A cidade floresce

O espetáculo do encontro dos rios Negro e Solimões. O fantástico Teatro Amazonas, palco de disputados recitais de ópera. E só. Depois de cinco anos sem aterrissar em Manaus, eu achava que estes ainda fossem os dois passeios bacanas que um forasteiro tinha para explorar no principal portal da Amazônia brasileira. Ledo e delicioso engano. Bastou o fotógrafo Adriano Fagundes e eu sairmos do Eduardo Gomes, o aeroporto internacional, e entrar no carro do Leleco, nosso amigo carioca que adotou como sua a capital do Amazonas, para começar a sucessão de boas surpresas enquanto rodávamos pela cidade. “Uau, que ponte estaiada é aquela sobre o Rio Negro? Olhem quanta gente praticando stand-up paddle no rio! Que bacana estão a ciclovia e o calçadão de Ponta Negra…” Leleco respondia apontando mais novidades: “Ali fica o estádio da Copa do Mundo,  o Arena da Amazônia. Para lá está um dos shoppings recém-inaugurados. Por aqui se chega a um hotel de golfe aberto há 3 anos…” Nosso anfitrião tinha uma proposta de agenda tentadora: como não estávamos na época baixa dos rios (julho a fevereiro), quando surgem as belas praias de água doce, iríamos a alguns restaurantes de comida amazônica contemporânea, ao ensaio para o festival de Parintins e optaríamos entre degustar alguns dos 900 rótulos da Cachaçaria do Dedé ou uns drinques no O Chefão, transado bar do Centro Histórico inspirado no filme O Poderoso Chefão. Mal tínhamos começado a suar com o calor de mais de 30 graus daqueles trópicos e já notávamos que Manaus não era mais a mesma. Em pouco mais de meia década, havia aprendido a reciclar a riqueza dos rios e da floresta à sua volta para se transformar em uma metrópole com mais qualidade de vida, autêntica, cosmopolita e surpreendente.

A nova ponte estaiada da capital
A nova ponte estaiada da capital

O URBANO NA SELVA É claro que a capital do estado do Amazonas nunca perdeu sua vocação de ponto de partida para mais de uma dezena de bons hotéis de selva. A poucas horas da metrópole de 1,8 milhão de habitantes estão as principais bases para explorar a floresta com árvores de mais de 30 metros de altura e os rios de margens inalcançáveis, habitados por piranhas com dentaduras ameaçadoras, botos tucuxi saltitantes e jacarés gigantescos. Nós mesmos encerraríamos nossa jornada tendo contato com toda essa fauna em três dias intensos no mais badalado deles, o Anavilhanas Lodge, a 180 quilômetros de Manaus. O percurso leva 2h30, 2 horas a menos do que as 4h30 necessárias antes de  serem inaugurados, em 2011, os 3,6 quilômetros do novo cartão-postal da cidade, a Ponte Rio Negro. A construção da maior ponte fluvial e estaiada do Brasil acabou com a necessidade de uma balsa para cruzar o rio, facilitando o acesso ao hotel e a toda a região turística de Novo Airão, base para conhecer o arquipélago de Anavilhanas, formado por mais de 400 ilhas. Com 16 chalés, quatro bangalôs e acesso wi-fi até na área da piscina de borda infinita, o único hotel da rede Roteiros de Charme no Norte do país virou exemplo de hospedaria tão bem estruturada que atrai até aquele turista urbanóide que não consegue se desconectar da metrópole mesmo estando no meio do mato. Mas o caminho contrário, com a realidade da floresta invadindo o ambiente urbano, é o fluxo mais recente em Manaus. Graças ao resgate das raízes amazônicas promovido pela juventude local, certas preciosidades culturais estão mais acessíveis dentro da própria capital.

Um dos quartos do Anavilhana Lodge, em Novo Airão
Um dos quartos do Anavilhanas Lodge, em Novo Airão

MENU AMAZÔNICO Com apenas 27 anos, o catarinense radicado em Manaus Felipe Schaedler é o melhor representante da geração que tem transformado a exuberância da selva em atrativo de primeira linha na cidade. Felipe e seu empreendimento, o Banzeiro, ganharam os prêmios de chef e restaurante do ano em 2011 e 2012, segundo a revista Veja Comer & Beber – Manaus. Curioso, Felipe costuma partir em expedições à floresta explorando ingredientes para suas criações gastronômicas. No ano passado, o mestre-cuca foi condecorado pela própria presidente Dilma Rousseff, em Brasília, com a Ordem do Mérito Cultural. “Minhas influências são caboclas e indígenas”, define ele, que vive na cidade desde os 16 anos. “Amo Manaus e daqui não saio.” Sua paixão pelo ambiente selvagem está evidente na decoração da casa, localizada no bairro de Nossa Senhora das Graças, e inclui uma canoa típica pendurada na parede, lustres feitos de fibras naturais e fotos de ribeirinhos clicadas pelo próprio chef. Dos dadinhos de tapioca servidos na entrada às suas premiadas costelas de tambaqui, finalizando no petit gateau recheado de cupuaçu, todas as delícias que experimentamos ali têm uma pitada de Amazônia.

Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica da cidade
Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica

Não é só no templo do chef mais badalado de Manaus, porém, que a nova cozinha da Amazônia viria a se revelar para nós. O sushiman Hiroya Takano, do restaurante Shin Suzuran, em Vieiralves, surpreende usando peixes de rio em suas criações. “Para realçar o sabor, ralo pimenta murupi sobre o sashimi de tucunaré e mergulho o pirarucu no missô com castanhas por um dia inteiro”, conta. Sem nada de moderno – mas com uma fartura única ––, o Chapéu de Palha da Benção sustenta esse nome em função das formas do telhado, feito com trançado típico a mais de 12 metros de altura. “Fiquem à vontade para se servir em nosso bufê com mais de dez espécies de peixes de água doce”, nos diria o  proprietário, o evangélico Manoel Pestana. A comida, simples e saborosa, parece realmente abençoada.   TACACÁ MUSICAL Antes de chegar às boas mesas manauaras, todo esse quase exótico universo de pescados, pimentas, ervas e frutas costuma colorir e aromatizar os corredores do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Erguido em 1883, a construção art nouveau de ferro beira o Rio Negro justamente no ponto de onde saem os clássicos passeios de barco que mencionei no início do texto: em uma hora, as embarcações atingem o ponto onde as águas amarronzadas do Solimões – extensão do Amazonas, o maior rio do planeta – ladeiam, sem se misturar, as escuras correntes do Negro. Se você, como nós, já teve esse prazer, invista nas bancas do mercado, com todo tipo de farinha de mandioca (seca, d’água, de tapioca, Uarini…), todo um novo alfabeto de frutas (abiu, camu-camu, taperebá, uxi…) e ervas que, dizem, levantam até defunto. “Em 56 anos trabalhando com isso, aprendi as propriedades curativas de cerca de 1000 plantas”, orgulha-se a simpática Dona Judith Formoso, 77 anos. Delícias de rua como o x-caboclinho (sanduíche com lascas de uma fruta chamada tucumã e queijo coalho), o famoso tacacá (aquele caldo de tucupi com goma de tapioca, folhas de jambu e camarão seco) e o açaí (aqui comido salgado, com farinha) também podem ser provados por ali mesmo – embora se espalhem também pelo entorno do Largo de São Sebastião, a mais famosa praça da cidade, diante do Teatro Amazonas. Nas noites de quarta-feira, de abril a dezembro, o ilustre Tacacá da Gisela mescla seus sabores amazônicas com boa música no chamado Tacacá na Bossa. Até Ed Motta já deu uma canjinha entre os músicos que se apresentam.

Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus
Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus

ÓPERA INDÍGENA Coração cultural de Manaus, o entorno do teatro abriga boas lojas de artesanato dos índios da Amazônia, sorveterias incríveis, o quarentão Bar do Armando e o frescor do Boutique Hotel Casa Teatro, aberto há um ano e meio em um dos fantásticos casarões históricos do Centro. E ganha um glamour único entre abril e maio. É quando o Teatro Amazonas abriga o Festival Amazonas de Ópera, o único do gênero na América Latina. Em 2013, foram 33 atrações ao longo de 45 dias. “É uma honra difundir a música erudita para a gente da minha cidade”, diz a soprano Carol Martins, 31 anos, solista da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi. No encerramento do 17o festival, em maio, ela também cantou na ópera O Morcego, de Johann Strauss Filho, que reuniu 15 mil pessoas ao ar livre, no Largo de São Sebastião, diante do teatro, mesmo debaixo de chuva. A tradição das óperas nesse peculiar teatro com uma bandeira do Brasil na cúpula vem do século 19, tempo em que Manaus virou uma espécie de Paris das Selvas em função de toda a fortuna que circulava na cidade. Foi graças à exploração massiva da borracha de seus seringais que a cidade inaugurou, já em 1896, um teatro daquele porte. Tão portentosos quanto as óperas, mas bem mais populares, são os ensaios para o Festival Folclórico de Parintins, que chegam a arrastar cerca de 10 mil pessoas ao Centro de Convenções de Manaus, o chamado Sambódromo, e à Arena do Hotel Tropical de março a junho. Embora a grande festa do boi, com temática inspirada em lendas indígenas e costumes ribeirinhos, aconteça a distantes 370 quilômetros dali e só por três dias do mês de junho, partem da capital do estado cerca de 50 mil pessoas que ajudam a fazer a festa dos bois Garantido, o vermelho, e Caprichoso, o azul. A vibração do público e as alegorias fantásticas de personagens míticos da floresta, como a índia mais bela e o poderoso pajé, convencem qualquer viajante a querer estar, ao menos uma vida, na festa do boi de Parintins.

Show no  Jack’n’Blues Snooker Pub
Show no Jack’n’Blues Snooker Pub

A BIENAL DA MATA Em julho, os ouvidos dos manauaras buscam outro ritmo: o de jazz. O 8o  Festival Amazonas de Jazz mobilizou, em 2013, 60 músicos tanto na capital quanto no município vizinho de Manacapuru, a 70 quilômetros. O jazz, por sinal, tem espaço cativo na agenda de entretenimento da cidade: assistimos um belo show no Jack’n’Blues Snooker Pub, no agitado bairro noturno de Vieiralves, e uma jam session de primeira linha na Universidade do Estado do Amazonas – UEA, com direito a performance da artista Hadna Abreu pintando um quadro enquanto a banda tocava. Hadna tem 24 anos e exibe sua primeira mostra individual na Galeria do Largo, diante do teatro Amazonas, até 15 de setembro. “Me inspirei na estética dos meus avós para criar personagens fantásticos que interagem com árvores e pássaros do ambiente amazônico.”

 

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Grafitti em muro diante do sambódromo

 

O mesmo resgate das raízes culturais e históricas realizado com sucesso pelos espetáculos de ópera e do boi começa a ser trilhado também pelas artes plásticas. Como se não bastassem os belos grafites pelas ruas da cidade – como os lambe-lambes de Hadna, colados com goma de tapioca ­–, ainda em 2013 Manaus planeja ser a principal sede da Amazônica I, primeira bienal de artes visuais do estado. “Com base no sucesso do formato da megaexposição Documenta, em Kassel, na Alemanha, criamos uma mostra descentralizada, espalhada por diferentes pontos da cidade e do estado”, diz Cléia Vianna, comandante da Galeria do Largo e uma das organizadoras do evento. “Teremos desde desenhos de Di Cavalcanti até obras de novos artistas locais”, conta. Mais um exemplo de como os habitantes de Manaus aprenderam a beber da fonte natural e cultural da grande floresta que os circunda.

 

SERVIÇO:

amazonasfestivalopera.com amazoniagolf.com.br anavilhanaslodge.com arenadaamazonia.com.br restaurantebanzeiro.com.br www.casateatro.com.br cachacariadodede.com.br festivalamazonasjazz.com.br parintins.com suzuran.com.br tropicalmanaus.com.br visitamazonas.am.gov.br

Ao coração da floresta

Era como uma sinfonia com milhares de músicos na escuridão completa, tocando bem alto e com um resultado impressionantemente harmonioso. Sapos coaxavam, cigarras cantavam sem parar. Mas eram os macacos que chiavam de forma assustadora, especialmente o guariba, que guincha parecendo simular o rugido de uma onça-pintada. Lembrei-me do relato do Seu Manduca sendo atacado pelo felino, da cobra d’água, dos jacarés e aranhas que havia visto nos três dias anteriores. Me acalmei escutando a orquestra deitado em uma das três redes de um casebre sobre palafitas que ficava 2 metros acima da superfície do Rio Mamirauá e, em vez de paredes, tinha tela antimosquito.

 

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Através da tela e por trás das árvores, visualizei o nascer da lua cheia da Páscoa de 2013. E dormi imerso na música mais espetacular que já ouvi na vida.

 

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Outro concerto, menos misterioso e mais festivo, celebrou a bruma e a brisa da manhã. Agora comandado pelos pássaros, compôs o fundo ritmado de nosso retorno, de canoa, para a pousada, nossa base, onde o café da manhã regional em mesa comunitária nos esperava. Localizada a 10 minutos do casebre na floresta onde eu havia pernoitado com o guia Raimundo Morais e o fotógrafo Adriano Fagundes, a Uacari é uma hospedaria flutuante que boia solitária como o quartel-general de quem explora a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Trata-se de uma sucessão de dez bangalôs de telhados vermelhos, feitos de garrafa pet, que quebram a monotonia verde daquele trecho da região do Médio Solimões, entre o rio de mesmo nome e o Japurá. Sua localização, diante de uma bela curva do Rio Mamirauá, proporciona uma experiência tão rara de imersão na selva e de fácil avistamento de animais que o lugar se transformou na principal recomendação de turismo na Amazônia do guia de mochileiros Lonely Planet.

 

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Primeira experiência do gênero no Brasil, a área de mais de 1 milhão de hectares de Mamirauá nasceu do sonho do primatologista José Márcio Ayres (1954-2003), em 1990. Ele queria preservar o habitat do seu objeto de estudo, o uacari-branco, um macaco de cara vermelha que só existe nesse cafundó da Amazônia. Na contramão da prática dominante na época, que tirava as populações tradicionais de seus locais de origem em nome da preservação ambiental, Márcio liderou um movimento para mudar a lei. Ao se empenhar na fundação da primeira reserva de desenvolvimento sustentável, em 1996, o cientista deflagrou uma iniciativa para proteger a floresta, produzir pesquisas e estimular o turismo, permitindo que 10 mil ribeirinhos continuassem vivendo ali, cortando árvores, plantando e pescando para seu sustento – tudo de forma controlada. Deu tão certo que hoje há pelo menos mais cinco áreas do gênero Brasil afora. Ayres conseguiu ainda proteger o território vizinho de Mamirauá, criando a Reserva de Amanã, colada ao Parque Nacional do Jaú. Juntos, os três formam a maior extensão de floresta tropical protegida do planeta.

 

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A SAGA DA VIAGEM

Chegar a Mamirauá é uma aventura. Primeiro viajamos pela TAM por 3h40 de São Paulo a Manaus. De lá seguimos para Tefé, de onde partem as voadeiras, que navegam durante uma hora até a Pousada Uacari. A questão é a rota de mais de 500 quilômetros entre Manaus e Tefé. Levam-se 36 horas – um dia e meio – para fazer o deslocamento em navios de dois andares, onde embarcam 400 pessoas, cada uma acomodada na própria rede. Já nas lanchas rápidas, o tempo despenca para 12 horas. Os passageiros normalmente se sentam em poltronas reclináveis e têm direito a refrigeração e TV coletiva. Mais rápida e cara, embora sem a mesma experiência de interação com a realidade da Amazônia, foi nossa opção, o táxi aéreo: em duas horas completa-se o percurso, com a vantagem de se impressionar com a exuberância verde vista dos ares.

 

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O transporte aéreo, é verdade, não propiciou a mesma aura épica vivida nas embarcações pelos mochileiros que exploram Mamirauá – 85% deles estrangeiros. Quando, porém, entramos na lancha de Tefé para a pousada, uma tempestade carregou de emoção o passeio. Entre janeiro e julho, a temporada de chuvas na Amazônia transforma radicalmente cenários como o dessa região, conhecida como várzea. A superfície dos rios chega a subir 12 metros, obrigando os moradores a habitar casas erguidas sobre palafitas altíssimas. Construções flutuantes, como a pousada, também dançam ao sabor do rio por serem levantadas sobre madeiras leves como o açacu, que atua como boia. Em metade do ano, a população circula a pé, trabalha na roça, joga bola no campinho. Na outra parte, o ofício é a pesca e tudo depende do barco – até uma visita ao casebre do vizinho ou à igreja do bairro. Quem chega a Mamirauá nessa época do ano – como foi nosso caso – já é logo avisado: não há como percorrer as 16 trilhas locais praticando trekking; a mesma rota desses passeios é feita apenas em botes.

 

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O desembarque no calor úmido de Mamirauá é uma experiência especial. Todos os funcionários da Uacari se alinham para dar as boas-vindas aos novos hóspedes. “Hi, my name is Ednelza and I am the hotel manager”, apresentou-se Ednelza Martins da Silva, uma ex-empregada doméstica e ex-agricultora que há seis anos assumiu o cargo mais alto do estabelecimento. Depois dela falaram Judith, a cozinheira, Naíza, a copeira, e assim por diante. Todos exercitando a língua que aprendem em um dos mais de cem cursos ministrados pelo Instituto Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia que administra a reserva e as iniciativas ligadas a ela, como a pousada. “Fazemos parte do projeto de turismo de base comunitária, uma proposta pioneira na região e que há 15 anos serve como referência para outras unidades de conservação Brasil afora”, explica Ednelza. A pousada gera emprego por meio de passeios de mínimo impacto na reserva, tem seu lucro revertido para as 80 famílias da comunidade e utiliza práticas sustentáveis, como energia solar, captação de água da chuva, reciclagem e compostagem de lixo.

 

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INTERAÇÃO COM A COMUNIDADE

Ao longo dos quatro dias que passamos ali (há pacotes de três, quatro e sete diárias, com pernoite em quartos rústicos e avarandados, com mosquiteiros individuais), descobrimos que reside na vivência do turismo comunitário o grande diferencial de escolher Mamirauá como o local para desbravar a Amazônia. Pela manhã e depois do almoço, os hóspedes saem para observar animais ou visitar comunidades vizinhas. Nosso guia era o Morais, nosso companheiro na fantástica noite citada no começo deste texto, quando nos isolamos na mata. Morais é um cabeludo descendente de indígenas que contou já ter comido muita carne de peixe-boi quando a reserva ainda não existia e faltava àquela gente a consciência ecológica para cuidar dos recursos preciosos da região. “Hoje entendo que tudo isso vale ouro.” Foi uma delícia observar como Morais afiou seu ouvido para identificar os sons da densa floresta e simular o mesmo piado ou grunhido dos bichos, em busca de uma resposta do interlocutor. O grande barato de cada dia é justamente brincar de identificar quem cantou o quê e onde – e, sempre que possível, remar em busca do cantor em questão.

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Impressionante é que, mesmo passeando a 7 metros de altura do solo, como fizemos em março, driblando os galhos das árvores submersas, as grandes copas continuam lá nas alturas. No topo, é claro, se escondem os animais, dificultando o foco de nossos binóculos e câmeras fotográficas. O livreto de identificação dos pássaros catalogados na reserva lista 355 deles, com ilustrações, nomes populares e científicos de garças, gaviões, papagaios… Um dos mais belos é a cigana, que exibiu seu topete estilo moicano uma dezena de vezes durante nossas remadas silenciosas. Aranhas e sapos existem aos montes. No rio, botos, piranhas, jacaretingas e jacarés-açus são bem frequentes na seca, pois ficam mais concentrados. Mas são as cinco espécies de macacos do entorno da pousada as estrelas das observações: prego, guariba, de-cheiro, de-cheiro-de-cabeça-preta e uacari – estes últimos dois endêmicos, que praticamente só existem ali. “Nas pesquisas que fizemos entre 2007 e 2010, quando ocorreram 1.448 registros de grupos, constatamos que a presença humana não afasta os animais”, conta a bióloga gaúcha Fernanda Paim, que há oito anos acompanha a macacada em Mamirauá. “Ou seja, o turismo de mínimo impacto praticado aqui, com 20 turistas por fim de semana, não prejudica o ambiente dos primatas.”

 

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A onça-pintada, no entanto, vive escondida – ou nem tanto para o biólogo carioca Emiliano Esterci Ramalho e seu time, que se dedicam a rastrear os maiores gatos das Américas com uma antena de telemetria móvel e 40 câmeras em 20 pontos para observação. “Vi 30 onças nesses nove anos trabalhando aqui”, conta. Sorte tiveram os dez turistas hospedados na Uacari no início do ano, pois acompanharam parte da captura de Mudinha, Confuso, Zangado, Jandia e Cotó, todos atualmente soltos, mas seguidos virtualmente graças a coleiras com GPS. Não por acaso, a equipe de ecologia de vertebrados terrestres de Mamirauá trabalha para que, a partir de 2014, vire rotina os visitantes acompanharem o trabalho dos pesquisadores. Como a cheia amazônica isola várias onças na copa das árvores por meses a fio, não é difícil observá-las dos barcos.

 

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CIÊNCIA DE RESULTADOS

Atualmente, o contato com os pesquisadores se dá em palestras após o jantar. Foi assim que conhecemos, na última noite, um pouco mais sobre o boto-cor-de-rosa, na aula com a bióloga portuguesa Zulmira Gamito. “Já catalogamos 558 botos e 17 tucuxis na área do Lago Mamirauá.” Ela faz parte do grupo de cientistas que desenvolve no momento mais de cem pesquisas no Instituto Mamirauá e que frequenta as instalações da cidade de Tefé (e outras 12 bases flutuantes para trabalho de campo). Com laboratórios, biblioteca científica aberta às escolas da região, lojinha e uma estrutura de primeiro mundo, que não se espera encontrar nos confins da Amazônia, a sede do instituto é movimentada por 250 profissionais. Um estudo em andamento avalia a eficiência do sistema ecológico do esgoto doméstico da pousada. “A filtragem em tanques flutuantes remove quase 95% dos contaminantes quando a água volta ao rio”, diz o paulista João Paulo Borges Pedro, tecnólogo em meio ambiente. Graças àqueles que manejam o pirarucu, o peixe amazônico de até 3 metros – que já esteve ameaçado de extinção na região – aumentou em 425% sua população na última década: tudo porque os pescadores passaram a respeitar o período de reprodução e desova, fazendo com que seu comércio rendesse mais de 10 milhões de reais nesses dez anos. Já a equipe de manejo florestal empenhou-se para que o desmatamento fosse reduzido em 1.600% depois da criação da reserva.

 

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Os experimentos de Mamirauá têm dado certo porque unem com excelência o saber científico e o conhecimento tradicional. Pois é justamente nas conversas com os nativos que a imersão dos viajantes na realidade amazônica fica completa, especialmente nas visitas a algumas das oito comunidades situadas no território da reserva. No povoado Sítio São José, visitamos a sala de aula, onde pudemos acompanhar uma performance musical (com nosso guia Morais como percussionista!), ver como as hortaliças são plantadas sobre canoas flutuantes e comprar artesanato feito com sementes locais. Já em Vila Alencar, entendemos como os painéis que captam energia solar acionam o sistema de bombeamento de água do rio para a caixa d’água (e o sistema de purificação) que abastece as 28 famílias do vilarejo. Sem isso, os moradores teriam que carregar água desde o leito, que na seca passa a distantes 400 metros das casas mais próximas.

 

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Na hora de ir embora da Pousada Uacari, ao observar os funcionários sorridentes lado a lado, dando adeus ao barco, pensei em como a mudança na realidade dessa gente é tão valiosa quanto o desenvolvimento da ciência e a preservação do ecossistema amazônico. A gerente Ednelza, por exemplo, passou a difundir entre seus vizinhos o uso do mesmo sistema de banheiro seco ecológico de sua casa, e contou adorar multiplicar sua experiência quando viaja promovendo o torneio de futebol feminino com as mulheres de Mamirauá. Poucas transformações pessoais, no entanto, foram tão radicais quanto a do auxiliar de cozinha Vanderlei Rodrigues, o Seu Manduca. Ele viveu na pele o susto de encontrar uma onça, o que faz todos lembrarem que estamos em um dos locais mais selvagens do planeta. “Eu voltava de uma pescaria quando ela me atacou, mordeu meu rosto e caímos no rio”, contou. “Quase morri.” Hoje, os 28 pontos da cicatriz na face são discretos e o trauma foi superado, tanto que Seu Manduca já se deparou com outras cinco onças depois daquela, pois passou a integrar o grupo de apoio aos cientistas que capturam, monitoram e estudam o felino. E milita pela preservação da fera, orgulhoso por fazer parte da experiência pioneira de Mamirauá.

 

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SERVIÇO:

+55 97

INFO E AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá – tel. 3343-9700, mamiraua.org.br; Pousada Uacari – tel. 3343-4160, pousadauacari.com.br

7 lições numa sala de aula selvagem

Era uma noite quente de setembro à beira de um abismo da serra Ricardo Franco, uma desconhecida preciosidade ecológica no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, na fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Durante o dia, os termômetros superavam 40 graus, e a expedição de 13 jovens e três instrutores havia sofrido para encontrar míseros 16 litros de água escura para saciar a desesperada sede. Aqueles primeiros dias de uma sessão de trekking de 90 quilômetros que duraria um mês tinham deixado o grupo cansado. Todos já se preparavam para dormir quando um pânico coletivo se instaurou. Um exército de milhares de formigas saúvas se espalhou, devorando, como num filme de horror, as mochilas, as roupas e até as barracas. “Parecia um pesadelo, começamos a sofrer com as picadas e corremos para desmontar o acampamento”, conta o paraibano Edmilson Fonseca, 32 anos, o único brasileiro entre os estudantes do segundo curso-expedição realizado no Brasil pela norte-americana Nols (National Outdoor Leadership School), a mais respeitada instituição de ensino experiencial ao ar livre do planeta. “Acampo desde os 13 anos, quando era escoteiro, e nunca tinha visto uma cena daquelas”, contou.

A recepção nada amigável das saúvas era o inesperado “batismo” de boas-vindas do cerrado brasileiro ao grupo dos Estados Unidos, a maioria com idade entre 18 e 20 anos, que tinha co- meçado sua viagem na Chapada dos Guimarães (MT), sede da Nols no país. O episódio foi usado como lição sobre onde acampar, e se juntou ao caldeirão de ensinamentos da escola. Ao longo de três meses, Edmilson, o felizardo ganhador da única bolsa de estudos anual da Nols destinada a brasileiros, cruzaria com seus colegas de classe a Amazônia de sul a norte numa sala de aula selvagem, gigante e diferente. Durante a expedição, os alunos aprendem técnicas de trekking e canoagem com instrutores conceituados. Conhecem a diversidade cultural do país por meio da convivência com caboclos, índios, quilombolas e seringueiros. E têm acesso a uma grade curricular feita sob medida para amantes das atividades outdoor. Ela pode ser resumida em sete lições básicas, que passamos adiante nas próximas páginas.

 

1a LIÇÃO: APRENDA A ACAMPAR

Foi no 22o dia da expedição, na ilha do Boto, próxima a Vila Bela, que me integrei ao grupo e ouvi os relatos sobre o ataque das saúvas e a falta d’água na serra. O acampamento tinha quatro barracas, uma para cada grupo de quatro alunos e outra para os três instrutores (dos oito que se revezariam ao longo do curso). A lua cheia já prateava o caudaloso rio Guaporé diante de nós e o astral da galera fazia lembrar minhas viagens da adolescência, 20 anos atrás. Vi-me ali, parecido com o ruivinho de 18 anos do estado do Oregon, Seth Walton, que tocava Radiohead no violão enquanto a turma assava um bolo no fogareiro — sim, bolo, é possível. Em seguida, rolaria um “Parabéns a você” bilíngüe pelo aniversário de 50 anos do chefe dos instrutores, o britânico Jonathan Kempsey, ou Jon. Meus dez dias ali prometiam ser uma mamata.

Eu achava que sabia viajar e que já conhecia as principais manhas do excursionismo e do camping selvagem. E me frustrei logo que tive minha mochila de 65 litros checada pelos instrutores, procedimento pelo qual já tinham passado os alunos no início da caminhada. A idéia era que eu não carregasse peso desnecessário e pudesse levar panelas, comida, cilindro de benzina inflamável para o fogareiro e parte do equipamento do grupo dos instrutores, ao qual eu me integraria e com quem eu dividiria refeições. De repente, foram tirados da minha mala papel higiênico, sabonete, minixampu, toalha e tênis extra. Até canivete, capa de mochila, garfo e faca dançaram. Fui obrigado a seguir viagem com apenas duas peças de cada tipo de roupa — cuecas, meias, calças e camisetas — e uma única colher. Canivete, bastaria o do instrutor.

Um pouco contrariado, cá entre nós, burlei a fiscalização carre- gando um desodorante compacto no bolso lateral e decidi assimi- lar as outras instruções. Primeira regra: os rios no caminho seriam nossas banheiras naturais, assim como serviriam para lavar a roupa suja e a louça das refeições (embora a bucha e o detergente também fossem artigos vetados, tendo seus efeitos desengorduran- tes substituídos pela areia e pelas folhas das árvores). “E na hora de ‘ir ao banheiro’, como faço?”, perguntei. “Para quê o papel?”, responderam. Primeiro, seria obrigatório vestir os gaitors, aquelas polainas para proteção das pernas contra picada de cobras. Depois de definido o esconderijo a pelo menos 60 metros do rio, eu deveria usar uma pequena pá coletiva para cavar um buraco, onde o “produto” seria enterrado, evitando a atração de moscas. A limpeza seria feita com água. E só. No fim, as mãos seriam lava- das com desinfetante. Ao longo dos dias seguintes, criaria minha própria rotina de tomar banho logo depois de “usar o banheiro”, e aprenderia outros macetes para uma viagem ecológica e social- mente correta, o que não foi tão fácil assim.

 

2a LIÇÃO: SAIBA LIDERAR

Com 42 anos de tradição, a Nols foi criada com a idéia de for- mar bons instrutores de educação ao ar livre. “Acreditamos que o formato de expedição é o que melhor permite o exercício da liderança”, diz o norte-americano Atila Rego-Monteiro, 41, que coordena a nova Nols Amazon e foi um dos responsáveis pela vinda da escola ao país. Filho de um diplomata brasileiro e uma imigrante alemã, ele foi quem mais vibrou quando, sete anos atrás, uma pesquisa entre os alunos apontou que a Amazônia e a Nova Zelândia eram as novas locações preferidas para serem incluídas no menu de destinos da escola. Era o que ele precisava para articular a operação, resgatando suas raízes verde-e-ama- relas e impulsionando no país uma idéia pela qual ele tinha se apaixonado em 1992. O conceito de educação outdoor começou a ser difundido por aqui em 2000, com a chegada da Outward Bound, escola inglesa pioneira no tema há 65 anos e que inspirou Paul Petzolt a criar a Nols nos Estados Unidos (leia quadro). Apesar de concorrentes, as escolas têm instrutores em comum e objetivos parecidos. Quem já cursou as duas considera a OBB (Outward Bound Brasil) mais voltada para o desenvolvimento pessoal — quase um degrau de acesso à Nols, respeitada pelo aprofundamento técnico.

“Uma das coisas mais excitantes em um curso novo como este é saber que estamos passando por lugares que quase não foram explorados”, definiu Peter Carr, 19, um estudante de história do Novo México que acampara com a Nols no Wyoming quando tinha 14 anos. “É mais emocionante saber que a rota é desconhecida até pelos instrutores”, continua Peter, que ganhou o apelido de Pedro (todos os alunos da Nols Amazônia ganham nomes aportuguesados) e que, aficionado pela Segunda Guerra Mundial, passou os 82 dias da expedição vestindo um uniforme verde-musgo original de um soldado norte-americano. “Nos Estados Unidos, as escolas repetem os mesmos percursos há décadas”, lamenta seu colega Thomas Loftis, 19, estudante de antropologia do Colorado que fizera um curso da Outward Bound anos atrás.

Os cenários brasileiros foram diferentes nas duas primeiras expedições, e a edição de 2008 também deve ter novidades. Em 2006, outros 13 jovens passaram pelo Pantanal, remaram nos rios Aripuanã e Madeira, e fizeram a expedição final, que sempre acontece sem instrutores, na serra Curicuriari, em São Gabriel da Cachoeira (AM), perto de Manaus. Ano passado, os pântanos deram lugar ao cerrado da serra Ricardo Franco, em Vila Bela, onde aconteceu o trekking. Depois, o grupo voltou à base da Nols na Chapada dos Guimarães, reorganizou comida e equipamento e seguiu viagem de dois dias em ônibus até o ponto do rio Juruena onde começaram os 600 quilômetros de canoagem, ao longo de quatro semanas, também pelo rio Tapajós. De Santarém, voaram à Venezuela para a expedição de volta ao Brasil, ao longo de uma semana pelo monte Roraima. Curiosamente, os rios Aripuanã e Juruena ficam em localidades remotas na rota dos maiores desmatamentos criminosos do país — tanto que as cidades homônimas à beira desses rios registram algumas das maiores taxas de homicídios por causas ambientais.

Foi exatamente com esse objetivo — delinear um roteiro desa- fiador tanto por terrenos remotos de difícil navegação como por rios com corredeiras de alto nível — que a cúpula da Nols brasilei- ra realizou dez viagens de prospecção, como pelo Pantanal (MT) em 2002 e pelo rio Roosevelt (PA) em 2003. Foi nessa expedição de 25 dias que o instrutor Jon tomou um choque de um peixe elétrico que poderia ter sido fatal. Além de Jon e do comandante Atila, estavam no grupo outros figurões respeitados da escola: o canadense Jim Chisholm, que passou os últimos 25 anos (do total de 50) trabalhando para a escola e acumula 480 semanas em campo — o equivalente a nove anos dormindo em barracas! —; o paulista Flávio Kunreuther, 38, um dos instrutores de remo da expedição de 2007, também instrutor OBB; e o também paulista Fábio Raimo de Oliveira, 39, o primeiro brasileiro a se tornar instrutor da Nols internacional, em 1998. Como se não bastasse ter o emprego dos sonhos de quem ama o universo outdoor, essa turma tem a vantagem de poder programar suas próprias expedições de professores bancadas pela Nols como uma espécie de treinamento. E, no início de cada ano, eles têm a chance de propor em quais países e com quem gostariam de expedicionar.

 

 

3a LIÇÃO: CONVIVA BEM COM O GRUPO

Nas conversas de trilha, percebi que o grupo era mais diversificado do que eu imaginava. Os objetivos eram distintos e mui- tos ali não tinham experiência alguma na natureza. Era o caso do economista Alex Melnyk, um gordinho de 26 anos que nunca tinha acampado antes de se licenciar do trabalho, num banco de investimentos em Chicago, para conhecer a Amazônia. Ele viajara com a idéia de transferir as lições de liderança outdoor para os negócios. No primeiro dia de caminhada pela serra, quando teve de subir pedras durante cinco horas em meio ao calor abafado pelas nuvens das queimadas da região, Alex penou um bocado. “Achei que não fosse agüentar”, contou, com o nariz avermelhado em conseqüência de uma irritação causada pelo medicamento antimalárico obrigatório.

Apesar da pouca idade, a loirinha Rebecca Stone, a Becca, de 19 anos, trazia a experiência de ter passado os últimos verões de Idaho reparando trilhas em parques norte-americanos, e desem- barcou no Brasil com a intenção de trabalhar monitorando ati- vidades outdoor. Porém, ninguém tinha pretensões mais ousadas que Edmilson Fonseca, o bolsista que organiza uma das corridas de aventura mais antigas do Brasil, o Desafio Costa do Sol, e que há sete anos planejava fazer o curso. “Meu sonho é ser um instrutor da Nols”, confessou Edmilson, que já escalou montanhas como o Mont Blanc europeu e que pediu demissão da escola de inglês onde dá aula para viajar à Amazônia. Ele sabe que ser instrutor é ter a chance de viajar por alguns dos mais alucinantes refúgios naturais do planeta, com despesas pagas, salário razoável e a chance de virar fera em modalidades outdoor presentes nos cursos, como rafting, esqui, espeleologia e vela — além de trekking e canoagem.

Mesmo com históricos e objetivos distintos, os 13 alunos aprenderam que todos os grupos passam por processos semelhantes de integração que incluem a formação, o conflito, o desempenho e a transformação. Para que se preparassem para a expedição final do curso, os viajantes tiveram uma rotina permeada por aulas que poderiam ser úteis a executivos, como processos de tomada de decisão, a esportistas, como técnicas para fazer nós, e também que poderiam ser ensinadas por nossas avós, como costurar os furos feitos pelas saúvas na barraca e preparar deliciosos bolos e pães assados. “Este é um curso que ensina o valor das coisas sim- ples”, define Atila, líder também no trecho da canoagem. Nesse aprendizado empírico, o cronograma de aulas se altera conforme o temperamento do grupo e do clima, e cada aventureiro é responsável por carregar caderno, caneta e um livro da biblioteca Nols da Chapada. Os alunos se concentram para ler em qualquer tempo livre, como o descanso nas caminhadas ou a espera por um barco ou um ônibus em meio aos traslados.

Dinâmicas coletivas são parte fundamental do método de ensino. As rodas de conversa que acontecem ao menos duas vezes ao dia alternam os integrantes dos subgrupos e revezam os líderes, evi- denciando as características pessoais num ambiente distante das referências cotidianas. Na Amazônia, todos estão longe da família e dos amigos, assim como da cultura de televisão, da internet e da dieta de fast-food a que estão acostumados. Ninguém tem a chance de apertar um botão de “off” quando o programa fica chato. E a resolução das diferenças só acontece quando os participantes de- senvolvem seu poder de comunicação e seu bom comportamento expedicionário, de forma a serem reconhecidos como mediadores de conflitos e como pessoas de iniciativa — virtudes que vão se evidenciando à medida que a expedição avança e os instrutores se tornam mais conselheiros e observadores do que mestres.

A disciplina exigida pelos instrutores da Nols em questões de organização, cumprimento de horários e de tarefas faz lembrar o regime que os brasileiros de 19 anos enfrentam ao servirem às Forças Armadas. Atrasos são seguidos de longos esporros e a higiene pessoal é cobrada para minimizar o desgaste das relações dos alunos, obrigados a dormir em barracas de quatro pessoas ao longo de três meses. Como também acontece no escotismo, a aventura no ambiente natural adverso desenvolve no grupo a lealdade e a coesão. “A diferença é que, no Exército, as ações do soldado acontecem para cumprir ordens de um superior, sob a pena de ser humilhado ou punido severamente”, pondera o instrutor paranaense Dálio Zippin Neto, 40, um cabeludo com um divertido jeitão rebelde que fez dele o instrutor preferido pela turma. “Aqui, os alunos são motivados a assumirem deter- minadas atitudes de forma consciente, pelo bem das pessoas e do meio ambiente”, continua Dálio. Advogado de formação e escalador “desde os sete anos”, ele foi aprovado como instrutor Nols graças a um currículo de atividades outdoor que enchem 24 páginas e que incluem quatro cumes do El Captain, no parque nacional norte-americano Yosemite, além do Aconcágua argentino — onde, por sinal, foi um dos sobreviventes da tragédia que matou Mozart Catão, Alexandre Oliveira e Othon Leonardos em uma avalanche em 1998. Sua formação como instrutor da Nols incluiu 22 dias sobre um glaciar do Alasca e 80 horas (dez dias) de um treinamento em primeiros socorros no estado norte-ame- ricano do Oregon que exige uma atualização a cada três anos.

 

 

4a LIÇÃO: SEJA HÁBIL NOS ESPORTES OUTDOOR

Os instrutores são o maior patrimônio da Nols. São eles quem trazem uma vasta experiência no universo outdoor para servir como exemplo aos alunos, ainda que em territórios desconheci- dos até mesmo para eles. Foi o que aconteceu em boa parte do rio Juruena, onde o desafio era passar por 18 corredeiras com níveis I a III (numa escala até VI), com portagens nas quedas maiores, duas a três horas de chuva diariamente e sob tempes- tades de raios. Apesar da prudência, várias canoas viraram e três delas foram furadas. Sem problemas: treinado, o grupo consertou os botes em seis horas, desempenando o alumínio e costurando a lona. E voltaram à rotina de 20 quilômetros de remadas diárias por rios com piranhas, arraias, peixes elétricos e jacarés.

Além da esperteza para improvisos, os professores têm a res- ponsabilidade de formatar várias aulas de cerca de uma hora com a estrutura de que dispõem na natureza. As apresentações abrangem desde técnicas dos esportes até a história local, como a de Chico Mendes e a da escravidão no Brasil. A didática é baseada nas pesquisas pessoais e em vários livros publicados pela própria Nols sobre navegação, cozinha e medicina em ambientes outdoor, por exemplo. Entre os rígidos protocolos da escola, está a obrigação de serem feitas avaliações freqüentes de professor para aluno, vice-versa e até de aluno para aluno. Muito além da mera função de guias, os instrutores costumam dedicar o fim dos dias para realizar minuciosos relatórios em inglês para serem encaminhados à sede norte-americana.

A Nols é rigorosa também com seu corpo docente. “O curso de formação de instrutores mais parece uma entrevista de emprego que dura um mês”, brinca Jon Kimpsey, também advogado de formação, que há 16 anos tornou-se um clássico instrutor Nols: solteirão, sem filhos ou casa fixa (seus pertences estão espalhados entre Alasca, México, Chile e Chapada dos Guimarães). Na noite em que eu era o responsável pela cozinha do meu grupo, Jon me ensinou a fazer panquecas, uma verdadeira sofisticação que quebrou minha tradição de só preparar macarrões instantâ- neos em acampamentos. E me contou alguns dos episódios mais pitorescos que protagonizou em suas 190 semanas em campo. Como o dia em que um gato-maltês grudou na sua cabeça, no México, há oito anos, quando estava dormindo num saco de dormir, fazendo com que Jon tivesse de ser resgatado para tomar injeção contra raiva; ou quando estava ao lado de um aluno que ficou preso sob uma pedra de duas toneladas, durante uma avalanche no Eastern Alaska Range, dez anos atrás, e sobreviveu após esperar horas pelo resgate.

 

 

5a LIÇÃO: TENHA RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL

Os cuidados com a natureza e as comunidades no caminho da expedição são rigorosos. No passado, as excursões chegavam a ter 30 alunos nas trilhas, mas a preocupação com o impacto nos am- bientes naturais fez com que a Nols reunisse grupos cada vez me- nores. Além disso, os expedicionários são divididos em subgrupos e aprendem, nas aulas de Leave No Trace (Não deixe vestígio), a não deixar qualquer tipo de marca na natureza. As cinzas da fogueira devem ser enterradas. Contam pontos negativos na avaliação os grãos de arroz deixados ao ar livre na hora de desmontar o acam- pamento. Os restos orgânicos precisam ser cobertos e todo o lixo produzido precisa ser carregado até a cidade grande mais próxima, sendo que o lixo reciclável deve estar lavado e seco.

Questões ecológicas são lembradas nas aulas, como na de aque- cimento global, ministrada pela carioca Renata Bradford, a Kika, uma arqueóloga e escaladora de 30 anos que já foi guia da Exum Mountain Guides, considerada a escola de guias de montanha mais exigente da América do Norte. Entre as montanhas já exploradas por ela, estão as de Yosemite e Tetons (EUA), além de várias vias de escalada conquistadas. Utilizando um grande saco de farinha adaptado como uma lousa rabiscada com pincéis atômicos, Kika contou como a compra de créditos de carbono pode minimizar o estrago feito pelo desmatamento. “Calculamos o impacto desta expedição somando itens como os vôos, os traslados por terra e o consumo dos fogareiros, espaço e concluímos que precisamos plantar 57 árvores para neutralizar nossa passagem por aqui, mas vamos enterrar mais de 300 sementes”, explicou à platéia sentada no gramado sob a sombra de uma árvore à beira-rio. Como essa escola não tem paredes, é freqüente a dispersão pelo canto de um pássaro ou pelo surgimento de um boto no rio. Sem problemas. Ao longo da viagem, os alunos apresentam suas observações nos “na- ture nuggets”, pequenos seminários em que o estudante disseca algum aspecto da natureza.

Uma das peculiaridades dos cursos em lugares remotos é a experiência da diferença cultural e da interação com a população local. Nos dez dias que passei com eles em Vila Bela, percebi a surpresa com que viram um carneiro sendo morto para o churrasco no quilombo e o fascí- nio da constatação da felicidade em uma casinha pobre, de chão de terra e fogão a lenha. Aprenderam a pescar e a limpar o peixe, construíram um banheiro com paredes feitas de palha de babaçu, carregaram toras para erguer uma ponte. Semanas mais tarde, já na floresta amazônica do Pará, ficaram ainda mais encantados quando passaram quatro dias nas comunidades de Pedreira e Piquiatuba, à beira do rio Tapajós, dormindo cada um em uma casa de família. “Foi o momento da viagem mais importante para mim”, considerou Alex Melnyk, que até aprendeu a fazer farinha de mandioca. “O estilo de vida deles é muito diferente e nunca vou esquecer da generosidade e do carinho com que me receberam.”

A experiência do encontro com os índios mundurucu também foi marcante. Os alunos tinham passado sete dias sem cruzar mais que dois barquinhos de pesca no rio Juruena, e se depararam com os índios na margem — naturalmente estupefatos com aquela tribo de estrangeiros remando com roupas e barcos inéditos por aquelas bandas. A aproximação foi amigável e o grupo aproveitou para perguntar por qual dos três canais do rio deveriam seguir, já que estavam em um trecho desconhecido e cheio de corredeiras e desníveis. Os índios sugeriram um caminho, mas os alunos líderes do dia preferiram o outro canto, onde a descida poderia ser mais emocionante. Aconteceu, é claro, o pior: canoas viraram e foram furadas pelas pedras, e o grupo aprendeu, pelo erro, que não se deve desprezar o conhecimento dos nativos.

 

 

6a LIÇÃO: ESTEJA SEMPRE ALERTA

É por sujeitar seus alunos aos riscos inerentes ao ambiente natural que a Nols investe cerca de 2 milhões de dólares anuais em seguros e só viaja com um plano de ação para emergências que inclui estrutura de comunicação via satélite e resgate de helicóptero para hospitais de plantão. É compreensível. Nada menos que 14 alunos morreram em expedições, quatro deles nos últimos 20 anos. A maior parte dos familiares move processos contra a es- cola. Há casos de afogamento em rio, queda em buraco de glaciar e, o que é mais freqüente, soterramento em avalanches. Acampamentos já foram destruídos por ursos e muita gente foi picada por cobras. Os incidentes mais comuns puderam ser constatados na Nols Amazônia 2007: vários alunos tiveram desarranjos gastroin- testinais; o nova-iorquino Andrew Leitman, 20, torceu o joelho e teve de ser resgatado, e Jane McNeal, 20, da Geórgia, teve quei- maduras de segundo grau ao abrir a panela de pressão.

São as picadas, sejam elas de saúvas, abelhas ou pernilongos, os inimigos mais pentelhos de quem se aventura pelos rincões da Amazônia por tanto tempo. Além do episódio das formigas que picotavam até o material sintético de roupas e barracas, os mochileiros enfrentaram ataques de abelhas e de lambe-lambes,minúsculos insetos que atingem o olho humano em busca de sais minerais. E as tantas picadas que os alunos sofreram remando no rio Juruena parecem ter originado uma reação alérgica em quatro pessoas, com bolinhas vermelhas e pus em torno das axilas. Fe- lizmente, os instrutores carregavam quilos de medicamentos que permitiram aliviar o incômodo. A situação foi bem distinta daquela enfrentada pelos 13 jovens que fizeram o primeiro curso, em 2006, e foram acometidos de uma irritação nos pés conhecida como rói-rói. “A dor nos pés era tanta que não podíamos pisar no chão”, lembra o instrutor Atila, que precisou ser carregado.

A expedição de 2006, por sinal, foi um batismo de fogo também para os instrutores da Nols no Brasil. Além do imprevisto dos rói- róis e de duas picadas de escorpiões, eles tiveram de lidar com o fato de três dos 13 alunos não completarem a viagem, um com fratura no punho e dois por pura falta de motivação. O clima dentro do grupo e com os instrutores, ao final dos três meses, também não era dos melhores, especialmente depois que a su- bida ao pico da Neblina foi cancelada em função de um bloqueio feito pelos índios ianomâmi. A verdade todo mundo sabe: a união de pessoas tão diferentes enfrentando uma rotina de desconfor- to por tanto tempo deixa qualquer mortal com os nervos à flor da pele e o equilíbrio do grupo depende de fatores como afinidades, respeito e bom humor.

Já em 2007 o clima es- tava bem mais leve. Em um dos dias em que eu estava com o grupo, fla- grei o momento em que o instrutor Dálio trocou de roupa, discretamente, fora da barraca. Uns riram, ou- tros não deram bola, mas a naturalidade da situação deu origem a uma curiosa conversa sobre os áureos tempos em que a Nols, em meio ao movimento hippie e de contracultura da década de 1970 nos Estados Unidos, era uma escola liberal. Grupos de estudantes remadores en- frentavam o mar nus como vieram ao mundo, professores dormiam com alunas e até o baseadinho à beira da fogueira era um ritual tão natural quanto em tantas rodas de acampamento selvagem do planeta. Os tempos mudaram, a sociedade norte-americana careteou e a Nols hoje tem fama de escola conservadora. Durante o curso, namoricos são desestimulados (devem ser absolutamente discretos), uma latinha de cerveja ou um cigarro de maconha são motivos para expulsão (cerca de dez alunos são eliminados anu- almente por porte de droga) e qualquer militância pró-naturismo é imediatamente banida. Até um ingênuo tocador de mp3 é um mau elemento, proibido em prol da interação do grupo entre si e com o ambiente.

 

 

7a LIÇÃO: DESENVOLVA SUAS VIRTUDES

Ao fim do segundo mês da expedição, quando o grupo concluiu o trecho de rio em Alter do Chão (PA), os instrutores eram quase que apenas colegas observadores, com os alunos tendo autono- mia para decisões sérias. Foram eles quem elegeram os líderes dos dois grupos que enfrentariam o desafio final: a expedição de uma semana pelo monte Roraima (RR). Os mais virtuosos eleitos para a função foram Edmilson, o bolsista brasileiro, e Alex, o eco- nomista de Chicago, curiosamente os mais velhos do grupo. Dois dos instrutores os seguiram de longe, apenas para uma eventual emergência — o que não aconteceu. “Foi ótimo perceber que eu tinha evoluído tanto em apenas três meses, pois vim para a Amazônia sem nunca ter acampado na vida”, conta Alex, que chegaria ao fim da expedição nada menos que 11 quilos mais magro e sabendo identificar plantas, nuvens e estrelas. “Tenho certeza de que levarei as lições desta experiência para o meu trabalho”, continua ele, que levou nota A. “Você vê como uma expedição na natureza muda a mente das pessoas?”, questiona o experiente instrutor Jim Chisholm. “É fazendo coisas difíceis que as pessoas se fortalecem”, diz.

De uma forma geral, o grupo se despediu entre festas e lágri- mas, como era de se esperar de quem vive uma experiência tão intensa, com promessas de reencontro e discursos de que tinham se tornado pessoas melhores. Edmilson, por sua vez, tinha uma satisfação maior. No fim do primeiro mês de curso, ele tinha ga- nhado uma nota B porque, segundo os instrutores, estava aquém do seu potencial. “Eu sabia que tinha mais experiência que os outros, mas não queria despertar antipatia por isso ou por ser o mais velho”, lembra. No fim da saga amazônica, ele estava feliz por ter exteriorizado sua faceta de líder. Ganhou nota A e um convite para fazer, também com bolsa de estudos, o curso de instrutores da Nols em 2008. A escola se prepara para lançar dois novos cursos no país este ano — esse e o de primeiros-socorros, em julho — e pretende expandir sua atuação no país contratando novos instrutores. Depois da expedição, Edmilson é o primeiro candidato. Alguém mais se habilita?

 

RAIO X:

Desde que a Nols (nols.edu) foi criada pelo guia de montanha Paul Petzolt, em 1965, na cidade de Lander, no esta- do norte-americano do Wyoming, nada menos que 85 mil alunos já viajaram para alguns dos 14 campi naturais da escola espalhados por nove países (cinco deles nos Estados Unidos). O catálogo 2008 inclui 96 cursos que acontecem em 253 datas e que podem durar de dez dias a um ano, atraindo cerca de 3 mil alunos anualmente. A Nols treina guarda-parques, como os da Patagônia chilena, e oferece expedições que misturam às modalidades esportivas expe- riências que vão da hospedagem em ashrams indianos até contatos com aborígines australianos. O curso anual que acontece no Brasil desde 2006 atrai especialmente univer- sitários dos Estados Unidos porque, graças a um convênio da Nols com a Universidade de Utah, tem disciplinas que contam créditos para a faculdade: biologia, ética ambiental, técnicas de liderança, gerenciamento de risco. As aulas mis- turam sofisticadas lições de técnicas de montanhismo com receitas culinárias da vovó, num cardápio que transformou a Nols numa potente organização não-governamental sem fins lucrativos, que emprega 980 funcionários em sua sede, durante a alta temporada, e que despacha 560 instrutores de campo para recantos remotos como o Campo de Gelo Sul, na Patagônia, e os 6 mil metros do pico Denali, no Alasca. O semestre brasileiro custa aos pais desta molecada bem- nascida a bagatela de US$ 13.300 (R$ 25 mil), sem contar o seguro e a taxa de crédito pelas disciplinas escolhidas (cada uma por US$ 45).

 

Caravana do tacacá

Eles observaram as bolinhas roxas do açaí, apertaram a carne grossa do pirarucu, tascaram as mãos nos variados potes de farinha de mandioca para comparar a textura. Cheiraram uma barra condensada de guaraná, morderam a pimenta murupi para sentir sua ardência e tiveram as línguas adormecidas com as folhas de jambu que boiavam na calda quente do tacacá. Durante os cinco dias em que passearam pela Amazônia, em março, Toni Massanés e Elena Roura experienciaram todos os sabores que seus sentidos lhe permitiram. É provável que você nunca tenha ouvido falar deles. Mas essa dupla de espanhóis — ou, como preferem, catalães — exibe uma patente invejada por gourmets do mundo todo. Eles representam a Alícia (ALImentácion e CiênCIA), respeitada fundação de pesquisa gastronômica criada pelo chef Ferran Adrià, responsável pela maior revolução culinária mundial dos últimos tempos.

Conhecer o Brasil, especialmente Manaus, era um sonho de Toni Massanés, de 42 anos, diretor da Alícia desde sua criação, em 2003, e diplomado professor, crítico e escritor de cultura e história da gastronomia (é dele a coluna semanal de restaurantes de Barcelona na prestigiada revista Time Out). A nutricionista e tecnóloga de alimentos Elena, de 31 anos, chefe do departamento de saúde e hábitos alimentares da Alícia, já viajara pelo Nordeste como turista e agora estreava na maior floresta do mundo. E foi comendo, naturalmente, que a dupla recebeu as boas-vindas na abafada capital do Amazonas. A primeira parada foi no restaurante Açaí e Companhia (R. Acre, 98, 92/ 3635-3637), despojado, mas com cardápio variado, onde deram suas primeiras beliscadas em alguns dos petiscos típicos: bolinho de pirarucu — o peixe conhecido como bacalhau da Amazônia —, tapioca de queijo coalho, patinha de caranguejo, casquinha de açaí. Entre “huuums…” e olhares surpresos, a dupla trocava impressões com a comitiva de 12 amantes da boa mesa que a acompanhava, entre gourmets, estudantes e documentaristas. E dava início a uma seqüência de visitas que tinha por objetivo perceber, afinal, por que a cozinha amazônica virou a bola da vez dos grandes chefs.

É o próprio Ferran Adrià quem aponta a Amazônia como berço das melhores novidades alimentares que o mundo presenciará no futuro próximo. Sua opinião é compartilhada por outros estrelados chefs estrangeiros trazidos pela anfitriã paulista Margot Botti, consultora de gastronomia. Ela já levou à Amazônia o francês Pascal Barbot, do restaurante parisiense L’Astrance, e o espanhol Andoni Luiz Aduriz, do Mugaritz, de San Sebastian, entre outros. O jovem chef brasileiro Felipe Ribenboim, de 25 anos, que estagiou por duas temporadas no elBulli — restaurante de Adrià — e desenvolve uma pesquisa sobre a gastronomia nos diferentes biomas brasileiros, também contribuiu para que os profissionais da Alícia aceitassem o convite. E isso apenas quatro meses depois da inauguração de sua sede, no complexo de um monastério do século 12, em Sant Benet de Bages, na Espanha.

Em meio a visitas a restaurantes e a passeios clássicos distantes das panelas, como a visita ao suntuoso Teatro Amazonas, de 1896, e ao encontro dos rios Negro e Solimões, a “expedição gastronômica” impressionou os estrangeiros com uma pequena casa de farinha à beira do rio Negro. “De uma simples raiz de mandioca brava tiramos três produtos: a farinha, o tucupi e a tapioca”, explica Francisco Neves Gomes, de 58 anos, um caboclo da terra. Com a ajuda da esposa Celina da Silva, de 51 anos, e de alguns dos 14 netos, seu Francisco apresenta a mandioca local, venenosa, diferente daquela a qual os moradores do sudeste do Brasil estão acostumados e do inhame que os europeus conhecem desde antes da chegada dos primeiros exploradores ao Brasil. E, na seqüência, mostra todas as etapas pelas quais passa a mandioca: a extração da raiz, a ralação, a secagem da farinha em um cilindro de fibras naturais para que o ácido cianídrico seja extraído, a fervura desse caldo amarelo por horas até chegar ao ponto do tucupi e a feitura do beiju e da tapioca. “É interessante como um alimento venenoso é reaproveitado”, observa Massanés.

Quando tiveram a chance, já no mercadão do centro de Manaus, de comparar os diferentes preços, texturas, cores da farinha de mandioca, Massanés e Elena vibraram. A Manaus Moderna, também chamada de “feira coberta”, alinha centenas de barracas de frutas e peixes frescos no coração do centro de alimentação popular da cidade. Na seção de farinhas, o farelo de algumas delas: a farinha d’água, hidratada nos rios; a surui, seca e fininha; a do uarini, uma sofisticada ovinha crocante amarela; a de tapioca, com pequenos grãos branquinhos torrados e leves. Na seção das frutas, mais fartura de variedades, nomes e peculiaridades: cupuaçu, graviola, bacuri… A espanhola Ana Tomé, diretora do Centro de Cultura Espanhola, um dos patrocinadores da vinda dos representantes da Alícia juntamente com o Senac, anota tudo no bloquinho: “O delicioso taperebá que provei em forma de suco no café-da-manhã e em forma de sorvete à tarde é o que se chama de cajá no sudeste do Brasil”.

Num galpão ali próximo, Elena se surpreende com um gigantesco espaço exclusivo para a venda de milhares de cachos de banana. “Não temos essa variedade na Europa e nem com preços tão baixos”, diz. E na ala dos lanches da Manaus Moderna testa o X-Caboclinho, nome popular do sanduíche de tucumã. Trata-se de uma deliciosa combinação de pão francês com queijo coalho derretido e lascas dessa fruta amazônica amarela. Popular nos fartos cafés-da-manhã servidos nas lanchonetes de Manaus, uma recente moda local, o X-Caboclinho é pouco difundido em Belém, capital do estado vizinho, Pará. “Belém e Manaus possuem cozinhas distintas, apesar de se abastecerem dos mesmos ingredientes da floresta”, explica Sofia Bendelak, chef do Bistrô Ananã (Trav. Pe. Ghisland, 132, 92/ 3234-0056), pioneiro em cozinha contemporânea amazônica em Manaus. Enquanto Belém se orgulha de combinações como o pato no tucupi e a maniçoba (espécie de feijoada local feita com folhas de mandioca), Manaus capricha no preparo dos grandes peixes de rio, como as caldeiradas de tucunaré.

Ao encontrar a chef Maria do Céu Athayde, de 56 anos, a excursão da Alícia pôde acompanhar melhor o preparo dos pratos tradicionais feitos à base dos alimentos conhecidos no mercado e no tour pela floresta. “Nós, caboclos da Amazônia, comemos tudo com pouco sal, mas com muita farinha e pimenta”, explica essa verdadeira embaixadora da culinária amazônica de raiz, que rege há seis anos os cursos do Centro de Gastronomia da Amazônia, da Fundação Rede Amazônica. Enquanto comanda seus 20 alunos no preparo de pratos, como a farinha d’água à moda indígena, a salada de feijão de praia (um parente do feijão-de-corda nordestino) e o risoto de tacacá, Maria do Céu discorre sobre a história e os efeitos dos ingredientes. “O cheiro-verde daqui é feito de cebolinha, alfavaca [espécie de manjericão], coentro e xicória silvestre, diferente da xicória, popular no sul do país”, conta. O prato principal, o peixe Aruanã à Solimões ganhou cor graças ao pimentão vermelho. “Não misturo com páprica por ela não ser da terra e nem com urucum, pois os índios só o usavam para pintar o corpo, não para cozinhar”, revela.

Outra paixão dos manauaras, o tacacá, foi apresentado num fim de tarde, no centro da cidade, quando as tacacazeiras montam suas barracas à espera dos clientes que
saem do trabalho. Foi no tradicional Tacacá da Gisela, no largo São Sebastião, que Toni Massanés experimentou a iguaria do jeito que todo mundo adora: bem quente, tascando pimenta. “O tucupi me faz lembrar uma sopa tailandesa, a tom yum, com um sabor um pouco doce, quase ácido”, afirma ele. Ao final das degustações, a caranava da Alícia deixou Manaus carregando muitas impressões, mas poucos produtos. Rapadura, guaraná em pó, jiló — Massanés quer explorar seu sabor amargo. Elena comprou ervas medicinais, como o cipó de miraruíra e a farinha de casca de maracujá, vendidos com alegadas propriedades de controle de diabetes. Ela pensa em estudá-los como alternativa às pessoas com distúrbios e restrições alimentares, como os enfermos com câncer. Afinal, é para isso que nasceu a Alícia: investigar patrimônios agroalimentar e gastronômico para permitir que as pessoas comam cada vez melhor. E a culinária amazônica, como mostra o interesse crescente dos grandes chefs, é um prato cheio para os amantes da boa mesa.

DESCOBERTAS DA EXPEDIÇÃO:

Pimentas da floresta

Dá para entender por que só os índios que freqüentam o restaurante de comida indígena Koonoly (R. Bernardo Ramos, 60, 92/ 8167-1972) conseguem comer pratos como a quinhapira, uma caldeirada superpicante. É que eles estão acostumados com a farta variedade de pimenta da terra. A forte muripi (no desenho), típica do estado do Amazonas, fica amarela quando madura. No dia-a-dia são usadas a pimenta cheirosa, que não arde, mas dá gosto e aroma, a famosa malagueta e a pimenta-de-cheiro, com ardência suave, mais comum no Pará.

 

Peixes amazônicos

O pirarucu (ao lado, no alto), que atinge mais de 2 metros e 80 quilos, é a estrela entre as 5 mil espécies de peixes dos rios da Amazônia, como o pacu e o filhote. Vendido em peças salgadas como o bacalhau, o pirarucu compartilha a preferência dos chefs com o Tucunaré, que chega a pesar 12 quilos e fica saboroso em caldeiradas, e o nobre Tambaqui (ao lado, no canto inferior), com carne branca e felpuda. Podem também ser cozidos, fritos, assados ou defumados, como fazem os índios.

 

Tacacá com tucupi

Feito à base de tucupi, caldo amarelo extraído da mandioca brava, o tacacá está para a Amazônia como o acarajé está para a Bahia. Espécie de sopa quente com goma de mandioca e folhas de jambu, que amortecem os lábios, nasceu com os índios e ganhou ingredientes como o camarão seco vindo do Maranhão (originalmente levava peixe piramutaba). É servido sempre em cuias, cascas do fruto da cabaceira secas ao sol

 

Castanha para exportação

Famosa no exterior, a castanha-do-pará (ou castanha-do-brasil) é uma amêndoa oleaginosa com alto valor alimentar. De um único fruto escuro de casca dura retirado de uma árvore de até 60 metros podem sair 24 castanhas. Rica em proteína, é consumida também em forma de farinha.

 

Açaí salgado

No sul do país o conhecem como uma pasta doce misturada ao xarope de guaraná e servida com banana e granola. Mas no Norte, o creme puro e original dessas frutinhas roxas tiradas das palmeiras dos açaizeiros é consumido como um prato salgado, com farinha, peixe frito, carne ou camarão secos.

 

Guaraná power

Nativa da remota região de Maoés, na Amazônia, a fruta vermelhinha, semelhante a um olho, tem sua massa moldada em forma de bastões que, lixados na língua seca do pirarucu, viram um pó energético caseiro. Mas, nas barracas do centro de Manaus, o guaraná não é apenas sinônimo de refrigerante ou de um pozinho amargo misturado em água. Potente para “levantar até defunto”, o guaraná servido nas ruas leva, além do pó, leite, abacate, aveia, amendoim, farinha de caju, catuaba, miratã (energético parente da catuaba) e granola.

 

Farinha de mandioca

Base da cozinha de raiz amazonense, a mandioca está presente em todas as refeições. Na tapioca e no beiju do café-da-manhã, na farinha de vários tipos que acompanham os peixes no almoço e no jantar, e no caldo de tucupi e na goma presentes do tacacá, iguaria preferida dos fins de tarde. Diferente da mandioca — ou macaxeira — do restante do Brasil, a da Amazônia é chamada de brava e precisa ter extraído o seu caldo venenoso.