Hoi An, no Vietnã, é um templo de charme e delicadeza

Era fim de tarde do meu primeiro dia no Vietnã e decidi fazer aquela caminhada inicial de exploração no entorno do meu hotel, o Anantara, que fica bem ao lado do Centro Histórico. Eu estava em Hoi An, uma cidade colonial tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco mas pouco visitada por brasileiros – que conhecem mais as metrópoles de Hanói e Ho Chi Min (a antiga Saigon) e a fantástica baía de Halong.

 

Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Assim que adentrei as ruas de paralelepípedos da Old Town, a Cidade Antiga, sempre fechadas ao trânsito motorizado, já me senti entrando em uma redoma de paz. Afinal, o enxame de motocicletas que buzinam o tempo todo no Vietnã tinha ficado para trás. Aos poucos me vi cercado por casarões e sobrados preservados de quando aquele era um importante porto do Sudeste Asiático, entre os séculos 15 e 19. Hoje ocupadas por cafés, restaurantes, galerias de arte e lojas, as construções incorporaram nas decorações internas e nas fachadas um costume oriental que se tornou o símbolo de Hoi An: as lanternas coloridas. Bastou a noite ameaçar chegar e as luzes foram sendo acesas uma a uma, enchendo meu caminho de cor e magia.

 

Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

O encantamento de boas-vindas estava só começando e se prolongaria pelos meus cinco dias ali. A começar pela surpresa daquele primeiro entardecer – que não tinha acabado. Quis me perder entrando em uma viela e me deparei com uma cena inesquecível. Do alto da pequena ponte que conecta o bulevar na beira do Rio Thu Bon com o mercado noturno da ilhota vizinha de An Hoi, dezenas de pessoas soltavam na correnteza umas espécies de barquinhos coloridos de papel com velas acesas.

 

Ritual de acender velas em barquinhos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara Hoi An)
Velas em barcos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara)

 

Eu já tinha visto antes algumas fotos daqueles arranjos em forma de flor de lótus flutuando entre os barcos do cais, mas acreditava se tratar de um ritual raro. No dia seguinte, meu guia Nguyen Van Trieu me explicaria: os visitantes têm repetido diariamente a cerimônia de encaminhar desejos a Buda que antes só era feita pelos nativos em datas especiais. Sorte de quem está lá na lua cheia: dizem que o comércio desliga suas luzes para que apenas as velas dos rios sejam o destaque no cenário de sonhos de Hoi An.

 

Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Ninguém diz exatamente quando a tradição teve início. Sabe-se apenas que o comércio fluvial no estuário do Rio Thu Bon data do século 7, quando o império do povo Cham dominava a região. “Hoi An sobreviveu incrivelmente aos muitos conflitos que o Vietnã tem vivido, ao longo da história, com países como China, Japão, França e Estados Unidos”, me contaria o guia Trieu, durante a caminhada histórica pela fascinante Old Town.

 

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A Ponte Japonesa, que aniversaria em 2017

 

A parada principal do tour, a Ponte Japonesa, por sinal, comemora 400 anos em 2017. Restrita a pedestres e com um altar a Buda em seu anexo, a ponte um dia dividiu Hoi An em chineses para um lado, japoneses para outro. E até hoje serve de fundo para as pomposas fotos dos casais de noivos da região.

 

Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Desde que Hoi An abriu suas portas ao turismo, nos anos 1990, quando se libertou do embargo imposto pelos Estados Unidos ao país desde a Guerra do Vietnã, antigos inimigos passaram a conviver em harmonia no ambiente cosmopolita de Hoi An.

 

Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Os chineses costumam constatar sua influência cultural nos muitos templos budistas. Japoneses adoram circular e fotografar sentados em algo parecido com um carrinho de bebê para adultos, sempre empurrados pela bicicleta de um vietnamita. Já os franceses se orgulham por terem inspirado a boa mesa em Hoi An. E os americanos são os campeões das encomendas de roupas sob medida nas muitas alfaiatarias da cidade.

 

Detalhe do passeio no barco do Anantara Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Detalhe do passeio no barco do Anantara (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Sete em cada dez habitantes vivem do turismo, conduzindo sempre de forma doce e sorridente os visitantes em passeios de barco (os noturnos são os mais charmosos), nas pedaladas até a praia no Mar do Sul da China (a 5 quilômetros dali, cruzando arrozais) e atendendo em lojas bacanas que vendem de pôsteres originais de inspiração socialista até réplicas dos lendários barcos que ancoraram no mítico porto de Hoi An.

 

Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool  (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Eu fiz e recomendo de tudo um pouco – os passeios, as roupas, a pedalada… E, é claro, o lindo ritual das velas no rio para perpetuar a tradição.

 

Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

SANTUÁRIO DE MY SON: VALE A ESTICADA

Investi um dia da minha estada em Hoi An para uma bela esticada: a visita ao Santuário de My Son. Localizada a 1 hora de Hoi An, My Son consiste em várias ruínas arqueológicas da antiga capital política e espiritual do Império Champa, do povo Cham, que habitou essas montanhas entre os séculos 4 e 13. Com pequenas torres e culto a deuses hindus, elas fazem lembrar a arquitetura de Angkor, os fantásticos templos do vizinho Camboja, e se tornaram outro Patrimônio da Humanidade vietnamita.

 

Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Serviço:

Durma bem

Dúvida crucial na hora de reservar seu hotel: é melhor ficar na cidade ou na praia? Eu optei pelo Anantara Hoi An, coladinho no Centro Histórico, que fica à beira-rio e está a poucos passos das principais atrações de Hoi An.  E amei. Quem preferir o sossego e a brisa à beira-mar pode conferir a nova faceta do The Nam Hai, que em dezembro passou a integrar a seleção dos hotéis da rede Four Seasons.

Hotel Anantara Hoi An: meu abrigo à beira-rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Coma bem

O The Morning Glory (106 Nguyen Thai Hoc St) é um clássico: amplo, mistura especialidades vietnamitas (como o cao lau, uma sopa de noodles com carne de porco) com pratos internacionais. Menor e escondido, o NU Eatary (10A Nguyen Thi Minh Khai St) comporta no máximo 20 pessoas e serve só delícias locais em ambiente caseiro.

Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Para uma experiência ímpar, tome um chá em silêncio no Reaching Out e seja servido pelo simpático staff só de moças surdas-mudas.

Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível
Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível

 

Viaje bem

Não existem voos diretos entre Brasil e Vietnã. A rota mais corriqueira é via Bangkok, na Tailândia, servida por várias companhias aéreas brasileiras. Da capital tailandesa, sim, voa-se, sem escalas em voos de 1h40, à Danang, cidade a 30 quilômetros de Hoi An. A viagem pelo Vietnã pode ser incrementada se incluir Hanoi, Halong Bay e Ho Chi Min.

Comércio local: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Comércio local de roupas: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Código de ética Same Same: o jornalista Daniel Nunes viajou ao Vietnã por sua conta e pagou suas despesas em Hoi An de transporte, alimentação e passeios. A hospedagem no hotel Anantara Hoi An foi uma cortesia.

Vida no deserto

Vítima do genocídio alemão há apenas 110 anos e do apartheid durante o domínio sul-africano, o país se reinventou e celebra as bodas de prata de sua liberdade praticando um turismo sustentável e seguro

Lugar onde não existe nada. Quem observa pela janela do avião a vastidão inabitada da Namíbia logo entende esse curioso significado do nome do país na língua dos nama, uma das 13 etnias locais. Parece que lá embaixo tem apenas deserto. O nada-sem-fim só é interrompido quando o avião se aproxima da pequena capital Windhoek, destino do voo da South African Airways vindo da cidade sul-africana de Johannesburgo – rota mais direta para quem viaja do Brasil. Naquele centro urbano quase sem prédios vivem 340 mil dos poucos 2,3 milhões de habitantes dessa nação que se renova: em 2015 celebra-se 25 anos de independência da Namíbia, que desde março é liderada por seu terceiro presidente, Hage Geingob.

 

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Basta pousar e caminhar pelo centro urbano para se surpreender com uma peculiaridade namibiana. Tanto as ruas como a população, 90% negra, adotam nomes alemães: Fritz, Wolfgang, Frida. A arquitetura germânica salta aos olhos e, nas igrejas, nota-se a dominância do cristianismo luterano. Embora o português Diogo Cão tenha chegado à região em 1484, ele desprezou aquela sucessão de desertos pouco atraente. Assim, o lugar preservou-se de invasores por exatos 400 anos. Até que a Alemanha chegou para colonizar a então chamada África do Sudoeste, em 1884, ficando até 1915, quando saiu em plena Primeira Guerra Mundial. Não por acaso, os alemães são os visitantes mais comuns atualmente – e a cerveja da Namíbia tenha qualidade e boa fama comparável à dos colonizadores.

 

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Cicatrizes históricas

A colonização europeia, como se sabe, foi bem violenta em países da África e da América. Na Namíbia, em especial, a ocupação alemã deixou feridas dolorosas. Ali aconteceu aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20, entre 1904 e 1908, quando o mundo ainda nem sonhava com os terrores de Adolf Hitler. Há documentos comprovando que o general alemão Lothar Von Trotha ordenou o extermínio de todos os herero que se recusassem a deixar o país. A Alemanha nunca admitiu a tragédia oficialmente. Mas o impacto nas duas etnias mais perseguidas foi devastador: restaram apenas 15 mil herero (dos 85 mil existentes na época) e 10 mil nama (dos 20 mil que teriam se rebelado no conflito). Parte desse episódio pouco difundido mundo afora pode ser conhecido no Independence Memorial Museum, inaugurado em 2014 na capital.

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Igualmente traumática é a outra mancha na história recente da Namíbia. A África do Sul, que tinha invadido o país durante a Primeira Guerra, instaurou em 1948 o mesmo regime racista do Apartheid que segregava brancos e negros – o que fez com que até hoje exista uma minoria branca no topo da cadeia sócio-econômica do país. O apartheid namibiano só caiu em 1990. Foi quando, depois de quase um século de sofrimento, a Namíbia conquistou a sua independência. Mas com uma vantagem: nesses 25 anos, ela não sucumbiu mais a grandes conflitos, como aconteceu com vários países da região após se tornarem livres.

 

Himba vendendo boneca na estrada
Himba vendendo boneca na estrada

 

Pelo contrário. Rica em minérios como diamante e urânio e habitada por tribos de cultura preservada, a Namíbia incluiu a conservação de seus recursos naturais na constituição e descobriu no turismo uma fonte econômica importante. “É um país único, que se diferencia de outras nações africanas por proporcionar muito mais que safáris fantásticos”, define Danilo Rondinelli, proprietário da operadora TerraMundi, que há seis anos leva brasileiros para lá. De fato, a partir de Windhoek, os viajantes costumam fazer safári no Etosha e depois seguem para visitar sítios arqueológicos, tribos superfotogênicas, um litoral peculiar e desertos com paisagens de outro planeta. “Depois de 2012, o número de visitantes que levamos para lá dobrou”, conta Danilo. São exploradores que evitam destinos de massa e curtem ir aonde pouco gente foi.”

 

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Etnia Damara em apresentação para visitantes

 

 

Dunas de Sossusvlei, Playground para fotógrafos

Se a Namíbia fosse um destino pop e tivesse de escolher uma imagem como seu cartão-postal, ela seria Sossusvlei. A cada amanhecer, um punhado de estrangeiros sonolentos mira todo tipo de lente fotográfica para este verdadeiro mar de dunas gigantes avermelhadas. As câmeras costumam registrar os momentos mais sublimes no trecho chamado Deadvlei, no centro de um desses areais. É onde troncos tortos projetam a sombra de seus galhos no chão esbranquiçado por sal e argila, em um contraste impactante com a duna ao fundo e o céu azul. Não por acaso Deadvlei, que nada mais é que o leito seco do Rio Tsauchab cujo fluxo foi interrompido pelas areias móveis, se tornou objeto de desejo de fotógrafos profissionais como Sebastião Salgado e J.R.Duran. “Passei seis dias fazendo um safári aéreo e jamais vou me esquecer da cena impressionante do deserto chegando até o mar”, conta Duran.

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Localizado a 300 quilômetros de Windhoek, Sossusvlei pertence ao Deserto de Namibe, que batiza o país e cobre seu interior de sul a norte. Com estimados 55 milhões de anos, ele é considerado um dos mais velhos e secos da Terra, além de dono das dunas mais altas do mundo, com cerca de 300 metros. Junto com a outra grande região desértica nacional, a do Kalahari, que avança aos limites de Botsuana e possui mais água e árvores, Sossusvlei contribui para que dois terços do país sejam dominados por áreas desérticas.

 

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Partindo da capital, chega-se a Sossusvlei tanto por ar – normalmente, voando nos teco-tecos que levam aos lodges – quanto por terra – de preferência, em veículos 4×4. Na Namíbia, dirige-se por horas sem ver viv’alma – e assim entende-se a baixa densidade demográfica de 2 habitantes por quilômetro quadrado em um território de 850 quilômetros quadrados, pouco maior que três estados de São Paulo. O contraste dos ventos quentes do interior com a brisa gelada do mar provoca neblina no vasto trecho onde o deserto encontra o litoral – e por vezes adia ou atrasa os voos pela região.

 

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Como no deserto quase nunca chove, hotéis como o Little Kulala (www.wilderness-safaris.com/camps/little-kulala) deixam a opção de o hóspede dormir em uma cama fora, ao ar livre, no terraço de cada chalé. Me rendi à experiência por duas noite e garanto: poucos prazeres são maiores do que abrir os olhos no meio da noite e se deparar com uma infinidade de estrelas forrando o céu. Para melhorar, um bom edredon protege do vento do deserto, e praticamente não há insetos no local. A imersão na natureza fica mais profunda quando, antes de dormir, o jantar acontece também no meio do nada namibiano: um caminho de tochas leva os hóspedes até as mesas e a fogueira central – onde os petiscos, as cervejas da Namíbia e os bons vinhos sul-africanos são servidos.

 

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Ao acordar, outra surpresa. Enquanto se toma café da manhã na sacada do restaurante do hotel, parece que o safári vem até você: dá para ver alguns orix e springboks, os antílopes mais comuns do pedaço, tomando água na poça d’água que fica poucos metros adiante. Os belos selvagens costumam posar para zooms potentes nos passeios de cada dia, como a aventura de pilotar quadriciclos, a caminhada em meio ao cânion Sesriem, os voos de balão e a subida nas dunas que levam ao Deadvlei – caso da famosa Big Daddy. Observar as pegadas dos animais na areia é uma das diversões durante o belo trekking de 1 hora em meio ao deserto de Sossusvlei. Só não é bom deixar-se levar pela beleza e parar demais no caminho. Quem perde as primeiras luzes em Deadvlei corre o risco de voltar sem boas fotos do lindo cartão-postal Namíbia.

 

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Heróis da resistência vivos em Damaraland

Os viajantes chegam a Damaraland atraídos por pinturas rupestres e florestas petrificadas, mas deixam o lugar encantados ainda mais pelo contato com as tradições do povos Damara e Himba

 

Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas
Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas

 

Sabe aqueles corais africanos supercontagiantes, com a voz estridente das mulheres contrastando com o tom grave dos homens – e todo mundo esbanjando alegria e molejo enquanto dança? É um desses que recebe os visitantes do lodge Doro Nawas (wilderness-safaris.com/camps/doro-nawas-camp), na região de Damaraland, no centro-norte do país. Não por acaso o staff do hotel ganhou um concurso nacional de cantores. Eles conseguem melhorar até o mal-estar de quem pousa enjoado dos voos nos aviões pequenos bem comuns no transporte interno pela Namíbia. A recepção amigável costuma ter ainda drinks e uma toalha úmida e gelada para amenizar o calor seco do deserto. Nada impressiona mais, porém, que a simpatia dos anfitriões do povo damara, que dá nome a região, assim como de outros nativos da área.

 

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O atrativo número 1 de quem inclui essa parada em sua exploração da Namíbia é arqueológico. Fica aí, a 430 quilômetros de Windhoek, o Patrimônio da Humanidade Twyfelfontein, uma sucessão de rochas muito bem preservadas em seu sítio original e onde estão 2500 pinturas e inscrições rupestres datadas da Idade da Pedra. As imagens retratam animais como rinocerontes, girafas e até um leão cujo rabo tem a forma de uma mão. “Como não havia metal para fazer as gravuras, nossos antepassados Bushman usavam rochas de quartzo como ferramentas”, conta a damara Sylvia Thanises, uma das 17 guias.

 

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Twyfelfontein, as pinturas que se transformaram em Patrimônio da Humanidade

 

Mais antigas que as obras de arte de Twyfelfontein são as florestas petrificadas vizinhas. Não se trata de um bosque em pé. Cerca de 50 troncos de árvores coníferas medindo até 34 metros de comprimento, e com mais de 200 milhões de anos, estão caídos no solo. Segundo os cientistas, elas foram trazidas em enxurradas e cobertas pelo deserto. “Protegidas” nesse ambiente de oxigênio zero, sem chuva e forradas por sedimentos de sílica, as madeiras foram “mineralizadas” e viraram fósseis. Pedra mesmo! Entre elas espalham-se várias Welwitschia mirabilis, planta nacional da Namíbia. Rasteira, ela tem só duas folhas que ultrapassam 8 metros de comprimento. “Elam resistem a cinco anos sem chuva”, explicou o guia Justus Sûxub. “E podem viver bem mais de um milênio.

 

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Enfim, os humanos.

É no caminho para esses verdadeiros museus ao ar livre que pode-se fazer outro contato com o povo. Seja qual for a etnia do guia, do motorista ou do anfitrião, ele costuma sempre se divertir ao mostrar diferenças culturais como os “cliques”, sons de estalos que fazem ao pronunciar várias das mais de 10 línguas tribais. É o caso dos 27 descendentes damara que trabalham no Museu Vivo dos Damara (lcfn.info/damara). Encravado entre rochas lindas e gigantes a 8 quilômetros do Parque de Twyfelfontein, o centro cultural permite conhecer moradas e danças tradicionais, além do artesanato feito de couro e rocha. “Queremos resgatar a cultura que se perdeu ao longo da colonização”, diz a anfitriã Maureen Hoes. A experiência seria mais autêntica se, ao final do expediente, não tivéssemos visto as mesmas pessoas que tinham se apresentado com poucas roupas e estilo “primitivo” passarem por nosso jipe vestindo mochila, tênis e calça jeans ao voltarem para suas vilas. Mas a visita vale a pena.

 

 

Felizmente, em uma das esquinas da desabitada estrada de volta ao hotel, nos deparamos com duas mulheres e uma criança da fotogênica etnia himba. Dessa vez, não era pra-gringo-ver que as nativas usavam seios à mostra e saias feitas de couro de bode. Nômades, Vezapopare e Veriazako tinham viajado 200 quilômetros para vender colares e pequenas bonecas. As miniaturas reproduziam a estética das himba, que lambuzam o corpo com um barro avermelhado – o mesmo usado para decorar seus cabelos com uma espécie de dreadlock de rastafári.

 

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“Só voltamos para casa, em Opuwo, depois de vender tudo”, disse, na língua himba, Vezapopare. Ainda que o turismo esteja engatinhando na Namíbia, as himba já aprenderam que os turistas são carentes de souvenires do país. E que, caso queiram fotografá-las, devem desembolsar alguns dólares namibianos.

 

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Nômades de etnia himba: barro nos dreadlocks

 

Safári no Etosha: Cara-a-cara com o leão

Safáris são todos iguais? Na opinião dos especialistas, não é bem assim. Safáris de várias partes do mundo têm em comum a caçada fotográfica a animais ao ar livre, normalmente a bordo de jipões 4×4. Mas sempre mudam os bichos, o ambiente, os tipos de hospedagem, os outros atrativos do país. Nessa disputa, o do Parque Nacional de Etosha, criado em 1907 no Norte da Namíbia, quase fronteira com Angola, é tido como de elite. “Ele está entre meus 4 safáris top do planeta,” afirma Danilo Rondinelli, que já esteve em 20 parques de safári de 12 países africanos. “Há abundância de animais raros em paisagens espetaculares como o lago de sal Etosha Pan”, explica Rondinelli, dono da agência TerraMundi. Segundo ele, a viagem à Namíbia costuma ser combinada com esticadas a África do Sul, passagem obrigatória para os brasileiros, e Botsuana, o país vizinho que tem safáris diferentes desse, em regiões mais úmidas e verdes.

 

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Superameaçados de extinção, são facilmente avistadas no Etosha. A mais bem sucedida ação de preservação desses últimos, iniciativa da rede hoteleira Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com), tem contribuído para evitar o desaparecimento dos cerca de 4.000 rinocerontes-negros sobreviventes em ambiente selvagem: alguns animais chegam a ser transportados em aviões para que procriem em áreas selvagens mais seguras. Até os temidos leões, escassos em outras partes do continente, dão as caras várias vezes aos visitantes do Etosha. “Existem uns 400 deles espalhados por essa área”, orgulhava-se Gabriel Zuma, guia do Ongava Tented Camp (www.wilderness-safaris.com/camps/ongava-tented-camp), enquanto o Land Rover do grupo chegava a 5 metros de uma família de leões com a cara ensanguentada após devorar uma zebra.

 

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Uma das experiências mais marcantes da visita à região foi justamente se hospedar em uma das oito barracas de lona desse acampamento de luxo na Reserva Privada de Ongava, que fica colada ao Parque de Etosha. E se um leão resolvesse rasgá-la? Para fazer lembrar que não estávamos em uma inofensiva réplica da Disney World, na calada da noite foi possível ouvir rugidos assustadores no entorno da tenda. E, pela manhã, tomei um susto ao sair e quase pisar em uma tal cobra zebra, que cospe o veneno em suas vítimas. Felizmente aquela era ruim de mira: me safei do cuspe da peçonhenta. Os dois episódios foram suficientes para eu entender o porquê de os hóspedes serem proibidos de circular da tenda para o restaurante ou a recepção sem um segurança armado ao lado. Todo cuidado é válido para curtir a vida animal realmente selvagem da região de Etosha.

 

Etosha Pan e a tempestade chegando
Etosha Pan e a tempestade chegando

 

Amyr Klink: da travessia do

Atlântico à road trip em família

A Namíbia foi o país escolhido pelo navegador Amyr Klink como ponto de partida do seu primeiro grande desafio como explorador: a travessia solitária do Oceano Atlântico a remo. Em 1984, então com 29 anos, ele zarpou com o barco I.A.T. do porto de Lüderitz, cidade vizinha à perigosa Costa dos Esqueletos, que tem esse nome em função dos ossos, tanto de humanos quanto de animais, espalhados pela praia. “A partir dali a corrente de Benguela se afasta da orla e deflete para dentro do Atlântico; é o lugar onde começam os ventos alísios que sopram fortes e regulares até o Nordeste do Brasil”, descreveu no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, best seller com 340 mil cópias vendidas. A jornada deu certo: o barco superou ondas bravas e tempestades, chegando enfim à Bahia. Amyr realizaria outros feitos que o transformaram em um navegador respeitado, e a paixão pela Namíbia jamais cessou. “O país é seguro e econômico”, analisa. “Voltei duas vezes e tenho planos de retornar ainda esse ano.”

 

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Sua última viagem ao país foi em 2013, com a esposa e as três filhas, dessa vez para uma empreitada de 4 semanas que incluía também a África do Sul. “Voamos para Windhoek, alugamos um 4×4 e cruzamos o país por terra sentido litoral”, recorda Amyr. “As meninas se divertiram especialmente com os animais”, conta. O interior desértico do país tem os bichos terrestres típicos dos safáris, enquanto o litoral das cidades de Lüderitz, Walvis Bay e Swakopmond é morada de espécies de focas, pinguins, flamingos e pelicanos. “Foi na costa que matei as saudades dos amigos que fiz e dos ótimos frutos do mar”.

 

Placa em homenagem ao navegador brasileiro
Placa em homenagem ao navegador brasileiro (foto MARINA KLINK)

 

Estes centros urbanos litorâneos preservam a arquitetura europeia e ventos fortes que transformaram a região em um oásis para praticantes de esportes à vela como kitesurfe e windsurfe. Já a Costa dos Esqueletos, que sobe até a fronteira com Angola, tem um clima de mistério no ar, causado pela neblina frequente e pelos cascos de navios naufragados que restaram na praia. Um ambiente sombrio paira também sobre Elizabeth Bay, 25 quilômetros ao sul de Lüderitz, um longevo centro de exploração de diamantes que ganhou fama de povoado-fantasma. E até o refúgio natural de Shark Island, balneário de Lüderitz, guarda a memória de quando o local era campo de prisioneiros das etnias perseguidas pelos colonizadores alemães.

 

Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)
Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)

 

Aos poucos, os namibianos vão aprendendo a valorizar sua história de resistência. Na praça de Lüderitz onde foi instalada a Klink Plake, placa em homenagem ao marinheiro brasileiro, já não existe a estátua vizinha em referência ao fundador da cidade, o alemão Adolf Lüderitz – escultura que Amyr viu em sua histórica partida a remo em 1984. “Decidiram trocá-la pela de Cornelius Frederiks, um dos heróis rebeldes que lutaram contra a ocupação alemã”, relata Amyr. Outro ponto interessante de visita para brasileiros que queiram seguir os passos de Capitão Klink é a Lüderitz Safaris & Tours. Agência e loja de souvenirs, a empresa é comandada por Marion Schelkle, que junto com seu ex-marido Gunther deram abrigo ao brasileiro antes da partida heroica do I.A.T. Vale a pena passar ali para, quem sabe, ouvir as histórias da preparação de Amyr antes de encarar sua grande saga pelo Atlântico Sul. Foi o que fizeram os Klink ao visitar Lüderitz, de carro, há dois anos. De lá eles dirigiram até a Cidade do Cabo, onde concluíram os quase 5.000 quilômetros rodados e pegaram o voo de volta ao Brasil.

 

Orix, um dos mais belos animais da região
Orix, um dos mais belos animais da região

 

 

Pílulas de curiosidades:

  • Já ouviu falar dos círculos das fadas da Namíbia? Em Damaraland, uma infinidade de círculos parece ter sido desenhada no campo de gramíneas baixas. Ali, no entanto, não cresce mato algum. Há quem diga que são obras de cupins – mas o povo himba chama de “pegadas dos deuses”.

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  • O jeito mais espetacular – e exclusivo – de ver as dunas gigantes coladas ao mar, os círculos das fadas e os barcos naufragados da Costa do Esqueleto é de cima. Por 4 a 6 dias – e 15 mil dólares – pode-se explorar o melhor da Namíbia em aviões particulares para 2 a 8 pessoas.

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. O fotógrafo e jornalista Haroldo Castro (viajologia.com.br) costuma conduzir grupos de brasileiros em um safári fotográfico pelo melhor da Namíbia. No roteiro estão o Parque Nacional de Etosha, a tribo himba e as dunas avermelhadas de Sossusvlei, onde fica o Parque Namib-Naukluft.

 

Para entender a Namíbia

Visto: Não é preciso visto prévio para entrar no país.

Melhor época: na seca, de junho a outubro, fica mais fácil avistar os animais, todos concentrados no entorno da água.

Moeda: dólar namibiano, o nad. 1 real equivale a cerca de 3,74 nads. 1 dólar americano compra 12 nads.

Língua: Cerca de 20 línguas são usadas no país, mas o inglês é a oficial – embora boa parte dos namibianos fale alemão e africâner (a língua de origem holandesa presente também na África do Sul).

Quem leva: A agência de viagens TERRAMUNDI produz roteiros personalizados e em grupo para a Namíbia (www.terramundi.com.br).

Onde ficar: Uma das pioneiras do continente, a rede de lodges e acampamentos de luxo Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com) tem unidades em toda a Namíbia.

 

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O REPÓRTER SE HOSPEDOU NA NAMÍBIA A CONVITE DA WILDERNESS SAFARIS (www.wilderness-safaris.com)

Todas as fotos são de autoria de Daniel Nunes Gonçalves/SAMESAMEPHOTO

Cultura maori é uma boa surpresa da Nova Zelândia

Nariz com nariz. Não estranhe se você pousar na Nova Zelândia e se deparar com gente se cumprimentando assim.

 

Hongi nose to nose maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este é o hongi, tradicional saudação dos maori, primeiros habitantes da ilha. Eles acreditam que o homem, Deus e a natureza são uma coisa só, e sentir a respiração do outro é uma forma de comungar o sopro sagrado da vida. Depois de ter sido rechaçada em meados do século 20, a cultura maori está em voga. Não só entre seus descendentes de sangue, muitos com lindas tatuagens tribais pelo corpo – às vezes, até no rosto dos homens e no queixo das mulheres, como reza o costume secular.

 

Lago aérea Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O resgate do orgulho maori tem contagiado também os brancos cujos antepassados são os europeus, em especial os britânicos, que colonizaram o país. A língua maori voltou a ser ensinada nas escolas, pelo menos duas grandes exposições sobre sua arte estão rodando o mundo – uma delas chega ao Brasil em outubro – e até sua dança cerimonial, a haka, ganha mais e mais adeptos desde que passou a ser popularizada pelo poderoso time de rúgbi local, o All Blacks.

 

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Jovem, o último país a ser povoado no planeta tem o respeito à natureza e o fascínio pela aventura no DNA. Ali nasceu Sir Edmund Hillary, primeiro homem a escalar o Everest, em 1953. As paisagens do país sediaram o primeiro bungee jump do planeta, em 1988. E a fascinante diversidade natural neozelandesa seduziu o mundo, nos últimos 15 anos, com as trilogias de O Senhor dos Anéis e O Hobbit. A terra sagrada dos maori respira vida.

 

Road Trip New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrada pela ilha Norte
(ou Ao Norte, o mar)

É na ilha Norte, a mesma onde chegaram os primeiros desbravadores polinésios no século 13, que desembarcam os viajantes do século 21 dispostos a explorar a enorme variedade de ecossistemas desse pequeno território da Oceania.

 

Aérea de Bay of Islands
Bay of Islands, vista durante sobrevoo pelas ilhas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Auckland, maior cidade do país, tem 1,5 milhão de habitantes e traduz bem a faceta contemporânea tanto da porção Norte quanto da ilha Sul. Ao mesmo tempo em que seu centro cosmopolita à beira-mar esbanja soluções urbanas criativas e sustentáveis, pode-se ver ali as seculares danças maori apresentadas no Auckland Museum (o mesmo que guarda o diário de bordo de Sir Hillary no Everest).

 

Águas verdes Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O espetáculo cultural se mostra mais completo para quem dirige por 3 horas ao extremo da ilha Norte e visita o Waitangi Treaty Grounds. Localizado onde a sucessão de ilhas de Bay of Islands leva ao delírio mergulhadores e amantes de praias de sonho, Waitangi é o principal sítio histórico da nação. Em 1840, 540 líderes maori assinaram ali o primeiro acordo com os colonizadores ingleses – e que lhes garantia, entre outras coisas, a posse da terra.

 

carranca maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa e outras histórias são contadas por meio de música, de canto e da haka – a dança maori – diante de uma casa cerimonial. Também em exposição está uma waka, canoa de guerra com 35 metros e que precisa de 76 remadores para entrar na água. Os maori sempre guiaram sua navegação pelas estrelas, e há apenas dois anos empreenderam uma expedição, a Waka Tapu, navegando sem instrumentos da Nova Zelândia à Ilha de Páscoa.

aucklandmuseum.com
waitangi.org.nz
wakatapu.com

 

performance maori waitangi
Performance Maori em Waitangi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coração cultural
(ou No centro, o fogo)

Seja de barco ou de helicóptero, dá um frio na barriga se aproximar da fumaceira expelida do vulcão da White Island, embranquecendo o céu sobre o azul do Pacífico.

 

 

White Island visto de longe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bolhas de lama cinza-chumbo fervem no chão, o cheiro ruim impera, o enxofre amarelo colore o chão laranja à beira da cratera de águas verdes.

 

Vulcão borbulhante White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mais ativo dos cerca de 60 vulcões do país pode ser acessado a partir de Rotorua, cidade 3 horas de carro ao sul de Auckland.

 

helicopt White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Famosa por seus spas com poços de águas termais, Rotorua é lar de boa parte dos quase 600 mil maoris do país, que correspondem a 15% da população.

 

Te Puia geral
Gêiseres no Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cidade fica no vale geotermal de Whakarewarewa, bem em cima do chamado Anel de Fogo do Pacífico, e sempre impressionou por seus gêiseres. O famoso Pohutu, que jorra a 30 metros de altura 20 vezes por dia, é a estrela do Centro Cultural Te Puia, espécie de QG maori onde funciona sua escola de escultura em madeira e tecelagem, além de uma bela loja de artesanato.

 

Artesão maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os maori demonstraram uma imensa capacidade de adaptação nesses 700 anos e nunca pararam no tempo. O canibalismo e o poligamia viraram coisa do passado. “Temos representantes no parlamento, canal de tv, estações de rádio”, diz Karl Johnstone, diretor do Maori Arts and Crafts Institute (MACI).

 

Casa maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não somos uma cultura ancestral, mas sim um legado vivo”. Antenados nas tendências, sabem explorar seu potencial turístico. Quem visita o Te Puia degusta a comida típica (frango, legumes) cozida em caixas de alumínio dentro daqueles caldeirões naturais ferventes. Uma experiência gastronômica sem igual.

tepuia.com

 

 

Chef Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas profundezas do Sul
(ou Ao Sul, o abismo – ou a floresta)

Já teve vontade de sair voando? Basta chegar à beira dos precipícios espetaculares de fiordes como o famoso Milford Sound, cartão-postal da Nova Zelândia, para entender por quê o bungee jump só poderia mesmo ter nascido no templo natural dos maori.

 

Bungee Jump New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dona também de paisagens encantadoras como os glaciares de Franz Josef e Fox e as trilhas à beira-mar do Parque Nacional Abel Tasman, a ilha Sul tem vocação para esportes de natureza.

 

Cachoeira Milford Sound
Cachoeira em Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se os primeiros saltos de abismos começaram na ponte Kawarau, com 43 metros de profundidade, hoje as distâncias se multiplicaram: dá para saltar de 47 e de 134 metros, se lançar em pêndulos, fazer skydive.

 

Passeio de jet boat
Adrenalina no passeio de jet boat

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde 1965, adrenalina é palavra de ordem também no passeio de jetboat. “Aceleramos a 85 quilômetros por hora entre cânions de 40 metros de altura”, explica Wayne Paton, que em 2014 fez gritar de emoção naquelas águas azuis até o jovem casal real britânico, o Príncipe William e a Kate Middleton.

 

Neve Milford
Parada em topo de montanha nevada durante sobrevoo na região de Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A charmosa Queenstown, cercada por montanhas nevadas e que descansa à beira do lago azul Wakatipu, é a base para explorar desde os fiordes (de barco, de helicóptero ou em caminhadas de vários dias) até locações de O Senhor dos Anéis e O Hobbit.

 

Queenstown beira lago
Beira-lago na charmosa Queenstown

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao final de cada dia de atividade ao ar livre, amantes da natureza de todo canto do mundo transformam os 120 bares e restaurantes da pacata Queenstown em um pico de agito. E não se surpreenda se, no caminho da balada, você se deparar, como eu, com um grupo de neozelandeses gritando e simulando a haka na rua. É apenas o orgulho maori de ter nascido em uma terra tão especial.

bungy.co.nz
shotoverjet.com
milford-sound.co.nz

 

Garimpeiro Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INFO: newzeland.com; tourismnewzealand.com

FOTOS: Todas as fotos desse post foram produzidas por Daniel Nunes/@samesamephoto

 

Eagle's Nest Hotel
Vista da sacada de um único apartamento do Eagle’s Nets, em Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ONDE DORMIR:

Auckland: hilton.com
Bay of Islands: eaglesnest.co.nz
Rotorua: solitairelodge.com
Queenstown: matakaurilodge.com

Matakauri Hotel Nova Zelandia
Vista interna do hotel Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OUTRAS CURIOSIDADES:

Rúgbi ao vivo
A haka foi celebrizada internacionalmente graças às apresentações feitas mundo afora pela seleção neozelandesa de rúgbi, apelidada oficialmente de All Blacks. Se tiver oportunidade, assista ao vivo a uma partida do esporte número 1 do país. Em 17 de julho eles enfrentam a Argentina em Christchurch, e em 15 de agosto acontece o jogo contra a Austrália em Auckland.
allblacks.com

 

Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri
Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte maori no Brasil
O Brasil também viu ao vivo a exposição Tuku Iho – Legado Vivo, que já difundiu a arte maori na China e na Malásia, e que em 2015 está excursionando pela América Latina. Mais de oitenta peças esculpidas em materiais como madeira, bronze e pedra fizeram sucesso em Santiago, em Buenos Aires e no Rio de Janeiro.

Telas na República Checa
Depois de atrair 145 mil pessoas à Nationalgalerie, em Berlim, por cinco meses de 2015, a série de 44 retratos do povo maori pintados na virada do século 19 para o 20 pelo artista checo Gottfried Lindauer (1839–1926) chegou ao berço do artista. A exibição estará no West Bohemian Museum, em Pilsen, a cerca de 90 quilômetros de Praga, até 20 de setembro.
plzen2015.cz/en/

 

Helicóptero Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do alto é (ainda) mais bonito
A natureza neozelandesa dá um show quando vista de cima, em sobrevoos de helicóptero. Na Ilha Norte, a Salt Air sobrevoa as ilhas de Bay of Islands e pousa em uma rocha no meio do mar. A VolcanicAir leva desde Rotorua até o vulcão de White Island. E poucas cenas são tão lindas na vida quanto a que se vê no voo da Over the Top desde Queenstown até os fiordes de Milford Sound.
saltair.co.nz
volcanicair.co.nz
flynz.co.nz

Onde está o kiwi?
Engana-se quem pensa que os neozelandeses ganharam o apelido de “kiwis” por cultivarem a fruta homônima. Quem também tem esse nome é um pássaro bicudo que não voa e tem hábitos noturnos. Dificilmente alguém vê um deles fora de cativeiro (há alguns no Te Puia, o parque maori de Rotorua). A ilha Stewart, no extremo sul, é o melhor lugar pra encontrá-los soltos na natureza.

 

White Island em quadro
Ruínas em White Island

O prazer de ser bem ciceroneado na África do Sul

Abri o laptop aqui no voo de volta da South African Airways de Johannesburgo para o Brasil para rabiscar alguns highlights afetivos da marcante semana que acabo de viver na África do Sul e confirmei uma impressão corriqueira das minhas viagens: as pessoas são fundamentais para que se possa ter uma experiência de viagem positiva.

 

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O incrível entardecer no topo da Table Mountain, cartão-postal por excelência da Cidade do Cabo (foto samesamephoto)

 

 

Eu vi o famoso por do sol do alto da Table Mountain da Cidade de Cabo, tomei umas e outras na frente da casa do Mandela em Johannesburgo, pedalei entre os vinhedos da Região das Winelands. Mas quando eu dou uma rebobinada para decupar que emoção ficou mais gravada no hd interno, me vêm à mente primeiro as gargalhadas com nativos, e só depois os lugares bonitos da terra de Mandela.

 

Pedalada entre os vinhedos do Babylonstoren, em Franschhoek (foto samesamephoto)
Pedalada entre os vinhedos do Babylonstoren, em Franschhoek (foto samesamephoto)

 

Que essa constatação não apequene minha impressão do país. A velejada na baía de Cape Town ventilou minha mente e arejou meu coração, assim como os grafites e o frescor da arquitetura do revitalizado bairro de Maboneng, em Joburg, me inspiraram a voltar para São Paulo com vontade de agir para que o Minhocão que me avizinha se torne um dia uma experiência igualmente transformadora de realidades – não só imobiliárias, mas especialmente sociais.

 

Estufa de plantas onde é servido o café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren
Estufa de plantas onde é servido o café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren (foto samesamephoto)

 

Daria para incluir na listinha de embelezar os olhos as estradas litorâneas que conectam a Cidade do Cabo ao extremo sul do continente, a estufa de plantas onde tomei café da manhã no hotel-vinícola Babylonstoren, entre Stellenbosch e Franschhoek, e até a impecabilidade na apresentação de cada prato do menu-degustação no The Pot Luck Club, o restaurante bacanudo do chef número 1 da Cidade do Cabo, Luke Dale-Roberts – a casa fica entre as lojas de design do bairro de Woodstock – outro exemplo cidadão de como salvar bairros abandonados.

 

 

Vista a partir da entrada do The Pot Luck, em Woodstock, na Cidade do Cabo: com a Table Mountain ao fundo
Vista a partir da entrada do The Pot Luck, em Woodstock, na Cidade do Cabo: com a Table Mountain ao fundo (foto samesamephoto)

 

Mas se alguém me perguntar quais foram as experiências mais marcantes que vivi, elas serão sempre lembradas com um anfitrião buena gente à frente – e bem distante das atrações turísticas. A começar da sunset party WaxOn, na Maboneng johannesburguiana, para onde fomos levados praticamente direto do aeroporto por minha amiga Meruschka Govender.

 

Festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: no fim de tarde do sábado, à beira da piscina e ao lado do Museu de Design Africano
Festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: no fim de tarde do sábado, à beira da piscina e ao lado do Museu de Design Africano

 

Travelblogger-fera que eu tinha conhecido exatamente um ano antes na expedição por Kerala, na Índia, Meruschka é apaixonada por sua cidade natal. E no dia seguinte, o domingo, fez questão de conectar – a mim e aos meus sete companheiros de viagem – aos músicos do BCUC, uma baita banda do Soweto, assim como ao fotógrafo Monde Nyovane e ao designer Pule Magopa, que acabaram sendo nossos guias informais pelo bairro-símbolo da luta anti-racial durante os anos tenebrosos do Apartheid.

 

Da dir. para a esq., Tiago Múcio, eu, Meruschka Govender e Victor Affaro, na festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo
Da dir. para a esq., Tiago Múcio, eu, Meruschka Govender e Victor Affaro, na festa WaxOn, em Maboneng, Johannesburgo: ter as conexões certas ajuda a saber o que rola de melhor na cidade

 

Meruschka, danada como esse nome difícil de soletrar, foi a terrível responsável pelas duas noites em que praticamente troquei a cama pela pista de dança. Para minha sorte, a do meu segundo sábado em Joburg foi justamente no aniversário dela, muito bem comemorado no festival Drum Beats em pleno modernoso Teatro do Soweto. E, claro, com mais uma pá de amigos baladeiros. Pronto: jazia ali a minha imagem clichê do Soweto pobre, violento, feio.

 

Drum Beats, no Soweto Theatre
Drum Beats, no Soweto Theatre: três palcos, bandas de black music da boa e o fim da imagem-clichê de um bairro feio, pobre e violento (foto samesamephot0)

 

Com o Jabu, o taxista que tinha me levado para o Soweto, a conversa foi uma divertidíssima filosofada a dois. Por que diacho um branco chegou a achar que é melhor que um preto ou um ‘verde’ (como brincou Jabu)?. E para que judeus e muçulmanos seguem se matando se nem eles sabem ao certo se o Deus que reivindicam existe mesmo? Rimos pensando ser provável que, caso exista, dê-lhes uma bela sova quando forem fazer o acerto de contas no hora do juízo final.

 

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Tiago Múcio, Manoel Mendes, eu e Patrícia Palumbo no V&A Waterfront, da Cidade do Cabo: observando focas e ouvindo histórias do lobo do mar

 

Outra frase – e mais boas risadas – foram disparadas pelo Manoel Mendes, um marinheiro angolano radicado no V&A Waterfront, quando defendia que navegar é tão preciso quanto viver a vida intensamente. “Temos que pensar fora da caixinha agora, afinal vamos ter muito tempo depois dentro da outra caixinha debaixo da terra”, disse o lobo do mar, que insistiu para que velejássemos por aquelas águas – o que rendeu imagens lindas da Table Mountain vista a partir do mar. Sósia do Hemingway e idealizador da Fundação Izivunguvungu, que transforma menores de rua em marujos e construtores de barco, Mané é o sujeito que preparou o veleiro Picolé, que o brasileiro Beto Pandiani usou para cruzar o Atlântico desde a Cidade do Cabo até Ilhabela em 2013.

 

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Velejando pela Cidade do Cabo entre bons amigos: de barco dá para visitar a Robben Island, onde Nelson Mandela ficou preso por quase duas décadas (foto samesamephoto)

 

Os anfitriões bons de papo foram muitos. No restaurante The Tasting Room, que fica no hotel Le Quartier Français da Região dos Vinhos, a chef Margot Janse contou sobre como deixou a Holanda para seguir um amor na África do Sul – mas deixou o príncipe de lado e acabou apaixonada mesmo foi pelo país. Os garçons do seu salão nem pareciam estar numa casa estrelada: deixaram o carão de lado e trocavam ideias com a gente numa boa. Meu preferido foi o Bradley Isaacs, que passou a noite tirando onda do atendente que dizíamos ser a cara do jogador de futebol Robinho.

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Bradley Isaacs, simpático garçom do restaurante The Tasting Room, do hotel Le Quartier Français, em Franschhoek (foto samesamephoto)

 

No entorno de outras mesas, teve ainda o jantar com a encantadora Elmine Nel, na charcuteria da Babylonstoren, e o papo com o chocolatier Anthony Gird, da doçaria Honest, já na Cidade do Cabo. Já no Nobu do hotel One&Only da Cidade do Cabo, os onipresentes vinhos sul-africanos deram lugar a boas rodadas de saquê em uma longa mesa para doze. Aos meus colegas de viagem que já eram bons de história – gente do quilate de Baba Vacaro, Helena Mattar (do site Noz Moscada), Mercedes Tristão, Patrícia Palumbo, Ronaldo Fraga, Tiago Múcio e Victor Affaro – se juntaram quatro nativos. O Miguel Brunido, agente de viagens da Triumph Travel, já tinha virado brother e até nos levado para andar descalços à beira-mar em Camps Bay. Aí veio o blogueiro de moda Malibongwe Tyilo, ressaltando o jeito estiloso de os homens sul-africanos se vestirem (mais diferentão que o das mulheres). E as colegas de trabalho do Creative Cape Town Caroline Jordan e Didintle Ntsie, compartilhando como fazem para atrair empreendedores criativos aos bairros em vias de renovação. Só não lembro do que rimos tanto. Deve ser efeito do saquê.

 

Os oito viajantes da expedição urbana TERRAMUNDI Creators e quatro convidados da Cidade do Cabo: jantar divertido e foto tirada na porta do banheiro!
Os oito viajantes da expedição urbana TERRAMUNDI Creators e quatro convidados da Cidade do Cabo: jantar divertido e foto tirada na porta do banheiro!

 

Inesquecíveis foram as duas horas de roda de djembê que toquei na rua, depois de uma boa conversa com o Mestre Manan Ide. Assim como os tambores que fazem, vendem na loja Touareg Trading e ensinam a tocar, Manan e seus irmãos Aziz e Ibrahim são três nativos de Gana que enchem de vibração a Long Street nas tardes de sábado. E curioso é como fiquei sabendo desse programaço – logo eu, que tive aulas de djembê em São Paulo por quase um ano tempos atrás.

 

Roda de djembê em uma travessa da Long Street, superdica do Eduardo Shimahara e na companhia dos amigos Raul Cilento e Bruna Faria, recém-mudados para a a cidade (foto samesamephoto)
Roda de djembê em uma travessa da Long Street, superdica do Eduardo Shimahara e na companhia dos amigos Raul Cilento e Bruna Faria, recém-mudados para a a cidade (foto samesamephoto)

 

Quem deu a dica foi um amigo de SP, o Raul Cilento, que se mudou com a namorada Bruna Faria para Cape Town e embarcou, casualmente, no mesmo voo que eu. O Raul, por sua vez, tinha lido em um blog o post do Eduardo Shimahara, outro apaixonado pela cidade que escolheu para viver – e um engajado atuante na questão da sustentabilidade. O ciclo se completou quando tocamos, os quatro juntos – entre outros da minha turma de viagem – os tambores de Manan e seus irmãos.

 

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Azis e Manan Ide, os irmão de Gana que fazem uma roda aberta ao ar livre de tocadores de djembê nos sábados à tarde na Cidade do Cabo (foto samesamephoto)

 

Mas a conversa que melhor traduziu a impressionante transformação recente vivida pela África do Sul foi com o Mithey. DJ figuraça que usa aqueles “oclões” de mosca, ele vende LPs na Mabu Vynil, nas bandas da descolada Kloof Street (que por sua vez fica em Gardens, uma espécie de bairro dos Jardins da Cidade do Cabo). A portinha é simplesmente a loja de um fã que descobriu o fabuloso destino de seu ídolo, o músico Sixto Rodriguez – tema do documentário Searching for the Sugar Man. Mithey tem motivos dolorosos para pregar que vivamos o “One Love” e acreditar que só a música salva. Ele não esquece de quando era criança, sentado nos ombros do pai, e via o velho apelando para a violência na luta contra o apartheid. “Para eu não me assustar com os tiros, ouvia música com fones de ouvido no último volume.” Porrada a conversa com o Mithey. E o cara é um doce de pessoa, acredite. Pela sua história de superação me ajudou a voltar com a melhor das impressões de um país vivo, pulsante, em plena transformação positiva – e com alguns dos melhores anfitriões que já conheci.

 

DJ Mithey, que trabalha na loja de CDs Mabu Vynil, que ficou famosa pelo filme Searchinfg for the Sugar Man, sobre o cantor Rodriguez
DJ Mithey, que trabalha na loja de CDs Mabu Vinyl,  famosa pelo filme Searchinfg for the Sugar Man, sobre o cantor Rodriguez (foto samesamephoto)

 

Código de ética Same Same:

O jornalista Daniel Nunes Gonçalves viajou para a África do Sul a convite da operadora de viagens TERRAMUNDI e do Projeto TERRAMUNDI Creators, que busca conceber roteiros criativos a partir de experiências de interação com moradores antenados. E voltou mais inspirado do que nunca.

Mercados de Natal esquentam inverno europeu

Vinho quente, barracas de comida típica, música ao vivo, a praça toda decorada. O cenário festivo das barraquinhas montadas diante da igreja bem poderia ser de uma festa de São João no Brasil. Mas estamos do lado de lá do Atlântico e em outra época do ano.

 

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Mercado Gendamermarkt, o principal de Berlim (fotos Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

É inverno no Hemisfério Norte e praças como a Gendarmenmarkt, de Berlim, e a Rathausplatz, de Viena, fervem de gente curtindo alguns dos mais vibrantes mercados de Natal da Europa. Espalhados da Alemanha à Áustria e da Dinamarca à República Tcheca, esses festivais são o principal programa social para driblar o frio no continente, de meados de novembro até a virada do ano.

No início de dezembro, quando a reportagem visitou os principais eventos natalinos de Berlim e Viena, a temperatura beirava o zero grau. Vestido no estilo cebola – com várias camadas de roupas – fui conferir os bons motivos para sair do clima quentinho dos museus e restaurantes para enfrentar a “friaca” dos mercados ao ar livre.

 

Bolinhas de natal Viena Belvedere DSC05734

 

Em vez de fogueira, aquecedores elétricos

Primeira boa surpresa: além do calor humano das multidões e dos drinques quentes, várias feiras natalinas amenizam o frio externo com aquecedores elétricos dispostos no entorno de algumas barracas. Não existem fogueiras como as que ficam cercadas por nossas bandeirinhas juninas.

Com árvores de Natal gigantescas, luzinhas de Natal que arrancam lágrimas da vovó e presépios com anjos bem mais presentes que o Papai Noel na decoração, os mercados natalinos europeus diferenciam-se conforme os costumes de cada cidade anfitriã.

 

Uma das barracas do mercado diante do Palácio Schonbrunn, Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)
Uma das barracas do mercado diante do Palácio Schonbrunn, Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

Os mais tradicionais estão na Alemanha. Desde 1434 o mercado de Dresden agita a cidade, que hoje se orgulha de compartilhar um panetone de quatro toneladas. Nuremberg, Munique e Stuttgart são outros que disputam quem tem o melhor mercado natalino do país.

No Tivoli Garden de Copenhagen, na Dinamarca, o espetáculo de quilômetros de árvores iluminadas impressiona. Bruxelas, na Bélgica, destaca, entre as 240 bancas de seu principal mercado, as que vendem chocolate, donuts e waffles de qualidade.

Praga, na República Tcheca, capricha no artesanato de brinquedos e joias, além de doces e peixes deliciosos. Tão respeitado quanto os eventos de Viena, o festival natalino da também austríaca Salzburg é menor, tem ares medievais e se orgulha de seus desfiles de rua e presépios impecáveis.

 

Orquestra e coral se apresentam em Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)
Orquestra e coral se apresentam no Gendamermarkt, em Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

NATAL EM VIENA
De sanfona-zabumba-triângulo aos violinos

Templo da música clássica, Viena recebe seus visitantes com orquestra ou valsa desde quando o avião da Austrian Airlines pousa até a hora dos shows nos mercados natalinos – normalmente depois das 16h, quando já é noite nessa época do ano.

No “arraiá” da terra de Mozart e Strauss, a clássica Danúbio Azul é tão tocada quanto Asa Branca é nas nossas festas juninas. Mas, em vez do trio de forró com sanfona, zabumba e triângulo, o que se vê são violinistas, corais infantis e belas orquestras ao ar livre.

 

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Árvore de corações iluminados do Mercado Wiener Adventzauber, em Rathausplatz, Viena (fotos Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

O melhor jeito de explorar Viena e seus mercados é pegar um bonde na Ringstrasse, via circular que concentra seus edifícios imperiais e que completa 150 anos em 2015. Ela é também ponto de partida para as residências de Mozart, Strauss e algumas das 67 casas onde o alemão Beethoven teria vivido antes de ali morrer (dizem que ele era sempre expulso em função do barulho que fazia ao ensaiar).

Nos passos de Freud e Klimt
A tradição dessas festas pré-natalinas em Viena existe desde os anos 1600. É tão popular quanto os bailes de gala do inverno e hoje se repete em mais de 20 lugares da cidade. Um bom jeito de escolher em qual delas investir é seguindo o rastro dos nativos famosos.

 

Café Landtman, que era frequentado por Freud, Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves, samesamephoto)
Café Landtman, que era frequentado por Freud, Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves, samesamephoto)

 

Com 150 barracas e árvores decoradas com corações, violinos ou presentes gigantes, o mercado Wiener Adventzauber, em Rathausplatz, é o principal (e mais cênico) deles. Acontece diante da prefeitura e do Café Landtmann, fundado em 1873 e que era frequentado por Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Cafés, por sinal, são uma deliciosa tradição da cidade.

Quem quiser ver o espetacular quadro O Beijo, de Gustav Klimt, pode aproveitar para curtir também o mercado montado diante do imponente edifício barroco do Museu Belvedere, que abriga a obra. Menor, com 50 estandes, ele tem até carrossel e trenzinho para as crianças.

 

Cartaz de divulgação do Quadro O Beijo, de Klimt, principal atração do Museu Belvedere
Cartaz de divulgação do Quadro O Beijo, de Klimt, principal atração do Museu Belvedere

 

Ouvindo Mozart no lar da rainha Sissi
O suntuoso Palácio de Schönbrunn é uma parada turística quase obrigatória. E o mercadoWeihnachtsmarkt, diante dele, vende os mais caprichados objetos de decoração natalina, chás e especiarias. Seus shows ao ar livre, comidas e bebidas são de primeira linha.

A visita pode ser casada com um espetáculo de música clássica dentro do espaço onde funcionava a estufa de plantas da residência de verão imperial. Pode-se ainda circular por alguns dos 1441 cômodos da casa do imperador Franz Joseph e da famosa imperatriz Silvia, a Sissi – personagem eternizada pela atriz Romy Schneider em três filmes na década de 1950.

Outra experiência única – e que não precisa acontecer só em tempos de Natal – é pernoitar em um apartamento de luxo do palácio. Administrado pela rede hoteleira Austria Trend, a suíte reproduz as habitações luxuosas da imperatriz Sissi. A diária custa a partir de 699 euros.

 

Palácio Schonbrunn e a suíte onde dormia a rainha Sissi, em Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)
Palácio Schonbrunn e a suíte onde dormia a rainha Sissi, em Viena (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

MERCADOS DE BERLIM

Cosmopolitismo e DJ na praça

Berlim não tem a mesma tradição natalina que as cidades alemãs de Dresden e Nuremberg, mas se diferencia pelo ambiente cosmopolita de seus mercados, que têm até DJ. As barracas de vinho quente e ponche, comidas típicas e artigos de Natal estão sempre movimentadas.
Nas cerca de 80 feiras natalinas da capital, as pessoas interagem de forma despojada e brasileiros costumam ser bem recebidos.

 

Gendamermarkt, o mercado mais requintado de Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)
Gendamermarkt, o mercado mais requintado de Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

Celebrando 25 Natais sem o muro
Vários mercados de Natal se avizinham de pontos que recontam a história da Guerra Fria e das guerras mundiais. O mais bonito e repleto de barracas de qualidade, na linda praça Gendarmenmarkt – diante da opera house Konzerthaus, fica no Mitte, bairro onde prédios abandonados do antigo lado leste da cidade viraram points de artistas e boêmios.

Ao lado da grande antena de Alexanderplatz, que já foi o centro da Berlim Oriental, o mercado Rotes Rathaus tem decoração inspirada em casas do século 19 e conta com uma pista de patinação no gelo diante de uma linda e colorida roda-gigante de 50m de altura.

 

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Roda gigante diante do mercado Rotes Rathaus, em Berlin (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

Patinadores vão curtir também o Winterwelt, o mercado de Potsdamer Platz, onde até 25 anos atrás passava parte do grande Muro de Berlim, que dividia a cidade. Vizinho à sede do Berlinale, festival de cinema local, o mercado do bairro é demarcado por um enorme tobogã de neve, onde dá para descer deslizando em um pneu, feito criança.

Ponche, salsichão, chucrute e torta de maçã
Esqueça a paçoca, a pamonha ou o hot dog. Tanto em Berlim quanto em Viena, a comilança nas barracas natalinas capricha nas castanhas assadas, nas tortas de maçã, em cheirosos biscoitos na forma de bonecos de neve, e, claro, nos variados tipos de salsichão, o wurst.

Em Berlim, a salsicha de cada esquina é o curry wurst, servido com molho de tomate e curry. Já na Áustria, a versão mais pedida é a käzekrainer, molhadinha e recheada com queijo. Nos dois casos, elas podem vir com pão ou fatiadas no prato. O acompanhamento costuma ser feito com batatas ou chucrute – além de saborosas mostardas e catchups, às vezes caseiros.

 

Curry wurst, o salsichão preferido dos berlinenses (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)
Curry wurst, o salsichão preferido dos berlinenses (foto Daniel Nunes Gonçalves/samesamephoto)

 

Vinho quente (o glühwein) e cerveja são servidos por todo lado, assim como criativos sabores de ponches quentes, como os de maçã, frutas vermelhas, laranja e coco. Nos mercados de Natal requintados – como o Gendarmenmarkt, o número 1 de Berlim, restaurantes renomados como o Lutter und Wegner montam filiais itinerantes. É a oportunidade de comer pratos como o wienerschnitzel, a milanesa de porco.

Em Viena, algumas barracas especiais preparam o famoso goulash, parecido com nossa carne de panela. Para sobremesa, o bolo de chocolate sachertorte, doce amado pelos vienenses antes, durante e depois do Natal.

 

Placa vinho quente Viena mercado palacio Schonbrunn DSC05595

 

Mais informações:

VIENA
www.viena.info
Mercado Wiener Adventzauber: www.christkindlmarkt.at
Mercado em Schönbrunn: www.weihnachtsmarkt.co.at
Museu Belvedere: www.belvedere.at
Café Landtmann: www.landtmann.at
Palácio Schönbrunn: www.schoenbrunn.at
Suíte da Imperatriz Sissi: www.thesuite.at

BERLIM
www.visitBerlin.de
Mercado Gendarmenmarkt: www.gendarmenmarktberlin.de
Mercado Winterwelt: www.winterwelt-berlin.de
Restaurante Lutter & Wegner: www.l-w-berlin.de

 

CÓDIGO DE ÉTICA SAME SAME:

O jornalista Daniel Nunes Gonçalves viajou a convite dos órgãos oficiais de turismo de Berlim e Viena. Esta reportagem foi publicada originalmente no UOL.

Todos os caminhos levam à Roma

 

Ainda que o clichê repita, há milênios, que todos os caminhos levam a Roma, não é raro que muitos viajantes que chegam ao museu urbano a céu aberto mais espetacular do planeta fiquem sem saber que rumo tomar diante de tantas rotas possíveis.

 

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A da Roma original, que abriga o Coliseu e viveu a saga dos imperadores que viraram mitos? Ou a via da Roma cristã, do Vaticano e suas igrejas majestosas? Talvez a Roma das artes, da Renascença e do Barroco, embelezada por Da Vinci, Michelangelo, Rafael e Bernini? Vá por nós: comece do princípio. Em pleno centro da vibrante capital italiana do século 21, resquícios vivos preservados nos subterrâneos ou acima da superfície remontam à fundação da Roma Antiga, em 753 a.C., e recontam sua história até a queda do Império Romano do Ocidente, em 476 d.C. Em quatro dias, pode-se voltar no tempo e viajar por aqueles 12 séculos revolucionários quando Roma comandava o mundo com seus gladiadores ferozes, obras faraônicas, batalhas gloriosas e imperadores megalômanos.

 

Fórum e Palatino
Fórum e Palatino

 

No berço dos filhos da loba

Nessa viagem ao passado, decolemos primeiro para o Monte Palatino, uma das sete colinas da região e local onde acredita-se que Roma teria sido fundada, em 753 a.C., por um sujeito de nome Rômulo. A lenda contada pelos guias que atuam nas ruínas do Palatino, coração turístico da cidade (que fica diante do Coliseu), diz que Rômulo e seu irmão gêmeo Remo teriam sido criados por uma loba. Os guias esclarecem, porém, que a palavra loba também era usada para definir prostituta. Seja animal ou pouco nobre a origem da mãe, a história original seria manchada de qualquer forma pelo fato de Rômulo ter matado Remo. Passaram-se sete séculos entre a liderança de Rômulo, os reinados etruscos e a ascensão de Roma no tempo de Júlio César – o ditador que fez a passagem da república para o império e morreu esfaqueado por senadores em 44 a.C.. Dos primórdios da fundação, no século 8 a.C., o Palatino guarda muros originais, a cabana onde Remo e Rômulo cresceram, e, no pé do morro, a gruta onde os gêmeos teriam sido aleitados pela misteriosa loba. Entre o Palatino e o Monte Aventino está outro resquício pré-imperial: o Circus Maximus, iniciado no século 7 a.C., era uma arena onde 250 mil espectadores assistiam a corridas de bigas, uma das muitas influências dos gregos, que ditavam moda e cultura na época.

 

Fórum de Augusto com projeção multidimensional
Fórum de Augusto com projeção multidimensional

Onde fervia o umbigo do mundo

Entre o Palatino e o Monte Capitolino, hoje sede dos Museus Capitolinos, espalha-se uma sequência de relíquias arquitetônicas: o Fórum Romano, centro nervoso onde pulsavam a vida política, comercial e religiosa de Roma. Pela Via Sacra, sua artéria principal, desfilaram Júlio César e uma série de imperadores. A começar por Augusto (66 a.C. – 14 d.C.), herdeiro adotivo de César e que ficou 44 anos no trono. Tanto a casa onde Augusto viveu quanto a de Lívia, sua terceira esposa, ainda podem ser conhecidas no Palatino – embora os afrescos da de Lívia tenham ido para o imperdível museu Palazzo Massimo Alle Terme. Para comemorar os 2.000 anos do primeiro imperador, um espetáculo multimídia tem contado sua trajetória e reproduzido virtualmente prédios antigos todas as noites, até 18 de setembro, no Fórum de Augusto. Além dessa, outras construções do líder estão espalhadas pela cidade: o Ara Pacis, imenso altar esculpido em mármore em 9 a.C.; as ruínas do belo Teatro Di Marcello, de 11 a.C.; e o Panteão, de 27 a.C., um impressionante templo politeísta que viria a ser transformado em igreja cristã. Foi na gestão de Augusto que nasceu um líder chamado de Jesus Cristo, cujos seguidores foram duramente perseguidos pelo imperadores seguintes, como o polêmico Nero (37 d.C. – 68 d.C). Ainda que tenham atribuído a ele o famoso incêndio que destruiu Roma em 64 d.C., estudos recentes questionam o fato. Nero teria, ainda, mandado matar cristãos sob a acusação de iniciarem o fogo. Enlouquecido, matou a mãe e se suicidou.

 

Coliseu visto de cima (e agora com subterrâneo aberto a visitação)
Coliseu visto de cima (e agora com subterrâneo aberto a visitação)

 

Os guardiões dos subterrâneos

Cartão-postal romano por excelência, o Coliseu foi assim batizado em referência ao Colosso di Nerone, estátua de bronze colossal com mais de 30 metros de altura que Nero mandou fazer para si. Ela fazia parte da Domus Aurea, a gigantesca casa dourada do imperador (cujo interior está fechado para restauração). Na tentativa de apagar os vestígios da megalomania do predecessor, o imperador Vespasiano (9 d.C. – 79 d.C.) decidiu construir ali um anfiteatro para 50 mil pessoas. Esse cenário de espetáculos, sacrifícios de animais e batalhas de gladiadores só foi inaugurado em 80 d.C. por Tito (39 d.C.– 81 d.C.), seu filho e sucessor (o Arco de Tito, no fórum, é em sua homenagem). Durante cem dias e cem noites, 5.000 animais foram mortos. Parada favorita dos turistas, o Coliseu ficou mais emocionante desde que foi aberto para visitas guiadas, em 2010, o Hypogeum, ala subterrânea da arena onde lutadores e bichos esperavam seu sacrifício. Ele se soma a outras experiências fantásticas que os exploradores da Roma Antiga podem ter a 15 metros – ou mais – de profundidade. Perto do Coliseu, dá para descer ao templo pagão no subsolo da Basilica di San Clemente ou andar pelos corredores da Case Romane del Celio, com quartos dos séculos 2 a 4 d.C. sob a Basilica Santi Giovanni i Paolo. Mas nenhum tour às profundezas da cidade à beira das águas do Rio Tibre surpreende mais que o do Palazzo Valentini. Aberto em 2010, o passeio multimídia pré-agendado, de 1h30, acontece sobre um chão de vidro que protege mansões com mosaicos e afrescos milenares.

 

Teatro Marcelo
Teatro Marcelo

Relíquias do auge do Império

Comandante do Império Romano em seu apogeu, o imperador Trajano (53 d.C. – 117 d.C.) bateu o recorde de atrações do Coliseu: um de seus eventos durou 117 dias e envolveu 9 mil gladiadores e 10 mil animais. A grandeza de Trajano, porém, ia além. Foi ele quem conquistou o Oriente e expandiu os limites máximos do império, que em sua gestão avançava da atual Inglaterra à Síria, dos Países Baixos ao Norte da África. Também contratou o melhor arquiteto da época para modernizar a cidade. Três de suas construções resistem: o Fórum de Trajano, inaugurado em 113 d.C.; a Coluna de Trajano, com esculturas em mármore que sobem a 30 metros de altura (e onde suas cinzas foram levadas); e o Mercado de Trajano, enorme estrutura semi-circular de tijolos que abrigava lojas e tabernas, sede do Museu dos Fóruns Imperiais. Coube a Adriano (76 d.C. – 138 d.C.), seu sobrinho adotado e sucessor, a tarefa de viajar para erguer muralhas isolando o império contra ataques de bárbaros – como eram chamados todos os que viviam fora dos limites de Roma. Hoje, os vestígios de Adriano na capital estão no desenho do Panteão, reconstruído depois de sucumbir a um incêndio e a um raio; no Castelo Santo Ângelo, onde antes ficava seu mausoléu e que agora oferece uma linda vista do por-do-sol da cidade); e na Ponte Santo Ângelo, erguida em 136 para cruzar o Rio Tibre. Mas é em Tívoli, a 30 quilômetros do Centro, que repousa sua maior obra: a grandiosa mansão de Villa Adriana – que até novembro exibe uma exposição especial sobre o imperador.

 

Destaque do acervo do Palazzo Massimo
Destaque do acervo do Palazzo Massimo

Termas, pedaladas e catacumbas

É preciso se afastar do Centro para descobrir outras maravilhas do período imperial. Perto da estação de trem Roma Termini ficam as reminiscências das Termas de Diocleciano, inauguradas em 306 d.C. Os maiores banhos públicos da Roma Antiga tinham capacidade para 3.000 pessoas. Hoje transformadas em parte do Museu Nacional Romano, elas foram batizadas em homenagem ao Imperador Diocleciano (245 d.C. – 311 d.C.). Foi ele quem dividira o gigantesco Império Romano, em 285 d.C., nas partes ocidental e oriental. No lado oposto da Roma do século 21 ficam ruínas de banhos ainda mais preservadas, as Termas do Imperador Caracalla (188 d.C – 217 d.C), erguidas em 216 d.C. Elas estão no caminho para a Via Appia Antica, lendária estrada que abriga as catacumbas de São Calixto e de São Sebastião, corredores subterrâneos com milhares de tumbas. Um dos passeios mais agradáveis da Roma contemporânea é de bicicleta pela charmosa Via Appia Antica: chega-se ali em meia hora de pedalada desde o Arco de Constantino, de 315 d.C., em frente ao Coliseu. O Imperador Constantino (272 d.C. – 337 d.C.), por sinal, encerra nossa jornada pela história. Famoso por ter liberado, em 313 d.C., o culto ao cristianismo, ele se instalou na capital do Império Romano do Oriente, em Bizâncio (que viria a se chamar Constantinopla e depois Istambul). Enquanto o Império do Ocidente, sediado em Roma, sucumbia às invasões bárbaras em 476 d.C., o oriental – ou Bizantino – sobreviveria por mais mil anos, até 1453. Mas esse é um capítulo de outra história.

 

Bike para catacumbas DSC00442

 

Pílulas

Artista-referência do Barroco, Gian Lorenzo Bernini esculpiu a Fontana di Trevi, inativa para restauro até 2015, e a Fontana del Tritone, localizada diante do clássico hotel Bernini Bristol – cenário do filme e do livro O Código Da Vinci.

 

Além do belo mirante, o Monte Aventino esconde um segredo fascinante de ser descoberto à noite: a incrível vista que se tem da cúpula da Basílica de São Pedro, no Vaticano, a partir do buraco da fechadura do Priorato dei Cavalieri di Malta.

 

Ficam no entorno do Panteão duas paradas saborosas: a famosa Gelateria Giolitti, com longas filas para tomar o pastoso sorvete italiano, e a pequena Enoteca il Goccetto, onde os romanos degustam bons vinhos e petiscos.

 

Sorveteria DSC00484

Água potável é um bem público gratuito de Roma há séculos. Cerca de 2.500 dessas torneiras conectadas a fontes naturais, as nasones, estão espalhadas pela cidade. Não esqueça de carregar sua garrafinha para enchê-las durante o passeio.

 

Assim como o castelo, fica do lá de lá do Rio Tibre (ou Tevere, em italiano) o bairro Trastevere, centro da vida noturna romana. Para uma boa comida romana sem foco em turistas, faça como Michele Obama e siga ao Ristorante San Michele.

 

Quem optar por fazer o tour guiado em português nas Catacumbas de São Calixto vai conhecer o paulista Antonio Pajola. Há 8 anos em Roma, o simpático padre salesiano orienta os visitantes entre as tumbas do quarto andar subterrâneo.

 

Ruas de Roma
Ruas de Roma

Serviço:

ROMA

 

PARA FICAR

HOTEL BERNINI BRISTOL

Piazza Barberini, 23; berninibristol.com

 

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PARA COMER

ENOTECA IL GOCCETTO

Via dei Banchi Vecchi, 14; ilgoccetto.com

 

GELATERIA GIOLITTI

Via Uffici del Vicario, 40; giolitti.it

 

RISTORANTE SAN MICHELE

Lungotevere Ripa, 7; ristorantesanmichele.com

 

PARA VISITAR

ARA PACIS

Lungotevere in Augusta; arapacis.it

 

Subterrâneos da Basílica San Clemente
Subterrâneos da Basílica San Clemente

BASILICA DI SAN CLEMENTE

Via Labicana, 95; basilicasanclemente.com

 

CASE ROMANE DI CELIO

Clivo di Scauro; caseromane.it

 

CASTELO SANTO ÂNGELO

Lungotevere Castello, 50; castelsantangelo.com

 

Forte Santo Ângelo, que abriga o Memorial do Imperador Adriano
Forte Santo Ângelo, que abriga o Memorial do Imperador Adriano

 

CATACUMBAS DE SÃO CALIXTO

Via Appia Antica, 110/126; catacombe.roma.it

 

CATACUMBAS DE SÃO SEBASTIÃO

Via Appia Antica, 116; catacombe.org

 

COLISEU

Piazza del Colosseo, 1; turismoroma.it

 

FÓRUM DE AUGUSTO

Via Alessandrina Tratto; viaggionelforodiaugusto.it

 

FÓRUM DE TRAJANO

Via dei Fori Imperiali

 

FÓRUM ROMANO

Via della Salaria Vecchia, 5/6; archeoroma.beniculturali.it

 

Vista geral do Fórum Romano
Vista geral do Fórum Romano

 

MERCADO DE TRAJANO

Via IV Novembre, 94; mercatiditraiano.it

 

PALATINO

Via di San Gregorio, 30; coopculture.it

 

PALAZZO MASSIMO ALLE TERME

largo di Villa Peretti, 1; archeoroma.beniculturali.it

 

PANTEÃO

Piazza della Rotonda; www.turismoroma.it

 

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Vista interna do Panteão

 

PRIORATO DEI CAVALIERI DI MALTA

Piazza dei Cavalieri di Malta; ordinedimaltaitalia.org

 

TEATRO DI MARCELLO

Via del Teatro di Marcello; turismoroma.it

 

MUSEUS CAPITOLINOS

Piazza del Campidoglio, 1; museicapitolini.org

 

PALAZZO VALENTINI

Via IV Novembre, 119/A; palazzovalentini.it

 

TERMAS DE CARACALLA

Viale delle Terme di Caracalla; archeorm.arti.beniculturali.it

 

TERMAS DE DIOCLECIANO

Viale Enrico De Nicola, 79; archeoroma.beniculturali.it

AGRADECIMENTOS: Danilo Morales e Pasion Italiana (pasionitaliana.com)

 

Termas de Diocleciano vistas de fora
Termas de Diocleciano vistas de fora

 

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Código de ética Same Same:

Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista TAM Nas Nuvens, edição de setembro de 2014.

As passagens e todas as despesas foram pagas pela TAM.

O Hotel Bernini Bristol ofereceu duas diárias grátis.

 

 

 

 

 

A pulsante cena artística de Nova York

As exposições, as performances e as obras de rua mais quentes da cidade que não dorme

Brooklyn Bridge Park em manhã de domingo (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Brooklyn Bridge Park em manhã de domingo (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Andar, andar e andar – e, quase que a cada passo, observar a beleza, o ineditismo e a criatividade de todo tipo de expressão artística. Basta flanar livremente pelas ruas de Nova York, especialmente quando é verão no Hemisfério Norte, para respirar criações geniais. Pode ser a escultura temporária das nuvens de Olaf Breuning no Central Park, os grafites nos muros de Williamsburg ou o mural do brasileiro Kobra diante da Highline: criações de artistas do mundo todo estão tanto ao ar livre como no hall dos hotéis, lojas e empresas, nas 600 galerias de arte, em uma centena de museus. Para facilitar a vida dos amantes da arte que visitam Nova York, TAM Nas Nuvens preparou um delicioso roteiro de dois dias aproveitando o que a cidade mais legal do mundo tem de inspirador em agosto.

Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Dia 1 – Sábado em Manhattan 10h30 – Um enorme banner com o rosto de Lígia Clark (1920-1988) de olhos vendados recepciona quem começa o dia visitando o prédio principal do MoMA, o mais importante museu de arte moderna e contemporânea do planeta. Sim, até 24 de agosto, a artista brasileira que se definia como não-artista brilha como o principal destaque desse museu que é, desde que nasceu em 1929, o mais essencial para quem busca acompanhar a vanguarda artística mundial. É bom chegar assim que o museu abre, às 10h30, para dar conta de conferir os quase 300 desenhos, pinturas, esculturas e obras interativas da mostra O Abandono da Arte. Realizado entre 1948 e 1988, o conjunto de obras parte da fase abstrata de Lígia, passeia pela neo-concretista e culmina com suas inovadoras peças interativas com propósitos terapêuticos – e que são o maior sucesso de público.

Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

12h30 – Se você resistir a migrar das salas de Lígia Clark para encher os olhos com a Noite Estrelada, de Vincent van Gogh, as Latas de Sopa Campbell, do novaiorquiníssimo Andy Warhol, entre tantos Picassos e Matisses do acervo de 150.000 peças, dê aquela pausa para o almoço. Os três restaurantes do MoMA estão entre os melhores da cidade: o informal Cafe 2 mistura os visitantes em mesas coletivas; o Terrace 5 serve menu completo e vinhos até nas mesas da varanda do quinto andar, que dão vista para o jardim de esculturas do térreo; e o requintado The Modern ostenta uma estrela Michelin que atrai gourmets também por uma porta exclusiva, que dá para a rua, até 23h às sextas e sábados.

As Nuvens, obra pública no Central Park (foto de Gabriel Rinaldi www.gabrielrinaldi.com)
As Nuvens, obra pública no Central Park (foto de Gabriel Rinaldi www.gabrielrinaldi.com)

14h – Caminhar pelo Central Park, o gigantesco quadrado verde no coração da ilha de concreto, é a forma mais gostosa de fazer digestão. Na esquina sudeste do parque, onde a 5a Avenida exibe outro quadrado, os das paredes transparentes da Apple Store, repare na obra Nuvens, com seis balões azuis criados pelo artista suíço radicado na cidade Olaf Breuning. Até 24 de agosto, esta é uma das dezenas de obras públicas espalhadas para trazer graça e ludicidade às ruas das cinco regiões da cidade: Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens e Statent Island.

Exposição de Adriana Varejão visitada em Art Walking Tour no Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Exposição de Adriana Varejão visitada em Art Walking Tour no Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

15h30 – Hora de seguir o caminho do oeste, onde o bairro do Chelsea concentra nada menos que 300 das cerca de 600 galerias de arte da cidade. Para facilitar a vida de quem não sabe em qual das tantas portas entrar, o professor Ph.D. Rafael Risemberg criou há 12 anos um art walking tour que seleciona aquelas que, por seus critérios, abrigam as mais inovadoras exibições do momento. “Vou a dezenas de novas exposições a cada dia para fazer minha curadoria de quais serão aquelas que visitaremos por cerca de duas horas”, orgulha-se o argentino radicado na cidade. Os tours da sua New York Gallery Tours se multiplicaram: há um só para o Lower East Side e outro específico sobre arte LGBT, por exemplo. Entre os participantes de cada grupo há colecionadores verdadeiramente interessados em adquirir obras de milhões de dólares expostas em galerias de prestígio como Gagosian (considerada a principal rede de galerias de arte do mundo, com quatro unidades em Nova York), David Zwirner e Pace (que representa o brasileiro Vik Muniz e também tem quatro espaços na cidade).

Imagem de Kobra vista a partir da Highline (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Imagem de Kobra vista a partir da Highline (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

17h30 – É quando se aproxima o pôr-do-sol que muitos pedestres do Chelsea costumam subir para a High Line, a aposentada via férrea elevada que tem se transformado, desde 2009, em um parque urbano serpenteando desde a altura da rua 13 até, por enquanto, a rua 30. Além dos jardins suspensos e de trechos onde é possível caminhar descalço em uma poça de água corrente, a High Line se transformou em uma das atrações mais visitadas da cidade. Afinal, tem acesso gratuito, fica aberta até 23h e abriga ao menos dez obras de arte temporárias. “Nosso sucesso acabou atraindo novos prédios de arquitetura moderna e peças de arte independentes também para o entorno do parque”, orgulha-se a italiana Cecilia Alemani, curadora artística do local. Uma das obras não-oficiais da High Line é o mural O Beijo, do paulista Eduardo Kobra. Ele passou duas semanas nas escadas preparando essa releitura da foto de Alfred Eisenstaedt, que mostra um marinheiro beijando uma moça na Times Square, em 1945, durante a celebração do fim da Segunda Guerra Mundial. “Essa virou minha obra mais fotografada”, celebra Kobra, que ama andar por Nova York buscando novos muros para pintar. 20h – Entre tantas expressões artísticas que entretém moradores e visitantes na noite novaiorquina – como os shows do Carnegie Hall, os concertos do Lincoln Center, os tantos festivais de cinema e todos os musicais da Broadway –, um gênero em especial anda em voga: os jantares com performances. Em cartaz desde dezembro,  o Queen of The Night deixa boquiabertos todos os 220 convidados que vestem traje de gala, como manda o protocolo, para jantar com a rainha. Mistura de cabaré com circo, dança e balada, o espetáculo obriga os comensais a seguir os 31 artistas performáticos pela casa antes que seja servida a farta – e saborosa – refeição, em meio a drinks e vinhos. Ao longo de 3 horas, nada menos que 300 performances individuais acontecem no Diamond Horseshoe, um salão de eventos de 1938 cercado pelos teatros da Broadway.

Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

23h – Caminhar em meio aos psicodélicos neons da Time Square é “o” programa para depois do espetáculo – além de um estimulante esquenta para quem quiser estender a noite nos bares e clubes de bairros como Village e Hell’s Kitchen. DICA: Pertinho do MoMA ficam restaurantes favoritos dos gourmets: no 21, jóqueis e outros amantes dos cavalos se reúnem sob o fantástico teto forrado de brinquedos (reserve e fique atento ao dress code). Já o vizinho hotel Le Parker Meridien esconde, atrás das cortinas vermelhas da recepção (e vizinhos a uma pintura do inglês Damien Hirst) os premiados hambúrgueres do Burger Joint. DICA: O walking tour de artes pelo Chelsea do qual a equipe da TAM Nas Nuvens participou, em junho, incluiu, entre as sete galerias, duas que tinham mostras de artistas do Brasil. Polvo, de Adriana Varejão, era o destaque da Lehmann Maupin, enquanto na Luhring Augustine acontecia a exposição La Voie Humide (A Via Úmida), de Tunga – que estava presente e até falou um pouco sobre suas obras.

Encontro não-planejado com Tunga durante Art Walking Tour pelo Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Encontro não-planejado com Tunga durante Art Walking Tour pelo Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

DICA: Na High Line, conhecemos Faith Ringgold, uma artista de 83 anos que visitava pela primeira vez sua obra temporária na via elevada. “Vim mostrar para minha família esta ampliação do meu quadro Groovin High, que pintei em homenagem à noite do bairro do Harlem nas décadas de 1940 e 50, quando eu me divertia com vizinhos famosos como os músicos de jazz Duke Ellington e Sony Rollins.”

Rosetta, instalação científica exposta no Brooklin Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Rosetta, instalação científica exposta no Brooklin Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Dia 2 – Domingo no Brooklyn 10h – Que tal cruzar a Ponte do Brooklyn – seja a pé, de bike ou de metrô – para aproveitar o domingo de verão ao ar livre? Do lado de lá, o bairro mais populoso de Nova York exibe o Brooklyn Bridge Park, inaugurado em 2010 sob as pontes do Brooklyn e de Manhattan e com vista para a ilha. Beirando o Rio East com gramados verdinhos, um lindo carrossel e 6 píers transformados em quadras – de futebol, basquete, vôlei… ­–, ele virou palco também de instalações temporárias curiosas – como a réplica do cometa Rosetta, exposta como parte do Festival Mundial de Ciências, no início de junho – e de obras de arte públicas. Até dezembro, um dos 250 pedaços de uma réplica da Estátua da Liberdade feita de cobre pelo artista vietnamita Danh Vo fica em exposição diante do ícone-original que lhe deu origem. Outro fica dessa série chamada We the People fica no City Hall, em Manhattan, e o restante está em 15 países. O escultor usou as técnicas de construção da estátua-mãe, de 1886.

Obra pública We The People exposta no Brooklyn Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra pública We The People exposta no Brooklyn Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

11h – Domingo em Nova York é dia de brunch, e um famoso acontece nessa região cheia de galerias de arte chamada Dumbo (o nome vem de Down Under the Manhattan Bridge): o Superfine. Decorado por artistas locais, com mesa de sinuca e jazz ao vivo, ele costuma deliciar os frequentadores com seu menu de inspiração mediterrânea (e à noite fica aberto até 4h da manhã).

Banda tocando jazz no Superfine (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Banda tocando jazz no Superfine (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

14h – Se o passeio guiado pelas galerias de arte do Chelsea costuma juntar uns 50 endinheirados moradores de meia-idade de Manhattan, o walking tour para explorar a arte de rua do Brooklyn aglomera uma tribo diferente: uns 10 ou 20 jovens estudantes interessados em acompanhar as tendências desse efervescente pólo artístico. Acontece em Williamsburg, que na última década tornou-se a vizinhança mais hype do Brooklyn, uma caminhada de quase 2 quilômetros e 1h30 fotografando trabalhos efêmeros de artistas como Cernesto, Dain e ROA. “Ensinamos o público a diferenciar grafittis e arte de rua, lambe-lambes e stencils, assim como a reconhecer as assinaturas e adesivos dos autores”, conta Gabriel Schoenberg, guia e sócio-proprietário da Graff Tours.

Grafitti em Williamsburg visitado durante walking tour (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Grafitti em Williamsburg visitado durante walking tour (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

16h30 – Quem estiver em Nova York até 10 de agosto tem um motivo a mais para conhecer o Museu do Brooklyn, um dos maiores e mais antigos do país (foi inaugurado em 1895): ver os últimos dias da exposição do polêmico artista chinês Ai Weiwei, According to what? Entre as 40 peças estão objetos, instalações e esculturas que criticam o governo chinês, lembram os 81 dias do artista preso em 2011 e apresentam os 15 vasos da dinastia Han sobreviventes da série Vasos Coloridos: o 16o, com 2.000 anos e avaliado em 1 milhão de dólares, foi quebrado por um visitante da mesma exposição quando ela esteve no Pérez Art Museum, de Miami, em fevereiro. O artista dominicano autor do protesto quis reproduzir uma performance do próprio Ai Weiwei, que também quebrara um vaso antes.

Peças da exposição de Ai Weiwei no Museu do Brooklyn (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Peças da exposição de Ai Weiwei no Museu do Brooklyn (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

18h – O Museu do Brooklyn faz parte do complexo do Jardim Botânico, do Zoológico e do Prospect Park, que podem compor um bom passeio de dia inteiro. A melhor parada para comer, no entanto, é uma só: o restaurante Saul. A casa do chef Saul Bolton se mudou para dentro do Museu do Brooklyn em 2013 depois de 14 anos no bairro. Sua cozinha contemporânea ostenta uma estrela Michelin. 20h – Um programa de verão bem novaiorquino é trocar o escurinho do cinema pelas telonas ao ar livre. Alguns pontos de Manhattan, como o Bryant Park e o Pier I, ganham centenas de cadeiras para que a sétima arte seja exibida gratuitamente sob plátanos, estrelas e arranha-céus. Mas há um charme todo especial quando os filmes são exibidos no terraço de prédios seculares da cidade, como no da The Old American Can Factory, no Brooklyn. Ainda que pagas, as sessões organizadas há uns 10 anos pela turma do Rooftop Films são um sucesso. Os 45 filmes da agenda 2014 têm abertura de bandas e – algo que não acontece nos cinemas – costumam acabar em balada, com DJs, VJs e venda de drinks. É um jeito original de encerrar os dois dias de circuito artístico da cidade que não para.

Filme exibido no festival Rooftop Films, que acontece no verão (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Filme exibido no festival Rooftop Films, que acontece no verão (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

DICA: Prefere um piquenique à beira-rio? Então caminhe pelo Brooklyn Bridge Park até o píer 5, onde os domingos de verão recebem o Smorgasburg, uma das feiras gastronômicas mais bacanas da cidade. Ela reúne cerca de cem barracas que vendem comida de todo o mundo – de falafel a empanada, de injera etíope a yakissoba. Aos sábados, ela migra para o East River State Park, em Williamsburg. DICA: Com Williamsburg entrando para o mainstream, os preços subiram e muitos artistas migraram para a vizinhança de Bushwick, novo polo de arte de Nova York. No verão, centenas de designers, músicos e performers abrem seus ateliês para visita no Bushwick Open Studios. Mesmo fora dos fins de semana de eventos, o lugar anda efervescente como a Williamsburg de dez anos atrás. DICA: Os jovens novaiorquinos dessa região do Brooklyn ganharam em janeiro uma diversão noturna inusitada: o primeiro lugar da cidade para jogar shuffleboard. Espécie de bocha popular entre os aposentados da Flórida, o jogo ganhou um público descolado no The Royal Palms. O lugar tem um bar bacana e oferece “food truck” de qualidade em um caminhão estacionado ali dentro do bar.   BOX NY: Nos arredores, Dia:Beacon e Storm King

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Obra de Richard Serra exposta na galeria Dia:Beacon (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

A deliciosa combinação de arte e natureza pode ser feita no entorno da cidade para quem tem um ou dois dias a mais: as visitas ao Dia:Beacon e ao Storm King. Desde 2003 o primeiro deles tem transformado a rotina da pequena cidade de Beacon, que fica a 1h20 de trem da Central Station de Manhattan. Só a viagem beirando o Rio Hudson já vale o passeio (compre a passagem integrada com o ingresso do museu e peça, na ida, um assento do lado esquerdo do vagão, com vista deslumbrante). Instalado no prédio de 1929 de uma antiga fábrica dos biscoitos Nabisco que foi reformado para abrigar galerias bem iluminadas, este minimalista museu de arte contemporânea apresenta obras de artistas como Donald Judd e Richard Serra. Do outro lado do rio, em Mountainville, fica o Storm King Art Center, com mais de 100 esculturas ao ar livre no estilo do museu de Inhotim. Dá para chegar ali descendo na estação de Salisbury Mills depois de 1h de trem a partir da Penn Station de Manhattan. É possível comprar um passeio que inclui, além do ingresso e da passagem de ônibus, uma parada nos outlets de Woodbury. Quem estiver de carro pode visitar os dois museus no mesmo dia.   SERVIÇO:   Como se programar: nycgo.com   Onde ficar:

Recepção do Hotel Le Parker Meridien com obra de Demien Hirsch
Recepção do Hotel Le Parker Meridien com obra de Damien Hirst (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

  Le Parker Meridien 119 West 56th Street parkermeridien.com (B D E F N Q R)   The Surrey 20 East 76th Street thesurrey.com (4 5 6)

Hotel The Surrey (com foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Retrato de Kate Moss feito por Chuck Close e exposto no hall do hotel The Surrey (com foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Onde comer 21 21 West 52nd Street 21club.com (E M F B D)   Burger Joint (Le Parker Meridien Hotel) burgerjointny.com (B D E F N Q R)   Café 2/ Terrace 5 (MoMA) momacafes.com (E M F B D)   Saul (Brooklyn Museum) saulrestaurant.com (2 3 4)   Smorgasburg (feiras gastronômicas) smorgasburg.com   Superfine 126 Front Street, Brooklyn Tel. (1) 718 243-9005 (F)   The Modern (MoMA) themodernnyc.com (E M F B D)   O que fazer: Broadway www.broadwaycollection.com (N Q R A C E B D F M)   Brooklyn Bridge Park brooklynbridgepark.org (F R 2 3 A C)   Brooklyn Museum 200 Eastern Parkway,
Brooklyn brooklynmuseum.org (2 3 4)   Carnegie Hall 881 7th Avenue carnegiehall.org (N Q R F)   Cinema nos parques nycgovparks.org/events/free_summer_movies   David Zwirner Gallery davidzwirner.com   Dia:Beacon diaart.org   Gagosian Gallery gagosian.com   Graff Tours (tours de street art) grafftours.com   Lincoln Center 10 Lincoln Center Plaza lc.lincolncenter.org (1 2 A B C D)   Pace Gallery pacegallery.com   Public Art Fund publicartfund.org   New York Gallery Tours nygallerytours.com   MoMA 11 West 53 Street 
 moma.org (E M F B D)   Rooftop Films rooftopfilms.com   Storm King Art Center stormking.org   The Highline thehighline.org (L A C E)   The Queen of the Night Diamond Horseshoe (Paramount Hotel) 235 West 46th Street queenofthenightnyc.com (N Q R A C E)   BOX 2 Pingue-pongue Eduardo Kobra, autor do mural O Beijo, diante da Highline –       Como surgiu seu mural na Highline? Em 2012, uma galeria do Brooklyn me convidou para pintar outro muro da cidade. Mas aí o proprietário desse prédio do Chelsea nos autorizou pintar nesse espaço sensacional diante da Highline de Manhattan. Passei duas semanas trabalhando em escadas enormes, pois o prédio é tão antigo que não seria seguro usar andaimes ou balancinhos. –       Então esta não é uma obra oficial comissionada pela Highline? Não, mas já foi compartilhada pelas redes oficiais da Highline. Muita gente passa ali e comenta sobre o mural. Tenho trabalhos em várias partes do mundo, já expus em Nova York, sou representado pela galeria Unix Art, ali no Chelsea. Mas nenhum trabalho meu foi tão fotografado como este. –       Como é ter uma obra tão popular em uma cidade como Nova York? Sensacional. Nova York é uma cidade icônica no universo do grafitti e da street art, com trabalhos que muito me influenciaram. Meu plano agora é pintar 10 murais em diferentes pontos da cidade. Adoro ficar passeando para escolher quais serão meus próximos muros. – Por que você escolheu esta imagem? Gosto de fazer releituras de imagens antigas e a Times Square sempre me impressionou. “O Beijo” é uma versão daquela famosa foto de Alfred Eisenstaedt que mostra um marinheiro beijando uma moça na Times Square, em 1945, durante a celebração do fim da Segunda Guerra Mundial. __________________________________________________  Código de Ética Same Same: Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista TAM Nas Nuvens do mês de agosto de 2014. Os hotéis Le Parker Meridien e The Surrey nos ofereceram diárias de graça. Jantamos como convidados no Restaurante 21.

Os 17 melhores passeios em Kerala

 

 Foram 17 dias de um fantástico roteiro por terra explorando o extremo sul da Índia. Promovida pelo #KeralaTourism, a expedição #KeralaBlogExpress percorreu, em março de 2014, uma linda rota desde Thiruvananthapuram (mais conhecida pelo apelido curto, Trivandrum), no sul do estado, até Kochi, no norte.

Após viver a intensa e divertida experiência de compartilhar a estrada com os 26 travel bloggers de 14 países que foram eleitos por uma votação no Facebook, fiz uma listinha das 17 coisas mais legais que vivenciei nesses 17 dias em Kerala.

 

1 – Navegar em um barco de transporte de arroz pelos canais das backwaters:

Passeamos pelo Lago Vembanad, comemos bem, tomamos vinho, vimos um lindo pôr-do-sol e dormimos nos houseboats, entre vilas bucólicas e campos de arroz.

 

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2 – Comer com as mãos pratos ricos em especiarias sobre folha de bananeira

Em meio a tantos curries que fazem a fama da cozinha local, aprendi a comer o sadya, usando o pão pappadom para pegar o arroz e o caldo picante de sambar.

 

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3 –       Descobrir a performance de dança, música e mímica do Kathakali

Foi fantástico assistir, desde a maquiagem até o fim do espetáculo, essa tradição Keraliana que existe desde o século 2 e que reproduz lendas do Mahabharatha.

 

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4 –       Assistir às aulas de dança, percussão e make-up na escola Kalamandalam

Preservar a arte e as tradições é coisa séria em Kerala, como notamos ao ver os fantásticos ensaios de tocadores de tambor, dançarinas e alunas de maquiagem.

 

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5 –       Visitar igrejas cristãs que copiam a estética psicodélica de templos hindus

Em Kerala convivem templos hindus, sinagogas e mesquitas. Mas para um cristão o mais curioso foi ver na igreja cristã Jesus entre luzes e cores como se fosse Krishna.

 

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6 –       Ver de perto as redes de pesca chinesa – e quem sabe ajudar a erguê-las

Quando eu fotografava as redes de pesca chinesas que viraram os cartões-postais de Kochi, ponto final da expedição, adorei ser convocado para ajudar a puxá-las.

 

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7 –       Assistir a uma autêntica competição dos longos barcos “snake boats”

Foi superdivertido fazer parte da torcida durante uma tradicional corrida de barcos compridos chamados de “barcos-cobra, com 30 remadores em cada um.

 

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8 –       Assistir a uma luta de Kalaripayattu, arte marcial mais velha que kung-fu

Nascida em Kerala, essa espetacular série de combates existe desde o século 12 e consiste em pontapés, agachamentos e golpes – alguns inclusive usando armas.

 

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9 –       Fotografar macacos a cada esquina – e constatar que eles são abusados

No primeiro momento eles são simpáticos. Mas quando você menos notar, um macaco pega seu lanche – ou invade seu quarto para sequestrar o açúcar do chá!

 

macaco cortado

10 –       Curtir praias habitadas por pescadores tradicionais e gurus mercenários

Em Poovar, adorei ser convidado por pescadores para empurrar um barco ao mar. E na bela Varkala vi sacerdotes cobrarem até 1500 rúpias para abençoar turistas.

 

 

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11 –       Ganhar tinta na testa, colar de flores e coquetéis a cada check-in de hotel: Indianas vestindo saris nos davam as boas-vindas juntando as mãos em prece, dizendo Namastê enquanto sorriam e traziam toalhinhas umedecidas refrescantes.

 

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12 –       Encantar-se com o artesanato produzido e vendido em Kottakkal

Pintura, escultura, tecelagem, cerâmica… Os mais variados tipos de artesanato indiano podem ser conhecidos – e comprados – no Saargalaya Handicraft Centre.

 

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13 –       Ver elefante todo dia, seja ele doméstico, da rua ou selvagem

Raríssimos na América (só os vemos nos zoos), os elefantes circulam por todo canto de Kerala – e foi fácil vê-los na natureza e passeando na rua com turistas.

 

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14 –       Praticar o esporte radical de ser passageiro de um autêntico tuc-tuc

Ainda que o trânsito de Kerala não seja comparável ao de Delhi ou Mumbai, andar de tuc-tuc requer coração forte para encarar desvios brutos e muitas buzinadas.

 

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15 –       Vestir lungi, sari, túnica ou bata indiana para se passar como nativo

Algumas meninas do grupo vestiram saris, uns rapazes compraram lungis. E no jantar final eu e alguns amigos usamos batas idênticas – mas de cores diferentes!

 

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16 –       Tomar chá, andar entre lindas plantações de chá, visitar fábricas de chá

Um das cenas mais impressionantes de Kerala são os mosaicos verdes formados pelas plantações de chá das montanhas de Munnar e Wayanad, em Western Ghats.

 

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17 –       Entregar-se a uma, duas, três massagens na terra da medicina ayurveda:

Sempre que tive oportunidade, recebi tratamentos relaxantes como filetes de óleo quente na testa e massagens na cabeça, nos pés e no corpo todo. Inesquecível.

 

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Código de Ética SS:
Viajei a convite do Kerala Tourism após ficar em 23o lugar entre os bloggers de viagem mais votados do mundo (entre 600 inscritos) no concurso Kerala Blog Express. Os destinos, hotéis e restaurantes ofereceram seus serviços de graça.
Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines, recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas entre São Paulo e Mumbai, via Addis Ababa, na Etiópia. 

Kerala é uma doce “India for beginners”

Gente demais, sujeira demais, barulho demais, assédio demais, informação demais. Se você tem o desejo de conhecer a Índia mas tem receio de se incomodar com essa dura realidade do país, comece por Kerala.

 

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Meu segundo, terceiro e quarto dias estreando nesta tripa de terra que se alonga pelo sudoeste indiano chamada Kerala foram suficientes para eu ter uma primeira impressão radicalmente diferente daquele que experimentei dez anos atrás. Aqui a Índia te recebe sorrindo. O clima de praia deixa todo mundo zen. As pessoas te cumprimentam simpaticamente nas ruas sem querer nada em troca. O excesso de informação visual está aqui como em todo o resto do país – são muitos templos, tuc-tucs, pessoas de testa pintada vestindo roupas coloridas –, mas sem aquela sensação de overdose comum especialmente nas metrópoles do centro e do norte.

 

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Em 2004, Nova Dehli me recebeu com o trânsito mais assustadoramente caótico e barulhento da minha vida (eu ainda não tinha conhecido o Cairo). As ruas eram abarrotadas de lixo, turistas com cara de gringo como eu eram objeto de todo tipo de assédio. Ao final de quase dois meses explorando o Norte (Agra, Varanasi e cidades do Rajastão), terminei a trip em Mumbai (depois de dar um pulo em Goa e no Nepal) incomodado com os mendigos que puxavam meu braço pedindo esmola e os travestis implorando por comida porque são párias excluídos da sociedade.

 

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O lixo e as buzinas também existem nos lugares onde passei até agora, as cidades de Trivandrum, Kovalam, Varkala, Kollam e Kumarakon. Mas a beleza do cenário e o ambiente relaxado fazem o estrangeiro se acostumar com isso rapidamente. Há boas razões para eles serem tão agradáveis. Estamos no estado mais bem-educado do país: 93% dos habitantes sabem ler e escrever. O fato de ter se desenvolvido em meio a mercadores de especiarias e de marfim vindos de toda parte – chineses, árabes, romanos, portugueses… – há mais de 3.000 anos a deixou cosmopolita, acostumada com as diferenças, e pacífica. “No norte, o histórico deixou as pessoas mais duras”, me explicou o sábio Anil Kumar, gerente do Coconot Lagoon, um  rústico (e delicioso) hotel quatro estrelas à beira do rios de Kumarakon. O jantar com ele ontem foi uma aula de história e cultura indianas. E o hotel tem encantadores bangalôs de madeira (com banheiro ao ar livre, sem teto!) diante do lindo lago Vembanad.

 

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Ontem passamos a tarde passeando de barco pelos canais de Kumarakon, vendo a singela vida dos ribeirinhos e conhecendo lindas experiências de turismo comunitário que sustentam 7000 pessoas no estado. Daqui a pouco sigo para mais uma massagem ayurvédica – não vejo a hora – e passaremos a próxima noite embarcados em um dos luxuosos “boat houses” pelas backhouses.

Se eu fosse vocês, não perderia o próximo post.

 

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Código de Ética SS:

Viajei a convite do Kerala Tourism após ficar em 23o lugar entre os bloggers de viagem mais votados do mundo (entre 600 inscritos) no concurso Kerala Blog Express. Os destinos, hotéis e restaurantes ofereceram seus serviços de graça.

Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines (www.ethiopianairlines.com), recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas entre São Paulo e Mumbai, via Addis Ababa, na Etiópia.

O império contra-ataca

Vinte e oito retratos de mulheres e homens comuns vestindo trajes andinos tradicionais fizeram sucesso entre limenhos e estrangeiros, de abril a setembro, que visitaram a MATE, galeria que o fotógrafo Mario Testino abriu em Lima há um ano e meio. Numa alusão provocativa aos ensaios de alta costura que costuma produzir para publicações como Vanity Fair e Vogue, o peruano radicado em Londres batizou a mostra de “Alta Moda”. “Voltei às raízes para explorar a herança do meu país e mostrar ao mundo a riqueza de nossa cultura”, afirmou, satisfeito pelo sucesso da exposição tê-la feito migrar para Nova York, onde vai decorar as salas do Instituto Espanhol Rainha Sofia até 29 de março. A missão de Testino parece estar sendo cumprida: o mesmo requinte da vestimenta dos camponeses de origem inca que ele fotografou na cidade colonial de Cusco ao longo de cinco anos pode ser notado no artesanato e na gastronomia do país, o que tem consagrado o Peru como o destino latino favorito de viajantes em busca de experiências legítimas.

 

Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Localizada a 1 hora de voo de Lima, Cusco tem aquele charme de cidades coloniais como Cartagena e Ouro Preto. Sua Plaza de Armas rodeada por sobrados avarandados típicos da arquitetura espanhola foi clicada por 2 milhões de turistas que ali chegaram em 2012 – mais que o dobro de oito anos atrás. Trajes típicos tais e quais aqueles registrados por Mario Testino continuam sendo orgulhosamente vestidos pela população. No entorno da cidade, que foi a capital do império inca, o mais importante da América do Sul entre 1438 e 1533, o chamado Vale Sagrado exibe uma série riquíssima de sítios arqueológicos, entre os quais se destaca o mais famoso do continente, Machu Picchu. Mesmo sem shopping-centers, parques temáticos ou atrativos artificiais,  Cusco vê sua infra-estrutura de turismo ganhar cada vez mais novos hotéis, restaurantes e museus. Com uma peculiaridade: a maioria dos investimentos foca no turismo de primeira linha.

 

Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

É na hotelaria que essa vocação para atender o viajante exigente fica mais evidente. Em 2013,  o Palácio del Inka, que surgiu nos anos 1980 sob a bandeira Libertador como o primeiro cinco-estrelas da cidade, entrou para a rede Luxury Collection Hotel depois de uma reforma de 15 milhões de dólares. Com quadros originais da famosa Escuela Cusqueña nas paredes, tetos pintados à mão e muros incas originais em sua estrutura, ele pertence ao seleto grupo de seis hotéis top que se destacam entre as 94 hospedarias de Cusco. “A elitização do turismo no Peru começou há apenas 10 anos e aconteceu ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a valorizar os destinos mais autênticos”, explica Patricio Zucconi Astete, veterano do turismo local. Ele gerencia atualmente o Miraflores Park, de Lima, unidade da rede de luxo Orient-Express, que detém na região de Cusco nada menos que 4 unidades para hospedagem de alto nível.

 

Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

No primeiro semestre de 2013, uma comitiva de 60 hóspedes da TV Globo escolheu o mais pomposo deles, o Monastério, um antigo mosteiro do século 17, para abrigar o elenco e a equipe de apoio da novela Amor à Vida. Nos jantares, Paolla Oliveira e seus colegas puderam assistir às apresentações de ópera que tinham no elenco Angela Merina, respeitada como melhor soprano do Peru. Mais moderno, o vizinho Palácio Nazarenas conta com habitações com chão do banheiro aquecido e oxigênio para amenizar o desconforto da altitude – Cusco está 3400 metros acima do nível do mar, 2500 metros mais alta que São Paulo. Único hotel que desfruta do privilégio de ficar a 20 passos da entrada de Machu Picchu, o Sanctuary Lodge costuma ter uma taxa de ocupação invejável, com média anual de 80 por cento (o que significa que mesmo na temporada das chuvas, de novembro a março, o movimento continua intenso). Mas é na viagem de trem de luxo entre Cusco e Machu Picchu que está o créme de la crème da grife: a jornada dá direito a jantar, vinhos e espumantes, aulas de pisco sour e música ao vivo no trem Hiram Bingham ­– batizado em homenagem ao americano que, em 1911, descobriu Machu Picchu.

 

Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Vem das relíquias encontradas pela equipe de Bingham, por sinal, outra das boas novidades de Cusco: o museu Machu Picchu Casa Concha. Inaugurado em 2011, ele conta com 366 peças arqueológicas incas que estiveram por um século no Museu de História Natural de Peabody, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. E soma-se a outros museus de boa curadoria da cidade, entre eles o de Arte Precolombino, que pertence ao grupo do Museo Larco, de Lima, dono da mais fina coleção de objetos de cerâmica, ouro e prata do Peru antigo. Suas peças inspiram o trabalho da designer de jóias  Maria Elena Guevara, proprietária da Inka Treasure, rede com nada menos que 9 joalherias em Cusco. “O Peru é o segundo maior exportador de prata do mundo, só perde para o México”, explica. “Temos o privilégio de trabalhar com a prata de melhor qualidade, além de pedras raras do país, como as de crisocola, a turquesa peruana”, conta a empresária, que já atendeu clientes como Bill Gates, Dalai Lama e Antônio Fagundes. Uma estátua de um guerreiro mochica que brilha em uma de suas vitrines e levou 3 meses para ser esculpida não sai por menos de 8.500 dólares.

 

Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Por preços menos salgados que os de São Paulo ou Rio de Janeiro, os bons restaurantes de Cusco são exemplos da gastronomia mais respeitada da América Latina na atualidade. Embora já seja sócio do Chicha, considerado o melhor restaurante da cidade, o embaixador da culinária peruana Gastón Acurio se prepara para abrir uma segunda casa em breve. Ele é o dono do Astrid & Gastón, de Lima, que em setembro renovou seus louros como o número 1 entre os 50 melhores da América Latina segundo os críticos da revista inglesa Restaurant. Hoje é difícil jantar sem reserva no Chicha, que tem esse nome em homenagem a uma bebida de origem inca, normalmente feita de milho fermentado. Uma vez à mesa, os comensais degustam receitas desenvolvidas com técnicas andinas e asiáticas. Os ceviches abrem o paladar para clássicos como o anticucho – ou espetinho ­– de coração de vaca e o lomo saltado, filé de carne frito no estilo chinês.

 

Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Mas é no vestuário que os turistas – 126 mil deles vindos do Brasil, segundo dados de 2012 da PromPeru, órgão governamental que promove o turismo do país – investem seus soles com maior custo-benefício. É claro que os gorros, suéteres e cachecóis coloridos, como aqueles clicados por Mario Testino, podem ser encontrados em cada esquina com tecidos e preços populares. Quem visita lojas locais renomadas como a Sol Alpaca e a Golden Alpaca, no entanto, descobre que vale a pena pagar mais pelos raríssimos tecidos de vicunha ou de baby alpaca – esses feitos da lã dos filhotes de alguns dos bichos mais avistados nessas alturas dos Andes. “Um gorro de qualidade não vai custar menos que uns 50 reais, mas vale a pena”, atesta a advogada Thalita Rosa, que viajou com o namorado, o engenheiro Mateus Carmona, em junho. “Contratamos um motorista exclusivo para explorar os arredores, comemos muito bem e ficamos fascinados com a riqueza das tradições do Peru”, conta Thalita, que voltou de viagem com outra recordação mais que especial. Foi nas alturas do Wayna Picchu, a maior montanha diante de Machu Picchu, que Matheus lhe surpreendeu com um par de alianças e um pedido de casamento. E deixou a experiência de conhecer o Peru ainda mais inesquecível.

 

Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)
Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)

 

Para ver a reportagem como publicada na Veja Luxo, inclusive com fotos de Mario Testino, baixe o PDF.

 

SERVIÇO:

CHICHA: www.chicha.com.pe

GOLDEN ALPACA: Plaza de Armas, 151, tel. +51 84 25-1724

INKA TREASURE: www.incatreasure.com.br

MACHU PICCHU: www.machupicchu.gob.pe

MATE (LIMA): www.mate.pe

MIRAFLORES PARK HOTEL (LIMA): www.miraflorespark.com

MONASTÉRIO: www.monasteriohotel.com

MUSEU DE ARTE PRECOLOMBINO: www.map.museolarco.org

MUSEU MACHU PICCHU CASA CONCHA: www.cuscoperu.com

PALÁCIO DEL INKA: www.starwoodhotels.com

PALÁCIO NAZARENAS: www.palacionazarenas.com

SANCTUARY LODGE: www.sanctuarylodgehotel.com

SOL ALPACA: www.solalpaca.com

TREM HIRAM BINGHAM: www.orient-express.com