Onze programas para conhecer Noronha como ela é

Clichê: a gente volta anos depois pra um destino que conheceu antes da popularização do turismo, se desencanta com a urbanização recente e sai por aí com aquele discurso saudosista de quem (acha que) chegou primeiro. “Bons tempos eram aqueles que aqui não tinha nem luz elétrica…”.

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Visual clássico do entardecer com Dois Irmãos ao fundo

 

 

Pois o meu retorno da vez foi para Fernando de Noronha, eleita pelo recém-extinto Guia 4 Rodas (R.I.P., saudoso companheiro de estrada!), por Deus e o mundo (Trip Advisor inclusive) como dona das praias mais belas do país.

 

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Canhões dos 10 fortes do passado espalham-se pela ilha

 

É claro que eu poderia lamentar que agora a luz é 24 horas, que os preços inflacionaram (garrafa de água de 500ml a 5 reais é de lascar), que é um absurdo um santuário natural habitado por só 6.000 gatos pingados não ter coleta seletiva. Mas eu quero contar que gostei do que vi.

 

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Baía dos Porcos: é ou não é uma maravilha da natureza?

 

ELA CONTINUA LINDA – Fernando de Noronha segue arrebatando corações. Das águas azuis-turquesa da Praia do Sancho aos tubarões, arraias (vejam essa diante de mim aí na foto) e tartarugas-marinhas gigantes que pude observar no mergulho noturno, nosso destino mais desejado continua causando arrepios diante de tamanha beleza.

 

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Meu mergulho com arraias gigantes, corais de cores vibrantes e todo tipo de peixe

 

Passei 10 dias de junho por ali, a trabalho para uma publicação estrangeira. Tive a felicidade de estar bem acompanhado: viajei com a fotógrafa Andréa D’Amato, minha fiel companheira de tantas estradas mundo afora, e tendo como cicerone extra-oficial meu amigo José Tadeu de Oliveira, biólogo que trabalha para o ICM-Bio e acumula 5 anos radicado em Noronha. Hoje Tadeu é DJ nas horas vagas.

 

Praia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil
Praia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil

 

 

Foram dias intensos, estadas em quatro hotéis distintos, refeições em uns 20 lugares, todos os passeios que pude e entrevistados interessantes, como o inspirador Zé Maria e o jogador Hernanes, que abriu ali o restaurante Corveta.

Com direito a surpresas como rever a Tia Zete, que me hospedou em 1995; o Ju Medeiros, músico ex-doidão que virou dono de hotel; e o Dr. Milton, médico que eu conhecia do ambulatório da Editora Abril (onde trabalhei por 13 anos) e que largou a Pauliceia de concreto para adotar Noronha como lar.

Por isso resolvi fazer uma lista dos highlights da minha experiência. Confiram.

 

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Lounge com música eletrônica no entardecer do Bar do Meio, na Praia do Meio

 

Sunset lounge no Bar do Meio – Não é porque o Tadeu é o DJ da balada, juro. É que o pôr-do-sol visto dos almofadões dessa praia linda de morrer, olhando os Morros Dois Irmãos se mostrando à esquerda, tomando um mojito e ouvindo boa música eletrônica, dá uma cara hype a Noronha. Imagino como deve ser legal na LoveNoronha, em setembro. Pirei também no por-do-sol do Fortinho do Boldró e do Mergulhão, no Porto.

 

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Música ao vivo para o clássico por do sol no Fortinho do Boldró

 

Mergulho noturno – Eu fiz seis mergulhos com cilindro nesses 10 dias. Acompanhei o batismo da Andréa nas Águas Claras, fiz quatro mergulhos incríveis na Ressurreta, na Ilha do Meio e entre as cavernas na lindíssima Ilha das Cabras. Mas não houve beleza e adrenalina maiores que a descida que fiz, tendo Tadeu como dupla, para ver tubarões, arraias e tartarugas gigantes sob a luz da lanterna em meio ao misterioso breu da noite.

 

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Uma bela âncora para se apoiar em meio à correnteza submarina

 

Trekkings do Capim-Açu e da trilha longa do Atalaia – Encarar os 10 quilômetros da caminhada mais casca-grossa da ilha, em apenas 4h30, foi puro prazer: especialmente tendo amantes do Capim-Açu como o João Paulo, da Noronha Adventure, e a Silvia, da Caminhos de Noronha (e grande guia da viagem toda). A do Atalaia também foi linda, linda…

 

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Trecho da trilha do Capim-Açu, a mais longa da ilha, com boa parte da caminhada acontecendo sobre pedras

 

Comilança de primeira linha – Minha matéria vai detalhar isso melhor, mas posso adiantar aqui que não esperava que Noronha já tivesse gastronomia do nível de: os frutos do mar gratinados do Varanda, a moqueca do Du Mar, o peixe na telha do Aqua Marina – restaurante do hotel Dolphin, o atum selado do Mergulhão, os churros e pescados do Cacimba Bistrô, a boa gastronomia regional que a coreana Rê prepara no Xica da Silva, a comida molecular da Teju-Açu, o arroz com camarão da Triboju, o chá da tarde da Pousada Beco de Noronha, o peixe na folha de bananeira da Solar dos Ventos, a comida com incrível vista da piscina de borda infinita emendando com o mar do Sueste na Pousada Maravilha e o badalado festival de frutos do mar do Zé Maria.

 

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Chá da tarde da Beco de Noronha

 

 

A travessia de snorkeling do Porto à Praia do Cachorro – Essa também foi com o João Paulo: 2 horas de snorkeling seguindo tartarugas, tubarões e mil peixinhos, com direito a parada para explorar a caverna vizinha à misteriosa Caverna do Leão, que parece rugir como o felino selvagem. O trecho de snorkeling para chegar ao Morro São José também encanta.

 

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Praia do Atalaia, onde dá para fazer trilha andando por 4 horas, quase tudo em pedras

 

Dormir na praia – O passeio de buggy pelas ilhas permite ver um pouco de cada praia, o tour de barco oferece outro ângulo igualmente lindo. Mas bom mesmo é escolher uma faixa de areia só e lá ficar largado por um tempo. Cheguei até a dormir na cadeira sob o guarda-sol da Cacimba do Padre.

 

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Andar entre as gameleiras gigantes – Não há árvores mais impressionantes em Noronha do que as gameleiras. Especialmente a série que mistura galhos com raízes na trilha do famoso Bar do Cachorro para o Bar do Meio. Não dá pra saber se aqueles tentáculos impressionantes começam de baixo pra cima ou de cima pra baixo.

 

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Caverna do Capim-Açu: onda entra fazendo som poderoso e estourando nas pedras internas

 

Entrar na Caverna do Capim-Açu – Ponto alto absoluto do trekking do Capim-Açu: estar na gruta onde dá pra ver, invadindo o buraco da parede oposta, uma onda de água azul celeste poderosa e linda de matar. O barulho mete medo, e o lugar ganha ares de templo natural sagrado.

 

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Ilha secundária visitada pelo barco Trovão dos Mares

 

Flagrar os golfinhos-rotadores rodopiando no ar – A mais graciosa das espécies desse cetáceo carismático gosta de dar show para os turistas. Nas três vezes em que naveguei nas ilhas secundárias, urrei de prazer ao ver golfinhos chamando nossa atenção – e assim protegendo os filhotes. Deu pra vê-los sob o barco no passeio do Projeto Navi, que tem um chão de vidro que na verdade é uma lente de aumento sensacional.

 

Golfinho visto a partir do fundo feito de lente de aumento no barco do Projeto Navi
Golfinho visto a partir do fundo feito com lente de aumento no barco do Projeto Navi

 

Mergulhar como Aquaman brincando de planasub – Quem encara esse passeio criado pelo Leo, criador do Museu Tubarões, tem a rara experiência de mergulhar a até uns 5 metros mas com velocidade – tendo a prancha de apoio puxada pela embarcação. Baita adrenalina.

 

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Ver tartarugas-marinhas recém-nascidas seguindo em direção ao mar – Sonho realizado: pela primeira vez na vida, pude acompanhar, justo no Dia Internacional da Tartaruga Marinha, dezenas de filhotes desse animal fascinante correndo em direção ao mar. Dá vontade de chorar de tão belo.

 

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Praia do Leão

 

CÓDIGO DE ÉTICA SAME SAME:

Viajei a Fernando de Noronha com apoio da Administração da Ilha e da Freeway Viagens, de São Paulo, tanto para os passeios de buggy (Ilhatour da Atalaia/Luck), de barco (Trovão dos Mares), de Planasub e da Navi (embarcação com fundo transparente).

As operadoras de mergulho Águas Claras e Noronha Divers também ofereceram alguns dos mergulhos mencionados nesse post.

Todos os restaurantes citados foram visitados em regime de cortesia.

A hospedagem aconteceu, sem custo, nas pousadas Mar Aberto, Ecocharme Pousada do Marcílio, Triboju e Pousada Zé Maria.

Agradecimentos especiais a Manuela Fay, Fernanda Camargo, Silvia Morais, João Paulo Ferreira, José Tadeu de Oliveira e Victoria Zuniga.

Informações gerais: www.noronha.pe.gov.br

Vista da Pousada Maravilha (http://pousadamaravilha.com.br)
Vista da Pousada Maravilha (http://pousadamaravilha.com.br)

 

12 experiências marcantes das minhas 12 viagens de 2014

Já são quase 25 anos viajando compulsivamente – desde meu primeiro camping selvagem, em 1990 – e quase metade deles dedicados ao jornalismo de viagem. Em alguns anos – como em 2001 e 2002, quando eu cobria Fórmula Indy e morava em Nova York –, cheguei a viajar mais: cheguei a contar 150 voos por uns 15 países naquele período. Também tive anos com poucas e intensas viagens – foi o caso de 2011, quando realizei o sonho de conhecer a Antártica com o Amyr Klink –, assim como vivi anos em que fui muitas vezes para o mesmo lugar – em 2013, viajei 3 vezes e passei no total quase 3 meses na Amazônia. Mas 2014 foi especial pela altíssima média tanto no quesito quantidade como qualidade. Comecei o ano em Punta del Diablo, no Uruguai, pulei carnaval em Recife e Olinda, assisti à Copa do Mundo de futebol em Belo Horizonte. Pirei em algumas das metrópoles mais fascinantes do mundo, como Nova York, Berlin, Roma, Viena. Tive o privilégio de voltar à Índia, à Tailândia, à Etiópia, à Islândia. E quando eu achei que a overdose de beleza tinha acabado, recebi o convite-surpresa para enfim conhecer a Nova Zelândia – por quem agora morro de amores. Vários posts e matérias sobre cada um já foram compartilhados pelo Same Same. Agora faço um resumo dos highlights das experiências nos 12 destinos que visitei nesses 12 meses. Que 2015 seja tão ou mais intenso.

 

PUNTA DEL DIABLO, URUGUAI:

Entrei em 2014 como mais gosto: na praia e com gente amada. Apesar da água fria, Punta del Diablo, no Uruguai, não tem muvuca, oferece um chalé mais lindo que o outro, comida de primeira e aquele povo muy buena onda.

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KERALA, ÍNDIA:

Ganhei um concurso de Facebook e viajei com 27 blogueiros de 14 países por 17 dias pelo Sul da Índia. Amei aquela Torre de Babel contemporânea, as incríveis massagens ayurvédicas, a imersão no pedaço mais suave da Índia.

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RECIFE e OLINDA, PERNAMBUCO:

Meu amado Rio que me perdoe, mas tive de repetir o carnaval nas ruas de Recife e Olinda. Me vesti de palhaço, hippie e índio no mais democrático dos grandes carnavais brasileiros. Crianças, travestis e vovós dançando juntos!

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BANGKOK, PUKHET E CHIANG RAI, TAILÂNDIA:

Eu já gostava dos templos, do aroma de incenso e dos sabores de Bangkok, da cor do mar de Pukhet, das massagens incríveis e baratinhas da Tailândia. Mas dessa vez conheci Chiang Rai, ao norte, e aprendi a pilotar elefantes!

Apresentação en um dos restaurantes do Hotel Mandarin Oriental
Apresentação en um dos restaurantes do Hotel Mandarin Oriental

 

LALIBELA E ADDIS ABEBA, ETIÓPIA:

A capital Addis eu tinha conhecido em 2013, mas dessa vez subi ao norte do país e vivi os rituais espirituais fantásticos a São Jorge e Santa Maria. Tive de acordar no meio da noite para orar nas incríveis igrejas de pedra de Lalibela.

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NOVA YORK, EUA:

Vivi 48 horas de arte na cidade mais legal do mundo – e me surpreendi vendo o trabalho dos brasileiros Lygia Clark, Kobra, Tunga e Adriana Varejão brilhando em Nova York. Ah, e enfim conheci o sensacional DIA/Beacon.

Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

 

BELO HORIZONTE, MINAS GERAIS

Quase tive uma taquicardia fatal no jogo Brasil x Chile da Copa do Mundo de futebol em Belo Horizonte, que terminou com disputa de pênaltis. Eu e minha família fomos pra lá de ônibus, em cima da hora. E adoramos a nossa copa.

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ROMA, ITÁLIA:

Fiz uma imersão na Roma Imperial: pedalei na Via Ápia antiga, conheci o subterrâneo do Coliseu, desci a catacumbas milenares. Foi demais assistir a projeções sobre ruínas para conhecer a saga de Augusto, Júlio César, Nero…

Fórum de Augusto com projeção multidimensional
Fórum de Augusto com projeção multidimensional

 

ISLÂNDIA:

Na minha primeira vez, no verão de 2010, eu vi a Bjork na balada e pirei no sol da meia-noite. Dessa vez, em setembro, eu caminhei em glaciar, voei sobre um vulcão ativo e, quem diria, vi minhas primeiras auroras boreais.

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NOVA ZELÂNDIA

Recebi o convite numa quarta, viajei na sexta. E fiquei perdidamente apaixonado pela Nova Zelândia, onde fiz 3 sobrevoos de helicóptero, interagi com os maori e sobrevoei o vulcão de White Island, pousando na sua boca.

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BERLIM, ALEMANHA

Entrei em um bunker que virou a galeria de arte Boros, celebrei 25 anos da Queda do Muro de Berlim, entendi como a reciclagem do passado triste em presente feliz transformaram Berlim na capital mais vibrante da atualidade.

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VIENA, ÁUSTRIA

Bebi muito vinho quente nas “quermesses” dos superiluminados mercados de Natal, conheci palácios e museus centenários cheios de história, segui os passos de Klimt e Freud pela Ringstrasse. E vou querer voltar, mas no verão.

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O futuro mais simples

O celular não pega, é preciso dormir em barraca e quem usa o banheiro seco tem de virar um balde de serragem no vaso sanitário, em vez de puxar a descarga. Ainda assim, a cada feriado, quase 40 pessoas pagam para se isolar no mato a 4 quilômetros da praia Dura, em Ubatuba, no litoral de São Paulo, para fazer um dos cursos do Instituto de Per- macultura e Ecovilas da Mata Atlântica (Ipema).

Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)

“Cada vez mais gente nos procura porque está em crise e quer fazer a sua parte para mudar o mundo”, conta o criador do Ipema, Marcelo Bueno, quando o reencontro em Ubatuba, em uma segunda-feira de agosto deste ano. Pesquisador obsessivo de tecnologias de mínimo impacto, Bueno é um sonhador ousado e um realizador radical. Depois de viajar pelo mundo por dois anos e meio e de voltar de uma experiência na comunidade The Farm, no estado americano do Tennessee, em 1999, ele resolveu fazer da própria casa, na praia Brava, um laboratório de sustenta- bilidade. A experiência despertou o interesse de escolas, autoridades e curiosos, inspirando Bue- no a arregimentar sete pessoas para comprar a terra em que funciona, hoje, a base do instituto que criou e de seus experimentos. No futuro, eles pretendem construir suas casas para morar de vez no que será a Ecovila Corcovado.

Implantar uma comunidade ecologicamente responsável não é empreitada fácil – e tenho des- coberto isso nas visitas que faço a esses grupos embrionários desde que comprei, há três anos, com amigos, um sítio em Juquitiba, no interior paulista, com o mesmo sonho de Bueno. Conscientes dessa dificuldade, os responsáveis pelo Ipema aproveitam a disposição de suas populações flutuantes. Nos últimos seis anos viabiliza- ram a construção do abrigo para a turbina que transforma a água do riacho vizinho em energia elétrica, dos filtros naturais que tratam as águas usadas nas pias e da cozinha com um fogão a lenha que aquece a água da chuva captada para ser usada no banho. Todas as práticas ensinadas seguem a cartilha da permacultura, um método de planejamento de assentamentos humanos sus- tentáveis criado pelos australianos Bill Mollison e David Holmgren, na década de 1970, e que conta hoje com mais de 3 mil adeptos no Brasil.

Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)

Em seu cotidiano, Bueno mantém uma atitude ecológica exemplar. Ele e os moradores do Ipema geram a energia que consomem, bebem a água da cachoeira do quintal, dão encaminhamento a todos os dejetos e plantam árvores – um dos pro- jetos reflorestou mais de 70 hectares com juçara, uma palmeira ameaçada de extinção, no sistema de agrofloresta. A rotina sem confortos urbanos se assemelha a de nossos avós. Por opção, não há geladeira nem para guardar o leite das duas filhas pequenas de Bueno. Fogão, só a lenha – um sim- ples cafezinho pode demorar uma eternidade.

A mulher dele, a engenheira florestal Cristiana Reis, usa apenas absorventes de pano e nem as fraldas das crianças são descartáveis: tudo é la- vado, sem produtos químicos, na água fria para ser reutilizado. A gordura da cozinha vira sabão. Para não consumir embalagens, só entram na despensa produtos a granel. E acredite: há 11 anos Bueno não coloca nem o lixo não reciclável no caminhão da prefeitura. “Prefiro acumulá-lo para constatar a responsabilidade do meu impac- to no planeta e depois enterrá-lo, como fazemos com o entulho de nossas construções.”

A despeito das aparências, a ideia não é re- cusar as novas tecnologias. “Temos computador, ouço música em um iPod”, conta Cristiana. “Só não queremos ser dependentes de algumas tecnologias.” A única emissão de carbono que Bueno e Cristiana lamentam é a gerada pelo combustível do automóvel. “Se o mundo vivesse um colapso financeiro, eu só teria de me livrar do carro e do plano de saúde”, diz ele. Produzir etanol é uma meta. Esse projeto foi testado ao longo de seis meses de 2010 em outra comunida- de verde, a Visão Futuro, de Porangaba, também no interior paulista. A produção de cana com esse fim, porém, mostrou-se economicamente inviável – ao menos a princípio.

Moeda exclusiva de Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)

Com quase 20 anos de existência, a Visão Futuro foi fundada pela americana Susan Andrews e virou um exemplo de sucesso. Só no primeiro semestre deste ano, 750 pessoas passaram por seus 20 cursos. A maior parte da comida lacto-vegetariana (baseada apenas em vegetais e derivados do leite) consumida pelos alunos é tirada daquela terra. Painéis fotovoltaicos aproveitam a luz do sol. Seu maior trunfo, porém, está no fato de tanto os dez moradores quanto os frequentadores compartilharem da mesma busca espiritual, pra- ticando ioga e meditação. Os estudiosos creem que a espiritualidade ajuda esses agrupamentos a se manter unidos e a ficar de fora de uma dura realidade estatística: a que diz que só 10% das iniciativas de ecovilas resistem ao tempo.

o conceito de ecovilas foi definido em 1995, durante um encontro de representantes de diferentes grupos do gênero em Findhorn, ao norte de Edimburgo, capital da Escócia. Passaram a levar esse título apenas os assentamentos que se sustentam no âmbito social, ecológico, econômico e de visão de mundo (que abrange o aspecto espiritual). “Findhorn é pioneira na fusão des- sas quatro vertentes”, conta a brasileira May East, que vive há quase 20 anos na comunidade que nasceu quando três moradores de um trailer em um campo de dunas começaram a atrair curiosos interessados em reproduzir sua plantação de repolhos gigantes. May, então famosa como vo- calista da banda de rock Gang 90, mudou de vida logo depois da Eco-92 – evento no qual atuou como “artivista”, conforme se definia na época. Hoje é coordenadora dos cursos de treinamento em ecovilas, diretora de relações internacionais e representante do grupo nas Nações Unidas – que deu a Findhorn o título de melhor prática de assentamento humano no mundo.

Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)

Conheci May East ali mesmo, no último mês de junho, ao participar de um curso chamado Experience Week. Uma semana de imersão na rotina local para forasteiros (muitos deles euro- peus e americanos desiludidos com a crise eco- nômica e buscando alternativas de vida). Como no Ipema, os alunos pagam para trabalhar – no meu caso, as 400 libras que desembolsei me permitiram cuidar do jardim, aspirar o pó do centro de visitantes (mais de 2,5 mil pessoas por ano), lavar as enormes panelas dos jantares cole- tivos e, sim, limpar os banheiros. Findhorn tem hoje uma emissão de carbono que corresponde à metade do Reino Unido. Quatro moinhos de energia eólica demarcam o horizonte do vilarejo de 70 casas (várias com telhados verdes e muito vidro para receber mais luz solar e economizar eletricidade), uma usina de biomassa queima de- jetos orgânicos para gerar aquecimento em dias frios e os tanques de uma engenhoca batizada de Living Machine tratam o esgoto dos moradores. Apesar de ministrar mais de 200 cursos por ano, Findhorn mantém sua longevidade eco- nômica graças também a outros 60 negócios, de editora de livros a hospedarias. Atualmente, 762 pessoas dizem pertencer à comunidade, mas apenas 250 vivem na ecovila. Metade des- ses moradores é de trabalhadores da Fundação Findhorn, que se alternam em diferentes fun- ções, recebem casa compartilhada e comida de graça, além de salário fixo. O contracheque – 200 libras – é idêntico a todos, esteja o morador trabalhando na faxina ou seja ele o listener da vez – uma espécie de “ouvidor” dos problemas internos. O salário é pago na moeda local, o eko, uma nota pequena, semelhante àquelas do jogo Banco Imobiliário, cujo valor equivale ao da libra. E um sistema de troca de roupas e objetos é incentivado para que haja redução no consumo.

Segundo a Rede Global de Ecovilas, existem hoje cerca de 900 comunidades desse tipo no planeta – umas 50 na América Latina. “A grande dificuldade costuma ser o relacionamento”, reco- nhece Sandra Mantelli, que fundou, com o ma- rido Hiroshi, a Ecovila Clareando, em Piracaia, no interior de São Paulo. Cada uma das cinco fa- mílias dali tem espaço e trabalho particulares, só interagindo de vez em quando nas áreas comuns.

Iniciativas parecidas ocorrem na Estância Demétria, em Botucatu, que nasceu, em 1974, como fazenda de produção de legumes e verduras sem agrotóxicos, e provocou uma revolução na cidade paulista ao difundir um maior cuidado com a alimentação. Mais de 100 famílias de simpatizantes foram se acercando da fazenda, criando sete condomínios ecologicamente responsáveis. Boa parte dos vizinhos está afinada com uma filosofia-guia: a antroposofia, criada no início do século 20 pelo austríaco Rudolf Steiner, que aprofunda o estudo das relações do homem com a natureza. A agricultura antroposófica não é chamada de orgânica e sim de biodinâmica, por requerer a rotação de cultivos e o plantio de acor- do com as fases da lua, entre outras diferenças.

A Living Machine, que trata o esgoto de Findhorn, na Escócia (SameSame Photo)

“Nossa proposta não tem a ver com comunis- mo ou marxismo, mas é uma alternativa a esse capitalismo em crise. Estamos buscando forma- tos que garantam a sustentabilidade”, diz Paulo Cabrera, o atual líder da estância, um gaúcho que viveu em quatro comunidades antes de se esta- belecer em Botucatu, em 1986. Na Demétria, ele mescla técnicas de cultivo tradicionais e moder- nas usando matéria-prima e mão de obra locais. Com 24 funcionários, 150 cabeças de gado e uma produção de 15 tipos de laticínio, 12 de geleias e 41 artigos de padaria, a fazenda virou sinônimo de qualidade ao abastecer feiras de produtos sem agrotóxicos, como as que acontecem no Parque da Água Branca, na cidade de São Paulo.

Entre as lições da Demétria para garantir qualidade de vida estão os esforços para que as ruas do bairro não sejam asfaltadas, permitindo a permeabilidade do solo, e que essas vias não ganhem energia elétrica, o que vai assegurar que animais noturnos não sejam espantados e que se possa ver mais estrelas à noite. Televisão é algo que Cabrera não faz questão de ter. “Deve ser por isso que fiz seis filhos com minha mulher”, brinca. Como se vê, também o dia a dia dos moradores da Demétria se assemelha ao dos antepassados, com a predominância de um estilo de vida simples e natural. Cabrera sabe que, assim, seu impacto ambiental vai continuar sendo baixo. “Mas a gente não planta árvores para neutralizar emissão de carbono. Essa é uma visão moderna corretiva”, diz. “Plantamos árvores para perceber a transformação que elas causam nas pessoas. E para que nossas vaquinhas possam descansar à sombra delas e nos dar um bom leite fresco.”