Ao coração da floresta

Era como uma sinfonia com milhares de músicos na escuridão completa, tocando bem alto e com um resultado impressionantemente harmonioso. Sapos coaxavam, cigarras cantavam sem parar. Mas eram os macacos que chiavam de forma assustadora, especialmente o guariba, que guincha parecendo simular o rugido de uma onça-pintada. Lembrei-me do relato do Seu Manduca sendo atacado pelo felino, da cobra d’água, dos jacarés e aranhas que havia visto nos três dias anteriores. Me acalmei escutando a orquestra deitado em uma das três redes de um casebre sobre palafitas que ficava 2 metros acima da superfície do Rio Mamirauá e, em vez de paredes, tinha tela antimosquito.

 

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Através da tela e por trás das árvores, visualizei o nascer da lua cheia da Páscoa de 2013. E dormi imerso na música mais espetacular que já ouvi na vida.

 

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Outro concerto, menos misterioso e mais festivo, celebrou a bruma e a brisa da manhã. Agora comandado pelos pássaros, compôs o fundo ritmado de nosso retorno, de canoa, para a pousada, nossa base, onde o café da manhã regional em mesa comunitária nos esperava. Localizada a 10 minutos do casebre na floresta onde eu havia pernoitado com o guia Raimundo Morais e o fotógrafo Adriano Fagundes, a Uacari é uma hospedaria flutuante que boia solitária como o quartel-general de quem explora a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Trata-se de uma sucessão de dez bangalôs de telhados vermelhos, feitos de garrafa pet, que quebram a monotonia verde daquele trecho da região do Médio Solimões, entre o rio de mesmo nome e o Japurá. Sua localização, diante de uma bela curva do Rio Mamirauá, proporciona uma experiência tão rara de imersão na selva e de fácil avistamento de animais que o lugar se transformou na principal recomendação de turismo na Amazônia do guia de mochileiros Lonely Planet.

 

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Primeira experiência do gênero no Brasil, a área de mais de 1 milhão de hectares de Mamirauá nasceu do sonho do primatologista José Márcio Ayres (1954-2003), em 1990. Ele queria preservar o habitat do seu objeto de estudo, o uacari-branco, um macaco de cara vermelha que só existe nesse cafundó da Amazônia. Na contramão da prática dominante na época, que tirava as populações tradicionais de seus locais de origem em nome da preservação ambiental, Márcio liderou um movimento para mudar a lei. Ao se empenhar na fundação da primeira reserva de desenvolvimento sustentável, em 1996, o cientista deflagrou uma iniciativa para proteger a floresta, produzir pesquisas e estimular o turismo, permitindo que 10 mil ribeirinhos continuassem vivendo ali, cortando árvores, plantando e pescando para seu sustento – tudo de forma controlada. Deu tão certo que hoje há pelo menos mais cinco áreas do gênero Brasil afora. Ayres conseguiu ainda proteger o território vizinho de Mamirauá, criando a Reserva de Amanã, colada ao Parque Nacional do Jaú. Juntos, os três formam a maior extensão de floresta tropical protegida do planeta.

 

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A SAGA DA VIAGEM

Chegar a Mamirauá é uma aventura. Primeiro viajamos pela TAM por 3h40 de São Paulo a Manaus. De lá seguimos para Tefé, de onde partem as voadeiras, que navegam durante uma hora até a Pousada Uacari. A questão é a rota de mais de 500 quilômetros entre Manaus e Tefé. Levam-se 36 horas – um dia e meio – para fazer o deslocamento em navios de dois andares, onde embarcam 400 pessoas, cada uma acomodada na própria rede. Já nas lanchas rápidas, o tempo despenca para 12 horas. Os passageiros normalmente se sentam em poltronas reclináveis e têm direito a refrigeração e TV coletiva. Mais rápida e cara, embora sem a mesma experiência de interação com a realidade da Amazônia, foi nossa opção, o táxi aéreo: em duas horas completa-se o percurso, com a vantagem de se impressionar com a exuberância verde vista dos ares.

 

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O transporte aéreo, é verdade, não propiciou a mesma aura épica vivida nas embarcações pelos mochileiros que exploram Mamirauá – 85% deles estrangeiros. Quando, porém, entramos na lancha de Tefé para a pousada, uma tempestade carregou de emoção o passeio. Entre janeiro e julho, a temporada de chuvas na Amazônia transforma radicalmente cenários como o dessa região, conhecida como várzea. A superfície dos rios chega a subir 12 metros, obrigando os moradores a habitar casas erguidas sobre palafitas altíssimas. Construções flutuantes, como a pousada, também dançam ao sabor do rio por serem levantadas sobre madeiras leves como o açacu, que atua como boia. Em metade do ano, a população circula a pé, trabalha na roça, joga bola no campinho. Na outra parte, o ofício é a pesca e tudo depende do barco – até uma visita ao casebre do vizinho ou à igreja do bairro. Quem chega a Mamirauá nessa época do ano – como foi nosso caso – já é logo avisado: não há como percorrer as 16 trilhas locais praticando trekking; a mesma rota desses passeios é feita apenas em botes.

 

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O desembarque no calor úmido de Mamirauá é uma experiência especial. Todos os funcionários da Uacari se alinham para dar as boas-vindas aos novos hóspedes. “Hi, my name is Ednelza and I am the hotel manager”, apresentou-se Ednelza Martins da Silva, uma ex-empregada doméstica e ex-agricultora que há seis anos assumiu o cargo mais alto do estabelecimento. Depois dela falaram Judith, a cozinheira, Naíza, a copeira, e assim por diante. Todos exercitando a língua que aprendem em um dos mais de cem cursos ministrados pelo Instituto Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia que administra a reserva e as iniciativas ligadas a ela, como a pousada. “Fazemos parte do projeto de turismo de base comunitária, uma proposta pioneira na região e que há 15 anos serve como referência para outras unidades de conservação Brasil afora”, explica Ednelza. A pousada gera emprego por meio de passeios de mínimo impacto na reserva, tem seu lucro revertido para as 80 famílias da comunidade e utiliza práticas sustentáveis, como energia solar, captação de água da chuva, reciclagem e compostagem de lixo.

 

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INTERAÇÃO COM A COMUNIDADE

Ao longo dos quatro dias que passamos ali (há pacotes de três, quatro e sete diárias, com pernoite em quartos rústicos e avarandados, com mosquiteiros individuais), descobrimos que reside na vivência do turismo comunitário o grande diferencial de escolher Mamirauá como o local para desbravar a Amazônia. Pela manhã e depois do almoço, os hóspedes saem para observar animais ou visitar comunidades vizinhas. Nosso guia era o Morais, nosso companheiro na fantástica noite citada no começo deste texto, quando nos isolamos na mata. Morais é um cabeludo descendente de indígenas que contou já ter comido muita carne de peixe-boi quando a reserva ainda não existia e faltava àquela gente a consciência ecológica para cuidar dos recursos preciosos da região. “Hoje entendo que tudo isso vale ouro.” Foi uma delícia observar como Morais afiou seu ouvido para identificar os sons da densa floresta e simular o mesmo piado ou grunhido dos bichos, em busca de uma resposta do interlocutor. O grande barato de cada dia é justamente brincar de identificar quem cantou o quê e onde – e, sempre que possível, remar em busca do cantor em questão.

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Impressionante é que, mesmo passeando a 7 metros de altura do solo, como fizemos em março, driblando os galhos das árvores submersas, as grandes copas continuam lá nas alturas. No topo, é claro, se escondem os animais, dificultando o foco de nossos binóculos e câmeras fotográficas. O livreto de identificação dos pássaros catalogados na reserva lista 355 deles, com ilustrações, nomes populares e científicos de garças, gaviões, papagaios… Um dos mais belos é a cigana, que exibiu seu topete estilo moicano uma dezena de vezes durante nossas remadas silenciosas. Aranhas e sapos existem aos montes. No rio, botos, piranhas, jacaretingas e jacarés-açus são bem frequentes na seca, pois ficam mais concentrados. Mas são as cinco espécies de macacos do entorno da pousada as estrelas das observações: prego, guariba, de-cheiro, de-cheiro-de-cabeça-preta e uacari – estes últimos dois endêmicos, que praticamente só existem ali. “Nas pesquisas que fizemos entre 2007 e 2010, quando ocorreram 1.448 registros de grupos, constatamos que a presença humana não afasta os animais”, conta a bióloga gaúcha Fernanda Paim, que há oito anos acompanha a macacada em Mamirauá. “Ou seja, o turismo de mínimo impacto praticado aqui, com 20 turistas por fim de semana, não prejudica o ambiente dos primatas.”

 

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A onça-pintada, no entanto, vive escondida – ou nem tanto para o biólogo carioca Emiliano Esterci Ramalho e seu time, que se dedicam a rastrear os maiores gatos das Américas com uma antena de telemetria móvel e 40 câmeras em 20 pontos para observação. “Vi 30 onças nesses nove anos trabalhando aqui”, conta. Sorte tiveram os dez turistas hospedados na Uacari no início do ano, pois acompanharam parte da captura de Mudinha, Confuso, Zangado, Jandia e Cotó, todos atualmente soltos, mas seguidos virtualmente graças a coleiras com GPS. Não por acaso, a equipe de ecologia de vertebrados terrestres de Mamirauá trabalha para que, a partir de 2014, vire rotina os visitantes acompanharem o trabalho dos pesquisadores. Como a cheia amazônica isola várias onças na copa das árvores por meses a fio, não é difícil observá-las dos barcos.

 

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CIÊNCIA DE RESULTADOS

Atualmente, o contato com os pesquisadores se dá em palestras após o jantar. Foi assim que conhecemos, na última noite, um pouco mais sobre o boto-cor-de-rosa, na aula com a bióloga portuguesa Zulmira Gamito. “Já catalogamos 558 botos e 17 tucuxis na área do Lago Mamirauá.” Ela faz parte do grupo de cientistas que desenvolve no momento mais de cem pesquisas no Instituto Mamirauá e que frequenta as instalações da cidade de Tefé (e outras 12 bases flutuantes para trabalho de campo). Com laboratórios, biblioteca científica aberta às escolas da região, lojinha e uma estrutura de primeiro mundo, que não se espera encontrar nos confins da Amazônia, a sede do instituto é movimentada por 250 profissionais. Um estudo em andamento avalia a eficiência do sistema ecológico do esgoto doméstico da pousada. “A filtragem em tanques flutuantes remove quase 95% dos contaminantes quando a água volta ao rio”, diz o paulista João Paulo Borges Pedro, tecnólogo em meio ambiente. Graças àqueles que manejam o pirarucu, o peixe amazônico de até 3 metros – que já esteve ameaçado de extinção na região – aumentou em 425% sua população na última década: tudo porque os pescadores passaram a respeitar o período de reprodução e desova, fazendo com que seu comércio rendesse mais de 10 milhões de reais nesses dez anos. Já a equipe de manejo florestal empenhou-se para que o desmatamento fosse reduzido em 1.600% depois da criação da reserva.

 

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Os experimentos de Mamirauá têm dado certo porque unem com excelência o saber científico e o conhecimento tradicional. Pois é justamente nas conversas com os nativos que a imersão dos viajantes na realidade amazônica fica completa, especialmente nas visitas a algumas das oito comunidades situadas no território da reserva. No povoado Sítio São José, visitamos a sala de aula, onde pudemos acompanhar uma performance musical (com nosso guia Morais como percussionista!), ver como as hortaliças são plantadas sobre canoas flutuantes e comprar artesanato feito com sementes locais. Já em Vila Alencar, entendemos como os painéis que captam energia solar acionam o sistema de bombeamento de água do rio para a caixa d’água (e o sistema de purificação) que abastece as 28 famílias do vilarejo. Sem isso, os moradores teriam que carregar água desde o leito, que na seca passa a distantes 400 metros das casas mais próximas.

 

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Na hora de ir embora da Pousada Uacari, ao observar os funcionários sorridentes lado a lado, dando adeus ao barco, pensei em como a mudança na realidade dessa gente é tão valiosa quanto o desenvolvimento da ciência e a preservação do ecossistema amazônico. A gerente Ednelza, por exemplo, passou a difundir entre seus vizinhos o uso do mesmo sistema de banheiro seco ecológico de sua casa, e contou adorar multiplicar sua experiência quando viaja promovendo o torneio de futebol feminino com as mulheres de Mamirauá. Poucas transformações pessoais, no entanto, foram tão radicais quanto a do auxiliar de cozinha Vanderlei Rodrigues, o Seu Manduca. Ele viveu na pele o susto de encontrar uma onça, o que faz todos lembrarem que estamos em um dos locais mais selvagens do planeta. “Eu voltava de uma pescaria quando ela me atacou, mordeu meu rosto e caímos no rio”, contou. “Quase morri.” Hoje, os 28 pontos da cicatriz na face são discretos e o trauma foi superado, tanto que Seu Manduca já se deparou com outras cinco onças depois daquela, pois passou a integrar o grupo de apoio aos cientistas que capturam, monitoram e estudam o felino. E milita pela preservação da fera, orgulhoso por fazer parte da experiência pioneira de Mamirauá.

 

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SERVIÇO:

+55 97

INFO E AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá – tel. 3343-9700, mamiraua.org.br; Pousada Uacari – tel. 3343-4160, pousadauacari.com.br

Um ônibus ecológico

Água e energia elétrica. São essas as matérias-primas que farão circular o primeiro ônibus do Brasil movido a hidrogênio, com o objetivo de reduzir a poluição em grandes cidades como São Paulo. Depois de três anos de pesquisa, a novidade deve ir para as ruas em julho. O veículo está na garagem vizinha ao prédio da Empresa Metropolitana de Transportes Urbanos (EMTU), em São Bernardo do Campo. Passa por testes finais até que possa se juntar aos 200 ônibus a diesel e 78 trólebus do corredor ABD, que liga São Mateus ao Jabaquara, atravessando os municípios de Santo André, São Bernardo e Diadema. Silencioso e com emissão zero de poluentes, o ônibus ecológico não contamina o meio ambiente nem usa combustível fóssil, como seus irmãos a diesel e a gás, e não requer cabos nem fios, como os trólebus. “Ele só emite vapor-d’água”, diz o presidente da EMTU, Júlio de Freitas Gonçalves.
O processo que transforma água em combustível é simples. Na estação de produção de São Bernardo, as moléculas de água (H2O) são separadas pelo processo de eletrólise. O oxigênio é liberado na atmosfera, enquanto o hidrogênio passa por compressão para ser armazenado em nove tanques que ficam sobre o teto do ônibus. Esse gás é injetado em duas células de hidrogênio automotivas (caixas com 80 centímetros de comprimento, 40 centímetros de largura e 25 centímetros de altura). Como usinas móveis, elas criam por reação química a energia que aciona os dois motores elétricos, permitindo uma autonomia de até 300 quilômetros. Embora os Estados Unidos, a Alemanha e a China também tenham tecnologia para produzir ônibus a hidrogênio, só o experimento nacional conta com o diferencial da hibridez. “Além das células de hidrogênio, o ônibus tem três baterias de alta performance que armazenam a carga extra produzida e também a energia poupada nas frenagens, como faz o novo sistema kers da Fórmula 1”, explica Carlos Zündt, gerente de Desenvolvimento da EMTU. “Isso é revertido em força extra para subir uma ladeira, por exemplo.”
O uso de energia elétrica na eletrólise e os altos custos são dois inconvenientes do projeto. A ONG Global Environment Facility (GEF), que incentiva o desenvolvimento sustentável em 178 países, financia o equivalente a 45 milhões de reais nessa empreitada que mobilizou cerca de cinquenta especialistas de oito empresas – entre eles o engenheiro alemão Ferdinand Panik, criador do primeiro carro a hidrogênio do mundo. “Acreditamos que o investimento será compensado quando o Brasil se tornar um polo exportador de veículos a hidrogênio”, diz Zündt. A previsão é que outros quatro ônibus idênticos sejam produzidos até 2010. Cada um deve custar 2 milhões de reais. O preço de um ônibus convencional é 500 000 reais.

Salvadores de orquídeas

Sabe aquela orquídea que enfeita a sala de casa por duas a seis semanas e depois perde a flor? Alguns paulistanos têm descoberto que é possível resgatar os caules jogados no lixo e plantá-los em troncos de árvores. Até um ano depois, eles voltam a florescer. “Salvamos uma flor e deixamos a cidade mais bonita”, diz a arquiteta Adriana Irigoyen, que a cada quinze dias se reúne com outros moradores da Avenida Nove de Julho, no Jardim Europa, para desovar cerca de cinquenta exemplares. “Boa parte nos é dada por floriculturas e empresas, como é o caso da Rubens Flores, especializada em decorações para festas”, conta o advogado Paulo Visani, vizinho de Adriana que ajudou a amarrar mais de 500 orquídeas em oito árvores do canteiro central da avenida no último ano. “Há quem pense que essas plantas morrem quando a flor seca, mas elas sobrevivem tirando o seu sustento de outro caule”, explica o engenheiro agrônomo Mário Bertinatto, que ajuda a carregar, com o assistente Reginaldo Barros, escada, arames e adubo para cada replantio.
Com cerca de 35 000 espécies no mundo – 5 800 no Brasil -, as orquídeas têm uma multidão de admiradores. São esperados 30 000 deles na 80ª edição da Feira de Orquídeas, promovida entre sexta (13) e domingo (15) na Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa, na Liberdade, pela Associação Orquidófila de São Paulo (informações, 3207-5703 e www.aosp.com.br). A maior das sete principais exposições anuais trará 2 000 exemplares de 150 colecionadores, com preços que vão de 40 a 600 reais. “Sempre reaproveitamos as plantas sem flor em árvores de prédios e sítios particulares, mas agora essa moda foi também para as ruas”, diz a geógrafa Lúcia Morimoto, relações-públicas da entidade.
“A cada dez dias reaproveito umas quinze orquídeas do meu restaurante”, afirma o restaurateur Carlos Whately, do Bistrô Charlô. “Realoquei mais de 200 em frente ao meu prédio e ao restaurante.” Moradora da mesma rua do Charlô, no Jardim Paulista, a paisagista Kika Samara, responsável pelos jardins do Club Athletico Paulistano, se inspirou com a ideia. “Depois que passamos a estimular as doações de associados, há quase um ano, já replantamos mais de 400 unidades”, revela. “Dois noivos trouxeram uma orquídea de seu casamento e fizeram questão que mostrássemos onde ela foi colocada. A árvore virou, além da nova moradia de uma bela flor, um símbolo de amor.”

Precioso berço da vida

Um boto cinza salta na frente do barco, mergulha, reaparece com outros botos. Garças, biguás e colhereiros batem asas nos manguezais das duas margens. Durante a navegação entre Cananéia e a Ilha do Cardoso, ambas no litoral sul de São Paulo, um delicado espetáculo de vida se descortina no canal de água salobra ladeado por montanhas de até 800 metros. Na vasta, densa e deserta paisagem do Lagamar, dá para entender por que a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) considera este santuário um ponto prioritário de preservação. Os botos, as 430 espécies de aves, as dez praias extensas, as 986 espécies vegetais e a invisível vida aquática do estuário fazem da Ilha do Cardoso um raro ponto da Terra onde a natureza vive em estado bruto.

 

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Talvez não fosse um lugar tão especial, menina dos olhos de biólogos de todo o mundo, se não estivesse situada bem no coração do Lagamar. Gigantesco berçário natural de 110 quilômetros que se estende em forma de estuário desde Iguape, no litoral sul de São Paulo, até Paranaguá, no canto norte do Paraná, o Lagamar é um dos cinco maiores criadouros de espécies marinhas do Atlântico Sul. É formado por extensas ilhas que protegem o continente, criando uma espécie de mar de dentro, e pela desembocadura de vários rios, entre eles o caudaloso Ribeira de Iguape, que cruza todo o Vale do Ribeira. A água doce dos rios encontra-se com os braços de mar, num ambiente rico e complexo. Peixes, crustáceos e moluscos dependem dos pequenos seres desses estuários para se alimentar e viver – e por isso a paisagem da chamada Baía do Trapandé está sempre pontilhada por coloridos barquinhos de pesca. Soma-se à invisível riqueza aquática o verde escuro e denso da maior área de Mata Atlântica contínua do Brasil, um extenso território preservado entre o Rio de Janeiro e o Paraná.

“Esta ilha é a mais representativa porção do Lagamar, pois reúne vários ecossistemas num único lugar”, explica o oceanógrafo Marcos Campolim, responsável pelo Parque Estadual da Ilha do Cardoso, criado em 1962 e gerenciado pelo Instituto Florestal de São Paulo. De fato, como se não bastasse ter cerca de 90% de seu território coberto de Mata Atlântica preservada, essa ilha de 22500 hectares – que tem o tamanho da cidade pernambucana do Recife – é um raro ponto que reúne quatro tipos de ecossistemas importantes (veja quadro na pág. 29). A existência de uma Mata Atlântica que conserva riquezas como 118 espécies de orquídeas e 41 de bromélias levou o parque a ser reconhecido pela Unesco como parte da Reserva da Biosfera desde 1992.

Pássaros migrantes. Com tanto reconhecimento internacional, a ilha só poderia ser um paraíso idolatrado pelos ecologistas também do Brasil. “Este é o centro de fantásticas migrações de pássaros”, lembra a estudiosa de aves Judith Cortesão, apaixonada pelo lugar. Não há na costa brasileira lugar algum com uma diversidade de aves tão grande. Além disso, este é um dos dois lugares da porção neotropical do planeta que protegem a maior quantidade de espécies de aves raras e ameaçadas de extinção. Não são somente os pássaros que dão sua paradinha na Ilha do Cardoso para comer, reproduzir-se ou descansar sempre que migram pelo mundo. Pingüins e lobos marinhos passam por ali nos invernos, fatigados e com o corpo sujo de óleo do mar. Desde junho, técnicos que atuam no parque têm desenvolvido trabalhos de resgate e reabilitação desses animais.

Surpreendente é a Ilha do Cardoso preservar seus bugios, veados e jaguatiricas mesmo estando a apenas 272 quilômetros de São Paulo, a maior metrópole do país. A história mostra que a natureza tem sobrevivido a diferentes povoações. O caminho que os barcos percorrem para chegar ao Núcleo Perequê, onde fica a sede do parque, ou à Vila de Marujá, centro turístico da ilha, é uma prova disso. A rota passa por vários sambaquis, sítios arqueológicos onde estão misturados conchas, restos de fogueira e esqueletos de homens e animais datados de mais de 1500 anos. Depois dos índios, a ilha teve como moradores os portugueses, que chegaram a Cananéia em 1502 (veja quadro) e transformaram a região em zona portuária até o século passado.

No início do século XX, existiam mais pessoas morando na Ilha do Cardoso do que em Cananéia. Motivo: o solo era mais fértil e os peixes, a fauna, a flora e a água potável eram abundantes. Até hoje a Ilha guarda ruínas de construções coloniais e de engenhos – como o que fica na trilha da Cachoeira Grande, a mais visitada das catorze cachoeiras. A beleza do lugar continuou atraindo moradores depois da criação do parque: há duas décadas, grandes empresários compraram terrenos dos nativos para construir mansões ilegais. Recentemente, a Justiça ordenou a demolição de algumas dessas casas.

Estilo pantaneiro. O plano de manejo que tem sido colocado em prática no parque há três anos é uma experiência ainda rara no Brasil. Feito com a participação das seis comunidades da ilha, esse plano concilia a preservação da área natural com a presença de moradores na reserva. Nem sempre foi assim. Na década de 60, quando a ilha virou parque, muita gente foi expulsa sem desculpas nem indenizações. A família do monitor ambiental Romeu Mário Rodrigues, nativo da ilha, foi uma das que mais sofreram. “Eles foram jogados no continente sem ter nem uma roça pra viver”, conta seu Romeu, com tristeza. Aos 53 anos, esse baixinho simpático, de pele acostumada com os infernais mosquitos-pólvora da lua cheia, orienta estudiosos e visitantes por trilhas que levam, por exemplo, à bela piscina natural do Poço das Antas, à distante Praia de Ipanema ou aos manguezais para que seja feita a focagem noturna do jacaré-de-papo-amarelo, no melhor estilo pantaneiro.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Hoje 400 pessoas vivem espalhadas pela Ilha do Cardoso. A exploração do palmito, antes bastante comum, foi proibida e a população passou a viver da pesca. Até os 23 índios guaranis, que desde 1992 migraram para dois pontos do arquipélago, são aceitos. Eles só deixam o isolamento do grupo para vender artesanato, participar das reuniões do comitê gestor da ilha e visitar o vizinho João Cardoso. Aos 72 anos, João é o último Cardoso, da família que dá nome ao lugar, que ainda vive na ilha, sustentando uma mulher e uma filha com os poucos trocados que tira da pesca. Como ele, todos os pescadores respeitam as regras que evitam a extinção de algumas espécies de peixes, previstas no plano de manejo. Os homens da ilha tiram o seu ganha-pão diário dos tradicionais cercos de pesca artesanais. Conhecidos nas praias do Nordeste como currais, esses cercos são armações de madeira onde os peixes entram e não conseguem sair. Os botos chegam, inclusive, a ajudar na pesca. “Eles usam os cercos como barreira e tocam cardumes inteiros para dentro do cercado”, explica o biólogo Fernando de Oliveira, do Instituto de Pesquisas Cananéia, o Ipec, uma das ONGs que pesquisam os botos na região da Ilha do Cardoso. O espetáculo da despesca do cerco, quando os pescadores esvaziam a armadilha, é belíssimo: botos e dezenas de aves se aproximam para roubar um pouco de alimento, enquanto os pescadores enchem seus barcos de tainhas, no inverno, e de paratis e robalos, no verão.

A estreita Vila da Restinga. O isolamento torna mais dura a vida dos ilhéus. A falta de energia elétrica tem sido suprida com o uso de painéis que captam a energia solar. A idéia é ecológica, mas a população reclama que um dos fornecedores dos serviços de energia não tem feito a manutenção dos painéis – deixando muita gente sem luz. Para as famílias que vivem nas comunidades mais distantes ou nos sítios isolados isso é um transtorno a mais. Afinal, todos precisam navegar pelo menos meia hora de barco até Cananéia, por exemplo, para ir ao hospital ou para estudar em escolas a partir da quinta série do ensino fundamental. Além disso, o sistema de saneamento ainda é precário e 25% do esgoto vai para o mar sem receber tratamento algum. Espera-se que, a partir de julho, esse problema seja sanado. Uma ONG da Alemanha se juntou ao parque e à Associação de Moradores do Marujá para implantar um tratamento de esgotos completo na principal vila do lugar.

Na restinga ao sul da ilha, Marujá é um vilarejo tão estreito que a distância entre o Canal de Ararapira, onde os barcos aportam, e a praia principal, a do Marujá, não passa de 300 metros. Seus 150 habitantes vivem da pesca ou do turismo: há três pousadas, oito casas de moradores transformadas em hospedarias nos finais de semana, três restaurantes e três bares – um deles vira casa de forró de vez em quando. A luz é produzida por geradores barulhentos, só há um telefone na vila e os chuveiros são aquecidos a gás. Apesar de as dez praias da Ilha do Cardoso, extensas e com areia batida como é comum no litoral sul do Estado, serem menos atraentes que as pequenas baías recortadas pelas montanhas do badalado litoral norte, Marujá costuma lotar nos feriados. Todos os caminhos – aonde não chegam carros e portanto não há ruas ou calçadas – lotam de barracas de camping.

“Temos tentado organizar o turismo ecológico orientando os visitantes para que não sujem as trilhas e separem o lixo reciclável dos restos orgânicos”, diz o pescador Ezequiel de Oliveira, 59 anos, líder da comunidade e defensor da manutenção de atividades tradicionais como a pesca de cerco, a roça e a produção de farinha. No intuito de orientar os turistas, quinze monitores ambientais foram treinados em dezembro para acompanhar os visitantes nas caminhadas mais longas, como a que leva às piscinas naturais. Um camping comunitário deve passar a funcionar no segundo semestre. Há planos ainda para a instalação de um centro de pesquisas do Projeto Tamar, já que este é um dos mais importantes pontos de alimentação de cinco espécies de tartarugas marinhas. Outro projeto, esse em parceria com a Unesp de Rio Claro, vai iniciar um roteiro monitorado de rapel em árvores, usando alguns cedros e jequitibás de mais de 50 metros de altura do Perequê.

Os planos são muitos e a comunidade vê com bons olhos a exploração do ecoturismo. Não só pela renda a mais mas também porque têm consciência ecológica. Prova disso é que as três últimas autuações de exploradores clandestinos e caçadores foram feitas com a ajuda de índios e pescadores – exemplo raro de mobilização social. Os privilegiados habitantes da Ilha do Cardoso sabem que têm uma das regiões naturais mais ricas do planeta. E preservá-la é prioridade para eles e para todo o mundo.

Para ir mais longe

Descubra o Lagamar, livro de Nicia Wendel de Magalhães, editado pela Associação para Estudos do Ambiente, tel. 011/212-5538.

 

 

GUIA DA TERRA

COMO CHEGAR

Apesar de estar em pleno litoral de São Paulo, a Ilha do Cardoso conseguiu manter-se preservada porque o acesso não é tão fácil. De carro, é preciso seguir até Cananéia pela perigosa BR-116, também conhecida como Rodovia da Morte pela freqüência de acidentes com os muitos caminhões que por ela circulam. São 272 quilômetros de distância de São Paulo. Do Porto de Cananéia partem barcos até Marujá, que levam cerca de 3 horas de viagem. Além do barco do Dersa e do barco Lagamar para o Marujá, existem as pequenas voadeiras de pescadores, que podem ser alugadas para viagens a Marujá ou Perequê.

QUANDO IR

Como em todo o Vale do Ribeira, chove muito na Ilha do Cardoso – pelo menos uma vez por semana. O período de julho a agosto é bom porque a umidade diminui, com temperatura média de 18 graus, dias quentes e noites que baixam aos 10 graus. No verão, entre dezembro e fevereiro, cai muita água e a temperatura passa dos 25 graus. É bom para ver jacarés, que estão procriando.

ONDE FICAR

Perequê, onde está a sede do Parque (tel. 013/851-1163), oferece passeio organizado, com alojamento para oitenta pessoas (foto), quatro trilhas por manguezais, restingas, praias e Mata Atlântica, além de boa comida no refeitório. Há doze agências de ecoturismo que fazem viagens à Ilha do Cardoso, informe-se no parque. Em Marujá, cada um pode cuidar de seu próprio passeio — embora existam também guias à disposição. Comunitário, o único telefone da vila (tel. 013/852-1161) pode fazer reservas para as pousadas. Na do Ezequiel dá para acampar, alugar quartos e comer bem. O preço da diária com pensão completa é 30 reais, o mesmo do Hotel do Celestino Trudes, o mais próximo da praia, e do Recanto do Marujá (tel. 013/851-1488), à beira do canal.

DICA DO AUTOR

”Hospedar-se no Perequê é mais tranqüilo, mas, caso você prefira ficar no Marujá, evite ir nos feriados, pois a vila fica cheia. Ao escolher um lugar para se alojar, verifique se não há por perto um barulhento gerador de energia. E você dormirá ouvindo o som da natureza.”

Daniel Nunes Gonçalves

 

 

A RIQUEZA DO LITORAL SUL PAULISTA

Um dos principais méritos da Ilha do Cardoso é aglutinar quatro ecossistemas importantes em um só lugar: o coração do Lagamar, uma área que leva o pomposo nome de Complexo Estuarino-Lagunar de Iguape, Cananéia e Paranaguá e que reúne ainda a Juréia, a Ilha do Mel, o Superagui e a Ilha Comprida.

Mangue

Ocupando 8% da ilha, os manguezais são emaranhados de árvores que deixam suas raízes à mostra, banhadas em água salobra. Têm aparência estranha, mas são moradia de caranguejos e muitos outros animais aquáticos.

Floresta Atlântica

A floresta atlântica engloba a maior parte da Ilha do Cardoso. Tem arbustos, gramíneas e árvores de até 50 metros de altura, que surgem nas planícies onde estão as restingas e seguem para o alto dos morros de até 840 metros. Tem riachos, cachoeiras e coloridas espécies de orquídeas e bromélias.

Restinga

Vegetação baixa, formada basicamente por arbustos que crescem em terrenos arenosos entre as praias e a floresta atlântica do interior da ilha. É bastante procurada por aves migratórias, que buscam frutos maduros para se alimentar. Parte da restinga é inundável, em complexos de água doce e salgada, e habitada por lontras, cágados e jacarés-de-papo-amarelo.

Dunas

A Ilha do Cardoso não tem dunas de areia altas como as que existem em Cabo Frio (RJ) e Genipabu (RN). Aqui, o que se chama de vegetação de dunas é o mato que fixa as pequenas elevações de areia da praia, que não ultrapassam 2 metros de altura. Esse ambiente arenoso acumula restos de seres marinhos e é vital para a alimentação de várias espécies de pássaros.

 

Publicado na revista Os Caminhos da Terra, edição 87, Julho/1999

A Florianópolis mais natural

Ninguém chega sem ser anunciado ao casebre de seu Miro. Basta se aproximar para que oito cachorros e cinco gansos abram o berreiro num escarcéu danado. “Podem se achegar”, avisa do alto da trilha o senhor de 61 anos, sorriso estampado pela alegria dessas visitas raras. O gaúcho surge de uma casa amarela secular em meio à densa Mata Atlântica. Chimarrão na mão, é um voluntário isolado nesse cafundó no alto do Morro do Ribeirão, de 540 metros, o maior da Ilha de Santa Catarina. Passa dias ali, cuidando da terra, mirando o horizonte da mata com o olhar misterioso típico dos ilhéus, acostumados a ver coisa nenhuma onde o mar encontra o céu. Seu Valmiro dos Santos convida para entrar, espanta uma galinha de cima da pia, observa uma revoada de tucanos-do-bico-verde, puxa prosa. “Mudei para cá para fugir do barulho da cidade”, conta. Forasteiro como tantos em Florianópolis, seu Miro só nessas situações vê gente. Ou quando caminha até o Sertão para beber a pinguinha do seu Acari e olhar o horizonte de algumas das 100 praias da ilha, com o centro e a Ponte Hercílio Luz bem ao fundo. Não parece, mas o tranqüilo paraíso verde onde seu Miro se esconde está bem no meio de uma capital com 300 000 habitantes.

Seu Miro não é o único que vive ilhado dentro de uma ilha. Os 79 moradores do Sertão do Peri também moram afastados, num cenário rural de poucas casas, distantes entre si. Há vários grupos assim, com natureza e cultura preservadas, em Florianópolis, a capital do Estado de Santa Catarina, que ocupa toda a ilha de mesmo nome e um pedaço do continente. Gente que nunca ouviu falar do tenista Gustavo Kuerten, a maior estrela entre os esportistas famosos da cidade. Apesar de ser um grande pólo turístico desde a década de 60, a ilha guardou esses segredos pelo fato de estarem em pontos de difícil acesso. Chegar ao Sertão, só por uma estrada de terra ruim ou pela trilha da Cachoeira do Peri, que parte da Lagoa do Peri, o maior reservatório de água potável da cidade, com 5 km2. Bem diferente das urbanizadas praias de Canasvieiras e Ingleses, que atraem uma multidão de argentinos ao norte da ilha durante o verão, a região do Parque Municipal da Lagoa do Peri é um desses fascinantes redutos quase intocados da ilha.

Esguia, com 53 quilômetros de extensão por 18 de largura, a Ilha de Santa Catarina é um privilegiado ponto do Brasil, onde o urbano convive com os rústicos recantos caipiras e caiçaras, entre praias, montanhas cobertas de Mata Atlântica, mais de dez ilhas, duas grandes lagoas e quilômetros de dunas, restingas e manguezais. Mesmo sendo parte da quarta cidade que mais recebe visitantes no país (são 2 milhões por ano), essa ilha de geografia exuberante é morada de pescadores e artesãs de renda de bilro. “És manezinho da ilha?”, pergunta seu Acari Romalino Siqueira, 43 anos, que cuida do bar do Sertão, falando com os “esses” puxados do típico sotaque português. Manezinho da ilha é como são chamados os florianopolitanos locais. A palavra foi criada pelos colonos alemães que habitavam o interior do Estado no século XVIII para definir os muitos Manuel e Joaquim da colônia de portugueses, vindos dos Açores, que viviam no litoral.

Os manezinhos dispõem de uma invejável qualidade de vida. Podem se dar ao luxo de correr diariamente na Avenida Beira-Mar, similar à Avenida Atlântica da Copacabana carioca, ou escalar a rocha do Morro da Cruz, com 285 metros de altura e uma bela vista aérea. Quem vem de fora pode conhecer um pouco da rotina provinciana e das maravilhas naturais da Ilha de Santa Catarina de carro, beirando todas as praias em dois dias. Ou a pé, como fazem os trekkers e os corredores da maratona Volta à Ilha, percorrendo praias, trilhas na mata, costões e estradas à beira-mar em até uma semana. O lado selvagem, no entanto, só é desbravado por trilhas. A maior parte segue para as praias desertas e vilas pacatas como a de Tapera, no sul. Para evitar que até elas recebam muita gente nos feriados, os moradores fogem mesmo é para o interior. Caminham para as lagoas e rumo a mirantes de onde se vê o contraste dos azuis das lagoas, do mar e do céu. Quanto mais alto o ponto de onde se vê a ilha, mais surpreendente ela parece.

A maior das lagoas, a da Conceição, encravada bem no coração da ilha, torna-se deslumbrante quando avistada do alto das trilhas que levam à Costa da Lagoa, comunidade tão ou mais isolada que o Sertão do Peri. Trata-se de um gigantesco espelho d’água de 20 km2 ligado ao mar por um canal. A trilha que parte do bairro de Ratones permite que se veja o Rio Ratones imperar como o maior da ilha, sustentando o manguezal da Estação Ecológica de Carijós, onde ainda vivem lontras e jacarés-de-papo-amarelo. Em outro caminho para a Costa da Lagoa, partindo da Estrada Geral do Canto das Araçás, cruza-se com engenhos de farinha de mandioca e de cana-de-açúcar, que foram a base da economia desses ilhéus desde a colonização até o início do século. “Os açorianos letrados habitavam o centro à beira-mar, enquanto os analfabetos seguiram para as roças e engenhos do interior”, explica o sociólogo Nereu do Vale Pereira, 71 anos, estudioso da cultura açoriana que cuida do Ecomuseu do Ribeirão da Ilha.

Dois povoados situados no lado oeste, voltado para o continente, carregam de forma mais intensa a influência dos Açores. Tanto Santo Antônio de Lisboa, na Baía Norte, como Ribeirão da Ilha, na Baía Sul, ambos com praias sem ondas, guardam casas e igrejas construídas no estilo português: as paredes são conjugadas, as casas que pertenceram às famílias de posses ainda exibem suas eiras e beiras, do jeitinho que faziam os primeiros 4000 açorianos que aqui chegaram, em 1746. Apesar de ter sido colonizada pela população do arquipélago dos Açores, a Ilha de Santa Catarina tem na sua origem a mesma variedade de povos que se percebe hoje. O primeiro branco que deparou com os habitantes índios da tribo carijó foi o espanhol Juan Dias de Solis, também fundador de Buenos Aires, em 1514. Por volta de 1536, o navegador veneziano Sebastião Caboto deu o nome à ilha – uns dizem que em homenagem à Virgem Martir de Alexandria, outros acreditam que para agradar à sua esposa, Catarina. Só em 1675 o bandeirante português Francisco Dias Velho fundou o povoado de Nossa Senhora do Desterro, que teria seu nome trocado para Florianópolis em 1895, em homenagem ao marechal alagoano Floriano Peixoto, ex-presidente da Primeira República brasileira.

Os estrangeiros continuam por ali. Muitos adoram a pequena enseada da Galheta, freqüentada por naturistas e acessível por trilha desde a Praia Mole. Outros preferem o Costão do Santinho, invadido por um condomínio gigantesco, mas recanto de dunas, belos costões e inscrições dos carijós nas pedras. Os surfistas, porém, vindos de todo o mundo, escolheram as ondas da Joaquina, da Praia Mole e da Armação, todas no mar aberto do leste, como passagem obrigatória. Com poucas casas, elas mantêm a natureza ainda bem preservada: Joaquina tem dunas procuradas por praticantes de surfe na areia, Praia Mole é protegida por montanhas verdes em todos os lados, e grandes rochas negras beiram a Armação. Fora de temporada, quando pertencem apenas aos nativos praticantes de parapente, mountain-bike e escalada em rocha, elas preservam o que se convencionou chamar de “magia” da ilha. Também nascidas nos Açores, as lendas falam de bruxas, destinos cruzados e da estranha energia que convida as pessoas a voltar um dia para suas praias — às vezes para sempre.

A Armação ganhou esse nome por ter sido, desde o século passado até a primeira metade deste, um ponto de aprisionamento e matança de baleias. Até hoje, em todas as primaveras, as baleias franca migram da Antártida para se acasalar, reproduzir e amamentar filhotes no litoral de Santa Catarina. A Armação ainda é um dos melhores pontos para observá-las, além das praias Mole, do Campeche e de Moçambique – esta última é a mais extensa da ilha, com 11,5 quilômetros, dentro do Parque Florestal do Rio Vermelho. Deserta, Moçambique é morada de gaivotões, fragatas e atobás, além de escala de aves migrantes como as batuíras e os gaviões-tesoura. “Cerca de 270 espécies, entre residentes e migratórias, foram registradas aqui”, atesta o biólogo Andrei Roos, 24 anos, que estuda esses pássaros.

Os pingüins também costumam aportar na costa leste. Quando o mar das Malvinas esfria demais, eles sobem para o litoral brasileiro, onde a água é mais quente mesmo no inverno, época em que eles costumam chegar. Vítimas da poluição dos mares, esses animais aportam na ilha com as penas cobertas de óleo despejado por navios. Resultado: as penas endurecem, permitindo que a água gelada entre em pequenos vincos e resfrie seu corpo. “Eles param na areia cansados e com frio, e precisam ser limpos para que possam prosseguir viagem”, afirma o sargento Marcelo Duarte, 26 anos. Ele é um dos homens da Polícia Ambiental do Parque Florestal do Rio Vermelho que desenvolve o trabalho de recuperação de animais machucados ou apreendidos em cativeiro. No ano passado, o grupo do sargento Marcelo resgatou 253 pingüins, cuidou deles e reintroduziu no mar, próximo à Ilha de Xavier, os 171 que sobreviveram.

As ilhas ao redor da grande Ilha de Santa Catarina são um espetáculo à parte, motivo para muitas viagens. A Ilha do Arvoredo ostenta a fama de perfeito ponto para mergulho. Anhatomirim, ao norte, é morada de golfinhos. Ao sul, a Ilha de Moleques do Sul guarda um gigantesco ninhal de atobás e fragatas. Campeche, em frente da praia de mesmo nome, tem a maior quantidade de inscrições rupestres do litoral sulista e uma prainha solitária e convidativa.

Bem diante das ilhas Três Irmãs, no extremo sul da Ilha de Santa Catarina, estão as praias mais cobiçadas e inexploradas. A Lagoinha do Leste, tida como a mais bonita da ilha, é acessível pela vila de pescadores de Pântano do Sul, onde ainda podem ser encontrados lobos-marinhos, ou pelo costão desde a Praia de Matadeiro, ao lado da Armação. Vista do alto da montanha, quando suas areias claras se descortinam depois da subida de uma caminhada, ela parece a mais bela do mundo. Lagoinha fica numa enseada de 1 quilômetro protegida por costões laterais. Não há ninguém morando por perto, e a lagoinha de águas quentes e escuras, formada por um riacho que desce do morro, tem apenas a natureza como companhia.

A série de praias isoladas segue a partir daí, sempre com acesso difícil. De uma estrada de terra que parte de Pântano do Sul chega-se a Solidão, que tem uma cachoeira e uma piscina natural. Desse ponto caminha-se por um dos costões mais entrecortados da ilha até a Praia do Saquinho, onde há uma comunidade de pescadores, com apenas vinte casas, que ainda não têm energia elétrica. Gente que não vê televisão, que não assiste aos jogos do manezinho Gustavo Kuerten.Com 5 quilômetros de extensão e areias brancas, Saquinho é vizinha de Naufragados, um lugar de ondas fortes que em 1753 causaram o afundamento de duas embarcações que traziam 250 açorianos. Apenas 77 náufragos sobreviveram, e parte deles passou a viver ali, no ponto mais ao sul da ilha. Construíram um engenho, adaptaram-se à roça e à pesca e deram início a mais um grupo de manezinhos que viveriam uma relação de amor com a Ilha de Santa Catarina. Até hoje há uma pequena comunidade de ilhéus em Naufragados. Vivem em paz com a natureza, ao som do chorinho do mar e mantendo o hábito de olhar à toa para o horizonte, numa espécie de encantamento que só quem vive em uma ilha como a de Santa Catarina consegue entender.

MATA NATIVA

Maior reservatório de água potável da cidade, a Lagoa do Peri é protegida por um raro trecho da Mata Atlântica primária que resta na ilha: abrigo da cachoeira e morada da isolada comunidade do Sertão do Peri.

DIA DE PESCA

Homens da vila de Pântano do Sul arrastam rede em mais um dia de trabalho: dessa praia de pescadores, um dos poucos lugares onde ainda existem lobos-marinhos, partem trilhas para as praias desertas do sul.

DUNAS AO SOL

Na Praia da Joaquina, montes de areia erguem-se entre o mar e as restingas: ponto preferido pelos surfistas do mar e das dunas quentes.

Para ir mais longe

Florianópolis das 100 Praias, fotos e informações de todo o litoral, feitas pelo professor Nereu do Vale Pereira, Editora Mares do Sul, encontrado no Ecomuseu do Ribeirão da Ilha (tel. 0_ _48/237-8148).

Uma Cidade numa Ilha, relatório sobre os problemas ambientais da Ilha de Santa Catarina, editado pelo Centro de Estudos Cultura e Cidadania (CECCA).

 

Box:

A bela ameaçada

Por ter uma natureza privilegiada, a Ilha de Santa Catarina é alvo de várias agressões. O inimigo número 1 sempre foi a urbanização, responsável pela construção de condomínios e hotéis nas praias mais paradisíacas, principalmente as do norte. As áreas rosadas do mapa, para se ter uma idéia, representam esses núcleos urbanos. Várias reservas foram criadas nos espaços verdes, mas nem sempre a lei que proíbe construções é respeitada. Como se não bastasse o impacto que causou a implantação de um aterro na Baía Norte, para a construção de uma estrada, também a Baía Sul está sendo aterrada, para que uma rodovia ligue o centro ao aeroporto. Há planos ainda de acentuar a urbanização da Praia do Campeche, construir um autódromo, um campo de golfe e de aumentar o nível da Lagoa do Peri para que ela seja a grande fonte de água potável da ilha. A natureza sofre calada, e o único protesto vem das ONGs ecológicas.

 

GUIA DA TERRA

 

Como chegar

Acessível pela BR-101, Florianópolis, na Ilha de Santa Catarina, fica a 300 quilômetros de Curitiba e a 476 quilômetros de Porto Alegre. Quem não for de carro pode chegar às praias em ônibus que partem do centro, próximo ao Mercado Público. As trilhas são bem marcadas, mas é sempre bom ter a companhia de alguém da região. O site www.guiafloripa.com.br detalha as catorze principais trilhas, com mapas e link para a página da Recriarte (tel. 0_ _ 48/962-9632), agência de ecoturismo que programa até caminhadas na chuva e durante a noite. Outra agência é a Paz na Terra (tel. 0_ _ 48/222-7075).

Onde ficar

Há mais de sessenta pousadas, a maioria espalhada pelas praias — muitas delas citadas no site acima. Tanto o guia digital www.gdsc.com.br como a Secretaria de Turismo (0_ _ 48/244-5822) dão informações turísticas. Para conhecer a cultura açoriana, melhor se hospedar em Santo Antônio de Lisboa (foto) ou no Ribeirão da Ilha. A Pousada Caminho dos Açores (tel. 0_ _48/235-1363) é uma boa sugestão em Santo Antônio de Lisboa, enquanto no Ribeirão a Pousada e Restaurante do Museu (tel. 0_ _ 48/237-8148) se destaca por servir pratos típicos e ficar junto ao Ecomuseu. Na beira da Lagoa da Conceição, existem os charmosos Chalés Tranquilli (0_ _48/232-6311) e os Chalés do Canto (0_ _48/232-0471). Na Lagoa do Peri, destaca-se a agradável Pousada Alémdomar (0_ _48/237-5600). Há vários campings e dois Albergues da Juventude, na Praia de Canasvieiras e no Centro (res. tel. 0_ _ 11/258-0388).

Quando ir

Abril e maio são os melhores meses, pois quase não chove e as trilhas estão floridas. As praias ficam mais quentes entre dezembro e março, mas também mais cheias, principalmente no Carnaval. Evite os meses de agosto e setembro: chove demais. É em setembro, no entanto, que as baleias franca costumam aparecer.

Dica do autor

“Quando estiver em Pântano do Sul, de onde parte a trilha para a Lagoinha, aproveite para experimentar a comida do Arante Bar. O restaurante fica de frente para os barquinhos de pesca da praia, e serve pratos do mar incríveis.”

Daniel Nunes Gonçalves

San Francisco verde

Você pousa na cidade mais linda da Califórnia, aluga um carro elétrico e se hospeda em um green hotel. Deixa as malas, toma um bonde elétrico para comer em um restaurante de comida sem agrotóxicos e dali passeia de bike pela ciclovia até uma fazenda urbana. O lanche da tarde pode ser cachorro-quente orgânico, seguido de umas comprinhas de roupas feitas com garrafas pet recicladas. Até a happy hour pode ser em um barzinho que serve legumes plantados no teto do prédio vizinho, com direito a encerrar a noite com um jantar vegetariano refinado. Se sobrar comida no prato, ela será transformada em adubo pela própria prefeitura, não se preocupe. Seu único cuidado na volta ao hotel é conectar um fio do capô do carro a uma tomada elétrica qualquer, como se recarregasse o telefone celular, para que tenha bateria suficiente para visitar uma vinícola nos arredores – de produção ecológica, naturalmente.

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Acredite. Isto não é uma projeção futurista ecochata, mas a reprodução resumida da rotina dos cinco dias que vivemos em San Francisco, em setembro. Fomos conferir por que ela acaba de ser reconhecida como a cidade mais verde das Américas pelo Green Index, um estudo desenvolvido por especialistas da Economist Intelligence Unit e patrocinado pela Siemens. Sua liderança ambiental vem de longa data: em 1892, um sujeito chamado John Muir fundou ali o Sierra Club, que viria a se tornar a mais longeva organização conservacionista dos Estados Unidos, hoje com 1,4 milhão de associados. E John, o pai do Movimento Verde, virou o nome de batismo da Muir Woods, uma floresta de sequoias-gigantes nas redondezas. San Francisco sempre esteve na vanguarda. Na região nasceram a Organização das Nações Unidas (em 1945) e os movimentos beat (nos anos 50), hippie (na década seguinte) e gay (nos 70), entre outras iniciativas que mudaram o mundo, como a produção daqueles computadores com logotipo em forma de maçã, conhece?

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FLORES NA CABEÇA

Logo na estrada do aeroporto, o rádio do carro dava o clima. “If you are going to San Francisco, be sure to wear some flowers in your hair”, cantava Scott McKenzie a letra de John Phillips, do The Mamas & The Papas. Bote aí no YouTube para lembrar: este é aquele famoso convite para que viajantes a caminho da cidade ostentassem flores no cabelo, e se transformou no hino de paz e amor que embalou 25.000 hippies nos gramados verdinhos do Golden Gate Park durante o festival de Monterey, de 1967 – dois anos antes do mítico Woodstock. Quase 45 anos depois, bastou darmos aquela voltinha de reconhecimento pelas ruas para perceber as pessoas se reunindo no parque que leva o nome da ponte mais famosa da cidade, assim como nas outras áreas verdes que cobrem 17% do seu território. Em uma das praças mais cênicas, a Alamo Square, encontramos amigas com crianças e cachorros, casais de namorados e até os integrantes de uma banda, a Chamberlin, gravando seu videoclipe. “Adoramos esta cidade, seu clima, sua paisagem”, contou Eric Maier, um dos integrantes do grupo de Vermont.

Com uma geografia privilegiada por beirar o Oceano Pacífico de um lado e a baía de outro, San Francisco convida a explorações a pé ou de bike. Deixamos nosso Leaf recarregando na garagem do hotel, o W, e aproveitamos a oferta gratuita de bicicletas. Redes como Carlton, Intercontinental e Hilton, além do pioneiro The Orchard, integram um seleto grupo de hotéis verdes. As placas de Green Business que ostentam na fachada indicam que suas práticas vão além de quartos cujas luzes se apagam na ausência dos hóspedes: as soluções se estendem até o uso de tecidos reciclados nas roupas de cama e de produtos biodegradáveis na faxina. Os disputados certificados Leed (Leadership in Energy and Environmental Design), dados aos prédios mais sustentáveis do planeta, estão em mais de 130 edificações do skyline da metrópole, como no AT&T Park – o estádio do time de beisebol Giants, iluminado por mais de 500 painéis solares.

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Escolhemos as ciclovias mais planas, que beiram a baía entre as duas grandes pontes, partindo da Bay Bridge, passando diante do píer turístico Fisherman’s Wharf e seguindo até a Golden Gate Bridge. Cruzar os 2.700 metros da gigante vermelha que se tornou o maior cartão-postal da cidade não é exatamente o passeio mais gostoso durante o verão, tamanha a quantidade de pedestres, mas o downhill que espera os bikers do lado de lá, a caminho de Sausalito, no condado de Marin, encerra o trajeto com adrenalina. Antes de embarcar na balsa de volta para San Francisco, vale a pena curtir o panorama e bater perna entre as lojas e os bares da cidadezinha.

YERBA BUENA

Se o plano para o dia seguinte for conhecer o zigue-zague da Lombard Street, as ladeiras de Chinatown ou a ilha de Alcatraz, é menos cansativo deixar a bike pra lá. Espalhada em um sobe-e-desce de 50 colinas, San Francisco usa desde 1873 os chamados cable cars, que hoje somam 40 carros puxados por cabos de aço subterrâneos. Os bondinhos amados pelos turistas são as vedetes do mais vasto sistema de transporte público dos Estados Unidos – maior até que o de Nova York. Somam-se a eles 26 trólebus históricos chamados de street cars e outros 333 ônibus elétricos, todos impulsionados por cabos suspensos, além do metrô e dos 86 ônibus híbridos, que utilizam tanto diesel quanto eletricidade. Assim, metade dos coletivos locais não emite carbono algum no ar, algo fundamental no trânsito de uma cidade de 800.000 habitantes. O número é mil vezes maior que o da vila de Yerba Buena quando ela deixou de pertencer ao México e foi incorporada pelos EUA com o nome do santo italiano São Francisco de Assis, em 1847.

Recarregador de celulares de fazenda urbana (SameSame Photo)

A miscigenação pacífica de americanos, latinos – mexicanos, na maioria – e chineses está tão incorporada à rotina local que muitas placas incluem as três línguas: inglês, espanhol e mandarim. É o caso dos informativos sobre como separar o lixo, visto que a bem-sucedida coleta seletiva da cidade, implementada nos anos 70, obriga os moradores – sob pena de multa – a colocar todos os recicláveis juntos no cesto azul, lixo imprestável no preto e, na lata verde, orgânicos. “Restos de comida e de podas de árvores são transformados em adubo e vendidos a 200 vinícolas”, explica Robert Reed, relações-públicas da Recology, empresa privada que coleta e dá um fim sustentável aos dejetos urbanos. Na pesquisa The Green Index, San Francisco se destacou especialmente por reciclar 77% do seu lixo. Miami só trata 18% e São Paulo cuida de apenas 1%.

Mandatória desde 2010, a compostagem foi bem-aceita. “Passei a criar minhocas em casa para que minhas cascas de legumes e frutas servissem de alimento para elas”, contou Leora Sharone, vendedora que conhecemos no Heart of the City Farmers’ Market, feira de rua que acontece às quartas e aos domingos na frente do City Hall, o prédio da prefeitura (ficam diante dele, por sinal, alguns dos 30 locais públicos para recarregar baterias de carros elétricos como o nosso Nissan Leaf). Em outra tarde, ao visitar a Hayes Valley Farm, uma fazenda urbana, nos deparamos com um grupo de jovens levando em carrinhos de pedreiro galões de lixo repletos de sobras de um restaurante da vizinhança para compostagem. “Acreditamos que podemos ser um exemplo para outros bairros”, explicou um dos 100 voluntários que trabalham semanalmente ali, Jay Rosenberg. A fazendinha faz seu próprio mel, fornece a produção da horta orgânica a pacientes de câncer do hospital local, tem um recarregador de baterias de celular movido a energia solar e se propõe a ensinar os princípios da permacultura, um método de planejamento de assentamentos humanos sustentáveis.

(SameSame Photo)

PATINETE ELÉTRICO

O engajamento para educar os sanfranciscanos é o propulsor também da California Academy of Sciences, no coração do Golden Gate Park. No terraço, chama a atenção o jardim em formato de abóbada, onde janelas circulares permitem a entrada de sol e a circulação de ar. Sob esse cenário lunar fica uma estufa com espécies amazônicas que, por sua vez, está um andar acima de um aquário impressionante. Ali, grupos de crianças podem entrevistar o mergulhador enquanto ele está submerso. Fora da academia, fileiras de pessoas são vistas passeando em segway, aquele patinete elétrico. E a poucas quadras do parque está a portinha colorida do Underdog, onde cachorro-quente não é sinônimo de junk food: as salsichas vêm de gado criado sem rações químicas, e são servidas em pães caseiros frescos com mostarda e ketchup orgânicos.

Se quiser quebrar preconceitos e matar a curiosidade, o Underdog serve bolo gelado de cannabis sativa – sim, a maconha. A pioneira San Francisco liberou o consumo comedido do cigarro da planta para pacientes com receitas médicas apropriadas. Não doentes têm acesso apenas a processados feitos a partir da erva, como roupas, sabonetes e energéticos vendidos legalmente em várias lojas temáticas da Haight Street. Ali, na altura do cruzamento com a Ashbury Street, o antigo reduto hippie abriga mercadinhos naturebas, como o Haight Street Market. Quando o assunto é sustentabilidade, porém, nenhuma mercearia da cidade é mais respeitada que a Rainbow Grocery, nascida em 1975 como uma cooperativa de seguidores vegetarianos do guru indiano Maharaj Ji. Como foi inevitável que a cooperativa abrisse suas gôndolas para industrializados, o guru deixou o negócio. Restaram os 237 donos-funcionários, entre eles Mary Murtagh, uma das pioneiras. “Muita coisa aqui é vendida a granel para minimizar o consumo de embalagens, do arroz à farinha, das ervas aos diferentes tipos de pasta”, diz Mary. Em tempo: San Francisco foi vanguarda também no banimento completo do uso de sacolas plásticas, em 2007.

Entrada de fazenda urbana (SameSame Photo)

TIROLESA SOBRE A FEIRA

Foi outro grupo espiritual da região, o Zen Center, que deu origem ao restaurante Greens, primeiro vegetariano da cidade, aberto em 1979. Bem localizado, em um galpão envidraçado diante da marina de Fort Mason, uma base militar transformada em centro cultural, o estabelecimento até hoje serve os monges budistas com ingredientes produzidos em fazenda própria. A lista de restaurantes verdes, não necessariamente vegetarianos, é vasta. Todos se abastecem com pequenos produtores e cobram preços quase 10% mais caros que os restaurantes comuns. Mas compensa. Recomendo o Bar Jones, ao lado da fazenda Hayes, animado na happy hour; o Neptunes, no Fisherman’s Wharf, que compra peixes de pescadores artesanais; o Farmer Brown, com um brunch regado a soul music ao vivo nos fins de semana; e o chique Millenium, o restaurante do Hotel California, que não é aquele da música, mas vai fazer você sair de lá cantarolando de tão boa que é a comida! Ali, repare na carta de vinhos: S aponta rótulos de produção sustentável, pouco agressiva ao meio ambiente; O indica produção orgânica, sem uso de agrotóxicos; e B é a inicial de biodinâmico, um termo que explica que a casa segue princípios da antroposofia, como rotação de cultivos e plantio conforme as fases da lua.

Você pode planejar bons dias ao ar livre dando uma esticada até vinícolas sustentáveis dos vales de Napa e Sonoma. Se estiver com um carro elétrico como o nosso, não se esqueça de recarregá-lo antes, pois as tomadas elétricas públicas ainda são escassas. Ou renda-se à paixão californiana por programas ao ar livre praticando, durante o verão, a tirolesa da Ziptrek Ecotours sobre a feira de artesanato diante do Ferry Building. Depois, cruze a rua e se perca entre as barraquinhas de frutas, legumes e verduras do Ferry Building Market, que acontece às terças, às quintas e aos sábados. Os vendedores puxam conversa, oferecem delícias para degustação, sempre tem algum maluco com roupa divertida. Foi ali que conhecemos Joseph Minocchi, um produtor de ervas e de flores de Sonoma. “San Francisco pode estar orgulhosa de ser considerada a mais verde da América, mas tem muita coisa para melhorar”, contestou, lembrando que as tecnologias sustentáveis ainda oneram os bolsos dos produtores por ser mais cara. Mas Joseph estava tranquilo por fazer a sua parte. Afinal, é um californiano típico, meio “ripongo”. E sabe o que ele carrega no chapéu toda vez que vem para a feira de San Francisco? Flores.