Islândia em ebulição

Eu só sabia três coisas sobre a Islândia quando desembarquei na capital Reykjavík: que aquela era a terra da cantora Björk (de quem sou fã confesso), que a economia do país estava quebrada e que sua natureza selvagem tinha sido inspiração para Viagem ao Centro da Terra, o clássico livro de Julio Verne. Tanto que as cinzas provocadas pela erupção de um vulcão de nome quase impronunciável ali, no meio do nada do Atlântico Norte, em abril, havia paralisado o tráfego aéreo mundial. A fumaceira já tinha desaparecido quando cheguei, em um entardecer de junho, primeiro dos únicos três meses de verão. Havia, nessa época, outro espetáculo no céu: o sol da meia-noite. Por estar tão perto do Polo Norte – a 66 graus de latitude, na linha do círculo polar ártico –, a Islândia se destaca como um raro ponto do planeta onde o sol desce até a linha do horizonte mas não desaparece completamente. Sem a escuridão para limitar o dia, nós – e as centenas de turistas que lotavam o aeroporto – podíamos aproveitar bem a temperatura mais quente do ano: média de 10 °C, contra 0 °C do inverno, quando os dias chegam a ter só duas horas de luz e o céu negro ganha as cores alucinantes da aurora boreal.

Casas seculares feitas de pedra e cobertas por telhados verdes em Skógar (SameSame Photo)

Ladeada por lava vulcânica petrificada, a única grande estrada do país, a Rodovia Nacional 1, faz um círculo beirando o litoral dessa ilha do tamanho do estado de Pernambuco. Intransitável para quem não tem um jipão superequipado, seu interior se traduz como uma imensidão de montanhas, cerca de 25 grandes vulcões e glaciares que cobrem 15% do território. Frustrando nossas expectativas, soubemos que o vulcão Eyjafjallajökull, agora famoso e calminho, não tinha como ser avistado por terra. “Seria necessário fazer uma escalada íngreme no glaciar, ainda assim dependendo das condições da neve e do gelo”, alertou o geólogo Ari Guðmundsson. Seu típico sobrenome chama a atenção para uma peculiaridade: os sobrenomes islandeses repetem a alcunha do pai acrescida de um sufixo: son, para filhos, e dóttir, para filhas.

Felizmente, não é preciso subir vulcões para perceber o bafo quente e o cheiro de enxofre do subsolo fervente: há piscinas de água quente por todo canto. Basta dirigir 14 quilômetros desde o aeroporto para se surpreender com a mais cênica delas, a Lagoa Azul. Transformada em spa, vive cheia de banhistas lambuzados com a lama branca extraída de seu fundo. Compondo a paisagem fumegante, focos de fumaça são expelidos do solo, de onde brota água a 240 °C para que a usina geotérmica vizinha produza eletricidade para a região. Ali perto fica o Strokkur, jato que jorra a 35 metros de altura a cada oito minutos e melhor exemplo atual de gêiser – palavra que a esquisita língua islandesa cedeu ao vocabulário internacional. O tour pelo chamado “círculo dourado” turístico inclui ainda a visita à Gullfoss, uma espécie de pequena Foz do Iguaçu com cataratas de mais de 30 metros, e ao Parque Nacional de Þingvellir, onde se vê a gigantesca falha tectônica que divide a ilha. Na fenda entre os paredões rochosos funcionou, em 930, o primeiro parlamento do mundo.

O lago glacial de Jökulsárlon solta blocos de gelo como este, que parece um urso dando um abraço (SameSame Photo)

Foi em 874 que chegaram à ilha os primeiros vikings noruegueses. Depois deles, a maior influência genética do povo islandês vem da Dinamarca, que dominou o país entre 1380 e 1944. Mesmo após conquistar a independência tardia, a Islândia continuou isolada geograficamente e culturalmente, vivendo da pesca e da agricultura. A cerveja, por exemplo, era proibida até 1989, para que não abalasse o consumo tradicional do destilado brennivin. A partir dos anos 1990, o pequeno país nórdico abriu sua economia e meteoricamente se tornou um dos mais ricos do mundo. Com a mesma velocidade, o castelo ruiu. A crise econômica de 2008 evidenciou os erros da política financeira, quebrou bancos e desvalorizou abruptamente a moeda, a coroa islandesa. Até as lojas do McDonald’s e Pizza Hut fecharam. Com os preços descendo das alturas escandinavas, viajar para lá voltou a ser viável. Mas aí veio o vulcão com nome de palavrão, cancelando voos e afugentando turistas. Endividado mas disposto a recuperar a lotação das aeronaves, o governo reagiu investindo 5,5 milhões de dólares no setor, e os visitantes voltaram.

Tanto a história quanto a realidade islandesas podem ser conhecidas ao viajar de carro pelo sul da ilha. Foi o que fizemos, usando como base o aconchegante Hotel Rangá, em Hella, único quatro estrelas da ilha. Em junho, a cidadezinha de Hafnarfjörður se agitava com um festival viking que simulava batalhas e danças. Adiante, o Museu de Skógar, localizado na vila de mesmo nome e vizinho de uma das muitas cachoeiras que despencam de paredões, preserva casas seculares. Feitas de pedra, são cobertas por plantas que formam “telhados verdes”, ideais para manter aquecida a temperatura interna. A ausência de árvores assusta. A colonização predatória e as erupções de vulcões mais ameaçadores que o Eyjafjallajökull fizeram com que o verde da ilha se restringisse, hoje, aos arbustos, pastos para ovelhas e flores que só no veranico colorem vilarejos charmosos como Vík. O lugar é ideal para observar o mar e o voo das aves do alto dos abismos de 120 metros de Dyrhólaey.

Iceland, a terra do gelo, faz jus ao nome quando exibe, no extremo sudeste da ilha, o glaciar de Vatnajökull, massa de gelo que ocupa 8% do país e cuja espessura ultrapassa 1 quilômetro. O braço que beira a estrada em Skaftafell fica dentro do maior parque nacional, onde um camping serve como ponto de partida para trekkings sobre o gelo, exigindo grampos nas botas. Formado pelo degelo de outro braço do glaciar, o lago de Jökulsárlon parece mais surreal. Icebergs de formas curiosas descem por um riacho até desaguar na praia, a apenas 100 metros dali. Blocos de gelo boiam entre as ondas e vários fragmentos descansam, como conchas feitas de cristal, sobre a areia preta vulcânica.

O tour pelo chamado “círculo dourado” turístico inclui a visita à Gullfoss, uma espécie de pequena Foz do Iguaçu com cataratas de mais de 30 metros: do ladinho de Reykjavík (SameSame Photo)

O que eu não sabia era que Reykjavík, a capital onde vivem 120 dos 300 mil habitantes da ilha, era tão pulsante nos fins de semana. Na avenida principal, a Laugavegur – onde fica o bem localizado hotel Room With a View –, assim como nos arredores, tudo estava movimentado: os cafés, as livrarias, os museus, as galerias de arte, o mercado de pulgas, as praças, as ruas com sobradinhos de telhados coloridos. As vitrines das lojas de roupa vintage, como a Rokk Og Rósir, refletem o ambiente fashionista, evidente nos trajes dos jovens quando a noite chega – no relógio, não no céu. Babados e roupas de camponesas fazem o estilo das meninas. “A última moda entre os rapazes é vestir todo tipo de gravata”, explicou o vendedor Sigurður Birgisson, 23 anos, usando um bigodinho das antigas. Como os mais de cinquenta bares e casas noturnas não cobram entrada e permitem que se saia com o copo na mão, a temperatura sobe à medida que as pessoas bebem, fazem amizade e tropeçam de bar em bar – muitos deles com boa música ao vivo. A luz do dia brilhava pelas janelas do bar Boston quando a DJ Rósa Sigríðardóttir subia nas picapes e praticamente se jogava em cima de uma amiga, a artista plástica Berglind Hlynsdóttir, na minúscula pista de dança. “Estávamos hibernando em casa há meses, não víamos a hora de chegar o verão”, comemora Berglind. Sem hora para acabar às sextas e aos sábados, a noitada de Reykjavík só sossega depois das 7 da manhã – mesmo durante o inverno.

Com tanta gente trocando o dia pela noite, os hotéis investem em cortinas negras que permitam blecaute nos quartos – é o caso do Loftleidir, com vários quartos decorados por artistas locais. O antídoto para a ressaca do dia seguinte é um só: as sete piscinas públicas, que aproveitam a água quente farta em banheironas coletivas com temperaturas de 36 a 44 °C. Antes ou depois do banho, o entretenimento urbano é garantido. Do cais do porto partem tours para observar baleias e pássaros típicos, como os simpáticos puffins. É ali, no despojado restaurante Sægreifinn, que o cozinheiro Kjartan Halldórsson serve espetinhos de baleias. Os gigantes do mar também podem ser degustados em forma de sushi, assim como os cavalos locais, ou em pratos elaborados, como também acontece com os puffins. Para se deleitar com a mais premiada cozinha islandesa, o destino é o Vox, restaurante que defende o manifesto da Nova Cozinha Nórdica e só utiliza ingredientes da região. Depois da comilança e dos passeios, moradores e visitantes de Reykjavík voltam aos bares. A vida noturna do ambiente urbano se mostra tão selvagem quanto as paisagens de seus gêiseres, glaciares e vulcões. Deixei a Islândia sem ver o vulcão e percebendo que a crise é uma boa oportunidade para os viajantes. E tive a melhor surpresa ao encostar no balcão para tomar uma saideira no bar Boston, a 1 hora da madrugada de uma segunda-feira. Quem estava ao meu lado, se jogando na balada? Acredite se quiser: era a Björk.

 

INFO:

REYKJAVÍK, Room With a View – Laugavegur 18, tel. (354) 896-2559, www.roomwithaview.is; Hotel Loftleidir – Við Hlíðarfót, tel. (354) 444-4000, www.icelandairhotels.com; Vox Restaurant & Bistro – Hilton Reykjavík Nordica, tel. (354) 444-5050, www.vox.is; Sægreifinn, Geirsgata 8, tel. (354) 553-1500; Boston Bar, Laugavegur 28b, tel. (354) 517-7816; Rokk Og Rósir – Laugavegur 17; Blue Lagoon – 240 Grindavík, tel (354) 420-8800, www.bluelagoon.com; ÞingvellirNational Park – 801 Selffoss, tel. (354) 482-2660, www.thingvellir.is; HELLA, Hotel Rangá – Suðurlandsvegur 851, tel. (354) 487-5700, www.hotelranga.is; www.visiticeland.com

Em busca da vera Pizza

Ela tinha o tamanho de um prato, e sua massa com altura de 1 centímetro era coberta apenas por molho de tomate e um tiquinho de alho e orégano. Não havia uma mísera fatia de queijo, pepperoni, nada que colorisse ou enchesse os olhos. “É só isso?”, perguntei a Eugenio Lorenzano, o Gegê, simpático guia que apresentava Nápoles ao grupo. Éramos seis comilões na mesa da Trianon, uma pizzaria do bairro de Forcella fundada em 1923 e lotada em plena hora do almoço de sexta-feira. “Sim, é a tradicional marinara”, respondeu o italiano, falando o bom português com o qual já conduzira brasileiros como o escritor Jorge Amado e o cineasta Nelson Pereira dos Santos.

Dei a primeira garfada. Incrível foi notar como minhas papilas gustativas jamais tinham percebido tão bem o sabor daquele despretensioso disquinho atomatado. Eu estava diante de um raro exemplar de pizza liberto das fartas coberturas – muitas vezes, deliciosas – às quais me acostumei em cidades como São Paulo e Nova York. O equilíbrio entre a crocância e a morbidez da massa era tal que alguns vizinhos preferiram dobrá-la para comer com as mãos. “Quanto mais simples a pizza, mais difícil fazê-la saborosa”, me explicaria, dias depois, David Bianchini, dono de uma pequena pizzaria vizinha do Coliseu de Roma, a Li Rioni – outro despojado templo da gastronomia onde eu forraria meu estômago durante uma viagem por sete cidades.

Nápoles, Sorrento, Roma, Florença, Pisa, Trieste, Milão. Em cada parada experimentei pelo menos um pedaço de pizza. Mais que me deliciar com um dos meus pratos favoritos, eu tinha uma missão ousada: investigar a receita de sucesso de uma das mais arrebatadoras criações da cozinha italiana.

 

Pizza de margherita em Nápoles (SameSame Photo)

Jamais subestime um pizzaiolo egípcio

Entrei sozinho em uma portinha do restaurante Boccanegra, de Florença, e logo pedi uma margherita. Como o movimento estava tranquilo, encostei na bancada para conversar com o pizzaiolo enquanto tomava uma taça de vinho. Mas, que decepção, o chef não era napolitano (eu achava que esta era uma condição imposta pelo RH de qualquer pizzaria…). Mohamed Medani contou que vinha do Egito e tentou me convencer: “Fazemos isso bem porque nosso povo foi o pioneiro nesta arte, que existe desde os tempos dos faraós”. Poucos minutos depois, a criação de Mohamed saiu do forno a lenha com o queijo derretendo em meio ao cornicione, a borda alta. Calei e consenti: estava ótima. Cinco mil anos depois de seus ancestrais criarem tanto o forno quanto a massa de pão hoje usada na pizza, o jovem egípcio provava que podia superar seus concorrentes de Nápoles – que só por volta do ano 1000 viriam a assar discos de massa chamados de picea, mas que seriam os grandes difusores, graças às migrações da primeira metade do século 20, da pizza tal como o mundo conhece hoje.

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Prefira ingredientes do sopé do vulcão

Atenas, Lima, Istambul, São Paulo, conformem-se. Seus restaurantes nunca farão a melhor pizza do mundo porque eles não estão em Nápoles. OK, foram os gregos (trazendo seus pães pita) que fundaram a bela cidade à beira da baía há quase 2.700 anos. Se não fosse o Peru, a Europa nunca teria conhecido o tomate, que se deu tão bem nas terras quentes do entorno do vulcão Vesúvio, vizinho de Nápoles. E sem os búfalos indianos presenteados pelo sultão otomano Ahmed VI para o rei de Nápoles Carlos III (que tinha assinado a paz com os turcos), por volta do ano 1750, os campos da Campanha napolitana não produziriam a mozzarella original, a de búfala (só mais tarde o queijo das vacas entraria em cena). E há, ainda, o azeite, fundamental na culinária mediterrânea. “A conjunção única de ingredientes locais faz ser especial o sabor das pizzas de Nápoles”, orgulha-se Tonino Grieco, um napolitano radicado em São Paulo e sócio da Veridiana, pizzaria que oferece workshops a pizzaiolos aprendizes e onde eu havia comido na véspera da viagem. Embora seja possível importar azeites italianos, a chamada farinha grano duro 00 e os famosos molhos de tomate San Marzano de qualquer ponto do planeta, outros ingredientes como a mozzarella de búfala e o queijo fior di latte (feito com o melhor leite de vaca) da Campanha só podem ser consumidos frescos ali mesmo, em Nápole

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Tradições existem para ser respeitadas

Você espera uma hora na fila, do lado de fora do restaurante, mesmo em um dia de chuva, e, quando senta à mesa, só há dois sabores no cardápio: marinara e margherita. Para que mais? Com fama de melhor pizzaria de Nápoles, a L’Antica Pizzeria Da Michele existe desde 1870, fica entre aquelas típicas ruelas repletas de roupas nos varais e recebeu até Julia Roberts para as filmagens de Comer, Rezar, Amar. As mais de mil pizzas vendidas diariamente comprovam que pizza boa é pizza básica. Não precisa de invencionices como as massas grossas das fast-food americanas, bordas recheadas, massas fritas, vendas por metro, ketchup ou coberturas pesadas como a da brasileira frango com Catupiry. A simplicidade da versão margherita explica por que o prato agrada dos pobres ao nobres. Ela é feita com mozzarella ou fior di latte, tomate das fraldas do Vesúvio e manjericão, reproduzindo as cores branca, vermelha e verde da bandeira italiana. Concebida em 1889 para homenagear a recém-unificada Itália durante a visita do rei Humberto I e da rainha Margherita à cidade, acabou batizada de Regina Margherita e viria a se tornar a mais emblemática das pizzas do planeta.

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Melhor amassar com as mãos sobre o mármore

Parecia coisa de criança. Em cada pizzaria a que eu chegava, passava um tempo ali, atrás dos vidros nos quais sempre se exibem os pizzaiolos, observando cada detalhe do trabalho artesanal. Também egípcio, o bigodudo Adel El Rify, da Li Rioni romana, contou que preparava a massa duas horas antes e a deixava ali, na forma de uma bola imperfeita, descansando. Só quando chegava o pedido ele pegava uma porção e amassava, com um rolo, na bancada de mármore. “Acho o mármore mais higiênico que a madeira”, contou ele, que moldava o círculo, pintava com o molho e jogava a cobertura em apenas três minutos. Vi pizzaiolos mais puristas preferindo amassar com as mãos. Outra polêmica diz respeito ao azeite: os ortodoxos são radicalmente contra colocá-lo antes de a massa ir ao forno. Quando nossa pizza romana ficou pronta e veio à mesa, uma surpresa: “É melhor que a de Nápoles“, votaram três dos seis presentes. Os outros três preferiam a maior morbidez da napolitana. Alguns romanos se atrevem, mesmo, a dizer que fazem pizza melhor que os napolitanos. Ao menos em nossa pequena disputa caseira, deu empate.

Adapte-se e poderá conquistar o mundo

Como legítima cidadã do mundo, a pizza vem assimilando adaptações aonde quer que vá. Mesmo na Itália pode-se comê-la em versões com aquela massa grossa típica das tortas, caso das pizzetas, ou em fatias – como experimentei em Sorrento, Trieste e em Pisa (cujo nome, não custa lembrar, nada tem a ver com o prato…). Se no berço italiano o formato que predomina é pequeno, o que a popularizou mundo afora tem tamanho grande, fatiada, escolhida em menus com dezenas de sabores e ingredientes locais. Mesmo em Milão, onde terminou minha epopeia gourmet, encontrei combinações raras – como a ortolana, coberta por queijo e vegetais grelhados. Em São Paulo, a expressiva colônia italiana consagrou a pizza como um prato de consumo noturno, especialmente por famílias aos domingos (e com um queijo mussarela que nada tem a ver com o italiano). “Para cair no gosto do público do Rio de Janeiro, tivemos de acrescentar queijo à maioria dos sabores”, conta o diretor de operações Vinícius Abramides, da premiada pizzaria Bráz – onde comi na volta da viagem (viu como gosto de pizza?) e que sedia, todo mês de junho, o Festival Fora de Série, com ingredientes e preparos tipicamente napolitanos. Seja original como em Nápoles ou adaptada a outras culturas, a pizza conquistou o planeta como nenhum outro prato, em uma expansão que faria inveja ao Império Romano.

 

INFO – NÁPOLES: L’Antica Pizzeria Da Michele – Via Cesare Sersale 1/3, tel. (+39 81) 553-9204, www.damichele.net; Trianon – Via Pietro Colletta 42/44/46, tel. (+39 81) 553-9426 / ROMA: Li Rioni – Via SS. Quattro 24, tel. (+39 06) 7045-0605 / FLORENÇA – Boccanegra – Via Ghibellina 124/R, tel. (+39 055) 200-1098, www.boccanegra.com; SÃO PAULO: Bráz – Rua Graúna 125, Moema, tel. (+55 11) 5561-0905,  www.casabraz.com.br; Veridiana – Rua José Maria Lisboa 493, Jardins, tel. (+55 11) 3559-9151, www.veridiana.com.br

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: ENIT – Agência Nacional Italiana de Turismo (www.enit.it); SIT Italy (www.sit-italy.com); Danilo Morales (www.pasionitaliana.com); guia Eugenio Lorenzano (gege.lorenzano@inwind.it)

Nos bastidores dos tablados de flamenco em Madri

Os olhos miram-se imóveis no espelho, queixos altos, mãos na cintura. Quando a professora bate palmas e o senhor na cadeira ao lado começa a dedilhar as cordas do violão, o grupo de alunas bailaoras arregaça as saias e passa a sapatear sincronicamente sobre saltos de 5 centímetros cravejados de pregos. Demarcado por um complexo ciclo rítmico de 12 compassos, o cruzar de pernas é acompanhado pelo balé aéreo de mãos e braços, que se dobram leves como penas. Mesmo compenetrada, a carioca Tatiana Bittencourt mantém o sorriso no rosto enquanto rodopia e faz dançar no ar seu xale, aqui chamado de mantón. Professora de dança no Rio de Janeiro, ela não disfarça a satisfação ao bailar na Amor de Dios, principal escola de flamenco de Madri e do mundo, onde circulam diariamente mil alunos, metade deles estrangeiros. “Esperei dois anos para voltar para cá e passar dois meses me aperfeiçoando”, contaria mais tarde. Em sua quarta viagem de imersão no universo flamenco da capital da Espanha, Tatiana se integrou a um batalhão de dançarinos dedicados a aprender ali, com 30 professores, as técnicas da principal expressão musical espanhola.

Naquele sábado de fevereiro, Tatiana tinha pressa. Ao fim da aula, caminhou rapidamente pelos corredores, escutando os sons de castanholas, cajóns e guitarras flamencas que ecoavam das 15 salas. Corria para não se atrasar para a apresentação de Farruquito. Você pode não conhecer Farruquito, um dos grandes nomes do bailado flamenco, ou o Tomatito, lenda viva dos violões. Mas naquela noite, madrilenhos e turistas admiradores de flamenco se dividiam para assistir às performances dos dois. Farruquito dançaria no Casa Patas, uma fundação composta por conservatório e restaurante que tem, nos fundos, um tablao, o tablado para apresentações de flamenco. Já Tomatito fecharia a série de cinco noites do 19º Festival Flamenco Caja Madrid (www.obrasocialcajamadrid.es), tocando para 1.100 pessoas na casa de espetáculos Teatro Circo Price, pertinho dos Museus do Prado e Reina Sofía. Em uma evidência de como o flamenco tem agitado o circuito cultural de Madri, o Guía del Ocio (www.guiadelocio.com/madrid), semanário de entretenimento vendido nas bancas de jornal, listava 18 apresentações naquela semana. E entre 4 de junho e 2 de julho, um festival ainda maior, o Suma Flamenca (www.madrid.org/sumaflamenca), deve mobilizar a cidade.

Aula de flamenco na escola Amor de Dios (fotos de Luis Maximiano)

PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE

Os estudiosos acreditam que o flamenco nasceu no século 15, na região de Andaluzia, sul da Espanha, e que a palavra venha de felag mengu, “camponês fugitivo” em árabe. Seria uma fusão da música dos ciganos que vinham do Norte da Índia com a dos mouros e judeus que já habitavam a região. Antes uma manifestação regional, ele só adquiriu o formato de performance artística no século 19, com a difusão de seus três pilares unidos: o cante, canções profundas que fazem lembrar uma prece muçulmana; o toque, melodia comandada por um violão especial, a guitarra flamenca; e o baile, a dança vigorosa que se assemelha a uma incorporação visceral. Em novembro de 2010, a Unesco o reconheceu como Patrimônio Imaterial da Humanidade. “Este título vai contribuir para que mais gente descubra esta arte viva”, comemora Carmen Linares, uma das divas do cante, que se apresentou no festival de fevereiro. Nascida no sul do país há 60 anos, ela se mudou para Madri em 1965 para trabalhar com flamenco. “Na Andaluzia está o berço, mas aqui se multiplicam os tablaos, os espetáculos, o público”, conta.

O movimento das casas flamencas evidencia essa retomada. Um exemplo é a recente reforma do Villa Rosa, na Plaza Santa Ana, um dos míticos cafés cantantes que sediaram a fase áurea do flamenco entre o fim do século 19 e as primeiras décadas do século 20, segundo o “flamencólogo” José Blas Veja, autor de 50 Años de Flamencologia – e proprietário do sebo Librería del Prado, pertinho da escola Amor de Dios. Preservando os belos azulejos de 1928, o Villa Rosa, que funcionava como discoteca nos últimos anos, reabre agora como restaurante com tablao. Já o Cardamomo, um bar popular proximo à Puerta del Sol, há dois anos incorporou shows flamencos em seu tablao, deixando as baladas para depois da meia-noite. Aos domingos, o Cardamomo se transforma para receber o público infantil com o espetáculo teatral El Bosque Flamenco – que já teve na plateia até a princesa das Astúrias, Letizia Ortiz, e suas duas filhas.

“Esta renovação é fundamental”, acredita o cantaor Miguel Poveda, revelação da Catalunha que se tornou um galã do flamenco e abriu o festival Caja Madrid. “Muitos ídolos morreram, outros talentos desistem porque esta é uma carreira difícil, especialmente em tempos de crise, mas temos de resistir.” O baixo-astral que assola parte da Europa em função dos problemas econômicos, por sinal, parece até combinar com muitas das letras flamencas, que choram dores de amor e injustiças sociais. Poveda chega a fazer sete shows por mês, mas lamenta não ganhar dinheiro como se cantasse música pop. “Com o flamenco eu nunca vou lotar uma Plaza de Toros, como faz o Julio Iglesias”, compara outro cantor do festival, o madrilenho Juan Valderrama. “Mas o flamenco é a voz do povo, tem um público fiel.” Filho do casal de cantaores Juanito Valderrama e Dolores Abril, ele acredita que o flamenco é mais complexo e nem sempre triste como o fado português ou o tango argentino. “O flamenco nasceu nesta eterna terra de trânsito que é a Espanha, e belisca todos, do Oriente ao Ocidente.”

TEM DUENDE NO TABLADO

Primeiro, entram os três violeiros. Depois, sobem ao palco os três cantaores e palmeros, demarcando o canto com as palmas das mãos. Quando as três bailaoras e o bailaor começam a bater os pés no palco, tem início um ritual que parece deixá-los em transe. Tocadores de olhos fechados, cantores com cara de sofrimento e o corpo de baile se expressando de forma dramática parecem cumprir o objetivo de despertar o “duende”. Assim a comunidade flamenca denomina a sensação inebriante causada pela harmonia no tablao, que emociona tanto os artistas quanto o público – como foi possível perceber em um noite lotada de estrangeiros, alguns às lágrimas, no Corral de la Morería. Fundado em 1956 e bem localizado na rua do imponente Palácio Real, o restaurante flamenco tem paredes cheias de quadros de antigas apresentações e de outra paixão espanhola, as touradas. Conseguir uma mesa perto do palco é fundamental para bem aproveitar a uma hora e meia de espetáculo. Caso contrário, a vista acaba sendo prejudicada pela circulação dos garçons – que servem menus-degustação de 43 a 99 euros, mais os cerca de 40 euros de couvert artístico. Apesar de caro, vale a pena.

Apreciada pelos turistas, a fórmula dos restaurantes com tablaos típicos de Madri consagrou também o Café de Chinitas, o Las Carboneras, o Clan e o El Corral de La Pacheca. Madrilenhos mais interessados na música que na comida preferem ir direto ao ponto no Cardamomo e no Las Tablas. Mais raras, é verdade, são as peñas flamencas, rodas informais em que não é falta de respeito interagir, por exemplo, cantando e batendo palmas. Com sorte, os mais notívagos podem ser convidados a descer ao porão do Candela, um bar underground onde a boemia flamenca se apresenta de improviso. Mas, com tamanha oferta, como decidir a qual tablao ir? “Mais importante que os lugares são os artistas”, ensina Joaquín San Juan, diretor da Amor de Dios. Como as casas revezam seu casting, é preciso checar a programação nos sites. “Se o elenco for desconhecido, pergunte para um amigo que entende”, recomenda. O próprio mural da escola, com dezenas de folders e cartazes de eventos, pode ser um ponto de partida.

TERRITÓRIO FLAMENCO

Criado em 1952, o Centro de Arte Flamenco y Danza Española Amor de Dios foi batizado com o nome da rua de um de seus primeiros endereços, localizado a 100 metros do atual. Fica sobre os corredores repletos de peças de jamón e cabeças de porco do Mercado de Antón Martín, mesmo nome do bairro, e acabou sendo responsável pela transformação de seu entorno em uma zona flamenca. Por todos os lados há lojas de sapatos – um par pode custar 160 euros – e roupas, como os longos vestidos cheios de babados e frente mais curta para mostrar os pés da bailaora. Em lojas como a Lola Almela, a brasileira Talita Sánchez gastou 500 euros em acessórios como flores de cabelo e habanicos (leques) para levar para suas alunas no Japão. “Moro em Madri mas rodo o mundo com o flamenco”, conta ela, cuja família organiza no Brasil, há dez anos, o Festival Internacional de Flamenco (www.festivalflamenco.com.br), que costuma acontecer em São Paulo e São José dos Campos.

É perto da espetacular Plaza Mayor, no entanto, que fica a loja que reúne a maior oferta de artigos do gênero. Na El Flamenco Vive, os irmãos David e Alberto Martinez vendem 2 mil títulos entre CDs e DVDs, mil livros, roupas, postais e guitarras flamencas de dez fabricantes. Se a intenção for investir nas cordas, nada melhor que agendar uma visita ao ateliê Mariano Conde, que nasceu como Conde Hermanos em 1915, para acompanhar a confecção do mesmo violão comprado por Tomatito e por Paco de Lúcia, maior divulgador mundial da guitarra flamenca. Comparado ao violão clássico, o de flamenco tem uma caixa mais estreita para intensificar os sons graves e metálicos. Depois de levar até quatro meses para ser confeccionada, uma peça pode custar 15 mil euros.

FLAMENCO FUSION E À LA BROADWAY

Exímio tocador de guitarra flamenca radicado em Madri, o brasileiro Fernando de La Rua é um dos agitadores deste circuito cultural. Além de se apresentar em tablaos e escolas, ele promove na capital espanhola o Projeto Brasil Flamenco, idealizado por sua mulher, a bailaora brasileira Yara Castro. Trata-se de encontros entre artistas espanhóis e brasileiros – como Tatiana Bittencourt, que dançava na Amor de Dios no início desta reportagem. Seu trabalho representa uma corrente contemporânea chamada de flamenco fusion. “Minha mão direita usa as técnicas do flamenco, mas a esquerda é bem brasileira”, brinca ele, que em fevereiro apresentou no pequeno Artebar La Latina o repertório de seu CD, com uma guitarra flamenca repleta de influências que vão do jazz ao chorinho. Em Madri ouve-se misturas de flamenco com rock e até com rap. Mas há espaço também para os musicais à la Broadway, com coreografias ensaiadas e bem diferentes do improviso dos tablaos. O espetáculo España Baila Flamenco costuma lotar os 300 lugares do Teatro Muñoz Seca, ao lado da movimentada Gran Vía, com 25 bailaores em cena – entre eles o brasileiro Fábio Rodriguez e a lendária Sara Lezana, que na década de 1960 contracenou com o bailaor Antonio Gades, o “Pelé” do flamenco, no cinema. Outras duas montagens da mesma companhia, Ballet Flamenco de Madrid, estão previstas para maio, em mais uma prova de que não há melhor lugar para se emocionar com este Patrimônio da Humanidade do que em Madri.

INFO: MADRI

+34 91

Artebar La Latina – Calle San Bruno 3, tel. 61 511-5627; Ballet Flamenco de Madrid – tel. 522-7903, www.balletflamencodemadrid.com; Café de Chinitas – Calle Torija 7,
tel. 559-5135, www.chinitas.com; Candela – Calle Olmo 2, tel. 467-3382; Cardamomo – Calle Echegaray 15, tel. 369-0757, www.cardamomo.es; Casa Patas – Calle Cañizares 10, tel. 369-0496, www.casapatas.com; Centro de Arte Flamenco y Danza Española Amor de Dios – Calle Santa Isabel 5/1º, tel. 360-0434,
www.amordedios.com; Clan – Calle Ronda de Toledo 20, tel. 528-8401, www.salaclan.com; Corral de la Morería – Calle Morería 17, tel. 365-8446, www corraldelamoreria.com; Corral de la Pacheca – Calle Juan Ramón Jiménez 26, tel. 353-0100, www.corraldelapacheca.com; El Flamenco Vive – Calle Conde de Lemos 7, tel. 547-3917,
www.elflamencovive.es; Las Carboneras – Plaza del Conde de Miranda 1, tel. 542-8677, www.tablaolascarboneras.com; Las Tablas – Plaza España 9, tel. 542-0520,
www.lastablasmadrid.com; Librería del Prado – Calle del Prado 5, tel. 429-6091, www.libreriadelprado.com; Lola Almela – Calle Duque de Fernán Nuñez 4, tel. 429-2897,
www.flamencololaalmela.com; Mariano Conde Guitarras – Calle Amnistía 1, tel. 521-8155; Villa Rosa – Plaza Santa Ana 15, tel. 521-3689

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS/SPECIAL THANKS TO: AECID Centro Cultural de España en São Paulo, www.ccebrasil.org.br; Cultyart (Festival Caja Madrid),

www.cultyart.com; Mirasierra Suites Hotel, Calle Alfredo Marqueríe 43, tel. 727-7900, www.jubanhoteles.com