O império contra-ataca

Vinte e oito retratos de mulheres e homens comuns vestindo trajes andinos tradicionais fizeram sucesso entre limenhos e estrangeiros, de abril a setembro, que visitaram a MATE, galeria que o fotógrafo Mario Testino abriu em Lima há um ano e meio. Numa alusão provocativa aos ensaios de alta costura que costuma produzir para publicações como Vanity Fair e Vogue, o peruano radicado em Londres batizou a mostra de “Alta Moda”. “Voltei às raízes para explorar a herança do meu país e mostrar ao mundo a riqueza de nossa cultura”, afirmou, satisfeito pelo sucesso da exposição tê-la feito migrar para Nova York, onde vai decorar as salas do Instituto Espanhol Rainha Sofia até 29 de março. A missão de Testino parece estar sendo cumprida: o mesmo requinte da vestimenta dos camponeses de origem inca que ele fotografou na cidade colonial de Cusco ao longo de cinco anos pode ser notado no artesanato e na gastronomia do país, o que tem consagrado o Peru como o destino latino favorito de viajantes em busca de experiências legítimas.

 

Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Plaza de Armas (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Localizada a 1 hora de voo de Lima, Cusco tem aquele charme de cidades coloniais como Cartagena e Ouro Preto. Sua Plaza de Armas rodeada por sobrados avarandados típicos da arquitetura espanhola foi clicada por 2 milhões de turistas que ali chegaram em 2012 – mais que o dobro de oito anos atrás. Trajes típicos tais e quais aqueles registrados por Mario Testino continuam sendo orgulhosamente vestidos pela população. No entorno da cidade, que foi a capital do império inca, o mais importante da América do Sul entre 1438 e 1533, o chamado Vale Sagrado exibe uma série riquíssima de sítios arqueológicos, entre os quais se destaca o mais famoso do continente, Machu Picchu. Mesmo sem shopping-centers, parques temáticos ou atrativos artificiais,  Cusco vê sua infra-estrutura de turismo ganhar cada vez mais novos hotéis, restaurantes e museus. Com uma peculiaridade: a maioria dos investimentos foca no turismo de primeira linha.

 

Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Hotel Monastério (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

É na hotelaria que essa vocação para atender o viajante exigente fica mais evidente. Em 2013,  o Palácio del Inka, que surgiu nos anos 1980 sob a bandeira Libertador como o primeiro cinco-estrelas da cidade, entrou para a rede Luxury Collection Hotel depois de uma reforma de 15 milhões de dólares. Com quadros originais da famosa Escuela Cusqueña nas paredes, tetos pintados à mão e muros incas originais em sua estrutura, ele pertence ao seleto grupo de seis hotéis top que se destacam entre as 94 hospedarias de Cusco. “A elitização do turismo no Peru começou há apenas 10 anos e aconteceu ao mesmo tempo em que as pessoas passaram a valorizar os destinos mais autênticos”, explica Patricio Zucconi Astete, veterano do turismo local. Ele gerencia atualmente o Miraflores Park, de Lima, unidade da rede de luxo Orient-Express, que detém na região de Cusco nada menos que 4 unidades para hospedagem de alto nível.

 

Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Ceviche típico (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

No primeiro semestre de 2013, uma comitiva de 60 hóspedes da TV Globo escolheu o mais pomposo deles, o Monastério, um antigo mosteiro do século 17, para abrigar o elenco e a equipe de apoio da novela Amor à Vida. Nos jantares, Paolla Oliveira e seus colegas puderam assistir às apresentações de ópera que tinham no elenco Angela Merina, respeitada como melhor soprano do Peru. Mais moderno, o vizinho Palácio Nazarenas conta com habitações com chão do banheiro aquecido e oxigênio para amenizar o desconforto da altitude – Cusco está 3400 metros acima do nível do mar, 2500 metros mais alta que São Paulo. Único hotel que desfruta do privilégio de ficar a 20 passos da entrada de Machu Picchu, o Sanctuary Lodge costuma ter uma taxa de ocupação invejável, com média anual de 80 por cento (o que significa que mesmo na temporada das chuvas, de novembro a março, o movimento continua intenso). Mas é na viagem de trem de luxo entre Cusco e Machu Picchu que está o créme de la crème da grife: a jornada dá direito a jantar, vinhos e espumantes, aulas de pisco sour e música ao vivo no trem Hiram Bingham ­– batizado em homenagem ao americano que, em 1911, descobriu Machu Picchu.

 

Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Trem de luxo do Orient-Express (Foto Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Vem das relíquias encontradas pela equipe de Bingham, por sinal, outra das boas novidades de Cusco: o museu Machu Picchu Casa Concha. Inaugurado em 2011, ele conta com 366 peças arqueológicas incas que estiveram por um século no Museu de História Natural de Peabody, da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. E soma-se a outros museus de boa curadoria da cidade, entre eles o de Arte Precolombino, que pertence ao grupo do Museo Larco, de Lima, dono da mais fina coleção de objetos de cerâmica, ouro e prata do Peru antigo. Suas peças inspiram o trabalho da designer de jóias  Maria Elena Guevara, proprietária da Inka Treasure, rede com nada menos que 9 joalherias em Cusco. “O Peru é o segundo maior exportador de prata do mundo, só perde para o México”, explica. “Temos o privilégio de trabalhar com a prata de melhor qualidade, além de pedras raras do país, como as de crisocola, a turquesa peruana”, conta a empresária, que já atendeu clientes como Bill Gates, Dalai Lama e Antônio Fagundes. Uma estátua de um guerreiro mochica que brilha em uma de suas vitrines e levou 3 meses para ser esculpida não sai por menos de 8.500 dólares.

 

Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Maria Elena, da Inka Treasure, e a estátua mais cara da loja (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Por preços menos salgados que os de São Paulo ou Rio de Janeiro, os bons restaurantes de Cusco são exemplos da gastronomia mais respeitada da América Latina na atualidade. Embora já seja sócio do Chicha, considerado o melhor restaurante da cidade, o embaixador da culinária peruana Gastón Acurio se prepara para abrir uma segunda casa em breve. Ele é o dono do Astrid & Gastón, de Lima, que em setembro renovou seus louros como o número 1 entre os 50 melhores da América Latina segundo os críticos da revista inglesa Restaurant. Hoje é difícil jantar sem reserva no Chicha, que tem esse nome em homenagem a uma bebida de origem inca, normalmente feita de milho fermentado. Uma vez à mesa, os comensais degustam receitas desenvolvidas com técnicas andinas e asiáticas. Os ceviches abrem o paladar para clássicos como o anticucho – ou espetinho ­– de coração de vaca e o lomo saltado, filé de carne frito no estilo chinês.

 

Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)
Chicha, restaurante de Gaston Acurio (foto de Adriano Fagundes, www.adrianofagundes.com)

 

Mas é no vestuário que os turistas – 126 mil deles vindos do Brasil, segundo dados de 2012 da PromPeru, órgão governamental que promove o turismo do país – investem seus soles com maior custo-benefício. É claro que os gorros, suéteres e cachecóis coloridos, como aqueles clicados por Mario Testino, podem ser encontrados em cada esquina com tecidos e preços populares. Quem visita lojas locais renomadas como a Sol Alpaca e a Golden Alpaca, no entanto, descobre que vale a pena pagar mais pelos raríssimos tecidos de vicunha ou de baby alpaca – esses feitos da lã dos filhotes de alguns dos bichos mais avistados nessas alturas dos Andes. “Um gorro de qualidade não vai custar menos que uns 50 reais, mas vale a pena”, atesta a advogada Thalita Rosa, que viajou com o namorado, o engenheiro Mateus Carmona, em junho. “Contratamos um motorista exclusivo para explorar os arredores, comemos muito bem e ficamos fascinados com a riqueza das tradições do Peru”, conta Thalita, que voltou de viagem com outra recordação mais que especial. Foi nas alturas do Wayna Picchu, a maior montanha diante de Machu Picchu, que Matheus lhe surpreendeu com um par de alianças e um pedido de casamento. E deixou a experiência de conhecer o Peru ainda mais inesquecível.

 

Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)
Foto Adriano Fagundes (www.adrianofagundes.com)

 

Para ver a reportagem como publicada na Veja Luxo, inclusive com fotos de Mario Testino, baixe o PDF.

 

SERVIÇO:

CHICHA: www.chicha.com.pe

GOLDEN ALPACA: Plaza de Armas, 151, tel. +51 84 25-1724

INKA TREASURE: www.incatreasure.com.br

MACHU PICCHU: www.machupicchu.gob.pe

MATE (LIMA): www.mate.pe

MIRAFLORES PARK HOTEL (LIMA): www.miraflorespark.com

MONASTÉRIO: www.monasteriohotel.com

MUSEU DE ARTE PRECOLOMBINO: www.map.museolarco.org

MUSEU MACHU PICCHU CASA CONCHA: www.cuscoperu.com

PALÁCIO DEL INKA: www.starwoodhotels.com

PALÁCIO NAZARENAS: www.palacionazarenas.com

SANCTUARY LODGE: www.sanctuarylodgehotel.com

SOL ALPACA: www.solalpaca.com

TREM HIRAM BINGHAM: www.orient-express.com

Renascida das ondas

Aconteceu em 2547. Uma onda de 30 metros de altura ergueu-se no litoral do antigo Reino do Sião e avançou terra adentro. Destruiu casas, afogou pessoas, engoliu o que viu pela frente — e de forma tão avassaladora que pareceu deixar o lugar irrecuperável. Descrito assim, parece até uma lenda remota. Mas o ano de 2547 da era budista equivale ao 2004 do calendário gregoriano ocidental, e o velho Sião nada mais é que o atual Reino da Tailândia, onde morreram 8 mil vítimas do gigantesco tsunami do Oceano Índico – entre eles, 2 mil turistas de 16 países.

 

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Nove anos se completaram no último dia 26 de dezembro de 2013 – ou de 2556, como preferem os súditos do rei Bhumibol Adulyadej, no trono desde 1946. E, para surpresa dos visitantes que têm desembarcado anualmente no antes devastado litoral sul do país (mais de 5 milhões de pessoas, um recorde nunca atingido antes da tragédia), a região parece absolutamente recuperada. Sua nova face é fundamental para que a Tailândia, que já recebe 19 milhões de estrangeiros por ano, dobre até 2016 os dividendos trazidos pelo turismo.

Busquei evidências dessa renovação desde que pousei, em junho, vindo da capital Bangcoc, no aeroporto de Phuket, principal base para explorar as idílicas praias tailandesas. Já no caminho para o hotel percebi que a cidade que me recebia com sorrisos não mais chorava seu passado triste. Os pontiagudos templos e imagens de Buda se exibiam aqui e ali, turistas chineses e americanos aproveitavam os preços baratos do comércio para encherem suas sacolas com roupas e artesanato nos arredores da agitada praia de Patong, outdoors anunciavam brutas lutas de muay thai e delicadas apresentações de dança e música típicas.

 

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Em meio a muitas obras pelas ruas, a hotelaria se renovou de forma a não preservar qualquer resquício dos tempos de abalo – quando seis da cada dez hotéis desapareceram em praias como Khao Lak e Ko Phi Phi (esta última celebrizada mundialmente pelo filme A Praia, protagonizado por Leonardo Di Caprio). Com cerca de 50.000 leitos na região de Phuket, os hotéis disputam qual é o mais cênico e original, qual ostenta mais luxo, qual traduz melhor a alma exótica e tropical da Tailândia.

 

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No alto dos abismos da Baía de Kamala, o staff do exclusivíssimo hotel Paresa nos recebeu com água de coco gelada e toalhinha refrescante no check-in – além de 270 graus de visão do Mar de Andaman. Seu azul se confundia com o das piscinas de vista infinita (presentes na maioria das 49 acomodações, assim como as máquinas de café expresso e os tocadores de mp3). O spa, naturalmente, oferecia o que a Tailândia tem de melhor: suas massagens incríveis. E, em meio ao cenário vertiginoso avistado de qualquer parte, um conforto especial: estar a uma altura que tsunami algum alcançaria.

 

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O ambiente desse e do outro hotel chique que eu conheceria – o premiado The Sarojin, na província vizinha de Phang Nga – não esconde ter sido pensado especialmente para casais em lua de mel (7% dos turistas do país). No The Sarojin, tudo inspira romantismo. A começar da iluminação dos restaurantes: um deles tem pé-na-areia e apresentações culturais noturnas à luz de tochas, outro fica colado a um bar com degustações de surpreendentes vinhos tailandeses. Os terraços contam com piscinas privadas. E, orgulho nacional, a gastronomia tailandesa mescla com perfeição os sabores salgado, doce, azedo e picante em receitas que usam e abusam de curries, coco, capim-limão – vale a pena investir em algumas das aulas de culinária oferecidas nos hotéis.

 

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Por mais simpáticos que sejam os funcionários dos hotéis e restaurantes, eles jamais se arriscam a falar a palavra “tsuna…”. Por culpa do dito cujo, todo mundo perdeu alguém querido. Os turistas respeitam. E deixam para trocar ideias sobre os bons prazeres dos mergulhos nas ilhas Similan e Surin, as escaladas em rocha em Krabi, os passeios de caiaque e escuna entre as cavernas marinhas e altas rochas da Baía de Phang Nga (onde fica a ilhota onde foi gravado 007 Contra o Homem com a Pistola de Ouro) ou os passeios em lombo de elefantes, animal reverenciado nacionalmente por ser símbolo de sabedoria e força. Não são poucos os relatos, por sinal, desses mamíferos emitindo sons estranhos de alerta ou fugindo para o alto das montanhas horas antes da chegada do tsunami de 2547 – ops, de 2004 –, em uma suposta evidência de que teriam sensibilidade para captar com antecedência as vibrações de terremotos como os que originaram aquele tsunami.

 

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Quase uma década depois do susto, os elefantes do litoral tailandês caminham em paz e são bem treinados para divertir os turistas – o meu nem se importou de cruzar um riacho e me dar um belo banho. Nas ruas do centro ou nas vilas de pescadores, só o que faz lembrar a tragédia são os alto-falantes e placas que orientam rotas de fuga para o caso de – toc, toc, toc – algo parecido voltar a ocorrer. Em todos os dias em que viajei por ali, a única lembrança física que encontrei (além das reconstruções impecáveis da infraestrutura turística) foi um simplório memorial do tsunami erguido em torno de um barco policial que foi empurrado a quase 2 quilômetros da praia de Khao Lak.

Felizmente, do mesmo jeito que veio, a onda se foi. E as praias da Tailândia, agora voltadas para o futuro, continuam a encantar seus visitantes.

 

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MEMORIAL Única lembrança do tsunami de 2004 facilmente visitável a partir da praia da Khao Lak, o barco policial 813 Buretpadungkit foi empurrado a quase 2 quilômetros da praia. Hoje, diante dele, uma barraca despojada vende livros e exibe placas recontando uma das maiores tragédias da história recente da humanidade, que matou 230 mil pessoas em 14 países.

 

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ONDE FICAR   PARESA Resort de luxo localizado no alto do morro na Baía de Kamala, com visão panorâmica do mar e dois restaurantes. Incríveis piscinas de vista infinita. 49 Moo 6, Layi-Nakalay Road, Kamala Kratu, tel. +66/76 30-2000, paresaresorts.com   THE SAROJIN Térreo, de frente para o mar, o hotel cinco estrelas fica na Baía de Phang Nga e também conta com dois restaurantes. Fácil acesso para pontos de mergulho. 60 Moo 2, Kukkak, Takuapa, tel. +66/76 427-9004  

ONDE COMER RAYA THAI CUISINE Despojado restaurante familiar de comida típica tailandesa localizado em um sobrado de arquitetura sino-portuguesa. Capricha nos frutos do mar. 48 New Debuk Rd., Muang Phuket, tel. +66/76 23-2236  

ONDE PASSEAR SEA CANOE Passeios de barco e de caiaque feitos a partir de Phuket que exploram a Baía de Phang Nga e a região de Krabi. 125/461 Moo 5, T. Rassada, A. Muang, tel. +66/76 5288-3940, seacanoe.net  

AGRADECIMENTOS ESPECIAIS: Embaixada Real da Tailândia – thaiembassybrazil.com; Tourism Authority of Thailand – tourismthailand.org

Gelo à vista

As boas-vindas não parecem lá muito amigáveis. “Quatro questões jamais devem ser feitas a bordo: para onde vamos, quando chegaremos, por quanto tempo permaneceremos ali e como estará o clima.” Disparadas à queima-roupa logo após o embarque, num inglês com sotaque germânico, as frases proibidas no navio MF Fram não deixam dúvida de que estou em um cruzeiro diferente. “Na Antártica, quem manda é a natureza, e as mudanças climáticas são rápidas e imprevisíveis.” A dona da voz é Anja Erdmann, líder da expedição, que fala quando o barco da empresa norueguesa Hurtigruten afasta-se de Ushuaia, na Argentina, na pontinha mais ao sul da América. Os 207 passageiros de 16 nacionalidades zarpam sabendo apenas que, até chegar às abrigadas águas da Península Antártica, leva-se 3 dias percorrendo a Passagem de Drake, área famosa por seus naufrágios, onde Atlântico e Pacífico duelam. Depois de cruzá-la, continua a loirinha, a definição do roteiro se dá de acordo com os humores da neve, das ondas e dos ventos. A convocação para que o exército de aventureiros vista coletes salva-vidas e siga para a simulação da evacuação de emergência reforça: embarcar em um cruzeiro antártico é para viajantes com espírito desbravador.

 

Trekking na ilha Deception
Trekking na ilha Deception

 

Conhecer a Antártica nunca foi tão fácil. Segundo o guia de mochileiros Lonely Planet, o continente inexplorado brilha como o segundo lugar mais “quente” a visitar em 2014  – o primeiro é o Brasil, é claro, em função da Copa. Já existem 50 cruzeiros oferecendo pacotes a partir de 10 dias por cerca de 7.000 dólares, sem parte aérea. Na temporada passada, de novembro de 2012  a março de 2013, eles levaram nada menos que 35.000 pessoas. Em “cruzeiros de expedição” como este, não há cassino, shows a la Broadway, free-shops ou piscinas. Na minha cabine solitária, além de cama e banheiro (com água quente, ufa!), há apenas uma escotilha de onde se vê só céu e mar. Ah, e televisão, com 80% da programação tendo o extremo sul como tema. O entretenimento principal das duas centenas de horas na embarcação são as (ótimas) palestras. No primeiro dia, assisto a de pinguins, a de baleias e a de um geólogo norte-americano, Bob Rowland, que contou de seus estudos no Polo Sul em 1962 e 1963. Isso pouco depois do início das primeiras viagens turísticas à Antártica, em 1958, que provaram ao mundo que a última fronteira da Terra podia ser visitada por simples mortais como nós.

 

Port Lockroy: tem até correio
Port Lockroy: tem até correio

 

MEU PRIMEIRO ICEBERG

Terceiro dia. Para alívio dos marujos, superamos nas últimas 24 horas um Drake sem tempestades. O enjoo do mar chegou e foi embora. Já decorei o nome de vários dos 50 simpáticos tripulantes das Filipinas que atendem em locais como o restaurante e a sala de empréstimos de galochas. E meu fascínio pelas explorações antárticas cresceu substancialmente depois de assistir a documentários como o da conquista do Polo Sul, protagonizada pelo norueguês Roald Amundsen, em 1911, em um barco chamado Fram que inspirou o batismo deste. Também amei o longa sobre a saga de Sir Ernest Shackleton, o irlandês capitão do barco Endurance que tentou atravessar, com 27 homens, o continente gelado a pé em 1914, noventa anos atrás. Devoro mais um dos filmes da TV – acho que sobre as aves antárticas que acompanham o deslizar do navio – quando a voz daquela Angela Merkel dos mares ecoa, pelos auto-falantes, que um iceberg se aproxima.

Olho pela escotilha e lá está ele. Meu primeiro iceberg. Lindo. Gigante. Leve. É como se um quarteirão de 1,5 quilômetro com altura de um prédio de 3 andares flutuasse, quebrando com seu branco a monotonia azul de céu e mar. Um tom de turquesa-do-Caribe denuncia sua beleza submersa: como aprendi na lição-de-casa, 90% dos corpos desses blocos de gelo desprendidos dos glaciares esconde-se sob a superfície. Visto casaco para temperaturas negativas, corta-ventos, gorro, cachecol, luvas, óculos de sol. E, câmera na mão, corro para o terraço do sétimo andar para observá-lo em meio ao vento congelante. Meu iceberg não vem só. Outros correm em nossa direção. Chego a acreditar que nos aproximamos, enfim, da Antártica. Não há no horizonte, porém, sinal algum de terra à vista.

Engano meu. Quem chega à Península Antártica não aterrissa num grande continente no fim do caminho. Também não encontra um porto, o mar de outra cor ou qualquer referência que prove que alcançou o destino. No meio do marzão sem fim, surge uma ilha numa manhã, outra à tarde, e assim por diante: estamos na Antártica. A primeira em condição de desembarque aparece nesse terceiro dia, anunciada por uma nova chamada radiofônica. Aí sim nossa führer alemã dá todas as respostas e avisa: onde vamos – Baía Half Moon, no arquipélago das Shetland do Sul –, quando chegaremos – em 20 minutos –, por quanto tempo – 1h15 para cada grupo de 8 pessoas que lotar um bote inflável – e como está o clima – 1o C. Com apenas dois quilômetros, a ilhota parece um amontoado de rochas cinzas pontiagudas habitada por uns 2.000 casais de pinguins chinstrap (aqueles “de máscaras”) e seus filhotes. Um bote de madeira abandonado na praia de pedras dá o clima de que pisamos na terra firme do fim de mundo desabitado. Por estar vizinha à ilha Livingston, forrada por neve, Half Moon é um cenário fantástico para fotos.

 

Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo
Tempestade na Baía Esperanza, com navio Fram ao fundo

 

DESEMBARQUE CANCELADO

A tal imprevisibilidade meteorológica da Antártica fica comprovada no quarto dia. Ventos de mais de 100 quilômetros por hora provocam o cancelamento da descida prevista para a ilha de Brown Bluff. Antes do vendaval, felizmente, conseguimos desembarcar sob o frio de apenas -4o C, ainda que com sensação térmica de -17o C, na Baía Esperanza. Ela abriga, desde 1951, uma base permanente da Argentina, país que está entre as 27 nações com estações científicas na região (a do Brasil, na Ilha Rei George, a 130 quilômetros da Península Antártica, foi totalmente destruída por um incêndio em 2012). Cerca de 50 pesquisadores argentinos integram o seleto grupo de moradores temporários do continente, que não costuma passar de 150 habitantes. A neve ininterrupta e o nevoeiro intimidador que assolam nosso passeio por algumas das 40 construções alaranjadas – o refeitório, a escola, a capela, o mini-museu… – dão uma ideia de quão sofrida foi a estada forçada dos três náufragos da expedição Nordenskjöld, entre 1901 a 1904 (conforme eu havia aprendido na palestra do engenheiro polonês Henryk Wolski). Os restos do abrigo de pedras improvisado estão intactos.

Mas é no quarto dia, na ilha Deception, que a Antártica se apresenta realmente como uma terra de ninguém.  Ao passar no corredor de 150 metros de largura entre as rochas apelidadas de “foles de Netuno” e adentrar na cratera submersa desse vulcão ativo, o MF Fram parece chegar a um lugar inóspito onde nem pinguins, navegadores do século passado ou cientistas pisaram. Com 12 quilômetros de diâmetro, a caldeira de águas verdes abrigadas tem praia e pedras negras vulcânicas lindamente cobertas pelo branco da neve. A caminhada ao alto de seu morro de 540 metros de altitude é o ápice da experiência de isolamento e pequeneza proporcionada por uma incursão dessas: só há a vastidão branca, o silêncio ensurdecedor, a paz sem fim. O trekking de 3 horas à tarde, na baía Whalers, um centro baleeiro abandonado, catapulta o grupo a um estado de contemplação tão ou mais nirvânico, tamanha a beleza das formas dos glaciares e o contraste das cores na paisagem. Afinal o céu azul agora está de volta, e com ele o Sol que reflete um brilho que pode cegar. Em Deception, os sedentos por uma experiência ainda mais sensorial são convidados a dar um tibum de no máximo 5 segundos nas águas menos frias do pedaço. É quando descubro o deleite incrível do oceano com 1o C.

 

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Passeio de bote para avistar o leopardo marinho

 

COMO EM UMA PRAIA DESERTA

Se desembarcar em Deception provoca uma espécie de versão polar daquele prazer único de encontrar uma praia paradisíaca só pra você, caminhar por Porto Neko, primeira parada do quinto dia, faz lembrar um safári africano – só que no gelo. Neste raro ponto da Península Antártica onde se caminha em solo continental, o mundaréu de pinguins gentoos nem se assusta com os estrondos das avalanche dos glaciares. Tampouco as focas, baleias, leopardos e elefantes marinhos que se exibem para os zooms das câmeras e binóculos durante os passeios de bote-inflável. À tarde, no casebre preto e vermelho de Port Lockroy, uma base britânica, todo aspirante a conquistador se rende à sua faceta de turista. Na loja de souvenirs do simplório museu local, dá para fazer um shopping rápido e despachar um cartão-postal na única caixa de correio do pedaço.

À medida que o navio chega ao ponto mais ao sul da expedição, a latitude 65o Sul, no sexto dia, uma série de montanhas nevadas passa a formar um corredor de 1,6 quilômetro de largura e 11 quilômetros de extensão. Estamos no Canal Lemaire, o cenário mais espetacular para demarcar a meia-volta e o início do longo caminho de volta, agora com a bússola apontada para o Norte. Antes, uma parada na Ilha Danco, para ver o pôr-do-sol entre os 1700 casais de pinguins gentoos. Bem disse a capitã: o clima da Antártica é mesmo surpreendente. E marca para sempre a vida do aprendiz de explorador que pisa naquele território onde pouca gente chegou.

 

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COMO IR

Tradicional operadora de cruzeiros de expedição à Antártica e ao Ártico, a norueguesa Hurtigruten opera saídas com número de dias e rotas variados. Entre as opções está a rota de 10 dias entre os 200 passageiros do navio Fram, apresentada nessa reportagem. Preços a partir de 6.300 dólares. www.hurtigruten.com

Especializada em roteiros ao extremo sul, a brasileira Zelfa Silva, da Antarctica Expeditions, trabalha com navios para 68 a 189 passageiros em viagens de 10 a 19 dias. Pode-se fazer toda a travessia da Passagem do Drake por barco desde Ushuaia ou voar a partir de Punta Arenas, no Chile. Os preços, sem aéreo, partem de 7.000 dólares. www.antartida.com.br

A alegria da vida

A coisa mais essencial do espírito vivo de um homem é sua paixão pela aventura. A alegria da vida vem de nossos encontros com novas experiências e, portanto, não há alegria maior que ter um horizonte sempre cambiante, cada dia com um novo e diferente Sol.

 

Christopher McCandless

Em Into the Wild/

Na Natureza Selvagem

No Egito aprendi

Salamaleikum. Foi assim, desejando algo como “que a paz  esteja com você”, que aprendi a cumprimentar as pessoas no Egito. Ashraf e Amr, que eu tive a sorte de ter como anfitriões por 10 dias, me ensinaram também a não cruzar as pernas para jamais virar a sola do calçado na direção de alguém, algo considerado ofensa grave nos países árabes. Tanto é que os faraós, ancestrais desse povo milenar, eram frequentemente desenhados ou esculpidos com os pés sobre seus inimigos, como vimos no fantástico Museu do Egito, no Cairo. O prédio fica ali à beira da Praça Tahir, ainda enfeiada com um tanque de guerra aqui e um prédio queimado ali, mas lindamente grafitada com registros dramáticos das duas revoluções que o país viveu desde 2011. Ao ser um dos primeiros da região a florescer para a primavera árabe, o povo egípcio deu um exemplo de coragem ao mundo, ainda que esteja até hoje pagando o alto preço da crise econômica deflagrada pela deposição de dois presidentes em dois anos. Na Praça Tahir eu repeti a tradição de ser cliente de uma barbearia tradicional, entendi por que o enervante trânsito do Cairo merece – mesmo – o título de pior do planeta e fiquei admirado com os grafittis que contam a história recente do país.

 

Esfinge

 

No Egito entendi um pouco do significado de pirâmides, esfinges, esculturas, sarcófagos, múmias e sítios arqueológicos espetaculares que registram a história que a humanidade viveu no Vale do Nilo 10.000 anos antes que chegasse à Terra um sujeito chamado de Jesus, o Cristo – que, só aprendi agora também, é um dos profetas respeitados pelos islamismo, religião de 90% do país. Como recomenda a tradição de Maomé, reza-se virado para Meca cinco vezes ao dia. Muitas mulheres ainda vestem véus, têm de andar sempre atrás dos homens e aceitam resignadamente que seus maridos tenham outras esposas. Até os homens se orgulham de casar virgens, cumprimentam outros machos com três beijinhos, caminham de braços dados com os amigos (embora gays não sejam tolerados e tenham de fazer tudo bem escondido). Curioso foi ver que, na balada, ninguém toma álcool, mas cigarro ainda fuma-se em todo canto – de restaurantes a quartos de hotel –, sendo a shisha (ou narguilé) a paixão nacional que esfumaça cada café ou casa de chá (os de hibisco e de menta viraram os meus preferidos).

 

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Foi ao realizar o sonho de conhecer o Egito que eu tive um sonho lindo, desses pra levar à sessão de terapia junguiana, que me remeteu à um lugar tão antigo do meu inconsciente quanto aquela terra ancestral que eu respirava. No misterioso universo onírico eu chorava em gratidão ao Rio Nilo, o grande berço da vida na África, por sinal o continente onde nasceu o ser humano como conhecemos. Ao acordar, naveguei por suas águas azuis e montei um camelo por boas léguas às suas margens. Ainda em Aswan, agora minha cidade egípcia favorita, fui bem recebido numa autêntica aldeia núbia ribeirinha. Fazendo do êxtase rotina, lavei boca, rosto, ouvidos, braços e pés quando fui convidado a bater cabeça pra Alá à beira do rei – ops, rio – Nilo, e diante do fantástico templo da Deusa Ísis, o Philae. Ganhei as benção do sol nascente voando de balão sobre Luxor, me perdi entre as colunas de Karnak no poente, invadi a tumba de Tutankâmon, Ramsés II e outras múmias do Vale dos Reis. Sofri a maldição de Quéops quando praguejei contra os ambulantes de Gizé e vi a câmera ir ao chão. Pisei na terra onde Cleópatra, aquela danada, encerrou as dinastias dos faraós, e na beira do Mediterrâneo me deslumbrei com o que virou a biblioteca de Alexandria: um efervescente pólo de conhecimento da consciente juventude egípcia.

 

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Ajudei a festejar dois casamentos. Me refestelei de comer – com as mãos, claro – tahinis, babaganuches e doces árabes. Visitei mercados de rua, restaurantes, centros culturais e galerias de arte que alimentam a alma cosmopolita do Cairo, aquele caos urbano tão populoso e fascinante quanto minha São Paulo natal. E o que foi o concerto na Ópera House? Mais êxtase. As belas mesquita e sinagoga do Centro que me entendam, mas, com todo respeito à diversidade, nada foi mais marcante para um cristão abençoado na pia batismal que visitar a capela onde Jesus, Maria e José se esconderam quando Herodes matava criancinhas, 2013 anos atrás. Lembrei de minha mãe, de meus irmãos, avós, tias e padrinhos. Antes que as saudades incomodassem, o Egito já tinha me premiado com uma família. Como se não bastasse ter sido tratado como um faraó em alguns dos melhores hotéis nesses anos de andarilho (até uma sensacional massagem núbia ganhei), fui brindado com uma despedida de rei no banquete oferecido pela família do Senhor Nabil, um dos homens mais generosos e inspiradores que conheci, ao meu grupo de gentes boas, formado também pelos queridos Enzo, Juliana e Beth. Na hora do adeus, não teve jeito. Lágrimas vieram dizer tchau ao Ashraf e ao Amr enquanto eu repetia a palavra mais importante do dicionário que me eles ensinaram às margens do Nilo, a de gratidão: Shukran, Egito. Um dia eu volto.

 

 

Praça Tahir, o coração da Primavera Árabe

Há algo de fascinante do desleixo com que são exibidas as 12.000 peças do Museu do Egito, meu primeiro programa na cidade do Cairo – onde pisei na quarta-feira, 11 de dezembro de 2013. Qualquer mortal pode chegar a um centímetro de praticamente qualquer obra, até mesmo cheirar e tocar sarcófagos e estátuas originais de milhares de anos antes de Cristo. Há no máximo um vidro cheio de marcas de dedos protegendo peças mal iluminadas e identificadas apenas por um pedaço de sulfite carcomido. Algo que deve dar urticária nos museólogos que cuidam tão bem das peças-irmãs exibidas no Louvre ou no British Museum. Mas as autoridades egípcias parecem não se importar, acostumadas que estão a conviver com maravilhas arqueológicas tão resistentes ao tempo e fartas (só o acervo permanente tem 150.000 peças). E não há melhor momento para mergulhar na cultura desse país tão importante para a humanidade: como os turistas escassearam desde a eclosão da chamada Primavera Árabe no Egito, em 2011, os viajantes não enfrentam filas e os preços estão ainda mais baratos que antes.

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Ethiopian voa SP-Cairo por 690 dólares

Partiu. O Boeing 787 da Ethiopian Airlines decolou de Guarulhos perto das 2h da manhã da terça, dia 10 de dezembro de 2013, com destino ao Cairo, no Egito. Ouvir a língua etíope da boca das belas comissárias, sorridentes e vestidas à caráter, já deu o gostinho das novidades culturais que vêm por aí. Logo serviram o kolo, uns grãos crocantes de cevada torrada, servido com grão de bico sequinho e que costuma acompanhar o famoso café etíope. Minuto de sabedoria do voo: fico sabendo pelo cardápio que as sementes de nossa bebida-exportação tão amada mundo afora tem origem na província de Kaffa, na Etíopia – daí seu nome. Também me divirto com o rótulo da cerveja local, a Saint George: se aquele São Jorge montado num dragão estivesse nos bares de São Paulo, faria um sucesso danado.

 

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Devorando Bangcoc

Sawadee ka!, disse, alongando-se ao pronunciar o último “a”, a sorridente morena de olhos puxados que nos deu as boas-vindas no aeroporto internacional de Bangcoc, em uma tarde de junho. Fez isso com as mãos em forma de prece, como manda o protocolo dos cumprimentos na Tailândia. “Mulheres dizem sawadee ka, homens falam sawadee krap“, ensinou, em português, Tassanee Norma, poliglota tailandesa que trabalha como guia há 23 anos. Estava acompanhada de outro nativo, Lert Narongchaisakun, um baixinho simpático que formaria com ela nossa dupla de anfitriões na missão de compartilhar os melhores sabores da cidade em pouco menos de uma semana. “Kop khun krap”, agradeci, já usando a segunda expressão que aprendi na língua local, enquanto seguíamos para o hotel cruzando arranha-céus, placas em língua estranha, fotos do supervenerado rei Bhumibol Adulyadej por todo lado e o sedutor caos de ruas atulhadas de carros e gente.

 

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JANTAR APERITIVO. As próximas aulas sobre os costumes locais seriam dadas no jantar, depois do descanso para se recompor de mais de 20 horas de voo desde São Paulo. Por recomendação da chef Siripen Sriyabhaya, a Yui, que dá aula de culinária em Chiang Mai, no norte do país, e volta e meia visita o Brasil, fomos ao despojado Taling Pling, que tem uma de suas quatro unidades em Silom, bairro da região central especialmente animado à noite. A placa da porta tem o desenho de um cozinheiro com seu pilão usado para macerar especiarias. Be-a-bá para iniciantes: pimentas, gengibre, coentro e capim-limão são alguns dos muitos ingredientes socados ali e usados em receitas frequentemente aromáticas e pratos muito bem apresentadas que se caracterizam por misturar os sabores salgado, doce, azedo e picante. À mesa, come-se com colher, sendo que o garfo é auxiliar e a faca nunca vai à mesa. Também não existe o hábito ocidental de servir primeiro a entrada, depois a sopa ou a salada, e só então o prato principal e a sobremesa: todos vêm ao mesmo tempo. Estreamos conhecendo saborosos pratos que levavam três tipos de curry – verde, amarelo e vermelho – e incluíam frango, peixe e carne de porco. Tudo acompanhado de arroz, que alivia o ardor das colheradas mais picantes e vem servido desde a forma de salgadinho aperitivo até adocicado, com leite de coco, na deliciosa sobremesa acompanhada de manga.

 

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Eu com meus anfitriões Norma e Lert

 

SALADA ASIÁTICA. Logo no passeio da primeira manhã vimos que petisca-se de tudo nas onipresentes bancas de rua de Bangcoc: desde noodles, prato preferido do café da manhã do nosso anfitrião Lert, a gafanhotos fritos, encontrados apenas na época da colheita do arroz. “Não fazemos só três refeições ao dia”, contou ele. “Aqui comemos seis ou sete vezes ao dia.” Muitos dos pratos são líquidos, em forma de sopa, e a maioria não é tão picante. Diferente do que se pode imaginar, as pimentas são foram introduzidas pelos mercadores indianos, que chegaram naquele pedaço do Sudeste Asiático no século 1, mas sim pelos portugueses, que trouxeram a novidade da América do Sul nos anos 1600. Ao caminhar pelos bairros indiano e chinês, percebemos que estes vizinhos influenciaram a Tailândia não só na comida, com seus curries e noodles, mas também na religião, como se nota nos suntuosos templos da Cidade Antiga. A começar pelo Grand Palace, parada de praticamente todos os 19 milhões de visitantes anuais que fazem do turismo a principal fonte de renda da Tailândia (o número é quatro vezes maior que o de estrangeiros que viajam ao Brasil). Coração do centro histórico e espiritual de Bangcoc, o grande templo que nasceu em 1782 junto com a fundação da cidade abriga a estátua de um Buda de esmeralda, em meio a telhados supercoloridos, painéis com pinturas milenares e imagens que fazem referência também ao hinduísmo e à mitologia chinesa – embora a religião oficial do reinado da Tailândia seja o budismo.

 

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FEIRA FLUTUANTE. Aproveitando que estávamos à beira do Chao Phray, o grande rio que cruza a metrópole, Norma nos levou a um de seus lugares favoritos para comer à beira rio: o Deck by the River, restaurante do hotel butique Sala Arun. Comemos salada de pomelo e um delicioso porco grelhado com capim limão diante de outro templo, o Wat Arun, vendo o vai-e-vém de todo tipo de embarcação: as que servem como ônibus flutuantes, as turísticas onde se come refeições a bordo, as que transportam ao turístico mercado flutuante de Damnoen Saduak, a duas horas dali, e os típicos barcos de cauda longa que nos levariam, à tarde, a uma navegação pelos canais estreitos da auto-entitulada Veneza Asiática.

 

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SOPA DE CULTURAS. Se durante o dia o passeio pelo rio retrata a vida como ela é para a população humilde, o compromisso da noite nos catapulta ao seleto grupo dos bons vivants amantes da alta gastronomia tailandesa. No Nahm, eleito um dos 50 melhores restaurantes do mundo em 2012 pelo ranking da revista inglesa Restaurant, jantamos sopa de pato ao leite de coco e curry de caranguejo com açafrão em meio a um ambiente repleto de peças de ouro e seda. A casa foi aberta há dois anos dentro do hotel butique Metropolitan, no bairro empresarial de Sathorn, pelo conceituado chef australiano David Thompson, autor de livros como Thai Street Food. “Nossa inspiração é a autêntica comida de rua”, conta o cozinheiro Troy Sutton. O nome do restaurante repete o do original de Londres, primeiro tailandês a ser estrelado pelo Guia Michelin na Europa.

 

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HORA DE IR PRO FOGÃO. O reconhecimento do potencial da culinária tailandesa como negócio milionário também foi feito por um estrangeiro no Blue Elephant, nossa parada na manhã seguinte. Foi depois do sucesso do restaurante thai aberto em Bruxelas em 1980 que o proprietário belga Karl Steppe decidiu abrir a grife em Bangcoc, 10 anos atrás. “Hoje temos 10 unidades espalhadas pelo mundo”, orgulha-se a tailandesa Nooror Somany, esposa de Karl, que é quem toca a empreitada. O casal se especializou em um filão de sucesso: ali acontece um curso de culinária considerado um dos melhores entre os 20 oferecidos na cidade – entre eles o da escola francesa Le Cordon Bleu. A aula ajuda a entender a complexidade da cozinha local. Depois de visitarmos uma feira de rua onde são comprados os ingredientes, voltamos à escola para aprender a preparar quatro receitas, com direito a degustar a criação no final. Minha melhor obra foi justamente o pad thai, prato que mistura noodles, camarão, ovo, amendoim, nabo e tofu, bem popular entre estrangeiros.

 

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O aprendiz e a mestra Nooror Somany

 

DEITADO COM BUDA. Caminhar ao longo dos 46 metros de extensão do famoso Buda deitado do templo Wat Pho, o maior de Bangcoc, parecia ser o melhor jeito de fazer digestão naquela tarde. Embora belíssimo, o monastério acabou sendo ofuscado pelo prazer proporcionado por uma de suas atrações: o centro de massagem. Aberta em 1955 como primeira escola de medicina tradicional do país, a universidade de massagem cresceu tanto que teve de ser transferida para fora do templo. Ali dentro, felizmente, restou um salão onde 60 profissionais atendem ao público. Uma hora de relaxamento no corpo ou nos pés custa apenas 15 dólares, cerca de 30 reais, e é tão boa que dá vontade de fazer três vezes ao dia. Existem respeitáveis casas de massagem em todo canto de Bangcoc, das barracas de rua na Khaosan Road, a famosa rua dos albergues e pubs de mochileiros, aos requintados spas de resorts como o Rarinjinda, no Grande Centre Point Hotel. Mas nenhuma substitui a experiência do Wat Pho.

 

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A pitoresca Khaosan Road

 

MUAY THAI E LADY BOYS. É também com hora marcada, diariamente às 18h, que se percebe outra curiosa tradição tailandesa: parar de caminhar ou trabalhar enquanto toca o hino nacional nas estações de rádio e auto-falantes das ruas. A cena impressiona especialmente em lugares movimentados, como na feira de Chatuchak, que acontece todos os fins de semana no bairro de mesmo nome e concentra centenas de barracas que vendem desde frutas exóticas – como rambutan e dragon fruit — até estátuas das típicas dançarinas tailandesas. Chega-se ali de metrô, evitando os megacongestionamentos. Os peculiares táxis rosa-choque, no entanto, são opção mais confortável e econômica à noite, quando não há trânsito. Vale a pena usá-los para conferir atrações populares como as lutas de muay thai (um dos estádios mais famosos fica em Lumpini) e os shows de dança no Calypso Cabaret, em Riverfront, protagonizados por 60 lady boys – como são chamados os superproduzidos travestis locais.

 

Passeando de tuc-tuc
Passeando de tuc-tuc

 

Outro clássico noturno são os jantares com shows de música e danças tradicionais, como a khon. Assistimos a um deles comendo muito bem na Sala Rim Naam, um dos três restaurantes do luxuosíssimo hotel Mandarin Oriental. Inaugurado em 1876, este ícone da hotelaria mundial surpreende tanto pelo luxo de suas instalações quanto pela excelência do serviço. Não é preciso, no entanto, pagar no mínimo 400 dólares para se hospedar ali: dá para conhecer o spa, fazer aulas de culinária ou simplesmente parar para um drink à beira-rio.

 

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DRINK NAS ALTURAS. A regra de “no mínimo um drink e um petisco” serve também para ver do alto Bangcoc em grande estilo, se possível no pôr-do-sol, a partir do bar Moon e do restaurante Vertigo, localizados no 61º andar do hotel Banyan Tree, ou do Sky Bar e do restaurante Sirocco, localizados no 63º andar do hotel lebua. Já no nível térreo, duas recomendações sofisticadas da restaurateur tailandesa radicada em São Paulo Marina Pipatpan foram testadas e aprovadas no badalado bairro de Sukhumvit. No Face, a arquitetura tradicional de um casarão de madeira compõe o cenário ideal para conhecer misturas de comida tailandesa com japonesa e indiana. Perto dali, antes de abrir sua pista para uma moderninha balada de música eletrônica, o todo-branco Bed Supperclub oferece, entre performances surpresas às sextas e sábados, incríveis menus-degustação. De comida thai, é claro.

 

Eu, Andréa e Norma
Eu, Andréa e Norma

 

Quando nossos dias de comilança, templos e massagens chegaram ao fim, não tivemos dúvida. Antes de viajar, voltamos ao Wat Pho para ganhar uma última sessão de relaxamento nos pés. E, no aeroporto, passamos na livraria para comprar alguns dos muitos livros de receitas que permitiriam tentar reproduzir em casa um pouquinho da deliciosa gastronomia tailandesa.

 

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SERVIÇO:

+ 66 2

INFO: Bed Supperclub – 26 Sukhumvit Soi 11, tel. 651-3537,

bedsupperclub.com; Blue Elephant – 233 South Sathorn Road Yannawa,

tel. 673-9353, blueelephant.com;  Calypso Cabaret – Asia Hotel, 296

Phayathai Road, tel. 653-3960, calypsocabaret.com; Cha Tu Chak Weekend

Market – Chatuchak Park MRT Station, chatuchak.org; Deck by the River

– Arun Residence, 36-38 Soi Pratu Nokyung, Maharat Road, tel.

221-9158, arunresidence.com; Face – 29 Sukhumvit Soi 38,, tel.

713-6048, facebars.com; Le Cordon Bleu Culinary School – 946 The Dusit

Thani Building,  tel. 237-8877, cordonbleudusit.com; Mandarin Oriental

– 48 Oriental Avenue, tel. 659-9000, mandarinoriental.com; Muay Thai

Lumpinee Boxing Stadium, Rama 4 Road, tel. 251-4303,

muaythailumpini.com; Nahm – The Metropolitan Hotel, 27 South Sathorn

Road, tel. 625-3388, nahm.como.bz; Rarinjinda Spa – Grande Centre

Point Hotel, 8th Floor, 153/2 Soi Mahatlek Luang 1, tel. 670-5599,

rarinjinda.com; Sirocco Restaurant/Sky Bar – Lebua Hotel, 1055 Silom

Road, tel. 624-9555, lebua.com; Taling Pling Thai Cuisine, 25

Sukhumvit Soi 34, tel. 258-5308, talingpling.com; The Metropolitan

Hotel, 27 South Sathorn Road, tel. 625-3333,

metropolitan.bangkok.como.bz; Vertigo Restaurant/Moon Bar – Banyan

Tree, 61st Floor, 21/100 South Sathon Road, tel. 679-1200,

banyantree.com; Watpo Massage – 2 Sanamchai Road, tel. 221-2974,

watpomassage.com;

AGRADECIMENTOS/SPECIAL THANKS: Embaixada Real da Tailândia em

Brasília; Mandarin Oriental (mandarinoriental.com); chef Marina

Pipatpan; guia Norma Tassanee (tassaneenorma@yahoo.com); Tourism

Authority of Thailand, tourismthailand.org; chef Siripen Sriyabhaya

(alotofthai.com)

Ao coração da floresta

Era como uma sinfonia com milhares de músicos na escuridão completa, tocando bem alto e com um resultado impressionantemente harmonioso. Sapos coaxavam, cigarras cantavam sem parar. Mas eram os macacos que chiavam de forma assustadora, especialmente o guariba, que guincha parecendo simular o rugido de uma onça-pintada. Lembrei-me do relato do Seu Manduca sendo atacado pelo felino, da cobra d’água, dos jacarés e aranhas que havia visto nos três dias anteriores. Me acalmei escutando a orquestra deitado em uma das três redes de um casebre sobre palafitas que ficava 2 metros acima da superfície do Rio Mamirauá e, em vez de paredes, tinha tela antimosquito.

 

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Através da tela e por trás das árvores, visualizei o nascer da lua cheia da Páscoa de 2013. E dormi imerso na música mais espetacular que já ouvi na vida.

 

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Outro concerto, menos misterioso e mais festivo, celebrou a bruma e a brisa da manhã. Agora comandado pelos pássaros, compôs o fundo ritmado de nosso retorno, de canoa, para a pousada, nossa base, onde o café da manhã regional em mesa comunitária nos esperava. Localizada a 10 minutos do casebre na floresta onde eu havia pernoitado com o guia Raimundo Morais e o fotógrafo Adriano Fagundes, a Uacari é uma hospedaria flutuante que boia solitária como o quartel-general de quem explora a Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Trata-se de uma sucessão de dez bangalôs de telhados vermelhos, feitos de garrafa pet, que quebram a monotonia verde daquele trecho da região do Médio Solimões, entre o rio de mesmo nome e o Japurá. Sua localização, diante de uma bela curva do Rio Mamirauá, proporciona uma experiência tão rara de imersão na selva e de fácil avistamento de animais que o lugar se transformou na principal recomendação de turismo na Amazônia do guia de mochileiros Lonely Planet.

 

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Primeira experiência do gênero no Brasil, a área de mais de 1 milhão de hectares de Mamirauá nasceu do sonho do primatologista José Márcio Ayres (1954-2003), em 1990. Ele queria preservar o habitat do seu objeto de estudo, o uacari-branco, um macaco de cara vermelha que só existe nesse cafundó da Amazônia. Na contramão da prática dominante na época, que tirava as populações tradicionais de seus locais de origem em nome da preservação ambiental, Márcio liderou um movimento para mudar a lei. Ao se empenhar na fundação da primeira reserva de desenvolvimento sustentável, em 1996, o cientista deflagrou uma iniciativa para proteger a floresta, produzir pesquisas e estimular o turismo, permitindo que 10 mil ribeirinhos continuassem vivendo ali, cortando árvores, plantando e pescando para seu sustento – tudo de forma controlada. Deu tão certo que hoje há pelo menos mais cinco áreas do gênero Brasil afora. Ayres conseguiu ainda proteger o território vizinho de Mamirauá, criando a Reserva de Amanã, colada ao Parque Nacional do Jaú. Juntos, os três formam a maior extensão de floresta tropical protegida do planeta.

 

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A SAGA DA VIAGEM

Chegar a Mamirauá é uma aventura. Primeiro viajamos pela TAM por 3h40 de São Paulo a Manaus. De lá seguimos para Tefé, de onde partem as voadeiras, que navegam durante uma hora até a Pousada Uacari. A questão é a rota de mais de 500 quilômetros entre Manaus e Tefé. Levam-se 36 horas – um dia e meio – para fazer o deslocamento em navios de dois andares, onde embarcam 400 pessoas, cada uma acomodada na própria rede. Já nas lanchas rápidas, o tempo despenca para 12 horas. Os passageiros normalmente se sentam em poltronas reclináveis e têm direito a refrigeração e TV coletiva. Mais rápida e cara, embora sem a mesma experiência de interação com a realidade da Amazônia, foi nossa opção, o táxi aéreo: em duas horas completa-se o percurso, com a vantagem de se impressionar com a exuberância verde vista dos ares.

 

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O transporte aéreo, é verdade, não propiciou a mesma aura épica vivida nas embarcações pelos mochileiros que exploram Mamirauá – 85% deles estrangeiros. Quando, porém, entramos na lancha de Tefé para a pousada, uma tempestade carregou de emoção o passeio. Entre janeiro e julho, a temporada de chuvas na Amazônia transforma radicalmente cenários como o dessa região, conhecida como várzea. A superfície dos rios chega a subir 12 metros, obrigando os moradores a habitar casas erguidas sobre palafitas altíssimas. Construções flutuantes, como a pousada, também dançam ao sabor do rio por serem levantadas sobre madeiras leves como o açacu, que atua como boia. Em metade do ano, a população circula a pé, trabalha na roça, joga bola no campinho. Na outra parte, o ofício é a pesca e tudo depende do barco – até uma visita ao casebre do vizinho ou à igreja do bairro. Quem chega a Mamirauá nessa época do ano – como foi nosso caso – já é logo avisado: não há como percorrer as 16 trilhas locais praticando trekking; a mesma rota desses passeios é feita apenas em botes.

 

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O desembarque no calor úmido de Mamirauá é uma experiência especial. Todos os funcionários da Uacari se alinham para dar as boas-vindas aos novos hóspedes. “Hi, my name is Ednelza and I am the hotel manager”, apresentou-se Ednelza Martins da Silva, uma ex-empregada doméstica e ex-agricultora que há seis anos assumiu o cargo mais alto do estabelecimento. Depois dela falaram Judith, a cozinheira, Naíza, a copeira, e assim por diante. Todos exercitando a língua que aprendem em um dos mais de cem cursos ministrados pelo Instituto Mamirauá, organização vinculada ao Ministério da Ciência e Tecnologia que administra a reserva e as iniciativas ligadas a ela, como a pousada. “Fazemos parte do projeto de turismo de base comunitária, uma proposta pioneira na região e que há 15 anos serve como referência para outras unidades de conservação Brasil afora”, explica Ednelza. A pousada gera emprego por meio de passeios de mínimo impacto na reserva, tem seu lucro revertido para as 80 famílias da comunidade e utiliza práticas sustentáveis, como energia solar, captação de água da chuva, reciclagem e compostagem de lixo.

 

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INTERAÇÃO COM A COMUNIDADE

Ao longo dos quatro dias que passamos ali (há pacotes de três, quatro e sete diárias, com pernoite em quartos rústicos e avarandados, com mosquiteiros individuais), descobrimos que reside na vivência do turismo comunitário o grande diferencial de escolher Mamirauá como o local para desbravar a Amazônia. Pela manhã e depois do almoço, os hóspedes saem para observar animais ou visitar comunidades vizinhas. Nosso guia era o Morais, nosso companheiro na fantástica noite citada no começo deste texto, quando nos isolamos na mata. Morais é um cabeludo descendente de indígenas que contou já ter comido muita carne de peixe-boi quando a reserva ainda não existia e faltava àquela gente a consciência ecológica para cuidar dos recursos preciosos da região. “Hoje entendo que tudo isso vale ouro.” Foi uma delícia observar como Morais afiou seu ouvido para identificar os sons da densa floresta e simular o mesmo piado ou grunhido dos bichos, em busca de uma resposta do interlocutor. O grande barato de cada dia é justamente brincar de identificar quem cantou o quê e onde – e, sempre que possível, remar em busca do cantor em questão.

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Impressionante é que, mesmo passeando a 7 metros de altura do solo, como fizemos em março, driblando os galhos das árvores submersas, as grandes copas continuam lá nas alturas. No topo, é claro, se escondem os animais, dificultando o foco de nossos binóculos e câmeras fotográficas. O livreto de identificação dos pássaros catalogados na reserva lista 355 deles, com ilustrações, nomes populares e científicos de garças, gaviões, papagaios… Um dos mais belos é a cigana, que exibiu seu topete estilo moicano uma dezena de vezes durante nossas remadas silenciosas. Aranhas e sapos existem aos montes. No rio, botos, piranhas, jacaretingas e jacarés-açus são bem frequentes na seca, pois ficam mais concentrados. Mas são as cinco espécies de macacos do entorno da pousada as estrelas das observações: prego, guariba, de-cheiro, de-cheiro-de-cabeça-preta e uacari – estes últimos dois endêmicos, que praticamente só existem ali. “Nas pesquisas que fizemos entre 2007 e 2010, quando ocorreram 1.448 registros de grupos, constatamos que a presença humana não afasta os animais”, conta a bióloga gaúcha Fernanda Paim, que há oito anos acompanha a macacada em Mamirauá. “Ou seja, o turismo de mínimo impacto praticado aqui, com 20 turistas por fim de semana, não prejudica o ambiente dos primatas.”

 

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A onça-pintada, no entanto, vive escondida – ou nem tanto para o biólogo carioca Emiliano Esterci Ramalho e seu time, que se dedicam a rastrear os maiores gatos das Américas com uma antena de telemetria móvel e 40 câmeras em 20 pontos para observação. “Vi 30 onças nesses nove anos trabalhando aqui”, conta. Sorte tiveram os dez turistas hospedados na Uacari no início do ano, pois acompanharam parte da captura de Mudinha, Confuso, Zangado, Jandia e Cotó, todos atualmente soltos, mas seguidos virtualmente graças a coleiras com GPS. Não por acaso, a equipe de ecologia de vertebrados terrestres de Mamirauá trabalha para que, a partir de 2014, vire rotina os visitantes acompanharem o trabalho dos pesquisadores. Como a cheia amazônica isola várias onças na copa das árvores por meses a fio, não é difícil observá-las dos barcos.

 

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CIÊNCIA DE RESULTADOS

Atualmente, o contato com os pesquisadores se dá em palestras após o jantar. Foi assim que conhecemos, na última noite, um pouco mais sobre o boto-cor-de-rosa, na aula com a bióloga portuguesa Zulmira Gamito. “Já catalogamos 558 botos e 17 tucuxis na área do Lago Mamirauá.” Ela faz parte do grupo de cientistas que desenvolve no momento mais de cem pesquisas no Instituto Mamirauá e que frequenta as instalações da cidade de Tefé (e outras 12 bases flutuantes para trabalho de campo). Com laboratórios, biblioteca científica aberta às escolas da região, lojinha e uma estrutura de primeiro mundo, que não se espera encontrar nos confins da Amazônia, a sede do instituto é movimentada por 250 profissionais. Um estudo em andamento avalia a eficiência do sistema ecológico do esgoto doméstico da pousada. “A filtragem em tanques flutuantes remove quase 95% dos contaminantes quando a água volta ao rio”, diz o paulista João Paulo Borges Pedro, tecnólogo em meio ambiente. Graças àqueles que manejam o pirarucu, o peixe amazônico de até 3 metros – que já esteve ameaçado de extinção na região – aumentou em 425% sua população na última década: tudo porque os pescadores passaram a respeitar o período de reprodução e desova, fazendo com que seu comércio rendesse mais de 10 milhões de reais nesses dez anos. Já a equipe de manejo florestal empenhou-se para que o desmatamento fosse reduzido em 1.600% depois da criação da reserva.

 

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Os experimentos de Mamirauá têm dado certo porque unem com excelência o saber científico e o conhecimento tradicional. Pois é justamente nas conversas com os nativos que a imersão dos viajantes na realidade amazônica fica completa, especialmente nas visitas a algumas das oito comunidades situadas no território da reserva. No povoado Sítio São José, visitamos a sala de aula, onde pudemos acompanhar uma performance musical (com nosso guia Morais como percussionista!), ver como as hortaliças são plantadas sobre canoas flutuantes e comprar artesanato feito com sementes locais. Já em Vila Alencar, entendemos como os painéis que captam energia solar acionam o sistema de bombeamento de água do rio para a caixa d’água (e o sistema de purificação) que abastece as 28 famílias do vilarejo. Sem isso, os moradores teriam que carregar água desde o leito, que na seca passa a distantes 400 metros das casas mais próximas.

 

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Na hora de ir embora da Pousada Uacari, ao observar os funcionários sorridentes lado a lado, dando adeus ao barco, pensei em como a mudança na realidade dessa gente é tão valiosa quanto o desenvolvimento da ciência e a preservação do ecossistema amazônico. A gerente Ednelza, por exemplo, passou a difundir entre seus vizinhos o uso do mesmo sistema de banheiro seco ecológico de sua casa, e contou adorar multiplicar sua experiência quando viaja promovendo o torneio de futebol feminino com as mulheres de Mamirauá. Poucas transformações pessoais, no entanto, foram tão radicais quanto a do auxiliar de cozinha Vanderlei Rodrigues, o Seu Manduca. Ele viveu na pele o susto de encontrar uma onça, o que faz todos lembrarem que estamos em um dos locais mais selvagens do planeta. “Eu voltava de uma pescaria quando ela me atacou, mordeu meu rosto e caímos no rio”, contou. “Quase morri.” Hoje, os 28 pontos da cicatriz na face são discretos e o trauma foi superado, tanto que Seu Manduca já se deparou com outras cinco onças depois daquela, pois passou a integrar o grupo de apoio aos cientistas que capturam, monitoram e estudam o felino. E milita pela preservação da fera, orgulhoso por fazer parte da experiência pioneira de Mamirauá.

 

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SERVIÇO:

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Hóspede de uma ecovila

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Um arco-íris coloria o céu azul do verão escocês quando desembarquei na estação de Forres, depois de quatro horas viajando de trem desde a capital, Edimburgo. Eram as boas-vindas para a semana de férias que eu passaria no povoado vizinho de Findhorn. Naquela comunidade pioneira, em 1962, nascera o embrião do que hoje chamamos de ecovila: um assentamento humano exemplar, com práticas coletivas saudáveis e sustentáveis que viraram alternativa à rotina insalubre e ao isolamento dos edifícios das metrópoles. Desci do táxi e me deparei com fileiras de casinhas de tetos verdes, com painéis fotovoltaicos e amplas áreas envidraçadas, quatro moinhos de energia eólica no horizonte, crianças brincando com cachorros entre jardins floridos. Parecia que eu entrava em um feliz comercial de margarina.

 

Pagando para limpar banheiro

Bastou eu me identificar – “vim para a Experience Week” – para ser levado ao Cluny College, um antigo hotel no alto de uma colina, onde seria acomodado em quarto coletivo e com banheiro compartilhado. Ali acontecem boa parte dos 250 cursos que mobilizam 2.500 visitantes anualmente. Eu e meus 14 colegas de turma (das mais variadas idades, origens e profissões) começamos a entender a experiência de estar ali logo no primeiro encontro. Nossos dois instrutores (os “focalizadores”), o inglês John e a francesa Priska, se apresentaram e nos fizeram sentar em roda em torno de uma vela acesa. Antes de tudo, devíamos fazer uma pequena meditação, prática que se repetiria na abertura e no encerramento de todas as reuniões e refeições. Não, ninguém precisava rezar. “O objetivo é entrar em sintonia, estar presente”, disse John. Em seguida, nos apresentamos e fomos divididos em grupos de trabalho para que circulássemos por diferentes áreas da comunidade ao longo dos próximos sete dias. Eu, que pagara 400 libras (cerca de 1.200 reais) para estar ali, lavaria as gigantes panelas do restaurante, cuidaria do jardim do colégio, aspiraria o pó dos carpetes do centro de visitantes e… limparia banheiros!

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Frutos dos repolhos gigantes

Quando tudo começou, há 50 anos, Findhorn era apenas o nome de uma vila à beira-mar para onde se mudaram, compartilhando o mesmo trailer, o casal Eileen e Peter Caddy com a amiga Dorothy Maclean, demitidos do hotel quatro-estrelas que funcionava em Cluny Hill. Para se manter, passaram a plantar o que consumiam, como repolhos gigantes que começaram a atrair curiosos – entre eles, os hippies que buscavam novos formatos sociais de vida. “Em 1995, sociedades alternativas semelhantes de várias partes do planeta se reuniram em Findhorn e cunharam o termo ecovila para assentamentos que se sustentassem no âmbito ecológico, social, econômico e espiritual”, conta a brasileira May East, ex-vocalista da banda de rock Gang 90, moradora há 20 anos e atual diretora de relações internacionais do local. Findhorn descobriu na educação o principal filão – entre outras 60 atividades econômicas, como edição de livros e produção de mel de abelhas – para se sustentar e remunerar os moradores que trabalham para a fundação: metade dos 250 habitantes das 70 casas da ecovila ganha por mês apenas 200 libras (pouco mais de 600 reais), além de casa coletiva e comida. As funções são rotativas – o prefeito de hoje pode ser o cozinheiro do ano que vem –, e todos recebem na moeda local, o Eko, com valor idêntico ao da libra e formato parecido com as cédulas do jogo Banco Imobiliário.

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Morando num tanque de whisky

Eu acordava às 7 horas, participava de uma roda de cantos cerimoniais, tomava café da manhã e descia a colina na van para The Park, o parque onde fica a ecovila de fato. Mais uma meditaçãozinha e recebia as incumbências do meu grupo de trabalho, formado por quatro divertidos moradores: um irlandês, uma canadense, um inglês e uma senhora suíço-alemã. Esta última, chamada Seynabou Soppelsa, foi quem me detalhou os destinos dados ao lixo local. Afora todos os recicláveis, restos de alimentos também são separados em crus (para virar adubo), cítricos (compostos especiais) e cozidos (para alimentar animais). Entre uma atividade e outra, conheci boas soluções ambientais, como a usina de biomassa (que queima dejetos orgânicos para aquecer as casas) e a Living Machine, sistema composto de tanques com plantas que trata o esgoto dos moradores e propicia a reutilização da água em toaletes e jardins. Nenhuma prática, porém, é mais peculiar que as casas construídas com velhos tanques antes usados no armazenamento de whisky – afinal, Findhorn está ao lado das Highlands, berço dos melhores destilados do planeta. Foi em um desses reservatórios de madeira, gigantes e circulares, que nasceram as duas filhas de May East, dentre outros filhos de Findhorn.

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Monastério eco-zen contemporâneo

Participar de um retiro não era exatamente a minha intenção quando viajei para Findhorn. Mas a semana de experiência ali me mostrou que um outro estilo de vida é possível – desde que se abra mão de certos confortos. É preciso aprender a escutar e conviver (e driblar as intrigas e fofocas do dia-a-dia), estar desprendido do poder e de posições fixas, ter alma aventureira. As 800 pessoas que se dizem da comunidade (várias delas moram fora dos limites da ecovila) praticam, de fato, o lema “Seja a mudança que você espera ver no mundo”. E tanto moradores quanto visitantes repetem que viveram ali transformações pessoais. Comigo não foi diferente, especialmente pelas ideias trocadas com gente de todo o mundo quando acabávamos o trabalho e íamos passear na praia, na floresta, fazer um som ou tomar whisky local no pub vizinho. “Findhorn deu certo porque mantém a inspiração da paixão de seus fundadores”, conta outra brasileira, Bettina Jespersen, que vive ali há mais de uma década, hoje com o marido Iain e a filha. “Preservamos a natureza pela qual Dorothy era apaixonada, cuidamos do espírito como pregava Eileen e vivemos coletivamente como sonhava Peter.” Por isso Findhorn não se tornou um mero monastério eco-zen passageiro ou um experimento de uma geração só, mas sim uma comunidade sustentável contemporânea – e uma lição viva para o planeta.

INFO: findhorn.org