Carta a Aung San Suu Kyi

Cara Aung San Suu Kyi, a Senhora não me conhece. Sou um viajante brasileiro que havia planejado passar férias no Sudeste Asiático, incluindo no roteiro a sua pátria, Mianmar, que desde 1989 também conhecemos como Birmânia – e que a Senhora prefere tratar com o nome original, Burma. Qual não foi minha surpresa ao descobrir, enquanto pesquisava sobre sua terra, que a vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 1991 não incentivava o turismo de grupos de estrangeiros nestes tempos de transição da ditadura para o regime democrático. Entendo. Não deve ser fácil para uma ex-prisioneira política que viveu 15 de seus 77 anos em prisão domiciliar ver que ainda há tantas reformas a serem feitas, especialmente com relação aos direitos humanos.

O que me estimulou a embarcar foi ler que, em 2011, os movimentos pró-democracia derrubaram o boicote ao turismo de estrangeiros. E que a Senhora também passou a acreditar que viajantes independentes podem, sim, contribuir para o renascimento de Mianmar – especialmente se fizerem uso dos pequenos hotéis e restaurantes da população mais humilde. Foi o que fiz, e lhe escrevo para compartilhar. Voei primeiro à Tailândia e de lá parti para presenciar o despertar dessa nação tão isolada, onde celular e internet são novidades.

Nas ruas e hospedarias por onde passei ao longo de dez dias vi o retrato da Senhora – ou The Lady, com letra maiúscula, como a tratam ali –, sempre ao lado das fotos de seu pai, Aung San, mártir nacional da luta pela independência contra o colonialismo britânico nos anos 1940. E voltei deslumbrado com os cenários incríveis, as diferenças culturais marcantes e os sorrisos desse povo cheio de esperança que começa a se abrir para o mundo.

 

Yangon, a “terra do nunca”

Yangon é a “terra do nunca”. Bastou que a fotógrafa Andréa D’Amato e eu pousássemos na maior cidade do país para experimentarmos uma série de situações inéditas. Eu nunca havia visto saguão de embarque de aeroporto com publicidade de vasos sanitários, objeto de desejo para a maioria dos quase 60 milhões de habitantes que usam banheiros com um buraco no chão.

No caminho do táxi para a antiga capital, paramos para abastecer em um “posto” sem paredes nem teto: a gasolina ficava exposta ao sol, em garrafas pet. E ao encararmos o trânsito da região central, aquela Babel impressionava com um cenário que contrastava paus-de-arara abarrotados de gente com grupos de idosos praticando tai chi chuan sobre os viadutos. Homens vestiam saia até os pés – os longyis –, mulheres e crianças tinham as bochechas besuntadas de thanakha – um protetor solar feito da pasta da cortiça – e até os monges, descalços e com túnicas bordô, mascavam e cuspiam uma espécie de chiclete (comum em países da Ásia) feito com noz de areca, que deixa os dentes vermelhos como sangue.

Também nunca estivéramos em uma metrópole em que os carros, caindo aos pedaços, podem ter volante à direita ou à esquerda. A memória busca referências: aquelas carangas dos anos 1950 diante de prédios baixos de cores fortes, roupas no varal da sacada e emaranhados rocambolescos de fios nos postes remetem à Havana cubana, vitimada pela ditadura na mesma época que Mianmar. Na hora de fazer o câmbio para adquirir o kyat (lê-se djet), a moeda local, constatamos não ser lenda a rigidez para só trocar dólares americanos impecáveis. Se existir qualquer sujeirinha ou indício de que a cédula já foi dobrada, ela será devolvida. E sem chance de usar cartões de crédito ou débito.

Seguindo as instruções da Senhora, nos hospedamos em uma pensão familiar. May Fair Inn é limpinha, com banheiro privado, ventilador de teto e chuveiro de água quente. Pena que U Zaw Win, o dono, não falava uma palavra de inglês, assim como a maior parte dos 4,3 milhões de habitantes da cidade. Desenvolvemos a linguagem gestual, também para trocar dinheiro, comer e visitar algumas das 2 mil lojas do mercado Scott, construído em 1926 e rebatizado de Bogyoke Aung San em homenagem ao pai da Senhora. Além de comprar roupas e artesanato, ficamos intrigados com as balanças nas quais aquele que se pesa ganha a previsão astrológica do dia.

Astral mesmo foi conhecer o Shwedagon Paya. O mais reverenciado templo budista do país, erguido há pelo menos dez séculos, hoje exibe mais de 60 estupas (tipo de monumento cônico) repletas de estátuas de Buda. A placa da entrada indicava ser proibido entrar com calçados, meias, bermudas ou “spaghetti blouses” (camisetas com alças finas). Encantados por mantras e incensos, descobrimos na tabela de um dos guias do templo o dia da semana em que nascemos. Assim, pudemos repetir o curioso ritual de regar várias vezes a imagem do “nosso” Buda – o meu é o da quinta-feira. Para encerrar nossas boas-vindas douradas em Yangon, assistimos ao acender das luzes e ao mágico reflexo das torres no céu, algo que também nunca havíamos visto antes.

Os ETs de Mandalay

O albergue se chamava E.T. – porém, os extraterrestres éramos nós, desnorteados naquele feioso centro de Mandalay, cidade para onde voamos por 1 hora desde Yangon. Até que um anjo caiu do céu. “Ming la ba”, nos saudou um sorridente moreninho de nome Aung Aung (pronuncia-se Ã-Ã) , oferecendo seu serviço de motorista. Teríamos o luxo de contar com um condutor que queria praticar inglês e guiava um veículo pitoresco, o trickshaw, bike que carrega na lateral uma espécie de cesto sobre rodas onde se sentam dois passageiros. Graças às suas pernas fortes, rodamos tanto que no fim do dia já estávamos achando Mandalay bonitinha. Visitamos o secular monastério Shwenandaw Kyaung, todo esculpido em teca, uma forte madeira escura. Experimentamos a mohinga, uma típica sopa de noodles, no despojado restaurante local Aye-Myit-Tar (onde o guardanapo da mesa é um rolo de papel higiênico, como é prática em todo o país); e curtimos a noite de sexta-feira ao melhor estilo local, tomando chá preto adocicado com leite condensado sentados em mesinhas de criança.

Nosso novo-melhor-amigo-birmanês foi a boa companhia no espetacular teatro de marionetes. E Mandalay mostraria novamente por que é considerada a capital cultural de Mianmar no show de humor dos Moustache Brothers. Os três irmãos com bigode (o de um deles, postiço) se apresentam na garagem de casa ao som de música nacional em um saudoso tocador de fitas cassete. Repletas de piadas criticando desde a corrupção do governo até a produção de heroína no país, as apresentações do trio foram proibidas aos birmaneses e em espaços públicos. Eles não se esquecem de que a performance na casa da Senhora, em 1996, rendeu sete anos de prisão com trabalhos forçados a dois deles, Par Pa Lay e Lu Zaw. “Até hoje Aung San Suu Kyi defende nosso trabalho”, diz Lu Maw, o único que fala inglês, aos sete estrangeiros presentes no show de sábado.

Mais impressionados ficamos quando Aung Aung nos levou para conhecer a produção de folhas de ouro. Uma fila de homens passava horas dando marteladas em pequenas barras do precioso metal, causando um barulho interplanetário, até que elas fossem transformadas em quadrados minúsculos – mais tarde vendidos para serem esfregados nas estátuas de Buda nos rituais dos fiéis birmaneses (89% da população é budista, com maioria de seguidores da conservadora linhagem Theravada). Parecia de outro mundo também a sequência de estupas brancas avistadas do alto da Colina de Mandalay. Ali planejamos a exploração dos arredores no dia seguinte, por Inwa, Sagaing e Amarapura, capitais de reinados que se alternaram no poder de 850 a.C. até o domínio britânico no século 19.

Foi uma viagem ao passado. Em Sagaing, base do império Shan em 1315, cruzamos uma das pontes imponentes para ver do alto mais templos seculares – e ficamos fascinados com as casas feitas de bambu, trabalhadas como obras de arte. Em Inwa, capital real de Burma por mais de metade dos últimos 650 anos, chacoalhamos em charrete por estradas de areia entre altares budistas em ruínas, torres tortas e artesãs tecendo tapetes de palha ao ar livre. Mas foi em Amarapura, terra que abriga uma poética ponte de madeira de 1.200 metros, que passamos o entardecer de despedida de Mandalay. Cruzamos o Lago Taungthaman num barquinho. Na volta, fizemos o tradicional footing de pôr do sol sobre a ponte U Bein’s ao lado dos monges que habitam o monastério vizinho de Maha Ganayon Kyaung. E com eles emanamos boas vibrações budistas a Mianmar e a outros lindos lugares como aquele, fossem eles – ou não – desse planeta.

Ao mar de templos de Bagan

Não há sensação melhor – para quem gosta de explorar lugares aonde pouca gente chegou – do que viajar para Bagan, o cartão-postal dos cartões-postais de Mianmar, navegando no apaixonante Rio Ayeyarwady. Embarcáramos em Mandalay ainda à noite, às 5h30 de um domingão, empolgados por encarar, sentados no chão duro de madeira, as desconfortáveis 14 horas de passeio pelo maior rio do país, que cruza Mianmar de norte a sul. Uma oportunidade rara, já que a barcaça do governo só saía uma vez por semana naquela época do ano – em junho, tempo das monções, quando toda tarde despenca um oceano do céu.

A jornada se tornou um clássico entre os mochileiros justamente por forçar a interação entre os pouquíssimos turistas e a multidão de nativos em um convés abarrotado de sacos com roupas, cestos com mangas e abacaxis e toda sorte de carga. Aquelas infindáveis horas passariam rápido como se assistíssemos a um bom filme – repleto de cenas de um rio caudaloso, pescadores em comunidades ribeirinhas, ambulantes vendendo de samosas a belos tecidos coloridos em cada uma das escalas.

O impacto visual do destino coroou a epopeia. Bagan é um mar de mais de 3 mil templos alaranjados, cujos topos se sobressaem numa planície descampada a perder de vista. Fundada no ano de 849, durante o primeiro reinado birmanês, a cidade teve seus locais de culto construídos ao longo de 250 anos, entre os séculos 11 e 13. E, oito séculos depois da glória, se transformou em um museu a céu aberto, normalmente desbravado em bicicletas ou charretes. Na zona arqueológica da Velha Bagan não mora ninguém. Os visitantes se hospedam a cerca de meia hora, seja na Nova Bagan, núcleo urbano criado na década de 1990 e polo dos melhores hotéis, seja em Nyaung U, centrinho para mochileiros. Foi ali, numa travessa da chamada “rua dos restaurantes”, que decidimos nos hospedar. Escolhemos um dos bangalôs do New Park Hotel especialmente pela facilidade de alugar ali mesmo as bicicletas.

A rotina em Bagan não poderia ser diferente: acorda-se antes de o sol nascer para, já com a água e os lanches preparados, começar a pedalada a tempo de estar no topo de um templo quando o dia amanhecer. O espetáculo das brumas se dissipando na imensidão dourada só concorre em beleza com a luz batendo na outra lateral no fim de tarde. Não importa que você se perca um bocado indo para o templo x ou o y. Delicioso é navegar ao léu. E assistir ao pôr do sol no topo dos prédios mais altos, como o Shwesandaw Paya ou o Dhammyangyi Pahto, maior de todos.

Todos que chegam ali se sentem meio que como Marco Polo, que em sua suposta visita, no século 13, teria definido o lugar como “um dos mais refinados do mundo”. Durante o pôr do sol, no entanto, dá para notar: foi-se a época em que a maior concentração de templos do planeta estava inacessível. Em 2011, já após o fim do boicote, 100 mil turistas visitaram o parque. O cenário explica. E justifica escolhas como a da francesa que se apaixonou pelo guia birmanês, abandonou Paris e hoje toca com ele o The Black Bamboo, um dos charmosos restaurantes de Nyaung U, servindo deliciosos curries e sorvetes caseiros. Ali, o cansaço e a emoção do dia são processados em jantares à luz de velas no jardim, com pés na areia, no embalo das ondas musicais da bossa nova brasileira.

No Lago Inle, a vida flutua

Prazeroso, no Lago Inle, é se deixar levar. Porção de água com 22 quilômetros de extensão por 11 de largura, o último foco da viagem repousa às margens da pacata cidade-base de Nyaungshwe, para onde voamos desde Bagan. O Inle é cenário, lar, rua e fonte de vida para a gente que ali vive, no entorno ou mesmo nas casas de palafitas dentro do lago. Seu ganha-pão vem tanto da pesca quanto das fazendas flutuantes que produzem de arroz a tomate. Aproveitamos as pernas treinadas em Bagan para conhecer parte disso pedalando. No primeiro dia, saindo da pousada Queen Inn, do solícito casal Ko Myo e Ma Sue, beiramos campos de girassóis, experimentamos a massagem birmanesa da família de Win Nyunt e degustamos o vinho local.

Mas foi no deslizar silencioso do barco que mergulhamos na alma do Inle. Nas feiras à beira d’água, mulheres de minorias étnicas, usando turbantes coloridíssimos, comercializavam de tudo. Na vila de Inthein, fomos surpreendidos pelas esculturas preservadas nos altares em ruínas de Nyaung Ohak que pareciam saídas de um filme de guerra, assim como pelo complexo de 1054 estupas dos séculos 17 e 18 no alto do Shwe Inn Thein Paya. Tentamos ver o famoso monastério dos gatos que saltam – o Nga Hpe Kyaung –, mas quando ancoramos o lugar estava mais para ser batizado de “templo dos gatos que dormem”, já que os monges não conseguiram animar nenhum dos gatos treinados. Nada no Inle, porém, se mostrou mais peculiar do que o jeito de navegar dos pescadores. Ao sair para tentar pegar alguns peixes nas suas redes em forma de cesto cônico, os barqueiros navegam em pé na proa, mexendo o único remo com a perna, em um balé de habilidade e equilíbrio bonito de ser visto.

Impulsionado pelo vento que movia as águas mansas do Lago Inle, Miu Miu, nosso simpático barqueiro, nos levou a ateliês de artesãos que trabalham com prata, madeira e tecidos raros como os feitos com flores de lótus. Entre os artistas estavam as exóticas mulheres girafas, moças com pescoços esticados por colares rígidos que ficaram populares na Tailândia, mas são originais de Mianmar. É claro que elas posavam para as fotos à espera de gorjetas. É claro também que o guia Miu Miu aprendeu a ganhar suas comissões a cada souvenir comprado por um turista. Mas o crescimento do turismo é parte do processo de abertura desse país precioso, uma mostra de que ele não congelou no tempo. Em Mianmar, entre tantas mazelas, a vida flui. É, Aung San Suu Kyi, seu antigo reino encantado apaixona quem quer que o visite. E integra-se ao mundo global em um ritmo próprio, enquanto caminha para conquistar a liberdade tão sonhada pela Senhora.

 

INFOYANGON +95(0)1: May Fair Inn – 57 38th Street, tel. 25-3454; MANDALAY +95(0)2: E.T. Hotel – 129-A 83rd Street, tel. 6-5006; Aye-Myit-Tar Restaurant – 530 81st Street, tel. 00-2357; Mandalay Marionettes Theatre – 66th Street, tel. 3-4446, mandalaymarionettes.com; Moustache Brothers Show – 80 39th Street; BAGAN (Nyaung U) +95(0)61: New Park Hotel – Thiripyitsaya Block 4, tel. 6-0322, newparkmyanmar.com; The Black Bamboo Restaurant – Yar Khin Thar Street, tel. 6-0782; INLE LAKE (Nyaungshwe) + 95(0)81: Queen Inn Bungalows – Win Quarter, tel. 20-9544; Win Nyunt Massage – Yone Gyi Road.

 

PARA VER AS FOTOS DE ANDRÉA D’ AMATO, AUTORA DAS IMAGENS PUBLICADAS NA RED REPORT, ACESSE WWW.ANDREADAMATO.COM.BR

Explorando duas Irlandas

Belfast está em polvorosa. Não, felizmente não se trata da volta dos conflitos que mancharam a história da Irlanda. Dessa vez, há um movimento frenético de guindastes e operários na área portuária se preparando para a inauguração de um ousado edifício em forma de navio agendada para abril de 2012. É quando serão celebrados os 100 anos da primeira e única viagem do Titanic, o navio mais famoso do mundo. Nada menos que 7 bilhões de libras foram investidos na implementação do Titanic Quarter, parte do cais que reunirá atrativos ligados ao “filho” mais pop da capital da Irlanda do Norte. Além dos seis andares de galerias do Titanic Belfast, prédio que nasce com vocação para se tornar a principal atração turística da cidade, o quarteirão vai concentrar as caminhadas e os tours de barco e de carro por locais como a casa de máquinas e a doca onde foi construído o navio que virou lenda.

Giants Causeway, na Irlanda do Norte

Mesmo a alguns quilômetros das águas daquele braço do Mar da Irlanda, as ruas de Belfast estão agitadas em um sábado do verão de 2011, quando desembarcamos vindos de Londres. Diante do gramado
do City Hall, tomado por jovens, acontece um animado encontro mensal de motociclistas. Há um entra e sai nas mais de 50 lojas e restaurantes do Victoria Square, principal shopping da cidade, e músicos tocam nas calçadas em frente aos cafés da movimentada área do The Queen’s Quarter. Da decoração tradicional do The Crown, bar de 1849 ornamentado com marchetaria e vitrais fantásticos, às linhas modernas do edifício Titanic Belfast, quase todos os cenários da Belfast contemporânea a caracterizam como uma capital cosmopolita e pacífica. Só quem contrata um black cab – um daqueles táxis pretos como os de Londres – e ziguezagueia pelos quarteirões do The Gaeltacht Quarter se depara com muros grafitados de mensagens que fazem lembrar as três décadas (de 60 a 90) em que cercas de arame farpado dividiam moradias rivais, período no qual foram mortas 3.500 pessoas.

“É importante conhecer o passado da Irlanda para que se possa entender melhor o seu presente”, diz nosso cicerone, o pastor Billy Jones, acostumado a receber brasileiros por aqui. Resumindo a história: os primeiros habitantes da ilha foram os celtas, que no século 4 a.C. reverenciavam os deuses da natureza. O popular Saint Patrick introduziu o cristianismo em 5 d.C., mas a faceta protestante só chegaria nos anos 1500, especialmente na porção Norte, com a consolidação do domínio dos ingleses. Incomodados com a regência britânica, os condados do Sul, de maioria católica, conquistaram sua autonomia na década de 20, proclamando a república em 1949. Embora o Norte permanecesse ligado à monarquia que comanda o Reino Unido, sua minoria de origem católica continuou lutando pela independência total da ilha, o que foi agravado pelos atentados sangrentos dos radicais do IRA.

Placas em inglês e gaélico nas ruas de Dublin

“A situação só melhorou com as negociações dos anos 2000”, conta o ministro Ian Paisley Jr., representante da região no Parlamento britânico e filho do ex-primeiro-ministro Ian Paisley, que assinou o principal tratado de paz entre os dois lados. “As desavenças têm sido superadas, e hoje ambos divulgam o turismo da ilha como um todo”, diz Howard Hastings, presidente do conselho de turismo da Irlanda do Norte e dono da maior rede de hotéis de luxo do país, a Hastings Hotels – que inclui o melhor de Belfast, o Culloden Estate & Spa. “Enfim se percebeu que só há benefícios com a união de forças”, completa o empresário Ken Orr, outro de nossos anfitriões. De fato, é fácil viajar de um país ao outro em uma ilha tão pequena, onde a distância da ponta norte ao extremo sul equivale à rota de São Paulo ao Rio de Janeiro. E os 5,7 milhões de habitantes (70% deles na República da Irlanda), preocupados com a crise econômica europeia, têm muito a ganhar com o dinheiro trazido pelos turistas.

Decidimos conferir as semelhanças e diferenças entre os dois países viajando ao longo de uma semana, tendo Dublin como ponto final. Começamos pelo Condado de Antrim, ao norte de Belfast, passando pelo principal shopping da Irlanda do Norte – o outlet Junction One, com preços incríveis nas mais de 70 lojas – e por preciosidades históricas como a Antrim Round Tower. Acredita-se que a torre de 28 metros erguida por volta do século 10 fez parte de um assentamento monástico. Pouco depois de passar pela fábrica da Bushmills, a mais antiga destilaria de whisky da Irlanda, que funciona desde 1608, chegamos ao Dunluce Castle, onde ruínas de um cênico castelo medieval do século 13 equilibram-se no abismo à beira-mar. No entanto, nenhum ponto dessa rota surpreende mais do que Giants Causeway. Declarado Patrimônio da Humanidade, o parque reúne formações rochosas que parecem cortadas à mão, originadas de erupções vulcânicas de 60 milhões de anos atrás. Como em Belfast, pedreiros trabalham para finalizar um moderno centro de visitantes, a ser inaugurado também em 2012.

Símbolos celtas nas ruínas arqueológicas de Newgrange

Vales repletos de ovelhas ladeiam a rota litorânea rumo ao sul. Paramos na Carrick-a-Rede Rope Bridge, uma ponte suspensa a 24 metros de altura ligando o continente a uma ilhota, e em cachoeiras e praias de Cushendall e Cushendun – onde dormimos na confortável pousada familiar The Villa Farmhouse. Foi passeando em Antrim, por sinal, que conhecemos Patrick McNaughton, um pastor de ovelhas cujo filho Shéa se preparava para jogar o hurling, esporte gaélico que mistura rúgbi com hóquei na grama. Ao cruzar a Black Lion, discreta ponte que separa as duas Irlandas, surgem as novidades: as placas da estrada usam quilômetros, e não mais milhas, e as indicações, antes restritas à língua inglesa, agora têm tradução para o gaélico.

A próxima parada, Sligo, nos encanta de cara por seu charme, pelo hotel moderninho onde pernoitamos – The Glasshouse –, por pubs animados como o Mc Garrigles e pelas mil referências a William Butler Yeats. “Ele foi um dos maiores poetas irlandeses e passou boa parte da vida aqui”, conta a guia Nuala McNulty. O túmulo de Yeats fica ali, ao lado de míticas cruzes celtas da vila de Drumcliffe. Mas Sligo é mais do que isso: é a base para conhecer os mais antigos sítios arqueológicos da Irlanda. “Na área de 1 quilômetro quadrado de Carrowmore há nada menos que 30 tumbas megalíticas que datam de 5.700 anos”, conta a guia Tina Pommer. Apaixonada pela região, Tina nos serve chá irlandês com biscoitos dentro de uma das tumbas de outro cemitério milenar, Carrowkeel, quando temos de nos proteger da chuva repentina que atinge o alto da montanha. A misteriosa estrutura sobre a entrada da ruína
está alinhada para receber a luz do pôr do sol no solstício do verão.

The Temple Bar, esquina que dá nome à rua mais badalada de Dublin

Com a mesma forma de um monte de pedras cobrindo uma espécie de iglu, outra maravilha arqueológica atrai ainda mais turistas no caminho para Dublin, já no Condado de Meath: Newgrange. Diferentemente de Carrowkeel, no entanto, o corredor da tumba foi desenhado para receber a luz no solstício de inverno. Erguido por volta do ano 3.000 a.C. – antes da pirâmide de Quéops, no Egito, e de Stonehenge, na Inglaterra –, Newgrange é o mais famoso sítio pré-histórico da Irlanda e teria sediado vários rituais celtas. Por sinal, parte dos símbolos associados à cultura desses povos primitivos europeus foi descoberta nas pedras de Newgrange. Embora tenham vivido em vários países da atual Europa, como Inglaterra, País de Gales, França, Espanha e Portugal, os celtas deixaram suas principais raízes na Irlanda. Como a ilha não foi conquistada pelo Império Romano, a cultura celta resistiu ali até o século 17. Além dos ícones de Newgrange, a música e a religiosidade celta têm sido resgatadas nos últimos anos.

Dunluce Castle, na Irlanda do Norte

Mas é uma música irlandesa mais contemporânea, a do U2, que tornou famosa outra construção aberta a visitantes no mesmo Vale do Boyne que abriga Newgrange: o Slane Castle. Foi no prédio de 1785 que Bono Vox e sua banda gravaram o disco The Unforgettable Fire, em 1984, e fizeram um concerto histórico para 80.000 pessoas em 2001. Nascido em Dublin, o U2 ganharia o mundo entoando suas críticas aos conflitos sangrentos entre católicos e protestantes em canções como “Sunday Bloody Sunday”. Apesar de mais um tumulto ter assustado Belfast no último mês de julho, há uma boa vontade entre os governos para que cessem as hostilidades. Tanto é que em maio de 2011 Dublin recebeu a histórica visita da Rainha Elizabeth 2a. Embora administre a Irlanda do Norte, a monarquia britânica não pisava na República da Irlanda desde sua independência, 90 anos atrás. A matriarca esteve em todos aqueles pontos turísticos da terra de James Joyce e Oscar Wilde que veríamos no fim de nossa rota de 500 quilômetros: o castelo de Dublin, a fábrica da cerveja Guinness, o Trinity College. E deve ter percebido, como nós, que, independentemente das diferenças de religião, a hospitalidade do irlandês é única, assim como a beleza das paisagens. Não importa se de Dublin ou de Belfast, do Sul ou do Norte.

Slane Castle, cenário de capa de disco e de show do U2

 

INFO – discoverireland.com/br

IRLANDA DO NORTE: Bushmills – 2 Distillery Road, Bushmills, tel. +44 (0) 28 2073-3218, bushmills.com/distillery; Giant’s Causeway – 44a Causeway Road, Bushmills, tel. +44 (0) 28 2073-1855, nationaltrust.org.uk/giantscauseway; Guias Nuala McNulty e Tina Pommer – tawnylustlodge.com, pommer@eir.com.net; Junction One Outlet – Ballymena Road, Antrim, tel. +44 (0) 28 9442-9111, junctionone.co.uk; The Villa Farmhouse – 185 Torr Road, Cushendun, tel.: +44 (0) 28 2176-1252, thevillafarmhouse.com; The Crown Bar – 46 Great Victoria Street, Belfast, tel. +44 (0) 28 9024-3187, crownbar.com; Titanic Belfast – Queen’s Road, Belfast, tel. +44 (0) 28 9076-6399, titanicbelfast.com.

REPÚBLICA DA IRLANDA: Carrowmore – Sligo, tel.: +353 71 916-1534, heritageireland.ie/en/north-west/carrowmoremegalithiccemetery; Guinness – St. James’s Gate, Dublin, tel. +353 1 408-4800, guinness-storehouse.com; Newgrange – Brú na Bóinne, Donore, Meath, tel. +353 41 988-0300, newgrange.com; Slane Castle – Slane, Meath, tel. 041 982-0643, slanecastle.ie; The Glasshouse – Swan Point, Sligo, tel. +353 71 919-4300, theglasshouse.ie; Trinity College Dublin (Book of Kells) – College Green, tel. +353 1 896-1000, tcd.ie

AGRADECIMENTOS: Culloden Estate & Spa (Hasting Hotels), Belfast – Bangor Road, tel. +44 (0) 28 9042-1066, hastingshotels.com; Debora Machado; Peter O’Neill, visiteirlanda.com; English in Dublin (escola de inglês), englishindublin.com

Reportagem publicada na Revista RED Report de Dezembro/2011 e Janeiro/2012