Onze programas para conhecer Noronha como ela é

Clichê: a gente volta anos depois pra um destino que conheceu antes da popularização do turismo, se desencanta com a urbanização recente e sai por aí com aquele discurso saudosista de quem (acha que) chegou primeiro. “Bons tempos eram aqueles que aqui não tinha nem luz elétrica…”.

DSC02255
Visual clássico do entardecer com Dois Irmãos ao fundo

 

 

Pois o meu retorno da vez foi para Fernando de Noronha, eleita pelo recém-extinto Guia 4 Rodas (R.I.P., saudoso companheiro de estrada!), por Deus e o mundo (Trip Advisor inclusive) como dona das praias mais belas do país.

 

DSC02024
Canhões dos 10 fortes do passado espalham-se pela ilha

 

É claro que eu poderia lamentar que agora a luz é 24 horas, que os preços inflacionaram (garrafa de água de 500ml a 5 reais é de lascar), que é um absurdo um santuário natural habitado por só 6.000 gatos pingados não ter coleta seletiva. Mas eu quero contar que gostei do que vi.

 

DSC02017
Baía dos Porcos: é ou não é uma maravilha da natureza?

 

ELA CONTINUA LINDA – Fernando de Noronha segue arrebatando corações. Das águas azuis-turquesa da Praia do Sancho aos tubarões, arraias (vejam essa diante de mim aí na foto) e tartarugas-marinhas gigantes que pude observar no mergulho noturno, nosso destino mais desejado continua causando arrepios diante de tamanha beleza.

 

16-06 h-21
Meu mergulho com arraias gigantes, corais de cores vibrantes e todo tipo de peixe

 

Passei 10 dias de junho por ali, a trabalho para uma publicação estrangeira. Tive a felicidade de estar bem acompanhado: viajei com a fotógrafa Andréa D’Amato, minha fiel companheira de tantas estradas mundo afora, e tendo como cicerone extra-oficial meu amigo José Tadeu de Oliveira, biólogo que trabalha para o ICM-Bio e acumula 5 anos radicado em Noronha. Hoje Tadeu é DJ nas horas vagas.

 

Praia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil
Praia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil

 

 

Foram dias intensos, estadas em quatro hotéis distintos, refeições em uns 20 lugares, todos os passeios que pude e entrevistados interessantes, como o inspirador Zé Maria e o jogador Hernanes, que abriu ali o restaurante Corveta.

Com direito a surpresas como rever a Tia Zete, que me hospedou em 1995; o Ju Medeiros, músico ex-doidão que virou dono de hotel; e o Dr. Milton, médico que eu conhecia do ambulatório da Editora Abril (onde trabalhei por 13 anos) e que largou a Pauliceia de concreto para adotar Noronha como lar.

Por isso resolvi fazer uma lista dos highlights da minha experiência. Confiram.

 

DSC02351
Lounge com música eletrônica no entardecer do Bar do Meio, na Praia do Meio

 

Sunset lounge no Bar do Meio – Não é porque o Tadeu é o DJ da balada, juro. É que o pôr-do-sol visto dos almofadões dessa praia linda de morrer, olhando os Morros Dois Irmãos se mostrando à esquerda, tomando um mojito e ouvindo boa música eletrônica, dá uma cara hype a Noronha. Imagino como deve ser legal na LoveNoronha, em setembro. Pirei também no por-do-sol do Fortinho do Boldró e do Mergulhão, no Porto.

 

DSC02243
Música ao vivo para o clássico por do sol no Fortinho do Boldró

 

Mergulho noturno – Eu fiz seis mergulhos com cilindro nesses 10 dias. Acompanhei o batismo da Andréa nas Águas Claras, fiz quatro mergulhos incríveis na Ressurreta, na Ilha do Meio e entre as cavernas na lindíssima Ilha das Cabras. Mas não houve beleza e adrenalina maiores que a descida que fiz, tendo Tadeu como dupla, para ver tubarões, arraias e tartarugas gigantes sob a luz da lanterna em meio ao misterioso breu da noite.

 

16-06 h-19
Uma bela âncora para se apoiar em meio à correnteza submarina

 

Trekkings do Capim-Açu e da trilha longa do Atalaia – Encarar os 10 quilômetros da caminhada mais casca-grossa da ilha, em apenas 4h30, foi puro prazer: especialmente tendo amantes do Capim-Açu como o João Paulo, da Noronha Adventure, e a Silvia, da Caminhos de Noronha (e grande guia da viagem toda). A do Atalaia também foi linda, linda…

 

DSC_0171
Trecho da trilha do Capim-Açu, a mais longa da ilha, com boa parte da caminhada acontecendo sobre pedras

 

Comilança de primeira linha – Minha matéria vai detalhar isso melhor, mas posso adiantar aqui que não esperava que Noronha já tivesse gastronomia do nível de: os frutos do mar gratinados do Varanda, a moqueca do Du Mar, o peixe na telha do Aqua Marina – restaurante do hotel Dolphin, o atum selado do Mergulhão, os churros e pescados do Cacimba Bistrô, a boa gastronomia regional que a coreana Rê prepara no Xica da Silva, a comida molecular da Teju-Açu, o arroz com camarão da Triboju, o chá da tarde da Pousada Beco de Noronha, o peixe na folha de bananeira da Solar dos Ventos, a comida com incrível vista da piscina de borda infinita emendando com o mar do Sueste na Pousada Maravilha e o badalado festival de frutos do mar do Zé Maria.

 

DSC01952
Chá da tarde da Beco de Noronha

 

 

A travessia de snorkeling do Porto à Praia do Cachorro – Essa também foi com o João Paulo: 2 horas de snorkeling seguindo tartarugas, tubarões e mil peixinhos, com direito a parada para explorar a caverna vizinha à misteriosa Caverna do Leão, que parece rugir como o felino selvagem. O trecho de snorkeling para chegar ao Morro São José também encanta.

 

DSC02407
Praia do Atalaia, onde dá para fazer trilha andando por 4 horas, quase tudo em pedras

 

Dormir na praia – O passeio de buggy pelas ilhas permite ver um pouco de cada praia, o tour de barco oferece outro ângulo igualmente lindo. Mas bom mesmo é escolher uma faixa de areia só e lá ficar largado por um tempo. Cheguei até a dormir na cadeira sob o guarda-sol da Cacimba do Padre.

 

DSC_0029

 

Andar entre as gameleiras gigantes – Não há árvores mais impressionantes em Noronha do que as gameleiras. Especialmente a série que mistura galhos com raízes na trilha do famoso Bar do Cachorro para o Bar do Meio. Não dá pra saber se aqueles tentáculos impressionantes começam de baixo pra cima ou de cima pra baixo.

 

DSC_0134
Caverna do Capim-Açu: onda entra fazendo som poderoso e estourando nas pedras internas

 

Entrar na Caverna do Capim-Açu – Ponto alto absoluto do trekking do Capim-Açu: estar na gruta onde dá pra ver, invadindo o buraco da parede oposta, uma onda de água azul celeste poderosa e linda de matar. O barulho mete medo, e o lugar ganha ares de templo natural sagrado.

 

DSC02155
Ilha secundária visitada pelo barco Trovão dos Mares

 

Flagrar os golfinhos-rotadores rodopiando no ar – A mais graciosa das espécies desse cetáceo carismático gosta de dar show para os turistas. Nas três vezes em que naveguei nas ilhas secundárias, urrei de prazer ao ver golfinhos chamando nossa atenção – e assim protegendo os filhotes. Deu pra vê-los sob o barco no passeio do Projeto Navi, que tem um chão de vidro que na verdade é uma lente de aumento sensacional.

 

Golfinho visto a partir do fundo feito de lente de aumento no barco do Projeto Navi
Golfinho visto a partir do fundo feito com lente de aumento no barco do Projeto Navi

 

Mergulhar como Aquaman brincando de planasub – Quem encara esse passeio criado pelo Leo, criador do Museu Tubarões, tem a rara experiência de mergulhar a até uns 5 metros mas com velocidade – tendo a prancha de apoio puxada pela embarcação. Baita adrenalina.

 

DSC_0256

 

Ver tartarugas-marinhas recém-nascidas seguindo em direção ao mar – Sonho realizado: pela primeira vez na vida, pude acompanhar, justo no Dia Internacional da Tartaruga Marinha, dezenas de filhotes desse animal fascinante correndo em direção ao mar. Dá vontade de chorar de tão belo.

 

DSC_0005
Praia do Leão

 

CÓDIGO DE ÉTICA SAME SAME:

Viajei a Fernando de Noronha com apoio da Administração da Ilha e da Freeway Viagens, de São Paulo, tanto para os passeios de buggy (Ilhatour da Atalaia/Luck), de barco (Trovão dos Mares), de Planasub e da Navi (embarcação com fundo transparente).

As operadoras de mergulho Águas Claras e Noronha Divers também ofereceram alguns dos mergulhos mencionados nesse post.

Todos os restaurantes citados foram visitados em regime de cortesia.

A hospedagem aconteceu, sem custo, nas pousadas Mar Aberto, Ecocharme Pousada do Marcílio, Triboju e Pousada Zé Maria.

Agradecimentos especiais a Manuela Fay, Fernanda Camargo, Silvia Morais, João Paulo Ferreira, José Tadeu de Oliveira e Victoria Zuniga.

Informações gerais: www.noronha.pe.gov.br

Vista da Pousada Maravilha (http://pousadamaravilha.com.br)
Vista da Pousada Maravilha (http://pousadamaravilha.com.br)

 

Ouro Preto emoldurada

Ela está bem distante das idílicas praias brasileiras e espalha-se em um labirinto de ladeiras estreitas forradas por pedras irregulares onde é difícil caminhar.

 

Entardecer em Ouro Preto. Foto de ADRIANO FAGUNDES (www.adrianofagundes.com)
Entardecer em Ouro Preto. Foto de ADRIANO FAGUNDES (www.adrianofagundes.com)

 

Ainda assim, a Ouro Preto onde o artista plástico Carlos Bacher tem vivido os últimos 43 anos (de seus 74) é um convite a caminhadas lentas e sem destino, observando as casas coloniais coloridas, o grafismo dos telhados vermelhos, “os sóis e os crepúsculos por trás das montanhas” ­– como define o pintor, um dos muitos com ateliês abertos a visitação. “Este relevo acidentado era o lugar ideal para ‘não’ se fazer uma cidade”, brinca Bacher, “mas a sequência de altos e baixos da paisagem criou uma dinâmica deliciosa ao olhar.”

Como acontece com quase todo mundo que observa Ouro Preto pela primeira vez, do alto da Praça Tiradentes, Carlos Bracher se apaixonou pelo lugar. Tanto que resolveu deixar para trás sua Juiz de Fora natal, que ficava perto do lindo litoral do Rio de Janeiro, para montar uma casa-estúdio em um casarão centenário entre ruas sinuosas. “Quando abro a janela da sacada dos fundos, vejo um quadro pronto, com as torres das igrejas despontando diante do horizonte verde”, conta o artista, que tem uma retrospectiva de 80 trabalhos de seus 53 anos de carreira rodando o Brasil até o fim de junho (em fevereiro a mostra está em São Paulo, em março segue para o Rio). Quando abre a porta da frente de casa, Bracher vê mais inspiração: “logo ali adiante está a fachada espetacular da Igreja do Carmo, concebida pelo mestre Aleijadinho”, descreve.

 

Artista Carlos Bracher, que adotou Ouro Preto como cidade e está com exposição no CCBB (foto ADRIANO FAGUNDES, www.adrianofagundes.com)
Artista Carlos Bracher, que adotou Ouro Preto como cidade  (foto ADRIANO FAGUNDES, www.adrianofagundes.com)

 

ETERNA VILA RICA

Localizada a 1h30 do aeroporto de Belo Horizonte, capital do estado brasileiro de Minas Gerais, Ouro Preto guarda o maior patrimônio arquitetônico do barroco no país e se destaca no clássico circuito das Cidades Históricas, que preserva uma parte importante da história do Brasil. Muito antes de hotéis de luxo, restaurantes estrelados e galerias de arte como a do premiado Carlos Bracher encherem de charme essas ruelas repletas de praças, jardins e fontes, 30 mil garimpeiros lotaram o pequeno povoado de Vila Rica, no fim dos anos 1600, em busca de pedras escuras supervaliosas. Era o ouro negro que ajudaria a fazer a fortuna dos colonizadores portugueses e daria origem ao nome Ouro Preto – como o lugar passou a ser chamado a partir de 1823.

Embora até hoje várias minas de ouro abertas no subsolo durante os séculos 17 e 18 possam ser visitadas, a extração do minério virou coisa do passado. A Ouro Preto do século 21 esbanja outras riquezas. A primeira cidade brasileira a ganhar o título de Patrimônio Cultural da Humanidade pela UNESCO parece uma exposição de arte ao ar livre. O casario do Centro Histórico está bem preservado, como se nota no Teatro Municipal, de 1770, considerado o mais antigo em funcionamento no país. Os museus apresentam desde preciosidades da mineralogia – como na Casa dos Contos, de 1784, onde o ouro era pesado e fundido – até estátuas religiosas impecáveis – como os mais de 160 oratórios a santos do Museu do Oratório e as vestes com fios de ouro do Museu de Arte Sacra.

 

Obras do Mestre Aleijadinho, o grande mestre das artes nas Cidades Históricas de Minas Gerais (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com.br)
Obras do Mestre Aleijadinho, o grande mestre das artes nas Cidades Históricas de Minas Gerais (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Além disso, inúmeros artistas ainda produzem ali trabalhos originais: Paulo Valadares e Milton Passos pintam paisagens a óleo, enquanto os irmãos Bié e Veveu esculpem em pedra-sabão. Da mesma forma que as artes plásticas coloniais do Brasil nasceram da exploração do ouro e incorporaram influências externas, os artistas atuais reciclam as inspirações do barroco e do rococó em criações contemporâneas. É o caso do próprio Carlos Bracher, que em 2014 pintou 85 quadros para celebrar os 200 anos da morte de Aleijadinho.

Nascido com o nome Antônio Francisco Lisboa, o escultor, entalhador e arquiteto Aleijadinho é considerado por muitos estudiosos o maior expoente do barroco americano e o grande nome do rococó nacional. Seu apelido surgiu da doença degenerativa que teria sacrificado seus pés e mãos: dizem que o cinzel com que esculpia suas obras precisava ser amarrado em seus pulsos. Isso não impediu que ele deixasse, entre centenas de obras, relíquias como a igreja São Francisco de Assis, de 1810. Em 2009, essa obra-prima foi eleita uma das sete maravilhas de origem portuguesa no planeta. Parte de suas criações pode ser conhecida no Museu Aleijadinho, que funciona dentro da igreja.

 

Interior da igreja Matriz (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com.br)
Interior da igreja Matriz (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

ARTE POR TODA PARTE

Ainda que as igrejas forradas de ouro (a Matriz de Nossa Senhora do Pilar guarda 400 quilos em suas paredes) e museus bem organizados evidenciem a riqueza histórica de Ouro Preto, a colorida cidade das montanhas de Minas está longe de ser um lugarejo parado no tempo. “A cidade tem um perfil bastante jovem porque, dos 75 mil habitantes do município, 12 mil são estudantes da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP)”, conta Willian Adeodato, diretor do Visitors Bureau local. Quem desembarcar ali em fevereiro, quando o Carnaval leva às ruas toda a alegria do povo brasileiro, não vai reconhecer as ruas tranquilas onde o pintor Carlos Bracher gosta de passear em paz. As dezenas de repúblicas habitadas pelos estudantes se transformam em hostels, as pessoas saem às ruas vestidas com fantasias divertidas e grupos musicais desfilam pelas ladeiras. “Este é um dos eventos que pode lotar os 1600 leitos de nossos 50 hotéis”, conta Adeodato. Meio milhão de turistas visita a cidade a cada ano.

O calendário anual é intenso: na Semana Santa, o chão das ruas é forrado por flores e serragem colorida; a Mostra de Cinema instala um telão ao ar livre na Praça Tiradentes em junho; em julho, o Festival de Inverno tem apresentações de música, teatro e circo; amantes da literatura se reúnem em setembro para o Fórum das Letras; e dezembro é o tempo do evento Tudo é Jazz, agitando com música de qualidade boa parte dos 57 bares e restaurantes.

É nas mesas de Ouro Preto, por sinal, que outras criações artísticas evidenciam o encontro da tradição “mineira” com a contemporaneidade: nos bares – aqui chamados de “botecos” – e restaurantes pode-se degustar a famosa comida de Minas Gerais, uma das mais respeitadas do Brasil. A culinária regional parte da mistura de arroz, feijão e couve para apresentar preparos com carne de porco (o torresmo e as linguiças são deliciosos), boi (a carne seca é tentadora) e frango (a galinha de cabidela vem temperada no próprio sangue). Mandioca e angu de fubá de milho também estão sempre presentes – aperitivos irresistíveis são o bolinho de mandioca e o pastel (salgado) de angu. Outra iguaria de todas as horas é o pão-de-queijo, que tem em Minas as receitas originais que foram difundidas por todo o país. O queijo também pode ser comido na sobremesa, acompanhado de doce de goiaba (sobremesa conhecida como Romeu e Julieta). Antes, durante ou depois das refeições, essas receitas costumam ser acompanhadas da cachaça, a famosa aguardente brasileira (muito usada para fazer caipirinha), que tem em Minas Gerais um de seus berços mais respeitados. Mas é bom bebericá-la com cuidado: pode ser difícil caminhar depois pelas ladeiras tortuosas de Ouro Preto.

 

Folclore regional nas ruas de Ouro Preto (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Folclore regional nas ruas de Ouro Preto (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

HOTÉIS

 

SOLAR DO ROSÁRIO

Rua Getúlio Vargas, 270

www.hotelsolardorosario.com

$$$

 

POUSADA DO MONDEGO

Largo de Coimbra, 38

www.mondego.com.br

$$

 

POUSADA DOS MENINOS

Rua do Aleijadinho, 89

www.pousadadosmeninos.com.br

$$

 

 

RESTAURANTES

 

SENHORA DO ROSÁRIO

Hotel Solar do Rosário

www.hotelsolardorosario.com

 

BENÉ DA FLAUTA

Rua S. Francisco de Assis, 32

www.benedaflauta.com.br

 

CHAFARIZ

Rua São José, 167

 

 

BARES E CAFÉS

 

CAFÉ CULTURAL DE OURO PRETO

Rua Cláudio Manoel, 15

www.cafeculturalop.com.br

 

CHOPP REAL

Rua Barão de Camargos, 8

 

ESCADABAIXO

Rua Conde de Bobadela, 122

www.escadabaixo.com.br

 

 

ATRAÇÕES

 

Ateliê Carlos Bracher

Rua Coronel Alves, 56

 

Casa dos Contos

Rua São José, 12

 

Museu Aleijadinho (Igreja São Francisco de Assis)

Largo de Coimbra, s/n

 

Museu de Arte Sacra (Matriz de N. S. do Pilar)

Praça Monsenhor Castilho Barbosa, s/n

 

Museu do Oratório (Igreja do Carmo)

Rua Brigadeiro Musqueira, s/n

 

As montanhas, os casarões e as ladeiras charmosas de Ouro Preto (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
As montanhas, os casarões e as ladeiras charmosas de Ouro Preto (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

REPORTAGEM PUBLICADA ORIGINALMENTE NA REVISTA IN, DA LAN, EM FEVEREIRO DE 2015

Onças d’água

Primeiro aparece o filhote. Acomodado entre os galhos no alto da árvore, tem um olhar assustado. Deve ter uns 6 meses de vida. Quando a canoa se aproxima a 3 metros do tronco submerso, dá para ver a mãe, uns 20 metros acima da linha d’água. Ela olha, dá uma espreguiçada como se estivesse enfadada para receber visitas, vira a cara e se afasta copa adentro. “E então ficamos ali observando por uns 20 minutos, como se fôssemos babás, até que o filhote dormiu e decidimos partir”, conta o biólogo carioca Emiliano Esterci Ramalho. Em cerca de dez anos estudando a onça-pintada nas florestas de várzea da Amazônia, ele nunca tinha visto seu objeto de estudo tão à vontade naquele ambiente aquático.

A evidência de que antes suspeitava agora parece incontestável: o maior felino das Américas é dono de incrível flexibilidade ecológica. Pode viver no alto das árvores.

 

Onça_final jpeg
Reprodução da dupla de abertura da reportagem. Foto de Luciano Candisani.

 

“Mesmo a 12 quilômetros do solo seco mais próximo, as onças não se sentiram ameaçadas e pareciam tranquilas em casa”, conta Emiliano. Para o pesquisador do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, que há seis anos monitora o ziguezague florestal dos bichanos, deparar ao vivo com a onça mãe – apelidada de “Cotó” por não ter rabo – nessa condição é uma parte importante de um quebra-cabeça inédito: descobrir o que as onças fazem quando toda a floresta da Reserva Mamirauá fica alagada. Nenhuma das oito onças monitoradas desde 2008 abandonou o ambiente inundável da várzea nos três ou quatro meses anuais de cheia – um comportamento inusitado e nunca antes observado em felinos de grande porte.

Emiliano conta essas e outras histórias dos felinos selvagens para um grupo de turistas hospedados na Pousada Flutuante Uacari, base para quem visita Mamirauá, quando o telefone toca. São 22 horas de uma noite de Lua cheia em março, e uma emergência o obriga a interromper a palestra: um jovem bolsista que tinha saído pela manhã para instalar armadilhas fotográficas não havia voltado do trabalho de campo – assim como o guia “mateiro” que o acompanha. Estudar um animal desse porte no ambiente inóspito da maior floresta do planeta (e a mais de 500 quilômetros da capital mais próxima, Manaus) é uma atividade de risco, e Emiliano teme pelo pior. Convoca por rádio moradores locais para o acompanharem, equipa-se rapidamente, assume o volante de uma voadeira e desaparece na escuridão do Rio Solimões floresta adentro. Nós, visitantes, não sabíamos, mas os traiçoeiros rios da região já tinham feito o próprio pesquisador capotar com o bote metálico três vezes: duas delas ao passar sobre os gigantescos peixes pirarucus durante o dia e outra ao atropelar um jacaré à noite.

Nos dias anteriores, ao explorar uma milésima parte desse exuberante laboratório natural de mais de 1 milhão de hectares, eu já havia constatado que onças, pirarucus e jacarés são apenas alguns temas dos 104 projetos de pesquisa e manejo conduzidos em Mamirauá. Criada nos anos 1990 a partir do sonho do primatólogo José Márcio Ayres (1954–2003) de preservar o berço do uacari-branco (um macaco de cara vermelha que se acreditava só existir ali), a primeira reserva de desenvolvimento sustentável do Brasil nasceu com um conceito inovador para a época: proteger o peculiar ambiente de várzea amazônico, produzir ciência de qualidade e envolver as populações tradicionais na conservação das espécies – em vez de tirá-las de seu universo natural de origem, como era feito até então com o pretexto de que toda área de conservação devesse ficar intacta.

 

_D3S6184
Onça descansa no alto da árvore. Foto de Luciano Candisani: http://www.lucianocandisani.com

 

A pesquisa sobre os hábitos arborícolas e aquáticos das onças-pintadas na várzea amazônica atrai a atenção da sociedade científica internacional. “Este estudo de longo prazo é importante porque mostra que, nas condições únicas das florestas inundáveis, as onças têm moldado seus hábitos ao ambiente aquático, alterando inclusive o que e quando comem”, comenta o alemão naturalizado americano George Schaller, que trabalha para grupos conservacionistas como Panthera e Wildlife Conservation Society.

“As onças de Mamirauá não têm a opção de fugir para áreas secas próximas, como acontece com suas parentes do Pantanal”, afirma outro biólogo, Peter Crawshaw Jr., um dos maiores conhecedores da espécie no Brasil. Nos dez anos em que rastreou, também graças a colares de telemetria, mais de 20 desses felinos nos vastos alagados pantaneiros, Crawshaw nunca viu onças vivendo em copas de árvores. “Enquanto durante a estação seca no Pantanal nossos estudos mostraram que a média de área ocupada por cada onça foi de 143 quilômetros quadrados, na cheia, entre dezembro e abril, elas se aglomeravam em apenas 10% do território, o que facilita a alimentação e a reprodução da espécie”, explica.

Segundo dados coletados pela equipe do Projeto Iauaretê, capitaneado por Emiliano, existem mais de dez onças a cada 100 quilômetros quadrados da reserva durante o período em que a várzea de Mamirauá não está alagada. Elas continuam vivendo em meio a uma das mais altas densidades de onças do planeta, caçando, se reproduzindo e criando seus filhotes no ambiente singular de uma ilha alagável rodeada pelos rios Japurá e Solimões – como é chamado, nesse ponto, o Rio Amazonas. Na temporada de enchente de Mamirauá as onças permanecem restritas ao mesmo universo geográfico da seca, apesar da mudança radical do cenário. Nos meses de maio a julho, a superfície das águas sobe em média 10 metros nos 200 000 quilômetros quadrados de várzea em decorrência da temporada de chuvas da Floresta Amazônica e do derretimento da neve nos Andes – onde fica a nascente do Amazonas e de outros rios da mesma bacia.

 

 

P1170150
Igarapés de Mamirauá (foto samesamephoto)

 

A maior parte da população humana da Amazônia se concentra ao longo desses grandes rios em função da facilidade para pescar, plantar e se locomover de barco. É justamente a gente ribeirinha dessa área de várzea quem mais tem sua rotina alterada durante as cheias. Como acontece com as onças, os humanos também migram do piso térreo de suas palafitas para o andar de cima – carregando fogão e geladeira para o mesmo cômodo da cama ou da rede de dormir. Em vez de circular com pé na terra, trabalhar na roça e bater bola no campinho de futebol, o povo passa a ter basicamente a pesca como ofício e fonte de alimento, dependendo da canoa até para ir à escola, à igreja e ao vizinho.

Embora em cada 100 quilômetros quadrados da reserva habitem 85 pessoas e dez onças, ataques desses felinos não são comuns – como apontaram entrevistas com mais de 300 moradores locais entre 2010 e 2013. Auxiliar de cozinha da Pousada Uacari, Vanderlei Rodrigues, o Seu Manduca, protagonizou um desses casos raros em 2004. “Eu voltava de uma pescaria quando uma onça me atacou, mordeu meu rosto e me jogou no rio”, lembra ele, hoje com os 28 pontos da cicatriz na face quase imperceptíveis. Seu Manduca superou o trauma e há anos é um convicto voluntário das expedições que capturam felinos para instalar colares com GPS.

Talvez a onça que atacou Seu Manduca estivesse faminta, dado que cada uma precisa de 2 quilos a 2 quilos e meio de carne por dia para sobreviver. Pela análise das fezes dos felinos, os pesquisadores descobriram seu alimento predileto: o bicho-preguiça. Ele se move lentamente nos mesmos topos de árvores e divide a preferência no cardápio com outra iguaria, o jacaretinga. Durante a cheia, quando os jacarés estão mais espalhados e escondidos na água, as onças complementam sua dieta com o macaco guariba. Nessa época, o primata mora ao lado do inimigo felino que está no topo da cadeia alimentar. O tamanho da presa ajuda a explicar por que as onças do Pantanal pesam o dobro das parentes amazônicas, que são menores e não costumam ter mais que 60 quilos. Na planície pantaneira, o menu mais farto inclui capivaras, queixadas e porcos monteiros – bichos terrestres que nem sequer existem em Mamirauá justamente porque não têm para onde correr (ou onde se pendurar) quando as águas encharcam tudo.

 

P1170204
Pousada Uacari, base para visitar Mamirauá

 

Além da descoberta científica inédita, o comportamento inusitado das onças de Mamirauá acabou abrindo, em 2014, as portas da reserva ao turismo de observação das rainhas da floresta. Experiências semelhantes há anos atraem jipes e voadeiras repletos de turistas ao Pantanal e a parques da África e da Ásia. Na reserva amazônica, porém, a iniciativa é diferenciada. Batizadas como Jaguar Expeditions, as exclusivas – e caras – expedições acontecem apenas nos meses de cheia e são restritas a grupos de quatro visitantes que remam em canoas silenciosas sob as copas das árvores. “Não se trata de um safári convencional, mas de turismo científico”, explica Gustavo Pereira, coordenador da Pousada Flutuante Uacari. “Além da observação, o turista trabalha com o time de pesquisadores fazendo o rastreamento das onças e instalando câmeras na mata.”

Os dois grupos que saíram a campo em maio e junho deste ano obtiveram 100% de sucesso no avistamento dos grandes felinos, e o valor que investiram teve três fins, gerar benefícios econômicos para as comunidades locais, permitir a continuidade da pesquisa científica e pagar a equipe de nativos com diárias dobradas, para que os ribeirinhos entendam que manter viva essa espécie ameaçada de extinção é mais valioso para a comunidade do que caçá-la, por exemplo, para vender sua pele. Toda noite, depois da perseguição às onças do alto das árvores, os turistas se reúnem com Emiliano para avaliar o trabalho do dia. Nas curiosas imagens registradas, já foram vistas onças mexendo ou fazendo xixi na câmera e até com um jacaré na boca. Os animais são reconhecidos com base nos desenhos de suas pintas, que funcionam como impressões digitais – e seus nomes são quase sempre divertidos, como Mudinha, Caolha, Confuso e Zangado.

Depois do susto vivido no dia de minha visita, quando Emiliano interrompeu a palestra para resgatar – só às 14 horas do dia seguinte – o bolsista e o guia perdidos na mata (que estavam sãos e salvos), o pesquisador não viveu dias tão tensos. Continua, é claro, militando pela preservação das florestas de várzea para que a onça-pintada continue conservada, reinando. O trabalho de campo na selva, enquanto isso, não para. Entre as constatações que o acompanhamento dos felinos de Mamirauá apontou recentemente, duas surpresas. A primeira é triste: a onça Cotó, a mãe que forneceu a primeira prova do comportamento arborícola das onças de Mamirauá, foi morta por um morador da reserva quatro meses depois de ser observada com seu filhote pelos cientistas, em 2013. “Recebemos a localização dela por GPS e chegamos a uma comunidade onde o morador a tinha abatido para evitar que seu gado fosse atacado”, conta Emiliano. A outra conclusão é mais curiosa: diferentemente do que se imaginava, mamãe Cotó não era o único felino sem rabo na reserva; isso acontece com cerca de 10% dos animais monitorados. “Os registros fotográficos que temos indicam que os jacarés-açu podem ser responsáveis pela predação de onças durante as inundações, arrancando ocasionalmente seu rabo”, diz Emiliano. Deduz-se que isso aconteça quando as onças d’água estão nadando para se locomover no habitat aquático – e único – de Mamirauá.

 

DSC08442

 

Para ler a reportagem sobre Mamirauá que publiquei na Revista RED Report, clique aqui.

 

A grande festa da Amazônia

De um lado, o boi branco Garantido, atual campeão, com um histórico de 29 títulos e uma massa vermelha em polvorosa nas arquibancadas. No campo oposto, o touro negro Caprichoso, dono de 20 troféus de primeiro colocado e impulsionado pelos gritos das pessoas da torcida azul. Poucas rivalidades são levadas tão a sério, nas competições do Brasil, quanto o enfrentamento dos dois times culturais da cidade de Parintins, a segunda mais populosa do estado do Amazonas, com 110 mil habitantes. Herdeiros de uma tradição que completou 100 anos em 2013, eles passam o ano se preparando para o duelo de todo último fim de semana de junho, que atrai ao menos 70.000 forasteiros à cidade. Nessa disputa para ver qual apresenta a performance de maior excelência, quem mais se extasia é o público, que assiste a um espetáculo de folclore sem igual no país.

 

P1190765

Em 2014, a edição 49 da maior festa da Amazônia deve ter suas dimensões de alegria multiplicadas. No mesmo fim de semana de 27 a 29 de junho, o Brasil vai estar acompanhando quatro jogos das oitavas de final da Copa do Mundo de futebol. Ou seja: se acontecer o mesmo que em 2013, quando o centenário do boi-bumbá amazônico coincidiu com os jogos da Copa das Confederações, uma multidão de apaixonados vai ter motivos de sobra para vibrar. Enquanto dentro no Bumbódromo de Parintins repete-se a guerra folclórica dos bois, as disputas dos jogos da Copa vão dominar o lado externo, tanto diante dos telões em frente à arena quanto em cada uma das tevês voltadas para a rua nos bares à beira-rio e nas casas pintadas de vermelho ou azul – e, em 2014, também verde-e-amarelo. Quando é dado o pontapé inicial na primeira performance de um dos bois, na noite de sexta-feira, diante das 16,5 mil pessoas que lotam a plateia, uma rajada de fogos de artifício faz os dançarinos em campo se arrepiarem.

 

P1190776

Conforme a tradição existente desde 1913, quando as primeiras brincadeiras de boi-bumbá começaram a acontecer nas ruas de Parintins, começa então a contação teatral e musical de várias lendas da Amazônia. Uma delas se repete todo ano: era uma vez um fazendeiro que presenteou sua filha com um boi; o bicho ficou aos cuidados do vaqueiro Pai Francisco, que o matou para satisfazer o desejo de sua esposa grávida, Mãe Catirina; para não ser punido pelo patrão, que ficou furioso, o vaqueiro conseguiu ressuscitar o boi com a ajuda de um pajé. A exuberância com que são apresentados esses e tantos outros personagens de destaque, aqui chamados de itens, inclui carros alegóricos gigantescos, fantasias com penas artificiais coloridas e performances musicais das mais contagiantes.

 

P1190756

Ainda que seja frequentemente associada ao Carnaval, a festa dos bois de Parintins é bem distinta daquela da Marquês de Sapucaí carioca ou do Sambódromo paulistano. Aqui, são só dois rivais se enfrentando em uma arena – totalmente modernizada no ano passado – cada um com 2h30 de performance a cada uma das três noites seguidas. Desde que a brincadeira de ressuscitar o boi do patrão virou uma festa grande, em 1965, surgiu um protocolo que aumenta o desafio de cada um dos lados da batalha: enquanto uma agremiação se apresenta, a outra tem de ficar quietinha no seu semi-círculo, sob a pena de perder pontos caso faça barulho. Até a luz sobre a arquibancada rival é reduzida para aumentar os holofotes sobre quem se apresenta. Dá para imaginar a tensão de ficar vendo, em silêncio e na escuridão, quão espetacular é o time adversário?

 

P1190814

Profissionalizada graças ao televisionamento e ao patrocínio de grandes marcas (que até mudam as cores de seus logotipos para as cores vermelha e azul só nos dias de festa), a ópera da floresta virou produto for-export. Não apenas por atrair muitos estrangeiros. Técnicos responsáveis pelos carros alegóricos hi-tec de Parintins passaram a ser contratados para trabalhar nos milionários carnavais de Rio e São Paulo. Durante o fim de semana do grande musical a céu aberto, os números todos de Parintins sobem às alturas. Acredita-se que 15 mil empregos temporários sejam criados. Só os tricicleiros, que levam as pessoas em bicicletas com passageiros para cima e para baixo, somam mais de 1300 durante o evento.

 

P1190734

Se num clássico de bola no pé a força do povo na arquibancada pode empurrar os 11 jogadores para a vitória, não acontece diferente no Bumbódromo. Os 1000 integrantes de cada boi (entre eles, 400 músicos) precisam da atuação de sua galera (como são chamadas as torcidas em Parintins): o público se destaca como um dos 22 itens avaliados pelos seis juízes. Dois animadores de torcida orientam a multidão a repetir seus passos de dança, o levantamento de pompons, placas e qualquer outro adereço-surpresa. Os outros itens avaliados referem-se a personagens típicos como a índia Cunhã-Poranga e o Amo de Boi (tão importantes quanto, por exemplo, a rainha da bateria ou o mestre sala de uma escola de samba). Nenhum item, no entanto, tem performance mais valiosa que a estrela da festa, o boi. Chegue ele flutuando em um balão ou suspenso por um guindaste, terá sua entrada triunfal acompanhada por urros emocionados.

 

P1190819

Com pouco mais de meia dúzia de hospedarias e uma lista tímida de restaurantes e bares para atender a tantos forasteiros, a ilha Tupinabarana, onde fica Parintins, se vê invadida por mais de trezentos barcos. Como não há estradas na região e os voos costumam ficar lotados (reserve logo, pois muita gente faz bate-e-volta a partir de Manaus), a maioria dos espectadores encara cerca de 18 horas de transporte fluvial pelo Rio Amazonas. Às vezes eles dormem em redes, seguindo o autêntico jeito amazônico de viajar. O clima, tanto nas embarcações quanto nas casas alugadas para grupos de amigos, é de festa. Especialmente quando, na segunda-feira seguinte, sai o resultado. Ainda que cada boi tenha arrancado gritos, como os de gol, nos três dias de performance, o barulho da galera que lota a arquibancada na segunda-feira para ouvir o resultado só pode ser comparado a um outro: o da conquista de um título de Copa do Mundo.

 

P1190714

A cidade floresce

O espetáculo do encontro dos rios Negro e Solimões. O fantástico Teatro Amazonas, palco de disputados recitais de ópera. E só. Depois de cinco anos sem aterrissar em Manaus, eu achava que estes ainda fossem os dois passeios bacanas que um forasteiro tinha para explorar no principal portal da Amazônia brasileira. Ledo e delicioso engano. Bastou o fotógrafo Adriano Fagundes e eu sairmos do Eduardo Gomes, o aeroporto internacional, e entrar no carro do Leleco, nosso amigo carioca que adotou como sua a capital do Amazonas, para começar a sucessão de boas surpresas enquanto rodávamos pela cidade. “Uau, que ponte estaiada é aquela sobre o Rio Negro? Olhem quanta gente praticando stand-up paddle no rio! Que bacana estão a ciclovia e o calçadão de Ponta Negra…” Leleco respondia apontando mais novidades: “Ali fica o estádio da Copa do Mundo,  o Arena da Amazônia. Para lá está um dos shoppings recém-inaugurados. Por aqui se chega a um hotel de golfe aberto há 3 anos…” Nosso anfitrião tinha uma proposta de agenda tentadora: como não estávamos na época baixa dos rios (julho a fevereiro), quando surgem as belas praias de água doce, iríamos a alguns restaurantes de comida amazônica contemporânea, ao ensaio para o festival de Parintins e optaríamos entre degustar alguns dos 900 rótulos da Cachaçaria do Dedé ou uns drinques no O Chefão, transado bar do Centro Histórico inspirado no filme O Poderoso Chefão. Mal tínhamos começado a suar com o calor de mais de 30 graus daqueles trópicos e já notávamos que Manaus não era mais a mesma. Em pouco mais de meia década, havia aprendido a reciclar a riqueza dos rios e da floresta à sua volta para se transformar em uma metrópole com mais qualidade de vida, autêntica, cosmopolita e surpreendente.

A nova ponte estaiada da capital
A nova ponte estaiada da capital

O URBANO NA SELVA É claro que a capital do estado do Amazonas nunca perdeu sua vocação de ponto de partida para mais de uma dezena de bons hotéis de selva. A poucas horas da metrópole de 1,8 milhão de habitantes estão as principais bases para explorar a floresta com árvores de mais de 30 metros de altura e os rios de margens inalcançáveis, habitados por piranhas com dentaduras ameaçadoras, botos tucuxi saltitantes e jacarés gigantescos. Nós mesmos encerraríamos nossa jornada tendo contato com toda essa fauna em três dias intensos no mais badalado deles, o Anavilhanas Lodge, a 180 quilômetros de Manaus. O percurso leva 2h30, 2 horas a menos do que as 4h30 necessárias antes de  serem inaugurados, em 2011, os 3,6 quilômetros do novo cartão-postal da cidade, a Ponte Rio Negro. A construção da maior ponte fluvial e estaiada do Brasil acabou com a necessidade de uma balsa para cruzar o rio, facilitando o acesso ao hotel e a toda a região turística de Novo Airão, base para conhecer o arquipélago de Anavilhanas, formado por mais de 400 ilhas. Com 16 chalés, quatro bangalôs e acesso wi-fi até na área da piscina de borda infinita, o único hotel da rede Roteiros de Charme no Norte do país virou exemplo de hospedaria tão bem estruturada que atrai até aquele turista urbanóide que não consegue se desconectar da metrópole mesmo estando no meio do mato. Mas o caminho contrário, com a realidade da floresta invadindo o ambiente urbano, é o fluxo mais recente em Manaus. Graças ao resgate das raízes amazônicas promovido pela juventude local, certas preciosidades culturais estão mais acessíveis dentro da própria capital.

Um dos quartos do Anavilhana Lodge, em Novo Airão
Um dos quartos do Anavilhanas Lodge, em Novo Airão

MENU AMAZÔNICO Com apenas 27 anos, o catarinense radicado em Manaus Felipe Schaedler é o melhor representante da geração que tem transformado a exuberância da selva em atrativo de primeira linha na cidade. Felipe e seu empreendimento, o Banzeiro, ganharam os prêmios de chef e restaurante do ano em 2011 e 2012, segundo a revista Veja Comer & Beber – Manaus. Curioso, Felipe costuma partir em expedições à floresta explorando ingredientes para suas criações gastronômicas. No ano passado, o mestre-cuca foi condecorado pela própria presidente Dilma Rousseff, em Brasília, com a Ordem do Mérito Cultural. “Minhas influências são caboclas e indígenas”, define ele, que vive na cidade desde os 16 anos. “Amo Manaus e daqui não saio.” Sua paixão pelo ambiente selvagem está evidente na decoração da casa, localizada no bairro de Nossa Senhora das Graças, e inclui uma canoa típica pendurada na parede, lustres feitos de fibras naturais e fotos de ribeirinhos clicadas pelo próprio chef. Dos dadinhos de tapioca servidos na entrada às suas premiadas costelas de tambaqui, finalizando no petit gateau recheado de cupuaçu, todas as delícias que experimentamos ali têm uma pitada de Amazônia.

Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica da cidade
Banzeiro, o melhor restaurante de comida amazônica

Não é só no templo do chef mais badalado de Manaus, porém, que a nova cozinha da Amazônia viria a se revelar para nós. O sushiman Hiroya Takano, do restaurante Shin Suzuran, em Vieiralves, surpreende usando peixes de rio em suas criações. “Para realçar o sabor, ralo pimenta murupi sobre o sashimi de tucunaré e mergulho o pirarucu no missô com castanhas por um dia inteiro”, conta. Sem nada de moderno – mas com uma fartura única ––, o Chapéu de Palha da Benção sustenta esse nome em função das formas do telhado, feito com trançado típico a mais de 12 metros de altura. “Fiquem à vontade para se servir em nosso bufê com mais de dez espécies de peixes de água doce”, nos diria o  proprietário, o evangélico Manoel Pestana. A comida, simples e saborosa, parece realmente abençoada.   TACACÁ MUSICAL Antes de chegar às boas mesas manauaras, todo esse quase exótico universo de pescados, pimentas, ervas e frutas costuma colorir e aromatizar os corredores do Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Erguido em 1883, a construção art nouveau de ferro beira o Rio Negro justamente no ponto de onde saem os clássicos passeios de barco que mencionei no início do texto: em uma hora, as embarcações atingem o ponto onde as águas amarronzadas do Solimões – extensão do Amazonas, o maior rio do planeta – ladeiam, sem se misturar, as escuras correntes do Negro. Se você, como nós, já teve esse prazer, invista nas bancas do mercado, com todo tipo de farinha de mandioca (seca, d’água, de tapioca, Uarini…), todo um novo alfabeto de frutas (abiu, camu-camu, taperebá, uxi…) e ervas que, dizem, levantam até defunto. “Em 56 anos trabalhando com isso, aprendi as propriedades curativas de cerca de 1000 plantas”, orgulha-se a simpática Dona Judith Formoso, 77 anos. Delícias de rua como o x-caboclinho (sanduíche com lascas de uma fruta chamada tucumã e queijo coalho), o famoso tacacá (aquele caldo de tucupi com goma de tapioca, folhas de jambu e camarão seco) e o açaí (aqui comido salgado, com farinha) também podem ser provados por ali mesmo – embora se espalhem também pelo entorno do Largo de São Sebastião, a mais famosa praça da cidade, diante do Teatro Amazonas. Nas noites de quarta-feira, de abril a dezembro, o ilustre Tacacá da Gisela mescla seus sabores amazônicas com boa música no chamado Tacacá na Bossa. Até Ed Motta já deu uma canjinha entre os músicos que se apresentam.

Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus
Ensaio para Festival de Parintins no sambódromo de Manaus

ÓPERA INDÍGENA Coração cultural de Manaus, o entorno do teatro abriga boas lojas de artesanato dos índios da Amazônia, sorveterias incríveis, o quarentão Bar do Armando e o frescor do Boutique Hotel Casa Teatro, aberto há um ano e meio em um dos fantásticos casarões históricos do Centro. E ganha um glamour único entre abril e maio. É quando o Teatro Amazonas abriga o Festival Amazonas de Ópera, o único do gênero na América Latina. Em 2013, foram 33 atrações ao longo de 45 dias. “É uma honra difundir a música erudita para a gente da minha cidade”, diz a soprano Carol Martins, 31 anos, solista da ópera La Traviata, de Giuseppe Verdi. No encerramento do 17o festival, em maio, ela também cantou na ópera O Morcego, de Johann Strauss Filho, que reuniu 15 mil pessoas ao ar livre, no Largo de São Sebastião, diante do teatro, mesmo debaixo de chuva. A tradição das óperas nesse peculiar teatro com uma bandeira do Brasil na cúpula vem do século 19, tempo em que Manaus virou uma espécie de Paris das Selvas em função de toda a fortuna que circulava na cidade. Foi graças à exploração massiva da borracha de seus seringais que a cidade inaugurou, já em 1896, um teatro daquele porte. Tão portentosos quanto as óperas, mas bem mais populares, são os ensaios para o Festival Folclórico de Parintins, que chegam a arrastar cerca de 10 mil pessoas ao Centro de Convenções de Manaus, o chamado Sambódromo, e à Arena do Hotel Tropical de março a junho. Embora a grande festa do boi, com temática inspirada em lendas indígenas e costumes ribeirinhos, aconteça a distantes 370 quilômetros dali e só por três dias do mês de junho, partem da capital do estado cerca de 50 mil pessoas que ajudam a fazer a festa dos bois Garantido, o vermelho, e Caprichoso, o azul. A vibração do público e as alegorias fantásticas de personagens míticos da floresta, como a índia mais bela e o poderoso pajé, convencem qualquer viajante a querer estar, ao menos uma vida, na festa do boi de Parintins.

Show no  Jack’n’Blues Snooker Pub
Show no Jack’n’Blues Snooker Pub

A BIENAL DA MATA Em julho, os ouvidos dos manauaras buscam outro ritmo: o de jazz. O 8o  Festival Amazonas de Jazz mobilizou, em 2013, 60 músicos tanto na capital quanto no município vizinho de Manacapuru, a 70 quilômetros. O jazz, por sinal, tem espaço cativo na agenda de entretenimento da cidade: assistimos um belo show no Jack’n’Blues Snooker Pub, no agitado bairro noturno de Vieiralves, e uma jam session de primeira linha na Universidade do Estado do Amazonas – UEA, com direito a performance da artista Hadna Abreu pintando um quadro enquanto a banda tocava. Hadna tem 24 anos e exibe sua primeira mostra individual na Galeria do Largo, diante do teatro Amazonas, até 15 de setembro. “Me inspirei na estética dos meus avós para criar personagens fantásticos que interagem com árvores e pássaros do ambiente amazônico.”

 

indio 2-1
Grafitti em muro diante do sambódromo

 

O mesmo resgate das raízes culturais e históricas realizado com sucesso pelos espetáculos de ópera e do boi começa a ser trilhado também pelas artes plásticas. Como se não bastassem os belos grafites pelas ruas da cidade – como os lambe-lambes de Hadna, colados com goma de tapioca ­–, ainda em 2013 Manaus planeja ser a principal sede da Amazônica I, primeira bienal de artes visuais do estado. “Com base no sucesso do formato da megaexposição Documenta, em Kassel, na Alemanha, criamos uma mostra descentralizada, espalhada por diferentes pontos da cidade e do estado”, diz Cléia Vianna, comandante da Galeria do Largo e uma das organizadoras do evento. “Teremos desde desenhos de Di Cavalcanti até obras de novos artistas locais”, conta. Mais um exemplo de como os habitantes de Manaus aprenderam a beber da fonte natural e cultural da grande floresta que os circunda.

 

SERVIÇO:

amazonasfestivalopera.com amazoniagolf.com.br anavilhanaslodge.com arenadaamazonia.com.br restaurantebanzeiro.com.br www.casateatro.com.br cachacariadodede.com.br festivalamazonasjazz.com.br parintins.com suzuran.com.br tropicalmanaus.com.br visitamazonas.am.gov.br

Jardim do Éden

Respirei fundo, olhei para o alto, apertei as fivelas da mochila com 12 quilos de carga e comecei a subir. A ladeira desaparecia montanha acima e o suor do meu rosto se misturava aos respingos do Passo das Lágrimas, um trecho da trilha banhado pelas gotas de uma cachoeira que começava no alto dos paredões de pedra com 800 metros de altura e, dispersa pelo vento, quase não tocava o chão. Estávamos no terceiro dia de um trekking planejado para durar uma semana, e havia 4 horas que eu usava pernas e braços para seguir despenhadeiro acima, me apoiando nas árvores daquele bosque espetacular. Mal acreditei quando meu grupo atingiu a superfície plana do topo, a quase 3 mil metros de altitude, em meio a nuvens que davam um ar misterioso àquele cenário raro. Entre as rochas estranhas do Monte Roraima eu notei que, na escalada de um tepui, alcançar o cume não significa chegar ao fim da linha. Aquele era, sim, o verdadeiro início de uma exploração.

 

P1160875

 

A aventura havia começado bem antes daquela pirambeira decorada por bromélias, orquídeas e espécies de plantas que só existem naquele pedaço pitoresco do planeta ― a região da Gran Sabana, onde o Norte do Brasil faz divisa com a Venezuela e a Guiana. Havíamos voado de Manaus para Boa Vista, capital do estado de Roraima, a tempo de participar, 24 horas antes da partida, de um briefing dos 12 expedicionários do nosso grupo (cinco homens e sete mulheres). De lá, cruzamos de carro a fronteira venezuelana, após 3 horas de viagem, até encontrar, na cidade de Santa Elena de Uairén, nossos dois guias locais, Leo Tarolla e Tirso Leiva. “Mais 1h30 de carro, dessa vez em veículos 4×4 por estrada de terra, e chegaremos ao povoado de Paraitepuy”, avisou Leo, um grandalhão místico que há oito anos conduz andarilhos ao cume. Ponto de partida para os clássicos trekkings de seis, sete ou oito dias pelo Monte Roraima, o vilarejo abriga um posto do Inparques, órgão venezuelano que administra o Parque Nacional Canaima ― onde está o único acesso conhecido ao morro, pelo lado sul. Registrada nossa entrada, conhecemos alguns dos 300 moradores indígenas do lugar, os chamados pemons, todos da etnia taurepang. Oito deles seriam responsáveis por carregar nossas barracas e preparar nossa comida. Pé ante pé, iniciamos os 15 quilômetros do primeiro dia.

 

P1160853

 

Tanto os taurepangs como os índios de outras etnias da região ― como os macuxis e os ingarikós ― acreditam que o Monte Roraima é o lar do deus Makunáima (mito que inspirou o escritor paulista Mário de Andrade a criar seu famoso personagem Macunaíma). Visto de Paraitepuy, que fica a 1.300 metros de altitude, o suntuoso Roraima impõe respeito com seus 34 quilômetros quadrados como se fosse uma divindade: distante, alto demais, aparentemente inalcançável ― tanto que só no fim do século 19 ele foi explorado pela primeira vez. Trata-se de um legítimo tepui, assim como o vizinho Kukenan e outras 20 formações do parque. Tepuis são mesetas com paredes abruptas e topos achatados reconhecidas como as formações expostas mais antigas da Terra: datam do período pré-cambriano, que se iniciou há 4,5 bilhões de anos. Sua aparência pré-histórica inspirou relatos como o do livro O Mundo Perdido, escrito há um século pelo escocês Arthur Conan Doyle (criador do detetive Sherlock Holmes), e serviu como cenário para a série Jurassic Park e a animação Up Altas Aventuras.

Embora nosso imaginário esperasse encontrar logo aquele território de outro planeta, onde um dinossauro poderia surgir a qualquer momento por trás das brumas constantes, não foi isso o que os dois dias iniciais nos reservaram. Os sobes e desces eram suaves, bucólicos riachos apareciam a cada hora, uma igrejinha cuidada pelos pemons decorava a savana e o céu azul com sol de menos de 30 graus desmistificou a fama de lugar com temperatura inconstante e imprevisível: até o arco-íris deu as boas-vindas aos 70 viajantes que partiram da vila indígena naquele sábado, dia 29. Tanto o primeiro pernoite, à beira do Rio Tök (lê-se “Tek”), quanto o segundo, depois de mais 8 quilômetros, no Acampamento Base, a 1.850 metros de altitude, também foram relativamente confortáveis (apesar dos persistentes insetos chamados puri-puris). Em barracões cobertos, os jantares e cafés da manhã incluíram trutas, massas, sopas e arepas venezuelanas ― “o melhor da autêntica comida roraimera”, como brincou o carismático guia Tirso, que celebrava sua 30a ida ao topo. Riachos de água gelada para o banho não ficavam distantes. E até os “banheiros” funcionaram com uma lona ou uma barraca protegendo a intimidade ― luxo que não teríamos no cume. Todos os dejetos orgânicos e o lixo produzido na excursão seriam transportados de volta pelos carregadores, no final do passeio, até sua aldeia.

 

P1160830

 

Cenário jurássico

Até que chegou o terceiro dia, o do Passo das Lágrimas, demandando uma “escalaminhada” quase vertical sobre pedras escorregadias à beira do paredão rochoso. Toda a expectativa para descobrir o que havia no topo, a mais de 2.700 metros, se transformou em estupefação. Surgia diante de nós um reino de vastidão, silêncio, delicadeza. As enormes rochas erodidas se assemelhavam a rostos de guardiões indígenas (a primeira delas, segundo os nativos, era o próprio Makunáima), a naves espaciais, castelos mágicos, cachorros bravos como os do filme Up, aos pterodáctilos de Jurassic Park. Em vez de uma floresta tropical verde e alta, a vegetação surpreendia com esparsas árvores baixas e de troncos retorcidos. E, na hora de caminhar por mais 1h30 rumo ao nosso QG das próximas três noites, então em um terreno escuro e plano, composto por quartzito e arenito, uma constatação: tão impactante quanto as rochas de formas surreais que víamos ao olhar para cima era o maravilhoso universo das pequenas coisas que se multiplicavam aos nossos pés. Flores minúsculas, semelhantes a mandalas psicodélicas, liquens e fungos de todas as cores, miniplantas carnívoras e insetívoras, com tentáculos cheios de detalhes, e até um sapinho preto, menor que um dedão, chamando a atenção como uma das espécies que só existem ali.

Nossa virada de ano no platô do Monte Roraima seria uma experiência única. Naquelas alturas, os grupos de campistas se abrigam das garoas constantes em cavernas e grutas curiosamente apelidadas de “hotéis”. Tem o Hotel Índio, o Sucre, o Basilio… Ficaríamos no Guácharo, batizado assim em homenagem a um pássaro local de hábitos noturnos ― e nome também da longa caverna que exploraríamos, nos arrastando como minhocas, dois dias depois. Quando o pôr do sol já dourava os paredões dos abismos diante de nós e a temperatura despencava de mais de 20°C para perto de zero grau, os mais corajosos ainda tomaram banho em uma das lagoas congelantes dos arredores. Os menos exigentes se contentaram com a higiene à base de lenços umedecidos. Ceia especial, um minúsculo champanhe bebericado por umas 20 bocas, abraços e desejos de feliz ano-novo. Nada de barulheira ou fogos de artifício. “Hoje somos da mesma família”, disse Teodoro Pérez, um simpático pemon de 50 anos que desde os 15 leva turistas ao monte. Suas duas filhas e outras duas parentes que integravam nosso staff entoaram algumas belas canções indígenas. Respondemos com dois ou três sambinhas. E, por volta de 10 horas da noite, sob uma bela lua cheia e um céu incrivelmente estrelado, todo o nosso grupo de pernas cansadas já dormia profundamente nas barracas.

 

P1160707

 

Feliz ano-novo

Acordar com o brilho do sol, entre 5 e 6 horas da manhã, foi uma rotina naqueles sete dias ― assim como dormir logo depois de cair a noite, entre 20 e 21 horas. Quanto mais andávamos no quarto e quinto dias, já na extensa planície, mais lugares incríveis conhecíamos. Vimos beija-flores, gaviões, cobras, aranhas, lagartos. E nos 24 quilômetros percorridos no primeiro dia do ano, trilhamos caminhos repletos de milhões de cristais de quartzo, mergulhamos nas águas amareladas do El Foso e atingimos o chamado Ponto Triplo. É onde um monumento demarca as fronteiras entre Venezuela (que tem 80% do Monte), Guiana (com 15%, ainda que sob contestação dos venezuelanos) e Brasil (com apenas 5%, onde o Parque Nacional do Monte Roraima brilha como um raro trecho do país situado acima da Linha do Equador, já no Hemisfério Norte). Se nosso roteiro fosse o de oito dias, teríamos ido além do incrível labirinto de pedras daquele dia, chegando até o chamado Hotel Coati para conhecer o abismo da Proa, no extremo norte do maciço, assim como o Lago Gladys (nome dado a uma das filhas do índio Teodoro). Não menos belas foram as paradas durante os 6 quilômetros do dia seguinte: o mirante La Ventana, onde uma sequência de arco-íris encantou a todos; as piscinas naturais denominadas “Jacuzzis”, com fundo forrado de cristais; a delicada cascata do Salto Catedral; e La Ventana de Kukenán (de onde se vê a cachoeira dos sonhos do velhinho Carl Fredricksen, do filme Up).

Como as espessas nuvens do Monte Roraima cobriram a Pedra Maverick, ponto mais alto já medido naquela montanha, o grupo ― bem sintonizado, depois de uma semana na trilha compartilhando bolhas nos pés e histórias de vida ― decidiu que a conquista da rocha em forma de carro ficaria para o dia seguinte. Acordaríamos de madrugada e subiríamos ao cume, a 2.810 metros de altitude, antes de iniciar a temida descida de volta. O tempo extra no entardecer alaranjado seria útil para descansar as peP1160622rnas, que seriam bastante exigidas ao trilharmos em dois dias os 28 quilômetros feitos em três dias na subida, completando 98 quilômetros de trekking. E foi a oportunidade perfeita para que cada um pudesse contemplar, pela última vez, as plantas minúsculas, as pedras surreais e os misteriosos penhascos do templo de Makunáima.

 

 

 

+55 95

INFO: Roraima Adventures ― Rua Coronel Pinto, 86, Sala 106, Boa Vista, tel. 3624-9611, roraima-brasil.com.br; Inparques ― inparques.gob.ve

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Hotel Euzebio’s ― Rua Cecília Brasil, 1.517, Boa Vista, tel. 2121-0300, hoteleuzebios.com.br

A benção, Carrancas

O ritual é orquestrado pelo sino da igreja matriz e se repete todos os finais de tarde. Quando o relógio eletrônico da Igreja Nossa Senhora da Conceição das Carrancas dispara o som das badaladas das 6 horas, a cidade inteira se altera. Um a um, homens e mulheres de todas as idades se benzem com o sinal-da-cruz, alguns deles se ajoelhando, outros tirando o chapéu. As conversas são interrompidas, os olhares silenciosos ficam jogados ao chão, num típico sinal de fervor católico pouco visto mesmo em pequenos povoados tradicionais do interior do Brasil. No simpático centrinho de Carrancas, onde vivem 1500 de seus 4000 habitantes – os outros ainda moram na roça –, tudo gira em torno da velha igreja de 1721: dos passeios dos jovens no sábado à noite às duas procissões semanais que acontecem durante a quarentena preparatória da Páscoa. A maior parte da população freqüenta as missas do padre Jair, segue os jejuns e as penitências recomendados por ele e comemora os dias de santo com festas como o Congado e a Folia de Reis. Para que ninguém se esqueça da força dessa tradição religiosa, o som do sino dispara a cada quinze minutos, 24 horas por dia. Ninguém estranha, nem os moradores dos arredores da praça, que dormem sem se incomodar com o barulho.

(foto de Andréa D’Amato, www.andreadamato.com.br)

”Carrancas é apenas o reflexo do paraíso celeste. E os paraísos devem ser protegidos.“ Numa linguagem bem adequada aos fiéis locais, essa frase foi pintada numa faixa em frente à igreja e resume bem o casamento entre a religião e a natureza dessa pacata cidadezinha de Minas Gerais. “Queremos alertar a população para a necessidade de proteger nossas cinqüenta cachoeiras e dezenas de grutas”, explica Maria Célia Barbosa, 41, a Macé, criadora da associação Amigos do Meio Ambiente (AMA) de Carrancas. Única ONG ecológica local, a AMA assumiu a missão de conscientizar a população da riqueza da vegetação de cerrado e de floresta tropical, da beleza do chapadão do Salto que se impõe logo na entrada de Carrancas e da fartura das nascentes espalhadas pela Serra de Carrancas e por outras sete montanhas que circundam o povoado. Localizada 280 quilômetros ao sul de Belo Horizonte, a uma altitude de 1200 metros, Carrancas só agora tem despertado para o turismo ecológico, para a necessidade de proteger sua cultura e de evitar a degradação de seu patrimônio natural. ”Não queremos ficar tão populares como São Tomé das Letras”, explica o padre Jair dos Santos Pinto, único pároco da comunidade há 44 anos. Vizinha de Carrancas assim como os municípios de Lavras e São João del Rey, São Tomé ganhou fama de cidade esotérica nos anos 80 e desde então tem recebido um fluxo de turismo ”profano, com abuso do álcool e das drogas”. Líder mais respeitado que o próprio prefeito, padre Jair, de 69 anos, está implementando a Pastoral do Turismo. O objetivo é proteger a cidade. Independentemente disso, os visitantes de Carrancas já respeitam a religiosidade bela e simples desse povo.

A cidade acorda ao som dos galos, com carroças trazendo os latões de leite e o cheiro de fogão a lenha que vem das cozinhas. E muito verde ao redor.

Embora tenha uma geografia parecida e relatos semelhantes de aparição de discos voadores, Carrancas conta com uma rotina bem diferente daquela dos remanescentes hippies de São Tomé. E também não é um paraíso natural habitado ou freqüentado por beatos radicais. Mais que uma simpática cidadezinha mineira onde se produz pinga em dezesseis alambiques rústicos e onde quase todo mundo que tem vaca na fazenda faz seu próprio queijo, Carrancas esbanja uma cultura regional marcante. Os cruzeiros no alto de suas montanhas são visitados por procissões nos principais dias de santo. Com o mesmo fervor, as festas dos dias de Reis, de Nossa Senhora da Conceição, da Boa Morte e do Rosário mobilizam dezenas de moradores nas emocionantes apresentações do Congado, da Folia de Reis e do desfile de cavaleiros. E, despreocupada com a badalação, Carrancas não comemora a mais brasileira das festas, o Carnaval, como o resto do país. Há sessenta anos, durante o feriado, a população masculina se fecha em retiro espiritual. ”Para salvar a alma, as pessoas precisam afastar-se dos maus hábitos”, prega o padre Jair. Os visitantes que chegam a Carrancas no Carnaval desfrutam, portanto, de dias tranqüilos.

Calmaria maior se repete nos dias da semana. Carrancas acorda sob o canto dos galos, com carroças trazendo os latões de leite nas portas das casas e cheiro de fogão a lenha vazando das cozinhas. Os alto-falantes da igreja vão denunciando cada quarto de hora com sons diferentes – e poucas pessoas da cidade têm relógio, já acostumadas que estão a essa comodidade. Como não há rádio local – nem banca de jornais, nem mercado, nem rodoviária –, o sistema de som da igreja é usado para dar recados, comunicar fatos importantes e anunciar a agenda religiosa. Na roça, os carros de boi que ainda são utilizados para carregar dezenas de espigas de milho fazem lembrar os bons tempos em que a vila de Nossa Senhora de Conceição das Carrancas era apenas uma passagem dos bandeirantes em busca de ouro, como quando foi criada, em 1713. O mundo deu voltas, o ouro ficou irrisório e Carrancas ganhou independência de Lavras, virando cidade cinqüenta anos atrás. Atualmente, com a crise de preços que tem tornado inviável a criação de gado leiteiro, a nova localidade começa a vislumbrar sua salvação no turismo.

Belezas desconhecidas. “Desde pequena não visito uma cachoeira daqui”, conta, envergonhada, a moradora Alexandrina Jesus Ferreira, 59 anos. Integrante da turma de oração da igreja, ela reza o terço todos os dias e faz parte do enorme grupo de moradores que não conhece as maravilhas do lugar. O artesão Antônio Francisco Resende, o Peroba, de 45 anos, também não costuma sair do centro. Ele é um dos dois únicos artistas locais – o outro é Joel José Mansur, 58 – que se dedicam a lapidar troncos de cedro e jacarandá para fazer as famosas carrancas que dão nome ao lugar. Se ele se inspirou nas carrancas feitas comumente no Rio São Francisco? “Não, vi algumas sendo vendidas em São João del Rey e decidi fazer algo parecido”, explica Peroba, com seu sotaque mineiro. As carrancas que deram nome à cidade, no entanto, são outras. Conforme se diz na cidade, a vila de Carrancas ganhou esse nome por causa da grande quantidade de pedras sobrepostas que fazem lembrar rostos humanos.

(foto de Andréa D’Amato, www.andreadamato.com.br)

Mais que o artesanato e as festas, a natureza de Carrancas continua a dar o mesmo espetáculo que impressionou o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, que por ali passou em 1822. Não faltam cachoeiras de água cristalina, como a da Zilda, com 10 metros de altura, e o Poço Esmeralda, de água esverdeada. Nas grutas de quartzito da Cortina e da Toca, clarabóias surgem enfeitadas por cortinas de cipós, permitindo que árvores de 10 metros de altura ergam suas copas no alto das cavernas. Sobre uma imensa placa de gnaisse, Carrancas esconde muitos buracos profundos entremeados por belas clareiras. Maritacas, gaviões e até veados podem ser avistados. E as inúmeras nascentes das serras alimentam os rios Capivari, Grande e Pitangueiras, os maiores que cruzam a cidade. Todos os passeios ficam a cerca de meia hora de carro a partir do centro, não exigindo muito mais que meia hora de caminhada. Além disso, quaresmeiras e ipês costumam florir os campos das serras.

Nenhuma aventura, no entanto, estimula tanto os fanáticos por adrenalina como a exploração da Racha da Zilda. Trata-se do final do estreito cânion por onde corre a Cachoeira da Zilda, mas que só pode ser acessado por quem tiver força física para enfrentar a correnteza contrária e suportar a água forte e gelada. Diz a lenda que Zilda era uma bela moça que tinha o hábito de banhar-se nua na cachoeira nos fins de tarde. Zilda desapareceu, mas há quem acredite que até hoje ela pode ser vista no local. Seria afronta demais para uma cidade pacata que se orgulha de sua cultura católica e tradicional. Mas é mais uma história curiosa de como as lendas da cultura regional de Carrancas contrastam bem com a magia de sua natureza exuberante.

 

Para Ir Mais Longe

A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Carrancas e Sua História, de Marta Amato, Ed. Loyola (tel. 0_ _11/914-1922), detalhado relato da história da cidade.

 

FESTAS CRISTÃS

 

Há quatro eventos anuais marcantes em Carrancas: Folia de Reis, de 24 de dezembro a 6 de janeiro. Procissão festiva em que dezenas de homens cantam e tocam de casa em casa. Dançam também o Congado. Paixão de Cristo, durante a Páscoa. Depois dos dias de quarentena sem Carnaval, cinqüenta jovens encenam a Paixão na praça e na igreja. Nossa Senhora da Boa Morte, em 15 de agosto. Mais de 300 cavalos e pessoas enfermas recebem a bênção do padre Jair.

Nossa Senhora da Conceição, em 8 de dezembro. Festa com quermesse e apresentação da dança africana do Congado.

 

GUIA DA TERRA

Como chegar

Carrancas fica a 275 quilômetros de Belo Horizonte, a 370 do Rio de Janeiro e a 430 de São Paulo. O caminho mais fácil é pela Rodovia Fernão Dias, sentido Lavras, passando por Itutinga e dirigindo por 26 quilômetros de terra.

Quando ir

O tempo é sempre quente de dia (média de 25 graus) e frio à noite (cerca de 10 graus), mas de novembro a março chove mais. Prefira viajar no outono ou na primavera. Leve roupa para as noites frias.

Onde ficar

Melhor que se hospedar numa das cinco pousadas do centro é ficar fora da cidade, sob o céu estrelado. As pousadas Mahayana (foto), tel. 0_ _35/327-1226), e Céu e Serra (tel. 0_ _35/327-1188) cobram diárias de R$ 20,00 por pessoa e ficam ao lado de cachoeiras. A Pousada Sete Quedas (tel. 0_ _35/9979-5280) oferece mais conforto por diárias de R$ 50,00 por pessoa. Há ainda três campings simples ao lado da cidade.

Sabor da roça

Há bons hotéis-fazenda com a rotina da roça: Traituba (tel. 0_ _35/327-1059), Fazenda do Engenho (tel. 0_ _35/327-1059), Recanto da Serra (tel. 0_ _35/327-1192) e Pico do Alto Verde (tel. 0_ _35/344-1300). Perto do centro, o Café da Roça (foto) é imperdível. Custa só R$ 4,00.

Como se programar

Os sites www.idasbrasil.com.br e www.ufla.br/carrancas/ oferecem boas dicas. Em Carrancas, a agência Minas Trilhas Gerais (tel. 0_ _35/327-1227) tem guias para todos os tipos de trilha.

Dica do autor

”Procure visitar Carrancas em uma das datas festivas. A alegria e o entusiasmo das pessoas que participam das danças da Folia de Reis e do Congado são de arrepiar. E a fé simples e verdadeira que elas demonstram nas manifestações religiosas é rara nas grandes cidades.“

Daniel Nunes Gonçalves

 

Publicado na revista Os Caminhos da Terra, edição 97, Maio de 2000

O velho e o rio

Andava sumido o Benjamin. Alguns achavam que tinha morrido, pela idade avançada – nascera em 1913 e passara toda a vida trabalhando duro nos sertões de Minas Gerais e Bahia. Outros sabiam: o velho agonizava em Pirapora, rio abaixo, praticamente esquecido há mais de uma década. Quando todos achavam que era um caso perdido, eis que ele se reergueu, renovado e vigoroso. Em outubro de 2007, o Benjamin Guimarães, um dos últimos barcos a vapor em atividade no planeta, voltou a navegar pelas águas do rio São Francisco, a mítica artéria que atravessa cinco estados brasileiros ao longo de 2,2 mil quilômetros. Ele ainda roda devagarinho, a não mais que 17 quilômetros por hora, como fez por 70 anos. Mas continua levando alegria – e uma certa nostalgia – à pobre gente ribeirinha que agora o vê voltar a desfilar.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

O Sol já baixa às 16h20 de uma tarde de maio quando ouço, em terra, um apito. É ele. O Benjamin Guimarães anuncia com mais dois toques a sua chegada a São Romão, norte de Minas. Sob o pipocar espaçado dos fogos de artifício e os alto-falantes que tocam Sobradinho e Asa Branca, algumas dezenas de pessoas observam o atracamento cuidadoso. A recepção é discreta. Quase toda a população local está mobilizada na procissão de Corpus Christi, que peregrina por ruas forradas de flores e serragens coloridas desde a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de 1896. As tradições dessa paragem do médio São Francisco, porém, são mais velhas. Antiga Vila Risonha de Santo Antônio do Manga, São Romão existe desde 1686, quando nem Ouro Preto nem Mariana tinham surgido no mapa.

A cidade de 9 mil habitantes vive hoje de agropecuária e de pesca de subsistência. Ela ganhou destaque recente pelo privilégio de marcar o ponto final do bate-e-volta de seis dias e 170 quilômetros que o Benjamin percorre a partir de Pirapora. “Ele continua elegante; só mudou o apito”, repara o são-romanense Geraldo Torres Vasconcelos, de 64 anos, arrepiado de emoção enquanto observa, do alto do barranco, o barco em que navegou tantas vezes. “Esse som choroso me lembra mais o Barão de Cotegipe”, reconhece ele, referindo-se a outro dos 35 vapores que movimentaram o leito navegável de Pirapora a Juazeiro, na Bahia, entre 1871 e 1986.

A constatação dos apitos trocados soa como evidência da intimidade da gente antiga de São Romão com o Benjamin e sua turma. Eles são tratados como se fossem seres humanos nas rodas de conversas saudosistas percebidas ao longo das 12 horas em que a embarcação permanece ancorada. “O Raul Soares era o maior de todos; o Fernão Dias afundou na Cachoeira do Manteiga; o Fernando da Cunha pegou fogo…”, diz Mário Torres, de 74 anos, listando os nomes de cor. Ele é maestro da banda da cidade, a Sete de Setembro, que tocou para o Benjamin no desembarque de outubro. “Tinha um escurinho, um que andava torto, outro pequeno que dava dó”, lembra Maria da Conceição Moura, de 81 anos, a “Dona Maria do Batuque”, guardiã das tradições folclóricas da cidade que fez o show da recepção na segunda viagem, em fevereiro.

A terceira expedição do Benjamin a São Romão, a que vi chegar em maio, evidenciou a boa forma do velho e de seus 16 tripulantes, lobos-do- rio especializados nos “roda-popa” (como eles chamam as barcaças com rodas-d’água na traseira). “Foi a mais difícil das três viagens”, confessa o comandante Cassiano José de Castro, de 78 anos. “O São Francisco está muito assoreado, quase atolamos nos bancos de areia”, explica, lembrando que a profundidade do rio estava em 1,3 metro, e o calado do Benjamin é de 1,2 metro. Como aconteceu com o próprio vapor, Cassiano encerrou os 14 anos de aposentadoria para voltar a capitanear o barco em que estreara como comandante. Só não esperava enfrentar as águas rasas. A represa de Três Marias não liberou água, como fizera em outubro. A razão é ambiental: o rio mais cheio nesse período prejudica a reprodução de algumas espécies de peixe.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Os 20 passageiros do Benjamin desembarcam para conhecer os poucos prédios históricos preservados de São Romão. Atendidos por 25 profissionais, entre tripulação, garçons e camareiras, os visitantes fazem parte de um seleto grupo com chance de gastar 3 000 reais por uma aventura que oferece mais experiências marcantes que belos cartões-postais. “Essa não é uma viagem pelo rio, mas uma viagem no tempo”, define a paulista Vera Tellefsen, de 50 anos, que encarou os banheiros coletivos e as cabines duplas pelo prazer de repetir o roteiro de sonho que seus pais, mochileiros alemães, realizaram em 1983. Mas o suíço Rolf Dux, de 61 anos, que já viajou por mais de 100 países, reconhece que o passeio tem algo de monótono. A única dose de adrenalina surgiu por causa da baixa profundidade do rio. “A tripulação mostrou o quanto é experiente, observando a olho nu, sem equipamentos modernos, os trechos a serem evitados”, diz.

O vapor, construído no americano rio Mississippi – pátria de outro barco lendário, o Robert H. Lee –, foi trazido desmontado para navegar no rio Amazonas e depois no São Francisco, comprado pela família de Benjamin Guimarães, um empresário que dedicou sua vida a construir hospitais e curar doentes – mesma sina do francês São Romão, que dá nome à cidade. Embora tenha virado uma espécie de máquina do tempo para o ontem glorioso, o Benjamin renasceu em tempos críticos. Além das águas rasas, os peixes escasseiam em função da poluição, como a que verdejou o Velho Chico com o enxofre das cianobactérias em 2007, impedindo que os 400 pescadores da cidade trabalhassem por dois meses. A transposição de suas águas, em uma polêmica obra de 3,5 bilhões de reais, alimenta discussões acaloradas do Palácio da Alvorada às barrancas de São Romão. “Vão tirar só 1% das águas e matar a sede de 15 milhões de sertanejos”, acredita Geraldo Wilton da Silva, de 60 anos. “Larga de ser ingênuo, homem! Não vê que o rio tá morrendo? E querem usar a água pra irrigar as plantações dos latifundiários”, retruca sua esposa, Sebastiana, a “Dona Tuzinha”, líder dos dez integrantes da bela serenata-surpresa que despertou os passageiros do Benjamin durante a madrugada.

Desde 2004, quando a prefeitura de Pirapora restaurou e tombou a embarcação, o Benjamin faz passeios dominicais de três horas. A recente retomada das viagens tem o mérito de jogar holofotes sobre outros cantos esquecidos do norte de Minas, como Barra do Guaicuí, Ibiaí, Cachoeira do Manteiga e São Romão. Bem menos famosa que as cidades do ciclo do ouro, São Romão foi fundada durante o povoamento do interior do Brasil colonial. O desenvolvimento do chamado “ciclo do gado” deu importância ao povoado por sua geografia estratégica em um tempo em que o transporte se dava por meio de hidrovias. São Romão é uma espécie de “ilha” cercada por rios – São Francisco, Paracatu, Urucuia e Ribeirão Conceição – e tornou-se entreposto para abastecimento de alimentos e produtos ligados à agropecuária, conectando as vias aquáticas que davam acesso ao que hoje conhecemos como Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais.

A prosperidade ganhou impulso com a circulação dos barcos a vapor, no fim do século 19. Os chamados “gaiolas” passaram a ser o principal meio de transporte coletivo e de carga, e funcionavam como um misto de mercado e hotel flutuante em que se comprava de tudo, de sal a rapadura e coco da Bahia. “Foi num vapor que meu pai me levou a um hospital quando eu tinha 5 anos e adoeci de cesão”, recorda, ainda usando o nome antigo da malária, o vaqueiro José Juvêncio Lemos, de 48 anos. Seu estilo de vida e o cenário onde vive, a vereda Escuro, a 1 quilômetro do rio Urucuia, remete ao universo de outro Guimarães, o Rosa, escritor que transportou essas paragens mineiras para as páginas de obras como Grande Sertão: Veredas. Outra memória de infância enche de nostalgia o pescador José Reinaldo Bispo, de 33 anos, morador da comunidade quilombola Ribanceira. “Eu tinha 8 anos de idade quando vi o vapor São Francisco torrar num incêndio”, lembra ele. José Reinaldo sente na pele os efeitos devastadores da exploração da lenha para alimentar as caldeiras. Foi o desmatamento desenfreado das margens que deu origem a uma enorme voçoroca, que engoliu duas ruas e seis casas do povoado, chegando a 3 metros de sua casa. A erosão não tem solução a curto prazo.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

O fim da navegação comercial dos vapores no São Francisco, nos anos 1980, em função das más condições do rio e da concorrência com o transporte rodoviário, deixou São Romão isolada e pobre. Só agora, duas décadas depois, a cidade retoma o contato com o mundo. Em 200fiforam inaugurados os primeiros 80 quilômetros da estrada de asfalto que liga o outro lado do rio à cidade de Brasília de Minas. Uma antena para celulares foi erguida no início deste ano, e a divulgação recente de que existe gás natural no subsolo da região deixa a população esperançosa por dias melhores. O desmatamento do cerrado, feito sob pretexto de produzir carvão, pastagens e monoculturas, como a da soja, ainda é uma ameaça, mas começa a ser combatido, apesar de a cidade dispor de apenas três agentes florestais. A Operação São Romão, contra exploração ilegal, contou com cerca de 30 policiais ambientais em abril. Multou fazendeiros e destruiu ao menos 20 fornos de carvoarias clandestinas.

A volta do Benjamin não representa o retorno da navegação pelo São Francisco, como sonha a nação barranqueira. “Os tempos são outros. A lentidão de um vapor a lenha já não combina com o ritmo acelerado do mundo”, analisa Vânia Guedes Santos, de 5fianos, uma ex-moradora que voltou à cidade para acompanhar o casamento de sua filha, à beira do São Francisco, e que se emocionou ao deparar com aquela parte importante de sua história.

O Benjamin partiu às 5 horas da manhã seguinte, quando a aurora alaranjou o céu do sertão. São Romão, que já lotou o convés com 300 pessoas para viajar pelo preço de uma passagem de ônibus, agora observa o passeio dos ricos sob o olhar distante de meia dúzia de pescadores. O comandante Mariano dispara o apito por três vezes, e cinco marujos fazem força para içar a âncora enquanto outro grupo prepara a lenha – agora de madeira re¬ florestada – a ser queimada para impulsionar a barcaça.

A tripulação logo se empoleira na proa, a fim de observar os trechos rasos a serem evitados. E o Benjamin Guimarães, mito da navegação mundial, segue deixando um rastro de fumaça e cheiro de lenha no mais amado rio brasileiro.

 

Seção Código Postal – 9290-000: São Romão, MG

Publicado na Revista NATIONAL GEOGRAPHIC de Agosto/2008

A descoberta da Costa do Sal

O cenário é estranho. O mato ralo e os cactos da caatinga chegam pertinho do litoral, misturando jegues e cabras típicos do sertão seco e pobre com a beira-mar de praias belas e intocadas, coloridas por manguezais, dunas e jangadas. Justamente aí surgem as salinas, vastos alagados onde a água do mar fica represada em tanques ladeados por montanhas de sal brancas como a neve. Com essas paisagens exóticas, o extremo norte do Rio Grande do Norte, a quase 300 quilômetros de Natal, abriga os 250 quilômetros da Costa do Sal, um litoral onde a vida depende totalmente do mar — para pescar o peixe de cada dia e para extrair a essência do oceano: o sal.

(foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

Por ser o lugar do planeta mais propício à extração de sal marinho, com sol constante e dez meses sem chuva, esse trecho do Rio Grande do Norte se tornou o maior produtor de sal do Brasil. De Macau, Areia Branca, Grossos e Galinhos, principais cidades salineiras do Estado, saem 90% da extração nacional. Seu mar de águas verdes, calmas e mornas tem a segunda maior salinidade do planeta, perdendo apenas para o Mar Morto. Ficam aí a maioria das 150 salinas brasileiras, onde 8 000 homens vivem aguardando a evaporação lenta da água do mar.

Em meio à dureza de uma das principais atividades econômicas do Nordeste, a surpreendente sucessão de praias virgens surge como agradável compensação. O sol dessa região tão próxima da linha do Equador bate mais forte e dá o prazer de sua presença durante todo o ano. Faz dois anos que ninguém vê uma gota d’água cair do céu na Costa do Sal. Isso é bom para os salineiros, pois a produção cresce, mas fatal para quem explora a agropecuária. Como não há lavoura ou gado que resista a tanto calor, come-se carne de bode e de cabra — que, por sua vez, se alimentam da duradoura vegetação do mangue.

O mesmo sol que doura as praias sacrifica especialmente os trabalhadores das chamadas salinas artesanais, que ainda não foram mecanizadas. Várias delas podem ser vistas nos arredores de Mossoró, a 277 quilômetros de Natal, mais conhecida por ser a segunda maior cidade do Estado, principal produtora de melão do Brasil e centro do maior número de refinarias que transformam o sal bruto das salinas em nosso sal de cozinha (acrescido de iodo, obrigatório pelo Ministério da Saúde, para evitar a doença do bócio). As salinas artesanais acompanham os dois lados da estrada que liga Mossoró à cidade litorânea de Tibau. Junto à divisa com o Ceará e conhecida pelo artesanato das garrafas de areia colorida, Tibau tem uma extensa faixa de areia onde carros, mesmo sem tração nas quatro rodas, podem circular até a vizinha Grossos, quando a maré está baixa. Aqui, a mecanização que revolucionou o método de extração do sal, quinze anos atrás, tem chegado a passos lentos.

Sal moeda. Os métodos usados nas rústicas salinas de Grossos, que ficam ao lado dos recifes da isolada Praia de Pernambuquinho, são primitivos. Charmosa, a orla é a única do roteiro onde os barcos coloridos dos pescadores ficam ancorados junto às montanhas alvas de sal, num contraste inusitado. No lado branco, as salinas são tão simples que fazem lembrar até os primeiros registros arqueológicos da extração do sal, no Período Neolítico, cerca de 10 000 anos atrás. Embora a importância desse alimento sagrado tenha variado bastante — ele já foi usado como moeda tão valiosa quanto o ouro e como iguaria rara, motivo de muitos conflitos entre países ao longo da História —, a forma de explorá-lo não mudou muito.

Represada, a água do mar vai sendo transferida de um tanque raso para outro — em Grossos, impulsionadas por antiquados moinhos de vento. Aquecido pelo sol, o líquido muda de cor e fica denso até ser evaporado, restando o sal. Num calor infernal, a pele fica grudenta pela maresia desse ambiente úmido e os olhos ardem por causa do reflexo dos branquíssimos montes de sal.

(foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

“Esse é um trabalho pra cabra corajoso”, orgulha-se o salineiro Francisco José do Nascimento, 20 anos, que desde os 15 usa uma espécie de picareta, chamada de chibanca, para extrair o sal. Em março, Francisco e seu colega Antônio José da Silva, o Pitão, de 21 anos, se dedicaram à ingrata missão de picar o sal de um tanque — também chamado de balde — de 50 por 50 metros de uma salina da cidade de Areia Branca, a 15 minutos de balsa de Grossos. “Precisamos de dez homens trabalhando três semanas para extrair o sal de um único balde”, enfatiza Pitão. A pele dos pés de quem não tem dinheiro para comprar botas fica dura e machucada pelo contato com o chão rasgante. “Fiz um corte pequeno na sola do pé, que com sal virou uma enorme ferida”, reclama o salineiro Zenildo de Assis dos Santos, 26 anos, que usa uma atadura no pé esquerdo. Seu companheiro, o operador de trator Francisco Pereira da Silva, 58 anos, usa um óculos fundo-de-garrafa para tratar dos quase 3 graus de miopia adquiridos ao trabalhar no sal, por quarenta anos, ofuscando os olhos sem os óculos especiais usados nas grandes salinas. A recomendação do feitor — o chefe — é que os salineiros protejam o corpo do sal e do sol.

Câncer. As mesmas montanhas alvas das salinas de Areia Branca que causaram, décadas atrás, glaucomas, problemas de visão e de pele em trabalhadores, hoje são uma atração da cidade. Tanto é que, dois anos atrás, atores como Du Moscovis e Letícia Sabatella circularam pela cidade para gravar imagens para o filme Bela Donna, de Fábio Barreto. Nenhum set deve ter sido tão agradável, porém, como as praias de Areia Branca — principalmente aquelas distantes do centro. A Praia Redonda, por exemplo, vive com a mesma calma de sua grande parcela de aposentados, que permanecem sentados ao redor da pracinha central e da igreja dia após dia.

Apesar do típico sossego caiçara, há moradores que reclamam do sobe-e-desce pelas dunas, obrigatório para chegar à beira-mar de Redonda. “Duro é voltar da praia carregando balaios cheios de peixe”, resmunga Gilvan Pereira da Costa, 21 anos, pescador de um dos treze barquinhos locais. “Dizem que a vida era bem melhor no tempo da vila antiga, que ficava em frente à praia e foi engolida pelas dunas quarenta anos atrás”, conta. Apesar disso, Gilvan adora o cantinho onde vive, o ofício da pesca, a companhia dos golfinhos no barco e o entardecer visto das dunas. O novo centro de Redonda, erguido na parte alta, virou um mirante onde se avista, além do pôr-do-sol ardente do céu potiguar, o Porto Ilha, gigantesca plataforma construída em alto-mar, a 25 quilômetros de Areia Branca. É para lá que seguem as barcaças de sal que partem de todas as salinas da região. Elas repassam sua carga de 1 500 tonelada para navios de 35 000 toneladas que rumam para o sudeste do Brasil ou a costa leste dos Estados Unidos.

O entardecer é igualmente belo na praia de São Cristóvão, ideal para caminhadas diante de sua bela seqüência de falésias. No alto de uma delas fica um pitoresco cemitério de cruzes coloridas, num cenário idílico de frente para a imensidão do oceano. São Cristóvão só rivaliza em beleza com a Ponta do Mel, pérola da Costa do Sal e única dessas vilas onde é possível se hospedar. A casa de Eloísa Rodrigues de Oliveira, a dona Luquinha, de 66 anos, dá hospedagem a poucos passos da praia, serve comida aos forasteiros e oferece a simpatia dos membros da família Oliveira. Naide, de 20 anos, uma das filhas de dona Luquinha, cuida da pousada. Sua irmã Néia toca o Bar Beirão, de frente para o mar com sua parede coberta de conchas e com telhado de palha de carnaúba trançada. Dos outros irmãos, Ernan cuida da oficina da cidade, Eliane atende o único telefone e Elialva é diretora da creche. “É bom que estamos no ponto da cidade onde tudo acontece”, anima-se Naide. Isso quer dizer que a Rua Manoel Filgueiras dos Santos, paralela à praia com rochas de formas curiosas, é o centro onde ficam a padaria, a mercearia e o posto da Telern — aquele onde Eliane trabalha.

Enquanto os pescadores de Ponta do Mel vão ao mar, a vila segue sua rotina mansa, a passos lentos, ao som de forró. Oito habitantes da cidade — inclusive dois pescadores — montaram um conjunto local, o Cheiro de Caju, que toca até no centro de Areia Branca. À noite, o céu estrelado, invariavelmente sem nuvens, cobre os casebres onde as pessoas dormem em redes, com as portas abertas para suportar o calor. O caminho que leva ao Farol de Ponta do Mel, de onde se tem uma vista ampla de sua praia de areias fofas e amareladas, é o mesmo que segue acompanhando o mar até Porto do Mangue: uma longa estrada de cascalho — aqui chamado de piçarro — que mescla paisagens com coqueiros do litoral, cactos da caatinga, montes de cabras e de jegues torrando sob o sol. A cidade, portuária e com salinas, abriga as desertas dunas da Costinha, a meia hora de barco pelo meio de um manguezal quase virgem.

  • (foto de Silvestre Silva, www.silvestresilva.com.br)

Piçarro. Mangues preservados são raros na região das salinas, já que eles costumam ser inundados na criação de cada balde de sal. Ironicamente, o problema ecológico cria um visual curioso: as melhores praias de Macau, a próxima cidade da rota, são decoradas por troncos de manguezais ressecados pelas salinas, em areias cobertas por conchas do mar. Pontilham o caminho os chamados “cavalos”, máquinas semelhantes a grandes gangorras que extraem o petróleo da terra em poços com até 3 000 metros de profundidade. Mantidos pela Petrobrás, os milhares de cavalos do Rio Grande do Norte transformaram o Estado no líder nacional desse tipo de extração e empregam tanta gente quanto as salinas.

Primeira cidade onde os navegadores portugueses perceberam o potencial de exploração do sal brasileiro, Macau ganhou o mesmo nome de uma colônia lusitana na China e vive do sal explorado basicamente por grandes salinas, como a Álcalis e a Henrique Lages. Com linhas de produção modernas e trabalho noturno para evitar a inclemência do sol, as salinas de Macau só possuem moinhos como enfeite, movimentados pelo mesmo vento que afasta para longe as nuvens formadas pela evaporação dos tanques. Além dos moinhos, também os salineiros estão em extinção, substituídos por operadores de máquinas: as grandes salinas empregam apenas um quarto do número de funcionários que trabalhavam antes da mecanização. A monotonia da seqüência de baldes de sal de Macau só é quebrada pela paisagem simples das praias de Diogo Lopes, Barreiras e Soledade, todas desertas, com muitas conchinhas e acessíveis apenas por buggies. Coqueiros, barcos de pesca, casas de pau-a-pique e varais de secagem de peixes tornam deslumbrantes as vistas do alto das vilas.

A paz também é a primeira boa impressão para quem chega de barco à Ilha de Galinhos, a partir de Guamaré. Não há carros nas ruas de areia dessa que é a terra do saboroso peixe-galo. Guiadas por crianças, as charretes puxadas por burros e jegues, também chamadas de jumentáxis, são o único meio de transporte da cidade. A simpatia da gente local e as águas cristalinas das praias desertas começam a conquistar visitantes esporádicos. Duas das únicas três pousadas, por exemplo, são de propriedade de italianos que se apaixonaram pelo lugar.

As belas salinas de Galinhos, apesar de ficarem no continente, também são o ganha-pão de alguns moradores locais. Todos os dias, quando o sol ainda nasce, esses trabalhadores pegam carona no barco dos pescadores até as montanhas de sal. As embarcações são as mesmas que levam os raros aventureiros para conhecer as dunas da Ilha do Capim e a bucólica praia de Galos, do outro lado da ilha. E o caminho, mais uma vez, é o mar — a inesgotável fonte de vida de jangadeiros e salineiros.

Para ir mais longe

Barro Blanco, romance de José Mauro de Vasconcelos, Ed. Melhoramentos.

Minhas Memórias de Areia Branca, de Luiz Fausto de Medeiros, Coleção Mossoroense — romance regional com histórias da pesca e do sal.

 

DO MAR À COZINHA

 

A água do mar é represada em tanques chamados de baldes, passando de um ao outro até que seja evaporada durante seis meses.

Uma crosta de 20 centímetros de sal cristalizado é colhida por uma máquina que funciona como as que varrem a neve das ruas.

Carrinhos levam o sal para esteiras lavadoras. Em seguida, o sal bruto é curado em pilhas de até 12 metros de altura.

Escavadeiras tiram o sal da pilha e colocam em esteiras que os levam para navios ou caminhões, para que vire sal grosso ou refinado.

 

GUIA DA TERRA:

COMO CHEGAR – Não é preciso ir de buggy de Natal para a Costa do Sal, embora ele garanta viajar pela areia das praias. Um carro comum chega em todos os lugares e é mais confortável na viagem de até 4 horas pelo asfalto até as cidades base do roteiro: Mossoró, a 277 quilômetros pela BR-304, e Macau, a 190 quilômetros pela BR-406. O asfalto de todas as estradas, inclusive as vicinais, está bem conservado. A pequena RN-012 beira a praia entre Tibau e Grossos. Daí pega-se uma balsa de 15 minutos até Areia Branca. A estrada de piçarro que leva a todas as praias de Areia Branca não tem placas, fique atento. A pista de Ponta do Mel até Porto do Mangue é precária mas tem um visual fantástico. Para ir a Macau é preciso rodear o Rio Assu por estradas regionais via Pendências. E de Macau a Guamaré, de onde saem os barcos para Galinhos, dirige-se pela RN-221 por quase 2 horas. O barco funciona em horário comercial, e o carro fica em um estacionamento no Portinho. Caso você vá chegar durante a noite, solicite um barco aos donos das pousadas.

ONDE FICAR – Melhor evitar as cidades grandes, como Mossoró e Macau. Prefira praias menores, mais charmosas e hospitaleiras. O problema é a precariedade da estrutura: nos quartos da Pousada da Dona Luquinha (tel. 084/ 332-2269), em Ponta do Mel, e da Dalva (tel. 084/525-2260 e 2261, ramal 26), em Galinhos, não há nem portas separando dormitórios e banheiros. Muito simples, ambas servem refeições e fazem o hóspede se sentir parte da família. Em Galinhos, existem ainda os Chalés Oásis (tel. 084/9431-9672) e a Pousada Adoro Vocês (mesmo telefone da Pousada da Dalva), dos italianos. Leve roupa de cama e banho. Atenção: postos de gasolina são raros nesses 250 quilômetros. Quem preferir dormir em Areia Branca, a 110 quilômetros de Mossoró pela BR-110, tem como opção a confortável Pousada Porto do Sal (tel. 084/332-2386).

MELHOR ÉPOCA – É o ano todo. Mas no inverno, entre março e maio, chove nas salinas.

DICA DO AUTOR

“Algumas estradas do roteiro são fantásticas, em especial a que liga Ponta do Mel a Porto do Mangue, de cascalho. Deserta, ela mistura paisagens de caatinga, praias, falésias e dunas. Cuidado para não atolar nos trechos invadidos pela areia. E sinta-se o viajante mais solitário do planeta.”

Daniel Nunes Gonçalves

Ao sabor das marés

Vocês viajaram de bugue pela praia desde Natal?”, perguntou com ar surpreso a mulher que descascava mandioca numa casa de farinha da cidade potiguar de São Miguel do Gostoso. “Tem louco pra tudo!”, continuou Vera Lúcia da Silva, depois de uma sonora gargalhada. Para ela, a viagem dos forasteiros em bugues parecia um sacrifício. Acostumada à rotina de pesca de parte dos doze filhos e ao trabalho com farinha na simpática praia onde vive, a perplexa Verinha, como é conhecida, 38 anos, não entendia que uma empreitada com sol na cabeça, pouca roupa e brisa no rosto é o que todo mortal estressado pediria a Deus. Estávamos apenas no fim do segundo dia de uma aventura que duraria uma semana e que percorreria 700 quilômetros e 100 praias do extremo Nordeste do Brasil, desde Natal, no Rio Grande do Norte, até Fortaleza, no Ceará. E tudo com calma, tendo como única preocupação a escolha das vilas de pescadores onde tomar banho de mar, beber água-de-coco e comer lagosta fresca.

(Ponta Grossa, foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

 

Gostosa, a gargalhada de Verinha traduz bem o alto-astral do lugar do primeiro pernoite fora de Natal. No século passado, a pacata vila de São Miguel teve adicionado ao seu nome o curioso complemento “do Gostoso“, em homenagem a um comerciante contador de histórias engraçadas conhecido por sua risada divertida, “gostosa“, como a de Vera. Apesar de o nome oficial ser São Miguel de Touros, a maior parte dos 5000 habitantes do centro urbano prefere o outro título. Até a placa na entrada da cidade dá as boas-vindas com a mensagem “Aqui você faz gostoso“. Depois do dia anterior em Natal ter sido dedicado aos preparativos da viagem, o primeiro dia de deslocamento dos dois bugues terminava feliz, sem imprevistos. À medida que se dirige para o norte, a praia vai ficando mais bela e as casas de veraneio da orla dão lugar às vilas de pescadores em praias desertas.

No ritmo da natureza. Os passeios de bugue pela praia acontecem na região há quinze anos. Poucas pessoas se arriscam a trocar a velocidade na estrada asfaltada entre Natal e Fortaleza pela aventura a 40 km/h na areia. “Uma longa rota de bugue requer macetes de pilotagem“, diz o bugueiro Cláudio Chueiri, 47 anos, que repetiu o trajeto seis vezes nos últimos oito anos. O motorista precisa enxergar desníveis do solo, trechos de areia fofa e riachos que desembocam no mar. Deve ainda dirigir apenas nos horários em que a maré permite – e isso varia conforme a fase da Lua. Sempre que a maré sobe, o trecho de areia seca diminui, obrigando o viajante a esperar a vazante ou dirigir em estradas paralelas. Com a maré baixa, os obstáculos são os trechos com pedras e os rios, onde nativos oferecem a travessia em jangadas.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

A variedade das paisagens impressiona. Depois da seqüência inicial de dunas e lagoas de Genipabu, despontam os extensos coqueirais do Cabo de São Roque, ponto da América mais próximo do continente Africano. Em seguida, as piscinas naturais de Maracajaú, a 7 quilômetros da costa, surpreendem os mergulhadores com o desfile de budiões, moréias e polvos em águas azuis incríveis. O cenário paradisíaco se repete à frente, nas piscinas de Rio do Fogo.

Ao norte, a orla de areia fina curva-se para a esquerda e delineia a esquina nordestina brasileira, em Touros, onde o Farol do Calcanhar, com seus 62 metros de altura, evita que novos naufrágios ocorram na região. Considerado o maior da América Latina, ele oferece um mirante no alto de seus 298 degraus, de onde se avista São Miguel do Gostoso e se percebe que os bugues passarão, no dia seguinte, a circular no litoral virado para o norte, e não mais para o leste. A tábua de marés, que orienta pescadores e bugueiros apontando os horários de cheia e vazante, muda totalmente.

Nordeste pré-histórico. O primeiro barco se preparava para deixar a praia de Gostoso, às 6 horas da manhã do dia seguinte, quando os dois bugues partiram pertinho do mar, onde a areia é mais dura. Os homens da jangada comentavam o evento da noite anterior, a apresentação de um circo itinerante com direito a show da Tiazinha. “A Tiazinha da televisão?“, pergunta alguém. “Não, uma igualzinha, veio lá do Recife“, responde outro, entusiasmado. São Miguel do Gostoso é realmente uma cidade engraçada… O papo sobre os atributos da moça continuou enquanto os pescadores ajeitavam os 100 covos, gaiolas de pescar lagosta que seriam deixadas no mar até o dia seguinte. Zarparam. Um visitante caminhava na praia, anunciando o turismo discreto que começa a descobrir Gostoso. A cena dificilmente seria vista um ano atrás, quando o asfalto da BR-101 ligando Natal a Touros não estava concluído.

As formações rochosas que aparecem no terceiro dia têm tanto valor que já se tentou criar ali um parque. Em Tourinhos despontam paredes escuras, de até 5 metros de altura, que parecem ter sido lapidadas e polidas pela chuva e pelo vento. “São dunas petrificadas que existem há pelo menos 7500 anos“, explica o geólogo Eduardo Bagnoli. Nos areais que beiram a praia, surgem os bosques petrificados, um fenômeno mundial raríssimo.

Quem não tocar não vai perceber, mas os troncos secos brotando do chão são pedras. Há milhares de anos as árvores foram cobertas pelas dunas, endureceram e ressurgiram quando a areia se moveu. Na Ponta dos Três Irmãos, perto dos galhos, muitas conchas escondem pedras lascadas usadas como ferramentas indígenas. “Talvez os índios se alimentassem dessas conchas na sombra do bosque“, diz Bagnoli. Se a rodovia litorânea Touros–Fortaleza, que será construída em 2001, não evitar passar por ali, essas relíquias se perderão.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Os cactos da caatinga beirando esta costa de ondas fortes comprova que estamos no trecho mais árido e isolado da viagem. Água doce é um artigo tão raro que as lagoas formadas pela chuva nas dunas são usadas para regar plantações de batata e mandioca, para que as lavadeiras lavem roupas e para que homens e animais tomem banho. “Eu e o Campineiro andamos uma hora para chegar aqui“, diz o vaqueiro Cícero César, 19 anos, enquanto lava seu boi, o tal Campineiro.

Banquete indígena. A Praia do Marco, onde foi cravado o primeiro marco português no Brasil, em 1501, remete a um passado mais curioso do que aparenta a réplica local da cruz portuguesa (a original está em Natal, no Forte dos Reis Magos). Depois de fixar o monumento, a expedição de Gaspar de Lemos se aproximou, de bote, dos índios potiguares que descansavam na areia fofa da praia vizinha de Ponta do Santo Cristo. Foi quando os índios mostraram sua ferocidade. Nadaram até um dos barcos e dele retiraram um padre, que foi arrastado até a praia e, diante dos olhares de outros portugueses, morto e devorado pelos selvagens. Os potiguares continuaram resistentes até o final do século, ocasião em que foram enfim dominados.

O sol parece mais forte e a água do mar, mais salgada, na Ilha de Galinhos, ponto final do terceiro dia e inicial da chamada Costa do Sal. Os golfinhos costumam acompanhar a balsa que leva a esta vila de 1800 habitantes e chão de areia. Como praticamente não há carro em terra firme, os viajantes se locomovem em charretes puxadas por jumentos, os jumentáxis. Simpática vila de casas coloridas, Galinhos é comandada há décadas pelo pulso firme da prefeita Jardelina Pereira, 73 anos, espécie de coronel local. Ao entardecer, ela costuma arrastar uma cadeira até a frente de casa, onde, sentada com toda pompa, escuta os lamentos das moradoras.

A cor branca das salinas e dos belos bancos de areia da Ponta do Tubarão é a mesma do triste cenário dos galhos secos nos manguezais que foram destruídos pelas empresas salineiras, deixando sem lar aves de mangue como garças e maçaricos. O sal é a principal fonte de renda da população do Rio Grande do Norte, além do petróleo extraído das plataformas terrestres da Petrobras, nas quais os chamados cavalos puxam óleo desde 3000 metros de profundidade.

Em Porto do Mangue, onde se concentram as paisagens mais bonitas do dia, o destaque é a seqüência de falésias de cores vermelha, amarela e alaranjada que beiram o mar azul até as praias de Ponta do Mel, São Cristóvão e Redonda. O melhor mirante para observá-las é o alto de cada morro, como no cemitério de São Cristóvão. Nesta região, famílias inteiras dormem em redes com a porta da casa aberta. “Só fecho quando o vento bate forte na boca da noite“, diz Cosme Olivar das Neves, 53 anos, que trabalha na salina artesanal de Grossos, cidade vizinha de Tibau, última parada do dia. “Mas o vento é bom. A gente nem precisa balançar a rede debaixo do cajueiro“, diz, feliz com o sossego de onde mora.

A extinção da lagosta. A entrada no Estado do Ceará, no quinto dia, é indicada por um mar mais verde, protegido por paredões avermelhados, como o de Barreira, Redondas (com “s“, diferente da Praia Redonda do dia anterior) e Ponta Grossa. De uma beleza surpreendente, as três praias ficam em isoladas vilas de pescadores cheias de jangadas de velas brancas. Todos os anos, no dia 15 de agosto, elas engrossam uma procissão de 150 barcos em homenagem a Nossa Senhora dos Navegantes. “Só a santa e o governo podem ajudar a melhorar nossa vida“, reclama o pescador João de Deus, 48 anos, morador de Redondas. Acostumado a viver da venda da lagosta, João de Deus tem sofrido com a escassez causada pela pesca predatória, que tem dizimado os filhotes. O volume dos pescados baixou de 20 quilos por mês, dez anos atrás, para 2 quilos.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Em Canoa Quebrada, ponto do próximo pernoite, a pesca deixou de ser o principal ganha-pão há duas décadas. O turismo explodiu de tal forma que a maioria dos 3000 moradores atuais veio de fora, atraída pela badalação que rondou a praia na década de 70, depois que a atriz Vera Fischer passou a freqüentá-la. Canoa continua bela, com dunas e falésias, mas cresceu demais.

O ícone da lua com a estrela, nascido do símbolo do islamismo e transformado em marca registrada de Canoa, também permanece em um paredão rochoso da praia – agora, porém, em meio a milhares de nomes rabiscados. Cosmopolita, a Canoa de hoje fala várias línguas, tem agitação noturna e costuma ter no céu parapentes coloridos, como o do suíço Jérôme Saunier, 37 anos, pioneiro do esporte no Brasil. Ele se mudou para cá há nove anos e montou uma academia. “Canoa Quebrada será sempre uma praia especial“, diz.

As falésias brancas que aparecem nos primeiros quilômetros do sexto dia, na rota final até Fortaleza, anunciam a aproximação da Barra de Sucatinga, que ficou popular há cinco meses por ter sido palco das gravações da série de televisão No Limite. Basta o bugue encostar na recém-batizada Praia dos Anjos para os filhos dos pescadores pararem de brincar com suas jangadinhas e oferecer passeios guiados. “O turismo está ajudando a vila a crescer“, anima-se Belarmino Torres, que está construindo em sua barraca de praia um museu com peças usadas pelo elenco, como estilingues e panelas.

Desviando-se das jangadas, dos campos de futebol e dos alagados formados durante a maré alta, os bugues seguem pela Praia das Fontes, com suas discretas nascentes despencando das falésias, e por Morro Branco, famosa pelo artesanato de areias coloridas. Depois da plácida paisagem dos bancos de areia em Águas Belas, a urbanidade se aproxima com a chegada à Praia de Porto das Dunas, em frente ao Beach Park. Hora de voltar à estrada, para que o descanso do sétimo dia seja desfrutado na Praia do Futuro, em Fortaleza. O bugue entra no asfalto da metrópole e recebe a primeira baforada de fumaça de caminhão. Como dizia Verinha, a da risada gostosa, tem louco pra tudo nesse mundo. Até para voltar à cidade, deixando lá atrás a vida mansa de sol e a brisa deliciosa da beira-mar nordestina.

 

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Para quando você for:

 

Aos Bugues!

Qualquer pessoa pode viajar pelas praias alugando um bugue em uma das locadoras de Natal ou de Fortaleza. Para as aventuras mais longas, no entanto, é mais seguro e recomendável contratar o serviço de bugueiros profissionais, como Cláudio Chueiri (tel. 0_ _84/641-2019) e Marcelo Cossi (tel. 0_ _84/236-4217), ambos de Natal. A Top Buggy (tel. 0_ _84/219-2820) oferece os mesmos serviços em Natal, enquanto a HM (tel. 0_ _85/242-7799) faz o trajeto inverso ao nosso, desde Fortaleza.

Durma bem

Fora os pernoites em Natal e em Fortaleza, os outros quatro podem acontecer na cidade que o viajante quiser. Na hora de decidir onde parar para almoçar e para dormir, prefira as praias mais charmosas. No segundo dia, a melhor opção é São Miguel do Gostoso, na Pousada dos Ponteiros (foto do alto, tel. 0_ _84/984-5951). Galinhos, no terceiro dia, tem cinco pousadas. A mais simpática é a Chalés Oásis (foto do meio, tel. 0_ _84/9431-9672). Urbanas, as praias de Tibau (onde passamos a quarta noite, meio sem graça), Canoa Quebrada (quinta noite, www.canoaquebrada.com) e Fortaleza (sexta noite) têm muitos hotéis. Uma hora antes de Fortaleza, o Resort Praia das Fontes (foto debaixo, tel. 0_ _85/338-2122) é o melhor do roteiro Outras praias agradáveis para pernoitar são a Do Marco (RN), de Ponta do Mel (RN) e de Redondas (CE).

Pela terra do sol

Há sol no Nordeste em qualquer época do ano, mas as chuvas costumam aparecer entre março e junho. Planeje sua viagem usando as informações turísticas dos sites www.turismorn.com.br, do Rio Grande do Norte, e www.cearatour.com.br, do Ceará.

Outros toques

O bugue é aberto e o vento das praias pode desaparecer com seus óculos de sol, boné e guia de viagem. Proteja-se do vento, do sol e da areia que voa para dentro do carro. A água do mar também costuma molhar bagagens, câmera fotográfica…

Dica do autor

”Os sítios arqueológicos encontrados nas praias entre Touros e Galinhos merecem cuidado. Perto da Ponta dos Três Irmãos, os bugues desviam das pedras na beira de um morro e passam sobre uma concentração de conchas que se assemelha a um sambaqui. Evite rodar por ali para não atropelar as relíquias.”

Daniel Nunes Gonçalves