Todos os caminhos levam à Roma

 

Ainda que o clichê repita, há milênios, que todos os caminhos levam a Roma, não é raro que muitos viajantes que chegam ao museu urbano a céu aberto mais espetacular do planeta fiquem sem saber que rumo tomar diante de tantas rotas possíveis.

 

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A da Roma original, que abriga o Coliseu e viveu a saga dos imperadores que viraram mitos? Ou a via da Roma cristã, do Vaticano e suas igrejas majestosas? Talvez a Roma das artes, da Renascença e do Barroco, embelezada por Da Vinci, Michelangelo, Rafael e Bernini? Vá por nós: comece do princípio. Em pleno centro da vibrante capital italiana do século 21, resquícios vivos preservados nos subterrâneos ou acima da superfície remontam à fundação da Roma Antiga, em 753 a.C., e recontam sua história até a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C. Em quatro dias, pode-se voltar no tempo e viajar por aqueles 12 séculos revolucionários quando Roma comandava o mundo com seus gladiadores ferozes, obras faraônicas, batalhas gloriosas e imperadores megalômanos.

 

Fórum e Palatino
Fórum e Palatino

 

No berço dos filhos da loba

Nessa viagem ao passado, decolemos primeiro para o Monte Palatino, uma das sete colinas da região e local onde acredita-se que Roma teria sido fundada, em 753 a.C., por um sujeito de nome Rômulo. A lenda contada pelos guias que atuam nas ruínas do Palatino, coração turístico da cidade (que fica diante do Coliseu), diz que Rômulo e seu irmão gêmeo Remo teriam sido criados por uma loba. Os guias esclarecem, porém, que a palavra loba também era usada para definir prostituta. Seja animal ou pouco nobre a origem da mãe, a história original seria manchada de qualquer forma pelo fato de Rômulo ter matado Remo. Passaram-se sete séculos entre a liderança de Rômulo, os reinados etruscos e a ascensão de Roma no tempo de Júlio César – o ditador que fez a passagem da república para o império e morreu esfaqueado por senadores em 44 a.C.. Dos primórdios da fundação, no século 8 a.C., o Palatino guarda muros originais, a cabana onde Remo e Rômulo cresceram, e, no pé do morro, a gruta onde os gêmeos teriam sido aleitados pela misteriosa loba. Entre o Palatino e o Monte Aventino está outro resquício pré-imperial: o Circus Maximus, iniciado no século 7 a.C., era uma arena onde 250 mil espectadores assistiam a corridas de bigas, uma das muitas influências dos gregos, que ditavam moda e cultura na época.

 

Fórum de Augusto com projeção multidimensional
Fórum de Augusto com projeção multidimensional

Onde fervia o umbigo do mundo

Entre o Palatino e o Monte Capitolino, hoje sede dos Museus Capitolinos, espalha-se uma sequência de relíquias arquitetônicas: o Fórum Romano, centro nervoso onde pulsavam a vida política, comercial e religiosa de Roma. Pela Via Sacra, sua artéria principal, desfilaram Júlio César e uma série de imperadores. A começar por Augusto (66 a.C. – 14 d.C.), herdeiro adotivo de César e que ficou 44 anos no trono. Tanto a casa onde Augusto viveu quanto a de Lívia, sua terceira esposa, ainda podem ser conhecidas no Palatino – embora os afrescos da de Lívia tenham ido para o imperdível museu Palazzo Massimo Alle Terme. Para comemorar os 2.000 anos do primeiro imperador, um espetáculo multimídia tem contado sua trajetória e reproduzido virtualmente prédios antigos todas as noites, até 18 de setembro, no Fórum de Augusto. Além dessa, outras construções do líder estão espalhadas pela cidade: o Ara Pacis, imenso altar esculpido em mármore em 9 a.C.; as ruínas do belo Teatro Di Marcello, de 11 a.C.; e o Panteão, de 27 a.C., um impressionante templo politeísta que viria a ser transformado em igreja cristã. Foi na gestão de Augusto que nasceu um líder chamado de Jesus Cristo, cujos seguidores foram duramente perseguidos pelo imperadores seguintes, como o polêmico Nero (37 d.C. – 68 d.C). Ainda que tenham atribuído a ele o famoso incêndio que destruiu Roma em 64 d.C., estudos recentes questionam o fato. Nero teria, ainda, mandado matar cristãos sob a acusação de iniciarem o fogo. Enlouquecido, matou a mãe e se suicidou.

 

Coliseu visto de cima (e agora com subterrâneo aberto a visitação)
Coliseu visto de cima (e agora com subterrâneo aberto a visitação)

 

Os guardiões dos subterrâneos

Cartão-postal romano por excelência, o Coliseu foi assim batizado em referência ao Colosso di Nerone, estátua de bronze colossal com mais de 30 metros de altura que Nero mandou fazer para si. Ela fazia parte da Domus Aurea, a gigantesca casa dourada do imperador (cujo interior está fechado para restauração). Na tentativa de apagar os vestígios da megalomania do predecessor, o imperador Vespasiano (9 d.C. – 79 d.C.) decidiu construir ali um anfiteatro para 50 mil pessoas. Esse cenário de espetáculos, sacrifícios de animais e batalhas de gladiadores só foi inaugurado em 80 d.C. por Tito (39 d.C.– 81 d.C.), seu filho e sucessor (o Arco de Tito, no fórum, é em sua homenagem). Durante cem dias e cem noites, 5.000 animais foram mortos. Parada favorita dos turistas, o Coliseu ficou mais emocionante desde que foi aberto para visitas guiadas, em 2010, o Hypogeum, ala subterrânea da arena onde lutadores e bichos esperavam seu sacrifício. Ele se soma a outras experiências fantásticas que os exploradores da Roma Antiga podem ter a 15 metros – ou mais – de profundidade. Perto do Coliseu, dá para descer ao templo pagão no subsolo da Basilica di San Clemente ou andar pelos corredores da Case Romane del Celio, com quartos dos séculos 2 a 4 d.C. sob a Basilica Santi Giovanni i Paolo. Mas nenhum tour às profundezas da cidade à beira das águas do Rio Tibre surpreende mais que o do Palazzo Valentini. Aberto em 2010, o passeio multimídia pré-agendado, de 1h30, acontece sobre um chão de vidro que protege mansões com mosaicos e afrescos milenares.

 

Teatro Marcelo
Teatro Marcelo

Relíquias do auge do Império

Comandante do Império Romano em seu apogeu, o imperador Trajano (53 d.C. – 117 d.C.) bateu o recorde de atrações do Coliseu: um de seus eventos durou 117 dias e envolveu 9 mil gladiadores e 10 mil animais. A grandeza de Trajano, porém, ia além. Foi ele quem conquistou o Oriente e expandiu os limites máximos do império, que em sua gestão avançava da atual Inglaterra à Síria, dos Países Baixos ao Norte da África. Também contratou o melhor arquiteto da época para modernizar a cidade. Três de suas construções resistem: o Fórum de Trajano, inaugurado em 113 d.C.; a Coluna de Trajano, com esculturas em mármore que sobem a 30 metros de altura (e onde suas cinzas foram levadas); e o Mercado de Trajano, enorme estrutura semi-circular de tijolos que abrigava lojas e tabernas, sede do Museu dos Fóruns Imperiais. Coube a Adriano (76 d.C. – 138 d.C.), seu sobrinho adotado e sucessor, a tarefa de viajar para erguer muralhas isolando o império contra ataques de bárbaros – como eram chamados todos os que viviam fora dos limites de Roma. Hoje, os vestígios de Adriano na capital estão no desenho do Panteão, reconstruído depois de sucumbir a um incêndio e a um raio; no Castelo Santo Ângelo, onde antes ficava seu mausoléu e que agora oferece uma linda vista do por-do-sol da cidade); e na Ponte Santo Ângelo, erguida em 136 para cruzar o Rio Tibre. Mas é em Tívoli, a 30 quilômetros do Centro, que repousa sua maior obra: a grandiosa mansão de Villa Adriana – que até novembro exibe uma exposição especial sobre o imperador.

 

Destaque do acervo do Palazzo Massimo
Destaque do acervo do Palazzo Massimo

Termas, pedaladas e catacumbas

É preciso se afastar do Centro para descobrir outras maravilhas do período imperial. Perto da estação de trem Roma Termini ficam as reminiscências das Termas de Diocleciano, inauguradas em 306 d.C. Os maiores banhos públicos da Roma Antiga tinham capacidade para 3.000 pessoas. Hoje transformadas em parte do Museu Nacional Romano, elas foram batizadas em homenagem ao Imperador Diocleciano (245 d.C. – 311 d.C.). Foi ele quem dividira o gigantesco Império Romano, em 285 d.C., nas partes ocidental e oriental. No lado oposto da Roma do século 21 ficam ruínas de banhos ainda mais preservadas, as Termas do Imperador Caracalla (188 d.C – 217 d.C), erguidas em 216 d.C. Elas estão no caminho para a Via Appia Antica, lendária estrada que abriga as catacumbas de São Calixto e de São Sebastião, corredores subterrâneos com milhares de tumbas. Um dos passeios mais agradáveis da Roma contemporânea é de bicicleta pela charmosa Via Appia Antica: chega-se ali em meia hora de pedalada desde o Arco de Constantino, de 315 d.C., em frente ao Coliseu. O Imperador Constantino (272 d.C. – 337 d.C.), por sinal, encerra nossa jornada pela história. Famoso por ter liberado, em 313 d.C., o culto ao cristianismo, ele se instalou na capital do Império Romano do Oriente, em Bizâncio (que viria a se chamar Constantinopla e depois Istambul). Enquanto o Império do Ocidente, sediado em Roma, sucumbia às invasões bárbaras em 476 d.C., o oriental – ou Bizantino – sobreviveria por mais mil anos, até 1453. Mas esse é um capítulo de outra história.

 

Bike para catacumbas DSC00442

 

Pílulas

Artista-referência do Barroco, Gian Lorenzo Bernini esculpiu a Fontana di Trevi, inativa para restauro até 2015, e a Fontana del Tritone, localizada diante do clássico hotel Bernini Bristol – cenário do filme e do livro O Código Da Vinci.

 

Além do belo mirante, o Monte Aventino esconde um segredo fascinante de ser descoberto à noite: a incrível vista que se tem da cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano, a partir do buraco da fechadura do Priorato dei Cavalieri di Malta.

 

Ficam no entorno do Panteão duas paradas saborosas: a famosa Gelateria Giolitti, com longas filas para tomar o pastoso sorvete italiano, e a pequena Enoteca il Goccetto, onde os romanos degustam bons vinhos e petiscos.

 

Sorveteria DSC00484

Água potável é um bem público gratuito de Roma há séculos. Cerca de 2.500 dessas torneiras conectadas a fontes naturais, as nasones, estão espalhadas pela cidade. Não esqueça de carregar sua garrafinha para enchê-las durante o passeio.

 

Assim como o castelo, fica do lá de lá do Rio Tibre (ou Tevere, em italiano) o bairro Trastevere, centro da vida noturna romana. Para uma boa comida romana sem foco em turistas, faça como Michele Obama e siga ao Ristorante San Michele.

 

Quem optar por fazer o tour guiado em português nas Catacumbas de São Calixto vai conhecer o paulista Antonio Pajola. Há 8 anos em Roma, o simpático padre salesiano orienta os visitantes entre as tumbas do quarto andar subterrâneo.

 

Ruas de Roma
Ruas de Roma

Serviço:

ROMA

 

PARA FICAR

HOTEL BERNINI BRISTOL

Piazza Barberini, 23; berninibristol.com

 

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PARA COMER

ENOTECA IL GOCCETTO

Via dei Banchi Vecchi, 14; ilgoccetto.com

 

GELATERIA GIOLITTI

Via Uffici del Vicario, 40; giolitti.it

 

RISTORANTE SAN MICHELE

Lungotevere Ripa, 7; ristorantesanmichele.com

 

PARA VISITAR

ARA PACIS

Lungotevere in Augusta; arapacis.it

 

Subterrâneos da Basílica San Clemente
Subterrâneos da Basílica San Clemente

BASILICA DI SAN CLEMENTE

Via Labicana, 95; basilicasanclemente.com

 

CASE ROMANE DI CELIO

Clivo di Scauro; caseromane.it

 

CASTELO SANTO ÂNGELO

Lungotevere Castello, 50; castelsantangelo.com

 

Forte Santo Ângelo, que abriga o Memorial do Imperador Adriano
Forte Santo Ângelo, que abriga o Memorial do Imperador Adriano

 

CATACUMBAS DE SÃO CALIXTO

Via Appia Antica, 110/126; catacombe.roma.it

 

CATACUMBAS DE SÃO SEBASTIÃO

Via Appia Antica, 116; catacombe.org

 

COLISEU

Piazza del Colosseo, 1; turismoroma.it

 

FÓRUM DE AUGUSTO

Via Alessandrina Tratto; viaggionelforodiaugusto.it

 

FÓRUM DE TRAJANO

Via dei Fori Imperiali

 

FÓRUM ROMANO

Via della Salaria Vecchia, 5/6; archeoroma.beniculturali.it

 

Vista geral do Fórum Romano
Vista geral do Fórum Romano

 

MERCADO DE TRAJANO

Via IV Novembre, 94; mercatiditraiano.it

 

PALATINO

Via di San Gregorio, 30; coopculture.it

 

PALAZZO MASSIMO ALLE TERME

largo di Villa Peretti, 1; archeoroma.beniculturali.it

 

PANTEÃO

Piazza della Rotonda; www.turismoroma.it

 

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Vista interna do Panteão

 

PRIORATO DEI CAVALIERI DI MALTA

Piazza dei Cavalieri di Malta; ordinedimaltaitalia.org

 

TEATRO DI MARCELLO

Via del Teatro di Marcello; turismoroma.it

 

MUSEUS CAPITOLINOS

Piazza del Campidoglio, 1; museicapitolini.org

 

PALAZZO VALENTINI

Via IV Novembre, 119/A; palazzovalentini.it

 

TERMAS DE CARACALLA

Viale delle Terme di Caracalla; archeorm.arti.beniculturali.it

 

TERMAS DE DIOCLECIANO

Viale Enrico De Nicola, 79; archeoroma.beniculturali.it

AGRADECIMENTOS: Danilo Morales e Pasion Italiana (pasionitaliana.com)

 

Termas de Diocleciano vistas de fora
Termas de Diocleciano vistas de fora

 

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Código de ética Same Same:

Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista TAM Nas Nuvens, edição de setembro de 2014.

As passagens e todas as despesas foram pagas pela TAM.

O Hotel Bernini Bristol ofereceu duas diárias grátis.

 

 

 

 

 

A pulsante cena artística de Nova York

As exposições, as performances e as obras de rua mais quentes da cidade que não dorme

Brooklyn Bridge Park em manhã de domingo (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Brooklyn Bridge Park em manhã de domingo (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Andar, andar e andar – e, quase que a cada passo, observar a beleza, o ineditismo e a criatividade de todo tipo de expressão artística. Basta flanar livremente pelas ruas de Nova York, especialmente quando é verão no Hemisfério Norte, para respirar criações geniais. Pode ser a escultura temporária das nuvens de Olaf Breuning no Central Park, os grafites nos muros de Williamsburg ou o mural do brasileiro Kobra diante da Highline: criações de artistas do mundo todo estão tanto ao ar livre como no hall dos hotéis, lojas e empresas, nas 600 galerias de arte, em uma centena de museus. Para facilitar a vida dos amantes da arte que visitam Nova York, TAM Nas Nuvens preparou um delicioso roteiro de dois dias aproveitando o que a cidade mais legal do mundo tem de inspirador em agosto.

Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Dia 1 – Sábado em Manhattan 10h30 – Um enorme banner com o rosto de Lígia Clark (1920-1988) de olhos vendados recepciona quem começa o dia visitando o prédio principal do MoMA, o mais importante museu de arte moderna e contemporânea do planeta. Sim, até 24 de agosto, a artista brasileira que se definia como não-artista brilha como o principal destaque desse museu que é, desde que nasceu em 1929, o mais essencial para quem busca acompanhar a vanguarda artística mundial. É bom chegar assim que o museu abre, às 10h30, para dar conta de conferir os quase 300 desenhos, pinturas, esculturas e obras interativas da mostra O Abandono da Arte. Realizado entre 1948 e 1988, o conjunto de obras parte da fase abstrata de Lígia, passeia pela neo-concretista e culmina com suas inovadoras peças interativas com propósitos terapêuticos – e que são o maior sucesso de público.

Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

12h30 – Se você resistir a migrar das salas de Lígia Clark para encher os olhos com a Noite Estrelada, de Vincent van Gogh, as Latas de Sopa Campbell, do novaiorquiníssimo Andy Warhol, entre tantos Picassos e Matisses do acervo de 150.000 peças, dê aquela pausa para o almoço. Os três restaurantes do MoMA estão entre os melhores da cidade: o informal Cafe 2 mistura os visitantes em mesas coletivas; o Terrace 5 serve menu completo e vinhos até nas mesas da varanda do quinto andar, que dão vista para o jardim de esculturas do térreo; e o requintado The Modern ostenta uma estrela Michelin que atrai gourmets também por uma porta exclusiva, que dá para a rua, até 23h às sextas e sábados.

As Nuvens, obra pública no Central Park (foto de Gabriel Rinaldi www.gabrielrinaldi.com)
As Nuvens, obra pública no Central Park (foto de Gabriel Rinaldi www.gabrielrinaldi.com)

14h – Caminhar pelo Central Park, o gigantesco quadrado verde no coração da ilha de concreto, é a forma mais gostosa de fazer digestão. Na esquina sudeste do parque, onde a 5a Avenida exibe outro quadrado, os das paredes transparentes da Apple Store, repare na obra Nuvens, com seis balões azuis criados pelo artista suíço radicado na cidade Olaf Breuning. Até 24 de agosto, esta é uma das dezenas de obras públicas espalhadas para trazer graça e ludicidade às ruas das cinco regiões da cidade: Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens e Statent Island.

Exposição de Adriana Varejão visitada em Art Walking Tour no Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Exposição de Adriana Varejão visitada em Art Walking Tour no Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

15h30 – Hora de seguir o caminho do oeste, onde o bairro do Chelsea concentra nada menos que 300 das cerca de 600 galerias de arte da cidade. Para facilitar a vida de quem não sabe em qual das tantas portas entrar, o professor Ph.D. Rafael Risemberg criou há 12 anos um art walking tour que seleciona aquelas que, por seus critérios, abrigam as mais inovadoras exibições do momento. “Vou a dezenas de novas exposições a cada dia para fazer minha curadoria de quais serão aquelas que visitaremos por cerca de duas horas”, orgulha-se o argentino radicado na cidade. Os tours da sua New York Gallery Tours se multiplicaram: há um só para o Lower East Side e outro específico sobre arte LGBT, por exemplo. Entre os participantes de cada grupo há colecionadores verdadeiramente interessados em adquirir obras de milhões de dólares expostas em galerias de prestígio como Gagosian (considerada a principal rede de galerias de arte do mundo, com quatro unidades em Nova York), David Zwirner e Pace (que representa o brasileiro Vik Muniz e também tem quatro espaços na cidade).

Imagem de Kobra vista a partir da Highline (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Imagem de Kobra vista a partir da Highline (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

17h30 – É quando se aproxima o pôr-do-sol que muitos pedestres do Chelsea costumam subir para a High Line, a aposentada via férrea elevada que tem se transformado, desde 2009, em um parque urbano serpenteando desde a altura da rua 13 até, por enquanto, a rua 30. Além dos jardins suspensos e de trechos onde é possível caminhar descalço em uma poça de água corrente, a High Line se transformou em uma das atrações mais visitadas da cidade. Afinal, tem acesso gratuito, fica aberta até 23h e abriga ao menos dez obras de arte temporárias. “Nosso sucesso acabou atraindo novos prédios de arquitetura moderna e peças de arte independentes também para o entorno do parque”, orgulha-se a italiana Cecilia Alemani, curadora artística do local. Uma das obras não-oficiais da High Line é o mural O Beijo, do paulista Eduardo Kobra. Ele passou duas semanas nas escadas preparando essa releitura da foto de Alfred Eisenstaedt, que mostra um marinheiro beijando uma moça na Times Square, em 1945, durante a celebração do fim da Segunda Guerra Mundial. “Essa virou minha obra mais fotografada”, celebra Kobra, que ama andar por Nova York buscando novos muros para pintar. 20h – Entre tantas expressões artísticas que entretém moradores e visitantes na noite novaiorquina – como os shows do Carnegie Hall, os concertos do Lincoln Center, os tantos festivais de cinema e todos os musicais da Broadway –, um gênero em especial anda em voga: os jantares com performances. Em cartaz desde dezembro,  o Queen of The Night deixa boquiabertos todos os 220 convidados que vestem traje de gala, como manda o protocolo, para jantar com a rainha. Mistura de cabaré com circo, dança e balada, o espetáculo obriga os comensais a seguir os 31 artistas performáticos pela casa antes que seja servida a farta – e saborosa – refeição, em meio a drinks e vinhos. Ao longo de 3 horas, nada menos que 300 performances individuais acontecem no Diamond Horseshoe, um salão de eventos de 1938 cercado pelos teatros da Broadway.

Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

23h – Caminhar em meio aos psicodélicos neons da Time Square é “o” programa para depois do espetáculo – além de um estimulante esquenta para quem quiser estender a noite nos bares e clubes de bairros como Village e Hell’s Kitchen. DICA: Pertinho do MoMA ficam restaurantes favoritos dos gourmets: no 21, jóqueis e outros amantes dos cavalos se reúnem sob o fantástico teto forrado de brinquedos (reserve e fique atento ao dress code). Já o vizinho hotel Le Parker Meridien esconde, atrás das cortinas vermelhas da recepção (e vizinhos a uma pintura do inglês Damien Hirst) os premiados hambúrgueres do Burger Joint. DICA: O walking tour de artes pelo Chelsea do qual a equipe da TAM Nas Nuvens participou, em junho, incluiu, entre as sete galerias, duas que tinham mostras de artistas do Brasil. Polvo, de Adriana Varejão, era o destaque da Lehmann Maupin, enquanto na Luhring Augustine acontecia a exposição La Voie Humide (A Via Úmida), de Tunga – que estava presente e até falou um pouco sobre suas obras.

Encontro não-planejado com Tunga durante Art Walking Tour pelo Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Encontro não-planejado com Tunga durante Art Walking Tour pelo Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

DICA: Na High Line, conhecemos Faith Ringgold, uma artista de 83 anos que visitava pela primeira vez sua obra temporária na via elevada. “Vim mostrar para minha família esta ampliação do meu quadro Groovin High, que pintei em homenagem à noite do bairro do Harlem nas décadas de 1940 e 50, quando eu me divertia com vizinhos famosos como os músicos de jazz Duke Ellington e Sony Rollins.”

Rosetta, instalação científica exposta no Brooklin Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Rosetta, instalação científica exposta no Brooklin Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Dia 2 – Domingo no Brooklyn 10h – Que tal cruzar a Ponte do Brooklyn – seja a pé, de bike ou de metrô – para aproveitar o domingo de verão ao ar livre? Do lado de lá, o bairro mais populoso de Nova York exibe o Brooklyn Bridge Park, inaugurado em 2010 sob as pontes do Brooklyn e de Manhattan e com vista para a ilha. Beirando o Rio East com gramados verdinhos, um lindo carrossel e 6 píers transformados em quadras – de futebol, basquete, vôlei… ­–, ele virou palco também de instalações temporárias curiosas – como a réplica do cometa Rosetta, exposta como parte do Festival Mundial de Ciências, no início de junho – e de obras de arte públicas. Até dezembro, um dos 250 pedaços de uma réplica da Estátua da Liberdade feita de cobre pelo artista vietnamita Danh Vo fica em exposição diante do ícone-original que lhe deu origem. Outro fica dessa série chamada We the People fica no City Hall, em Manhattan, e o restante está em 15 países. O escultor usou as técnicas de construção da estátua-mãe, de 1886.

Obra pública We The People exposta no Brooklyn Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra pública We The People exposta no Brooklyn Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

11h – Domingo em Nova York é dia de brunch, e um famoso acontece nessa região cheia de galerias de arte chamada Dumbo (o nome vem de Down Under the Manhattan Bridge): o Superfine. Decorado por artistas locais, com mesa de sinuca e jazz ao vivo, ele costuma deliciar os frequentadores com seu menu de inspiração mediterrânea (e à noite fica aberto até 4h da manhã).

Banda tocando jazz no Superfine (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Banda tocando jazz no Superfine (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

14h – Se o passeio guiado pelas galerias de arte do Chelsea costuma juntar uns 50 endinheirados moradores de meia-idade de Manhattan, o walking tour para explorar a arte de rua do Brooklyn aglomera uma tribo diferente: uns 10 ou 20 jovens estudantes interessados em acompanhar as tendências desse efervescente pólo artístico. Acontece em Williamsburg, que na última década tornou-se a vizinhança mais hype do Brooklyn, uma caminhada de quase 2 quilômetros e 1h30 fotografando trabalhos efêmeros de artistas como Cernesto, Dain e ROA. “Ensinamos o público a diferenciar grafittis e arte de rua, lambe-lambes e stencils, assim como a reconhecer as assinaturas e adesivos dos autores”, conta Gabriel Schoenberg, guia e sócio-proprietário da Graff Tours.

Grafitti em Williamsburg visitado durante walking tour (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Grafitti em Williamsburg visitado durante walking tour (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

16h30 – Quem estiver em Nova York até 10 de agosto tem um motivo a mais para conhecer o Museu do Brooklyn, um dos maiores e mais antigos do país (foi inaugurado em 1895): ver os últimos dias da exposição do polêmico artista chinês Ai Weiwei, According to what? Entre as 40 peças estão objetos, instalações e esculturas que criticam o governo chinês, lembram os 81 dias do artista preso em 2011 e apresentam os 15 vasos da dinastia Han sobreviventes da série Vasos Coloridos: o 16o, com 2.000 anos e avaliado em 1 milhão de dólares, foi quebrado por um visitante da mesma exposição quando ela esteve no Pérez Art Museum, de Miami, em fevereiro. O artista dominicano autor do protesto quis reproduzir uma performance do próprio Ai Weiwei, que também quebrara um vaso antes.

Peças da exposição de Ai Weiwei no Museu do Brooklyn (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Peças da exposição de Ai Weiwei no Museu do Brooklyn (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

18h – O Museu do Brooklyn faz parte do complexo do Jardim Botânico, do Zoológico e do Prospect Park, que podem compor um bom passeio de dia inteiro. A melhor parada para comer, no entanto, é uma só: o restaurante Saul. A casa do chef Saul Bolton se mudou para dentro do Museu do Brooklyn em 2013 depois de 14 anos no bairro. Sua cozinha contemporânea ostenta uma estrela Michelin. 20h – Um programa de verão bem novaiorquino é trocar o escurinho do cinema pelas telonas ao ar livre. Alguns pontos de Manhattan, como o Bryant Park e o Pier I, ganham centenas de cadeiras para que a sétima arte seja exibida gratuitamente sob plátanos, estrelas e arranha-céus. Mas há um charme todo especial quando os filmes são exibidos no terraço de prédios seculares da cidade, como no da The Old American Can Factory, no Brooklyn. Ainda que pagas, as sessões organizadas há uns 10 anos pela turma do Rooftop Films são um sucesso. Os 45 filmes da agenda 2014 têm abertura de bandas e – algo que não acontece nos cinemas – costumam acabar em balada, com DJs, VJs e venda de drinks. É um jeito original de encerrar os dois dias de circuito artístico da cidade que não para.

Filme exibido no festival Rooftop Films, que acontece no verão (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Filme exibido no festival Rooftop Films, que acontece no verão (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

DICA: Prefere um piquenique à beira-rio? Então caminhe pelo Brooklyn Bridge Park até o píer 5, onde os domingos de verão recebem o Smorgasburg, uma das feiras gastronômicas mais bacanas da cidade. Ela reúne cerca de cem barracas que vendem comida de todo o mundo – de falafel a empanada, de injera etíope a yakissoba. Aos sábados, ela migra para o East River State Park, em Williamsburg. DICA: Com Williamsburg entrando para o mainstream, os preços subiram e muitos artistas migraram para a vizinhança de Bushwick, novo polo de arte de Nova York. No verão, centenas de designers, músicos e performers abrem seus ateliês para visita no Bushwick Open Studios. Mesmo fora dos fins de semana de eventos, o lugar anda efervescente como a Williamsburg de dez anos atrás. DICA: Os jovens novaiorquinos dessa região do Brooklyn ganharam em janeiro uma diversão noturna inusitada: o primeiro lugar da cidade para jogar shuffleboard. Espécie de bocha popular entre os aposentados da Flórida, o jogo ganhou um público descolado no The Royal Palms. O lugar tem um bar bacana e oferece “food truck” de qualidade em um caminhão estacionado ali dentro do bar.   BOX NY: Nos arredores, Dia:Beacon e Storm King

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Obra de Richard Serra exposta na galeria Dia:Beacon (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

A deliciosa combinação de arte e natureza pode ser feita no entorno da cidade para quem tem um ou dois dias a mais: as visitas ao Dia:Beacon e ao Storm King. Desde 2003 o primeiro deles tem transformado a rotina da pequena cidade de Beacon, que fica a 1h20 de trem da Central Station de Manhattan. Só a viagem beirando o Rio Hudson já vale o passeio (compre a passagem integrada com o ingresso do museu e peça, na ida, um assento do lado esquerdo do vagão, com vista deslumbrante). Instalado no prédio de 1929 de uma antiga fábrica dos biscoitos Nabisco que foi reformado para abrigar galerias bem iluminadas, este minimalista museu de arte contemporânea apresenta obras de artistas como Donald Judd e Richard Serra. Do outro lado do rio, em Mountainville, fica o Storm King Art Center, com mais de 100 esculturas ao ar livre no estilo do museu de Inhotim. Dá para chegar ali descendo na estação de Salisbury Mills depois de 1h de trem a partir da Penn Station de Manhattan. É possível comprar um passeio que inclui, além do ingresso e da passagem de ônibus, uma parada nos outlets de Woodbury. Quem estiver de carro pode visitar os dois museus no mesmo dia.   SERVIÇO:   Como se programar: nycgo.com   Onde ficar:

Recepção do Hotel Le Parker Meridien com obra de Demien Hirsch
Recepção do Hotel Le Parker Meridien com obra de Damien Hirst (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

  Le Parker Meridien 119 West 56th Street parkermeridien.com (B D E F N Q R)   The Surrey 20 East 76th Street thesurrey.com (4 5 6)

Hotel The Surrey (com foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Retrato de Kate Moss feito por Chuck Close e exposto no hall do hotel The Surrey (com foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Onde comer 21 21 West 52nd Street 21club.com (E M F B D)   Burger Joint (Le Parker Meridien Hotel) burgerjointny.com (B D E F N Q R)   Café 2/ Terrace 5 (MoMA) momacafes.com (E M F B D)   Saul (Brooklyn Museum) saulrestaurant.com (2 3 4)   Smorgasburg (feiras gastronômicas) smorgasburg.com   Superfine 126 Front Street, Brooklyn Tel. (1) 718 243-9005 (F)   The Modern (MoMA) themodernnyc.com (E M F B D)   O que fazer: Broadway www.broadwaycollection.com (N Q R A C E B D F M)   Brooklyn Bridge Park brooklynbridgepark.org (F R 2 3 A C)   Brooklyn Museum 200 Eastern Parkway,
Brooklyn brooklynmuseum.org (2 3 4)   Carnegie Hall 881 7th Avenue carnegiehall.org (N Q R F)   Cinema nos parques nycgovparks.org/events/free_summer_movies   David Zwirner Gallery davidzwirner.com   Dia:Beacon diaart.org   Gagosian Gallery gagosian.com   Graff Tours (tours de street art) grafftours.com   Lincoln Center 10 Lincoln Center Plaza lc.lincolncenter.org (1 2 A B C D)   Pace Gallery pacegallery.com   Public Art Fund publicartfund.org   New York Gallery Tours nygallerytours.com   MoMA 11 West 53 Street 
 moma.org (E M F B D)   Rooftop Films rooftopfilms.com   Storm King Art Center stormking.org   The Highline thehighline.org (L A C E)   The Queen of the Night Diamond Horseshoe (Paramount Hotel) 235 West 46th Street queenofthenightnyc.com (N Q R A C E)   BOX 2 Pingue-pongue Eduardo Kobra, autor do mural O Beijo, diante da Highline –       Como surgiu seu mural na Highline? Em 2012, uma galeria do Brooklyn me convidou para pintar outro muro da cidade. Mas aí o proprietário desse prédio do Chelsea nos autorizou pintar nesse espaço sensacional diante da Highline de Manhattan. Passei duas semanas trabalhando em escadas enormes, pois o prédio é tão antigo que não seria seguro usar andaimes ou balancinhos. –       Então esta não é uma obra oficial comissionada pela Highline? Não, mas já foi compartilhada pelas redes oficiais da Highline. Muita gente passa ali e comenta sobre o mural. Tenho trabalhos em várias partes do mundo, já expus em Nova York, sou representado pela galeria Unix Art, ali no Chelsea. Mas nenhum trabalho meu foi tão fotografado como este. –       Como é ter uma obra tão popular em uma cidade como Nova York? Sensacional. Nova York é uma cidade icônica no universo do grafitti e da street art, com trabalhos que muito me influenciaram. Meu plano agora é pintar 10 murais em diferentes pontos da cidade. Adoro ficar passeando para escolher quais serão meus próximos muros. – Por que você escolheu esta imagem? Gosto de fazer releituras de imagens antigas e a Times Square sempre me impressionou. “O Beijo” é uma versão daquela famosa foto de Alfred Eisenstaedt que mostra um marinheiro beijando uma moça na Times Square, em 1945, durante a celebração do fim da Segunda Guerra Mundial. __________________________________________________  Código de Ética Same Same: Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista TAM Nas Nuvens do mês de agosto de 2014. Os hotéis Le Parker Meridien e The Surrey nos ofereceram diárias de graça. Jantamos como convidados no Restaurante 21.

Os 17 melhores passeios em Kerala

 

 Foram 17 dias de um fantástico roteiro por terra explorando o extremo sul da Índia. Promovida pelo #KeralaTourism, a expedição #KeralaBlogExpress percorreu, em março de 2014, uma linda rota desde Thiruvananthapuram (mais conhecida pelo apelido curto, Trivandrum), no sul do estado, até Kochi, no norte.

Após viver a intensa e divertida experiência de compartilhar a estrada com os 26 travel bloggers de 14 países que foram eleitos por uma votação no Facebook, fiz uma listinha das 17 coisas mais legais que vivenciei nesses 17 dias em Kerala.

 

1 – Navegar em um barco de transporte de arroz pelos canais das backwaters:

Passeamos pelo Lago Vembanad, comemos bem, tomamos vinho, vimos um lindo pôr-do-sol e dormimos nos houseboats, entre vilas bucólicas e campos de arroz.

 

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2 – Comer com as mãos pratos ricos em especiarias sobre folha de bananeira

Em meio a tantos curries que fazem a fama da cozinha local, aprendi a comer o sadya, usando o pão pappadom para pegar o arroz e o caldo picante de sambar.

 

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3 –       Descobrir a performance de dança, música e mímica do Kathakali

Foi fantástico assistir, desde a maquiagem até o fim do espetáculo, essa tradição Keraliana que existe desde o século 2 e que reproduz lendas do Mahabharatha.

 

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4 –       Assistir às aulas de dança, percussão e make-up na escola Kalamandalam

Preservar a arte e as tradições é coisa séria em Kerala, como notamos ao ver os fantásticos ensaios de tocadores de tambor, dançarinas e alunas de maquiagem.

 

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5 –       Visitar igrejas cristãs que copiam a estética psicodélica de templos hindus

Em Kerala convivem templos hindus, sinagogas e mesquitas. Mas para um cristão o mais curioso foi ver na igreja cristã Jesus entre luzes e cores como se fosse Krishna.

 

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6 –       Ver de perto as redes de pesca chinesa – e quem sabe ajudar a erguê-las

Quando eu fotografava as redes de pesca chinesas que viraram os cartões-postais de Kochi, ponto final da expedição, adorei ser convocado para ajudar a puxá-las.

 

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7 –       Assistir a uma autêntica competição dos longos barcos “snake boats”

Foi superdivertido fazer parte da torcida durante uma tradicional corrida de barcos compridos chamados de “barcos-cobra, com 30 remadores em cada um.

 

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8 –       Assistir a uma luta de Kalaripayattu, arte marcial mais velha que kung-fu

Nascida em Kerala, essa espetacular série de combates existe desde o século 12 e consiste em pontapés, agachamentos e golpes – alguns inclusive usando armas.

 

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9 –       Fotografar macacos a cada esquina – e constatar que eles são abusados

No primeiro momento eles são simpáticos. Mas quando você menos notar, um macaco pega seu lanche – ou invade seu quarto para sequestrar o açúcar do chá!

 

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10 –       Curtir praias habitadas por pescadores tradicionais e gurus mercenários

Em Poovar, adorei ser convidado por pescadores para empurrar um barco ao mar. E na bela Varkala vi sacerdotes cobrarem até 1500 rúpias para abençoar turistas.

 

 

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11 –       Ganhar tinta na testa, colar de flores e coquetéis a cada check-in de hotel: Indianas vestindo saris nos davam as boas-vindas juntando as mãos em prece, dizendo Namastê enquanto sorriam e traziam toalhinhas umedecidas refrescantes.

 

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12 –       Encantar-se com o artesanato produzido e vendido em Kottakkal

Pintura, escultura, tecelagem, cerâmica… Os mais variados tipos de artesanato indiano podem ser conhecidos – e comprados – no Saargalaya Handicraft Centre.

 

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13 –       Ver elefante todo dia, seja ele doméstico, da rua ou selvagem

Raríssimos na América (só os vemos nos zoos), os elefantes circulam por todo canto de Kerala – e foi fácil vê-los na natureza e passeando na rua com turistas.

 

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14 –       Praticar o esporte radical de ser passageiro de um autêntico tuc-tuc

Ainda que o trânsito de Kerala não seja comparável ao de Delhi ou Mumbai, andar de tuc-tuc requer coração forte para encarar desvios brutos e muitas buzinadas.

 

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15 –       Vestir lungi, sari, túnica ou bata indiana para se passar como nativo

Algumas meninas do grupo vestiram saris, uns rapazes compraram lungis. E no jantar final eu e alguns amigos usamos batas idênticas – mas de cores diferentes!

 

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16 –       Tomar chá, andar entre lindas plantações de chá, visitar fábricas de chá

Um das cenas mais impressionantes de Kerala são os mosaicos verdes formados pelas plantações de chá das montanhas de Munnar e Wayanad, em Western Ghats.

 

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17 –       Entregar-se a uma, duas, três massagens na terra da medicina ayurveda:

Sempre que tive oportunidade, recebi tratamentos relaxantes como filetes de óleo quente na testa e massagens na cabeça, nos pés e no corpo todo. Inesquecível.

 

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Código de Ética SS:
Viajei a convite do Kerala Tourism após ficar em 23o lugar entre os bloggers de viagem mais votados do mundo (entre 600 inscritos) no concurso Kerala Blog Express. Os destinos, hotéis e restaurantes ofereceram seus serviços de graça.
Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines, recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas entre São Paulo e Mumbai, via Addis Ababa, na Etiópia. 

Kerala é uma doce “India for beginners”

Gente demais, sujeira demais, barulho demais, assédio demais, informação demais. Se você tem o desejo de conhecer a Índia mas tem receio de se incomodar com essa dura realidade do país, comece por Kerala.

 

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Meu segundo, terceiro e quarto dias estreando nesta tripa de terra que se alonga pelo sudoeste indiano chamada Kerala foram suficientes para eu ter uma primeira impressão radicalmente diferente daquele que experimentei dez anos atrás. Aqui a Índia te recebe sorrindo. O clima de praia deixa todo mundo zen. As pessoas te cumprimentam simpaticamente nas ruas sem querer nada em troca. O excesso de informação visual está aqui como em todo o resto do país – são muitos templos, tuc-tucs, pessoas de testa pintada vestindo roupas coloridas –, mas sem aquela sensação de overdose comum especialmente nas metrópoles do centro e do norte.

 

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Em 2004, Nova Dehli me recebeu com o trânsito mais assustadoramente caótico e barulhento da minha vida (eu ainda não tinha conhecido o Cairo). As ruas eram abarrotadas de lixo, turistas com cara de gringo como eu eram objeto de todo tipo de assédio. Ao final de quase dois meses explorando o Norte (Agra, Varanasi e cidades do Rajastão), terminei a trip em Mumbai (depois de dar um pulo em Goa e no Nepal) incomodado com os mendigos que puxavam meu braço pedindo esmola e os travestis implorando por comida porque são párias excluídos da sociedade.

 

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O lixo e as buzinas também existem nos lugares onde passei até agora, as cidades de Trivandrum, Kovalam, Varkala, Kollam e Kumarakon. Mas a beleza do cenário e o ambiente relaxado fazem o estrangeiro se acostumar com isso rapidamente. Há boas razões para eles serem tão agradáveis. Estamos no estado mais bem-educado do país: 93% dos habitantes sabem ler e escrever. O fato de ter se desenvolvido em meio a mercadores de especiarias e de marfim vindos de toda parte – chineses, árabes, romanos, portugueses… – há mais de 3.000 anos a deixou cosmopolita, acostumada com as diferenças, e pacífica. “No norte, o histórico deixou as pessoas mais duras”, me explicou o sábio Anil Kumar, gerente do Coconot Lagoon, um  rústico (e delicioso) hotel quatro estrelas à beira do rios de Kumarakon. O jantar com ele ontem foi uma aula de história e cultura indianas. E o hotel tem encantadores bangalôs de madeira (com banheiro ao ar livre, sem teto!) diante do lindo lago Vembanad.

 

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Ontem passamos a tarde passeando de barco pelos canais de Kumarakon, vendo a singela vida dos ribeirinhos e conhecendo lindas experiências de turismo comunitário que sustentam 7000 pessoas no estado. Daqui a pouco sigo para mais uma massagem ayurvédica – não vejo a hora – e passaremos a próxima noite embarcados em um dos luxuosos “boat houses” pelas backhouses.

Se eu fosse vocês, não perderia o próximo post.

 

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Código de Ética SS:

Viajei a convite do Kerala Tourism após ficar em 23o lugar entre os bloggers de viagem mais votados do mundo (entre 600 inscritos) no concurso Kerala Blog Express. Os destinos, hotéis e restaurantes ofereceram seus serviços de graça.

Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines (www.ethiopianairlines.com), recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas entre São Paulo e Mumbai, via Addis Ababa, na Etiópia.

O império contra-ataca

Vinte e oito retratos de mulheres e homens comuns vestindo trajes andinos tradicionais fizeram sucesso entre limenhos e estrangeiros, de abril a setembro, que visitaram a MATE, galeria que o fotógrafo Mario Testino abriu em Lima há um ano e meio. Numa alusão provocativa aos ensaios de alta costura que costuma produzir para publicações como Vanity Fair e Vogue, o peruano radicado em Londres batizou a mostra de “Alta Moda”. “Voltei às raízes para explorar a herança do meu país e mostrar ao mundo a riqueza de nossa cultura”, afirmou, satisfeito pelo sucesso da exposição tê-la feito migrar para Nova York, onde vai decorar as salas do Instituto Espanhol Rainha Sofia até 29 de março. A missão de Testino parece estar sendo cumprida: o mesmo requinte da vestimenta dos camponeses de origem inca que ele fotografou na cidade colonial de Cusco ao longo de cinco anos pode ser notado no artesanato e na gastronomia do país, o que tem consagrado o Peru como o destino latino favorito de viajantes em busca de experiências legítimas.

 

Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Localizada a 1 hora de voo de Lima, Cusco tem aquele charme de cidades coloniais como Cartagena e Ouro Preto. Sua Plaza de Armas rodeada por sobrados avarandados típicos da arquitetura espanhola foi clicada por 2 milhões de turistas que ali chegaram em 2012 – mais que o dobro de oito anos atrás. Trajes típicos tais e quais aqueles registrados por Mario Testino continuam sendo orgulhosamente vestidos pela população. No entorno da cidade, que foi a capital do império inca, o mais importante da América do Sul entre 1438 e 1533, o chamado Vale Sagrado exibe uma série riquíssima de sítios arqueológicos, entre os quais se destaca o mais famoso do continente, Machu Picchu. Mesmo sem shopping-centers, parques temáticos ou atrativos artificiais,  Cusco vê sua infra-estrutura de turismo ganhar cada vez mais novos hotéis, restaurantes e museus. Com uma peculiaridade: a maioria dos investimentos foca no turismo de primeira linha.

 

Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

É na hotelaria que essa vocação para atender o viajante exigente fica mais evidente. Em 2013,  o Palácio del Inka, que surgiu nos anos 1980 sob a bandeira Libertador como o primeiro cinco-estrelas da cidade, entrou para a rede Luxury Collection Hotel depois de uma reforma de 15 milhões de dólares. Com quadros originais da famosa Escuela Cusqueña nas paredes, tetos pintados à mão e muros incas originais em sua estrutura, ele pertence ao seleto grupo de seis hotéis top que se destacam entre as 94 hospedarias de Cusco. “A elitização do turismo no Peru começou há apenas 10 anos e aconteceu ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a valorizar os destinos mais autênticos”, explica Patricio Zucconi Astete, veterano do turismo local. Ele gerencia atualmente o Miraflores Park, de Lima, unidade da rede de luxo Orient-Express, que detém na região de Cusco nada menos que 4 unidades para hospedagem de alto nível.

 

Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

No primeiro semestre de 2013, uma comitiva de 60 hóspedes da TV Globo escolheu o mais pomposo deles, o Monastério, um antigo mosteiro do século 17, para abrigar o elenco e a equipe de apoio da novela Amor à Vida. Nos jantares, Paolla Oliveira e seus colegas puderam assistir às apresentações de ópera que tinham no elenco Angela Merina, respeitada como melhor soprano do Peru. Mais moderno, o vizinho Palácio Nazarenas conta com habitações com chão do banheiro aquecido e oxigênio para amenizar o desconforto da altitude – Cusco está 3400 metros acima do nível do mar, 2500 metros mais alta que São Paulo. Único hotel que desfruta do privilégio de ficar a 20 passos da entrada de Machu Picchu, o Sanctuary Lodge costuma ter uma taxa de ocupação invejável, com média anual de 80 por cento (o que significa que mesmo na temporada das chuvas, de novembro a março, o movimento continua intenso). Mas é na viagem de trem de luxo entre Cusco e Machu Picchu que está o créme de la crème da grife: a jornada dá direito a jantar, vinhos e espumantes, aulas de pisco sour e música ao vivo no trem Hiram Bingham ­– batizado em homenagem ao americano que, em 1911, descobriu Machu Picchu.

 

Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Vem das relíquias encontradas pela equipe de Bingham, por sinal, outra das boas novidades de Cusco: o museu Machu Picchu Casa Concha. Inaugurado em 2011, ele conta com 366 peças arqueológicas incas que estiveram por um século no Museu de História Natural de Peabody, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. E soma-se a outros museus de boa curadoria da cidade, entre eles o de Arte Precolombino, que pertence ao grupo do Museo Larco, de Lima, dono da mais fina coleção de objetos de cerâmica, ouro e prata do Peru antigo. Suas peças inspiram o trabalho da designer de jóias  Maria Elena Guevara, proprietária da Inka Treasure, rede com nada menos que 9 joalherias em Cusco. “O Peru é o segundo maior exportador de prata do mundo, só perde para o México”, explica. “Temos o privilégio de trabalhar com a prata de melhor qualidade, além de pedras raras do país, como as de crisocola, a turquesa peruana”, conta a empresária, que já atendeu clientes como Bill Gates, Dalai Lama e Antônio Fagundes. Uma estátua de um guerreiro mochica que brilha em uma de suas vitrines e levou 3 meses para ser esculpida não sai por menos de 8.500 dólares.

 

Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Por preços menos salgados que os de São Paulo ou Rio de Janeiro, os bons restaurantes de Cusco são exemplos da gastronomia mais respeitada da América Latina na atualidade. Embora já seja sócio do Chicha, considerado o melhor restaurante da cidade, o embaixador da culinária peruana Gastón Acurio se prepara para abrir uma segunda casa em breve. Ele é o dono do Astrid & Gastón, de Lima, que em setembro renovou seus louros como o número 1 entre os 50 melhores da América Latina segundo os críticos da revista inglesa Restaurant. Hoje é difícil jantar sem reserva no Chicha, que tem esse nome em homenagem a uma bebida de origem inca, normalmente feita de milho fermentado. Uma vez à mesa, os comensais degustam receitas desenvolvidas com técnicas andinas e asiáticas. Os ceviches abrem o paladar para clássicos como o anticucho – ou espetinho ­– de coração de vaca e o lomo saltado, filé de carne frito no estilo chinês.

 

Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Mas é no vestuário que os turistas – 126 mil deles vindos do Brasil, segundo dados de 2012 da PromPeru, órgão governamental que promove o turismo do país – investem seus soles com maior custo-benefício. É claro que os gorros, suéteres e cachecóis coloridos, como aqueles clicados por Mario Testino, podem ser encontrados em cada esquina com tecidos e preços populares. Quem visita lojas locais renomadas como a Sol Alpaca e a Golden Alpaca, no entanto, descobre que vale a pena pagar mais pelos raríssimos tecidos de vicunha ou de baby alpaca – esses feitos da lã dos filhotes de alguns dos bichos mais avistados nessas alturas dos Andes. “Um gorro de qualidade não vai custar menos que uns 50 reais, mas vale a pena”, atesta a advogada Thalita Rosa, que viajou com o namorado, o engenheiro Mateus Carmona, em junho. “Contratamos um motorista exclusivo para explorar os arredores, comemos muito bem e ficamos fascinados com a riqueza das tradições do Peru”, conta Thalita, que voltou de viagem com outra recordação mais que especial. Foi nas alturas do Wayna Picchu, a maior montanha diante de Machu Picchu, que Matheus lhe surpreendeu com um par de alianças e um pedido de casamento. E deixou a experiência de conhecer o Peru ainda mais inesquecível.

 

Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)
Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)

 

Para ver a reportagem como publicada na Veja Luxo, inclusive com fotos de Mario Testino, baixe o PDF.

 

SERVIÇO:

CHICHA: www.chicha.com.pe

GOLDEN ALPACA: Plaza de Armas, 151, tel. +51 84 25-1724

INKA TREASURE: www.incatreasure.com.br

MACHU PICCHU: www.machupicchu.gob.pe

MATE (LIMA): www.mate.pe

MIRAFLORES PARK HOTEL (LIMA): www.miraflorespark.com

MONASTÉRIO: www.monasteriohotel.com

MUSEU DE ARTE PRECOLOMBINO: www.map.museolarco.org

MUSEU MACHU PICCHU CASA CONCHA: www.cuscoperu.com

PALÁCIO DEL INKA: www.starwoodhotels.com

PALÁCIO NAZARENAS: www.palacionazarenas.com

SANCTUARY LODGE: www.sanctuarylodgehotel.com

SOL ALPACA: www.solalpaca.com

TREM HIRAM BINGHAM: www.orient-express.com

Renascida das ondas

Aconteceu em 2547. Uma onda de 30 metros de altura ergueu-se no litoral do antigo Reino do Sião e avançou terra adentro. Destruiu casas, afogou pessoas, engoliu o que viu pela frente — e de forma tão avassaladora que pareceu deixar o lugar irrecuperável. Descrito assim, parece até uma lenda remota. Mas o ano de 2547 da era budista equivale ao 2004 do calendário gregoriano ocidental, e o velho Sião nada mais é que o atual Reino da Tailândia, onde morreram 8 mil vítimas do gigantesco tsunami do Oceano Índico – entre eles, 2 mil turistas de 16 países.

 

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Nove anos se completaram no último dia 26 de dezembro de 2013 – ou de 2556, como preferem os súditos do rei Bhumibol Adulyadej, no trono desde 1946. E, para surpresa dos visitantes que têm desembarcado anualmente no antes devastado litoral sul do país (mais de 5 milhões de pessoas, um recorde nunca atingido antes da tragédia), a região parece absolutamente recuperada. Sua nova face é fundamental para que a Tailândia, que já recebe 19 milhões de estrangeiros por ano, dobre até 2016 os dividendos trazidos pelo turismo.

Busquei evidências dessa renovação desde que pousei, em junho, vindo da capital Bangcoc, no aeroporto de Phuket, principal base para explorar as idílicas praias tailandesas. Já no caminho para o hotel percebi que a cidade que me recebia com sorrisos não mais chorava seu passado triste. Os pontiagudos templos e imagens de Buda se exibiam aqui e ali, turistas chineses e americanos aproveitavam os preços baratos do comércio para encherem suas sacolas com roupas e artesanato nos arredores da agitada praia de Patong, outdoors anunciavam brutas lutas de muay thai e delicadas apresentações de dança e música típicas.

 

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Em meio a muitas obras pelas ruas, a hotelaria se renovou de forma a não preservar qualquer resquício dos tempos de abalo – quando seis da cada dez hotéis desapareceram em praias como Khao Lak e Ko Phi Phi (esta última celebrizada mundialmente pelo filme A Praia, protagonizado por Leonardo Di Caprio). Com cerca de 50.000 leitos na região de Phuket, os hotéis disputam qual é o mais cênico e original, qual ostenta mais luxo, qual traduz melhor a alma exótica e tropical da Tailândia.

 

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No alto dos abismos da Baía de Kamala, o staff do exclusivíssimo hotel Paresa nos recebeu com água de coco gelada e toalhinha refrescante no check-in – além de 270 graus de visão do Mar de Andaman. Seu azul se confundia com o das piscinas de vista infinita (presentes na maioria das 49 acomodações, assim como as máquinas de café expresso e os tocadores de mp3). O spa, naturalmente, oferecia o que a Tailândia tem de melhor: suas massagens incríveis. E, em meio ao cenário vertiginoso avistado de qualquer parte, um conforto especial: estar a uma altura que tsunami algum alcançaria.

 

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O ambiente desse e do outro hotel chique que eu conheceria – o premiado The Sarojin, na província vizinha de Phang Nga – não esconde ter sido pensado especialmente para casais em lua de mel (7% dos turistas do país). No The Sarojin, tudo inspira romantismo. A começar da iluminação dos restaurantes: um deles tem pé-na-areia e apresentações culturais noturnas à luz de tochas, outro fica colado a um bar com degustações de surpreendentes vinhos tailandeses. Os terraços contam com piscinas privadas. E, orgulho nacional, a gastronomia tailandesa mescla com perfeição os sabores salgado, doce, azedo e picante em receitas que usam e abusam de curries, coco, capim-limão – vale a pena investir em algumas das aulas de culinária oferecidas nos hotéis.

 

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Por mais simpáticos que sejam os funcionários dos hotéis e restaurantes, eles jamais se arriscam a falar a palavra “tsuna…”. Por culpa do dito cujo, todo mundo perdeu alguém querido. Os turistas respeitam. E deixam para trocar ideias sobre os bons prazeres dos mergulhos nas ilhas Similan e Surin, as escaladas em rocha em Krabi, os passeios de caiaque e escuna entre as cavernas marinhas e altas rochas da Baía de Phang Nga (onde fica a ilhota onde foi gravado 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro) ou os passeios em lombo de elefantes, animal reverenciado nacionalmente por ser símbolo de sabedoria e força. Não são poucos os relatos, por sinal, desses mamíferos emitindo sons estranhos de alerta ou fugindo para o alto das montanhas horas antes da chegada do tsunami de 2547 – ops, de 2004 –, em uma suposta evidência de que teriam sensibilidade para captar com antecedência as vibrações de terremotos como os que originaram aquele tsunami.

 

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Quase uma década depois do susto, os elefantes do litoral tailandês caminham em paz e são bem treinados para divertir os turistas – o meu nem se importou de cruzar um riacho e me dar um belo banho. Nas ruas do centro ou nas vilas de pescadores, só o que faz lembrar a tragédia são os alto-falantes e placas que orientam rotas de fuga para o caso de – toc, toc, toc – algo parecido voltar a ocorrer. Em todos os dias em que viajei por ali, a única lembrança física que encontrei (além das reconstruções impecáveis da infraestrutura turística) foi um simplório memorial do tsunami erguido em torno de um barco policial que foi empurrado a quase 2 quilômetros da praia de Khao Lak.

Felizmente, do mesmo jeito que veio, a onda se foi. E as praias da Tailândia, agora voltadas para o futuro, continuam a encantar seus visitantes.

 

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MEMORIAL Única lembrança do tsunami de 2004 facilmente visitável a partir da praia da Khao Lak, o barco policial 813 Buretpadungkit foi empurrado a quase 2 quilômetros da praia. Hoje, diante dele, uma barraca despojada vende livros e exibe placas recontando uma das maiores tragédias da história recente da humanidade, que matou 230 mil pessoas em 14 países.

 

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ONDE FICAR   PARESA Resort de luxo localizado no alto do morro na Baía de Kamala, com visão panorâmica do mar e dois restaurantes. Incríveis piscinas de vista infinita. 49 Moo 6, Layi-Nakalay Road, Kamala Kratu, tel. +66/76 30-2000, paresaresorts.com   THE SAROJIN Térreo, de frente para o mar, o hotel cinco estrelas fica na Baía de Phang Nga e também conta com dois restaurantes. Fácil acesso para pontos de mergulho. 60 Moo 2, Kukkak, Takuapa, tel. +66/76 427-9004  

ONDE COMER RAYA THAI CUISINE Despojado restaurante familiar de comida típica tailandesa localizado em um sobrado de arquitetura sino-portuguesa. Capricha nos frutos do mar. 48 New Debuk Rd., Muang Phuket, tel. +66/76 23-2236  

ONDE PASSEAR SEA CANOE Passeios de barco e de caiaque feitos a partir de Phuket que exploram a Baía de Phang Nga e a região de Krabi. 125/461 Moo 5, T. Rassada, A. Muang, tel. +66/76 5288-3940, seacanoe.net  

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Embaixada Real da Tailândia – thaiembassybrazil.com; Tourism Authority of Thailand – tourismthailand.org

A cidade floresce

O espetáculo do encontro dos rios Negro e Solimões. O fantástico Teatro Amazonas, palco de disputados recitais de ópera. E só. Depois de cinco anos sem aterrissar em Manaus, eu achava que estes ainda fossem os dois passeios bacanas que um forasteiro tinha para explorar no principal portal da Amazônia brasileira. Ledo e delicioso engano. Bastou o fotógrafo Adriano Fagundes e eu sairmos do Eduardo Gomes, o aeroporto internacional, e entrar no carro do Leleco, nosso amigo carioca que adotou como sua a capital do Amazonas, para começar a sucessão de boas surpresas enquanto rodávamos pela cidade. “Uau, que ponte estaiada é aquela sobre o Rio Negro? Olhem quanta gente praticando stand-up paddle no rio! Que bacana estão a ciclovia e o calçadão de Ponta Negra…” Leleco respondia apontando mais novidades: “Ali fica o estádio da Copa do Mundo,  o Arena da Amazônia. Para lá está um dos shoppings recém-inaugurados. Por aqui se chega a um hotel de golfe aberto há 3 anos…” Nosso anfitrião tinha uma proposta de agenda tentadora: como não estávamos na época baixa dos rios (julho a fevereiro), quando surgem as belas praias de água doce, iríamos a alguns restaurantes de comida amazônica contemporânea, ao ensaio para o festival de Parintins e optaríamos entre degustar alguns dos 900 rótulos da Cachaçaria do Dedé ou uns drinques no O Chefão, transado bar do Centro Histórico inspirado no filme O Poderoso Chefão. Mal tínhamos começado a suar com o calor de mais de 30 graus daqueles trópicos e já notávamos que Manaus não era mais a mesma. Em pouco mais de meia década, havia aprendido a reciclar a riqueza dos rios e da floresta à sua volta para se transformar em uma metrópole com mais qualidade de vida, autêntica, cosmopolita e surpreendente.

A nova ponte estaiada da capital
A nova ponte estaiada da capital

O URBANO NA SELVA É claro que a capital do estado do Amazonas nunca perdeu sua vocação de ponto de partida para mais de uma dezena de bons hotéis de selva. A poucas horas da metrópole de 1,8 milhão de habitantes estão as principais bases para explorar a floresta com árvores de mais de 30 metros de altura e os rios de margens inalcançáveis, habitados por piranhas com dentaduras ameaçadoras, botos tucuxi saltitantes e jacarés gigantescos. Nós mesmos encerraríamos nossa jornada tendo contato com toda essa fauna em três dias intensos no mais badalado deles, o Anavilhanas Lodge, a 180 quilômetros de Manaus. O percurso leva 2h30, 2 horas a menos do que as 4h30 necessárias antes de  serem inaugurados, em 2011, os 3,6 quilômetros do novo cartão-postal da cidade, a Ponte Rio Negro. A construção da maior ponte fluvial e estaiada do Brasil acabou com a necessidade de uma balsa para cruzar o rio, facilitando o acesso ao hotel e a toda a região turística de Novo Airão, base para conhecer o arquipélago de Anavilhanas, formado por mais de 400 ilhas. Com 16 chalés, quatro bangalôs e acesso wi-fi até na área da piscina de borda infinita, o único hotel da rede Roteiros de Charme no Norte do país virou exemplo de hospedaria tão bem estruturada que atrai até aquele turista urbanóide que não consegue se desconectar da metrópole mesmo estando no meio do mato. Mas o caminho contrário, com a realidade da floresta invadindo o ambiente urbano, é o fluxo mais recente em Manaus. Graças ao resgate das raízes amazônicas promovido pela juventude local, certas preciosidades culturais estão mais acessíveis dentro da própria capital.

Um dos quartos do Anavilhana Lodge, em Novo Airão
Um dos quartos do Anavilhanas Lodge, em Novo Airão

MENU AMAZÔNICO Com apenas 27 anos, o catarinense radicado em Manaus Felipe Schaedler é o melhor representante da geração que tem transformado a exuberância da selva em atrativo de primeira linha na cidade. Felipe e seu empreendimento, o Banzeiro, ganharam os prêmios de chef e restaurante do ano em 2011 e 2012, segundo a revista Veja Comer & Beber – Manaus. Curioso, Felipe costuma partir em expedições à floresta explorando ingredientes para suas criações gastronômicas. No ano passado, o mestre-cuca foi condecorado pela própria presidente Dilma Rousseff, em Brasília, com a Ordem do Mérito Cultural. “Minhas influências são caboclas e indígenas”, define ele, que vive na cidade desde os 16 anos. “Amo Manaus e daqui não saio.” Sua paixão pelo ambiente selvagem está evidente na decoração da casa, localizada no bairro de Nossa Senhora das Graças, e inclui uma canoa típica pendurada na parede, lustres feitos de fibras naturais e fotos de ribeirinhos clicadas pelo próprio chef. Dos dadinhos de tapioca servidos na entrada às suas premiadas costelas de tambaqui, finalizando no petit gateau recheado de cupuaçu, todas as delícias que experimentamos ali têm uma pitada de Amazônia.

Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica da cidade
Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica

Não é só no templo do chef mais badalado de Manaus, porém, que a nova cozinha da Amazônia viria a se revelar para nós. O sushiman Hiroya Takano, do restaurante Shin Suzuran, em Vieiralves, surpreende usando peixes de rio em suas criações. “Para realçar o sabor, ralo pimenta murupi sobre o sashimi de tucunaré e mergulho o pirarucu no missô com castanhas por um dia inteiro”, conta. Sem nada de moderno – mas com uma fartura única ––, o Chapéu de Palha da Benção sustenta esse nome em função das formas do telhado, feito com trançado típico a mais de 12 metros de altura. “Fiquem à vontade para se servir em nosso bufê com mais de dez espécies de peixes de água doce”, nos diria o  proprietário, o evangélico Manoel Pestana. A comida, simples e saborosa, parece realmente abençoada.   TACACÁ MUSICAL Antes de chegar às boas mesas manauaras, todo esse quase exótico universo de pescados, pimentas, ervas e frutas costuma colorir e aromatizar os corredores do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Erguido em 1883, a construção art nouveau de ferro beira o Rio Negro justamente no ponto de onde saem os clássicos passeios de barco que mencionei no início do texto: em uma hora, as embarcações atingem o ponto onde as águas amarronzadas do Solimões – extensão do Amazonas, o maior rio do planeta – ladeiam, sem se misturar, as escuras correntes do Negro. Se você, como nós, já teve esse prazer, invista nas bancas do mercado, com todo tipo de farinha de mandioca (seca, d’água, de tapioca, Uarini…), todo um novo alfabeto de frutas (abiu, camu-camu, taperebá, uxi…) e ervas que, dizem, levantam até defunto. “Em 56 anos trabalhando com isso, aprendi as propriedades curativas de cerca de 1000 plantas”, orgulha-se a simpática Dona Judith Formoso, 77 anos. Delícias de rua como o x-caboclinho (sanduíche com lascas de uma fruta chamada tucumã e queijo coalho), o famoso tacacá (aquele caldo de tucupi com goma de tapioca, folhas de jambu e camarão seco) e o açaí (aqui comido salgado, com farinha) também podem ser provados por ali mesmo – embora se espalhem também pelo entorno do Largo de São Sebastião, a mais famosa praça da cidade, diante do Teatro Amazonas. Nas noites de quarta-feira, de abril a dezembro, o ilustre Tacacá da Gisela mescla seus sabores amazônicas com boa música no chamado Tacacá na Bossa. Até Ed Motta já deu uma canjinha entre os músicos que se apresentam.

Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus
Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus

ÓPERA INDÍGENA Coração cultural de Manaus, o entorno do teatro abriga boas lojas de artesanato dos índios da Amazônia, sorveterias incríveis, o quarentão Bar do Armando e o frescor do Boutique Hotel Casa Teatro, aberto há um ano e meio em um dos fantásticos casarões históricos do Centro. E ganha um glamour único entre abril e maio. É quando o Teatro Amazonas abriga o Festival Amazonas de Ópera, o único do gênero na América Latina. Em 2013, foram 33 atrações ao longo de 45 dias. “É uma honra difundir a música erudita para a gente da minha cidade”, diz a soprano Carol Martins, 31 anos, solista da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi. No encerramento do 17o festival, em maio, ela também cantou na ópera O Morcego, de Johann Strauss Filho, que reuniu 15 mil pessoas ao ar livre, no Largo de São Sebastião, diante do teatro, mesmo debaixo de chuva. A tradição das óperas nesse peculiar teatro com uma bandeira do Brasil na cúpula vem do século 19, tempo em que Manaus virou uma espécie de Paris das Selvas em função de toda a fortuna que circulava na cidade. Foi graças à exploração massiva da borracha de seus seringais que a cidade inaugurou, já em 1896, um teatro daquele porte. Tão portentosos quanto as óperas, mas bem mais populares, são os ensaios para o Festival Folclórico de Parintins, que chegam a arrastar cerca de 10 mil pessoas ao Centro de Convenções de Manaus, o chamado Sambódromo, e à Arena do Hotel Tropical de março a junho. Embora a grande festa do boi, com temática inspirada em lendas indígenas e costumes ribeirinhos, aconteça a distantes 370 quilômetros dali e só por três dias do mês de junho, partem da capital do estado cerca de 50 mil pessoas que ajudam a fazer a festa dos bois Garantido, o vermelho, e Caprichoso, o azul. A vibração do público e as alegorias fantásticas de personagens míticos da floresta, como a índia mais bela e o poderoso pajé, convencem qualquer viajante a querer estar, ao menos uma vida, na festa do boi de Parintins.

Show no  Jack’n’Blues Snooker Pub
Show no Jack’n’Blues Snooker Pub

A BIENAL DA MATA Em julho, os ouvidos dos manauaras buscam outro ritmo: o de jazz. O 8o  Festival Amazonas de Jazz mobilizou, em 2013, 60 músicos tanto na capital quanto no município vizinho de Manacapuru, a 70 quilômetros. O jazz, por sinal, tem espaço cativo na agenda de entretenimento da cidade: assistimos um belo show no Jack’n’Blues Snooker Pub, no agitado bairro noturno de Vieiralves, e uma jam session de primeira linha na Universidade do Estado do Amazonas – UEA, com direito a performance da artista Hadna Abreu pintando um quadro enquanto a banda tocava. Hadna tem 24 anos e exibe sua primeira mostra individual na Galeria do Largo, diante do teatro Amazonas, até 15 de setembro. “Me inspirei na estética dos meus avós para criar personagens fantásticos que interagem com árvores e pássaros do ambiente amazônico.”

 

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Grafitti em muro diante do sambódromo

 

O mesmo resgate das raízes culturais e históricas realizado com sucesso pelos espetáculos de ópera e do boi começa a ser trilhado também pelas artes plásticas. Como se não bastassem os belos grafites pelas ruas da cidade – como os lambe-lambes de Hadna, colados com goma de tapioca ­–, ainda em 2013 Manaus planeja ser a principal sede da Amazônica I, primeira bienal de artes visuais do estado. “Com base no sucesso do formato da megaexposição Documenta, em Kassel, na Alemanha, criamos uma mostra descentralizada, espalhada por diferentes pontos da cidade e do estado”, diz Cléia Vianna, comandante da Galeria do Largo e uma das organizadoras do evento. “Teremos desde desenhos de Di Cavalcanti até obras de novos artistas locais”, conta. Mais um exemplo de como os habitantes de Manaus aprenderam a beber da fonte natural e cultural da grande floresta que os circunda.

 

SERVIÇO:

amazonasfestivalopera.com amazoniagolf.com.br anavilhanaslodge.com arenadaamazonia.com.br restaurantebanzeiro.com.br www.casateatro.com.br cachacariadodede.com.br festivalamazonasjazz.com.br parintins.com suzuran.com.br tropicalmanaus.com.br visitamazonas.am.gov.br

Jardim do Éden

Respirei fundo, olhei para o alto, apertei as fivelas da mochila com 12 quilos de carga e comecei a subir. A ladeira desaparecia montanha acima e o suor do meu rosto se misturava aos respingos do Passo das Lágrimas, um trecho da trilha banhado pelas gotas de uma cachoeira que começava no alto dos paredões de pedra com 800 metros de altura e, dispersa pelo vento, quase não tocava o chão. Estávamos no terceiro dia de um trekking planejado para durar uma semana, e havia 4 horas que eu usava pernas e braços para seguir despenhadeiro acima, me apoiando nas árvores daquele bosque espetacular. Mal acreditei quando meu grupo atingiu a superfície plana do topo, a quase 3 mil metros de altitude, em meio a nuvens que davam um ar misterioso àquele cenário raro. Entre as rochas estranhas do Monte Roraima eu notei que, na escalada de um tepui, alcançar o cume não significa chegar ao fim da linha. Aquele era, sim, o verdadeiro início de uma exploração.

 

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A aventura havia começado bem antes daquela pirambeira decorada por bromélias, orquídeas e espécies de plantas que só existem naquele pedaço pitoresco do planeta ― a região da Gran Sabana, onde o Norte do Brasil faz divisa com a Venezuela e a Guiana. Havíamos voado de Manaus para Boa Vista, capital do estado de Roraima, a tempo de participar, 24 horas antes da partida, de um briefing dos 12 expedicionários do nosso grupo (cinco homens e sete mulheres). De lá, cruzamos de carro a fronteira venezuelana, após 3 horas de viagem, até encontrar, na cidade de Santa Elena de Uairén, nossos dois guias locais, Leo Tarolla e Tirso Leiva. “Mais 1h30 de carro, dessa vez em veículos 4×4 por estrada de terra, e chegaremos ao povoado de Paraitepuy”, avisou Leo, um grandalhão místico que há oito anos conduz andarilhos ao cume. Ponto de partida para os clássicos trekkings de seis, sete ou oito dias pelo Monte Roraima, o vilarejo abriga um posto do Inparques, órgão venezuelano que administra o Parque Nacional Canaima ― onde está o único acesso conhecido ao morro, pelo lado sul. Registrada nossa entrada, conhecemos alguns dos 300 moradores indígenas do lugar, os chamados pemons, todos da etnia taurepang. Oito deles seriam responsáveis por carregar nossas barracas e preparar nossa comida. Pé ante pé, iniciamos os 15 quilômetros do primeiro dia.

 

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Tanto os taurepangs como os índios de outras etnias da região ― como os macuxis e os ingarikós ― acreditam que o Monte Roraima é o lar do deus Makunáima (mito que inspirou o escritor paulista Mário de Andrade a criar seu famoso personagem Macunaíma). Visto de Paraitepuy, que fica a 1.300 metros de altitude, o suntuoso Roraima impõe respeito com seus 34 quilômetros quadrados como se fosse uma divindade: distante, alto demais, aparentemente inalcançável ― tanto que só no fim do século 19 ele foi explorado pela primeira vez. Trata-se de um legítimo tepui, assim como o vizinho Kukenan e outras 20 formações do parque. Tepuis são mesetas com paredes abruptas e topos achatados reconhecidas como as formações expostas mais antigas da Terra: datam do período pré-cambriano, que se iniciou há 4,5 bilhões de anos. Sua aparência pré-histórica inspirou relatos como o do livro O Mundo Perdido, escrito há um século pelo escocês Arthur Conan Doyle (criador do detetive Sherlock Holmes), e serviu como cenário para a série Jurassic Park e a animação Up Altas Aventuras.

Embora nosso imaginário esperasse encontrar logo aquele território de outro planeta, onde um dinossauro poderia surgir a qualquer momento por trás das brumas constantes, não foi isso o que os dois dias iniciais nos reservaram. Os sobes e desces eram suaves, bucólicos riachos apareciam a cada hora, uma igrejinha cuidada pelos pemons decorava a savana e o céu azul com sol de menos de 30 graus desmistificou a fama de lugar com temperatura inconstante e imprevisível: até o arco-íris deu as boas-vindas aos 70 viajantes que partiram da vila indígena naquele sábado, dia 29. Tanto o primeiro pernoite, à beira do Rio Tök (lê-se “Tek”), quanto o segundo, depois de mais 8 quilômetros, no Acampamento Base, a 1.850 metros de altitude, também foram relativamente confortáveis (apesar dos persistentes insetos chamados puri-puris). Em barracões cobertos, os jantares e cafés da manhã incluíram trutas, massas, sopas e arepas venezuelanas ― “o melhor da autêntica comida roraimera”, como brincou o carismático guia Tirso, que celebrava sua 30a ida ao topo. Riachos de água gelada para o banho não ficavam distantes. E até os “banheiros” funcionaram com uma lona ou uma barraca protegendo a intimidade ― luxo que não teríamos no cume. Todos os dejetos orgânicos e o lixo produzido na excursão seriam transportados de volta pelos carregadores, no final do passeio, até sua aldeia.

 

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Cenário jurássico

Até que chegou o terceiro dia, o do Passo das Lágrimas, demandando uma “escalaminhada” quase vertical sobre pedras escorregadias à beira do paredão rochoso. Toda a expectativa para descobrir o que havia no topo, a mais de 2.700 metros, se transformou em estupefação. Surgia diante de nós um reino de vastidão, silêncio, delicadeza. As enormes rochas erodidas se assemelhavam a rostos de guardiões indígenas (a primeira delas, segundo os nativos, era o próprio Makunáima), a naves espaciais, castelos mágicos, cachorros bravos como os do filme Up, aos pterodáctilos de Jurassic Park. Em vez de uma floresta tropical verde e alta, a vegetação surpreendia com esparsas árvores baixas e de troncos retorcidos. E, na hora de caminhar por mais 1h30 rumo ao nosso QG das próximas três noites, então em um terreno escuro e plano, composto por quartzito e arenito, uma constatação: tão impactante quanto as rochas de formas surreais que víamos ao olhar para cima era o maravilhoso universo das pequenas coisas que se multiplicavam aos nossos pés. Flores minúsculas, semelhantes a mandalas psicodélicas, liquens e fungos de todas as cores, miniplantas carnívoras e insetívoras, com tentáculos cheios de detalhes, e até um sapinho preto, menor que um dedão, chamando a atenção como uma das espécies que só existem ali.

Nossa virada de ano no platô do Monte Roraima seria uma experiência única. Naquelas alturas, os grupos de campistas se abrigam das garoas constantes em cavernas e grutas curiosamente apelidadas de “hotéis”. Tem o Hotel Índio, o Sucre, o Basilio… Ficaríamos no Guácharo, batizado assim em homenagem a um pássaro local de hábitos noturnos ― e nome também da longa caverna que exploraríamos, nos arrastando como minhocas, dois dias depois. Quando o pôr do sol já dourava os paredões dos abismos diante de nós e a temperatura despencava de mais de 20°C para perto de zero grau, os mais corajosos ainda tomaram banho em uma das lagoas congelantes dos arredores. Os menos exigentes se contentaram com a higiene à base de lenços umedecidos. Ceia especial, um minúsculo champanhe bebericado por umas 20 bocas, abraços e desejos de feliz ano-novo. Nada de barulheira ou fogos de artifício. “Hoje somos da mesma família”, disse Teodoro Pérez, um simpático pemon de 50 anos que desde os 15 leva turistas ao monte. Suas duas filhas e outras duas parentes que integravam nosso staff entoaram algumas belas canções indígenas. Respondemos com dois ou três sambinhas. E, por volta de 10 horas da noite, sob uma bela lua cheia e um céu incrivelmente estrelado, todo o nosso grupo de pernas cansadas já dormia profundamente nas barracas.

 

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Feliz ano-novo

Acordar com o brilho do sol, entre 5 e 6 horas da manhã, foi uma rotina naqueles sete dias ― assim como dormir logo depois de cair a noite, entre 20 e 21 horas. Quanto mais andávamos no quarto e quinto dias, já na extensa planície, mais lugares incríveis conhecíamos. Vimos beija-flores, gaviões, cobras, aranhas, lagartos. E nos 24 quilômetros percorridos no primeiro dia do ano, trilhamos caminhos repletos de milhões de cristais de quartzo, mergulhamos nas águas amareladas do El Foso e atingimos o chamado Ponto Triplo. É onde um monumento demarca as fronteiras entre Venezuela (que tem 80% do Monte), Guiana (com 15%, ainda que sob contestação dos venezuelanos) e Brasil (com apenas 5%, onde o Parque Nacional do Monte Roraima brilha como um raro trecho do país situado acima da Linha do Equador, já no Hemisfério Norte). Se nosso roteiro fosse o de oito dias, teríamos ido além do incrível labirinto de pedras daquele dia, chegando até o chamado Hotel Coati para conhecer o abismo da Proa, no extremo norte do maciço, assim como o Lago Gladys (nome dado a uma das filhas do índio Teodoro). Não menos belas foram as paradas durante os 6 quilômetros do dia seguinte: o mirante La Ventana, onde uma sequência de arco-íris encantou a todos; as piscinas naturais denominadas “Jacuzzis”, com fundo forrado de cristais; a delicada cascata do Salto Catedral; e La Ventana de Kukenán (de onde se vê a cachoeira dos sonhos do velhinho Carl Fredricksen, do filme Up).

Como as espessas nuvens do Monte Roraima cobriram a Pedra Maverick, ponto mais alto já medido naquela montanha, o grupo ― bem sintonizado, depois de uma semana na trilha compartilhando bolhas nos pés e histórias de vida ― decidiu que a conquista da rocha em forma de carro ficaria para o dia seguinte. Acordaríamos de madrugada e subiríamos ao cume, a 2.810 metros de altitude, antes de iniciar a temida descida de volta. O tempo extra no entardecer alaranjado seria útil para descansar as peP1160622rnas, que seriam bastante exigidas ao trilharmos em dois dias os 28 quilômetros feitos em três dias na subida, completando 98 quilômetros de trekking. E foi a oportunidade perfeita para que cada um pudesse contemplar, pela última vez, as plantas minúsculas, as pedras surreais e os misteriosos penhascos do templo de Makunáima.

 

 

 

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INFO: Roraima Adventures ― Rua Coronel Pinto, 86, Sala 106, Boa Vista, tel. 3624-9611, roraima-brasil.com.br; Inparques ― inparques.gob.ve

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Hotel Euzebio’s ― Rua Cecília Brasil, 1.517, Boa Vista, tel. 2121-0300, hoteleuzebios.com.br

Gelo à vista

As boas-vindas não parecem lá muito amigáveis. “Quatro questões jamais devem ser feitas a bordo: para onde vamos, quando chegaremos, por quanto tempo permaneceremos ali e como estará o clima.” Disparadas à queima-roupa logo após o embarque, num inglês com sotaque germânico, as frases proibidas no navio MF Fram não deixam dúvida de que estou em um cruzeiro diferente. “Na Antártica, quem manda é a natureza, e as mudanças climáticas são rápidas e imprevisíveis.” A dona da voz é Anja Erdmann, líder da expedição, que fala quando o barco da empresa norueguesa Hurtigruten afasta-se de Ushuaia, na Argentina, na pontinha mais ao sul da América. Os 207 passageiros de 16 nacionalidades zarpam sabendo apenas que, até chegar às abrigadas águas da Península Antártica, leva-se 3 dias percorrendo a Passagem de Drake, área famosa por seus naufrágios, onde Atlântico e Pacífico duelam. Depois de cruzá-la, continua a loirinha, a definição do roteiro se dá de acordo com os humores da neve, das ondas e dos ventos. A convocação para que o exército de aventureiros vista coletes salva-vidas e siga para a simulação da evacuação de emergência reforça: embarcar em um cruzeiro antártico é para viajantes com espírito desbravador.

 

Trekking na ilha Deception
Trekking na ilha Deception

 

Conhecer a Antártica nunca foi tão fácil. Segundo o guia de mochileiros Lonely Planet, o continente inexplorado brilha como o segundo lugar mais “quente” a visitar em 2014  – o primeiro é o Brasil, é claro, em função da Copa. Já existem 50 cruzeiros oferecendo pacotes a partir de 10 dias por cerca de 7.000 dólares, sem parte aérea. Na temporada passada, de novembro de 2012  a março de 2013, eles levaram nada menos que 35.000 pessoas. Em “cruzeiros de expedição” como este, não há cassino, shows a la Broadway, free-shops ou piscinas. Na minha cabine solitária, além de cama e banheiro (com água quente, ufa!), há apenas uma escotilha de onde se vê só céu e mar. Ah, e televisão, com 80% da programação tendo o extremo sul como tema. O entretenimento principal das duas centenas de horas na embarcação são as (ótimas) palestras. No primeiro dia, assisto a de pinguins, a de baleias e a de um geólogo norte-americano, Bob Rowland, que contou de seus estudos no Polo Sul em 1962 e 1963. Isso pouco depois do início das primeiras viagens turísticas à Antártica, em 1958, que provaram ao mundo que a última fronteira da Terra podia ser visitada por simples mortais como nós.

 

Port Lockroy: tem até correio
Port Lockroy: tem até correio

 

MEU PRIMEIRO ICEBERG

Terceiro dia. Para alívio dos marujos, superamos nas últimas 24 horas um Drake sem tempestades. O enjoo do mar chegou e foi embora. Já decorei o nome de vários dos 50 simpáticos tripulantes das Filipinas que atendem em locais como o restaurante e a sala de empréstimos de galochas. E meu fascínio pelas explorações antárticas cresceu substancialmente depois de assistir a documentários como o da conquista do Polo Sul, protagonizada pelo norueguês Roald Amundsen, em 1911, em um barco chamado Fram que inspirou o batismo deste. Também amei o longa sobre a saga de Sir Ernest Shackleton, o irlandês capitão do barco Endurance que tentou atravessar, com 27 homens, o continente gelado a pé em 1914, noventa anos atrás. Devoro mais um dos filmes da TV – acho que sobre as aves antárticas que acompanham o deslizar do navio – quando a voz daquela Angela Merkel dos mares ecoa, pelos auto-falantes, que um iceberg se aproxima.

Olho pela escotilha e lá está ele. Meu primeiro iceberg. Lindo. Gigante. Leve. É como se um quarteirão de 1,5 quilômetro com altura de um prédio de 3 andares flutuasse, quebrando com seu branco a monotonia azul de céu e mar. Um tom de turquesa-do-Caribe denuncia sua beleza submersa: como aprendi na lição-de-casa, 90% dos corpos desses blocos de gelo desprendidos dos glaciares esconde-se sob a superfície. Visto casaco para temperaturas negativas, corta-ventos, gorro, cachecol, luvas, óculos de sol. E, câmera na mão, corro para o terraço do sétimo andar para observá-lo em meio ao vento congelante. Meu iceberg não vem só. Outros correm em nossa direção. Chego a acreditar que nos aproximamos, enfim, da Antártica. Não há no horizonte, porém, sinal algum de terra à vista.

Engano meu. Quem chega à Península Antártica não aterrissa num grande continente no fim do caminho. Também não encontra um porto, o mar de outra cor ou qualquer referência que prove que alcançou o destino. No meio do marzão sem fim, surge uma ilha numa manhã, outra à tarde, e assim por diante: estamos na Antártica. A primeira em condição de desembarque aparece nesse terceiro dia, anunciada por uma nova chamada radiofônica. Aí sim nossa führer alemã dá todas as respostas e avisa: onde vamos – Baía Half Moon, no arquipélago das Shetland do Sul –, quando chegaremos – em 20 minutos –, por quanto tempo – 1h15 para cada grupo de 8 pessoas que lotar um bote inflável – e como está o clima – 1o C. Com apenas dois quilômetros, a ilhota parece um amontoado de rochas cinzas pontiagudas habitada por uns 2.000 casais de pinguins chinstrap (aqueles “de máscaras”) e seus filhotes. Um bote de madeira abandonado na praia de pedras dá o clima de que pisamos na terra firme do fim de mundo desabitado. Por estar vizinha à ilha Livingston, forrada por neve, Half Moon é um cenário fantástico para fotos.

 

Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo
Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo

 

DESEMBARQUE CANCELADO

A tal imprevisibilidade meteorológica da Antártica fica comprovada no quarto dia. Ventos de mais de 100 quilômetros por hora provocam o cancelamento da descida prevista para a ilha de Brown Bluff. Antes do vendaval, felizmente, conseguimos desembarcar sob o frio de apenas -4o C, ainda que com sensação térmica de -17o C, na Baía Esperanza. Ela abriga, desde 1951, uma base permanente da Argentina, país que está entre as 27 nações com estações científicas na região (a do Brasil, na Ilha Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica, foi totalmente destruída por um incêndio em 2012). Cerca de 50 pesquisadores argentinos integram o seleto grupo de moradores temporários do continente, que não costuma passar de 150 habitantes. A neve ininterrupta e o nevoeiro intimidador que assolam nosso passeio por algumas das 40 construções alaranjadas – o refeitório, a escola, a capela, o mini-museu… – dão uma ideia de quão sofrida foi a estada forçada dos três náufragos da expedição Nordenskjöld, entre 1901 a 1904 (conforme eu havia aprendido na palestra do engenheiro polonês Henryk Wolski). Os restos do abrigo de pedras improvisado estão intactos.

Mas é no quarto dia, na ilha Deception, que a Antártica se apresenta realmente como uma terra de ninguém.  Ao passar no corredor de 150 metros de largura entre as rochas apelidadas de “foles de Netuno” e adentrar na cratera submersa desse vulcão ativo, o MF Fram parece chegar a um lugar inóspito onde nem pinguins, navegadores do século passado ou cientistas pisaram. Com 12 quilômetros de diâmetro, a caldeira de águas verdes abrigadas tem praia e pedras negras vulcânicas lindamente cobertas pelo branco da neve. A caminhada ao alto de seu morro de 540 metros de altitude é o ápice da experiência de isolamento e pequeneza proporcionada por uma incursão dessas: só há a vastidão branca, o silêncio ensurdecedor, a paz sem fim. O trekking de 3 horas à tarde, na baía Whalers, um centro baleeiro abandonado, catapulta o grupo a um estado de contemplação tão ou mais nirvânico, tamanha a beleza das formas dos glaciares e o contraste das cores na paisagem. Afinal o céu azul agora está de volta, e com ele o Sol que reflete um brilho que pode cegar. Em Deception, os sedentos por uma experiência ainda mais sensorial são convidados a dar um tibum de no máximo 5 segundos nas águas menos frias do pedaço. É quando descubro o deleite incrível do oceano com 1o C.

 

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Passeio de bote para avistar o leopardo marinho

 

COMO EM UMA PRAIA DESERTA

Se desembarcar em Deception provoca uma espécie de versão polar daquele prazer único de encontrar uma praia paradisíaca só pra você, caminhar por Porto Neko, primeira parada do quinto dia, faz lembrar um safári africano – só que no gelo. Neste raro ponto da Península Antártica onde se caminha em solo continental, o mundaréu de pinguins gentoos nem se assusta com os estrondos das avalanche dos glaciares. Tampouco as focas, baleias, leopardos e elefantes marinhos que se exibem para os zooms das câmeras e binóculos durante os passeios de bote-inflável. À tarde, no casebre preto e vermelho de Port Lockroy, uma base britânica, todo aspirante a conquistador se rende à sua faceta de turista. Na loja de souvenirs do simplório museu local, dá para fazer um shopping rápido e despachar um cartão-postal na única caixa de correio do pedaço.

À medida que o navio chega ao ponto mais ao sul da expedição, a latitude 65o Sul, no sexto dia, uma série de montanhas nevadas passa a formar um corredor de 1,6 quilômetro de largura e 11 quilômetros de extensão. Estamos no Canal Lemaire, o cenário mais espetacular para demarcar a meia-volta e o início do longo caminho de volta, agora com a bússola apontada para o Norte. Antes, uma parada na Ilha Danco, para ver o pôr-do-sol entre os 1700 casais de pinguins gentoos. Bem disse a capitã: o clima da Antártica é mesmo surpreendente. E marca para sempre a vida do aprendiz de explorador que pisa naquele território onde pouca gente chegou.

 

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COMO IR

Tradicional operadora de cruzeiros de expedição à Antártica e ao Ártico, a norueguesa Hurtigruten opera saídas com número de dias e rotas variados. Entre as opções está a rota de 10 dias entre os 200 passageiros do navio Fram, apresentada nessa reportagem. Preços a partir de 6.300 dólares. www.hurtigruten.com

Especializada em roteiros ao extremo sul, a brasileira Zelfa Silva, da Antarctica Expeditions, trabalha com navios para 68 a 189 passageiros em viagens de 10 a 19 dias. Pode-se fazer toda a travessia da Passagem do Drake por barco desde Ushuaia ou voar a partir de Punta Arenas, no Chile. Os preços, sem aéreo, partem de 7.000 dólares. www.antartida.com.br

No Egito aprendi

Salamaleikum. Foi assim, desejando algo como “que a paz  esteja com você”, que aprendi a cumprimentar as pessoas no Egito. Ashraf e Amr, que eu tive a sorte de ter como anfitriões por 10 dias, me ensinaram também a não cruzar as pernas para jamais virar a sola do calçado na direção de alguém, algo considerado ofensa grave nos países árabes. Tanto é que os faraós, ancestrais desse povo milenar, eram frequentemente desenhados ou esculpidos com os pés sobre seus inimigos, como vimos no fantástico Museu do Egito, no Cairo. O prédio fica ali à beira da Praça Tahir, ainda enfeiada com um tanque de guerra aqui e um prédio queimado ali, mas lindamente grafitada com registros dramáticos das duas revoluções que o país viveu desde 2011. Ao ser um dos primeiros da região a florescer para a primavera árabe, o povo egípcio deu um exemplo de coragem ao mundo, ainda que esteja até hoje pagando o alto preço da crise econômica deflagrada pela deposição de dois presidentes em dois anos. Na Praça Tahir eu repeti a tradição de ser cliente de uma barbearia tradicional, entendi por que o enervante trânsito do Cairo merece – mesmo – o título de pior do planeta e fiquei admirado com os grafittis que contam a história recente do país.

 

Esfinge

 

No Egito entendi um pouco do significado de pirâmides, esfinges, esculturas, sarcófagos, múmias e sítios arqueológicos espetaculares que registram a história que a humanidade viveu no Vale do Nilo 10.000 anos antes que chegasse à Terra um sujeito chamado de Jesus, o Cristo – que, só aprendi agora também, é um dos profetas respeitados pelos islamismo, religião de 90% do país. Como recomenda a tradição de Maomé, reza-se virado para Meca cinco vezes ao dia. Muitas mulheres ainda vestem véus, têm de andar sempre atrás dos homens e aceitam resignadamente que seus maridos tenham outras esposas. Até os homens se orgulham de casar virgens, cumprimentam outros machos com três beijinhos, caminham de braços dados com os amigos (embora gays não sejam tolerados e tenham de fazer tudo bem escondido). Curioso foi ver que, na balada, ninguém toma álcool, mas cigarro ainda fuma-se em todo canto – de restaurantes a quartos de hotel –, sendo a shisha (ou narguilé) a paixão nacional que esfumaça cada café ou casa de chá (os de hibisco e de menta viraram os meus preferidos).

 

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Foi ao realizar o sonho de conhecer o Egito que eu tive um sonho lindo, desses pra levar à sessão de terapia junguiana, que me remeteu à um lugar tão antigo do meu inconsciente quanto aquela terra ancestral que eu respirava. No misterioso universo onírico eu chorava em gratidão ao Rio Nilo, o grande berço da vida na África, por sinal o continente onde nasceu o ser humano como conhecemos. Ao acordar, naveguei por suas águas azuis e montei um camelo por boas léguas às suas margens. Ainda em Aswan, agora minha cidade egípcia favorita, fui bem recebido numa autêntica aldeia núbia ribeirinha. Fazendo do êxtase rotina, lavei boca, rosto, ouvidos, braços e pés quando fui convidado a bater cabeça pra Alá à beira do rei – ops, rio – Nilo, e diante do fantástico templo da Deusa Ísis, o Philae. Ganhei as benção do sol nascente voando de balão sobre Luxor, me perdi entre as colunas de Karnak no poente, invadi a tumba de Tutankâmon, Ramsés II e outras múmias do Vale dos Reis. Sofri a maldição de Quéops quando praguejei contra os ambulantes de Gizé e vi a câmera ir ao chão. Pisei na terra onde Cleópatra, aquela danada, encerrou as dinastias dos faraós, e na beira do Mediterrâneo me deslumbrei com o que virou a biblioteca de Alexandria: um efervescente pólo de conhecimento da consciente juventude egípcia.

 

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Ajudei a festejar dois casamentos. Me refestelei de comer – com as mãos, claro – tahinis, babaganuches e doces árabes. Visitei mercados de rua, restaurantes, centros culturais e galerias de arte que alimentam a alma cosmopolita do Cairo, aquele caos urbano tão populoso e fascinante quanto minha São Paulo natal. E o que foi o concerto na Ópera House? Mais êxtase. As belas mesquita e sinagoga do Centro que me entendam, mas, com todo respeito à diversidade, nada foi mais marcante para um cristão abençoado na pia batismal que visitar a capela onde Jesus, Maria e José se esconderam quando Herodes matava criancinhas, 2013 anos atrás. Lembrei de minha mãe, de meus irmãos, avós, tias e padrinhos. Antes que as saudades incomodassem, o Egito já tinha me premiado com uma família. Como se não bastasse ter sido tratado como um faraó em alguns dos melhores hotéis nesses anos de andarilho (até uma sensacional massagem núbia ganhei), fui brindado com uma despedida de rei no banquete oferecido pela família do Senhor Nabil, um dos homens mais generosos e inspiradores que conheci, ao meu grupo de gentes boas, formado também pelos queridos Enzo, Juliana e Beth. Na hora do adeus, não teve jeito. Lágrimas vieram dizer tchau ao Ashraf e ao Amr enquanto eu repetia a palavra mais importante do dicionário que me eles ensinaram às margens do Nilo, a de gratidão: Shukran, Egito. Um dia eu volto.