San Francisco verde

Você pousa na cidade mais linda da Califórnia, aluga um carro elétrico e se hospeda em um green hotel. Deixa as malas, toma um bonde elétrico para comer em um restaurante de comida sem agrotóxicos e dali passeia de bike pela ciclovia até uma fazenda urbana. O lanche da tarde pode ser cachorro-quente orgânico, seguido de umas comprinhas de roupas feitas com garrafas pet recicladas. Até a happy hour pode ser em um barzinho que serve legumes plantados no teto do prédio vizinho, com direito a encerrar a noite com um jantar vegetariano refinado. Se sobrar comida no prato, ela será transformada em adubo pela própria prefeitura, não se preocupe. Seu único cuidado na volta ao hotel é conectar um fio do capô do carro a uma tomada elétrica qualquer, como se recarregasse o telefone celular, para que tenha bateria suficiente para visitar uma vinícola nos arredores – de produção ecológica, naturalmente.

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Acredite. Isto não é uma projeção futurista ecochata, mas a reprodução resumida da rotina dos cinco dias que vivemos em San Francisco, em setembro. Fomos conferir por que ela acaba de ser reconhecida como a cidade mais verde das Américas pelo Green Index, um estudo desenvolvido por especialistas da Economist Intelligence Unit e patrocinado pela Siemens. Sua liderança ambiental vem de longa data: em 1892, um sujeito chamado John Muir fundou ali o Sierra Club, que viria a se tornar a mais longeva organização conservacionista dos Estados Unidos, hoje com 1,4 milhão de associados. E John, o pai do Movimento Verde, virou o nome de batismo da Muir Woods, uma floresta de sequoias-gigantes nas redondezas. San Francisco sempre esteve na vanguarda. Na região nasceram a Organização das Nações Unidas (em 1945) e os movimentos beat (nos anos 50), hippie (na década seguinte) e gay (nos 70), entre outras iniciativas que mudaram o mundo, como a produção daqueles computadores com logotipo em forma de maçã, conhece?

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FLORES NA CABEÇA

Logo na estrada do aeroporto, o rádio do carro dava o clima. “If you are going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair”, cantava Scott McKenzie a letra de John Phillips, do The Mamas & The Papas. Bote aí no YouTube para lembrar: este é aquele famoso convite para que viajantes a caminho da cidade ostentassem flores no cabelo, e se transformou no hino de paz e amor que embalou 25.000 hippies nos gramados verdinhos do Golden Gate Park durante o festival de Monterey, de 1967 – dois anos antes do mítico Woodstock. Quase 45 anos depois, bastou darmos aquela voltinha de reconhecimento pelas ruas para perceber as pessoas se reunindo no parque que leva o nome da ponte mais famosa da cidade, assim como nas outras áreas verdes que cobrem 17% do seu território. Em uma das praças mais cênicas, a Alamo Square, encontramos amigas com crianças e cachorros, casais de namorados e até os integrantes de uma banda, a Chamberlin, gravando seu videoclipe. “Adoramos esta cidade, seu clima, sua paisagem”, contou Eric Maier, um dos integrantes do grupo de Vermont.

Com uma geografia privilegiada por beirar o Oceano Pacífico de um lado e a baía de outro, San Francisco convida a explorações a pé ou de bike. Deixamos nosso Leaf recarregando na garagem do hotel, o W, e aproveitamos a oferta gratuita de bicicletas. Redes como Carlton, Intercontinental e Hilton, além do pioneiro The Orchard, integram um seleto grupo de hotéis verdes. As placas de Green Business que ostentam na fachada indicam que suas práticas vão além de quartos cujas luzes se apagam na ausência dos hóspedes: as soluções se estendem até o uso de tecidos reciclados nas roupas de cama e de produtos biodegradáveis na faxina. Os disputados certificados Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), dados aos prédios mais sustentáveis do planeta, estão em mais de 130 edificações do skyline da metrópole, como no AT&T Park – o estádio do time de beisebol Giants, iluminado por mais de 500 painéis solares.

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Escolhemos as ciclovias mais planas, que beiram a baía entre as duas grandes pontes, partindo da Bay Bridge, passando diante do píer turístico Fisherman’s Wharf e seguindo até a Golden Gate Bridge. Cruzar os 2.700 metros da gigante vermelha que se tornou o maior cartão-postal da cidade não é exatamente o passeio mais gostoso durante o verão, tamanha a quantidade de pedestres, mas o downhill que espera os bikers do lado de lá, a caminho de Sausalito, no condado de Marin, encerra o trajeto com adrenalina. Antes de embarcar na balsa de volta para San Francisco, vale a pena curtir o panorama e bater perna entre as lojas e os bares da cidadezinha.

YERBA BUENA

Se o plano para o dia seguinte for conhecer o zigue-zague da Lombard Street, as ladeiras de Chinatown ou a ilha de Alcatraz, é menos cansativo deixar a bike pra lá. Espalhada em um sobe-e-desce de 50 colinas, San Francisco usa desde 1873 os chamados cable cars, que hoje somam 40 carros puxados por cabos de aço subterrâneos. Os bondinhos amados pelos turistas são as vedetes do mais vasto sistema de transporte público dos Estados Unidos – maior até que o de Nova York. Somam-se a eles 26 trólebus históricos chamados de street cars e outros 333 ônibus elétricos, todos impulsionados por cabos suspensos, além do metrô e dos 86 ônibus híbridos, que utilizam tanto diesel quanto eletricidade. Assim, metade dos coletivos locais não emite carbono algum no ar, algo fundamental no trânsito de uma cidade de 800.000 habitantes. O número é mil vezes maior que o da vila de Yerba Buena quando ela deixou de pertencer ao México e foi incorporada pelos EUA com o nome do santo italiano São Francisco de Assis, em 1847.

Recarregador de celulares de fazenda urbana (SameSame Photo)

A miscigenação pacífica de americanos, latinos – mexicanos, na maioria – e chineses está tão incorporada à rotina local que muitas placas incluem as três línguas: inglês, espanhol e mandarim. É o caso dos informativos sobre como separar o lixo, visto que a bem-sucedida coleta seletiva da cidade, implementada nos anos 70, obriga os moradores – sob pena de multa – a colocar todos os recicláveis juntos no cesto azul, lixo imprestável no preto e, na lata verde, orgânicos. “Restos de comida e de podas de árvores são transformados em adubo e vendidos a 200 vinícolas”, explica Robert Reed, relações-públicas da Recology, empresa privada que coleta e dá um fim sustentável aos dejetos urbanos. Na pesquisa The Green Index, San Francisco se destacou especialmente por reciclar 77% do seu lixo. Miami só trata 18% e São Paulo cuida de apenas 1%.

Mandatória desde 2010, a compostagem foi bem-aceita. “Passei a criar minhocas em casa para que minhas cascas de legumes e frutas servissem de alimento para elas”, contou Leora Sharone, vendedora que conhecemos no Heart of the City Farmers’ Market, feira de rua que acontece às quartas e aos domingos na frente do City Hall, o prédio da prefeitura (ficam diante dele, por sinal, alguns dos 30 locais públicos para recarregar baterias de carros elétricos como o nosso Nissan Leaf). Em outra tarde, ao visitar a Hayes Valley Farm, uma fazenda urbana, nos deparamos com um grupo de jovens levando em carrinhos de pedreiro galões de lixo repletos de sobras de um restaurante da vizinhança para compostagem. “Acreditamos que podemos ser um exemplo para outros bairros”, explicou um dos 100 voluntários que trabalham semanalmente ali, Jay Rosenberg. A fazendinha faz seu próprio mel, fornece a produção da horta orgânica a pacientes de câncer do hospital local, tem um recarregador de baterias de celular movido a energia solar e se propõe a ensinar os princípios da permacultura, um método de planejamento de assentamentos humanos sustentáveis.

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PATINETE ELÉTRICO

O engajamento para educar os sanfranciscanos é o propulsor também da California Academy of Sciences, no coração do Golden Gate Park. No terraço, chama a atenção o jardim em formato de abóbada, onde janelas circulares permitem a entrada de sol e a circulação de ar. Sob esse cenário lunar fica uma estufa com espécies amazônicas que, por sua vez, está um andar acima de um aquário impressionante. Ali, grupos de crianças podem entrevistar o mergulhador enquanto ele está submerso. Fora da academia, fileiras de pessoas são vistas passeando em segway, aquele patinete elétrico. E a poucas quadras do parque está a portinha colorida do Underdog, onde cachorro-quente não é sinônimo de junk food: as salsichas vêm de gado criado sem rações químicas, e são servidas em pães caseiros frescos com mostarda e ketchup orgânicos.

Se quiser quebrar preconceitos e matar a curiosidade, o Underdog serve bolo gelado de cannabis sativa – sim, a maconha. A pioneira San Francisco liberou o consumo comedido do cigarro da planta para pacientes com receitas médicas apropriadas. Não doentes têm acesso apenas a processados feitos a partir da erva, como roupas, sabonetes e energéticos vendidos legalmente em várias lojas temáticas da Haight Street. Ali, na altura do cruzamento com a Ashbury Street, o antigo reduto hippie abriga mercadinhos naturebas, como o Haight Street Market. Quando o assunto é sustentabilidade, porém, nenhuma mercearia da cidade é mais respeitada que a Rainbow Grocery, nascida em 1975 como uma cooperativa de seguidores vegetarianos do guru indiano Maharaj Ji. Como foi inevitável que a cooperativa abrisse suas gôndolas para industrializados, o guru deixou o negócio. Restaram os 237 donos-funcionários, entre eles Mary Murtagh, uma das pioneiras. “Muita coisa aqui é vendida a granel para minimizar o consumo de embalagens, do arroz à farinha, das ervas aos diferentes tipos de pasta”, diz Mary. Em tempo: San Francisco foi vanguarda também no banimento completo do uso de sacolas plásticas, em 2007.

Entrada de fazenda urbana (SameSame Photo)

TIROLESA SOBRE A FEIRA

Foi outro grupo espiritual da região, o Zen Center, que deu origem ao restaurante Greens, primeiro vegetariano da cidade, aberto em 1979. Bem localizado, em um galpão envidraçado diante da marina de Fort Mason, uma base militar transformada em centro cultural, o estabelecimento até hoje serve os monges budistas com ingredientes produzidos em fazenda própria. A lista de restaurantes verdes, não necessariamente vegetarianos, é vasta. Todos se abastecem com pequenos produtores e cobram preços quase 10% mais caros que os restaurantes comuns. Mas compensa. Recomendo o Bar Jones, ao lado da fazenda Hayes, animado na happy hour; o Neptunes, no Fisherman’s Wharf, que compra peixes de pescadores artesanais; o Farmer Brown, com um brunch regado a soul music ao vivo nos fins de semana; e o chique Millenium, o restaurante do Hotel California, que não é aquele da música, mas vai fazer você sair de lá cantarolando de tão boa que é a comida! Ali, repare na carta de vinhos: S aponta rótulos de produção sustentável, pouco agressiva ao meio ambiente; O indica produção orgânica, sem uso de agrotóxicos; e B é a inicial de biodinâmico, um termo que explica que a casa segue princípios da antroposofia, como rotação de cultivos e plantio conforme as fases da lua.

Você pode planejar bons dias ao ar livre dando uma esticada até vinícolas sustentáveis dos vales de Napa e Sonoma. Se estiver com um carro elétrico como o nosso, não se esqueça de recarregá-lo antes, pois as tomadas elétricas públicas ainda são escassas. Ou renda-se à paixão californiana por programas ao ar livre praticando, durante o verão, a tirolesa da Ziptrek Ecotours sobre a feira de artesanato diante do Ferry Building. Depois, cruze a rua e se perca entre as barraquinhas de frutas, legumes e verduras do Ferry Building Market, que acontece às terças, às quintas e aos sábados. Os vendedores puxam conversa, oferecem delícias para degustação, sempre tem algum maluco com roupa divertida. Foi ali que conhecemos Joseph Minocchi, um produtor de ervas e de flores de Sonoma. “San Francisco pode estar orgulhosa de ser considerada a mais verde da América, mas tem muita coisa para melhorar”, contestou, lembrando que as tecnologias sustentáveis ainda oneram os bolsos dos produtores por ser mais cara. Mas Joseph estava tranquilo por fazer a sua parte. Afinal, é um californiano típico, meio “ripongo”. E sabe o que ele carrega no chapéu toda vez que vem para a feira de San Francisco? Flores.

Dias de majestade

Vestimos as pesadas saias xadrez, ajeitamos as gravatas-borboleta, demos cinco voltas dos cadarços dos sapatos em cada perna, prendemos as facas nas longas meias e amarramos as pochetes na cintura. Faltavam três horas para a partida do trem – programada britanicamente para 13h41 – quando terminamos de experimentar os kilts. Era nossa primeira vez alugando vestimentas tradicionais, e aquele ritual coroava com uma dose de glamour o que vinha pela frente: três dias a bordo do The Royal Scotsman, o expresso de luxo da mítica rede Orient-Express na Escócia. Ostentar os trajes da Kinloch Anderson já era sinônimo de nobreza: a marca existe desde 1868 e provê roupas para a Rainha Elizabeth e o Príncipe Charles. A partir dali, os reis seríamos nós – especialmente no jantar da última noite a bordo, que requeria vestimenta formal. Penduramos os cabides no típico táxi preto e aceleramos para a Edinburgh Waverley Station, onde xícaras de chá inglês nos esperavam na sala vip da estação e um tocador de gaita de fole conduziria a fileira de passageiros para o mais sofisticado trem do Reino Unido.

Daniel Nunes e o fotógrafo Adriano Fagundes na cabine do trem (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

“Welcome, ladies and gentlemen, good morning and thank you”, nos recebeu solenemente o anfitrião, Michael Andrew, no vagão panorâmico, decorado com tons quentes de bordô e dourado. “Aproveitem para observar a paisagem e tomar um drinque enquanto aguardam sua vez de serem levados às habitações.” Degustar os melhores whiskies do planeta justamente ali, no berço deles, era um dos prazeres mais aguardados dessa viagem. Mais de 600 garrafas são consumidas no trem a cada temporada de maio a setembro (não há serviço no inverno), e havia mais de 40 delas à disposição no bar. Das bebidas alcoólicas aos passeios feitos em terra a cada parada, tudo está incluído no preço do pacote: 2.140 libras (cerca de 5.500 reais) por aqueles três dias de passeio de ida e volta entre Edimburgo e as Highlands, as altas montanhas do Norte da Escócia. A Orient-Express opera ainda outras seis rotas, num total de 25 viagens pelo Reino Unido a cada ano, e elas podem durar até uma semana – a maior delas custa para cada passageiro 8.870 libras, ou uns 23 mil reais.

(interior da cabine, fotos de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Começamos por um Glenkinchie 12 anos, leve e com aroma floral. “Gostou desse ou prefere algo mais smoky?”, perguntou o simpático barman Fraser Robson, 21 anos, escocês de Edimburgo. Um dos mais de 60 funcionários escalados para atender aquele grupo seleto de 28 passageiros (embora a capacidade total seja de 36 pessoas), Fraser servia as bebidas de forma segura, enquanto o trem apitava e já entrava em movimento. Sinal de que aproveitou bem o treinamento rigoroso feito ao longo de um mês antes do início da temporada, quando os empregados aprendem detalhes sobre o funcionamento e a história do The Royal Scotsman: embora tenha começado a circular em 1985, o trem tem a maior parte de sua estrutura datada da década de 1960. “Nenhum aprendizado é mais importante do que o de lidar com uma clientela exigente”, contou Fraser. “O trabalho é prazeroso: várias vezes me flagro olhando pelas janelas, admirando paisagens de tirar o fôlego.”

(foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Minutos depois já atravessávamos a cozinha, a biblioteca e os cinco vagões-dormitório daquela centopeia mecânica de 200 metros e corredores estreitos. A compensação viria dentro dos vinte quartos, maiores do que se espera encontrar em um trem. Adriano, meu colega fotógrafo, ficou na cabine M. “M de majestade”, brincou, dando uma piscada de olhos. Eu fui levado ao próximo quarto disponível, o da letra P – “P de príncipe”, retruquei, rindo. “Precisando de algo do nosso serviço de concierge, basta tocar este botão”, disse o simpático francês que carregou nossas malas. Minutos depois eu faria o teste, pedindo que levassem uma camisa para tirar um leve amassado. Revestido de madeira decorada com marchetaria, meu quarto tinha duas camas de solteiro confortáveis diante de dois metros de janela, uma escrivaninha, guarda-roupa com roupões e, no banheiro privado, aquecedor para toalhas. Como se não fosse suficiente, o trem para durante a noite, garantindo melhor sono aos passageiros.

Os maquinistas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

A primeira parada aconteceria na destilaria da Dalwhinnie, a mais alta das 14 destilarias das montanhas de Speyside. As duas doses do final do tour davam continuidade às degustações que terminariam depois do jantar informal daquela primeira noite. No vagão Raven, cujas várias mesas acomodam 20 dos passageiros, nos sentamos à mesa com todos os talheres e taças a que tínhamos direito. À medida que montanhas com picos nevados, lagos e pastagens de ovelhas dançavam na paisagem, éramos apresentados ao menu: salada acompanhada de terrine de legumes com chutney de tomate e azeitonas pretas e filé de halibut com purê de batatas e aspargos – tudo sempre harmonizado com vinhos de primeira linha. A noite só caiu por volta das 23 horas, depois de assistirmos a uma apresentação de música típica escocesa no vagão panorâmico, já com o trem parado diante de um campo de golfe verdinho na estação Boat of Garten. E, claro, depois de mais algumas doses de puro malte.

Quando despertamos para o café da manhã, o trem já estava em movimento para mais um trecho da viagem de 870 quilômetros. Os maquinistas Daniel Forbes, 70 anos, e Jim Waddell, 53, tinham levantado cedo, às 6 horas, para ligar o grande propulsor que impulsiona a locomotiva na velocidade média de 100 quilômetros por hora em uma linha exclusiva, diferente da usada por outros trens. “Motores bons como este, feito em 1957 e ainda na ativa, são um verdadeiro patrimônio”, nos contaria Jim mais tarde. “É um privilégio encerrar nossa carreira neste trem”, emendou seu colega Daniel. “Eu me aposentei, mas continuo aqui por amor ao ofício, com a vantagem de comer boa comida e de conhecer gente amável do mundo todo.” É no fim do dia que essa dupla relaxa e pode também tomar sua dose de whisky. E qual é o melhor destilado escocês? – perguntei. “É aquele que um amigo paga para você”, respondeu gargalhando o velho Jim.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Naquela manhã, os passageiros trocaram o trem por uma van até o Rothiemurchus Estate, em meio a uma floresta de pinheiros do Parque Nacional Cairngorms, onde teriam de optar por qual passeio fazer: caminhar por 3 quilômetros e fazer observação de pássaros, uma paixão dos britânicos; passear por estradas mais distantes em veículos 4×4; praticar clay pigeon shooting, um jogo de tiro que tem como alvos discos de argila lançados ao alto; ou praticar fly-fishing, aquele tipo de pesca com uma vara de linha longa onde são colocadas iscas coloridas que se assemelham a mosquitos. À tarde, depois da volta ao trem em Aviemore (quando fomos recebidos com drinques) e do almoço (bouillabaisse de frutos do mar), a parada foi outra: o campo de batalhas de Culloden. “Aqui aconteceu o último grande conflito em terras britânicas, em 1746, quando morreram mais de 1.200 pessoas em apenas uma hora”, contou o guia e ator Ray Owens, vestido como um highlander.

 

O programa mais esperado da viagem, no entanto, aconteceria naquela segunda noite: o jantar formal. Dessa vez, fomos acomodados na única mesa coletiva do segundo vagão-refeitório, o Victory, construído em 1945. “Sempre usamos os mais frescos ingredientes escoceses, como estes salmões defumados”, contou o jovem chef Ian Steel, 33, escocês que já trabalhou em alguns dos melhores restaurantes de Glasgow e que foi chamado à mesa para ser aplaudido pelos comensais. Para nós, estrangeiros, mais marcante que a excelente comida era a pompa do evento. Como recomendado previamente, todos eram convidados a vestir black tie, tuxedo ou o traje típico escocês – que foi, claro, a nossa preferência.

(foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

Nos vestimos com gravata-borboleta, faca na canela, nada por baixo do kilt. O assunto das conversas na grande mesa variou de casamento real a filmes de Bollywood enquanto papeávamos com a família de Harsh Singhania, indiano de Nova Délhi, e com o casal Ian e Deborah Griffiths, britânicos de Londres em lua de mel. O trem parou para o segundo pernoite em Dundee, vizinha de outra destilaria da rota, a Chivas, e todos que terminavam o jantar iam ouvir música ao vivo no vagão panorâmico. Alguns foram dormir logo, já que o Orient-Express terminaria a viagem na estação de Edimburgo às 9h49. Adriano e eu, porém, preferimos curtir mais um pouco nosso dia de lordes. “Mais uma dose?”, perguntou o barman Fraser. O rapaz baixou sobre a mesa uma garrafa de single malt The MacAllan, que passa por processo triplo de destilação. Cheios de pompa, acrescentamos um pouco de água para sentir o aroma, molhamos os lábios, fizemos um brinde. Encerramos nossa noite ali, degustando com aparente maturidade um autêntico whisky 21 anos. E, evidentemente, orgulhosos de nossos saiotes.

INFO: The Royal Scotsman (royalscotsman.com); Kinloch Anderson – Commercial Street/Dock Street, Leith, EH6 6EY, kinlochanderson.com

(SPECIAL THANKS: Orient-Express (orient-express.com)

(Quadro)

Traje típico escocês

Conheça a roupa formal usada por Adriano Fagundes (à esq.) e Daniel Nunes

GRAVATA: Sempre preta, a modelo borboleta é exigida apenas em eventos solenes

COLETE: Com três botões, deve sempre cobrir a camisa branca

PALETÓ: O modelo pequeno, usado aberto, não é o único – existem jaquetas e paletós maiores

KILT: É grande, pesada e com estampas (tartans) que fazem menção a clãs tradicionais

POCHETE: O sporran levava a comida dos highlanders; hoje guarda carteira, celular e chaves

MEIAS: Compridas e pretas, recebem adereços com estampa xadrez que asseguram que estejam sempre altas

Caravana do tacacá

Eles observaram as bolinhas roxas do açaí, apertaram a carne grossa do pirarucu, tascaram as mãos nos variados potes de farinha de mandioca para comparar a textura. Cheiraram uma barra condensada de guaraná, morderam a pimenta murupi para sentir sua ardência e tiveram as línguas adormecidas com as folhas de jambu que boiavam na calda quente do tacacá. Durante os cinco dias em que passearam pela Amazônia, em março, Toni Massanés e Elena Roura experienciaram todos os sabores que seus sentidos lhe permitiram. É provável que você nunca tenha ouvido falar deles. Mas essa dupla de espanhóis — ou, como preferem, catalães — exibe uma patente invejada por gourmets do mundo todo. Eles representam a Alícia (ALImentácion e CiênCIA), respeitada fundação de pesquisa gastronômica criada pelo chef Ferran Adrià, responsável pela maior revolução culinária mundial dos últimos tempos.

Conhecer o Brasil, especialmente Manaus, era um sonho de Toni Massanés, de 42 anos, diretor da Alícia desde sua criação, em 2003, e diplomado professor, crítico e escritor de cultura e história da gastronomia (é dele a coluna semanal de restaurantes de Barcelona na prestigiada revista Time Out). A nutricionista e tecnóloga de alimentos Elena, de 31 anos, chefe do departamento de saúde e hábitos alimentares da Alícia, já viajara pelo Nordeste como turista e agora estreava na maior floresta do mundo. E foi comendo, naturalmente, que a dupla recebeu as boas-vindas na abafada capital do Amazonas. A primeira parada foi no restaurante Açaí e Companhia (R. Acre, 98, 92/ 3635-3637), despojado, mas com cardápio variado, onde deram suas primeiras beliscadas em alguns dos petiscos típicos: bolinho de pirarucu — o peixe conhecido como bacalhau da Amazônia —, tapioca de queijo coalho, patinha de caranguejo, casquinha de açaí. Entre “huuums…” e olhares surpresos, a dupla trocava impressões com a comitiva de 12 amantes da boa mesa que a acompanhava, entre gourmets, estudantes e documentaristas. E dava início a uma seqüência de visitas que tinha por objetivo perceber, afinal, por que a cozinha amazônica virou a bola da vez dos grandes chefs.

É o próprio Ferran Adrià quem aponta a Amazônia como berço das melhores novidades alimentares que o mundo presenciará no futuro próximo. Sua opinião é compartilhada por outros estrelados chefs estrangeiros trazidos pela anfitriã paulista Margot Botti, consultora de gastronomia. Ela já levou à Amazônia o francês Pascal Barbot, do restaurante parisiense L’Astrance, e o espanhol Andoni Luiz Aduriz, do Mugaritz, de San Sebastian, entre outros. O jovem chef brasileiro Felipe Ribenboim, de 25 anos, que estagiou por duas temporadas no elBulli — restaurante de Adrià — e desenvolve uma pesquisa sobre a gastronomia nos diferentes biomas brasileiros, também contribuiu para que os profissionais da Alícia aceitassem o convite. E isso apenas quatro meses depois da inauguração de sua sede, no complexo de um monastério do século 12, em Sant Benet de Bages, na Espanha.

Em meio a visitas a restaurantes e a passeios clássicos distantes das panelas, como a visita ao suntuoso Teatro Amazonas, de 1896, e ao encontro dos rios Negro e Solimões, a “expedição gastronômica” impressionou os estrangeiros com uma pequena casa de farinha à beira do rio Negro. “De uma simples raiz de mandioca brava tiramos três produtos: a farinha, o tucupi e a tapioca”, explica Francisco Neves Gomes, de 58 anos, um caboclo da terra. Com a ajuda da esposa Celina da Silva, de 51 anos, e de alguns dos 14 netos, seu Francisco apresenta a mandioca local, venenosa, diferente daquela a qual os moradores do sudeste do Brasil estão acostumados e do inhame que os europeus conhecem desde antes da chegada dos primeiros exploradores ao Brasil. E, na seqüência, mostra todas as etapas pelas quais passa a mandioca: a extração da raiz, a ralação, a secagem da farinha em um cilindro de fibras naturais para que o ácido cianídrico seja extraído, a fervura desse caldo amarelo por horas até chegar ao ponto do tucupi e a feitura do beiju e da tapioca. “É interessante como um alimento venenoso é reaproveitado”, observa Massanés.

Quando tiveram a chance, já no mercadão do centro de Manaus, de comparar os diferentes preços, texturas, cores da farinha de mandioca, Massanés e Elena vibraram. A Manaus Moderna, também chamada de “feira coberta”, alinha centenas de barracas de frutas e peixes frescos no coração do centro de alimentação popular da cidade. Na seção de farinhas, o farelo de algumas delas: a farinha d’água, hidratada nos rios; a surui, seca e fininha; a do uarini, uma sofisticada ovinha crocante amarela; a de tapioca, com pequenos grãos branquinhos torrados e leves. Na seção das frutas, mais fartura de variedades, nomes e peculiaridades: cupuaçu, graviola, bacuri… A espanhola Ana Tomé, diretora do Centro de Cultura Espanhola, um dos patrocinadores da vinda dos representantes da Alícia juntamente com o Senac, anota tudo no bloquinho: “O delicioso taperebá que provei em forma de suco no café-da-manhã e em forma de sorvete à tarde é o que se chama de cajá no sudeste do Brasil”.

Num galpão ali próximo, Elena se surpreende com um gigantesco espaço exclusivo para a venda de milhares de cachos de banana. “Não temos essa variedade na Europa e nem com preços tão baixos”, diz. E na ala dos lanches da Manaus Moderna testa o X-Caboclinho, nome popular do sanduíche de tucumã. Trata-se de uma deliciosa combinação de pão francês com queijo coalho derretido e lascas dessa fruta amazônica amarela. Popular nos fartos cafés-da-manhã servidos nas lanchonetes de Manaus, uma recente moda local, o X-Caboclinho é pouco difundido em Belém, capital do estado vizinho, Pará. “Belém e Manaus possuem cozinhas distintas, apesar de se abastecerem dos mesmos ingredientes da floresta”, explica Sofia Bendelak, chef do Bistrô Ananã (Trav. Pe. Ghisland, 132, 92/ 3234-0056), pioneiro em cozinha contemporânea amazônica em Manaus. Enquanto Belém se orgulha de combinações como o pato no tucupi e a maniçoba (espécie de feijoada local feita com folhas de mandioca), Manaus capricha no preparo dos grandes peixes de rio, como as caldeiradas de tucunaré.

Ao encontrar a chef Maria do Céu Athayde, de 56 anos, a excursão da Alícia pôde acompanhar melhor o preparo dos pratos tradicionais feitos à base dos alimentos conhecidos no mercado e no tour pela floresta. “Nós, caboclos da Amazônia, comemos tudo com pouco sal, mas com muita farinha e pimenta”, explica essa verdadeira embaixadora da culinária amazônica de raiz, que rege há seis anos os cursos do Centro de Gastronomia da Amazônia, da Fundação Rede Amazônica. Enquanto comanda seus 20 alunos no preparo de pratos, como a farinha d’água à moda indígena, a salada de feijão de praia (um parente do feijão-de-corda nordestino) e o risoto de tacacá, Maria do Céu discorre sobre a história e os efeitos dos ingredientes. “O cheiro-verde daqui é feito de cebolinha, alfavaca [espécie de manjericão], coentro e xicória silvestre, diferente da xicória, popular no sul do país”, conta. O prato principal, o peixe Aruanã à Solimões ganhou cor graças ao pimentão vermelho. “Não misturo com páprica por ela não ser da terra e nem com urucum, pois os índios só o usavam para pintar o corpo, não para cozinhar”, revela.

Outra paixão dos manauaras, o tacacá, foi apresentado num fim de tarde, no centro da cidade, quando as tacacazeiras montam suas barracas à espera dos clientes que
saem do trabalho. Foi no tradicional Tacacá da Gisela, no largo São Sebastião, que Toni Massanés experimentou a iguaria do jeito que todo mundo adora: bem quente, tascando pimenta. “O tucupi me faz lembrar uma sopa tailandesa, a tom yum, com um sabor um pouco doce, quase ácido”, afirma ele. Ao final das degustações, a caranava da Alícia deixou Manaus carregando muitas impressões, mas poucos produtos. Rapadura, guaraná em pó, jiló — Massanés quer explorar seu sabor amargo. Elena comprou ervas medicinais, como o cipó de miraruíra e a farinha de casca de maracujá, vendidos com alegadas propriedades de controle de diabetes. Ela pensa em estudá-los como alternativa às pessoas com distúrbios e restrições alimentares, como os enfermos com câncer. Afinal, é para isso que nasceu a Alícia: investigar patrimônios agroalimentar e gastronômico para permitir que as pessoas comam cada vez melhor. E a culinária amazônica, como mostra o interesse crescente dos grandes chefs, é um prato cheio para os amantes da boa mesa.

DESCOBERTAS DA EXPEDIÇÃO:

Pimentas da floresta

Dá para entender por que só os índios que freqüentam o restaurante de comida indígena Koonoly (R. Bernardo Ramos, 60, 92/ 8167-1972) conseguem comer pratos como a quinhapira, uma caldeirada superpicante. É que eles estão acostumados com a farta variedade de pimenta da terra. A forte muripi (no desenho), típica do estado do Amazonas, fica amarela quando madura. No dia-a-dia são usadas a pimenta cheirosa, que não arde, mas dá gosto e aroma, a famosa malagueta e a pimenta-de-cheiro, com ardência suave, mais comum no Pará.

 

Peixes amazônicos

O pirarucu (ao lado, no alto), que atinge mais de 2 metros e 80 quilos, é a estrela entre as 5 mil espécies de peixes dos rios da Amazônia, como o pacu e o filhote. Vendido em peças salgadas como o bacalhau, o pirarucu compartilha a preferência dos chefs com o Tucunaré, que chega a pesar 12 quilos e fica saboroso em caldeiradas, e o nobre Tambaqui (ao lado, no canto inferior), com carne branca e felpuda. Podem também ser cozidos, fritos, assados ou defumados, como fazem os índios.

 

Tacacá com tucupi

Feito à base de tucupi, caldo amarelo extraído da mandioca brava, o tacacá está para a Amazônia como o acarajé está para a Bahia. Espécie de sopa quente com goma de mandioca e folhas de jambu, que amortecem os lábios, nasceu com os índios e ganhou ingredientes como o camarão seco vindo do Maranhão (originalmente levava peixe piramutaba). É servido sempre em cuias, cascas do fruto da cabaceira secas ao sol

 

Castanha para exportação

Famosa no exterior, a castanha-do-pará (ou castanha-do-brasil) é uma amêndoa oleaginosa com alto valor alimentar. De um único fruto escuro de casca dura retirado de uma árvore de até 60 metros podem sair 24 castanhas. Rica em proteína, é consumida também em forma de farinha.

 

Açaí salgado

No sul do país o conhecem como uma pasta doce misturada ao xarope de guaraná e servida com banana e granola. Mas no Norte, o creme puro e original dessas frutinhas roxas tiradas das palmeiras dos açaizeiros é consumido como um prato salgado, com farinha, peixe frito, carne ou camarão secos.

 

Guaraná power

Nativa da remota região de Maoés, na Amazônia, a fruta vermelhinha, semelhante a um olho, tem sua massa moldada em forma de bastões que, lixados na língua seca do pirarucu, viram um pó energético caseiro. Mas, nas barracas do centro de Manaus, o guaraná não é apenas sinônimo de refrigerante ou de um pozinho amargo misturado em água. Potente para “levantar até defunto”, o guaraná servido nas ruas leva, além do pó, leite, abacate, aveia, amendoim, farinha de caju, catuaba, miratã (energético parente da catuaba) e granola.

 

Farinha de mandioca

Base da cozinha de raiz amazonense, a mandioca está presente em todas as refeições. Na tapioca e no beiju do café-da-manhã, na farinha de vários tipos que acompanham os peixes no almoço e no jantar, e no caldo de tucupi e na goma presentes do tacacá, iguaria preferida dos fins de tarde. Diferente da mandioca — ou macaxeira — do restante do Brasil, a da Amazônia é chamada de brava e precisa ter extraído o seu caldo venenoso.

Em Cuba, como os cubanos

Só parecia haver um inconveniente quando eu e um amigo decidimos viajar de férias para Cuba com a intenção de fugir do sistema pega-dinheiro-de-turista imposto pelo governo: eu. Sou loiro de olhos azuis, raridade na terra de Fidel Castro, o que dificultaria meu objetivo de passar por nativo. Boné e óculos escuros seriam então meu disfarce oficial, e meu comparsa Alexandre Costa Val, cabelos e olhos castanhos, faria a linha de frente. Estratégia traçada, desembarcamos em La Habana – Havana, para os turistas – a fim de viver 18 dias dormindo e comendo em casas de cubanos. É claro que não desprezaríamos a Cuba dos cartões-postais, e ela estava toda lá: carrões dos anos 50, prédios históricos caindo aos pedaços, belas mulatas dançando salsa, um mojito aqui, um charuto ali. Os cartazes com imagens de Fidel, Che Guevara e outros heróis nacionais lembravam que estávamos às vésperas da festa de 50 anos da revolução, em 1º de janeiro de 2009, principal motivo da nossa aventura. Sem pacotes turísticos, rodaríamos a ilha de oeste a leste, passando por Santiago de Cuba, Trinidad, Cienfuegos, Rancho Luna e Santa Clara.

Fotos SAMESAMEPHOTO

 

Dormindo com Che e Raul

A única alternativa econômica à hospedagem em hotéis é o pernoite nas chamadas “casas particulares” identificadas por uma plaquinha branca e azul, já que não existem albergues por aqui. Nessas residências autorizadas a abrigar estrangeiros, as diárias giram em torno de 25 dólares – o mesmo salário médio mensal de um médico. Nosso quarto com banheiro ficava na casa do engenheiro Humberto Scasso, no bairro universitário do Vedado. As paredes da sala exibiam fotos do anfitrião com ninguém menos que Che Guevara. “El Che foi visitar a gráfica onde eu trabalhava para acompanhar a produção dos jornais da revolução”, contou, cheio de orgulho.

Alguns dias e vários colchões vagabundos depois, vimos que a casa de Humberto era quase hotel de luxo. Na semana seguinte, em um casebre simples da praia da Rancho Luna, a cama era pobre, mas o papo enriquecedor. Nas cadeiras de balanço sobre o chão de cimento queimado da varanda, a professora Rosa e o pescador Valdemir Reproso nos falavam de tudo – embora nunca mal de Fidel (como praticamente todos que nos hospedaram). Por duas noites seguidas assistimos juntos, pela televisão, o mesmo discurso de mais de uma hora que o presidente Raul Castro proferiu a nação às vésperas do cinqüentenário. “Ele e seu irmão Fidel estão certos, temos que trabalhar mais para que o país sustente a revolução”, disse Valdemir. Na manhã seguinte, logo que o sol nasceu, ele pegou no batente para fazer pequenas reformas na casa. Como Castro pedira.

 

No ônibus barato ouvindo reggaeton

Para conjugar a miúda economia local com os altos gastos dos estrangeiros, o governo cubano trabalha com duas moedas: o peso cubano, usado no dia-a-dia da população para comprar, por exemplo, os produtos subsidiados da cesta básica, e o peso convertível, ou CUC, com valor semelhante ao euro e utilização voltada para o turismo. El peso convertible vale 24 vezes mais que a moeda local, o que a torna disputadíssima especialmente pelos “jineteros”, especialistas em ganhar comissões oferecendo hotéis, charutos, passeios e até corpos para turistas. É fácil adquirir a moeda local nas casas de câmbio espalhadas pelas esquinas. Complicado é botá-la em circulação. Só conseguimos gastar nuestros pesitos comprando comida de rua e tomando ônibus circulares lotados (lá também tem passageiro sem-noção ouvindo rádio no último volume, só que em vez de pagode eles escutam o contagiante reggaeton). Para curtir a boa música ao vivo a la Buena Vista Social Club de casas como o Jazz Club La Zorra y El Cuervo, não tinha jeito. Eles metiam a faca cobrando em moeda convertível, a 10 CUCs a entrada, 2 CUCs cada mojito. Detalhe: quem leva dólar, em vez de euro, perde 10% do valor de troca numa taxa que desestimula o uso das verdinhas do odiado “imperialismo americano”.

 

Arroz moro em casa, pizzeta na rua

Sem placas na porta e com cardápios informais, “paladares” são casas de cubanos que servem comida mais barata e simples que a dos restaurantes. Dizem que o nome foi inspirado no restaurante que a personagem Raquel, de Regina Duarte, administrava na novela Vale Tudo. Bastava alguém descobrir nossa verdadeira identidade de brasileiros, durante a refeição, para dar início às animadas conversas sobre novelas – mais especificamente Mujeres Apasionadas, em exibição. Com preços em torno de sete dólares, os paladares têm cardápios pouco criativos. O embargo financeiro sofrido por Cuba limita bastante a variedade da culinária, e o prato de todo dia acaba sendo o moros y cristianos (mistura de arroz com feijão-preto), carne de porco e salada de repolho. Nas ruas, porém, usávamos nossos pesos cubanos para enfrentar as mesmas filas dos habaneros e comer a street food deles: pizzetas, oleosíssimas pizzas brotinho vendidas a 5 pesos cubanos; perro caliente, o hot dog com apenas pão e salsicha; e os famosos sorvetes da Coppelia, a sorveteria do filme Morango e Chocolate. Neste caso, tivemos que ficar quietinhos por quase uma hora na longa fila de sábado à noite para tomar sorvete de abacaxi e pagar o preço para nativos, 32 vezes mais barato que o de estrangeiros. Investimos as últimas moedas no granizado, versão cubana de nossas raspadinhas de groselha.

Onde o Cadillac é lotação

Quando as carangas dos anos 50 são usadas como táxis para representantes do sistema capitalista estrangeiro – nós, no caso –, têm preços em CUC. Acontece o mesmo com os coco taxis, superturísticas motocas com carenagem em forma de coco. Mas quando os cubanos embarcam nesses pomposos Cadillacs e Mercedes, as barcaças se transformam em lotações, e são pagas com moeda local. Era assim que queríamos fazer. Esticamos o dedo para que um velho Ford parasse. Alexandre caprichou no sotaque e perguntou ao motorista: Centro Havana? Adelante, respondeu o bigodudo. Quietinho no banco de trás e com a cara mergulhada no jornal, me apertei entre outros dois passageiros. Realizamos nossa missão pagando míseras moedinhas locais para fazer um percurso que não sairia por menos de 5 CUCs num táxi turístico. Faríamos o mesmo em Cienfuegos, uma afrancesada cidadela à beira-mar, quando convencemos o dono de uma charrete a nos dar uma carona, algo proibido para não-cubanos. A rota, nesse caso, teve que ser feita por ruas escondidas, longe da fiscalização das grandes avenidas. Só não conseguimos repetir o feito na hora de viajar para outras cidades. Há rodoviárias e ônibus distintos para quem vem de fora, e fomos friamente ignorados quando tentamos comprar bilhetes no terminal para habaneros. Acabamos compartilhando o ônibus para Santiago com outros gringos que também não tinham reservado os disputados assentos nos aviões que cruzam a ilha. Ao preço de tabela.

 

Tambores, orixás e salsa no Malecón

Ok, para sermos cubanos de verdade riscamos a turística Varadero do roteiro. E cumprimos uma programação “de raiz”. Em La Habana, fizemos o tradicional footing no Malecón, o mítico calçadão à beira-mar, até na noite de réveillon, assistindo pipocarem ao longe meia dúzia de fogos de artifício e brindando nossa garrafa de rum com a da família sentada ao nosso lado na mureta. O Natal tinha sido um jantar qualquer, já que o capitalista Papai Noel é persona non grata nesses encontros familiares, e os cubanos se contentam em decorar casas com luzinhas e desejar felicitad pelas ruas. Em Santiago, fizemos uma oficina rápida sobre como enrolar charutos e embarcamos em duas aulas caseiras de percussão com o músico Manolito Semanat, onde aprendemos o be-a-bá da conga e do bongô. Nossas novas gingas de cubano seriam exibidas na volta a La Habana, quando embarcamos em uma roda musical do tradicional bar La Bodeguita del Medio, em Habana Vieja, que no passado era freqüentado por outro estrangeiro metido a nativo, o escritor norte-americano Ernest Hemingway. Não faltou nem a consulta a um babalao, líder espiritual do culto aos orixás, versão cubana do nosso candomblé, para ganhar um axé para o ano novo. Nossa missão seria encerrada com a festa de 50 anos da revolução, no primeiro dia do ano, fazendo igualzinho aos milhares de nativos que tomaram o trecho do Malecón diante de um monumento chamado de Tribuna Antiimperialista: arriscando uns passos de salsa, tomando rum e bradando, como autênticos cubanos, “Viva Fidel! Vila La Revolución!”

Encantadora para todo el siempre

Cinquenta e três anos, sete meses e onze dias. Foi esse o tempo que o apaixonado Florentino Ariza esperou, suspirando pelas ruelas estreitas de Cartagena, para conquistar o coração de sua amada Fermina Daza. Não havia cenário mais apropriado que esta cidadela cercada por muralhas de 400 anos para o romance O Amor nos Tempos do Cólera, clássico da literatura escrito pelo colombiano Gabriel García Márquez. Com sobrados e chão de pedra, varandas forradas por primaveras e praças arborizadas onde casais namoram diante das igrejas, Cartagena seduz por essa sensação de que o tempo não precisa passar. É como se tudo ali, das muralhas aos amores, fosse feito para durar.

 

Quem desembarca no aeroporto local, depois de 1 hora de voo desde Bogotá, costuma ter uma impressão menos floreada. O que se vê é uma metrópole portuária de 1,1 milhão de habitantes, com arranha-céus de até 48 andares à beira-mar, obras por todo lado e contêineres sobrepostos entre os navios do porto mais importante do país. A cor do Mar do Caribe, que se choca com o calçadão da Avenida Santander (que faz lembrar o Malecón da Havana de Cuba), também não é aquele azul-turquesa dos nossos sonhos. Mas basta se acercar dos seus 13 quilômetros de muros para sentir o encantamento e começar a acreditar que aquele universo foi acondicionado em uma redoma invisível. Parece até mais um capítulo de realismo mágico dos livros do velho Gabo, ele próprio dono de uma mansão diante da parte interna dos paredões. O táxi amarelo cruza um dos portões e… pirlimpimpim! Entramos em um conto de fadas. Ou de marujos, piratas e amantes.

 

Segunda cidade colombiana fundada pelos colonizadores espanhóis, Cartagena das Índias surgiu em 1533. A geografia privilegiada e a temperatura média de 30 graus, regada à buena brisa caribenha, logo a transformaram em uma das principais bases do império espanhol na América. Por seu porto entraria a mão-de-obra escrava vinda da África (até hoje, 70% da população é de origem negra) e sairia muito ouro e prata. Tanta fartura levou a cidade a ser duramente saqueada por piratas ingleses e franceses até que a muralha começasse a ser erguida, no século 16 – e concluída dois séculos depois, pouco antes da expulsão dos espanhóis.

 

Alma amuralhada

Após mais 200 anos, outra riqueza é ostentada pelas 103 ruas estreitas da encantadora Cartagena amuralhada: sua alma. Não por acaso, o lugar foi declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco. O progresso e o turismo têm sido recebidos com o cuidado que se deve dar a uma peça de antiquário, a um amor duradouro ou a uma joia feita com as esmeraldas encontradas na região. Senhores de boina jogam xadrez sob as árvores, atores divertem as crianças posando como estátuas vivas em praças repletas de pombinhas e senhoras de saias coloridas e cestos de frutas na cabeça ganham trocados posando para as fotos dos visitantes. Há sempre tocadores de ritmos como o vallenato e a cumbia se apresentando entre mesinhas ao ar livre na Plaza Santo Domingo. É onde está a igreja homônima, de 1552, considerada a mais antiga da cidade, além de La Gorda, escultura rechonchuda de Fernando Botero.

 

Restaurar e adaptar casarões coloniais de forma harmônica virou uma bem-vinda obsessão dos empresários locais, como se percebe na série de hotéis-butique e restaurantes inaugurados nos últimos anos. Bons exemplos são o Hard Rock Café e o renomado restaurante La Vitrola, que funcionam em belos casarões do século 16. A prática se difundiu também graças ao reconhecido curso sobre o tema ministrado a arquitetos do mundo todo nas instalações do Museu Naval Del Caribe. A construção do século 17 é frequentada por uma juventude de cabelos e roupas moderninhas que conhece de cor as melhores casas de rumba da cidade amuralhada e da vizinhança boêmia de Getsemani. Em fevereiro, a frente do museu marinho tem outro motivo para reunir gente interessante: o lugar fica diante da sede do badalado Festival de Cinema de Cartagena, que movimenta a cidade há cinquenta anos.

 

Delicada restauração

O que a estilista colombiana Silvia Tcherassi fez ao criar, no ano passado, o Tcherassi Hotel + Spa em uma construção de 250 anos, foi um primor típico da renovação cuidadosa a que tem se submetido Cartagena. Os sete quartos dão para um pátio interno com uma piscina ladeada por um jardim vertical com 3 mil plantas. O toque fashion é dado pelas funcionárias, que desfilam peças da grife que mantém uma loja de moda feminina a poucas quadras.

 

Já o cinco-estrelas Sofitel Santa Clara, apesar de ostentar 162 quartos, impressiona por manter o clima intimista neste bem restaurado convento de monjas clarissas de 1617. Suas instalações sediam eventos portentosos – como a festa do casamento do ex-piloto de F1 colombiano Juan Pablo Montoya, em 2002 –, e serviram como pano de fundo para outra obra de Garcia Márquez, Do Amor e Outros Demônios. Foi aí que o sacerdote Cayetano Delaura se apaixonou pela jovem que iria exorcizar, Sierva María de Todos los Ángeles.

 

Bem que poderiam ser extraídas de um livro de realismo fantástico as memórias verídicas do Palácio da Inquisição de Cartagena. Por trás de sua impressionante entrada barroca de pedra do século 16 funciona um museu que narra, a partir de uma dúzia de instrumentos de tortura horripilantes, como foram punidos cerca de 800 hereges que não seguiam a linha dura do tribunal do Santo Ofício católico. Já a Puerta del Reloj, entrada que dá acesso à praça onde esses escravos eram vendidos, trocou suas lembranças duras por uma realidade bem mais doce: os arcos do Portal De Los Dulces, onde caramelos típicos são vendidos em uma fileira de banquinhas de rua. Ali foram gravadas boa parte das cenas da versão cinematográfica de O Amor nos Tempos do Cólera, com os atores Javier Bardem e Giovanna Mezzogiorno interpretando os protagonistas.

 

Embora o território encantado de Cartagena se concentre entre seus muros de até 15 metros de espessura, há outros bons registros de sua história heroica do lado de fora. O Castillo de San Felipe de Barajas, que começou a ser erguido no século 17 no alto da colina vizinha de San Lázaro, organiza tours curiosos por seu complexo sistema de túneis. Em um morro ao lado, o Convento de La Popa oferece as melhores vistas para observar Cartagena de cima a partir do Convento de Nuestra Señora de La Candelária, de 1607.

 

Nenhum deles, porém, substitui o prazer de se caminhar ao lado – e até sobre – as míticas muralhas cartageneras. O ponto alto de quem flana por suas rochas seculares é o entardecer na ponta diante do oceano onde fica a filial colombiana do Café Del Mar, famoso lounge-bar da Ibiza espanhola. Mesas, balcões e tatames almofadados convidam a se largar, tomar um drinque e esperar o pôr-do-sol ao som de música eletrônica de primeira linha. Casais apaixonados estão sempre presentes – e, claro, solteiros também. Afinal, não há lugar melhor para arriscar um romance, talvez inspirado no de Florentino Ariza e Fermina Daza, do que sobre as muralhas românticas de Cartagena.

 

(BOX)

 

O melhor das ilhas do Rosário

Embora o charme de Cartagena esteja dentro de seus muros históricos, que ficam diante de praias que perdem feio para as brasileiras, a cidade acaba de ganhar, enfim, um hotel luxuoso para quem faz questão de se hospedar bem e à beira-mar. O Royal Decameron Baru (tel. 318/415 2063, www.decameron.com) foi recém-inaugurado em Baru, uma das ilhas do Rosário, normalmente conhecidas em passeios de barco por meio período. A última novidade entre os 36 hotéis da rede é acessada depois de 1 hora e meia de carro desde o aeroporto. Além das três piscinas, o resort tem spa, quatro restaurantes, uma praia particular, centro de convenções para 700 pessoas e serviço all inclusive. Até o início de 2011, estarão funcionando todos os 330 quartos com vista para o Caribe.

 

(SERVIÇO)

 

PARA FICAR

SOFITEL SANTA CLARA

(Calle Del Torno, 39-29, tel. 575/650 4700, www.hotelsantaclara.com) O mais badalado hotel da cidade antiga levou cinco anos para restaurar o convento onde funciona. Tem 162 quartos, restaurante, lounge-bar, auditório para 300 pessoas e seis salões de eventos.

 

HOTEL BOUTIQUE LA MERCED

(Centro Calle Don Sancho, 36-165, tel. 575/664 7727, www.lamercedcartagena.com) Estiloso e repleto de móveis de design, fica em um predinho do século 18. Tem até suíte avarandada com banheira de hidromassagem de frente para o mar, na mais chique das oito suítes.

 

TCHERASSI HOTEL + SPA

(Calle Del Sargento Mayor, 6-21, tel. 575/664 4445, www.tcherassihotels.com) Além dos sete quartos exclusivos, conta com o refinado restaurante Vera, de cozinha italiana, um deque com piscina na cobertura e o pequeno spa da rede espanhola Germaine de Capuccini.

 

PARA COMER

LA VITROLA

(Calle 33, 2-01, tel. 575/664 8243) Funciona em uma casa de 400 anos e leva o nome de uma relíquia musical de 1904, que fica na entrada. O chef Steven Acevedo é especialista em frutos do mar e o jantar costuma acompanhar música cubana ao vivo.

 

LA CASA DE SOCORRO

(Calle Larga, 8B-12, tel. 575/664 4658) Fica fora das muralhas e não tem luxo algum. Os salões com ornamentos de gosto duvidoso vivem lotados de locais, que buscam a verdadeira comida típica. Capricha nos frutos do mar.

 

PARA AGITAR

CAFÉ DEL MAR

(Baluarte de Santo Domingo, tel. 575/664 0506) Este é “o” lugar para se estar sobre as muralhas, especialmente no início da noite, apesar dos drinques caros. Tem bons DJs, brisa do mar, tatames com almofadas e gente bonita de todas as idades.

 

MISTER BABILLA

(Avenida Arsenal, 8B-137, tel. 575/664 7005, www.misterbabilla.com) Uma das melhores baladas desta agitada avenida no bairro de Getsemani recebe mais de mil bailadores nas rumbas animadas de sexta e sábado, e chama a atenção pelos salões exageradamente decorados.

Universo Paralelo

“Aceita o sacramento?” Quando o rapaz me faz a pergunta, logo no dia em que chego ao Céu do Mapiá, agradeço, mas não aceito. A oferta era tentadora, mas preferi entender antes o território onde estava pisando. Eu havia desembarcado a tempo de acompanhar o único ritual do ano em que os fiéis do Santo Daime, uma religião criada no Brasil, consomem sua bebida sagrada, um chá de plantas nativas, na própria floresta – e não dentro da igreja –, caminhando na companhia do maior guru daquele grupo, o “Padrinho” Alfredo Gregório de Melo. Havia um arco-íris sobre nossa cabeça e o Sol dançava na forma de feixes de luz entre a copa de árvores de 30 metros de altura.Numa clareira, uma centena de pessoas entoava canções repetitivas, mantras ao som de uma orquestra rústica com violas caipiras, flautas e tambores.

Fieis do Santo Daime voltam para casa pela manhã depois de passarem a noite no ritual do Festival de Reis, em janeiro (foto de Andréa D’Amato)

Distrito do município de Pauini, a terra prometida dos daimistas é um refúgio natural escondido e distante, nos confins do sudoeste do Amazonas. Nasceu como uma pequena sociedade alternativa, em 1983, e ainda mantém sua aura de ashram amazônico, aberto para receber buscadores espirituais de todo o mundo. Para os daimistas, estar no “céu”, na mata onde brota seu sacramento vegetal, é uma oportunidade única. “Essa é a nossa meca, um lugar em que sonhamos pisar ao menos uma vez na vida”, definiu Sally Gliddon, 25 anos, uma inglesa com quem conversei logo depois da cerimônia.

Mapienses e visitantes compartilham da mesma rotina em torno do plantio, da colheita, do preparo e do consumo da ayahuasca (“vinho das almas”, em quíchua, a língua dos incas peruanos). O chá que eu recusara é feito da mistura de duas plantas, as folhas de chacrona (Psychotria viridis) e o cipó jagube (Banisteriopsis caapi), integrantes de um restrito grupo de vegetais descritos como alucinógenos ou enteógenos (que proporcionam a sensação de contato com o divino). Quando misturadas e ingeridas, as plantas atuam no sistema nervoso central, provocando efeitos comparáveis aos do cogumelo e do cacto peiote (Lophophora williamsiii, popularizado pelo escritor Carlos Castañeda em obras como A Erva do Diabo). O alcalóide dimetiltriptamina (DMT) presente nas folhas da chacrona aumenta os níveis de serotonina do cérebro, proporcionando o êxtase – e, segundo os usuários, a cura, o autoconhecimento, o encontro com Deus.

(foto de Andréa D’Amato, www.andreadamato.com.br)

Daime, o santo, nunca existiu.O nome da doutrina foi criado com base nas repetidas invocações de “dai-me luz, dai-me força e dai-me amor!” feitas pelo seu criador, Raimundo Irineu Serra. Esse negro maranhense migrou, na década de 1930, para trabalhar nos férteis seringais do Acre e ali conheceu a ayahuasca com um xamã peruano – os pajés indígenas e seus pacientes consomem ayahuasca há séculos em seus rituais. Em suas experiências com o chá,“Mestre” Irineu recebeu inspiração para fundar essa corrente espiritual que mistura influências do cristianismo popular, do espiritualismo kardecista, das religiões afro-brasileiras e do xamanismo indígena. Sua igreja prosperou e originou várias correntes: a que mais se expandiu foi a comandada pelo amazonense Sebastião Mota de Melo, discípulo de Irineu, idealizador do Céu do Mapiá. Oficialmente chamado de Centro Eclético da Fluente Luz Universal (Cefluris), o segmento sebastiano tem Mapiá como uma espécie de capital dos 80 núcleos espalhados pelo Brasil e em outros 20 países, totalizando mais de 4 mil filiados.

A cidadela à beira-rio abriga por volta de 600 moradores, entre caboclos amazônicos e forasteiros convertidos.No Céu do Mapiá, o tempo é outro. Literalmente. A primeira atitude de todos os visitantes – que precisam ter sua viagem aprovada pelos líderes da comunidade – é acertar os relógios conforme a hora local: uma hora e meia a menos que o horário nacional. Quando, por exemplo, são 20 horas em Brasília,Mapiá ainda vive às 18h30. Por inspiração do Padrinho Sebastião Mota – falecido em 1990 e pai do atual líder, o Padrinho Alfredo –, a diferença não é nem de uma hora, como em Manaus, capital do Amazonas, e tampouco de duas horas, como no vizinho estado do Acre. Os “trabalhos” espirituais são bem mais extensos que as missas cristãs. As cerimônias, que ocorrem em média quatro vezes ao mês, duram cerca de seis horas, mas podem demorar 12, atravessando dias ou noites inteiras, enquanto são provadas várias doses da bebida marrom, espessa e amarga.

Na Festa de Reis, em janeiro, dias depois da minha chegada, bastou o Sol se pôr para que a maior parte da população se dirigisse à catedral, uma construção de madeira em formato de estrela erguida no alto de um pequeno morro, diante do centrinho de casebres e jardins bem cuidados. Debaixo dos braços, levavam os hinários, livros que contêm os ensinamentos da religião em forma de cânticos, que seriam entoados, madrugada adentro, no ritmo de um bailado circular.Os homens ocupavam metade da igreja, vestindo o uniforme apropriado àquela cerimônia: terno e sapato brancos com gravata azul. Já as mulheres usavam vestido branco e verde, além de coroa prateada sobre o cabelo longo. Lembravam fadinhas de uma floresta encantada.

Quando o trabalho acabou, pela manhã, a comunidade foi retomando sua rotina. Os lugares onde o dinheiro circula abriram suas portas: a padaria O Pão Nosso de Cada Dia, a única pousada, os três armazéns, a loja de artigos religiosos. As crianças, acostumadas a tomar o chá desde a barriga de suas mães, só não foram para a escola Cruzeiro do Céu, única da vila e com classes até a 7a série, por ser período de férias. Algumas mulheres rumaram para as plantações de chacrona para colher, e depois limpar, folha por folha, sua planta sagrada. Os homens, quando não seguiram para seus roçados caseiros, foram cortar o jagube na mata. No dia seguinte, o material colhido por eles seria processado em uma cerimônia impressionante, chamada de “feitio”. As vozes graves de um coro masculino embalam, entre uma dose e outra do chá, a dura missão de macetar os pedaços do cipó a marteladas. Cipó e folha são então misturados em panelas imensas e fervidos em fornalhas, ao longo de horas, pelos “homens do fogo”.

(foto de Andréa D’Amato, www.andreadamato.com.br)

A rotina religiosa faz do Mapiá um refúgio de paz. A proibição da venda de álcool é respeitada. Segunda-feira é dia de mutirão. Não há posto de polícia, oficial de justiça nem mesmo hospital (embora a malária seja um fantasma freqüente para os moradores). A maior parte das doenças é tratada com homeopatia e terapias holísticas num espaço chamado de “Santa Casa”, com medicamentos naturais retirados do Centro Medicina da Floresta, referência nacional em pesquisas da botânica amazônica. Sob o comando informal da família Melo e da Associação de Moradores, a administração funciona bem e de forma peculiar.A área de extração das plantas sagradas acontece dentro da Floresta Nacional do Purus, com 250 mil hectares, que abriga a comunidade e seu entorno desde 1988. Isso torna o Céu do Mapiá uma experiência socioambiental única, gerida por um plano de manejo que, feito com apoio da ONG WWF – Fundo Mundial para a Natureza, reconhece que naquela área protegida acontece a exploração de um patrimônio etnobotânico ancestral que atrai adeptos à floresta. Por isso, a presença humana ali não é exortada. “O Céu do Mapiá é um oásis de saúde e educação em meio às comunidades carentes da Amazônia”, diz a antropóloga Beatriz Labate, que já esteve três vezes no lugar e listou, recentemente, nada menos que 426 estudos acadêmicos, em dez línguas, já feitos sobre o universo do chá.

O progresso, no entanto, ameaça transformar o shangrilá daimista em um centro urbano comum. A recente construção de uma estrada de terra que liga Boca do Acre a um sítio próximo à comunidade minimizou o martírio do transporte fluvial durante o período da seca – em contrapartida, levou os primeiros carros à vila. Algo inimaginável há dez anos, quando por ali não havia tampouco televisão, telefone e internet sem fio. “No tempo do papai, aqui não circulava nem dinheiro”, lembra, com algum saudosismo, o carismático Padrinho Alfredo, 57 anos.“No início eu era até contra a televisão, mas os jovens queriam tanto assistir à Copa do Mundo de Futebol que acabei me rendendo”, conta ele, depois de passarmos pela sala principal de sua casa, a maior da vila, onde umas 15 pessoas se aglomeravam para assistir à novela das 8.

(foto de Andréa D’Amato, www.andreadamato.com.br)

A vocação espiritual do lugarejo, no entanto, se mantém. “Busquei a religião para cuidar de uma doença física, uma hérnia, e descobri que o Santo Daime serve para curar o espírito”, define Ilma Gadelha de Oliveira, 64 anos, que se mudou de Xapuri, no Acre, para o Mapiá no grupo dos pioneiros, há 24 anos. Sobrinha de Ilzamara, a viúva de Chico Mendes, o mártir dos defensores da Amazônia, dona Ilma é uma nativa da floresta que compõe um variadíssimo painel de seguidores da doutrina. Entre os que conheci, havia um austríaco que descobriu ali sua mediunidade para incorporar o espírito de um caboclo, um nativo que encheu quatro passaportes com vistos de suas viagens como músico para difundir a doutrina, e vários fiéis que tinham encontrado no chá a salvação contra a depressão e a dependência química.“Mal posso acreditar que, há apenas um ano e meio, eu estava fervendo nas discotecas de Ibiza”, conta a colombiana Tania Ramirez, 34 anos, piercing na língua e rosto pintado de urucum, que diariamente atualiza um blog direto do seu casebre na floresta.

Apesar da freqüência de gente com o perfil de Tania, o Mapiá está longe de ser um esconderijo de neo-hippies que passaram a substituir as drogas por um chá que dá barato. Traduzir a experiência em poucas palavras, e com a prova de um só indivíduo, seria reducionismo.Mas posso dizer que houve algum sofrimento nos três “trabalhos” de que participei. Tive de correr ao banheiro e vomitar em vários momentos – a rejeição à intoxicação provocada pelo chá é corriqueira. Só à medida que diminuíram o mal-estar físico, a minha resistência ao ritual cansativo do Santo Daime e o medo do invisível, pude finalmente experimentar sentimentos comuns aos de outros fiéis, como o êxtase de se perceber conectado ao “espírito” da ayahuasca. Quando fechava os olhos, vinham em minha mente insights sobre minha existência e as mirações, visões semelhantes a sonhos – e que pareciam misteriosamente verdadeiras. Eu enxergava a natureza como a prova mais bela e misteriosa da existência de um deus e respeitava aquele momento, aquele lugar e aquele grupo como algo sagrado. Não me converti. Mas o saldo de todos aqueles pensamentos desencontrados foi a sensação, percebida durante a viagem de volta, de que algo havia mudado no meu jeito de ver a vida.

 

(foto de Andréa D’Amato, www.andreadamato.com.br)

Publicado na Revista National Geographic, edição 87, junho/2007

Seção Código Postal: AM 69850-000. CÉU DO MAPIÁ, Amazonas

Islândia em ebulição

Eu só sabia três coisas sobre a Islândia quando desembarquei na capital Reykjavík: que aquela era a terra da cantora Björk (de quem sou fã confesso), que a economia do país estava quebrada e que sua natureza selvagem tinha sido inspiração para Viagem ao Centro da Terra, o clássico livro de Julio Verne. Tanto que as cinzas provocadas pela erupção de um vulcão de nome quase impronunciável ali, no meio do nada do Atlântico Norte, em abril, havia paralisado o tráfego aéreo mundial. A fumaceira já tinha desaparecido quando cheguei, em um entardecer de junho, primeiro dos únicos três meses de verão. Havia, nessa época, outro espetáculo no céu: o sol da meia-noite. Por estar tão perto do Polo Norte – a 66 graus de latitude, na linha do círculo polar ártico –, a Islândia se destaca como um raro ponto do planeta onde o sol desce até a linha do horizonte mas não desaparece completamente. Sem a escuridão para limitar o dia, nós – e as centenas de turistas que lotavam o aeroporto – podíamos aproveitar bem a temperatura mais quente do ano: média de 10 °C, contra 0 °C do inverno, quando os dias chegam a ter só duas horas de luz e o céu negro ganha as cores alucinantes da aurora boreal.

Casas seculares feitas de pedra e cobertas por telhados verdes em Skógar (SameSame Photo)

Ladeada por lava vulcânica petrificada, a única grande estrada do país, a Rodovia Nacional 1, faz um círculo beirando o litoral dessa ilha do tamanho do estado de Pernambuco. Intransitável para quem não tem um jipão superequipado, seu interior se traduz como uma imensidão de montanhas, cerca de 25 grandes vulcões e glaciares que cobrem 15% do território. Frustrando nossas expectativas, soubemos que o vulcão Eyjafjallajökull, agora famoso e calminho, não tinha como ser avistado por terra. “Seria necessário fazer uma escalada íngreme no glaciar, ainda assim dependendo das condições da neve e do gelo”, alertou o geólogo Ari Guðmundsson. Seu típico sobrenome chama a atenção para uma peculiaridade: os sobrenomes islandeses repetem a alcunha do pai acrescida de um sufixo: son, para filhos, e dóttir, para filhas.

Felizmente, não é preciso subir vulcões para perceber o bafo quente e o cheiro de enxofre do subsolo fervente: há piscinas de água quente por todo canto. Basta dirigir 14 quilômetros desde o aeroporto para se surpreender com a mais cênica delas, a Lagoa Azul. Transformada em spa, vive cheia de banhistas lambuzados com a lama branca extraída de seu fundo. Compondo a paisagem fumegante, focos de fumaça são expelidos do solo, de onde brota água a 240 °C para que a usina geotérmica vizinha produza eletricidade para a região. Ali perto fica o Strokkur, jato que jorra a 35 metros de altura a cada oito minutos e melhor exemplo atual de gêiser – palavra que a esquisita língua islandesa cedeu ao vocabulário internacional. O tour pelo chamado “círculo dourado” turístico inclui ainda a visita à Gullfoss, uma espécie de pequena Foz do Iguaçu com cataratas de mais de 30 metros, e ao Parque Nacional de Þingvellir, onde se vê a gigantesca falha tectônica que divide a ilha. Na fenda entre os paredões rochosos funcionou, em 930, o primeiro parlamento do mundo.

O lago glacial de Jökulsárlon solta blocos de gelo como este, que parece um urso dando um abraço (SameSame Photo)

Foi em 874 que chegaram à ilha os primeiros vikings noruegueses. Depois deles, a maior influência genética do povo islandês vem da Dinamarca, que dominou o país entre 1380 e 1944. Mesmo após conquistar a independência tardia, a Islândia continuou isolada geograficamente e culturalmente, vivendo da pesca e da agricultura. A cerveja, por exemplo, era proibida até 1989, para que não abalasse o consumo tradicional do destilado brennivin. A partir dos anos 1990, o pequeno país nórdico abriu sua economia e meteoricamente se tornou um dos mais ricos do mundo. Com a mesma velocidade, o castelo ruiu. A crise econômica de 2008 evidenciou os erros da política financeira, quebrou bancos e desvalorizou abruptamente a moeda, a coroa islandesa. Até as lojas do McDonald’s e Pizza Hut fecharam. Com os preços descendo das alturas escandinavas, viajar para lá voltou a ser viável. Mas aí veio o vulcão com nome de palavrão, cancelando voos e afugentando turistas. Endividado mas disposto a recuperar a lotação das aeronaves, o governo reagiu investindo 5,5 milhões de dólares no setor, e os visitantes voltaram.

Tanto a história quanto a realidade islandesas podem ser conhecidas ao viajar de carro pelo sul da ilha. Foi o que fizemos, usando como base o aconchegante Hotel Rangá, em Hella, único quatro estrelas da ilha. Em junho, a cidadezinha de Hafnarfjörður se agitava com um festival viking que simulava batalhas e danças. Adiante, o Museu de Skógar, localizado na vila de mesmo nome e vizinho de uma das muitas cachoeiras que despencam de paredões, preserva casas seculares. Feitas de pedra, são cobertas por plantas que formam “telhados verdes”, ideais para manter aquecida a temperatura interna. A ausência de árvores assusta. A colonização predatória e as erupções de vulcões mais ameaçadores que o Eyjafjallajökull fizeram com que o verde da ilha se restringisse, hoje, aos arbustos, pastos para ovelhas e flores que só no veranico colorem vilarejos charmosos como Vík. O lugar é ideal para observar o mar e o voo das aves do alto dos abismos de 120 metros de Dyrhólaey.

Iceland, a terra do gelo, faz jus ao nome quando exibe, no extremo sudeste da ilha, o glaciar de Vatnajökull, massa de gelo que ocupa 8% do país e cuja espessura ultrapassa 1 quilômetro. O braço que beira a estrada em Skaftafell fica dentro do maior parque nacional, onde um camping serve como ponto de partida para trekkings sobre o gelo, exigindo grampos nas botas. Formado pelo degelo de outro braço do glaciar, o lago de Jökulsárlon parece mais surreal. Icebergs de formas curiosas descem por um riacho até desaguar na praia, a apenas 100 metros dali. Blocos de gelo boiam entre as ondas e vários fragmentos descansam, como conchas feitas de cristal, sobre a areia preta vulcânica.

O tour pelo chamado “círculo dourado” turístico inclui a visita à Gullfoss, uma espécie de pequena Foz do Iguaçu com cataratas de mais de 30 metros: do ladinho de Reykjavík (SameSame Photo)

O que eu não sabia era que Reykjavík, a capital onde vivem 120 dos 300 mil habitantes da ilha, era tão pulsante nos fins de semana. Na avenida principal, a Laugavegur – onde fica o bem localizado hotel Room With a View –, assim como nos arredores, tudo estava movimentado: os cafés, as livrarias, os museus, as galerias de arte, o mercado de pulgas, as praças, as ruas com sobradinhos de telhados coloridos. As vitrines das lojas de roupa vintage, como a Rokk Og Rósir, refletem o ambiente fashionista, evidente nos trajes dos jovens quando a noite chega – no relógio, não no céu. Babados e roupas de camponesas fazem o estilo das meninas. “A última moda entre os rapazes é vestir todo tipo de gravata”, explicou o vendedor Sigurður Birgisson, 23 anos, usando um bigodinho das antigas. Como os mais de cinquenta bares e casas noturnas não cobram entrada e permitem que se saia com o copo na mão, a temperatura sobe à medida que as pessoas bebem, fazem amizade e tropeçam de bar em bar – muitos deles com boa música ao vivo. A luz do dia brilhava pelas janelas do bar Boston quando a DJ Rósa Sigríðardóttir subia nas picapes e praticamente se jogava em cima de uma amiga, a artista plástica Berglind Hlynsdóttir, na minúscula pista de dança. “Estávamos hibernando em casa há meses, não víamos a hora de chegar o verão”, comemora Berglind. Sem hora para acabar às sextas e aos sábados, a noitada de Reykjavík só sossega depois das 7 da manhã – mesmo durante o inverno.

Com tanta gente trocando o dia pela noite, os hotéis investem em cortinas negras que permitam blecaute nos quartos – é o caso do Loftleidir, com vários quartos decorados por artistas locais. O antídoto para a ressaca do dia seguinte é um só: as sete piscinas públicas, que aproveitam a água quente farta em banheironas coletivas com temperaturas de 36 a 44 °C. Antes ou depois do banho, o entretenimento urbano é garantido. Do cais do porto partem tours para observar baleias e pássaros típicos, como os simpáticos puffins. É ali, no despojado restaurante Sægreifinn, que o cozinheiro Kjartan Halldórsson serve espetinhos de baleias. Os gigantes do mar também podem ser degustados em forma de sushi, assim como os cavalos locais, ou em pratos elaborados, como também acontece com os puffins. Para se deleitar com a mais premiada cozinha islandesa, o destino é o Vox, restaurante que defende o manifesto da Nova Cozinha Nórdica e só utiliza ingredientes da região. Depois da comilança e dos passeios, moradores e visitantes de Reykjavík voltam aos bares. A vida noturna do ambiente urbano se mostra tão selvagem quanto as paisagens de seus gêiseres, glaciares e vulcões. Deixei a Islândia sem ver o vulcão e percebendo que a crise é uma boa oportunidade para os viajantes. E tive a melhor surpresa ao encostar no balcão para tomar uma saideira no bar Boston, a 1 hora da madrugada de uma segunda-feira. Quem estava ao meu lado, se jogando na balada? Acredite se quiser: era a Björk.

 

INFO:

REYKJAVÍK, Room With a View – Laugavegur 18, tel. (354) 896-2559, www.roomwithaview.is; Hotel Loftleidir – Við Hlíðarfót, tel. (354) 444-4000, www.icelandairhotels.com; Vox Restaurant & Bistro – Hilton Reykjavík Nordica, tel. (354) 444-5050, www.vox.is; Sægreifinn, Geirsgata 8, tel. (354) 553-1500; Boston Bar, Laugavegur 28b, tel. (354) 517-7816; Rokk Og Rósir – Laugavegur 17; Blue Lagoon – 240 Grindavík, tel (354) 420-8800, www.bluelagoon.com; ÞingvellirNational Park – 801 Selffoss, tel. (354) 482-2660, www.thingvellir.is; HELLA, Hotel Rangá – Suðurlandsvegur 851, tel. (354) 487-5700, www.hotelranga.is; www.visiticeland.com

Em busca da vera Pizza

Ela tinha o tamanho de um prato, e sua massa com altura de 1 centímetro era coberta apenas por molho de tomate e um tiquinho de alho e orégano. Não havia uma mísera fatia de queijo, pepperoni, nada que colorisse ou enchesse os olhos. “É só isso?”, perguntei a Eugenio Lorenzano, o Gegê, simpático guia que apresentava Nápoles ao grupo. Éramos seis comilões na mesa da Trianon, uma pizzaria do bairro de Forcella fundada em 1923 e lotada em plena hora do almoço de sexta-feira. “Sim, é a tradicional marinara”, respondeu o italiano, falando o bom português com o qual já conduzira brasileiros como o escritor Jorge Amado e o cineasta Nelson Pereira dos Santos.

Dei a primeira garfada. Incrível foi notar como minhas papilas gustativas jamais tinham percebido tão bem o sabor daquele despretensioso disquinho atomatado. Eu estava diante de um raro exemplar de pizza liberto das fartas coberturas – muitas vezes, deliciosas – às quais me acostumei em cidades como São Paulo e Nova York. O equilíbrio entre a crocância e a morbidez da massa era tal que alguns vizinhos preferiram dobrá-la para comer com as mãos. “Quanto mais simples a pizza, mais difícil fazê-la saborosa”, me explicaria, dias depois, David Bianchini, dono de uma pequena pizzaria vizinha do Coliseu de Roma, a Li Rioni – outro despojado templo da gastronomia onde eu forraria meu estômago durante uma viagem por sete cidades.

Nápoles, Sorrento, Roma, Florença, Pisa, Trieste, Milão. Em cada parada experimentei pelo menos um pedaço de pizza. Mais que me deliciar com um dos meus pratos favoritos, eu tinha uma missão ousada: investigar a receita de sucesso de uma das mais arrebatadoras criações da cozinha italiana.

 

Pizza de margherita em Nápoles (SameSame Photo)

Jamais subestime um pizzaiolo egípcio

Entrei sozinho em uma portinha do restaurante Boccanegra, de Florença, e logo pedi uma margherita. Como o movimento estava tranquilo, encostei na bancada para conversar com o pizzaiolo enquanto tomava uma taça de vinho. Mas, que decepção, o chef não era napolitano (eu achava que esta era uma condição imposta pelo RH de qualquer pizzaria…). Mohamed Medani contou que vinha do Egito e tentou me convencer: “Fazemos isso bem porque nosso povo foi o pioneiro nesta arte, que existe desde os tempos dos faraós”. Poucos minutos depois, a criação de Mohamed saiu do forno a lenha com o queijo derretendo em meio ao cornicione, a borda alta. Calei e consenti: estava ótima. Cinco mil anos depois de seus ancestrais criarem tanto o forno quanto a massa de pão hoje usada na pizza, o jovem egípcio provava que podia superar seus concorrentes de Nápoles – que só por volta do ano 1000 viriam a assar discos de massa chamados de picea, mas que seriam os grandes difusores, graças às migrações da primeira metade do século 20, da pizza tal como o mundo conhece hoje.

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Prefira ingredientes do sopé do vulcão

Atenas, Lima, Istambul, São Paulo, conformem-se. Seus restaurantes nunca farão a melhor pizza do mundo porque eles não estão em Nápoles. OK, foram os gregos (trazendo seus pães pita) que fundaram a bela cidade à beira da baía há quase 2.700 anos. Se não fosse o Peru, a Europa nunca teria conhecido o tomate, que se deu tão bem nas terras quentes do entorno do vulcão Vesúvio, vizinho de Nápoles. E sem os búfalos indianos presenteados pelo sultão otomano Ahmed VI para o rei de Nápoles Carlos III (que tinha assinado a paz com os turcos), por volta do ano 1750, os campos da Campanha napolitana não produziriam a mozzarella original, a de búfala (só mais tarde o queijo das vacas entraria em cena). E há, ainda, o azeite, fundamental na culinária mediterrânea. “A conjunção única de ingredientes locais faz ser especial o sabor das pizzas de Nápoles”, orgulha-se Tonino Grieco, um napolitano radicado em São Paulo e sócio da Veridiana, pizzaria que oferece workshops a pizzaiolos aprendizes e onde eu havia comido na véspera da viagem. Embora seja possível importar azeites italianos, a chamada farinha grano duro 00 e os famosos molhos de tomate San Marzano de qualquer ponto do planeta, outros ingredientes como a mozzarella de búfala e o queijo fior di latte (feito com o melhor leite de vaca) da Campanha só podem ser consumidos frescos ali mesmo, em Nápole

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Tradições existem para ser respeitadas

Você espera uma hora na fila, do lado de fora do restaurante, mesmo em um dia de chuva, e, quando senta à mesa, só há dois sabores no cardápio: marinara e margherita. Para que mais? Com fama de melhor pizzaria de Nápoles, a L’Antica Pizzeria Da Michele existe desde 1870, fica entre aquelas típicas ruelas repletas de roupas nos varais e recebeu até Julia Roberts para as filmagens de Comer, Rezar, Amar. As mais de mil pizzas vendidas diariamente comprovam que pizza boa é pizza básica. Não precisa de invencionices como as massas grossas das fast-food americanas, bordas recheadas, massas fritas, vendas por metro, ketchup ou coberturas pesadas como a da brasileira frango com Catupiry. A simplicidade da versão margherita explica por que o prato agrada dos pobres ao nobres. Ela é feita com mozzarella ou fior di latte, tomate das fraldas do Vesúvio e manjericão, reproduzindo as cores branca, vermelha e verde da bandeira italiana. Concebida em 1889 para homenagear a recém-unificada Itália durante a visita do rei Humberto I e da rainha Margherita à cidade, acabou batizada de Regina Margherita e viria a se tornar a mais emblemática das pizzas do planeta.

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Melhor amassar com as mãos sobre o mármore

Parecia coisa de criança. Em cada pizzaria a que eu chegava, passava um tempo ali, atrás dos vidros nos quais sempre se exibem os pizzaiolos, observando cada detalhe do trabalho artesanal. Também egípcio, o bigodudo Adel El Rify, da Li Rioni romana, contou que preparava a massa duas horas antes e a deixava ali, na forma de uma bola imperfeita, descansando. Só quando chegava o pedido ele pegava uma porção e amassava, com um rolo, na bancada de mármore. “Acho o mármore mais higiênico que a madeira”, contou ele, que moldava o círculo, pintava com o molho e jogava a cobertura em apenas três minutos. Vi pizzaiolos mais puristas preferindo amassar com as mãos. Outra polêmica diz respeito ao azeite: os ortodoxos são radicalmente contra colocá-lo antes de a massa ir ao forno. Quando nossa pizza romana ficou pronta e veio à mesa, uma surpresa: “É melhor que a de Nápoles“, votaram três dos seis presentes. Os outros três preferiam a maior morbidez da napolitana. Alguns romanos se atrevem, mesmo, a dizer que fazem pizza melhor que os napolitanos. Ao menos em nossa pequena disputa caseira, deu empate.

Adapte-se e poderá conquistar o mundo

Como legítima cidadã do mundo, a pizza vem assimilando adaptações aonde quer que vá. Mesmo na Itália pode-se comê-la em versões com aquela massa grossa típica das tortas, caso das pizzetas, ou em fatias – como experimentei em Sorrento, Trieste e em Pisa (cujo nome, não custa lembrar, nada tem a ver com o prato…). Se no berço italiano o formato que predomina é pequeno, o que a popularizou mundo afora tem tamanho grande, fatiada, escolhida em menus com dezenas de sabores e ingredientes locais. Mesmo em Milão, onde terminou minha epopeia gourmet, encontrei combinações raras – como a ortolana, coberta por queijo e vegetais grelhados. Em São Paulo, a expressiva colônia italiana consagrou a pizza como um prato de consumo noturno, especialmente por famílias aos domingos (e com um queijo mussarela que nada tem a ver com o italiano). “Para cair no gosto do público do Rio de Janeiro, tivemos de acrescentar queijo à maioria dos sabores”, conta o diretor de operações Vinícius Abramides, da premiada pizzaria Bráz – onde comi na volta da viagem (viu como gosto de pizza?) e que sedia, todo mês de junho, o Festival Fora de Série, com ingredientes e preparos tipicamente napolitanos. Seja original como em Nápoles ou adaptada a outras culturas, a pizza conquistou o planeta como nenhum outro prato, em uma expansão que faria inveja ao Império Romano.

 

INFO – NÁPOLES: L’Antica Pizzeria Da Michele – Via Cesare Sersale 1/3, tel. (+39 81) 553-9204, www.damichele.net; Trianon – Via Pietro Colletta 42/44/46, tel. (+39 81) 553-9426 / ROMA: Li Rioni – Via SS. Quattro 24, tel. (+39 06) 7045-0605 / FLORENÇA – Boccanegra – Via Ghibellina 124/R, tel. (+39 055) 200-1098, www.boccanegra.com; SÃO PAULO: Bráz – Rua Graúna 125, Moema, tel. (+55 11) 5561-0905,  www.casabraz.com.br; Veridiana – Rua José Maria Lisboa 493, Jardins, tel. (+55 11) 3559-9151, www.veridiana.com.br

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: ENIT – Agência Nacional Italiana de Turismo (www.enit.it); SIT Italy (www.sit-italy.com); Danilo Morales (www.pasionitaliana.com); guia Eugenio Lorenzano (gege.lorenzano@inwind.it)

Nos bastidores dos tablados de flamenco em Madri

Os olhos miram-se imóveis no espelho, queixos altos, mãos na cintura. Quando a professora bate palmas e o senhor na cadeira ao lado começa a dedilhar as cordas do violão, o grupo de alunas bailaoras arregaça as saias e passa a sapatear sincronicamente sobre saltos de 5 centímetros cravejados de pregos. Demarcado por um complexo ciclo rítmico de 12 compassos, o cruzar de pernas é acompanhado pelo balé aéreo de mãos e braços, que se dobram leves como penas. Mesmo compenetrada, a carioca Tatiana Bittencourt mantém o sorriso no rosto enquanto rodopia e faz dançar no ar seu xale, aqui chamado de mantón. Professora de dança no Rio de Janeiro, ela não disfarça a satisfação ao bailar na Amor de Dios, principal escola de flamenco de Madri e do mundo, onde circulam diariamente mil alunos, metade deles estrangeiros. “Esperei dois anos para voltar para cá e passar dois meses me aperfeiçoando”, contaria mais tarde. Em sua quarta viagem de imersão no universo flamenco da capital da Espanha, Tatiana se integrou a um batalhão de dançarinos dedicados a aprender ali, com 30 professores, as técnicas da principal expressão musical espanhola.

Naquele sábado de fevereiro, Tatiana tinha pressa. Ao fim da aula, caminhou rapidamente pelos corredores, escutando os sons de castanholas, cajóns e guitarras flamencas que ecoavam das 15 salas. Corria para não se atrasar para a apresentação de Farruquito. Você pode não conhecer Farruquito, um dos grandes nomes do bailado flamenco, ou o Tomatito, lenda viva dos violões. Mas naquela noite, madrilenhos e turistas admiradores de flamenco se dividiam para assistir às performances dos dois. Farruquito dançaria no Casa Patas, uma fundação composta por conservatório e restaurante que tem, nos fundos, um tablao, o tablado para apresentações de flamenco. Já Tomatito fecharia a série de cinco noites do 19º Festival Flamenco Caja Madrid (www.obrasocialcajamadrid.es), tocando para 1.100 pessoas na casa de espetáculos Teatro Circo Price, pertinho dos Museus do Prado e Reina Sofía. Em uma evidência de como o flamenco tem agitado o circuito cultural de Madri, o Guía del Ocio (www.guiadelocio.com/madrid), semanário de entretenimento vendido nas bancas de jornal, listava 18 apresentações naquela semana. E entre 4 de junho e 2 de julho, um festival ainda maior, o Suma Flamenca (www.madrid.org/sumaflamenca), deve mobilizar a cidade.

Aula de flamenco na escola Amor de Dios (fotos de Luis Maximiano)

PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Os estudiosos acreditam que o flamenco nasceu no século 15, na região de Andaluzia, sul da Espanha, e que a palavra venha de felag mengu, “camponês fugitivo” em árabe. Seria uma fusão da música dos ciganos que vinham do Norte da Índia com a dos mouros e judeus que já habitavam a região. Antes uma manifestação regional, ele só adquiriu o formato de performance artística no século 19, com a difusão de seus três pilares unidos: o cante, canções profundas que fazem lembrar uma prece muçulmana; o toque, melodia comandada por um violão especial, a guitarra flamenca; e o baile, a dança vigorosa que se assemelha a uma incorporação visceral. Em novembro de 2010, a Unesco o reconheceu como Patrimônio Imaterial da Humanidade. “Este título vai contribuir para que mais gente descubra esta arte viva”, comemora Carmen Linares, uma das divas do cante, que se apresentou no festival de fevereiro. Nascida no sul do país há 60 anos, ela se mudou para Madri em 1965 para trabalhar com flamenco. “Na Andaluzia está o berço, mas aqui se multiplicam os tablaos, os espetáculos, o público”, conta.

O movimento das casas flamencas evidencia essa retomada. Um exemplo é a recente reforma do Villa Rosa, na Plaza Santa Ana, um dos míticos cafés cantantes que sediaram a fase áurea do flamenco entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20, segundo o “flamencólogo” José Blas Veja, autor de 50 Años de Flamencologia – e proprietário do sebo Librería del Prado, pertinho da escola Amor de Dios. Preservando os belos azulejos de 1928, o Villa Rosa, que funcionava como discoteca nos últimos anos, reabre agora como restaurante com tablao. Já o Cardamomo, um bar popular proximo à Puerta del Sol, há dois anos incorporou shows flamencos em seu tablao, deixando as baladas para depois da meia-noite. Aos domingos, o Cardamomo se transforma para receber o público infantil com o espetáculo teatral El Bosque Flamenco – que já teve na plateia até a princesa das Astúrias, Letizia Ortiz, e suas duas filhas.

“Esta renovação é fundamental”, acredita o cantaor Miguel Poveda, revelação da Catalunha que se tornou um galã do flamenco e abriu o festival Caja Madrid. “Muitos ídolos morreram, outros talentos desistem porque esta é uma carreira difícil, especialmente em tempos de crise, mas temos de resistir.” O baixo-astral que assola parte da Europa em função dos problemas econômicos, por sinal, parece até combinar com muitas das letras flamencas, que choram dores de amor e injustiças sociais. Poveda chega a fazer sete shows por mês, mas lamenta não ganhar dinheiro como se cantasse música pop. “Com o flamenco eu nunca vou lotar uma Plaza de Toros, como faz o Julio Iglesias”, compara outro cantor do festival, o madrilenho Juan Valderrama. “Mas o flamenco é a voz do povo, tem um público fiel.” Filho do casal de cantaores Juanito Valderrama e Dolores Abril, ele acredita que o flamenco é mais complexo e nem sempre triste como o fado português ou o tango argentino. “O flamenco nasceu nesta eterna terra de trânsito que é a Espanha, e belisca todos, do Oriente ao Ocidente.”

TEM DUENDE NO TABLADO

Primeiro, entram os três violeiros. Depois, sobem ao palco os três cantaores e palmeros, demarcando o canto com as palmas das mãos. Quando as três bailaoras e o bailaor começam a bater os pés no palco, tem início um ritual que parece deixá-los em transe. Tocadores de olhos fechados, cantores com cara de sofrimento e o corpo de baile se expressando de forma dramática parecem cumprir o objetivo de despertar o “duende”. Assim a comunidade flamenca denomina a sensação inebriante causada pela harmonia no tablao, que emociona tanto os artistas quanto o público – como foi possível perceber em um noite lotada de estrangeiros, alguns às lágrimas, no Corral de la Morería. Fundado em 1956 e bem localizado na rua do imponente Palácio Real, o restaurante flamenco tem paredes cheias de quadros de antigas apresentações e de outra paixão espanhola, as touradas. Conseguir uma mesa perto do palco é fundamental para bem aproveitar a uma hora e meia de espetáculo. Caso contrário, a vista acaba sendo prejudicada pela circulação dos garçons – que servem menus-degustação de 43 a 99 euros, mais os cerca de 40 euros de couvert artístico. Apesar de caro, vale a pena.

Apreciada pelos turistas, a fórmula dos restaurantes com tablaos típicos de Madri consagrou também o Café de Chinitas, o Las Carboneras, o Clan e o El Corral de La Pacheca. Madrilenhos mais interessados na música que na comida preferem ir direto ao ponto no Cardamomo e no Las Tablas. Mais raras, é verdade, são as peñas flamencas, rodas informais em que não é falta de respeito interagir, por exemplo, cantando e batendo palmas. Com sorte, os mais notívagos podem ser convidados a descer ao porão do Candela, um bar underground onde a boemia flamenca se apresenta de improviso. Mas, com tamanha oferta, como decidir a qual tablao ir? “Mais importante que os lugares são os artistas”, ensina Joaquín San Juan, diretor da Amor de Dios. Como as casas revezam seu casting, é preciso checar a programação nos sites. “Se o elenco for desconhecido, pergunte para um amigo que entende”, recomenda. O próprio mural da escola, com dezenas de folders e cartazes de eventos, pode ser um ponto de partida.

TERRITÓRIO FLAMENCO

Criado em 1952, o Centro de Arte Flamenco y Danza Española Amor de Dios foi batizado com o nome da rua de um de seus primeiros endereços, localizado a 100 metros do atual. Fica sobre os corredores repletos de peças de jamón e cabeças de porco do Mercado de Antón Martín, mesmo nome do bairro, e acabou sendo responsável pela transformação de seu entorno em uma zona flamenca. Por todos os lados há lojas de sapatos – um par pode custar 160 euros – e roupas, como os longos vestidos cheios de babados e frente mais curta para mostrar os pés da bailaora. Em lojas como a Lola Almela, a brasileira Talita Sánchez gastou 500 euros em acessórios como flores de cabelo e habanicos (leques) para levar para suas alunas no Japão. “Moro em Madri mas rodo o mundo com o flamenco”, conta ela, cuja família organiza no Brasil, há dez anos, o Festival Internacional de Flamenco (www.festivalflamenco.com.br), que costuma acontecer em São Paulo e São José dos Campos.

É perto da espetacular Plaza Mayor, no entanto, que fica a loja que reúne a maior oferta de artigos do gênero. Na El Flamenco Vive, os irmãos David e Alberto Martinez vendem 2 mil títulos entre CDs e DVDs, mil livros, roupas, postais e guitarras flamencas de dez fabricantes. Se a intenção for investir nas cordas, nada melhor que agendar uma visita ao ateliê Mariano Conde, que nasceu como Conde Hermanos em 1915, para acompanhar a confecção do mesmo violão comprado por Tomatito e por Paco de Lúcia, maior divulgador mundial da guitarra flamenca. Comparado ao violão clássico, o de flamenco tem uma caixa mais estreita para intensificar os sons graves e metálicos. Depois de levar até quatro meses para ser confeccionada, uma peça pode custar 15 mil euros.

FLAMENCO FUSION E À LA BROADWAY

Exímio tocador de guitarra flamenca radicado em Madri, o brasileiro Fernando de La Rua é um dos agitadores deste circuito cultural. Além de se apresentar em tablaos e escolas, ele promove na capital espanhola o Projeto Brasil Flamenco, idealizado por sua mulher, a bailaora brasileira Yara Castro. Trata-se de encontros entre artistas espanhóis e brasileiros – como Tatiana Bittencourt, que dançava na Amor de Dios no início desta reportagem. Seu trabalho representa uma corrente contemporânea chamada de flamenco fusion. “Minha mão direita usa as técnicas do flamenco, mas a esquerda é bem brasileira”, brinca ele, que em fevereiro apresentou no pequeno Artebar La Latina o repertório de seu CD, com uma guitarra flamenca repleta de influências que vão do jazz ao chorinho. Em Madri ouve-se misturas de flamenco com rock e até com rap. Mas há espaço também para os musicais à la Broadway, com coreografias ensaiadas e bem diferentes do improviso dos tablaos. O espetáculo España Baila Flamenco costuma lotar os 300 lugares do Teatro Muñoz Seca, ao lado da movimentada Gran Vía, com 25 bailaores em cena – entre eles o brasileiro Fábio Rodriguez e a lendária Sara Lezana, que na década de 1960 contracenou com o bailaor Antonio Gades, o “Pelé” do flamenco, no cinema. Outras duas montagens da mesma companhia, Ballet Flamenco de Madrid, estão previstas para maio, em mais uma prova de que não há melhor lugar para se emocionar com este Patrimônio da Humanidade do que em Madri.

INFO: MADRI

+34 91

Artebar La Latina – Calle San Bruno 3, tel. 61 511-5627; Ballet Flamenco de Madrid – tel. 522-7903, www.balletflamencodemadrid.com; Café de Chinitas – Calle Torija 7,
tel. 559-5135, www.chinitas.com; Candela – Calle Olmo 2, tel. 467-3382; Cardamomo – Calle Echegaray 15, tel. 369-0757, www.cardamomo.es; Casa Patas – Calle Cañizares 10, tel. 369-0496, www.casapatas.com; Centro de Arte Flamenco y Danza Española Amor de Dios – Calle Santa Isabel 5/1º, tel. 360-0434,
www.amordedios.com; Clan – Calle Ronda de Toledo 20, tel. 528-8401, www.salaclan.com; Corral de la Morería – Calle Morería 17, tel. 365-8446, www corraldelamoreria.com; Corral de la Pacheca – Calle Juan Ramón Jiménez 26, tel. 353-0100, www.corraldelapacheca.com; El Flamenco Vive – Calle Conde de Lemos 7, tel. 547-3917,
www.elflamencovive.es; Las Carboneras – Plaza del Conde de Miranda 1, tel. 542-8677, www.tablaolascarboneras.com; Las Tablas – Plaza España 9, tel. 542-0520,
www.lastablasmadrid.com; Librería del Prado – Calle del Prado 5, tel. 429-6091, www.libreriadelprado.com; Lola Almela – Calle Duque de Fernán Nuñez 4, tel. 429-2897,
www.flamencololaalmela.com; Mariano Conde Guitarras – Calle Amnistía 1, tel. 521-8155; Villa Rosa – Plaza Santa Ana 15, tel. 521-3689

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS/SPECIAL THANKS TO: AECID Centro Cultural de España en São Paulo, www.ccebrasil.org.br; Cultyart (Festival Caja Madrid),

www.cultyart.com; Mirasierra Suites Hotel, Calle Alfredo Marqueríe 43, tel. 727-7900, www.jubanhoteles.com