Diante de mim existem dezenas de barquinhos com velas descendo lentamente o rio que passa sob a ponte onde estou. Anoitece aqui na charmosa cidade colonial de Hoi An, no Vietnã, que é toda decorada por lanternas coloridas. É uma cena linda, singela e romântica que todo mundo tem que ver uma vez na vida.

 

Boletim da série Tailândia e Vietnã para o programa Repórter Viageiro, da Rádio Vozes

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O blog do Same Same traz relatos dos bastidores das reportagens reproduzidas neste site portfolio. São pequenas histórias que não foram contadas nas revistas em que foram publicadas.
 
quarta-feira, 23 abril 2014
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Todo dia 23, no calendário da Etiópia, é dia de São Jorge. Vinte madrugadas atrás, tive a sorte de poder visitar, às 6h, a Casa de São Jorge na sagrada cidade de Lalibela. Para os cristãos ortodoxos etíopes, era dia 23 do mês 7 de 2006, enquanto para seguidores do calendário gregoriano como eu, o dia era 1 de abril de 2014. Na espetacular igreja de pedra escavada no chão que reverencia o Santo Guerreiro, repeti o ritual que eu havia vivido duas madrugadas antes, data mensal de devoção à Nossa Senhora, na igreja de pedra da Casa de Maria. Foi quando escrevi, emocionado pela experiência, o relato a seguir. Só não postei antes no Same Same para não furar minha própria matéria sobre a Etiópia no Estadão – que veio a ser publicada na semana passada, no Caderno Viagem.

 

Madrugada foto arte P1250875

 

Em Lalibela, segundo o calendário etíope, é dia 21 do mês 7 de 2006.

(No calendário gregoriano do Brasil e do resto do planeta, a mesma data é conhecida como 30 de março de 2014).

A experiência dessa manhã foi tão única que precisa ser compartilhada imediatamente, mesmo sem tempo pra formatar frases certinhas, ou um lead legal, quem sabe um desfecho perfeito. Permito-me vomitar.

 

Casa de São Jorge antes do ritual

Casa de São Jorge antes do ritual

 

Como se estivesse no script, acaba de acabar a sequência de músicas africanas que eu tinha colocado pra tocar, no itunes do meu MacBook Pro, logo que voltei pro quarto 121 do Panoramic View Hotel. Mensagem do astral bem entendida. Pela segunda vez em dois dias, na mesma sacada com a fantástica vista panorâmica que o nome do hotel promete, o silêncio se convida para entrar – ontem ele substituiu o reggae. Mais uma vem, a calada do dia é bem-vinda. Assim como o assovio do vento e o grasnar dos corvos. Assim como a mudez retumbante das montanhas a quase 2800 metros de altitude de Lalibela.

Esse domingo 21 (segundo o calendário etíope) é dia de Santa Maria, uma das celebrações mais importantes dos cristãos ortodoxos, religião da maioria da população da Etiópia. E uma das duas cidades mais sagradsa pra esses seguidores de Cristo é Lalibela (a outra é Aksum). Pra eu entender melhor, o guia Desew disse, com seu sotaque difícil de compreender, que Lalibela é a Jerusalém dos etíopes. Hoje pela manhã eu entendi o porquê.

 

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Fieis com a testa colada na parede de pedra, religiosos beijando o muro, mulheres se ajoelhando também para encostar a cara no chão sagrado. Foi essa a primeira imagem com a qual me deparei assim que me enrolei no enorme pano branco e desci as escadas misturado à multidão negra de trajes alvos. Fazendo lembrar a Jerusalém onde nunca pisei, os crentes em Jesus Cristo conforme a doutrina local estavam ali para pedir, para agradecer, para ganhar bênçãos. Os sons dos cantos masculinos chorosos e fervorosos ecoavam por todo o entorno daquela imensa igreja de pedra totalmente escavada dentro de um monólito. Nessa religião, as beatas não podem cantar, podem só ouvir. Ainda que super-artificiais coberturas sintéticas tenham sido instaladas, em 2008, para garantir proteção contra as intempéries às 11 igrejas de pedras esculpidas no século 12 em Lalibela, a cena era absolutamente fascinante. Inédita para mim.

 

Diacono com incenso

 

Era noite ainda, 5 horas da manhã, e o céu estrelado trazia ainda mais magia para o momento. Eu tinha acordado às 4h10 e caminhado meia hora no breu da estrada de terra com três funcionários do hotel, um rapaz e duas moças, que estavam indo lá para rezar. E já tinha tirado as papetes para poder seguir descalço com meus novos amigos para dentro da igreja de St Mary quando ouço o segurança chamar minha atenção em amárico. Ufa, não era uma negativa para minha entrada, como eu cheguei a acreditar que poderia acontecer – afinal eu sou um dos três únicos galegos que vi nessas lonjuras desde que desembarquei aqui vindo da capital Adis Abeba, ontem pela manhã. O guarda queria ver meu ingresso. Respirei aliviado, peguei o recibo na minha pochete (sim, fashion-victims, a pochete voltou à moda agora mas eu nunca deixei de usá-las em viagens ;-) e entreguei rapidinho, sem querer chamar demais a atenção naquele ambiente de devoção profunda. Aí a casa caiu. O senhor fez uma negativa com a cabeça, devolveu o papel e eu, sem entender, fui conferir. Eu tinha trazido, por engano, a nota fiscal do jantar da noite anterior. Estava sem ingresso pra acompanhar o ritual noturno para Nossa Senhora.

 

Prece interna PB P1260500

 

Tanta coisa passou pela minha cabeça naquele momento de frustração. Primeiro, liberei meu novo amigo Asnko, o garçom do hotel (as meninas já estavam lá dentro) para entrar e não perder a prece. Depois fiquei ali, do lado de fora, vendo o entra-e-sai de gente, o beija-chão-e-beija-muro, o tira-e-calça dos sapatos. Que vacilo o meu. Acho que não era pra eu entrar. Outro sinal do astral? Deve ter sido castigo divino. Quem mandou eu comer bife ontem à noite, em plenos 50 e tantos dias de jejum de carne (é a “quaresma” deles) antes da Páscoa Ortodoxa?

 

Padre luz rosa horizontal P1260077

 

Mesmo lá fora, a experiência já tinha sido marcante. Quando o Asnko saiu,  nova surpresa. O segurança não nos deixou caminhar pelo entorno das outras igrejas. Era 5h30 da manhã, e o período até as 7h, quando acontece a principal missa do dia, requer que ninguém se mova em sinal de respeito. OK, Deus, hora de ir pra casa, enchendo o amigo de perguntas sobre sua religião, que domina a Etiópia desde o século 4 d.C. – o cristianismo virou oficial aqui mesmo antes de Roma.

 

Ruas de Lalibela com restaurante Ben Abeba ao fundo

Ruas de Lalibela com restaurante Ben Abeba ao fundo

 

Mais meia hora de rolê pro hotel, café da manhã e outra meia hora para caminhar pela segunda vez no dia à igreja de Nossa Senhora. Dessa vez, para encontrar às 7h30 meu guia oficial, o Desew, diácono que me acompanhou ontem pelas primeiras cinco igrejas. Pelo telefone, ele já tinha me acalmado quando liguei, às 7 da matina, pra contar que tinha “perdido” meu ingresso de 50 dólares (entrar aqui é mais caro que visitar o Papa Francisco no Vaticano, que ver o beija-beija do Muro das Lamentações original em Israel, que brincar com o Mickey no Magic Kingdom da Flórida). “I have your ticket here”, já tinha respondido, por celular, meu anjo da guarda etíope. Ingresso na mão, entramos na primeira – e maior – das igrejas, a Casa de Maria. A missa especial tinha acabado, claro. Mas lá dentro as orações, cânticos e bênçãos me anunciavam um mundo de rara beleza.

 

Igreja de Santa Maria vista de fora

Igreja de Santa Maria vista de fora

 

Sob os raios de sol entrando pelas janelas que ostentam os mais variados formatos de cruz, os véus brancos agora se dividiam. À esquerda se concentravam os homens, enquanto as mulheres estavam todas sentadas à direita. Quando eu digo sentadas, me refiro ao chão. Como eu já tinha visto nos meus 20 dias anteriores, viajando pela Índia, as igrejas cristãs não têm aqueles longos bancos do Brasil, dos Estados Unidos, da Europa. Aqui, o frio do chão de pedra é amenizado por um sem número de tapetes coloridos que forram o assoalho de todas as igrejas.

 

Padre com Jesus P1250947

 

No centro, ao fundo, uma roda de padres, diáconos e sei-lá-mais-qual-patente (vários deles, adolescentes) rezavam o mesmo chororô que eu ouvira na frustrada visita noturna. Lá na frente ficava o suposto altar, um palquinho de pedra com uma enorme cortina pesada que evita que os fieis vejam os objetos cerimoniais guardados ali detrás (entre eles, a cópia da tábua dos dez mandamentos, cujo original acredita-se estar bem escondido na cidade vizinha de Aksum). Um dos sacerdotes, vestindo sempre roupas e coroas coloridas superbonitinhas, tipo a dos reis-magos que foram visitar Jesus (um deles era etíope!), benzia as pessoas com água benta ou dava uns copinhos dela para as pessoas tomarem. Em outro canto, um bispo com uma cruz dourada enorme, só exibida nos dias de festa, pegava as pessoas pela cabeça de forma abrupta, fazia o pobrezinho se reclinar e deslizava a peça pelas costas, peitos, pernas, cabeças. Não resisti, entrei na fila e ganhei meu axé, digo, minha benção, sob a mesma mão pesada do homem. No final, repeti o gesto de todos. Deixei que ele colocasse a cruz na minha testa por alguns segundos, e depois a beijei em dois pontos.

 

Outro padre benze com cruz P1250982

 

Pronto, estava benzido. Na saída, vimos coisas parecidas nos templos vizinhos. Quando deu 9 da manhã, estávamos lá fora, recebendo a benção final (ecoada pelos auto-falantes) em meio a uma multidão ainda maior de plácidos véus brancos acocorados por todo o entorno das igrejas sagradas de Lalibela. Consegui comer uma lasca do doce pão bento distribuído por mais três bispos super-paramentados. E, ao cruzá-los de pertinho, imitei o Desew (e outras milhares de pessoas naquela manhã especial da Virgem Maria) e beijei mais três cruzes. Eu havia sido abençoado em grande estilo nos rituais sagrados da Etiópia.

 

Beijando o muro P1250972

 

Código de Ética SS:

Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines, recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas de ida e volta entre São Paulo, Adis Abeba e Lalibela. 

Os hotéis, restaurantes, guias e passeios foram custeados pelo Same Same.

 

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terça-feira, 15 abril 2014
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Acabou o mistério: pra quem não estava entendendo o meu sumiço nos últimos dias, hoje veio a resposta. Nesta terça-feira, dia 15, foi publicado no Caderno Viagem, do Estadão, minha matéria sobre a Etiópia (ao qual me dediquei desde que voltei ao Brasil). São 5 páginas contando um pouco de como foram meus 5 dias no país. Parei ali na volta da viagem à Índia para o #KeralaBlogExpress e tive a sorte de acompanhar alguns rituais quase tão lindos quanto os que eles fazem nos próximos dias, durante a Páscoa da Igreja Cristã ortodoxa. Acompanhem a matéria do Estadão e voltem aqui para conhecer relatos dos bastidores nos próximos dias. Leia mais…

 
sexta-feira, 4 abril 2014
macaco cortado

OK, Kerala é uma região linda, a cultura indiana impressiona e as pessoas devem ser as mais fotogênicas do planeta Terra. Mas ouça meu conselho: tome cuidado com os macacos. Eu estava ali, confortavelmente instalado em um bangalô fino do Vythiri Resort, no 11o dia de viagem, quando aprendi essa lição. Para mim, macacos eram bichos fofinhos, engraçados, que davam saltos incríveis de uma árvore para outra e cujos filhotes poderiam muito bem ficar procurando pulgas nos 12 ou 15 gatos lá da Vila Ângela, onde eu moro, em São Paulo. Na Índia aprendi que não.

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