37 curiosidades sobre o GP Brasil de Fórmula 1

Ainda que 7 pontos atrás do líder Lewis Hamilton,
da McLaren, o paulistano Felipe Massa, da Ferrari,
chegou à última prova da temporada na disputa
pelo Mundial de Fórmula 1. Desde que Ayrton Senna
conquistou o título em 1991, é a primeira vez que
um brasileiro participa da corrida final com chances
reais de ser campeão. Mas isso todo mundo sabe.
Nas páginas a seguir, revelamos em 37 tópicos alguns bastidores
e surpresas do nosso Grande Prêmio, que tem neste
domingo de 2008 a sua 37ª edição.

 

1. O evento mais lucrativo da cidade

140 000 espectadores são esperados para os três
dias de competição, metade deles especificamente
para o domingo da corrida

615 reais é quanto cada turista brasileiro deixa por
dia, em média, na cidade

6 em cada 10 visitantes vêm de fora de São Paulo,
sendo que dois são estrangeiros

420 reais era o preço dos ingressos mais baratos
para o dia da corrida (eles se esgotaram em maio)

230 milhões de reais é o total movimentado no setor
turístico (a conta engloba de gastos com alimentação
a hospedagem). Trata-se do evento mais lucrativo
de São Paulo

 

2. Roupa suja se lava no hotel


Durante a semana do GP, as lavanderias do Grand
Hyatt (foto) e do Hilton, dois hotéis que têm 80% de
seus quartos reservados para as escuderias, ficam
lotadas de macacões dos pilotos de suas equipes.
De terça a domingo, cada uma delas lava pelo
menos 120 uniformes – o Grand Hyatt cobra 100
reais por peça e o Hilton, 47. Para não prejudicar
o acabamento, os macacões são enxaguados em
água morna e secados ao ar livre. Confeccionados
com uma fibra chamada Nomex, que suporta
temperaturas de até 400 graus, eles são projetados
para proteger o piloto de incêndios por pelo menos
doze segundos.

 

3. As superstições de Massa

• Vai vestir a surrada cueca branca que usa desde sua vitória no GP da Turquia, em 2006.

• No dia da corrida sai com o pé direito da cama e, já
na pista, calça primeiro a sapatilha e a luva direitas.

• Se no dia do treino for bem e tiver escovado os
dentes da esquerda para a direita, repetirá o ritual
no dia da prova.

• Antes da corrida, sua mulher, a empresária Anna
Raffaela Bassi, devota de Santa Teresinha, costuma
colocar uma imagem da santa sobre o macacão do
marido e rezar o terço, comprado em Roma.

• No Grande Prêmio da China deste ano, o casal
entrou na sala de descanso montada pela Ferrari
dentro do autódromo e notou que o tapete era o
mesmo que havia sido utilizado no Grande Prêmio da
Malásia, prova que Massa não conseguiu terminar. O
piloto pediu para a escuderia mudar o tapete o mais
rápido possível. Pedido atendido.

 

4. A doce vida dos astros das escuderias

Há dezesseis anos, o chefão da Fórmula 1, Bernie
Ecclestone, se hospeda na mesma suíte Itamaraty
de 138 metros quadrados e diária de 4 526 reais do
Hotel Transamérica. Já o lar brasileiro do manda-
chuva da McLaren, Ron Dennis, é a suíte presidencial
do Hilton (foto). Ao custo de 15 000 reais por dia,
Dennis tem a seu dispor 360 metros quadrados.
Hospeda-se ali desde 2002.

 

5. Comboio de 120 caminhões

Vindos do último GP da China, seis Boeings 747
aterrissaram na semana passada no Aeroporto de
Viracopos, em Campinas, carregando 600 toneladas
de equipamento. Pneus, motores, caixas de câmbio,
computadores, aparelhos eletrônicos e milhares
de peças são acondicionados em caixas e estojos
protegidos. Os carros viajam em boxes separados.
Para transportar toda a carga até o Autódromo de
Interlagos, são necessários cerca de 120 caminhões,
350 funcionários e a escolta armada de veículos
particulares e da Polícia Militar.

 

6. Tudo por um lugarzinho na arquibancada

Os ingressos para o domingo se esgotaram em
maio. Para os paulistanos fanáticos e pouco
prevenidos, uma alternativa foi adquirir entradas
atreladas a pacotes. Resultado: houve gente
comprando ingresso casado com hotel, traslados
e festas oferecidos pelas nove agências de viagem
cadastradas pela prefeitura. Os preços do bilhete
com a festa chegavam a 1 900 reais por pessoa.

 

7. “Só não aceito sogra e cachorro”

Ao final do Grande Prêmio do ano passado, 25 instituições de caridade foram beneficiadas com
as sobras de alimentos (cerca de 1 tonelada
de verduras, frutas e massas) dos diversos
banquetes oferecidos em espaços vips e boxes
das equipes. A responsável por fazer o meio-
de-campo entre doadores e entidades é Claudia
Troncoso, coordenadora da Associação Brasileira de
Redistribuição de Excedentes. “Recebemos também
fogões, microondas, guardanapos, copos e talheres”,
conta. “Só não aceito sogra e cachorro.”

 

8. Em busca do melhor ângulo

Cerca de 350 jornalistas de todo o mundo estão
credenciados para a cobertura do GP Brasil em
Interlagos. Dos setenta fotógrafos, doze são
daqui. “O final da reta é o ponto mais disputado”,
diz Miguel Costa Junior, que fotografou todos os GPs
Brasil nos últimos 27 anos. “Mas é a organização
que decide onde cada um vai ficar. Sempre prioriza
as agências internacionais.” Mesmo antes de
carregar a bolsa com 15 quilos de equipamentos
(só de lentes, são 6), Costa Junior já freqüentava
o autódromo. “Assisti a todas as etapas de São
Paulo desde 1972 e fotografei Barrichello, Massa e
Nelsinho quando eram crianças, no kart.”

 

9. Dois quilos a menos 7 voltas depois

Entre os dezoito circuitos da temporada, o de
Interlagos é o mais desgastante, segundo o
preparador físico de Felipe Massa, Vanderlei Pereira.
O trecho da Curva do Sol, por exemplo, chega a
exercer uma pressão de cerca de 50 quilos sobre
o pescoço dos pilotos. “Se o dia estiver quente,
perdem-se até 2 quilos e 1 500 calorias numa
corrida”, diz Pereira, que usa um aparelho que
simula as condições da pista no treinamento de seus
pupilos.

 

10. O dia em que Barrichello queimou o
bumbum

Os médicos de pista fazem 200 atendimentos
no fim de semana da corrida, remediando desde
contusões até simples dores de cabeça. “Há uns
dez anos Rubens Barrichello chegou com o bumbum
queimado de combustível”, lembra o cirurgião Dino
Altmann. “Sorte que não foi nada grave.”

 

11. Caipirinha, o combustível dos mecânicos

Durante a semana do GP, hotéis como o Hilton e
o Transamérica vendem o triplo de caipirinhas (a
tradicional, de pinga e limão, é a preferida). “Boa
parte dos hóspedes começa a beber já no café-
da-manhã”, afirma Vania Aibara, gerente-geral de
vendas do Transamérica. “À noite, eles repetem o
ritual.” Ou melhor, a dose.

 

12. Louco por picanha malpassada

O piloto inglês Lewis Hamilton adora uma
churrascaria. Na última terça (28), como registrado
na foto abaixo, ele se esbaldou com picanha
malpassada fatiada e batatas fritas. Onze pessoas
participaram do rega-bofe no rodízio Fogo de Chão
da Avenida dos Bandeirantes. Outra unidade da
rede, em Santo Amaro, foi palco de uma cena
inusitada no ano passado. Após perder a corrida final
para Kimi Raikkonen, da Ferrari, Hamilton encontrou
o time rival na mesa vizinha. Cumprimentou a todos,
um a um, e ainda autografou a roupa de alguns
mecânicos da Ferrari.

 

13.  A gorjeta de 500 dólares de Ron Dennis

Ainda na Fogo de Chão. O inglês Ron Dennis, o
todo-poderoso da McLaren, sabe como conseguir
um atendimento diferenciado na churrascaria. “Ele
chega, coloca 500 dólares na mesa e pede o de
sempre”, diz Jandir Dalberto, diretor de operações
da rede. O de sempre é um peito de peru recheado
com bacon, acompanhado de molho à base de
pimenta. “No fim, além de deixar o dinheiro ali,
ainda paga 15% pelo serviço.”

 

14. Havaianas, paixão mundial

A franquia das Havaianas em Moema vende 150
pares por dia durante a semana do GP, 30% mais
que o movimento normal. A loja tem funcionários
bilíngües para atender a leva de estrangeiros, boa
parte deles membros das equipes. O modelo mais
procurado é aquele tradicional, com a bandeirinha
do Brasil (foto), que custa 19,90 reais. Os chinelos
personalizados com cristais Swarovski também saem
bastante. Nesse caso, por 260 reais.

 

15. 2.000 homens para organizar o trânsito

Para ninguém perder a largada do GP, a prefeitura
organizou uma operação que mobilizará 2 000
agentes (praticamente todo o seu efetivo) e 300
veículos. A coordenação ficará a cargo de uma
central de operações montada dentro do autódromo.
Nas ruas em torno do circuito serão reservados
espaços para estacionamento de 25 000 carros
de passeio. Já para quem pretende deixar o carro
em casa, a SPTrans vai colocar à disposição 240
ônibus articulados partindo de cinco miniterminais
e estimular o uso do trem, com uma estação a 600
metros da pista. Essa estrutura custará 1,3 milhão
de reais aos cofres municipais.

 

16. A vira-lata de Schumacher

Autografado por nomes como Damon Hill e
Michael Schumacher, o livro de hóspedes do Hotel
Transamérica tem também a marca de uma das
patas da cadela Floh (pulga, em alemão). Em 1996,
o piloto alemão encontrou a vira-lata dando sopa
no Autódromo de Interlagos e a levou para casa. Na época, a cachorra foi tratada a pão-de-ló, com
direito a pratos preparados por chefs de cozinha e
massagens num pet shop cuja diária custava 190
reais.

 

17. O troféu reciclável de Niemeyer

Quem terminar a prova deste ano nas três primeiras
posições vai levar um troféu desenhado por Oscar
Niemeyer. O arquiteto se baseou nas curvas do
Palácio da Alvorada, em Brasília, e usou material
de origem vegetal, conhecido como plástico verde.
A vantagem desse produto é ele ser totalmente
renovável. Resta saber que campeão vai querer
reciclar o seu troféu…

A Daslu se transforma em filial de Interlagos na
sexta e no sábado que antecedem a corrida. “São
os dias mais cheios do ano. Só perdem para o
Natal”, diz a proprietária, Eliana Tranchesi. Michael
Schumacher já passou por lá em 2006 e Nelsinho
Piquet é cliente cativo. “Nessas ocasiões, tem gente
que gasta até 70 000 reais”, conta. Pilotos são fãs
das camisas pólo da marca e as mulheres costumam
abastecer o guarda-roupa de bolsas Chanel.

 

19. Esquadrão de carros brancos

As empresas de táxi da cidade destinaram 1 500
veículos para atender aos bolsões de estacionamento
do Autódromo de Interlagos. Para 3 000 dos 34 000
taxistas de São Paulo que trabalharão na semana do
GP, este é o momento melhor para fazer um pé-de-
meia. “Nesta época, a gente trabalha o dobro para
compensar o baixo movimento de janeiro e fevereiro
do ano seguinte”, diz o taxista Wellington Lima de
Araújo, a bordo de um Fiat Doblò. Na semana do
GP, ele roda cerca de 200 quilômetros e ganha 200
reais por dia. Gorjetas em euro, dólar e iene são
comuns. “No ano passado, um turista me deixou 50
dólares (cerca de 100 reais) para pagar uma corrida
que custou 40 reais”, lembra.

 

20. A homenagem do chefão da Williams

Quando vem ao GP Brasil, Frank Williams, chefe da
escuderia de mesmo nome, visita o túmulo de Ayrton
Senna, que morreu num dos carros da equipe,
em 1994. O manda-chuva também é fiel a outras
tradições: hospeda-se sempre no Transamérica e
detesta ser visto. Só sai da suíte pelo elevador de
serviço, que dá acesso direto à garagem do hotel.

 

21. Cinquenta médicos de 12 especialidades

Esporte de alto risco, a Fórmula 1 exige um suporte
médico impressionante. A equipe de 120 pessoas
do Hospital São Luiz, há oito anos responsável
pelo atendimento médico de emergência, inclui cinqüenta profissionais de doze especialidades, de
cirurgia plástica a ortopedia. Com UTI e sala especial
para queimados, o centro médico de Interlagos, no
interior do circuito, ganhou neste ano uma estrutura
fixa de hospital. Os acidentados serão transportados
para ali em um dos dezesseis veículos de resgate, e
as vítimas mais graves, transferidas para a unidade
hospitalar do Morumbi em um dos dois helicópteros
de plantão.

 

22. As garotas do grid

Em um ambiente tipicamente masculino como o da
Fórmula 1, são as beldades que chamam atenção.
No grid, serão 22 modelos posicionadas ao lado dos
pilotos para segurar um guarda-sol. A ordem em que
ficarão só será definida minutos antes da largada,
mas elas já têm os preferidos. “Se pudesse escolher,
pediria para ficar ao lado do Fernando Alonso”, diz
Denise Bertelli, de 24 anos. Mas, enquanto a prova
não começa, elas têm de levar na esportiva os
comentários dos mecânicos que param o trabalho
para vê-las passar. “Eles falam algumas gracinhas
para a gente, mas o jeito é tapar os ouvidos para
essas provocações”, afirma Nathalia Melandre, de 22
anos. Porém, se o gracejo for feito com delicadeza,
elas garantem não reclamar. “Faz bem para o ego”,
admite Roma Santa, de 23 anos.

 

23. Festão antes do bye-bye

No circuito desde 1994, o piloto escocês David
Coulthard, da Red Bull, fará sua última corrida em
Interlagos. E marcou a despedida com um jantar
fechado para 100 íntimos na casa noturna Museum,
no Brooklin. Ele, aliás, já teve laços na cidade.
O piloto manteve um relacionamento duradouro,
digamos, com uma brasileira. Conheceu sua ex-
noiva, a arquiteta e ex-modelo Simone Abdelnur,
em uma festa promovida por Ana Paula Junqueira na
semana do GP de 2001. Os dois ficaram juntos por
cinco anos.

 

24. Reforço no Café Photo

A semana da Fórmula 1 é a mais aguardada pelas
casas de diversão masculinas da cidade. O Café
Photo, por exemplo, quadruplicou o número de
garotas. Seiscentas moças se preparam para dar
conta do aumento no número de clientes. Em dias
normais, 150 trabalham no local.

 

25. Acelera, Galvão!

Em 34 anos de Fórmula 1, o locutor Galvão Bueno
coleciona histórias. A mais marcante para ele tem
como protagonista o piloto Ayrton Senna. Em 1991,
com problemas no câmbio, ele venceu a prova
de maneira dramática em Interlagos. Exausto, o
piloto teve dificuldade até para subir ao pódio. A
caminho do heliponto, acompanhado de Galvão e de seu filho Cacá (hoje piloto da Stock Car), o
tricampeão mundial deu a taça ao garoto para que
ele a carregasse até a aeronave. “Cacá tinha 14
anos e era kartista. Ele não sabia nem o que fazer
quando recebeu um troféu de Fórmula 1 das mãos
de Senna”, lembra. Neste ano, Galvão estará a
postos para mais uma transmissão pela Rede Globo.
A estrutura montada conta com 22 câmeras e 400
profissionais.

 

26. Ele foi a todos os últimos doze GPs!

O administrador de empresas Augusto Roque, 28
anos, nasceu durante a vitória de Rene Arnoux, da
Renault, no GP Brasil de 1980. “Meu pai deixou o
autódromo e foi direto para o hospital acompanhar o
parto de minha mãe”, diz ele, que acabou herdando
o mesmo fanatismo pelos motores. Desde 1996
não falha em uma única corrida. “Para garantir o
ingresso, compro no primeiro dia de abertura das
bilheterias”, afirma. No ano passado, achou na pista
uma parte do carro do finlandês Heikki Kovalainen,
da McLaren. Voltou para casa todo contente,
enquadrou o troféu e o pendurou na sala.

 

27. Os bambambãs de Interlagos

Os pilotos que mais venceram no autódromo
paulistano

Quatro vezes: Michael Schumacher – 1994, 1995, 2000 e 2002

Duas vezes: Juan Pablo Montoya – 2004 e 2005

 

28. Depois do pódio, a gandaia

Pelo quarto ano consecutivo, a escuderia Red Bull
prepara uma balada de encerramento para 2 500
convidados na cidade. Tradicionalmente realizada
em lugares descolados, a festa será no auditório do
Memorial da América Latina. O público também deve
ser diferente. Em vez das celebridades de sempre,
esperam-se muitas modelos desconhecidas e vários
marmanjos das equipes.

 

29. Pintor de capacetes fica de plantão

Uma das personalidades do automobilismo nacional
que ficam em alerta no fim de semana do GP
do Brasil é Cloacyr Sidney Mosca, o Sid Mosca.
Com mais de 35 anos de experiência na pintura
personalizada de capacetes, ele já precisou retocar a imagem de cascos e até de carros em corridas
passadas. “Em 2005, passei a noite de sexta para
sábado redesenhando o capacete de Giancarlo
Fisichella, da Renault, pois uma asa tinha sido
removida”, lembra Mosca, que normalmente leva
uma semana para fazer uma pintura completa.
Neste ano, ele pintou o novo capacete que Rubens
Barrichello estreará em homenagem ao piloto
paulistano Ingo Hoffmann. O da foto, também criado
por ele, Barrichello usou na sua corrida de número
257, em maio, na Turquia.

 

30. Uma Fittipaldi na torre de controle

Oito em cada dez pessoas que trabalham no
staff do GP Brasil são mulheres. Fica na torre de
controle, com a cúpula da Federação Internacional
de Automobilismo, uma das mais experientes:
Susy Fittipaldi, mãe de Christian, ex-mulher de
Wilsinho e cunhada de Emerson. “Eu queria estar
por perto da família, mas ficava aflita ao assistir
às corridas, então passei a trabalhar com isso”,
conta Susy, que fala sete idiomas. Inicialmente fazia
cronometragem, depois foi para a sala de imprensa
e hoje é secretária dos comissários da prova. É
ela quem comunica, por exemplo, as punições às
equipes.

 

31. Eles não vivem sem massa

Além das toneladas de equipamentos, a escuderia
da Ferrari carrega para todas as corridas uma carga
indispensável à equipe: 100 quilos de macarrão
grano duro. Esse é o combustível do time italiano
nas 600 refeições servidas de quinta a domingo.

 

32. Identidade secreta

O concierge do Hilton, Alessandro Cordeiro, costuma
fazer reservas para os pilotos em restaurantes como
o D.O.M. e o Figueira Rubaiyat com nomes fictícios
dois meses antes do GP. “Como sei que sempre
querem ir de última hora, já me antecipo”, diz ele,
que revela a verdadeira identidade dos craques
apenas no dia do jantar.

 

33. Assim na terra como no céu

Além de provocar filas quilométricas nas ruas, o
GP causa trânsito intenso no céu. No sábado e no
domingo da corrida, uma revoada de cinqüenta
helicópteros deve transportar 1 800 pessoas e
realizar 600 pousos e decolagens. Para fugirem
dos congestionamentos, pilotos, celebridades e
profissionais da corrida costumam desembolsar 1
500 reais por viagem. “No mercado de táxi aéreo,
esse é o maior evento em toda a América Latina”,
diz Luís Roberto Coutinho Nogueira, presidente
da LRC Eventos, responsável pelo serviço no
autódromo. Segundo ele, o transporte aéreo em
competições de Fórmula 1 é invenção brasileira. Nasceu em 1990 como alternativa para driblar
o trânsito. Hoje, o tráfego de helicópteros em
Interlagos está entre os mais intensos de todos
os GPs. “Equivale ao de Silverstone e ganha do de
Monza”, afirma Nogueira.

 

34. O médico piloto

Apaixonado por automobilismo desde criança, o
cirurgião Dino Altmann começou a trabalhar como
médico do GP Brasil em 1990 para ficar próximo
dos motores. “É ótimo poder juntar o automobilismo
e o atendimento de emergência”, diz o atual
diretor médico da prova, que correu de kart por
quinze temporadas e chegou a vencer uma corrida
de fórmulas em Donington Park, na Inglaterra,
em 1997. “Nos últimos sete anos, só fiz corridas
esporádicas”, diz. Nas doze etapas nacionais da
Stock Car, Altmann acumula a função de diretor
médico com a de piloto do carro médico, o primeiro
a se aproximar de um competidor acidentado.
Se ele gostaria de fazer o mesmo na Fórmula 1?
”Até gostaria de pilotar”, afirma. “Mas a Federação
Internacional de Automobilismo já tem outro médico
piloto, o francês Jacques Tropenat.” Por enquanto,
pilotar o carro médico da Fórmula 1 é apenas um
sonho.

 

35. Um batalhão de voluntários

Os 600 voluntários que trabalham nas atividades
de pista têm uma rotina desgastante. Encontram-
se às 5 horas da manhã, trabalham de sol a sol e
ganham em troca lanchinhos, uniforme emprestado
e satisfação. “Estou aqui por amor ao esporte”, diz o
consultor de segurança Flavio Perillo, que passou os
últimos trinta anos, dos seus 50, prestando serviços
gratuitos ao GP. Antes de conseguir essa boquinha,
ele entrava na pista escondido nos caminhões das
equipes. Outro hobby era colecionar partes de
carros quebrados. “Guardei um bico da Brabham
e um aerofólio do Copersucar”, conta. Hoje em dia
Perillo abriu mão da coleção. “O regulamento pede
que todas as partes dos carros sejam devolvidas às
equipes.”

 

36. O mais solicitado

Apesar de ser o segundo colocado no ranking
do campeonato, Felipe Massa é líder em pedidos
de entrevistas: até o último dia 29 foram trinta,
embora só tenha concedido dez. Por isso, desde
que aterrissou por aqui no último dia 21, quase
não ficou em seu apartamento no Panamby.
Compareceu a oito compromissos e teve de negar
outros dois. Ainda arrumou tempo para ciceronear
seu empresário e padrinho de casamento, Nicolas
Todt – filho do ex-diretor da Ferrari Jean Todt – , que
está hospedado em sua casa. Dono de um Porsche
Cayenne e de uma Ferrari, ele tem circulado por aí com um Fiat Linea, carro com o qual deve ir a
Interlagos no domingo.

 

37. Para evitar gafes na bandeirada

A cantora Fafá de Belém cantará o Hino Nacional no
domingo. Já a bandeirada final não ficará a cargo
de ninguém famoso. Até segunda ordem, o próprio
diretor de provas, o arquiteto Carlos Montagner,
balançará a bandeira quadriculada sobre os carros
dos primeiros colocados. “A experiência com o Pelé
não deu certo”, diz Montagner, lembrando a prova
de 2002, quando o vencedor, Michael Schumacher,
passou tão rápido que o rei do futebol nem
conseguiu mexer a bandeira. Em 2004, a modelo
Gisele Bündchen cumpriu a função direitinho.

 

Reportagem feita para a Revista Veja São Paulo e finalista do Prêmio Abril de Jornalismo

Apurada e escrita por Daniel Nunes Gonçalves, Fernando
Cassaro e Maria Paola de Salvo

 

A rota dos vitrais

Nem o martelo de 1955 para testar o reflexo nos
joelhos dos pacientes, nem a foto de dom Pedro II
visitando o hospital em 1886. As relíquias que mais
se destacam no prédio da Beneficência Portuguesa,
na Bela Vista, em meio à recém-aberta exposição
que comemora seus 150 anos, são 48 vitrais. Em
especial os 33 que cobrem, desde os anos 50, três
paredes do Salão Nobre. Eles compõem o acervo
de mais de cinquenta conjuntos instalados em São
Paulo pela Casa Conrado. A empresa foi fundada em
1889 pelo alemão Conrado Sorgenicht (1835-1901),
que havia desembarcado no país catorze anos antes,
depois do fim da Guerra Franco-Prussiana. Pela
primeira vez, produziam-se vitrais nacionais como os
que eram importados da Europa e haviam iluminado
o período da Idade Média. Originária do Oriente no
século X, essa técnica minuciosa ganharia espaço
nos principais prédios públicos, igrejas e mansões
paulistanos ao longo dos últimos 120 anos.

É o caso do Mercado Municipal, da Catedral da Sé
e da Sala São Paulo, com vitrais executados ou
restaurados pelos três homens de mesmo nome
que ligaram a história da família à da capital
paulista. O patriarca não desenhava. Importava
os vidros coloridos e os colava com um filete
de chumbo conforme o desenho de artistas
convidados, seguindo a técnica difundida nas igrejas
góticas de seu país. Foi um de seus herdeiros, o
também alemão Conrado Sorgenicht Filho (1869-
1935), quem realmente exibiu talento artístico e
impulsionou a vidraria. Os painéis com ilustrações
rurais que colorem o Mercadão, no centro, desde
1932 foram feitos por Conrado Filho após uma
viagem pelo campo para fotografar referências.
Por abrigar os soldados que lutavam na Revolução
Constitucionalista, o mercado sofreu com vidros
quebrados por tiros e teve sua inauguração adiada
para o ano seguinte.

Entre os anos 20 e 30, a arte em vitrais viveu seu
primeiro auge na cidade. O quase monopólio da
Casa Conrado se deveu, em parte, a uma parceria
com o engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo.
Além de ilustrar os vitrais do Mercadão, Conrado
Filho executou as obras do Palácio das Indústrias,
de 1924, da Faculdade de Direito do Largo São
Francisco e da mansão da Avenida Paulista hoje
conhecida como Casa das Rosas, ambas de 1934. O
segundo pico de encomendas veio nas décadas de
50 e 60, já sob o comando de Conrado Adalberto
Sorgenicht (1902-1994), neto do fundador e único
dos três Conrado nascido em São Paulo. Ele levantou
os vitrais da Beneficência e da Faap, com 58 obras
de diferentes artistas – entre eles Tarsila do Amaral,
Carybé, Lina Bo Bardi, Portinari e Tomie Ohtake –
que começaram a ser instaladas em uma parede de
vitrais com 230 metros quadrados a partir dos anos
50.

“A obra preferida de meu avô era A Veneração de
São Vicente, reprodução do pintor português Nuno
Gonçalves, que está na Beneficência”, conta a artista
plástica Regina Lara Silveira Mello, neta de Conrado
Adalberto. “Essa é uma arte cara, demorada e que
está em extinção. Cada metro quadrado custa entre
3 000 e 3 500 reais.” Também vitralista, Regina é
professora da Universidade Mackenzie e ensina sobre
a história dos vitrais. “Meu avô quase morreu de
desgosto quando a Igreja Nossa Senhora do Brasil
substituiu seus originais por réplicas de acrílico”,
diz. Regina prepara o guia dos vitrais de São Paulo,
ainda em busca de patrocínio. Entre as surpresas da
publicação está o mais antigo dos 600 trabalhos da
Casa Conrado catalogados no Brasil: uma rosácea
da Igreja Luterana, na Avenida Rio Branco, no
centro, datada de 1908. Conrado Adalberto teve
apenas uma filha, Iolanda, mãe de Regina, que se
casou a contragosto do pai aos 16 anos. Por isso,
pouco antes de sua morte, o terceiro Conrado não
quis que ela assumisse a empresa e a repassou à
sua secretária. Hoje, a outrora mais importante
fábrica de vitrais da cidade funciona com apenas
seis funcionários em um escritório em M’Boi Mirim.
Vive de restaurações, como a que faz dos vitrais do
Teatro Municipal, e da fama do passado glorioso.

O Brasil cowboy

O aposentado catarinense Léo Sebold, 70 anos, foi o
primeiro a chegar, com nove dias de antecedência.
Cuidadosamente, escolheu a melhor entre as 5.300
vagas do camping e estacionou ali o trailer
importado. Ligou o som numa rádio sertaneja e
desceu para montar o toldo e a mesa de damas.
Logo o colega Henrique Dias, 65 anos, apareceu com
uma lata de cerveja para iniciar a primeira rodada
de uma série muito, muito longa. “Faz nove anos
que eu venho. É cada vez mais difícil achar lugar
bom, então decidi chegar cedo”, explica Sebold,
exibindo o planejamento a longo prazo permitido
pela idade e um figurino híbrido — camisa
estampada com a bandeira dos Estados Unidos,
cigarro de palha no canto da boca. O catarinense,
que viajou 1.400 quilômetros para garantir o lugar,
foi o precursor da romaria que superlota a cidade de
Barretos, no interior de São Paulo, no final de agosto
para a Festa do Peão de Boiadeiro, o maior evento
regional do país. A festa, que começou na sexta-
feira passada e vai até o próximo domingo, atrai
uma multidão que causa congestionamentos de oito
horas nas estradas da região, lota todos os hotéis
num raio de 150 quilômetros e faz com que diárias
de modestos estabelecimentos de três estrelas
cheguem a 375 reais, preço de um cinco-estrelas em
Paris. Barretos, durante dez dias, é a meca de um
fenômeno que começou no interior de São Paulo e
se irradiou para outros pontos do país, o rodeio. Não

um rodeio qualquer, com a peãozada montando em
bichos bravos, como sempre existiu no Brasil, mas
um festival cada vez mais calcado nos moldes
americanos.

A arena de Barretos está para o mundo do rodeio
como Wimbledon para o tênis. É a segunda maior
festa do gênero no mundo, depois de Las Vegas,
nos Estados Unidos, e a única competição do circuito
mundial de rodeio de touros realizada fora de um
país de língua inglesa. Há 700 jornalistas do mundo
inteiro credenciados para o evento. As finais serão
transmitidas pelo canal country de TV por assinatura,
CMT. Enviados de jornais como Financial Times e
Chicago Tribune, redes de TV como Fox News e
revistas como a Opa, do Japão, baterão ponto na
arena. Há 22 competidores americanos, canadenses
e australianos. No meio dessa porção de gringos,
porém, a grande estrela do show é o brasileiro
Adriano Moraes, de 27 anos, nascido na pequena
cidade de Matão, a 300 quilômetros de São Paulo.
No próximo fim de semana, enquanto o tenista
Gustavo Kuerten deverá estar lutando nas quadras
do US Open para se manter na nona posição do
ranking mundial, Moraes defenderá, com amplo
favoritismo, seu posto de primeiro colocado na lista
da Professional Bull Riders, a federação dos peões
montadores de touros. No início de agosto, Moraes,
com 7 190 pontos, tinha uma liderança tranqüila
sobre o segundo colocado, o americano Michael
Gaffney, com 4 715 pontos.

Uísque importado — A Festa do Peão de Barretos
existe desde 1955. Na época, a cidade sediava o
maior frigorífico do país e recebia tropeiros que
traziam gado de vários Estados. Para matar o tempo
enquanto esperavam o abate das reses, eles faziam
rodeios no estilo caipira, nos quais se compete para
ver qual o peão que fica mais tempo no lombo de
um cavalo chucro ou qual o laçador mais habilidoso.
Durante três décadas, a festa foi atraindo cada vez
mais gente, entre fazendeiros endinheirados e o
pessoal da região, geralmente mais interessados
em se divertir. O modelo, no entanto, continuava
tradicional. Foi no final dos anos 80 que empresários
locais farejaram ali uma mina de ouro. Inspirados no
sucesso da música sertaneja, que unia a guitarra da
música country à viola da toada caipira, decidiram
transformar a festa num torneio à texana, para
atrair o público de classe média que jamais iria a
uma festa “caipira”, mas compareceria alegremente
a um evento country. Uma agência de publicidade
foi contratada para divulgar o evento, os cartazes
passaram às mãos de artistas como Siron Franco
e Manabu Mabe, as barracas começaram a vender
uísque importado. Barretos estourou.

A Polícia Militar calcula que, durante os dez dias
de festa, 900.000 pessoas circulam pelo Parque

do Peão. Isso não quer dizer, observe-se, que a
cidade, de 100.000 habitantes, seja invadida por
800.000 turistas. Se um morador local, por exemplo,
resolve comparecer ao parque durante os dez dias
seguidos, será computado como dez pessoas. Mesmo
assim, é uma monstruosidade de gente. Mais que
a Oktoberfest, de Santa Catarina, que pelo mesmo
critério atrai 500.000 pessoas, e que o Festival do
Boi de Parintins, no Amazonas, que junta 150.000.

Aluguel estratosférico — A grande maioria dos
freqüentadores calça botas sete-léguas e poderia
perfeitamente ter participado do primeiro rodeio, há
42 anos. Mas o que interessa aos organizadores é
aquela fatia de público que usa chapéu à moda de
J.R. Ewing, de Dallas, e vende boi virtual na Bolsa
de Mercadorias & Futuros. No aeroporto da cidade,
que costuma receber uma dúzia de aviões por dia,
o movimento esperado ao longo da festa é de 1.000
pousos e decolagens. Fora o heliporto, sempre
lotado, com capacidade para trinta helicópteros. Para
atender aos celulares que teimam em estrilar mesmo
durante os momentos mais emocionantes do rodeio,
no Parque do Peão foram cravadas três antenas
de telefonia, com capacidade para 10.000 ligações
simultâneas.

Entre os 4.000 metros quadrados de estandes
montados no parque não há apenas barracas de
comes e bebes. O Mappin, uma das maiores lojas
de departamentos do país, montou uma filial pré-
fabricada, com 120 funcionários. Há até um estande
da Valmet, que no ano passado vendeu quarenta
tratores. “O espírito da festa é rústico, mas nosso
público é a classe média das grandes cidades do
interior”, diz Flávio Silva Filho, diretor do clube Os
Independentes, que organiza a festa. A invasão
turística gera oportunidades de negócios também
fora do parque. O comerciante Geraldo Rodrigues
adiou a mudança para a nova casa em duas semanas
porque durante o rodeio ela estará ocupada por
famílias de turistas, ao estratosférico preço de 1.000
reais a diária. “Não podia perder uma chance de
embolsar essa grana, né não?”, raciocina.

O filão aberto por Barretos revelou-se uma mina
de ouro. Até o final do ano serão realizados em
todo o país 1.200 rodeios, que, entre ingressos,
movimento turístico e de restaurantes, farão
circular 1 bilhão de dólares. O público estimado é
de 24 milhões de pessoas, sete vezes mais que os
espectadores do Campeonato Brasileiro de Futebol.
Os números, como de hábito, estão sujeitos a chutes
e arredondamentos duvidosos, mas são endossados
por quem entende do ramo. “O mercado de rodeios,
leilões e exposições agropecuárias no país deve
passar de 2 bilhões de dólares”, calcula Antônio
Ernesto de Salvo, presidente da Confederação
Nacional de Agricultura.

O rodeio, no mundo, é dividido em duas grandes
federações, montaria de touros e rodeio completo.
Na primeira, o peão precisa manter-se pelo menos
oito segundos no lombo de um touro furioso.
Completado o tempo mínimo, os juízes lhe atribuem
pontos em função do estilo. Já o rodeio completo é
dividido em sete provas. Além da montaria em touro,
há o bulldogging, que implica saltar da montaria e
derrubar um bezerro pelos chifres. Laço, em que
o objetivo é laçar um garrote no tempo mínimo
possível, e laço em dupla, em que dois cavaleiros
dominam a cabeça e as patas traseiras do bezerro.
Há uma prova feminina, na qual as amazonas devem
contornar três obstáculos no menor tempo possível,
e dois tipos de prova de montaria em cavalos,
com e sem sela (o bareback). No Brasil, há ainda
a montaria na cela típica dos caipiras, chamada
cutiano.

Os humanos vêm se exibindo dessa maneira
desde a domesticação do cavalo, mas as regras
e modalidades vigentes hoje vieram dos Estados
Unidos, onde os campeonatos de rodeio profissional
existem desde 1929 e os espetáculos atraem 34
milhões de espectadores. Há competições exclusivas
para mulheres, um torneio gay em Utah e rodeios
em que os peões são detentos de penitenciárias.
Nessa categoria, o público torce pelos touros e
reserva os maiores aplausos da noite para o animal
que mais pisoteia um peão. Há um canal de TV
que só transmite rodeios e, nas bancas de jornais,
vendem-se cartões, conhecidos por qualquer
criança como cards, com as figuras dos peões mais
célebres. Neles, o brasileiro Adriano Moraes aparece
como natural de Keller, Texas, a cidade onde fixa
residência durante a temporada americana.

Coleção de fraturas — Adriano se divide entre
o campeonato americano e os principais rodeios
brasileiros. Em 1996, entre prêmios e patrocínio, ele
faturou 300.000 dólares. Em dez anos de carreira,
conseguiu juntar seu primeiro milhão de dólares e
uma coleção de fraturas. Quebrou um braço, uma
perna e uma costela, perdeu um dente e rompeu os
ligamentos dos dois joelhos. Por sorte, seu contrato
com os patrocinadores estabelece que eles são
responsáveis pelas despesas médicas. No Brasil,
onde morrem em média cinco peões por ano em
acidentes de trabalho, as seguradoras se recusam a
fazer seguro de vida para a categoria. Nos Estados
Unidos, com dezoito óbitos por ano, as apólices
custam dezenas de milhares de dólares. Quando
se preparava para entrar na arena para vencer seu
primeiro título mundial, em 1994, Adriano viu um
touro esmagar o crânio de um amigo, o americano
Brent Thurman.

Religioso daqueles que beiram a pieguice, Adriano é
adepto da Renovação Carismática Católica. Fundou

um grupo de oração chamado Peões de Deus, em
contraposição aos Caubóis de Cristo, evangélicos,
e dedica suas vitórias a Nossa Senhora Aparecida.
No início do ano, doou 100.000 reais à comunidade
cristã de Cachoeira Paulista. “Meu sonho é que um
de meus filhos seja padre”, explica. Ídolo nos EUA,
respeitado como um dos três cowboys da história
que conseguiram montar dez touros, um após o
outro, sem cair, ele é permanentemente servido pela
mulher, Flávia, preocupada com o assédio das fãs.

Laço com jatinho — Nos bastidores da arena,
os peões são tratados como astros de TV. E, com
alguma sorte, acumulam pequenas fortunas. Vilmar
Felipe, bicampeão de touros em Barretos, ainda
guarda na garagem três dos 24 carros que ganhou
em várias competições. Os outros, juntamente com
25 motos, mais os prêmios em dinheiro, foram
trocados por terras e cabeças de gado. Administrar
o dinheiro e a carreira é a maior dificuldade da
profissão. Muitos peões arruínam as vértebras e as
articulações por competir demais, sem descanso.
O paranaense João Henrique Giannasi, 30 anos, o
primeiro colocado no ranking nacional de montaria
a cavalo, categoria bareback, previne-se fazendo
fisioterapia. Nas semanas que antecedem as grandes
competições, ele evita qualquer torneio. “Não dá
para ficar de fora justamente do que interessa”,
argumenta.

Há peões que competem apenas pela emoção. O
fazendeiro Henrique Prata, dono do Hospital do
Câncer de Barretos e de 20.000 cabeças de gado,
costuma pegar o jatinho com o filho e a filha para
disputar etapas qualificatórias das provas de laço em
cidades distantes. “Montar é a melhor parte da nossa
vida”, alegra-se. O maringaense Renato Garcia, de
20 anos, herdeiro de uma empresa de ônibus que
fatura 60 milhões de reais, também monta apenas
por diversão. Mas está entre os dez melhores do
ranking brasileiro. Quando terminar a faculdade de
zootecnia, Garcia pretende assumir de vez a carreira
de peão.

O rodeio traz fama também aos coadjuvantes do
espetáculo. Os palhaços salva-vidas, que distraem
os animais quando os caubóis caem, são conhecidos
do público e ganham 2.500 reais por final de
semana. Mas o trabalho é, digamos, estressante.
Antônio Carlos Damasceno, o “Django”, de Barretos,
contabiliza onze costelas quebradas, além dos
maxilares superior e inferior. “Meu irmão tem
mais sorte, quebrou só sete costelas, um joelho e
uma omoplata”, enumera. Os touros mais ferozes,
como “Pedra 90” e “The Flash”, também têm fã-
clube. O que poucos espectadores sabem é que a
fúria dos animais não decorre apenas de um mau
gênio de nascença. Touros e cavalos são atiçados por
cordas apertadas em suas virilhas e, eventualmente,

esporadas ou choques elétricos. “O rodeio é uma
tortura para os bichos”, protesta Milton Moura
Leite, presidente da União Internacional Protetora
dos Animais do Brasil. Os organizadores de rodeio
desconversam. “O animal não é judiado. É tratado
com as melhores rações e fica incomodado só porque
sente cócegas”, afirma Flávio Silva Filho, um dos
organizadores do rodeio de Barretos.

O universo dos rodeios é misterioso para quem
não está acostumado com música country, botas
de couro de jacaré e fumo de mascar. Em julho,
no rodeio de Jaguariúna, a principal atração da
noite não era uma dupla sertaneja, e sim Billy Ray
Cyrus, “O rei do Kentucky”, um breguíssimo astro
country americano. Nesse Texas de fantasia, não há
sem-terra nem gente com o nome sujo no crédito
rural do Banco do Brasil. Há apenas caubóis ricos
e caubóis pobres, que se identificam por sinais
claros como uma estrela de xerife. Em Barretos, por
exemplo, não faltam picapes ostentando adesivos da
Festa do Patrão, um baile country que reúne 5.000
pessoas nas noites de rodeio. A entrada custa 100
reais e, com duas semanas de antecedência, 70%
dos ingressos já estavam vendidos.

No ambiente de um rodeio, a receita de
elegância é a mesma de qualquer outra festa do
circuito ostentatório: produzir-se ao máximo e
desembarcar de um carro vistoso. O que muda
são os ingredientes. No mundo country, os carros
valorizados são picapes como a Mitsubishi Pajero
e jipes como o Chrysler Grand Cherokee. Quanto
às roupas, o figurino Chitãozinho e Xororó está por
fora. “Foi-se o tempo em que bastava usar camisa
de franja. Agora é preciso seguir a tendência da
estação”, explica Valdomiro Poliselli Júnior, dono
da VPJ Western, a maior importadora de roupas
country, com 152 lojas e faturamento de 7 milhões
de reais. A dobra do chapéu de caubói, por exemplo,
muda da mesma maneira que o comprimento das
saias femininas. Quem usa os chapéus do ano
passado é classificado como “faiado” (“falhado”,
caubói fajuto, no dialeto peonês) ou “abeia”
(“abelha”, equivalente a “brega”).

Pele de avestruz — Durante o dia, o caubói que
se preza usa chapéu branco. À noite, preto, de
preferência de pêlo de castor, que pode custar até
1.500 reais. As botas de couro de cobra foram a
coqueluche do ano passado. Hoje, o quente são
as de avestruz, australianas, que, por 840 reais,
derrubam muita Prada ou Gucci. Para ditar a moda
nos rodeios, as griffes apelam para o clássico
mecanismo do jabá, enviando roupas de presente
a peões e locutores. O acessório que completa o
uniforme é a calça jeans. É Wrangler, americana. “A
brasileira não presta”, sentencia Fernanda Cordeiro
Camargo, aluna do 2º ano de veterinária, que na

semana passada desfilava pelo Rodeio Universitário
de Londrina. Seguindo o padrão cowboy, as calças
precisam ser absurdamente justas. A tática de
patricinhas e mauricinhos interioranos para domá-las
é comprá-las na véspera da festa, enfiar-se dentro
delas com grande esforço muscular e dormir com o
jeans no corpo, de forma a amaciá-lo.

Se nas revistas de moda o estilo vigente nos grandes
centros urbanos é heroína-chique, aquela aparência
intermediária entre a ressaca, a anorexia e a
hepatite, nos rodeios o modelo são os cowboys de
anúncios de cigarro. Não só no trajar, mas até no
hábito de mascar fumo. Não aqueles rolos fedorentos
dos caipiras de antanho, é claro. Em Londrina, nos
dias de rodeio, as lojas country vendem cerca de
200 caixinhas de tabaco americano, em tabletes,
para ser mastigado como chiclete. Para o público
feminino, há o produto nos sabores cereja e menta.
Como o cigarro comum, a versão ruminante pode
causar câncer no esôfago, estômago e fígado. “Estou
tentando parar”, explica o peão Renato Garcia, uma
assumida vítima da moda.

A indumentária texana não indica apenas que há
muita gente disposta a brincar de caubói. Mostra
também que as elites do interior do país estão
firmando uma identidade diferente da de seus
similares das metrópoles. No final do século passado,
as famílias abastadas do Rio de Janeiro e de São
Paulo fizeram uma opção preferencial pelo estilo
importado da França, então uma potência cultural,
política e científica, além de sinônimo de erudição
e refinamento. Ao adotar a imagem de texanos,
os homens debaixo do chapéu de castor criam
para si próprios uma imagem diferente daquela do
caipira ignorante ou do fazendeiro rude, ao mesmo
tempo que estabelecem diferenças em relação ao
figurino Fiesp. “As picapes importadas dizem: não
somos cariocas nem paulistanos, mas somos ricos
e importantes”, teoriza o antropólogo Everardo
Rocha, da PUC do Rio, especialista em fenômenos de
consumo.

O interior não quer apenas parecer com o Texas.
Pretende, também, consumir como ele. A Alpha
Consultoria, instituto que faz prospecções de
mercado para várias empresas, tem uma projeção
de quanto cada região do país pode consumir, com
base em indicadores como renda per capita, número
de telefones, consumo de energia elétrica e média
de carros por habitante. Segundo a última pesquisa
da empresa, a região com mais dinheiro esperando
para ser gasto é a Grande São Paulo, com 14,2% do
potencial nacional de consumo. A segunda, com
13,3%, é o interior paulista. Não é difícil atestar
isso. A Forum, uma das mais caras franquias de
moda jovem, obtém 40% de suas vendas no interior
do país, embora possua na região menos de um

terço de suas lojas. As vendas de picapes
importadas cresceram 27 vezes nos últimos cinco
anos, principalmente no interior, mas os modelos
preferidos não são os paus-para-toda-obra e sim os
de luxo. Talvez por isso, na última contagem
populacional do IBGE, se descobriu que há hoje mais
gente migrando das capitais para o interior do que
fazendo o caminho contrário. Quem vai com alguma
reserva no banco pode tratar de comprar o chapelão
de caubói para se adaptar.

Fumo de mascar é a última moda entre os caubóis
brasileiros. Existe até em versões com sabor de
menta ou de cereja

Chapéu americano feito com pêlo de castor, da
Resistol. Os preços dos modelos variam de 600 a 1
500 reais

Cinto de crina de cavalo, importado, pode chegar a
custar 150 reais. O falsificado, de náilon, sai por um
terço disso

Bota de couro de cobra misturado com couro de boi
custa 150 reais. As de cobra pura chegam a 700
reais

Estrelas da arena e do disco

Os locutores de rodeio arrombaram a porteira
das lojas de discos. Nos últimos meses, várias
gravadoras despejaram na praça CDs que prometem
reproduzir no estéreo o espírito de um rodeio de
verdade. Para que o ouvinte se sinta cercado por
cavalos, touros e caubóis, as gravações do gênero
alternam música sertaneja com aquele blablablá que
os locutores costumam disparar pelas caixas de som
das arenas. Entram nos discos saudações como “alô,
meu povo!”, gritos de “segura, peão!” e até piadas
de salão (“Você sabe qual a semelhança entre minha
sogra e uma garrafa de cerveja? As duas ficam
ótimas geladas, em cima da mesa”). Tudo é dito com
entonação característica, algo entre a narração de
uma partida de futebol e a de um páreo no jóquei.
Um dos lançamentos do gênero, Bailão de Peão, já
vendeu 400 000 cópias, número que bate de longe
as vendagens habituais das estrelas da MPB.

De olho na moda, até o clube Os Independentes,
que organiza o rodeio de Barretos, lançou o disco
oficial da festa. A previsão é de que sejam vendidas
150 000 cópias até o final do mês. Com o sucesso
do filão, a carreira dos locutores avança para além
das arenas de rodeio. O veterano Asa Branca, ex-
peão que depois de um acidente teve de trocar os
arreios pelo microfone, já montou uma banda para

excursionar pelo país. Com idéias originais, como
saltar de pára-quedas sobre a arena ou fazer a
abertura de um rodeio de dentro de um helicóptero,
ele se tornou um dos animadores mais conhecidos.
Seu disco Cowboy Country esgotou a tiragem de 180
000 exemplares.

O locutor Marco Brasil, recordista de vendas no
segmento, apresentava um programa de rádio
quando teve a idéia de lançar o primeiro LP do
gênero no país. Hoje, divide seu tempo entre
rodeios, pelos quais cobra até 12 000 reais,
bailes e shows. As festas country se tornaram
tão importantes para a indústria do disco que
conseguem projetar artistas que pouco aparecem no
rádio e na TV. É o caso da cantora Jayne, a “rainha
dos rodeios”, que se apresenta no palco fazendo
evoluções sobre um cavalo branco. Seu último disco
vendeu 80 000 cópias e carimbou-lhe o passaporte
para Nashville, Tennessee, a capital da música
country, onde ela acaba de gravar mais um CD.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Franco Iacomini (com reportagem de Rachel Verano, de Belo Horizonte)

Surge uma Barra Funda remodelada

A Barra Funda não é mais a mesma. Que o diga o barbeiro Milton Greggio, de 64 anos, um dos mais antigos do bairro. Desde 1961, esse descendente de imigrantes italianos observa as redondezas. De sua portinha na Lopes Chaves, a mesma rua onde viveu o escritor modernista Mário de Andrade, Greggio percebe parte da transformação do bairro pelos clientes que se sentam nas tradicionais cadeiras Ferrante vermelhas de seu salão despojado. “Antes só vinham meus contemporâneos, moradores
dos casarões antigos e funcionários das fábricas”, conta. “Hoje
a clientela é mais jovem, com rapazes tatuados que gostam de
longas costeletas, cabelos modernos e barbas esquisitas.” Greggio
se refere aos freqüentadores das casas noturnas, aos artistas
e aos recém-chegados moradores dos novos empreendimentos
imobiliários.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Filipe Vilicic

Espalhada por uma área de 5,6 quilômetros quadrados entre a
Marginal Tietê e os bairros de Perdizes, Lapa, Pompéia, Campos
Elíseos e Bom Retiro (veja mapa ), a Barra Funda recebeu suas
primeiras edificações no fim do século XIX. A inauguração de
estações das estradas de ferro Santos–Jundiaí e Sorocabana, além
de fábricas como as das Indústrias Matarazzo, atraiu moradores à
região. Imigrantes italianos se estabeleceram em vilas operárias
e sobrados estreitos, alguns preservados até hoje. Na virada dos
anos 70, o bairro entrou em um súbito processo de deterioração
por causa da construção do Minhocão, que derrubou o preço dos
imóveis de seu entorno.

A situação começou a mudar com a abertura, em 1988, do
terminal de trem, metrô e ônibus urbanos, intermunicipais e
interestaduais. Diariamente, 500 000 pessoas passam por ali.
Em uma cidade que tanto sofre por causa do trânsito, a fartura
de transporte público conta como ponto positivo. Outro trunfo
é sua localização estratégica – perto da Marginal Tietê e de
avenidas como Pacaembu e Sumaré, mais o próprio Minhocão,
que faz a ligação das zonas Oeste e Leste. Na esteira da facilidade
de acesso, galpões e sobrados caindo aos pedaços foram
transformados em ateliês e estúdios, em um processo semelhante
ao de bairros nova-iorquinos como SoHo e Chelsea. “A Barra
Funda nasceu residencial e depois virou centro de indústria e de
comércio, mas agora volta a atrair moradores”, diz o corretor
Ricardo Gutierrez, da Imobiliária Osvaldo Gomes, desde 1965
na Rua Barra Funda. Segundo a incorporadora Klabin Segall,
nos últimos três anos o preço do metro quadrado dos novos
empreendimentos valorizou-se mais de 35%.

De 2003 para cá, oito casas noturnas passaram a animar as
madrugadas e pelo menos cinco galerias ou lojas de objetos de
decoração se instalaram ali. Centros culturais como o Memorial
da América Latina e o Teatro São Pedro tiveram sua programação
reforçada. Com a Operação Urbana Água Branca, projeto da
prefeitura que estimula a urbanização da região, já são onze

prédios residenciais saindo da planta. Em março, a prestigiada
Galeria Fortes Vilaça abriu uma unidade por lá e na próxima
semana será inaugurada a Gran Fornalha, uma superpadaria com
1100 metros quadrados. A Barra Funda renasce – como é possível
perceber nas próximas páginas – e os moradores comemoram. “É
ótimo poder sair a pé para assistir a apresentações do Memorial
com minha mulher nas sextas à noite”, anima-se o barbeiro
Greggio, que já curtiu até show de rock no badalado CB Bar.
Sua única preocupação é que o boom imobiliário traga com ele a
descaracterização. “A Barra Funda precisa crescer sem perder a
alma.”

Atrações ao longo da ferrovia

Os trilhos dos trens dividem o bairro entre Barra Funda Alta,
vizinha de Perdizes, e Baixa Barra Funda, ao lado da Marginal Tietê

Comer e beber

1. Bacalhau, Vinho & Cia.

Rua Barra Funda, 1067, 3666-0381, www.bacalhauevinho.com.br

2. Dulca Doceria

Rua Lopes Chaves, 134, 3666-4766, www.dulca.com.br

3. Fazendinha da Pompéia

Avenida Nicolas Boer, 120, 3611-1114,
www.fazendinhadapompeia.com.br

4.

Rua Lopes Chaves, 105, 3663-0433

5. Fogão Gaúcho

Avenida Marquês de São Vicente, 1767-B, 3611-3008/3289,
www.fogaogaucho.com.br

6. Gran Fornalha

Avenida Doutor Abraão Ribeiro, 79, 3392-
3466,www.granfornalha.com.br

7. Novilho de Prata

Avenida Marquês de São Vicente, 1215, 3619-5454/5458,
www.novilhodeprata.com.br

8. Ponto Chic

Largo Padre Péricles, 139, 3826-0500, www.pontochic.com.br

9. Royal

Rua Lopes Chaves, 116, 3666-5548 e 3361-0193

10. Tanta Felicità

Rua da Várzea, 418, 3392-3001

Noite

1. Berlin

Rua Cônego Vicente Miguel Marino, 85, 3392-4594,
www.clubeberlin.com.br

2.

Rua Brigadeiro Galvão, 723, 3666-1616, www.bluespace.com.br

3. Café Concerto Uranus

Rua Doutor Carvalho de Mendonça, 40, 3822-2801

4.

Rua Sousa Lima, 67, 3822-1364, www.cbbar.com.br

5. CB Bar

Rua Brigadeiro Galvão, 871, 3666-8371, www.cbbar.com.br

6.

Rua Barra Funda, 969, 3661-1500, www.clashclub.com.br

7. D-Edge

Alameda Olga, 170, 3666-9022, www.d-edge.com.br

8.

Rua Marquês de São Vicente, 1767, 3611-3121, www.eazy.com.br

9. Livraria da Esquina

Rua do Bosque, 1254, 3392-3089, www.livrariadaesquina.com.br

10.

Avenida Francisco Matarazzo, 774, 3868-5858,
www.villacountry.com.br

Arte

1. Casa das Caldeiras

Avenida Francisco Matarazzo, 2000, 3873-6696

2. Casa de Cultura Mário de Andrade

Rua Lopes Chaves, 546, 3666-5803

3. Funarte

Alameda Nothmann, 1058, 3662-5177

4. Galpão Fortes Vilaça

Rua James Holland, 71, 3392-3942

5.

Rua Brigadeiro Galvão, 996, 3662-5530

6. Memorial da América Latina

Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, 3823-4600

7. Teatro São Pedro

Rua Barra Funda, 171, 3667-0499

Arte

De volta ao circuito

Memorial reforça programação e jovens artistas criam galerias em
antigos galpões

Polêmico e feioso ícone arquitetônico e cultural da Barra Funda,
o Memorial da América Latina, projetado pelo arquiteto Oscar
Niemeyer e inaugurado em 1989, estava um tanto esquecido. No
início desta década, seus seis espaços de eventos eram usados
quase exclusivamente como palco de solenidades oficiais. Havia
cupins em obras da artista plástica Tomie Ohtake e infiltrações
nos prédios. A situação melhorou a partir de 2005. Hoje, o
elefantão recebe quase 700 000 pessoas por ano e sedia eventos
disputados, festivais como o Anima Mundi, a partir de quarta
(23), e o de Cinema Latino-Americano, que terminou domingo
(13). “O desenvolvimento da região ajudou a revitalizar lugares
que estavam em decadência”, afirma Fernando Calvozo, diretor
de atividades culturais do Memorial e ex-diretor do Teatro São
Pedro. Ele explica que estudantes, clientes de casas noturnas,
funcionários de empresas ali instaladas e o grande movimento
criado pelos fóruns criminal e trabalhista – cerca de 25 000
pessoas por dia útil – aumentaram a freqüência do público. É o
caso do apresentador Britto Junior, um dos 3 000 funcionários
da Rede Record, que fica na Rua do Bosque. “Já morei em dois
endereços da Barra Funda e acredito que essa renovação estimula
as pessoas a redescobrir a região central”, diz Britto.

Dono da loja de objetos de decoração para atacado Marco
500, o empresário Marco Aurélio Pulchério faz parte dessa
leva de redescobridores. Em 1999, ele montou seu show-room
para lojistas na Rua Brigadeiro Galvão e se mudou para um
apartamento na Alameda Barão de Limeira. “Desde que cheguei,
a vizinhança foi tomada por ateliês e galerias”, conta Pulchério,
que plantou duas árvores diante da fachada colorida de sua
empresa e fundou com amigos o Curto Circuito Barra Funda, do
qual fazem parte outras três lojas do gênero. Nenhuma novidade
no ramo das artes, porém, foi mais marcante que a abertura,
em março, da galeria Fortes Vilaça, representante de artistas
contemporâneos como osgemeos e Beatriz Milhazes. Na segunda
unidade – a primeira fica na Vila Madalena – são comercializadas
obras avaliadas em mais de 350 000 reais.

Noite

Comando da madrugada

Uma dezena de clubes noturnos atrai cowboys urbanos, gays,
roqueiros e fãs de música eletrônica

Em 2001, após uma temporada de um ano e meio na Holanda
trabalhando como cozinheiro e barman, o artista plástico Diego
Belda voltou a São Paulo atrás de um lugar para morar e montar
seu ateliê. Por indicação de colegas, mudou-se para a Barra Funda.
Dois anos depois, decidiu abrir, com um amigo, a Casa Belfiore, na
Rua Sousa Lima. “Não havia nas redondezas um lugar que servisse
um bom hambúrguer e cerveja de qualidade”, lembra. Com a
divulgação boca a boca, em menos de um ano o público subiu
de quinze pessoas por dia para mais de 100. Como a vizinhança
começou a reclamar do barulho dos shows de rock, ele inaugurou,
em 2006, mais uma casa, o CB Bar, que passou a abrigar essas
apresentações. O galpão de 300 metros quadrados na Rua
Brigadeiro Galvão chega a receber 500 baladeiros num sábado.

A Barra Funda ferve de madrugada desde 2003, quando foi
aberto, na Alameda Olga, o D-Edge, eleito pela revista inglesa DJ
Magazine, referência em música eletrônica, como um dos melhores
clubes do mundo. A guinada rumo ao agito continuou com o Berlin,
em 2005, e com a Clash e a festa GLS Flex (na Eazy), ambas de
2007. Em agosto passado chegou a Livraria da Esquina, um misto
de livraria e casa de shows alternativos que antes funcionava em
Perdizes. “A Vila Olímpia e a Vila Madalena estão abarrotadas”,
diz Marco Tobal Junior, sócio do Grupo Olympia, dono do Villa
Country e das casas de eventos Expo Barra Funda e Espaço das
Américas. “A Barra Funda virou alternativa para quem quer dançar
e curtir sem encarar trânsito e muvuca.”

Comer

Novidades à mesa

Uma descolada feijoada com chorinho e uma nova superpadaria
somam-se a restaurantes tradicionais

Nas tardes de sábado, um chorinho tocado ao vivo ecoa de um
sobrado cheio de plantas na Rua Lopes Chaves. Não há placa na
porta, mas os iniciados já sabem: é dia da Feijoada da Bia. Ao
chegar ao bairro, há quatro anos, a chef Bia Braga só buscava um
imóvel grande e barato onde pudesse preparar os pratos de seu
bufê. “Mas um almoço para quarenta amigos deu tão certo que,
um ano depois, se tornou programação fixa”, diz Bia. No início, o
fundo musical era um sambinha, resgatando a tradição do local,
que reunia os bambas no Largo da Banana, no início do século XX.
Como o som estava alto demais, optou-se pelo chorinho. Figuras
conhecidas, como o escritor Ignácio de Loyola Brandão e o médico
Drauzio Varella, costumam aparecer por lá.

Apesar de ter muitas casas para dançar, a Barra Funda ainda
reúne poucos lugares para comer e beber. Entre as opções
tradicionais, há a doceria Dulca e a lanchonete Ponto Chic. Para
suprir parte dessa lacuna, está prevista para agosto a abertura do
La Barre, com cozinha coordenada pelo chef francês Emmanuel
Bassoleil, onde funcionava a Chez Victor Brasserie. Na próxima
semana deve ser inaugurada a Padaria Gran Fornalha, na
Avenida Doutor Abraão Ribeiro. Com investimento de 3 milhões
de reais, ela terá 1 100 metros quadrados, 120 funcionários e
estacionamento para trinta carros. “O movimento dos fóruns e dos

novos prédios comerciais dessa parte do bairro vai transformar a
Marquês de São Vicente em uma nova Berrini”, exagera um dos
sócios, Florinaldo Quirino, referindo-se à conhecida avenida do
Brooklin.

Imóveis

Paisagem

Onze novos prédios residenciais quebram a monotonia plana da
antiga várzea

Exibir Infográficos

Paisagem

O gestor cultural Felipe Arruda tinha um sonho quando deixou
a casa dos pais na Vila Nova Conceição, há quatro anos, para
morar sozinho em um apartamento de 70 metros quadrados na
Barra Funda. “Queria conversar com os vizinhos e viver um clima
de bairro”, lembra. A aposta foi certeira. Arruda montou seu
canto no 3º e último andar de um edifício dos anos 50, em uma
rua pacata. Paga 500 reais de aluguel e faz boa parte de seus
passeios no entorno. Ali perto, por 125 000 reais, o economista
Pablo Luiz Cezario e sua mulher, a administradora Flávia Carneiro,
compraram um apartamento de 63 metros quadrados ainda na
planta, em 2004. Mudaram-se para lá há um mês. “O bairro é
pacífico, e nosso imóvel já vale 170 000 reais”, diz Pablo, feliz da
vida.

Jovens como eles compõem a maior parte dos compradores das
3 100 unidades dos vinte empreendimentos imobiliários lançados
desde 2002. Onze deles apareceram nos últimos dois anos, sendo
quatro prédios com apartamentos de quatro dormitórios e preço
superior a 500 000 reais. O valor do metro quadrado em novos
apartamentos dessa zona da cidade, que era de 1 900 reais em
2005, já passa de 2 500 reais, segundo a incorporadora Klabin
Segall, que constrói três empreendimentos no bairro. Embora os
espigões ameacem quebrar a monotonia plana da paisagem, os
amplos terrenos disponíveis indicam que a Barra Funda ainda tem
muito espaço para crescer.