outdoor começou a ser difundido por aqui em 2000, com a chegada da Outward Bound, escola inglesa pioneira no tema há 65 anos e que inspirou Paul Petzolt a criar a Nols nos Estados Unidos (leia quadro). Apesar de concorrentes, as escolas têm instrutores em comum e objetivos parecidos. Quem já cursou as duas considera a OBB (Outward Bound Brasil) mais voltada para o desenvolvimento pessoal — quase um degrau de acesso à Nols, respeitada pelo aprofundamento técnico.

“Uma das coisas mais excitantes em um curso novo como este é saber que estamos passando por lugares que quase não foram explorados”, definiu Peter Carr, 19, um estudante de história do Novo México que acampara com a Nols no Wyoming quando tinha 14 anos. “É mais emocionante saber que a rota é desconhecida até pelos instrutores”, continua Peter, que ganhou o apelido de Pedro (todos os alunos da Nols Amazônia ganham nomes aportuguesados) e que, aficionado pela Segunda Guerra Mundial, passou os 82 dias da expedição vestindo um uniforme verde-musgo original de um soldado norte-americano. “Nos Estados Unidos, as escolas repetem os mesmos percursos há décadas”, lamenta seu colega Thomas Loftis, 19, estudante de antropologia do Colorado que fizera um curso da Outward Bound anos atrás.

Os cenários brasileiros foram diferentes nas duas primeiras expedições, e a edição de 2008 também deve ter novidades. Em 2006, outros 13 jovens passaram pelo Pantanal, remaram nos rios Aripuanã e Madeira, e fizeram a expedição final, que sempre acontece sem instrutores, na serra Curicuriari, em São Gabriel da Cachoeira (AM), perto de Manaus. Ano passado, os pântanos deram lugar ao cerrado da serra Ricardo Franco, em Vila Bela, onde aconteceu o trekking. Depois, o grupo voltou à base da Nols na Chapada dos Guimarães, reorganizou comida e equipamento e seguiu viagem de dois dias em ônibus até o ponto do rio Juruena onde começaram os 600 quilômetros de canoagem, ao longo de quatro semanas, também pelo rio Tapajós. De Santarém, voaram à Venezuela para a expedição de volta ao Brasil, ao longo de uma semana pelo monte Roraima. Curiosamente, os rios Aripuanã e Juruena ficam em localidades remotas na rota dos maiores desmatamentos criminosos do país — tanto que as cidades homônimas à beira desses rios registram algumas das maiores taxas de homicídios por causas ambientais.

Foi exatamente com esse objetivo — delinear um roteiro desa- fiador tanto por terrenos remotos de difícil navegação como por rios com corredeiras de alto nível — que a cúpula da Nols brasilei- ra realizou dez viagens de prospecção, como pelo Pantanal (MT) em 2002 e pelo rio Roosevelt (PA) em 2003. Foi nessa expedição de 25 dias que o instrutor Jon tomou um choque de um peixe elétrico que poderia ter sido fatal. Além de Jon e do comandante Atila, estavam no grupo outros figurões respeitados da escola: o canadense Jim Chisholm, que passou os últimos 25 anos (do total de 50) trabalhando para a escola e acumula 480 semanas em campo — o equivalente a nove anos dormindo em barracas! —; o paulista Flávio Kunreuther, 38, um dos instrutores de remo da expedição de 2007, também instrutor OBB; e o também paulista Fábio Raimo de Oliveira, 39, o primeiro brasileiro a se tornar instrutor da Nols internacional, em 1998. Como se não bastasse ter o emprego dos sonhos de quem ama o universo outdoor, essa turma tem a vantagem de poder programar suas próprias expedições de professores bancadas pela Nols como uma espécie de treinamento. E, no início de cada ano, eles têm a chance de propor em quais países e com quem gostariam de expedicionar.

 

 

3a LIÇÃO: CONVIVA BEM COM O GRUPO

Nas conversas de trilha, percebi que o grupo era mais diversificado do que eu imaginava. Os objetivos eram distintos e mui- tos ali não tinham experiência alguma na natureza. Era o caso do economista Alex Melnyk, um gordinho de 26 anos que nunca tinha acampado antes de se licenciar do trabalho, num banco de investimentos em Chicago, para conhecer a Amazônia. Ele viajara com a idéia de transferir as lições de liderança outdoor para os negócios. No primeiro dia de caminhada pela serra, quando teve de subir pedras durante cinco horas em meio ao calor abafado pelas nuvens das queimadas da região, Alex penou um bocado. “Achei que não fosse agüentar”, contou, com o nariz avermelhado em conseqüência de uma irritação causada pelo medicamento antimalárico obrigatório.

Apesar da pouca idade, a loirinha Rebecca Stone, a Becca, de 19 anos, trazia a experiência de ter passado os últimos verões de Idaho reparando trilhas em parques norte-americanos, e desem- barcou no Brasil com a intenção de trabalhar monitorando ati- vidades outdoor. Porém, ninguém tinha pretensões mais ousadas que Edmilson Fonseca, o bolsista que organiza uma das corridas de aventura mais antigas do Brasil, o Desafio Costa do Sol, e que há sete anos planejava fazer o curso. “Meu sonho é ser um instrutor da Nols”, confessou Edmilson, que já escalou montanhas como o Mont Blanc europeu e que pediu demissão da escola de inglês onde dá aula para viajar à Amazônia. Ele sabe que ser instrutor é ter a chance de viajar por alguns dos mais alucinantes refúgios naturais do planeta, com despesas pagas, salário razoável e a chance de virar fera em modalidades outdoor presentes nos cursos, como rafting, esqui, espeleologia e vela — além de trekking e canoagem.

Mesmo com históricos e objetivos distintos, os 13 alunos aprenderam que todos os grupos passam por processos semelhantes de integração que incluem a formação, o conflito, o desempenho e a transformação. Para que se preparassem para a expedição final do curso, os viajantes tiveram uma rotina permeada por aulas que poderiam ser úteis a executivos, como processos de tomada de decisão, a esportistas, como técnicas para fazer nós, e também que poderiam ser ensinadas por nossas avós, como costurar os furos feitos pelas saúvas na barraca e preparar deliciosos bolos e pães assados. “Este é um curso que ensina o valor das coisas sim- ples”, define Atila, líder também no trecho da canoagem. Nesse aprendizado empírico, o cronograma de aulas se altera conforme o temperamento do grupo e do clima, e cada aventureiro é responsável por carregar caderno, caneta e um livro da biblioteca Nols da Chapada. Os alunos se concentram para ler em qualquer tempo livre, como o descanso nas caminhadas ou a espera por um barco ou um ônibus em meio aos traslados.

Dinâmicas coletivas são parte fundamental do método de ensino. As rodas de conversa que acontecem ao menos duas vezes ao dia alternam os integrantes dos subgrupos e revezam os líderes, evi- denciando as características pessoais num ambiente distante das referências cotidianas. Na Amazônia, todos estão longe da família e dos amigos, assim como da cultura de televisão, da internet e da dieta de fast-food a que estão acostumados. Ninguém tem a chance de apertar um botão de “off” quando o programa fica chato. E a resolução das diferenças só acontece quando os participantes de- senvolvem seu poder de comunicação e seu bom comportamento expedicionário, de forma a serem reconhecidos como mediadores de conflitos e como pessoas de iniciativa — virtudes que vão se evidenciando à medida que a expedição avança e os instrutores se tornam mais conselheiros e observadores do que mestres.

A disciplina exigida pelos instrutores da Nols em questões de organização, cumprimento de horários e de tarefas faz lembrar o regime que os brasileiros de 19 anos enfrentam ao servirem às Forças Armadas. Atrasos são seguidos de longos esporros e a higiene pessoal é cobrada para minimizar o desgaste das relações dos alunos, obrigados a dormir em barracas de quatro pessoas ao longo de três meses. Como também acontece no escotismo, a aventura no ambiente natural adverso desenvolve no grupo a lealdade e a coesão. “A diferença é que, no Exército, as ações do soldado acontecem para cumprir ordens de um superior, sob a pena de ser humilhado ou punido severamente”, pondera o instrutor paranaense Dálio Zippin Neto, 40, um cabeludo com um divertido jeitão rebelde que fez dele o instrutor preferido pela turma. “Aqui, os alunos são motivados a assumirem deter- minadas atitudes de forma consciente, pelo bem das pessoas e do meio ambiente”, continua Dálio. Advogado de formação e escalador “desde os sete anos”, ele foi aprovado como instrutor Nols graças a um currículo de atividades outdoor que enchem 24 páginas e que incluem quatro cumes do El Captain, no parque nacional norte-americano Yosemite, além do Aconcágua argentino — onde, por sinal, foi um dos sobreviventes da tragédia que matou Mozart Catão, Alexandre Oliveira e Othon Leonardos em uma avalanche em 1998. Sua formação como instrutor da Nols incluiu 22 dias sobre um glaciar do Alasca e 80 horas (dez dias) de um treinamento em primeiros socorros no estado norte-ame- ricano do Oregon que exige uma atualização a cada três anos.

 

 

4a LIÇÃO: SEJA HÁBIL NOS ESPORTES OUTDOOR

Os instrutores são o maior patrimônio da Nols. São eles quem trazem uma vasta experiência no universo outdoor para servir como exemplo aos alunos, ainda que em territórios desconheci- dos até mesmo para eles. Foi o que aconteceu em boa parte do rio Juruena, onde o desafio era passar por 18 corredeiras com níveis I a III (numa escala até VI), com portagens nas quedas maiores, duas a três horas de chuva diariamente e sob tempes- tades de raios. Apesar da prudência, várias canoas viraram e três delas foram furadas. Sem problemas: treinado, o grupo consertou os botes em seis horas, desempenando o alumínio e costurando a lona. E voltaram à rotina de 20 quilômetros de remadas diárias por rios com piranhas, arraias, peixes elétricos e jacarés.

Além da esperteza para improvisos, os professores têm a res- ponsabilidade de formatar várias aulas de cerca de uma hora com a estrutura de que dispõem na natureza. As apresentações abrangem desde técnicas dos esportes até a história local, como a de Chico Mendes e a da escravidão no Brasil. A didática é baseada nas pesquisas pessoais e em vários livros publicados pela própria Nols sobre navegação, cozinha e medicina em ambientes outdoor, por exemplo. Entre os rígidos protocolos da escola, está a obrigação de serem feitas avaliações freqüentes de professor para aluno, vice-versa e até de aluno para aluno. Muito além da mera função de guias, os instrutores costumam dedicar o fim dos dias para realizar minuciosos relatórios em inglês para serem encaminhados à sede norte-americana.

A Nols é rigorosa também com seu corpo docente. “O curso de formação de instrutores mais parece uma entrevista de emprego que dura um mês”, brinca Jon Kimpsey, também advogado de formação, que há 16 anos tornou-se um clássico instrutor Nols: solteirão, sem filhos ou casa fixa (seus pertences estão espalhados entre Alasca, México, Chile e Chapada dos Guimarães). Na noite em que eu era o responsável pela cozinha do meu grupo, Jon me ensinou a fazer panquecas, uma verdadeira sofisticação que quebrou minha tradição de só preparar macarrões instantâ- neos em acampamentos. E me contou alguns dos episódios mais pitorescos que protagonizou em suas 190 semanas em campo. Como o dia em que um gato-maltês grudou na sua cabeça, no México, há oito anos, quando estava dormindo num saco de dormir, fazendo com que Jon tivesse de ser resgatado para tomar injeção contra raiva; ou quando estava ao lado de um aluno que ficou preso sob uma pedra de duas toneladas, durante uma avalanche no Eastern Alaska Range, dez anos atrás, e sobreviveu após esperar horas pelo resgate.

 

 

5a LIÇÃO: TENHA RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL

Os cuidados com a natureza e as comunidades no caminho da expedição são rigorosos. No passado, as excursões chegavam a ter 30 alunos nas trilhas, mas a preocupação com o impacto nos am- bientes naturais fez com que a Nols reunisse grupos cada vez me- nores. Além disso, os expedicionários são divididos em subgrupos e aprendem, nas aulas de Leave No Trace (Não deixe vestígio), a não deixar qualquer tipo de marca na natureza. As cinzas da fogueira devem ser enterradas. Contam pontos negativos na avaliação os grãos de arroz deixados ao ar livre na hora de desmontar o acam- pamento. Os restos orgânicos precisam ser cobertos e todo o lixo produzido precisa ser carregado até a cidade grande mais próxima, sendo que o lixo reciclável deve estar lavado e seco.

Questões ecológicas são lembradas nas aulas, como na de aque- cimento global, ministrada pela carioca Renata Bradford, a Kika, uma arqueóloga e escaladora de 30 anos que já foi guia da Exum Mountain Guides, considerada a escola de guias de montanha mais exigente da América do Norte. Entre as montanhas já exploradas por ela, estão as de Yosemite e Tetons (EUA), além de várias vias de escalada conquistadas. Utilizando um grande saco de farinha adaptado como uma lousa rabiscada com pincéis atômicos, Kika contou como a compra de créditos de carbono pode minimizar o estrago feito pelo desmatamento. “Calculamos o impacto desta expedição somando itens como os vôos, os traslados por terra e o consumo dos fogareiros, espaço e concluímos que precisamos plantar 57 árvores para neutralizar nossa passagem por aqui, mas vamos enterrar mais de 300 sementes”, explicou à platéia sentada no gramado sob a sombra de uma árvore à beira-rio. Como essa escola não tem paredes, é freqüente a dispersão pelo canto de um pássaro ou pelo surgimento de um boto no rio. Sem problemas. Ao longo da viagem, os alunos apresentam suas observações nos “na- ture nuggets”, pequenos seminários em que o estudante disseca algum aspecto da natureza.

Uma das peculiaridades dos cursos em lugares remotos é a experiência da diferença cultural e da interação com a população local. Nos dez dias que passei com eles em Vila Bela, percebi a surpresa com que viram um carneiro sendo morto para o churrasco no quilombo e o fascí- nio da constatação da felicidade em uma casinha pobre, de chão de terra e fogão a lenha. Aprenderam a pescar e a limpar o peixe, construíram um banheiro com paredes feitas de palha de babaçu, carregaram toras para erguer uma ponte. Semanas mais tarde, já na floresta amazônica do Pará, ficaram ainda mais encantados quando passaram quatro dias nas comunidades de Pedreira e Piquiatuba, à beira do rio Tapajós, dormindo cada um em uma casa de família. “Foi o momento da viagem mais importante para mim”, considerou Alex Melnyk, que até aprendeu a fazer farinha de mandioca. “O estilo de vida deles é muito diferente e nunca vou esquecer da generosidade e do carinho com que me receberam.”

A experiência do encontro com os índios mundurucu também foi marcante. Os alunos tinham passado sete dias sem cruzar mais que dois barquinhos de pesca no rio Juruena, e se depararam com os índios na margem — naturalmente estupefatos com aquela tribo de estrangeiros remando com roupas e barcos inéditos por aquelas bandas. A aproximação foi amigável e o grupo aproveitou para perguntar por qual dos três canais do rio deveriam seguir, já que estavam em um trecho desconhecido e cheio de corredeiras e desníveis. Os índios sugeriram um caminho, mas os alunos líderes do dia preferiram o outro canto, onde a descida poderia ser mais emocionante. Aconteceu, é claro, o pior: canoas viraram e foram furadas pelas pedras, e o grupo aprendeu, pelo erro, que não se deve desprezar o conhecimento dos nativos.

 

 

6a LIÇÃO: ESTEJA SEMPRE ALERTA

É por sujeitar seus alunos aos riscos inerentes ao ambiente natural que a Nols investe cerca de 2 milhões de dólares anuais em seguros e só viaja com um plano de ação para emergências que inclui estrutura de comunicação via satélite e resgate de helicóptero para hospitais de plantão. É compreensível. Nada menos que 14 alunos morreram em expedições, quatro deles nos últimos 20 anos. A maior parte dos familiares move processos contra a es- cola. Há casos de afogamento em rio, queda em buraco de glaciar e, o que é mais freqüente, soterramento em avalanches. Acampamentos já foram destruídos por ursos e muita gente foi picada por cobras. Os incidentes mais comuns puderam ser constatados na Nols Amazônia 2007: vários alunos tiveram desarranjos gastroin- testinais; o nova-iorquino Andrew Leitman, 20, torceu o joelho e teve de ser resgatado, e Jane McNeal, 20, da Geórgia, teve quei- maduras de segundo grau ao abrir a panela de pressão.

São as picadas, sejam elas de saúvas, abelhas ou pernilongos, os inimigos mais pentelhos de quem se aventura pelos rincões da Amazônia por tanto tempo. Além do episódio das formigas que picotavam até o material sintético de roupas e barracas, os mochileiros enfrentaram ataques de abelhas e de lambe-lambes,minúsculos insetos que atingem o olho humano em busca de sais minerais. E as tantas picadas que os alunos sofreram remando no rio Juruena parecem ter originado uma reação alérgica em quatro pessoas, com bolinhas vermelhas e pus em torno das axilas. Fe- lizmente, os instrutores carregavam quilos de medicamentos que permitiram aliviar o incômodo. A situação foi bem distinta daquela enfrentada pelos 13 jovens que fizeram o primeiro curso, em 2006, e foram acometidos de uma irritação nos pés conhecida como rói-rói. “A dor nos pés era tanta que não podíamos pisar no chão”, lembra o instrutor Atila, que precisou ser carregado.

A expedição de 2006, por sinal, foi um batismo de fogo também para os instrutores da Nols no Brasil. Além do imprevisto dos rói- róis e de duas picadas de escorpiões, eles tiveram de lidar com o fato de três dos 13 alunos não completarem a viagem, um com fratura no punho e dois por pura falta de motivação. O clima dentro do grupo e com os instrutores, ao final dos três meses, também não era dos melhores, especialmente depois que a su- bida ao pico da Neblina foi cancelada em função de um bloqueio feito pelos índios ianomâmi. A verdade todo mundo sabe: a união de pessoas tão diferentes enfrentando uma rotina de desconfor- to por tanto tempo deixa qualquer mortal com os nervos à flor da pele e o equilíbrio do grupo depende de fatores como afinidades, respeito e bom humor.

Já em 2007 o clima es- tava bem mais leve. Em um dos dias em que eu estava com o grupo, fla- grei o momento em que o instrutor Dálio trocou de roupa, discretamente, fora da barraca. Uns riram, ou- tros não deram bola, mas a naturalidade da situação deu origem a uma curiosa conversa sobre os áureos tempos em que a Nols, em meio ao movimento hippie e de contracultura da década de 1970 nos Estados Unidos, era uma escola liberal. Grupos de estudantes remadores en- frentavam o mar nus como vieram ao mundo, professores dormiam com alunas e até o baseadinho à beira da fogueira era um ritual tão natural quanto em tantas rodas de acampamento selvagem do planeta. Os tempos mudaram, a sociedade norte-americana careteou e a Nols hoje tem fama de escola conservadora. Durante o curso, namoricos são desestimulados (devem ser absolutamente discretos), uma latinha de cerveja ou um cigarro de maconha são motivos para expulsão (cerca de dez alunos são eliminados anu- almente por porte de droga) e qualquer militância pró-naturismo é imediatamente banida. Até um ingênuo tocador de mp3 é um mau elemento, proibido em prol da interação do grupo entre si e com o ambiente.

 

 

7a LIÇÃO: DESENVOLVA SUAS VIRTUDES

Ao fim do segundo mês da expedição, quando o grupo concluiu o trecho de rio em Alter do Chão (PA), os instrutores eram quase que apenas colegas observadores, com os alunos tendo autono- mia para decisões sérias. Foram eles quem elegeram os líderes dos dois grupos que enfrentariam o desafio final: a expedição de uma semana pelo monte Roraima (RR). Os mais virtuosos eleitos para a função foram Edmilson, o bolsista brasileiro, e Alex, o eco- nomista de Chicago, curiosamente os mais velhos do grupo. Dois dos instrutores os seguiram de longe, apenas para uma eventual emergência — o que não aconteceu. “Foi ótimo perceber que eu tinha evoluído tanto em apenas três meses, pois vim para a Amazônia sem nunca ter acampado na vida”, conta Alex, que chegaria ao fim da expedição nada menos que 11 quilos mais magro e sabendo identificar plantas, nuvens e estrelas. “Tenho certeza de que levarei as lições desta experiência para o meu trabalho”, continua ele, que levou nota A. “Você vê como uma expedição na natureza muda a mente das pessoas?”, questiona o experiente instrutor Jim Chisholm. “É fazendo coisas difíceis que as pessoas se fortalecem”, diz.

De uma forma geral, o grupo se despediu entre festas e lágri- mas, como era de se esperar de quem vive uma experiência tão intensa, com promessas de reencontro e discursos de que tinham se tornado pessoas melhores. Edmilson, por sua vez, tinha uma satisfação maior. No fim do primeiro mês de curso, ele tinha ga- nhado uma nota B porque, segundo os instrutores, estava aquém do seu potencial. “Eu sabia que tinha mais experiência que os outros, mas não queria despertar antipatia por isso ou por ser o mais velho”, lembra. No fim da saga amazônica, ele estava feliz por ter exteriorizado sua faceta de líder. Ganhou nota A e um convite para fazer, também com bolsa de estudos, o curso de instrutores da Nols em 2008. A escola se prepara para lançar dois novos cursos no país este ano — esse e o de primeiros-socorros, em julho — e pretende expandir sua atuação no país contratando novos instrutores. Depois da expedição, Edmilson é o primeiro candidato. Alguém mais se habilita?

 

RAIO X:

Desde que a Nols (nols.edu) foi criada pelo guia de montanha Paul Petzolt, em 1965, na cidade de Lander, no esta- do norte-americano do Wyoming, nada menos que 85 mil alunos já viajaram para alguns dos 14 campi naturais da escola espalhados por nove países (cinco deles nos Estados Unidos). O catálogo 2008 inclui 96 cursos que acontecem em 253 datas e que podem durar de dez dias a um ano, atraindo cerca de 3 mil alunos anualmente. A Nols treina guarda-parques, como os da Patagônia chilena, e oferece expedições que misturam às modalidades esportivas expe- riências que vão da hospedagem em ashrams indianos até contatos com aborígines australianos. O curso anual que acontece no Brasil desde 2006 atrai especialmente univer- sitários dos Estados Unidos porque, graças a um convênio da Nols com a Universidade de Utah, tem disciplinas que contam créditos para a faculdade: biologia, ética ambiental, técnicas de liderança, gerenciamento de risco. As aulas mis- turam sofisticadas lições de técnicas de montanhismo com receitas culinárias da vovó, num cardápio que transformou a Nols numa potente organização não-governamental sem fins lucrativos, que emprega 980 funcionários em sua sede, durante a alta temporada, e que despacha 560 instrutores de campo para recantos remotos como o Campo de Gelo Sul, na Patagônia, e os 6 mil metros do pico Denali, no Alasca. O semestre brasileiro custa aos pais desta molecada bem- nascida a bagatela de US$ 13.300 (R$ 25 mil), sem contar o seguro e a taxa de crédito pelas disciplinas escolhidas (cada uma por US$ 45).