Vem aí Jornalismo de Viagem Na Estrada

O sucesso do Curso Livre de Jornalismo de Viagem na Faculdade Cásper Líbero (foto), criado em 2016 e que está em sua quarta edição, deu origem a um novo curso. O Curso de Jornalismo de Viagem Na Estrada, que chegou a ser planejado para 2017, foi reagendado para 2017. Organizado em parceria com a empresa Campus Brasil, especializada em intercâmbios de curta duração no exterior, a viagem-curso será uma espécie de módulo prático para aplicar as técnicas de reportagem e edição do jornalismo de viagem. A experiência é voltada a comunicadores multimídia, estudantes de jornalismo, blogueiros de viagem, profissionais do turismo e qualquer pessoa que goste de contar suas experiências na estrada. Ao longo de uma semana, cada aluno desenvolverá uma pauta, sob orientação do professor Daniel Nunes, que aborde o turismo na capital argentina de forma autêntica e original. Ao final do curso, todos os trabalhos serão editados e publicados. A data do curso Na Estrada de 2018 será anunciada em breve.

 

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Ao sabor das marés

Vocês viajaram de bugue pela praia desde Natal?”, perguntou com ar surpreso a mulher que descascava mandioca numa casa de farinha da cidade potiguar de São Miguel do Gostoso. “Tem louco pra tudo!”, continuou Vera Lúcia da Silva, depois de uma sonora gargalhada. Para ela, a viagem dos forasteiros em bugues parecia um sacrifício. Acostumada à rotina de pesca de parte dos doze filhos e ao trabalho com farinha na simpática praia onde vive, a perplexa Verinha, como é conhecida, 38 anos, não entendia que uma empreitada com sol na cabeça, pouca roupa e brisa no rosto é o que todo mortal estressado pediria a Deus. Estávamos apenas no fim do segundo dia de uma aventura que duraria uma semana e que percorreria 700 quilômetros e 100 praias do extremo Nordeste do Brasil, desde Natal, no Rio Grande do Norte, até Fortaleza, no Ceará. E tudo com calma, tendo como única preocupação a escolha das vilas de pescadores onde tomar banho de mar, beber água-de-coco e comer lagosta fresca.

(Ponta Grossa, foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

 

Gostosa, a gargalhada de Verinha traduz bem o alto-astral do lugar do primeiro pernoite fora de Natal. No século passado, a pacata vila de São Miguel teve adicionado ao seu nome o curioso complemento “do Gostoso“, em homenagem a um comerciante contador de histórias engraçadas conhecido por sua risada divertida, “gostosa“, como a de Vera. Apesar de o nome oficial ser São Miguel de Touros, a maior parte dos 5000 habitantes do centro urbano prefere o outro título. Até a placa na entrada da cidade dá as boas-vindas com a mensagem “Aqui você faz gostoso“. Depois do dia anterior em Natal ter sido dedicado aos preparativos da viagem, o primeiro dia de deslocamento dos dois bugues terminava feliz, sem imprevistos. À medida que se dirige para o norte, a praia vai ficando mais bela e as casas de veraneio da orla dão lugar às vilas de pescadores em praias desertas.

No ritmo da natureza. Os passeios de bugue pela praia acontecem na região há quinze anos. Poucas pessoas se arriscam a trocar a velocidade na estrada asfaltada entre Natal e Fortaleza pela aventura a 40 km/h na areia. “Uma longa rota de bugue requer macetes de pilotagem“, diz o bugueiro Cláudio Chueiri, 47 anos, que repetiu o trajeto seis vezes nos últimos oito anos. O motorista precisa enxergar desníveis do solo, trechos de areia fofa e riachos que desembocam no mar. Deve ainda dirigir apenas nos horários em que a maré permite – e isso varia conforme a fase da Lua. Sempre que a maré sobe, o trecho de areia seca diminui, obrigando o viajante a esperar a vazante ou dirigir em estradas paralelas. Com a maré baixa, os obstáculos são os trechos com pedras e os rios, onde nativos oferecem a travessia em jangadas.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

A variedade das paisagens impressiona. Depois da seqüência inicial de dunas e lagoas de Genipabu, despontam os extensos coqueirais do Cabo de São Roque, ponto da América mais próximo do continente Africano. Em seguida, as piscinas naturais de Maracajaú, a 7 quilômetros da costa, surpreendem os mergulhadores com o desfile de budiões, moréias e polvos em águas azuis incríveis. O cenário paradisíaco se repete à frente, nas piscinas de Rio do Fogo.

Ao norte, a orla de areia fina curva-se para a esquerda e delineia a esquina nordestina brasileira, em Touros, onde o Farol do Calcanhar, com seus 62 metros de altura, evita que novos naufrágios ocorram na região. Considerado o maior da América Latina, ele oferece um mirante no alto de seus 298 degraus, de onde se avista São Miguel do Gostoso e se percebe que os bugues passarão, no dia seguinte, a circular no litoral virado para o norte, e não mais para o leste. A tábua de marés, que orienta pescadores e bugueiros apontando os horários de cheia e vazante, muda totalmente.

Nordeste pré-histórico. O primeiro barco se preparava para deixar a praia de Gostoso, às 6 horas da manhã do dia seguinte, quando os dois bugues partiram pertinho do mar, onde a areia é mais dura. Os homens da jangada comentavam o evento da noite anterior, a apresentação de um circo itinerante com direito a show da Tiazinha. “A Tiazinha da televisão?“, pergunta alguém. “Não, uma igualzinha, veio lá do Recife“, responde outro, entusiasmado. São Miguel do Gostoso é realmente uma cidade engraçada… O papo sobre os atributos da moça continuou enquanto os pescadores ajeitavam os 100 covos, gaiolas de pescar lagosta que seriam deixadas no mar até o dia seguinte. Zarparam. Um visitante caminhava na praia, anunciando o turismo discreto que começa a descobrir Gostoso. A cena dificilmente seria vista um ano atrás, quando o asfalto da BR-101 ligando Natal a Touros não estava concluído.

As formações rochosas que aparecem no terceiro dia têm tanto valor que já se tentou criar ali um parque. Em Tourinhos despontam paredes escuras, de até 5 metros de altura, que parecem ter sido lapidadas e polidas pela chuva e pelo vento. “São dunas petrificadas que existem há pelo menos 7500 anos“, explica o geólogo Eduardo Bagnoli. Nos areais que beiram a praia, surgem os bosques petrificados, um fenômeno mundial raríssimo.

Quem não tocar não vai perceber, mas os troncos secos brotando do chão são pedras. Há milhares de anos as árvores foram cobertas pelas dunas, endureceram e ressurgiram quando a areia se moveu. Na Ponta dos Três Irmãos, perto dos galhos, muitas conchas escondem pedras lascadas usadas como ferramentas indígenas. “Talvez os índios se alimentassem dessas conchas na sombra do bosque“, diz Bagnoli. Se a rodovia litorânea Touros–Fortaleza, que será construída em 2001, não evitar passar por ali, essas relíquias se perderão.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Os cactos da caatinga beirando esta costa de ondas fortes comprova que estamos no trecho mais árido e isolado da viagem. Água doce é um artigo tão raro que as lagoas formadas pela chuva nas dunas são usadas para regar plantações de batata e mandioca, para que as lavadeiras lavem roupas e para que homens e animais tomem banho. “Eu e o Campineiro andamos uma hora para chegar aqui“, diz o vaqueiro Cícero César, 19 anos, enquanto lava seu boi, o tal Campineiro.

Banquete indígena. A Praia do Marco, onde foi cravado o primeiro marco português no Brasil, em 1501, remete a um passado mais curioso do que aparenta a réplica local da cruz portuguesa (a original está em Natal, no Forte dos Reis Magos). Depois de fixar o monumento, a expedição de Gaspar de Lemos se aproximou, de bote, dos índios potiguares que descansavam na areia fofa da praia vizinha de Ponta do Santo Cristo. Foi quando os índios mostraram sua ferocidade. Nadaram até um dos barcos e dele retiraram um padre, que foi arrastado até a praia e, diante dos olhares de outros portugueses, morto e devorado pelos selvagens. Os potiguares continuaram resistentes até o final do século, ocasião em que foram enfim dominados.

O sol parece mais forte e a água do mar, mais salgada, na Ilha de Galinhos, ponto final do terceiro dia e inicial da chamada Costa do Sal. Os golfinhos costumam acompanhar a balsa que leva a esta vila de 1800 habitantes e chão de areia. Como praticamente não há carro em terra firme, os viajantes se locomovem em charretes puxadas por jumentos, os jumentáxis. Simpática vila de casas coloridas, Galinhos é comandada há décadas pelo pulso firme da prefeita Jardelina Pereira, 73 anos, espécie de coronel local. Ao entardecer, ela costuma arrastar uma cadeira até a frente de casa, onde, sentada com toda pompa, escuta os lamentos das moradoras.

A cor branca das salinas e dos belos bancos de areia da Ponta do Tubarão é a mesma do triste cenário dos galhos secos nos manguezais que foram destruídos pelas empresas salineiras, deixando sem lar aves de mangue como garças e maçaricos. O sal é a principal fonte de renda da população do Rio Grande do Norte, além do petróleo extraído das plataformas terrestres da Petrobras, nas quais os chamados cavalos puxam óleo desde 3000 metros de profundidade.

Em Porto do Mangue, onde se concentram as paisagens mais bonitas do dia, o destaque é a seqüência de falésias de cores vermelha, amarela e alaranjada que beiram o mar azul até as praias de Ponta do Mel, São Cristóvão e Redonda. O melhor mirante para observá-las é o alto de cada morro, como no cemitério de São Cristóvão. Nesta região, famílias inteiras dormem em redes com a porta da casa aberta. “Só fecho quando o vento bate forte na boca da noite“, diz Cosme Olivar das Neves, 53 anos, que trabalha na salina artesanal de Grossos, cidade vizinha de Tibau, última parada do dia. “Mas o vento é bom. A gente nem precisa balançar a rede debaixo do cajueiro“, diz, feliz com o sossego de onde mora.

A extinção da lagosta. A entrada no Estado do Ceará, no quinto dia, é indicada por um mar mais verde, protegido por paredões avermelhados, como o de Barreira, Redondas (com “s“, diferente da Praia Redonda do dia anterior) e Ponta Grossa. De uma beleza surpreendente, as três praias ficam em isoladas vilas de pescadores cheias de jangadas de velas brancas. Todos os anos, no dia 15 de agosto, elas engrossam uma procissão de 150 barcos em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes. “Só a santa e o governo podem ajudar a melhorar nossa vida“, reclama o pescador João de Deus, 48 anos, morador de Redondas. Acostumado a viver da venda da lagosta, João de Deus tem sofrido com a escassez causada pela pesca predatória, que tem dizimado os filhotes. O volume dos pescados baixou de 20 quilos por mês, dez anos atrás, para 2 quilos.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Em Canoa Quebrada, ponto do próximo pernoite, a pesca deixou de ser o principal ganha-pão há duas décadas. O turismo explodiu de tal forma que a maioria dos 3000 moradores atuais veio de fora, atraída pela badalação que rondou a praia na década de 70, depois que a atriz Vera Fischer passou a freqüentá-la. Canoa continua bela, com dunas e falésias, mas cresceu demais.

O ícone da lua com a estrela, nascido do símbolo do islamismo e transformado em marca registrada de Canoa, também permanece em um paredão rochoso da praia – agora, porém, em meio a milhares de nomes rabiscados. Cosmopolita, a Canoa de hoje fala várias línguas, tem agitação noturna e costuma ter no céu parapentes coloridos, como o do suíço Jérôme Saunier, 37 anos, pioneiro do esporte no Brasil. Ele se mudou para cá há nove anos e montou uma academia. “Canoa Quebrada será sempre uma praia especial“, diz.

As falésias brancas que aparecem nos primeiros quilômetros do sexto dia, na rota final até Fortaleza, anunciam a aproximação da Barra de Sucatinga, que ficou popular há cinco meses por ter sido palco das gravações da série de televisão No Limite. Basta o bugue encostar na recém-batizada Praia dos Anjos para os filhos dos pescadores pararem de brincar com suas jangadinhas e oferecer passeios guiados. “O turismo está ajudando a vila a crescer“, anima-se Belarmino Torres, que está construindo em sua barraca de praia um museu com peças usadas pelo elenco, como estilingues e panelas.

Desviando-se das jangadas, dos campos de futebol e dos alagados formados durante a maré alta, os bugues seguem pela Praia das Fontes, com suas discretas nascentes despencando das falésias, e por Morro Branco, famosa pelo artesanato de areias coloridas. Depois da plácida paisagem dos bancos de areia em Águas Belas, a urbanidade se aproxima com a chegada à Praia de Porto das Dunas, em frente ao Beach Park. Hora de voltar à estrada, para que o descanso do sétimo dia seja desfrutado na Praia do Futuro, em Fortaleza. O bugue entra no asfalto da metrópole e recebe a primeira baforada de fumaça de caminhão. Como dizia Verinha, a da risada gostosa, tem louco pra tudo nesse mundo. Até para voltar à cidade, deixando lá atrás a vida mansa de sol e a brisa deliciosa da beira-mar nordestina.

 

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Para quando você for:

 

Aos Bugues!

Qualquer pessoa pode viajar pelas praias alugando um bugue em uma das locadoras de Natal ou de Fortaleza. Para as aventuras mais longas, no entanto, é mais seguro e recomendável contratar o serviço de bugueiros profissionais, como Cláudio Chueiri (tel. 0_ _84/641-2019) e Marcelo Cossi (tel. 0_ _84/236-4217), ambos de Natal. A Top Buggy (tel. 0_ _84/219-2820) oferece os mesmos serviços em Natal, enquanto a HM (tel. 0_ _85/242-7799) faz o trajeto inverso ao nosso, desde Fortaleza.

Durma bem

Fora os pernoites em Natal e em Fortaleza, os outros quatro podem acontecer na cidade que o viajante quiser. Na hora de decidir onde parar para almoçar e para dormir, prefira as praias mais charmosas. No segundo dia, a melhor opção é São Miguel do Gostoso, na Pousada dos Ponteiros (foto do alto, tel. 0_ _84/984-5951). Galinhos, no terceiro dia, tem cinco pousadas. A mais simpática é a Chalés Oásis (foto do meio, tel. 0_ _84/9431-9672). Urbanas, as praias de Tibau (onde passamos a quarta noite, meio sem graça), Canoa Quebrada (quinta noite, www.canoaquebrada.com) e Fortaleza (sexta noite) têm muitos hotéis. Uma hora antes de Fortaleza, o Resort Praia das Fontes (foto debaixo, tel. 0_ _85/338-2122) é o melhor do roteiro Outras praias agradáveis para pernoitar são a Do Marco (RN), de Ponta do Mel (RN) e de Redondas (CE).

Pela terra do sol

Há sol no Nordeste em qualquer época do ano, mas as chuvas costumam aparecer entre março e junho. Planeje sua viagem usando as informações turísticas dos sites www.turismorn.com.br, do Rio Grande do Norte, e www.cearatour.com.br, do Ceará.

Outros toques

O bugue é aberto e o vento das praias pode desaparecer com seus óculos de sol, boné e guia de viagem. Proteja-se do vento, do sol e da areia que voa para dentro do carro. A água do mar também costuma molhar bagagens, câmera fotográfica…

Dica do autor

”Os sítios arqueológicos encontrados nas praias entre Touros e Galinhos merecem cuidado. Perto da Ponta dos Três Irmãos, os bugues desviam das pedras na beira de um morro e passam sobre uma concentração de conchas que se assemelha a um sambaqui. Evite rodar por ali para não atropelar as relíquias.”

Daniel Nunes Gonçalves

Caravana do tacacá

Eles observaram as bolinhas roxas do açaí, apertaram a carne grossa do pirarucu, tascaram as mãos nos variados potes de farinha de mandioca para comparar a textura. Cheiraram uma barra condensada de guaraná, morderam a pimenta murupi para sentir sua ardência e tiveram as línguas adormecidas com as folhas de jambu que boiavam na calda quente do tacacá. Durante os cinco dias em que passearam pela Amazônia, em março, Toni Massanés e Elena Roura experienciaram todos os sabores que seus sentidos lhe permitiram. É provável que você nunca tenha ouvido falar deles. Mas essa dupla de espanhóis — ou, como preferem, catalães — exibe uma patente invejada por gourmets do mundo todo. Eles representam a Alícia (ALImentácion e CiênCIA), respeitada fundação de pesquisa gastronômica criada pelo chef Ferran Adrià, responsável pela maior revolução culinária mundial dos últimos tempos.

Conhecer o Brasil, especialmente Manaus, era um sonho de Toni Massanés, de 42 anos, diretor da Alícia desde sua criação, em 2003, e diplomado professor, crítico e escritor de cultura e história da gastronomia (é dele a coluna semanal de restaurantes de Barcelona na prestigiada revista Time Out). A nutricionista e tecnóloga de alimentos Elena, de 31 anos, chefe do departamento de saúde e hábitos alimentares da Alícia, já viajara pelo Nordeste como turista e agora estreava na maior floresta do mundo. E foi comendo, naturalmente, que a dupla recebeu as boas-vindas na abafada capital do Amazonas. A primeira parada foi no restaurante Açaí e Companhia (R. Acre, 98, 92/ 3635-3637), despojado, mas com cardápio variado, onde deram suas primeiras beliscadas em alguns dos petiscos típicos: bolinho de pirarucu — o peixe conhecido como bacalhau da Amazônia —, tapioca de queijo coalho, patinha de caranguejo, casquinha de açaí. Entre “huuums…” e olhares surpresos, a dupla trocava impressões com a comitiva de 12 amantes da boa mesa que a acompanhava, entre gourmets, estudantes e documentaristas. E dava início a uma seqüência de visitas que tinha por objetivo perceber, afinal, por que a cozinha amazônica virou a bola da vez dos grandes chefs.

É o próprio Ferran Adrià quem aponta a Amazônia como berço das melhores novidades alimentares que o mundo presenciará no futuro próximo. Sua opinião é compartilhada por outros estrelados chefs estrangeiros trazidos pela anfitriã paulista Margot Botti, consultora de gastronomia. Ela já levou à Amazônia o francês Pascal Barbot, do restaurante parisiense L’Astrance, e o espanhol Andoni Luiz Aduriz, do Mugaritz, de San Sebastian, entre outros. O jovem chef brasileiro Felipe Ribenboim, de 25 anos, que estagiou por duas temporadas no elBulli — restaurante de Adrià — e desenvolve uma pesquisa sobre a gastronomia nos diferentes biomas brasileiros, também contribuiu para que os profissionais da Alícia aceitassem o convite. E isso apenas quatro meses depois da inauguração de sua sede, no complexo de um monastério do século 12, em Sant Benet de Bages, na Espanha.

Em meio a visitas a restaurantes e a passeios clássicos distantes das panelas, como a visita ao suntuoso Teatro Amazonas, de 1896, e ao encontro dos rios Negro e Solimões, a “expedição gastronômica” impressionou os estrangeiros com uma pequena casa de farinha à beira do rio Negro. “De uma simples raiz de mandioca brava tiramos três produtos: a farinha, o tucupi e a tapioca”, explica Francisco Neves Gomes, de 58 anos, um caboclo da terra. Com a ajuda da esposa Celina da Silva, de 51 anos, e de alguns dos 14 netos, seu Francisco apresenta a mandioca local, venenosa, diferente daquela a qual os moradores do sudeste do Brasil estão acostumados e do inhame que os europeus conhecem desde antes da chegada dos primeiros exploradores ao Brasil. E, na seqüência, mostra todas as etapas pelas quais passa a mandioca: a extração da raiz, a ralação, a secagem da farinha em um cilindro de fibras naturais para que o ácido cianídrico seja extraído, a fervura desse caldo amarelo por horas até chegar ao ponto do tucupi e a feitura do beiju e da tapioca. “É interessante como um alimento venenoso é reaproveitado”, observa Massanés.

Quando tiveram a chance, já no mercadão do centro de Manaus, de comparar os diferentes preços, texturas, cores da farinha de mandioca, Massanés e Elena vibraram. A Manaus Moderna, também chamada de “feira coberta”, alinha centenas de barracas de frutas e peixes frescos no coração do centro de alimentação popular da cidade. Na seção de farinhas, o farelo de algumas delas: a farinha d’água, hidratada nos rios; a surui, seca e fininha; a do uarini, uma sofisticada ovinha crocante amarela; a de tapioca, com pequenos grãos branquinhos torrados e leves. Na seção das frutas, mais fartura de variedades, nomes e peculiaridades: cupuaçu, graviola, bacuri… A espanhola Ana Tomé, diretora do Centro de Cultura Espanhola, um dos patrocinadores da vinda dos representantes da Alícia juntamente com o Senac, anota tudo no bloquinho: “O delicioso taperebá que provei em forma de suco no café-da-manhã e em forma de sorvete à tarde é o que se chama de cajá no sudeste do Brasil”.

Num galpão ali próximo, Elena se surpreende com um gigantesco espaço exclusivo para a venda de milhares de cachos de banana. “Não temos essa variedade na Europa e nem com preços tão baixos”, diz. E na ala dos lanches da Manaus Moderna testa o X-Caboclinho, nome popular do sanduíche de tucumã. Trata-se de uma deliciosa combinação de pão francês com queijo coalho derretido e lascas dessa fruta amazônica amarela. Popular nos fartos cafés-da-manhã servidos nas lanchonetes de Manaus, uma recente moda local, o X-Caboclinho é pouco difundido em Belém, capital do estado vizinho, Pará. “Belém e Manaus possuem cozinhas distintas, apesar de se abastecerem dos mesmos ingredientes da floresta”, explica Sofia Bendelak, chef do Bistrô Ananã (Trav. Pe. Ghisland, 132, 92/ 3234-0056), pioneiro em cozinha contemporânea amazônica em Manaus. Enquanto Belém se orgulha de combinações como o pato no tucupi e a maniçoba (espécie de feijoada local feita com folhas de mandioca), Manaus capricha no preparo dos grandes peixes de rio, como as caldeiradas de tucunaré.

Ao encontrar a chef Maria do Céu Athayde, de 56 anos, a excursão da Alícia pôde acompanhar melhor o preparo dos pratos tradicionais feitos à base dos alimentos conhecidos no mercado e no tour pela floresta. “Nós, caboclos da Amazônia, comemos tudo com pouco sal, mas com muita farinha e pimenta”, explica essa verdadeira embaixadora da culinária amazônica de raiz, que rege há seis anos os cursos do Centro de Gastronomia da Amazônia, da Fundação Rede Amazônica. Enquanto comanda seus 20 alunos no preparo de pratos, como a farinha d’água à moda indígena, a salada de feijão de praia (um parente do feijão-de-corda nordestino) e o risoto de tacacá, Maria do Céu discorre sobre a história e os efeitos dos ingredientes. “O cheiro-verde daqui é feito de cebolinha, alfavaca [espécie de manjericão], coentro e xicória silvestre, diferente da xicória, popular no sul do país”, conta. O prato principal, o peixe Aruanã à Solimões ganhou cor graças ao pimentão vermelho. “Não misturo com páprica por ela não ser da terra e nem com urucum, pois os índios só o usavam para pintar o corpo, não para cozinhar”, revela.

Outra paixão dos manauaras, o tacacá, foi apresentado num fim de tarde, no centro da cidade, quando as tacacazeiras montam suas barracas à espera dos clientes que
saem do trabalho. Foi no tradicional Tacacá da Gisela, no largo São Sebastião, que Toni Massanés experimentou a iguaria do jeito que todo mundo adora: bem quente, tascando pimenta. “O tucupi me faz lembrar uma sopa tailandesa, a tom yum, com um sabor um pouco doce, quase ácido”, afirma ele. Ao final das degustações, a caranava da Alícia deixou Manaus carregando muitas impressões, mas poucos produtos. Rapadura, guaraná em pó, jiló — Massanés quer explorar seu sabor amargo. Elena comprou ervas medicinais, como o cipó de miraruíra e a farinha de casca de maracujá, vendidos com alegadas propriedades de controle de diabetes. Ela pensa em estudá-los como alternativa às pessoas com distúrbios e restrições alimentares, como os enfermos com câncer. Afinal, é para isso que nasceu a Alícia: investigar patrimônios agroalimentar e gastronômico para permitir que as pessoas comam cada vez melhor. E a culinária amazônica, como mostra o interesse crescente dos grandes chefs, é um prato cheio para os amantes da boa mesa.

DESCOBERTAS DA EXPEDIÇÃO:

Pimentas da floresta

Dá para entender por que só os índios que freqüentam o restaurante de comida indígena Koonoly (R. Bernardo Ramos, 60, 92/ 8167-1972) conseguem comer pratos como a quinhapira, uma caldeirada superpicante. É que eles estão acostumados com a farta variedade de pimenta da terra. A forte muripi (no desenho), típica do estado do Amazonas, fica amarela quando madura. No dia-a-dia são usadas a pimenta cheirosa, que não arde, mas dá gosto e aroma, a famosa malagueta e a pimenta-de-cheiro, com ardência suave, mais comum no Pará.

 

Peixes amazônicos

O pirarucu (ao lado, no alto), que atinge mais de 2 metros e 80 quilos, é a estrela entre as 5 mil espécies de peixes dos rios da Amazônia, como o pacu e o filhote. Vendido em peças salgadas como o bacalhau, o pirarucu compartilha a preferência dos chefs com o Tucunaré, que chega a pesar 12 quilos e fica saboroso em caldeiradas, e o nobre Tambaqui (ao lado, no canto inferior), com carne branca e felpuda. Podem também ser cozidos, fritos, assados ou defumados, como fazem os índios.

 

Tacacá com tucupi

Feito à base de tucupi, caldo amarelo extraído da mandioca brava, o tacacá está para a Amazônia como o acarajé está para a Bahia. Espécie de sopa quente com goma de mandioca e folhas de jambu, que amortecem os lábios, nasceu com os índios e ganhou ingredientes como o camarão seco vindo do Maranhão (originalmente levava peixe piramutaba). É servido sempre em cuias, cascas do fruto da cabaceira secas ao sol

 

Castanha para exportação

Famosa no exterior, a castanha-do-pará (ou castanha-do-brasil) é uma amêndoa oleaginosa com alto valor alimentar. De um único fruto escuro de casca dura retirado de uma árvore de até 60 metros podem sair 24 castanhas. Rica em proteína, é consumida também em forma de farinha.

 

Açaí salgado

No sul do país o conhecem como uma pasta doce misturada ao xarope de guaraná e servida com banana e granola. Mas no Norte, o creme puro e original dessas frutinhas roxas tiradas das palmeiras dos açaizeiros é consumido como um prato salgado, com farinha, peixe frito, carne ou camarão secos.

 

Guaraná power

Nativa da remota região de Maoés, na Amazônia, a fruta vermelhinha, semelhante a um olho, tem sua massa moldada em forma de bastões que, lixados na língua seca do pirarucu, viram um pó energético caseiro. Mas, nas barracas do centro de Manaus, o guaraná não é apenas sinônimo de refrigerante ou de um pozinho amargo misturado em água. Potente para “levantar até defunto”, o guaraná servido nas ruas leva, além do pó, leite, abacate, aveia, amendoim, farinha de caju, catuaba, miratã (energético parente da catuaba) e granola.

 

Farinha de mandioca

Base da cozinha de raiz amazonense, a mandioca está presente em todas as refeições. Na tapioca e no beiju do café-da-manhã, na farinha de vários tipos que acompanham os peixes no almoço e no jantar, e no caldo de tucupi e na goma presentes do tacacá, iguaria preferida dos fins de tarde. Diferente da mandioca — ou macaxeira — do restante do Brasil, a da Amazônia é chamada de brava e precisa ter extraído o seu caldo venenoso.

Em Cuba, como os cubanos

Só parecia haver um inconveniente quando eu e um amigo decidimos viajar de férias para Cuba com a intenção de fugir do sistema pega-dinheiro-de-turista imposto pelo governo: eu. Sou loiro de olhos azuis, raridade na terra de Fidel Castro, o que dificultaria meu objetivo de passar por nativo. Boné e óculos escuros seriam então meu disfarce oficial, e meu comparsa Alexandre Costa Val, cabelos e olhos castanhos, faria a linha de frente. Estratégia traçada, desembarcamos em La Habana – Havana, para os turistas – a fim de viver 18 dias dormindo e comendo em casas de cubanos. É claro que não desprezaríamos a Cuba dos cartões-postais, e ela estava toda lá: carrões dos anos 50, prédios históricos caindo aos pedaços, belas mulatas dançando salsa, um mojito aqui, um charuto ali. Os cartazes com imagens de Fidel, Che Guevara e outros heróis nacionais lembravam que estávamos às vésperas da festa de 50 anos da revolução, em 1º de janeiro de 2009, principal motivo da nossa aventura. Sem pacotes turísticos, rodaríamos a ilha de oeste a leste, passando por Santiago de Cuba, Trinidad, Cienfuegos, Rancho Luna e Santa Clara.

Fotos SAMESAMEPHOTO

 

Dormindo com Che e Raul

A única alternativa econômica à hospedagem em hotéis é o pernoite nas chamadas “casas particulares” identificadas por uma plaquinha branca e azul, já que não existem albergues por aqui. Nessas residências autorizadas a abrigar estrangeiros, as diárias giram em torno de 25 dólares – o mesmo salário médio mensal de um médico. Nosso quarto com banheiro ficava na casa do engenheiro Humberto Scasso, no bairro universitário do Vedado. As paredes da sala exibiam fotos do anfitrião com ninguém menos que Che Guevara. “El Che foi visitar a gráfica onde eu trabalhava para acompanhar a produção dos jornais da revolução”, contou, cheio de orgulho.

Alguns dias e vários colchões vagabundos depois, vimos que a casa de Humberto era quase hotel de luxo. Na semana seguinte, em um casebre simples da praia da Rancho Luna, a cama era pobre, mas o papo enriquecedor. Nas cadeiras de balanço sobre o chão de cimento queimado da varanda, a professora Rosa e o pescador Valdemir Reproso nos falavam de tudo – embora nunca mal de Fidel (como praticamente todos que nos hospedaram). Por duas noites seguidas assistimos juntos, pela televisão, o mesmo discurso de mais de uma hora que o presidente Raul Castro proferiu a nação às vésperas do cinqüentenário. “Ele e seu irmão Fidel estão certos, temos que trabalhar mais para que o país sustente a revolução”, disse Valdemir. Na manhã seguinte, logo que o sol nasceu, ele pegou no batente para fazer pequenas reformas na casa. Como Castro pedira.

 

No ônibus barato ouvindo reggaeton

Para conjugar a miúda economia local com os altos gastos dos estrangeiros, o governo cubano trabalha com duas moedas: o peso cubano, usado no dia-a-dia da população para comprar, por exemplo, os produtos subsidiados da cesta básica, e o peso convertível, ou CUC, com valor semelhante ao euro e utilização voltada para o turismo. El peso convertible vale 24 vezes mais que a moeda local, o que a torna disputadíssima especialmente pelos “jineteros”, especialistas em ganhar comissões oferecendo hotéis, charutos, passeios e até corpos para turistas. É fácil adquirir a moeda local nas casas de câmbio espalhadas pelas esquinas. Complicado é botá-la em circulação. Só conseguimos gastar nuestros pesitos comprando comida de rua e tomando ônibus circulares lotados (lá também tem passageiro sem-noção ouvindo rádio no último volume, só que em vez de pagode eles escutam o contagiante reggaeton). Para curtir a boa música ao vivo a la Buena Vista Social Club de casas como o Jazz Club La Zorra y El Cuervo, não tinha jeito. Eles metiam a faca cobrando em moeda convertível, a 10 CUCs a entrada, 2 CUCs cada mojito. Detalhe: quem leva dólar, em vez de euro, perde 10% do valor de troca numa taxa que desestimula o uso das verdinhas do odiado “imperialismo americano”.

 

Arroz moro em casa, pizzeta na rua

Sem placas na porta e com cardápios informais, “paladares” são casas de cubanos que servem comida mais barata e simples que a dos restaurantes. Dizem que o nome foi inspirado no restaurante que a personagem Raquel, de Regina Duarte, administrava na novela Vale Tudo. Bastava alguém descobrir nossa verdadeira identidade de brasileiros, durante a refeição, para dar início às animadas conversas sobre novelas – mais especificamente Mujeres Apasionadas, em exibição. Com preços em torno de sete dólares, os paladares têm cardápios pouco criativos. O embargo financeiro sofrido por Cuba limita bastante a variedade da culinária, e o prato de todo dia acaba sendo o moros y cristianos (mistura de arroz com feijão-preto), carne de porco e salada de repolho. Nas ruas, porém, usávamos nossos pesos cubanos para enfrentar as mesmas filas dos habaneros e comer a street food deles: pizzetas, oleosíssimas pizzas brotinho vendidas a 5 pesos cubanos; perro caliente, o hot dog com apenas pão e salsicha; e os famosos sorvetes da Coppelia, a sorveteria do filme Morango e Chocolate. Neste caso, tivemos que ficar quietinhos por quase uma hora na longa fila de sábado à noite para tomar sorvete de abacaxi e pagar o preço para nativos, 32 vezes mais barato que o de estrangeiros. Investimos as últimas moedas no granizado, versão cubana de nossas raspadinhas de groselha.

Onde o Cadillac é lotação

Quando as carangas dos anos 50 são usadas como táxis para representantes do sistema capitalista estrangeiro – nós, no caso –, têm preços em CUC. Acontece o mesmo com os coco taxis, superturísticas motocas com carenagem em forma de coco. Mas quando os cubanos embarcam nesses pomposos Cadillacs e Mercedes, as barcaças se transformam em lotações, e são pagas com moeda local. Era assim que queríamos fazer. Esticamos o dedo para que um velho Ford parasse. Alexandre caprichou no sotaque e perguntou ao motorista: Centro Havana? Adelante, respondeu o bigodudo. Quietinho no banco de trás e com a cara mergulhada no jornal, me apertei entre outros dois passageiros. Realizamos nossa missão pagando míseras moedinhas locais para fazer um percurso que não sairia por menos de 5 CUCs num táxi turístico. Faríamos o mesmo em Cienfuegos, uma afrancesada cidadela à beira-mar, quando convencemos o dono de uma charrete a nos dar uma carona, algo proibido para não-cubanos. A rota, nesse caso, teve que ser feita por ruas escondidas, longe da fiscalização das grandes avenidas. Só não conseguimos repetir o feito na hora de viajar para outras cidades. Há rodoviárias e ônibus distintos para quem vem de fora, e fomos friamente ignorados quando tentamos comprar bilhetes no terminal para habaneros. Acabamos compartilhando o ônibus para Santiago com outros gringos que também não tinham reservado os disputados assentos nos aviões que cruzam a ilha. Ao preço de tabela.

 

Tambores, orixás e salsa no Malecón

Ok, para sermos cubanos de verdade riscamos a turística Varadero do roteiro. E cumprimos uma programação “de raiz”. Em La Habana, fizemos o tradicional footing no Malecón, o mítico calçadão à beira-mar, até na noite de réveillon, assistindo pipocarem ao longe meia dúzia de fogos de artifício e brindando nossa garrafa de rum com a da família sentada ao nosso lado na mureta. O Natal tinha sido um jantar qualquer, já que o capitalista Papai Noel é persona non grata nesses encontros familiares, e os cubanos se contentam em decorar casas com luzinhas e desejar felicitad pelas ruas. Em Santiago, fizemos uma oficina rápida sobre como enrolar charutos e embarcamos em duas aulas caseiras de percussão com o músico Manolito Semanat, onde aprendemos o be-a-bá da conga e do bongô. Nossas novas gingas de cubano seriam exibidas na volta a La Habana, quando embarcamos em uma roda musical do tradicional bar La Bodeguita del Medio, em Habana Vieja, que no passado era freqüentado por outro estrangeiro metido a nativo, o escritor norte-americano Ernest Hemingway. Não faltou nem a consulta a um babalao, líder espiritual do culto aos orixás, versão cubana do nosso candomblé, para ganhar um axé para o ano novo. Nossa missão seria encerrada com a festa de 50 anos da revolução, no primeiro dia do ano, fazendo igualzinho aos milhares de nativos que tomaram o trecho do Malecón diante de um monumento chamado de Tribuna Antiimperialista: arriscando uns passos de salsa, tomando rum e bradando, como autênticos cubanos, “Viva Fidel! Vila La Revolución!”