Legado Olímpico – O desafio de alimentar a elite do esporte mundial na Rio 2016

Legado Olímpico – O desafio de alimentar a elite do esporte mundial na Rio 2016

Texto, edição, concepção editorial e coordenação das traduções para o inglês e o espanhol do livro feito sob encomenda para a Sapore, maior empresa brasileira de alimentação coletiva. Com conteúdo editorial em forma de reportagem, o obra conta os bastidores da cozinha e do restaurante que a empresa criou na Vila dos Atletas para servir 25 mil pessoas, entre atletas e delegações de mais de 200 países, durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.

Ano de edição 2016

Editora Same Same

Idiomas português/inglês e português/espanhol; Formato 24 x 31,7 cm

Páginas 252

ISBN 978 85 93259 00 5

Onze programas para conhecer Noronha como ela é

Clichê: a gente volta anos depois pra um destino que conheceu antes da popularização do turismo, se desencanta com a urbanização recente e sai por aí com aquele discurso saudosista de quem (acha que) chegou primeiro. “Bons tempos eram aqueles que aqui não tinha nem luz elétrica…”.

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Visual clássico do entardecer com Dois Irmãos ao fundo

 

 

Pois o meu retorno da vez foi para Fernando de Noronha, eleita pelo recém-extinto Guia 4 Rodas (R.I.P., saudoso companheiro de estrada!), por Deus e o mundo (Trip Advisor inclusive) como dona das praias mais belas do país.

 

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Canhões dos 10 fortes do passado espalham-se pela ilha

 

É claro que eu poderia lamentar que agora a luz é 24 horas, que os preços inflacionaram (garrafa de água de 500ml a 5 reais é de lascar), que é um absurdo um santuário natural habitado por só 6.000 gatos pingados não ter coleta seletiva. Mas eu quero contar que gostei do que vi.

 

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Baía dos Porcos: é ou não é uma maravilha da natureza?

 

ELA CONTINUA LINDA – Fernando de Noronha segue arrebatando corações. Das águas azuis-turquesa da Praia do Sancho aos tubarões, arraias (vejam essa diante de mim aí na foto) e tartarugas-marinhas gigantes que pude observar no mergulho noturno, nosso destino mais desejado continua causando arrepios diante de tamanha beleza.

 

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Meu mergulho com arraias gigantes, corais de cores vibrantes e todo tipo de peixe

 

Passei 10 dias de junho por ali, a trabalho para uma publicação estrangeira. Tive a felicidade de estar bem acompanhado: viajei com a fotógrafa Andréa D’Amato, minha fiel companheira de tantas estradas mundo afora, e tendo como cicerone extra-oficial meu amigo José Tadeu de Oliveira, biólogo que trabalha para o ICM-Bio e acumula 5 anos radicado em Noronha. Hoje Tadeu é DJ nas horas vagas.

 

Praia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil
Praia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil

 

 

Foram dias intensos, estadas em quatro hotéis distintos, refeições em uns 20 lugares, todos os passeios que pude e entrevistados interessantes, como o inspirador Zé Maria e o jogador Hernanes, que abriu ali o restaurante Corveta.

Com direito a surpresas como rever a Tia Zete, que me hospedou em 1995; o Ju Medeiros, músico ex-doidão que virou dono de hotel; e o Dr. Milton, médico que eu conhecia do ambulatório da Editora Abril (onde trabalhei por 13 anos) e que largou a Pauliceia de concreto para adotar Noronha como lar.

Por isso resolvi fazer uma lista dos highlights da minha experiência. Confiram.

 

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Lounge com música eletrônica no entardecer do Bar do Meio, na Praia do Meio

 

Sunset lounge no Bar do Meio – Não é porque o Tadeu é o DJ da balada, juro. É que o pôr-do-sol visto dos almofadões dessa praia linda de morrer, olhando os Morros Dois Irmãos se mostrando à esquerda, tomando um mojito e ouvindo boa música eletrônica, dá uma cara hype a Noronha. Imagino como deve ser legal na LoveNoronha, em setembro. Pirei também no por-do-sol do Fortinho do Boldró e do Mergulhão, no Porto.

 

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Música ao vivo para o clássico por do sol no Fortinho do Boldró

 

Mergulho noturno – Eu fiz seis mergulhos com cilindro nesses 10 dias. Acompanhei o batismo da Andréa nas Águas Claras, fiz quatro mergulhos incríveis na Ressurreta, na Ilha do Meio e entre as cavernas na lindíssima Ilha das Cabras. Mas não houve beleza e adrenalina maiores que a descida que fiz, tendo Tadeu como dupla, para ver tubarões, arraias e tartarugas gigantes sob a luz da lanterna em meio ao misterioso breu da noite.

 

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Uma bela âncora para se apoiar em meio à correnteza submarina

 

Trekkings do Capim-Açu e da trilha longa do Atalaia – Encarar os 10 quilômetros da caminhada mais casca-grossa da ilha, em apenas 4h30, foi puro prazer: especialmente tendo amantes do Capim-Açu como o João Paulo, da Noronha Adventure, e a Silvia, da Caminhos de Noronha (e grande guia da viagem toda). A do Atalaia também foi linda, linda…

 

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Trecho da trilha do Capim-Açu, a mais longa da ilha, com boa parte da caminhada acontecendo sobre pedras

 

Comilança de primeira linha – Minha matéria vai detalhar isso melhor, mas posso adiantar aqui que não esperava que Noronha já tivesse gastronomia do nível de: os frutos do mar gratinados do Varanda, a moqueca do Du Mar, o peixe na telha do Aqua Marina – restaurante do hotel Dolphin, o atum selado do Mergulhão, os churros e pescados do Cacimba Bistrô, a boa gastronomia regional que a coreana Rê prepara no Xica da Silva, a comida molecular da Teju-Açu, o arroz com camarão da Triboju, o chá da tarde da Pousada Beco de Noronha, o peixe na folha de bananeira da Solar dos Ventos, a comida com incrível vista da piscina de borda infinita emendando com o mar do Sueste na Pousada Maravilha e o badalado festival de frutos do mar do Zé Maria.

 

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Chá da tarde da Beco de Noronha

 

 

A travessia de snorkeling do Porto à Praia do Cachorro – Essa também foi com o João Paulo: 2 horas de snorkeling seguindo tartarugas, tubarões e mil peixinhos, com direito a parada para explorar a caverna vizinha à misteriosa Caverna do Leão, que parece rugir como o felino selvagem. O trecho de snorkeling para chegar ao Morro São José também encanta.

 

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Praia do Atalaia, onde dá para fazer trilha andando por 4 horas, quase tudo em pedras

 

Dormir na praia – O passeio de buggy pelas ilhas permite ver um pouco de cada praia, o tour de barco oferece outro ângulo igualmente lindo. Mas bom mesmo é escolher uma faixa de areia só e lá ficar largado por um tempo. Cheguei até a dormir na cadeira sob o guarda-sol da Cacimba do Padre.

 

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Andar entre as gameleiras gigantes – Não há árvores mais impressionantes em Noronha do que as gameleiras. Especialmente a série que mistura galhos com raízes na trilha do famoso Bar do Cachorro para o Bar do Meio. Não dá pra saber se aqueles tentáculos impressionantes começam de baixo pra cima ou de cima pra baixo.

 

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Caverna do Capim-Açu: onda entra fazendo som poderoso e estourando nas pedras internas

 

Entrar na Caverna do Capim-Açu – Ponto alto absoluto do trekking do Capim-Açu: estar na gruta onde dá pra ver, invadindo o buraco da parede oposta, uma onda de água azul celeste poderosa e linda de matar. O barulho mete medo, e o lugar ganha ares de templo natural sagrado.

 

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Ilha secundária visitada pelo barco Trovão dos Mares

 

Flagrar os golfinhos-rotadores rodopiando no ar – A mais graciosa das espécies desse cetáceo carismático gosta de dar show para os turistas. Nas três vezes em que naveguei nas ilhas secundárias, urrei de prazer ao ver golfinhos chamando nossa atenção – e assim protegendo os filhotes. Deu pra vê-los sob o barco no passeio do Projeto Navi, que tem um chão de vidro que na verdade é uma lente de aumento sensacional.

 

Golfinho visto a partir do fundo feito de lente de aumento no barco do Projeto Navi
Golfinho visto a partir do fundo feito com lente de aumento no barco do Projeto Navi

 

Mergulhar como Aquaman brincando de planasub – Quem encara esse passeio criado pelo Leo, criador do Museu Tubarões, tem a rara experiência de mergulhar a até uns 5 metros mas com velocidade – tendo a prancha de apoio puxada pela embarcação. Baita adrenalina.

 

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Ver tartarugas-marinhas recém-nascidas seguindo em direção ao mar – Sonho realizado: pela primeira vez na vida, pude acompanhar, justo no Dia Internacional da Tartaruga Marinha, dezenas de filhotes desse animal fascinante correndo em direção ao mar. Dá vontade de chorar de tão belo.

 

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Praia do Leão

 

CÓDIGO DE ÉTICA SAME SAME:

Viajei a Fernando de Noronha com apoio da Administração da Ilha e da Freeway Viagens, de São Paulo, tanto para os passeios de buggy (Ilhatour da Atalaia/Luck), de barco (Trovão dos Mares), de Planasub e da Navi (embarcação com fundo transparente).

As operadoras de mergulho Águas Claras e Noronha Divers também ofereceram alguns dos mergulhos mencionados nesse post.

Todos os restaurantes citados foram visitados em regime de cortesia.

A hospedagem aconteceu, sem custo, nas pousadas Mar Aberto, Ecocharme Pousada do Marcílio, Triboju e Pousada Zé Maria.

Agradecimentos especiais a Manuela Fay, Fernanda Camargo, Silvia Morais, João Paulo Ferreira, José Tadeu de Oliveira e Victoria Zuniga.

Informações gerais: www.noronha.pe.gov.br

Vista da Pousada Maravilha (http://pousadamaravilha.com.br)
Vista da Pousada Maravilha (http://pousadamaravilha.com.br)

 

A grande festa da Amazônia

De um lado, o boi branco Garantido, atual campeão, com um histórico de 29 títulos e uma massa vermelha em polvorosa nas arquibancadas. No campo oposto, o touro negro Caprichoso, dono de 20 troféus de primeiro colocado e impulsionado pelos gritos das pessoas da torcida azul. Poucas rivalidades são levadas tão a sério, nas competições do Brasil, quanto o enfrentamento dos dois times culturais da cidade de Parintins, a segunda mais populosa do estado do Amazonas, com 110 mil habitantes. Herdeiros de uma tradição que completou 100 anos em 2013, eles passam o ano se preparando para o duelo de todo último fim de semana de junho, que atrai ao menos 70.000 forasteiros à cidade. Nessa disputa para ver qual apresenta a performance de maior excelência, quem mais se extasia é o público, que assiste a um espetáculo de folclore sem igual no país.

 

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Em 2014, a edição 49 da maior festa da Amazônia deve ter suas dimensões de alegria multiplicadas. No mesmo fim de semana de 27 a 29 de junho, o Brasil vai estar acompanhando quatro jogos das oitavas de final da Copa do Mundo de futebol. Ou seja: se acontecer o mesmo que em 2013, quando o centenário do boi-bumbá amazônico coincidiu com os jogos da Copa das Confederações, uma multidão de apaixonados vai ter motivos de sobra para vibrar. Enquanto dentro no Bumbódromo de Parintins repete-se a guerra folclórica dos bois, as disputas dos jogos da Copa vão dominar o lado externo, tanto diante dos telões em frente à arena quanto em cada uma das tevês voltadas para a rua nos bares à beira-rio e nas casas pintadas de vermelho ou azul – e, em 2014, também verde-e-amarelo. Quando é dado o pontapé inicial na primeira performance de um dos bois, na noite de sexta-feira, diante das 16,5 mil pessoas que lotam a plateia, uma rajada de fogos de artifício faz os dançarinos em campo se arrepiarem.

 

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Conforme a tradição existente desde 1913, quando as primeiras brincadeiras de boi-bumbá começaram a acontecer nas ruas de Parintins, começa então a contação teatral e musical de várias lendas da Amazônia. Uma delas se repete todo ano: era uma vez um fazendeiro que presenteou sua filha com um boi; o bicho ficou aos cuidados do vaqueiro Pai Francisco, que o matou para satisfazer o desejo de sua esposa grávida, Mãe Catirina; para não ser punido pelo patrão, que ficou furioso, o vaqueiro conseguiu ressuscitar o boi com a ajuda de um pajé. A exuberância com que são apresentados esses e tantos outros personagens de destaque, aqui chamados de itens, inclui carros alegóricos gigantescos, fantasias com penas artificiais coloridas e performances musicais das mais contagiantes.

 

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Ainda que seja frequentemente associada ao Carnaval, a festa dos bois de Parintins é bem distinta daquela da Marquês de Sapucaí carioca ou do Sambódromo paulistano. Aqui, são só dois rivais se enfrentando em uma arena – totalmente modernizada no ano passado – cada um com 2h30 de performance a cada uma das três noites seguidas. Desde que a brincadeira de ressuscitar o boi do patrão virou uma festa grande, em 1965, surgiu um protocolo que aumenta o desafio de cada um dos lados da batalha: enquanto uma agremiação se apresenta, a outra tem de ficar quietinha no seu semi-círculo, sob a pena de perder pontos caso faça barulho. Até a luz sobre a arquibancada rival é reduzida para aumentar os holofotes sobre quem se apresenta. Dá para imaginar a tensão de ficar vendo, em silêncio e na escuridão, quão espetacular é o time adversário?

 

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Profissionalizada graças ao televisionamento e ao patrocínio de grandes marcas (que até mudam as cores de seus logotipos para as cores vermelha e azul só nos dias de festa), a ópera da floresta virou produto for-export. Não apenas por atrair muitos estrangeiros. Técnicos responsáveis pelos carros alegóricos hi-tec de Parintins passaram a ser contratados para trabalhar nos milionários carnavais de Rio e São Paulo. Durante o fim de semana do grande musical a céu aberto, os números todos de Parintins sobem às alturas. Acredita-se que 15 mil empregos temporários sejam criados. Só os tricicleiros, que levam as pessoas em bicicletas com passageiros para cima e para baixo, somam mais de 1300 durante o evento.

 

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Se num clássico de bola no pé a força do povo na arquibancada pode empurrar os 11 jogadores para a vitória, não acontece diferente no Bumbódromo. Os 1000 integrantes de cada boi (entre eles, 400 músicos) precisam da atuação de sua galera (como são chamadas as torcidas em Parintins): o público se destaca como um dos 22 itens avaliados pelos seis juízes. Dois animadores de torcida orientam a multidão a repetir seus passos de dança, o levantamento de pompons, placas e qualquer outro adereço-surpresa. Os outros itens avaliados referem-se a personagens típicos como a índia Cunhã-Poranga e o Amo de Boi (tão importantes quanto, por exemplo, a rainha da bateria ou o mestre sala de uma escola de samba). Nenhum item, no entanto, tem performance mais valiosa que a estrela da festa, o boi. Chegue ele flutuando em um balão ou suspenso por um guindaste, terá sua entrada triunfal acompanhada por urros emocionados.

 

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Com pouco mais de meia dúzia de hospedarias e uma lista tímida de restaurantes e bares para atender a tantos forasteiros, a ilha Tupinabarana, onde fica Parintins, se vê invadida por mais de trezentos barcos. Como não há estradas na região e os voos costumam ficar lotados (reserve logo, pois muita gente faz bate-e-volta a partir de Manaus), a maioria dos espectadores encara cerca de 18 horas de transporte fluvial pelo Rio Amazonas. Às vezes eles dormem em redes, seguindo o autêntico jeito amazônico de viajar. O clima, tanto nas embarcações quanto nas casas alugadas para grupos de amigos, é de festa. Especialmente quando, na segunda-feira seguinte, sai o resultado. Ainda que cada boi tenha arrancado gritos, como os de gol, nos três dias de performance, o barulho da galera que lota a arquibancada na segunda-feira para ouvir o resultado só pode ser comparado a um outro: o da conquista de um título de Copa do Mundo.

 

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Sobre a Islândia

A explicação lúcida do fenômeno que nós testemunhamos me parecem satisfatórias. Por maiores que as maravilhas da natureza pareçam, elas serão sempre explicadas por razões físicas. Tudo é subordinado a alguma grande lei da natureza.

Julio Verne (1828-1905), escritor, no livro Viagem ao Centro da Terra, que se passa na Islândia

Estadão publica viagem à Islândia

Querem saber como foi minha experiência vendo auroras boreais na Islândia por duas noites do mês de setembro? E como foi sobrevoar um vulcão em erupção, o Holuhraun, vendo a lava incandescente jorrar da cratera fumegante? Estas e outras histórias estão contadas na reportagem de seis páginas que assino no Caderno Viagem do Jornal O Estado de São Paulo desta terça-feira, dia 7 de outubro. Além do texto, fiz também algumas fotos – outras são da minha colega de viagem Tamy Rosele Penz. Além do espetáculo da natureza, apresento também outras surpresas da minha segunda viagem à ilha (a primeira tinha sido em 2010, pela revista RED Reportquando cruzei Björk na balada e vi o sol da meia noite), como os novos Museus do Rock e do Pênis, a opera house Harpa (que sedia o Airwaves e o Sónar, entre outros festivais musicais) e os filmes que têm sido rodados no país mais legal do mundo para viajar hoje.

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Lalibela é a Jerusalém africana

Uma multidão de véus brancos se destaca na escuridão das ruas de terra de Lalibela como se levitasse silenciosamente. Jogo o foco da lanterna sobre meu relógio, que marca 4h30 da manhã, e em seguida ilumino as almas que caminham ao meu lado. São seguidores do cristianismo ortodoxo, que se instalou na Etiópia no século 4 d.C., e que têm o mesmo destino que eu: as igrejas escavadas em pedra, no século 12, nessa charmosa cidade de montanha no Norte do país. Pela quantidade de gente, parece que boa parte dos 15 mil lalibelenses, muitos deles moradores da zona rural, não se importa de sair de casa antes do nascer do sol. Afinal, na chamada Jerusalém africana, todo dia é dia de reza.

 

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Alguns amanheceres, como esse, merecem bençãos especiais. É o caso dos dias de santo, da Páscoa, do Natal e da Epifania, como é chamada a data em que Jesus Cristo teria sido batizado. Para os seguidores do cristianismo ortodoxo, que correspondem a quase metade da população do país, estas são datas auspiciosas para orar na terra santa etíope. Para minha sorte, sou levado pelo meu guia, Desew Weday, diácono há 15 anos, para pisar na igreja de Bet Maryam, que homenageia a mãe de Jesus, justamente no seu dia, o 21 da folhinha local. Com um calendário próprio, a Etiópia chama de dia 21 do sétimo mês de 2006 d.C. este dia que corresponde, na agenda ocidental dos seguidores do calendário gregoriano como eu, ao 30 de março de 2014.

 

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Ao avistarmos, da rua, o buraco de 11 metros onde foi escavada a igreja de Nossa Senhora, uma música chorosa entoada por vozes graves domina o ambiente. Os beatos e beatas de véu branco descem as escadas, tiram os sapatos e reverenciam o monolito beijando o chão ou a parede, ajoelhando-se ou simplesmente rezando com a testa colada na parede. Faz lembrar até o Muro das Lamentações da Jerusalém original. “Só homens podem cantar, e sempre em Ge’ez”, explica o guia Desew, referindo-se ao antigo alfabeto etíope que se tornou a língua litúrgica dos ortodoxos. O idioma oficial da Etiópia é outro, o amárico: este é o único país do mundo que o utiliza.

 

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O sonho do rei santo.

Quem desvia – ou tropeça – nos calçados deixados no portal e adentra entre as colunas do prédio começa a ter uma ideia da proeza arquitetônica – descrita como “milagrosa” por muitos – empreendida pelo rei Gebre Mesqel Lalibela. Membro da dinastia Zagwe, que comandou a Etiópia entre o fim do século 12 e o início do 13, ele foi considerado santo e entrou para a história pela iniciativa de erigir esta e as outras dez casas de oração na então-chamada Roha, capital do império – e hoje cidade que leva seu nome. Não há registros exatos sobre quantas pessoas e quantos anos teriam sido necessários para realizar tal proeza. Diz a lenda que os humanos trabalhavam de dia enquanto à noite o serviço era dos anjos. A cultura oral repassada ao longo dos últimos oito séculos preservou outro mito que está na ponta da língua de qualquer guia de Lalibela. “Foi durante o tempo que passou em coma, após ter sido envenenado e quase morrido, que o rei Lalibela visitou Jerusalém em sonho”, conta Desew. “Ao acordar ele obedeceu a ordem de Deus e passou a construir as igrejas para fundar aqui a Nova Jerusalém.” Na época, em 1187, a Jerusalém original tinha sido tomada pelos muçulmanos.

 

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Dentro das grossas paredes da igreja de Bet Maryam, considerada a primeira a ser escavada, o cenário é único. Além do coral exclusivamente masculino, a divisão das pessoas em homens de um lado e mulheres de outro faz lembrar o protocolo dos judeus nas sinagogas, que imperava nas primeiras igrejas cristãs do planeta. Como não existem bancos para sentar, as pessoas se esparramam pelo chão – que não parece tão duro e frio por ser coberto por tapetes pesados. Na parte central do fundo, onde em uma igreja católica funcionaria um altar, há apenas uma cortina vermelha pesada, que esconde objetos cerimoniais só acessíveis a padres e bispos, exibidas ao público só nos festivais. Não há estátuas nas igrejas de Lalibela. Telas com pinturas coloridas seculares e traços peculiares (muitas vezes com Cristo e discípulos retratados como negros) fazem menção a Jesus e a Nossa Senhora ao lado das cortinas.

 

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Festivais são ímãs de peregrinos.

“Ainda que viajar à Etiópia pareça a volta a um mundo parado no tempo, em Lalibela as igrejas de pedra se mostram vivas, especialmente em rituais estonteantes como a Fasika, a Páscoa etíope”, descreve o fotógrafo Haroldo Castro, que acompanhou ali a celebração da ressurreição de Cristo em 2010. Idealizador da operadora Viajologia Expedições (www.viajologia.com.br), especializada em destinos exóticos como Mongólia e Namíbia, Castro desembarca em Lalibela nesta semana guiando 11 brasileiros. Eles estarão entre os milhares de peregrinos esperados para acompanhar, nas profundezas de santuários que jamais se tornaram peças estáticas de um museu, reverências marcantes como a vigília da noite de sábado, vivida com muita música e danças devocionais.

 

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Movimentação semelhante acontece em janeiro, nos outros dois grandes festivais da cidade. No dia 7 (do nosso calendário gregoriano), mais de 50.000 pessoas costumam festejar a Geena, o Natal local, em cerimônias solenes como o acendimento de velas à meia-noite. Já no dia 19 acontece o Timkat ou Epifania, quando o batismo de Jesus é lembrado por meio de rituais como banhos em água benta e procissões que seguem as tabots, réplicas da arca da aliança que toda igreja ortodoxa etíope possui. Acredita-se, por sinal, que a arca original, que teria abrigado a tábua dos dez mandamentos, encontra-se na cidade de Aksum, considerada tão sagrada quanto a quase vizinha Lalibela.

 

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Fé sólida como pedra.

Parecendo mais sólida que aquelas paredes sagradas, a fé do povo de Lalibela é demonstrada de forma intensa. Padres de mantos coloridos e coroas que fazem lembrar as dos reis passam pesadas cruzes ortodoxas no corpo dos fiéis que se amontoam para ganhar suas bençãos. Após semanas e mais semanas de jejum parcial, cristãos se esforçam para ter a chance de acender uma vela ou um incenso dentro das igrejas lotadas, para ganhar na testa o desenho de uma cruz feita com cinzas ou para pegar um pedaço do pão bento.

 

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Duas madrugadas depois da minha visita à Casa de Maria, acompanho um ritual semelhante na igreja de São Jorge, a mais famosa de Lalibela. No templo do santo guerreiro, me surpreendo com o prazer que muitos cristãos ortodoxos demonstram ao receber, na cara, fortes jatos d’água. Eles são jogados pelas mãos de uma criança que se ajoelha à beira de do tanque batismal localizado do lado de fora do templo. Os primeiros raios de sol tornam o ambiente especialmente mágico. Na Etiópia, o novo dia começa às 6 horas da manhã – e não a meia-noite, como no relógio ocidental. É quando, ao fim das primeiras orações matinais, a multidão de véus brancos começa a se dissipar, deixando as sagradas igrejas de pedra para seguir para casa por estradas poeirentas. É o início de um dia como qualquer outro.

 

Bale na poeira

Escala de Marco Polo

“Quando você deixa as ilhas do Ceilão (atual Sri Lanka) e navega cerca de 60 milhas sentido oeste, chega à província de Malabar, porto de entrada na grande Índia. É o melhor de todos os locais hindus e fica no continente. Há no reino uma grande quantidade de pimenta, gengibre, canela e castanhas da Índia”

 

(Do livro As Viagens de Marco Polo, em que o navegador veneziano conta dos três lugares de Kerala que teria visitado no século 13)

Kerala é uma doce “India for beginners”

Gente demais, sujeira demais, barulho demais, assédio demais, informação demais. Se você tem o desejo de conhecer a Índia mas tem receio de se incomodar com essa dura realidade do país, comece por Kerala.

 

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Meu segundo, terceiro e quarto dias estreando nesta tripa de terra que se alonga pelo sudoeste indiano chamada Kerala foram suficientes para eu ter uma primeira impressão radicalmente diferente daquele que experimentei dez anos atrás. Aqui a Índia te recebe sorrindo. O clima de praia deixa todo mundo zen. As pessoas te cumprimentam simpaticamente nas ruas sem querer nada em troca. O excesso de informação visual está aqui como em todo o resto do país – são muitos templos, tuc-tucs, pessoas de testa pintada vestindo roupas coloridas –, mas sem aquela sensação de overdose comum especialmente nas metrópoles do centro e do norte.

 

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Em 2004, Nova Dehli me recebeu com o trânsito mais assustadoramente caótico e barulhento da minha vida (eu ainda não tinha conhecido o Cairo). As ruas eram abarrotadas de lixo, turistas com cara de gringo como eu eram objeto de todo tipo de assédio. Ao final de quase dois meses explorando o Norte (Agra, Varanasi e cidades do Rajastão), terminei a trip em Mumbai (depois de dar um pulo em Goa e no Nepal) incomodado com os mendigos que puxavam meu braço pedindo esmola e os travestis implorando por comida porque são párias excluídos da sociedade.

 

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O lixo e as buzinas também existem nos lugares onde passei até agora, as cidades de Trivandrum, Kovalam, Varkala, Kollam e Kumarakon. Mas a beleza do cenário e o ambiente relaxado fazem o estrangeiro se acostumar com isso rapidamente. Há boas razões para eles serem tão agradáveis. Estamos no estado mais bem-educado do país: 93% dos habitantes sabem ler e escrever. O fato de ter se desenvolvido em meio a mercadores de especiarias e de marfim vindos de toda parte – chineses, árabes, romanos, portugueses… – há mais de 3.000 anos a deixou cosmopolita, acostumada com as diferenças, e pacífica. “No norte, o histórico deixou as pessoas mais duras”, me explicou o sábio Anil Kumar, gerente do Coconot Lagoon, um  rústico (e delicioso) hotel quatro estrelas à beira do rios de Kumarakon. O jantar com ele ontem foi uma aula de história e cultura indianas. E o hotel tem encantadores bangalôs de madeira (com banheiro ao ar livre, sem teto!) diante do lindo lago Vembanad.

 

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Ontem passamos a tarde passeando de barco pelos canais de Kumarakon, vendo a singela vida dos ribeirinhos e conhecendo lindas experiências de turismo comunitário que sustentam 7000 pessoas no estado. Daqui a pouco sigo para mais uma massagem ayurvédica – não vejo a hora – e passaremos a próxima noite embarcados em um dos luxuosos “boat houses” pelas backhouses.

Se eu fosse vocês, não perderia o próximo post.

 

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Código de Ética SS:

Viajei a convite do Kerala Tourism após ficar em 23o lugar entre os bloggers de viagem mais votados do mundo (entre 600 inscritos) no concurso Kerala Blog Express. Os destinos, hotéis e restaurantes ofereceram seus serviços de graça.

Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines (www.ethiopianairlines.com), recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas entre São Paulo e Mumbai, via Addis Ababa, na Etiópia.