Cultura maori é uma boa surpresa da Nova Zelândia

Nariz com nariz. Não estranhe se você pousar na Nova Zelândia e se deparar com gente se cumprimentando assim.

 

Hongi nose to nose maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este é o hongi, tradicional saudação dos maori, primeiros habitantes da ilha. Eles acreditam que o homem, Deus e a natureza são uma coisa só, e sentir a respiração do outro é uma forma de comungar o sopro sagrado da vida. Depois de ter sido rechaçada em meados do século 20, a cultura maori está em voga. Não só entre seus descendentes de sangue, muitos com lindas tatuagens tribais pelo corpo – às vezes, até no rosto dos homens e no queixo das mulheres, como reza o costume secular.

 

Lago aérea Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O resgate do orgulho maori tem contagiado também os brancos cujos antepassados são os europeus, em especial os britânicos, que colonizaram o país. A língua maori voltou a ser ensinada nas escolas, pelo menos duas grandes exposições sobre sua arte estão rodando o mundo – uma delas chega ao Brasil em outubro – e até sua dança cerimonial, a haka, ganha mais e mais adeptos desde que passou a ser popularizada pelo poderoso time de rúgbi local, o All Blacks.

 

DSC03019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Jovem, o último país a ser povoado no planeta tem o respeito à natureza e o fascínio pela aventura no DNA. Ali nasceu Sir Edmund Hillary, primeiro homem a escalar o Everest, em 1953. As paisagens do país sediaram o primeiro bungee jump do planeta, em 1988. E a fascinante diversidade natural neozelandesa seduziu o mundo, nos últimos 15 anos, com as trilogias de O Senhor dos Anéis e O Hobbit. A terra sagrada dos maori respira vida.

 

Road Trip New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrada pela ilha Norte
(ou Ao Norte, o mar)

É na ilha Norte, a mesma onde chegaram os primeiros desbravadores polinésios no século 13, que desembarcam os viajantes do século 21 dispostos a explorar a enorme variedade de ecossistemas desse pequeno território da Oceania.

 

Aérea de Bay of Islands
Bay of Islands, vista durante sobrevoo pelas ilhas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Auckland, maior cidade do país, tem 1,5 milhão de habitantes e traduz bem a faceta contemporânea tanto da porção Norte quanto da ilha Sul. Ao mesmo tempo em que seu centro cosmopolita à beira-mar esbanja soluções urbanas criativas e sustentáveis, pode-se ver ali as seculares danças maori apresentadas no Auckland Museum (o mesmo que guarda o diário de bordo de Sir Hillary no Everest).

 

Águas verdes Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O espetáculo cultural se mostra mais completo para quem dirige por 3 horas ao extremo da ilha Norte e visita o Waitangi Treaty Grounds. Localizado onde a sucessão de ilhas de Bay of Islands leva ao delírio mergulhadores e amantes de praias de sonho, Waitangi é o principal sítio histórico da nação. Em 1840, 540 líderes maori assinaram ali o primeiro acordo com os colonizadores ingleses – e que lhes garantia, entre outras coisas, a posse da terra.

 

carranca maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Essa e outras histórias são contadas por meio de música, de canto e da haka – a dança maori – diante de uma casa cerimonial. Também em exposição está uma waka, canoa de guerra com 35 metros e que precisa de 76 remadores para entrar na água. Os maori sempre guiaram sua navegação pelas estrelas, e há apenas dois anos empreenderam uma expedição, a Waka Tapu, navegando sem instrumentos da Nova Zelândia à Ilha de Páscoa.

aucklandmuseum.com
waitangi.org.nz
wakatapu.com

 

performance maori waitangi
Performance Maori em Waitangi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coração cultural
(ou No centro, o fogo)

Seja de barco ou de helicóptero, dá um frio na barriga se aproximar da fumaceira expelida do vulcão da White Island, embranquecendo o céu sobre o azul do Pacífico.

 

 

White Island visto de longe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bolhas de lama cinza-chumbo fervem no chão, o cheiro ruim impera, o enxofre amarelo colore o chão laranja à beira da cratera de águas verdes.

 

Vulcão borbulhante White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mais ativo dos cerca de 60 vulcões do país pode ser acessado a partir de Rotorua, cidade 3 horas de carro ao sul de Auckland.

 

helicopt White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Famosa por seus spas com poços de águas termais, Rotorua é lar de boa parte dos quase 600 mil maoris do país, que correspondem a 15% da população.

 

Te Puia geral
Gêiseres no Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cidade fica no vale geotermal de Whakarewarewa, bem em cima do chamado Anel de Fogo do Pacífico, e sempre impressionou por seus gêiseres. O famoso Pohutu, que jorra a 30 metros de altura 20 vezes por dia, é a estrela do Centro Cultural Te Puia, espécie de QG maori onde funciona sua escola de escultura em madeira e tecelagem, além de uma bela loja de artesanato.

 

Artesão maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os maori demonstraram uma imensa capacidade de adaptação nesses 700 anos e nunca pararam no tempo. O canibalismo e o poligamia viraram coisa do passado. “Temos representantes no parlamento, canal de tv, estações de rádio”, diz Karl Johnstone, diretor do Maori Arts and Crafts Institute (MACI).

 

Casa maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não somos uma cultura ancestral, mas sim um legado vivo”. Antenados nas tendências, sabem explorar seu potencial turístico. Quem visita o Te Puia degusta a comida típica (frango, legumes) cozida em caixas de alumínio dentro daqueles caldeirões naturais ferventes. Uma experiência gastronômica sem igual.

tepuia.com

 

 

Chef Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas profundezas do Sul
(ou Ao Sul, o abismo – ou a floresta)

Já teve vontade de sair voando? Basta chegar à beira dos precipícios espetaculares de fiordes como o famoso Milford Sound, cartão-postal da Nova Zelândia, para entender por quê o bungee jump só poderia mesmo ter nascido no templo natural dos maori.

 

Bungee Jump New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dona também de paisagens encantadoras como os glaciares de Franz Josef e Fox e as trilhas à beira-mar do Parque Nacional Abel Tasman, a ilha Sul tem vocação para esportes de natureza.

 

Cachoeira Milford Sound
Cachoeira em Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se os primeiros saltos de abismos começaram na ponte Kawarau, com 43 metros de profundidade, hoje as distâncias se multiplicaram: dá para saltar de 47 e de 134 metros, se lançar em pêndulos, fazer skydive.

 

Passeio de jet boat
Adrenalina no passeio de jet boat

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde 1965, adrenalina é palavra de ordem também no passeio de jetboat. “Aceleramos a 85 quilômetros por hora entre cânions de 40 metros de altura”, explica Wayne Paton, que em 2014 fez gritar de emoção naquelas águas azuis até o jovem casal real britânico, o Príncipe William e a Kate Middleton.

 

Neve Milford
Parada em topo de montanha nevada durante sobrevoo na região de Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A charmosa Queenstown, cercada por montanhas nevadas e que descansa à beira do lago azul Wakatipu, é a base para explorar desde os fiordes (de barco, de helicóptero ou em caminhadas de vários dias) até locações de O Senhor dos Anéis e O Hobbit.

 

Queenstown beira lago
Beira-lago na charmosa Queenstown

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao final de cada dia de atividade ao ar livre, amantes da natureza de todo canto do mundo transformam os 120 bares e restaurantes da pacata Queenstown em um pico de agito. E não se surpreenda se, no caminho da balada, você se deparar, como eu, com um grupo de neozelandeses gritando e simulando a haka na rua. É apenas o orgulho maori de ter nascido em uma terra tão especial.

bungy.co.nz
shotoverjet.com
milford-sound.co.nz

 

Garimpeiro Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INFO: newzeland.com; tourismnewzealand.com

FOTOS: Todas as fotos desse post foram produzidas por Daniel Nunes/@samesamephoto

 

Eagle's Nest Hotel
Vista da sacada de um único apartamento do Eagle’s Nets, em Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ONDE DORMIR:

Auckland: hilton.com
Bay of Islands: eaglesnest.co.nz
Rotorua: solitairelodge.com
Queenstown: matakaurilodge.com

Matakauri Hotel Nova Zelandia
Vista interna do hotel Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OUTRAS CURIOSIDADES:

Rúgbi ao vivo
A haka foi celebrizada internacionalmente graças às apresentações feitas mundo afora pela seleção neozelandesa de rúgbi, apelidada oficialmente de All Blacks. Se tiver oportunidade, assista ao vivo a uma partida do esporte número 1 do país. Em 17 de julho eles enfrentam a Argentina em Christchurch, e em 15 de agosto acontece o jogo contra a Austrália em Auckland.
allblacks.com

 

Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri
Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte maori no Brasil
O Brasil também viu ao vivo a exposição Tuku Iho – Legado Vivo, que já difundiu a arte maori na China e na Malásia, e que em 2015 está excursionando pela América Latina. Mais de oitenta peças esculpidas em materiais como madeira, bronze e pedra fizeram sucesso em Santiago, em Buenos Aires e no Rio de Janeiro.

Telas na República Checa
Depois de atrair 145 mil pessoas à Nationalgalerie, em Berlim, por cinco meses de 2015, a série de 44 retratos do povo maori pintados na virada do século 19 para o 20 pelo artista checo Gottfried Lindauer (1839–1926) chegou ao berço do artista. A exibição estará no West Bohemian Museum, em Pilsen, a cerca de 90 quilômetros de Praga, até 20 de setembro.
plzen2015.cz/en/

 

Helicóptero Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do alto é (ainda) mais bonito
A natureza neozelandesa dá um show quando vista de cima, em sobrevoos de helicóptero. Na Ilha Norte, a Salt Air sobrevoa as ilhas de Bay of Islands e pousa em uma rocha no meio do mar. A VolcanicAir leva desde Rotorua até o vulcão de White Island. E poucas cenas são tão lindas na vida quanto a que se vê no voo da Over the Top desde Queenstown até os fiordes de Milford Sound.
saltair.co.nz
volcanicair.co.nz
flynz.co.nz

Onde está o kiwi?
Engana-se quem pensa que os neozelandeses ganharam o apelido de “kiwis” por cultivarem a fruta homônima. Quem também tem esse nome é um pássaro bicudo que não voa e tem hábitos noturnos. Dificilmente alguém vê um deles fora de cativeiro (há alguns no Te Puia, o parque maori de Rotorua). A ilha Stewart, no extremo sul, é o melhor lugar pra encontrá-los soltos na natureza.

 

White Island em quadro
Ruínas em White Island

A pulsante cena artística de Nova York

As exposições, as performances e as obras de rua mais quentes da cidade que não dorme

Brooklyn Bridge Park em manhã de domingo (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Brooklyn Bridge Park em manhã de domingo (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Andar, andar e andar – e, quase que a cada passo, observar a beleza, o ineditismo e a criatividade de todo tipo de expressão artística. Basta flanar livremente pelas ruas de Nova York, especialmente quando é verão no Hemisfério Norte, para respirar criações geniais. Pode ser a escultura temporária das nuvens de Olaf Breuning no Central Park, os grafites nos muros de Williamsburg ou o mural do brasileiro Kobra diante da Highline: criações de artistas do mundo todo estão tanto ao ar livre como no hall dos hotéis, lojas e empresas, nas 600 galerias de arte, em uma centena de museus. Para facilitar a vida dos amantes da arte que visitam Nova York, TAM Nas Nuvens preparou um delicioso roteiro de dois dias aproveitando o que a cidade mais legal do mundo tem de inspirador em agosto.

Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Dia 1 – Sábado em Manhattan 10h30 – Um enorme banner com o rosto de Lígia Clark (1920-1988) de olhos vendados recepciona quem começa o dia visitando o prédio principal do MoMA, o mais importante museu de arte moderna e contemporânea do planeta. Sim, até 24 de agosto, a artista brasileira que se definia como não-artista brilha como o principal destaque desse museu que é, desde que nasceu em 1929, o mais essencial para quem busca acompanhar a vanguarda artística mundial. É bom chegar assim que o museu abre, às 10h30, para dar conta de conferir os quase 300 desenhos, pinturas, esculturas e obras interativas da mostra O Abandono da Arte. Realizado entre 1948 e 1988, o conjunto de obras parte da fase abstrata de Lígia, passeia pela neo-concretista e culmina com suas inovadoras peças interativas com propósitos terapêuticos – e que são o maior sucesso de público.

Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra de Lígia Clark em exibição do MoMA (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

12h30 – Se você resistir a migrar das salas de Lígia Clark para encher os olhos com a Noite Estrelada, de Vincent van Gogh, as Latas de Sopa Campbell, do novaiorquiníssimo Andy Warhol, entre tantos Picassos e Matisses do acervo de 150.000 peças, dê aquela pausa para o almoço. Os três restaurantes do MoMA estão entre os melhores da cidade: o informal Cafe 2 mistura os visitantes em mesas coletivas; o Terrace 5 serve menu completo e vinhos até nas mesas da varanda do quinto andar, que dão vista para o jardim de esculturas do térreo; e o requintado The Modern ostenta uma estrela Michelin que atrai gourmets também por uma porta exclusiva, que dá para a rua, até 23h às sextas e sábados.

As Nuvens, obra pública no Central Park (foto de Gabriel Rinaldi www.gabrielrinaldi.com)
As Nuvens, obra pública no Central Park (foto de Gabriel Rinaldi www.gabrielrinaldi.com)

14h – Caminhar pelo Central Park, o gigantesco quadrado verde no coração da ilha de concreto, é a forma mais gostosa de fazer digestão. Na esquina sudeste do parque, onde a 5a Avenida exibe outro quadrado, os das paredes transparentes da Apple Store, repare na obra Nuvens, com seis balões azuis criados pelo artista suíço radicado na cidade Olaf Breuning. Até 24 de agosto, esta é uma das dezenas de obras públicas espalhadas para trazer graça e ludicidade às ruas das cinco regiões da cidade: Manhattan, Brooklyn, Bronx, Queens e Statent Island.

Exposição de Adriana Varejão visitada em Art Walking Tour no Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Exposição de Adriana Varejão visitada em Art Walking Tour no Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

15h30 – Hora de seguir o caminho do oeste, onde o bairro do Chelsea concentra nada menos que 300 das cerca de 600 galerias de arte da cidade. Para facilitar a vida de quem não sabe em qual das tantas portas entrar, o professor Ph.D. Rafael Risemberg criou há 12 anos um art walking tour que seleciona aquelas que, por seus critérios, abrigam as mais inovadoras exibições do momento. “Vou a dezenas de novas exposições a cada dia para fazer minha curadoria de quais serão aquelas que visitaremos por cerca de duas horas”, orgulha-se o argentino radicado na cidade. Os tours da sua New York Gallery Tours se multiplicaram: há um só para o Lower East Side e outro específico sobre arte LGBT, por exemplo. Entre os participantes de cada grupo há colecionadores verdadeiramente interessados em adquirir obras de milhões de dólares expostas em galerias de prestígio como Gagosian (considerada a principal rede de galerias de arte do mundo, com quatro unidades em Nova York), David Zwirner e Pace (que representa o brasileiro Vik Muniz e também tem quatro espaços na cidade).

Imagem de Kobra vista a partir da Highline (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Imagem de Kobra vista a partir da Highline (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

17h30 – É quando se aproxima o pôr-do-sol que muitos pedestres do Chelsea costumam subir para a High Line, a aposentada via férrea elevada que tem se transformado, desde 2009, em um parque urbano serpenteando desde a altura da rua 13 até, por enquanto, a rua 30. Além dos jardins suspensos e de trechos onde é possível caminhar descalço em uma poça de água corrente, a High Line se transformou em uma das atrações mais visitadas da cidade. Afinal, tem acesso gratuito, fica aberta até 23h e abriga ao menos dez obras de arte temporárias. “Nosso sucesso acabou atraindo novos prédios de arquitetura moderna e peças de arte independentes também para o entorno do parque”, orgulha-se a italiana Cecilia Alemani, curadora artística do local. Uma das obras não-oficiais da High Line é o mural O Beijo, do paulista Eduardo Kobra. Ele passou duas semanas nas escadas preparando essa releitura da foto de Alfred Eisenstaedt, que mostra um marinheiro beijando uma moça na Times Square, em 1945, durante a celebração do fim da Segunda Guerra Mundial. “Essa virou minha obra mais fotografada”, celebra Kobra, que ama andar por Nova York buscando novos muros para pintar. 20h – Entre tantas expressões artísticas que entretém moradores e visitantes na noite novaiorquina – como os shows do Carnegie Hall, os concertos do Lincoln Center, os tantos festivais de cinema e todos os musicais da Broadway –, um gênero em especial anda em voga: os jantares com performances. Em cartaz desde dezembro,  o Queen of The Night deixa boquiabertos todos os 220 convidados que vestem traje de gala, como manda o protocolo, para jantar com a rainha. Mistura de cabaré com circo, dança e balada, o espetáculo obriga os comensais a seguir os 31 artistas performáticos pela casa antes que seja servida a farta – e saborosa – refeição, em meio a drinks e vinhos. Ao longo de 3 horas, nada menos que 300 performances individuais acontecem no Diamond Horseshoe, um salão de eventos de 1938 cercado pelos teatros da Broadway.

Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Espetáculo The Queen of The Night (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

23h – Caminhar em meio aos psicodélicos neons da Time Square é “o” programa para depois do espetáculo – além de um estimulante esquenta para quem quiser estender a noite nos bares e clubes de bairros como Village e Hell’s Kitchen. DICA: Pertinho do MoMA ficam restaurantes favoritos dos gourmets: no 21, jóqueis e outros amantes dos cavalos se reúnem sob o fantástico teto forrado de brinquedos (reserve e fique atento ao dress code). Já o vizinho hotel Le Parker Meridien esconde, atrás das cortinas vermelhas da recepção (e vizinhos a uma pintura do inglês Damien Hirst) os premiados hambúrgueres do Burger Joint. DICA: O walking tour de artes pelo Chelsea do qual a equipe da TAM Nas Nuvens participou, em junho, incluiu, entre as sete galerias, duas que tinham mostras de artistas do Brasil. Polvo, de Adriana Varejão, era o destaque da Lehmann Maupin, enquanto na Luhring Augustine acontecia a exposição La Voie Humide (A Via Úmida), de Tunga – que estava presente e até falou um pouco sobre suas obras.

Encontro não-planejado com Tunga durante Art Walking Tour pelo Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Encontro não-planejado com Tunga durante Art Walking Tour pelo Chelsea (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

DICA: Na High Line, conhecemos Faith Ringgold, uma artista de 83 anos que visitava pela primeira vez sua obra temporária na via elevada. “Vim mostrar para minha família esta ampliação do meu quadro Groovin High, que pintei em homenagem à noite do bairro do Harlem nas décadas de 1940 e 50, quando eu me divertia com vizinhos famosos como os músicos de jazz Duke Ellington e Sony Rollins.”

Rosetta, instalação científica exposta no Brooklin Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Rosetta, instalação científica exposta no Brooklin Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Dia 2 – Domingo no Brooklyn 10h – Que tal cruzar a Ponte do Brooklyn – seja a pé, de bike ou de metrô – para aproveitar o domingo de verão ao ar livre? Do lado de lá, o bairro mais populoso de Nova York exibe o Brooklyn Bridge Park, inaugurado em 2010 sob as pontes do Brooklyn e de Manhattan e com vista para a ilha. Beirando o Rio East com gramados verdinhos, um lindo carrossel e 6 píers transformados em quadras – de futebol, basquete, vôlei… ­–, ele virou palco também de instalações temporárias curiosas – como a réplica do cometa Rosetta, exposta como parte do Festival Mundial de Ciências, no início de junho – e de obras de arte públicas. Até dezembro, um dos 250 pedaços de uma réplica da Estátua da Liberdade feita de cobre pelo artista vietnamita Danh Vo fica em exposição diante do ícone-original que lhe deu origem. Outro fica dessa série chamada We the People fica no City Hall, em Manhattan, e o restante está em 15 países. O escultor usou as técnicas de construção da estátua-mãe, de 1886.

Obra pública We The People exposta no Brooklyn Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Obra pública We The People exposta no Brooklyn Bridge Park (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

11h – Domingo em Nova York é dia de brunch, e um famoso acontece nessa região cheia de galerias de arte chamada Dumbo (o nome vem de Down Under the Manhattan Bridge): o Superfine. Decorado por artistas locais, com mesa de sinuca e jazz ao vivo, ele costuma deliciar os frequentadores com seu menu de inspiração mediterrânea (e à noite fica aberto até 4h da manhã).

Banda tocando jazz no Superfine (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Banda tocando jazz no Superfine (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

14h – Se o passeio guiado pelas galerias de arte do Chelsea costuma juntar uns 50 endinheirados moradores de meia-idade de Manhattan, o walking tour para explorar a arte de rua do Brooklyn aglomera uma tribo diferente: uns 10 ou 20 jovens estudantes interessados em acompanhar as tendências desse efervescente pólo artístico. Acontece em Williamsburg, que na última década tornou-se a vizinhança mais hype do Brooklyn, uma caminhada de quase 2 quilômetros e 1h30 fotografando trabalhos efêmeros de artistas como Cernesto, Dain e ROA. “Ensinamos o público a diferenciar grafittis e arte de rua, lambe-lambes e stencils, assim como a reconhecer as assinaturas e adesivos dos autores”, conta Gabriel Schoenberg, guia e sócio-proprietário da Graff Tours.

Grafitti em Williamsburg visitado durante walking tour (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Grafitti em Williamsburg visitado durante walking tour (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

16h30 – Quem estiver em Nova York até 10 de agosto tem um motivo a mais para conhecer o Museu do Brooklyn, um dos maiores e mais antigos do país (foi inaugurado em 1895): ver os últimos dias da exposição do polêmico artista chinês Ai Weiwei, According to what? Entre as 40 peças estão objetos, instalações e esculturas que criticam o governo chinês, lembram os 81 dias do artista preso em 2011 e apresentam os 15 vasos da dinastia Han sobreviventes da série Vasos Coloridos: o 16o, com 2.000 anos e avaliado em 1 milhão de dólares, foi quebrado por um visitante da mesma exposição quando ela esteve no Pérez Art Museum, de Miami, em fevereiro. O artista dominicano autor do protesto quis reproduzir uma performance do próprio Ai Weiwei, que também quebrara um vaso antes.

Peças da exposição de Ai Weiwei no Museu do Brooklyn (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Peças da exposição de Ai Weiwei no Museu do Brooklyn (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

18h – O Museu do Brooklyn faz parte do complexo do Jardim Botânico, do Zoológico e do Prospect Park, que podem compor um bom passeio de dia inteiro. A melhor parada para comer, no entanto, é uma só: o restaurante Saul. A casa do chef Saul Bolton se mudou para dentro do Museu do Brooklyn em 2013 depois de 14 anos no bairro. Sua cozinha contemporânea ostenta uma estrela Michelin. 20h – Um programa de verão bem novaiorquino é trocar o escurinho do cinema pelas telonas ao ar livre. Alguns pontos de Manhattan, como o Bryant Park e o Pier I, ganham centenas de cadeiras para que a sétima arte seja exibida gratuitamente sob plátanos, estrelas e arranha-céus. Mas há um charme todo especial quando os filmes são exibidos no terraço de prédios seculares da cidade, como no da The Old American Can Factory, no Brooklyn. Ainda que pagas, as sessões organizadas há uns 10 anos pela turma do Rooftop Films são um sucesso. Os 45 filmes da agenda 2014 têm abertura de bandas e – algo que não acontece nos cinemas – costumam acabar em balada, com DJs, VJs e venda de drinks. É um jeito original de encerrar os dois dias de circuito artístico da cidade que não para.

Filme exibido no festival Rooftop Films, que acontece no verão (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Filme exibido no festival Rooftop Films, que acontece no verão (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

DICA: Prefere um piquenique à beira-rio? Então caminhe pelo Brooklyn Bridge Park até o píer 5, onde os domingos de verão recebem o Smorgasburg, uma das feiras gastronômicas mais bacanas da cidade. Ela reúne cerca de cem barracas que vendem comida de todo o mundo – de falafel a empanada, de injera etíope a yakissoba. Aos sábados, ela migra para o East River State Park, em Williamsburg. DICA: Com Williamsburg entrando para o mainstream, os preços subiram e muitos artistas migraram para a vizinhança de Bushwick, novo polo de arte de Nova York. No verão, centenas de designers, músicos e performers abrem seus ateliês para visita no Bushwick Open Studios. Mesmo fora dos fins de semana de eventos, o lugar anda efervescente como a Williamsburg de dez anos atrás. DICA: Os jovens novaiorquinos dessa região do Brooklyn ganharam em janeiro uma diversão noturna inusitada: o primeiro lugar da cidade para jogar shuffleboard. Espécie de bocha popular entre os aposentados da Flórida, o jogo ganhou um público descolado no The Royal Palms. O lugar tem um bar bacana e oferece “food truck” de qualidade em um caminhão estacionado ali dentro do bar.   BOX NY: Nos arredores, Dia:Beacon e Storm King

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Obra de Richard Serra exposta na galeria Dia:Beacon (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

A deliciosa combinação de arte e natureza pode ser feita no entorno da cidade para quem tem um ou dois dias a mais: as visitas ao Dia:Beacon e ao Storm King. Desde 2003 o primeiro deles tem transformado a rotina da pequena cidade de Beacon, que fica a 1h20 de trem da Central Station de Manhattan. Só a viagem beirando o Rio Hudson já vale o passeio (compre a passagem integrada com o ingresso do museu e peça, na ida, um assento do lado esquerdo do vagão, com vista deslumbrante). Instalado no prédio de 1929 de uma antiga fábrica dos biscoitos Nabisco que foi reformado para abrigar galerias bem iluminadas, este minimalista museu de arte contemporânea apresenta obras de artistas como Donald Judd e Richard Serra. Do outro lado do rio, em Mountainville, fica o Storm King Art Center, com mais de 100 esculturas ao ar livre no estilo do museu de Inhotim. Dá para chegar ali descendo na estação de Salisbury Mills depois de 1h de trem a partir da Penn Station de Manhattan. É possível comprar um passeio que inclui, além do ingresso e da passagem de ônibus, uma parada nos outlets de Woodbury. Quem estiver de carro pode visitar os dois museus no mesmo dia.   SERVIÇO:   Como se programar: nycgo.com   Onde ficar:

Recepção do Hotel Le Parker Meridien com obra de Demien Hirsch
Recepção do Hotel Le Parker Meridien com obra de Damien Hirst (foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

  Le Parker Meridien 119 West 56th Street parkermeridien.com (B D E F N Q R)   The Surrey 20 East 76th Street thesurrey.com (4 5 6)

Hotel The Surrey (com foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)
Retrato de Kate Moss feito por Chuck Close e exposto no hall do hotel The Surrey (com foto de Gabriel Rinaldi, www.gabrielrinaldi.com)

Onde comer 21 21 West 52nd Street 21club.com (E M F B D)   Burger Joint (Le Parker Meridien Hotel) burgerjointny.com (B D E F N Q R)   Café 2/ Terrace 5 (MoMA) momacafes.com (E M F B D)   Saul (Brooklyn Museum) saulrestaurant.com (2 3 4)   Smorgasburg (feiras gastronômicas) smorgasburg.com   Superfine 126 Front Street, Brooklyn Tel. (1) 718 243-9005 (F)   The Modern (MoMA) themodernnyc.com (E M F B D)   O que fazer: Broadway www.broadwaycollection.com (N Q R A C E B D F M)   Brooklyn Bridge Park brooklynbridgepark.org (F R 2 3 A C)   Brooklyn Museum 200 Eastern Parkway,
Brooklyn brooklynmuseum.org (2 3 4)   Carnegie Hall 881 7th Avenue carnegiehall.org (N Q R F)   Cinema nos parques nycgovparks.org/events/free_summer_movies   David Zwirner Gallery davidzwirner.com   Dia:Beacon diaart.org   Gagosian Gallery gagosian.com   Graff Tours (tours de street art) grafftours.com   Lincoln Center 10 Lincoln Center Plaza lc.lincolncenter.org (1 2 A B C D)   Pace Gallery pacegallery.com   Public Art Fund publicartfund.org   New York Gallery Tours nygallerytours.com   MoMA 11 West 53 Street 
 moma.org (E M F B D)   Rooftop Films rooftopfilms.com   Storm King Art Center stormking.org   The Highline thehighline.org (L A C E)   The Queen of the Night Diamond Horseshoe (Paramount Hotel) 235 West 46th Street queenofthenightnyc.com (N Q R A C E)   BOX 2 Pingue-pongue Eduardo Kobra, autor do mural O Beijo, diante da Highline –       Como surgiu seu mural na Highline? Em 2012, uma galeria do Brooklyn me convidou para pintar outro muro da cidade. Mas aí o proprietário desse prédio do Chelsea nos autorizou pintar nesse espaço sensacional diante da Highline de Manhattan. Passei duas semanas trabalhando em escadas enormes, pois o prédio é tão antigo que não seria seguro usar andaimes ou balancinhos. –       Então esta não é uma obra oficial comissionada pela Highline? Não, mas já foi compartilhada pelas redes oficiais da Highline. Muita gente passa ali e comenta sobre o mural. Tenho trabalhos em várias partes do mundo, já expus em Nova York, sou representado pela galeria Unix Art, ali no Chelsea. Mas nenhum trabalho meu foi tão fotografado como este. –       Como é ter uma obra tão popular em uma cidade como Nova York? Sensacional. Nova York é uma cidade icônica no universo do grafitti e da street art, com trabalhos que muito me influenciaram. Meu plano agora é pintar 10 murais em diferentes pontos da cidade. Adoro ficar passeando para escolher quais serão meus próximos muros. – Por que você escolheu esta imagem? Gosto de fazer releituras de imagens antigas e a Times Square sempre me impressionou. “O Beijo” é uma versão daquela famosa foto de Alfred Eisenstaedt que mostra um marinheiro beijando uma moça na Times Square, em 1945, durante a celebração do fim da Segunda Guerra Mundial. __________________________________________________  Código de Ética Same Same: Esta reportagem foi publicada originalmente na Revista TAM Nas Nuvens do mês de agosto de 2014. Os hotéis Le Parker Meridien e The Surrey nos ofereceram diárias de graça. Jantamos como convidados no Restaurante 21.

Kerala é uma doce “India for beginners”

Gente demais, sujeira demais, barulho demais, assédio demais, informação demais. Se você tem o desejo de conhecer a Índia mas tem receio de se incomodar com essa dura realidade do país, comece por Kerala.

 

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Meu segundo, terceiro e quarto dias estreando nesta tripa de terra que se alonga pelo sudoeste indiano chamada Kerala foram suficientes para eu ter uma primeira impressão radicalmente diferente daquele que experimentei dez anos atrás. Aqui a Índia te recebe sorrindo. O clima de praia deixa todo mundo zen. As pessoas te cumprimentam simpaticamente nas ruas sem querer nada em troca. O excesso de informação visual está aqui como em todo o resto do país – são muitos templos, tuc-tucs, pessoas de testa pintada vestindo roupas coloridas –, mas sem aquela sensação de overdose comum especialmente nas metrópoles do centro e do norte.

 

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Em 2004, Nova Dehli me recebeu com o trânsito mais assustadoramente caótico e barulhento da minha vida (eu ainda não tinha conhecido o Cairo). As ruas eram abarrotadas de lixo, turistas com cara de gringo como eu eram objeto de todo tipo de assédio. Ao final de quase dois meses explorando o Norte (Agra, Varanasi e cidades do Rajastão), terminei a trip em Mumbai (depois de dar um pulo em Goa e no Nepal) incomodado com os mendigos que puxavam meu braço pedindo esmola e os travestis implorando por comida porque são párias excluídos da sociedade.

 

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O lixo e as buzinas também existem nos lugares onde passei até agora, as cidades de Trivandrum, Kovalam, Varkala, Kollam e Kumarakon. Mas a beleza do cenário e o ambiente relaxado fazem o estrangeiro se acostumar com isso rapidamente. Há boas razões para eles serem tão agradáveis. Estamos no estado mais bem-educado do país: 93% dos habitantes sabem ler e escrever. O fato de ter se desenvolvido em meio a mercadores de especiarias e de marfim vindos de toda parte – chineses, árabes, romanos, portugueses… – há mais de 3.000 anos a deixou cosmopolita, acostumada com as diferenças, e pacífica. “No norte, o histórico deixou as pessoas mais duras”, me explicou o sábio Anil Kumar, gerente do Coconot Lagoon, um  rústico (e delicioso) hotel quatro estrelas à beira do rios de Kumarakon. O jantar com ele ontem foi uma aula de história e cultura indianas. E o hotel tem encantadores bangalôs de madeira (com banheiro ao ar livre, sem teto!) diante do lindo lago Vembanad.

 

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Ontem passamos a tarde passeando de barco pelos canais de Kumarakon, vendo a singela vida dos ribeirinhos e conhecendo lindas experiências de turismo comunitário que sustentam 7000 pessoas no estado. Daqui a pouco sigo para mais uma massagem ayurvédica – não vejo a hora – e passaremos a próxima noite embarcados em um dos luxuosos “boat houses” pelas backhouses.

Se eu fosse vocês, não perderia o próximo post.

 

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Código de Ética SS:

Viajei a convite do Kerala Tourism após ficar em 23o lugar entre os bloggers de viagem mais votados do mundo (entre 600 inscritos) no concurso Kerala Blog Express. Os destinos, hotéis e restaurantes ofereceram seus serviços de graça.

Esta viagem não teria acontecido sem o patrocínio da Ethiopian Airlines (www.ethiopianairlines.com), recém-chegada ao Brasil, e que bancou as passagens aéreas entre São Paulo e Mumbai, via Addis Ababa, na Etiópia.

Cara a cara com a Tanzânia selvagem

Eram 19h30, início de uma noite seca de junho. As savanas amareladas do Parque Nacional Serengeti, maior reserva natural da Tanzânia, davam lugar ao breu entre rugidos e uivos misteriosos. Os veículos de safári já tinham levado os visitantes de volta para os únicos quatro hotéis do parque e os funcionários que haviam terminado o expediente se trancavam em suas casas, nas isoladas vilas de empregados construídas a 1 quilômetro de cada hotel. Foi quando, despretensiosamente, o camareiro Leonce Marmo, 30 anos, quebrou a regra que proíbe qualquer caminhada naquela área inóspita. Cansado do confinamento causado pela ameaça real dos animais selvagens, Marmo foi visitar o alojamento dos motoristas de safári. ”Fica muito perto, a poucas centenas de metros da vila“, conta o guia Allawi Ally, 45 anos, que é quem narra o episódio. Quando o camareiro voltava para casa, aconteceu a tragédia: uma elefanta surgiu no caminho e, assustada diante da ameaça ao filhote que protegia, atacou o homem. Furou a barriga de Marmo com uma de suas presas, quebrou a perna direita dele ao atirá-lo ao chão e sumiu na escuridão. Internado em estado grave até hoje, Marmo sentiu um pouco do gosto cru da morte. Não como vítima de um crime ou de um acidente repentino do mundo civilizado, mas de um ciclo natural pela sobrevivência, no qual o homem é tão bicho quanto a hiena que devora uma gazela ou a zebra que foge do leão faminto. Nos rincões deste país do mais selvagem continente do planeta, o dia-a-dia se mostra assim, frio, visceral. Cruel.

Masai vestida com roupa típica (foto de Gilvan Barreto, www.gilvanbarreto.com)

 

O dia seguinte se passou pacato como todos os outros na região entre o norte da Tanzânia e o sul do Quênia, principal destino dos safáris na África. Por volta das 6 horas da manhã, quando o sol dourou as acácias, os visitantes surgiram pontilhando a savana. Protegidos por jipes robustos, eles chegaram com câmeras e binóculos para praticar o suave exercício de tiro ao alvo que pouco tem a ver com esta realidade selvagem. No Serengeti e nas reservas vizinhas de Ngorongoro, Lago Manyara e Tarangire, homens e mulheres de roupa cáqui e chapéu de Indiana Jones desfrutam o dia como voyeurs, de prazer quase sádico, vendo outras formas de vida lutar, dormir, copular e matar em busca de alimento.

Com a simpatia e a informalidade naturais dos tanzanianos, os 100 funcionários do Hotel Seronera disfarçaram o susto causado pelo acidente com Leonce Marmo. Pudera. Eles se acostumaram aos perigos daquele fim de mundo onde foram morar em busca de trabalho e dinheiro, uma vila de 400 parentes de funcionários do hotel distante 300 quilômetros de Arusha, a cidade grande mais próxima. Nos outros três hotéis do Serengeti, a realidade é a mesma: enquanto os turistas se divertem com o safári, o povo teme os animais. Três anos atrás, um funcionário do vizinho Sopa Lodge foi atacado por um búfalo, deixando a mesma sensação de que a vida humana é frágil demais neste território, onde um leão ataca outro da mesma espécie apenas porque teve seu espaço invadido.

Considerado patrimônio da humanidade e reserva da biosfera, o Serengeti nasceu em 1951 como o primeiro parque nacional da Tanzânia e foi primordial para fazer com que o turismo se tornasse a principal fonte de renda do país. Ameaçando a tradição dos parques do Quênia e da África do Sul, mais estruturados, o Serengeti atraiu 115000 visitantes no ano passado, o dobro de uma década atrás. O número cresce porque o safári em seu imenso altiplano de 15000 quilômetros quadrados é menos turístico e porque brilha como palco da migração de mais de 1 milhão de gnus, um dos maiores espetáculos do mundo selvagem. Todos os anos os gnus deixam as planícies do Serengeti nos meses de seca, junho e julho, e galopam em fila indiana rumo ao bom pasto e às reservas de água do Quênia, mais de 1000 quilômetros ao norte.

De lá eles só saem entre outubro e novembro. Com as fêmeas prenhas, os gnus voltam para o Serengeti em busca das chuvas que tornam verdinha a savana e à espera do tempo da reprodução, em fevereiro, quando chegam a nascer 8000 gnuzinhos por dia. Curiosamente, 200000 zebras acompanham os gnus caminhando lentamente em uma fila paralela, enquanto 400000 antílopes pastam, soltos, próximos às duas filas. Com um poder de visão aguçado, as zebras fogem rapidamente sempre que avistam um predador. Os gnus, que enxergam mal, as seguem e muitas vezes conseguem se safar. Ruminante estranho, meio boi, meio cavalo, o gnu retribui mostrando às amigas listradas os melhores lugares para pastar e beber água. ”Eles sentem o cheiro da chuva a 200 quilômetros de distância“, diz o guia Allawi Ally, que repetiu mais de cinqüenta vezes, nos últimos doze anos, o roteiro de Arusha ao Serengeti.

Arusha, 500 000 habitantes, é o centro geográfico do continente africano e ponto de partida para visitar o Serengeti e as outras reservas do norte da Tanzânia, inclusive o Parque Nacional Kilimanjaro, que abriga a maior montanha da África. Chamado de ”Kili“, este vulcão de 5895 metros de altura, que não pertence a nenhuma cordilheira, exibe um cume central sempre nevado em meio à extensa planície árida da Tanzânia, 3 graus ao sul da Linha do Equador e na fronteira com o Quênia. Das 10500 pessoas que fazem trekking aqui anualmente, só 40% sobem algum dos três picos.

Na rota de Arusha ao Serengeti, por estradas de terra e sem acostamento, os jipes podem ir a dois pequenos parques nacionais. O Tarangire, a 75 quilômetros de Arusha, famoso por sua grande população de elefantes, e o Lago Manyara, a 115 quilômetros da mesma cidade, repleto de aves e de baobás (a árvore do livro O Pequeno Príncipe) de 300 anos. Aqui, abismos de 200 metros anunciam o famoso Vale do Rift, fenda de 6 500 quilômetros que corta a África – preenchido, neste trecho, pelo lago azul que dá nome ao parque.

Arca de Noé. Como um tapete amarelo sem fim, a savana enche a paisagem com suas árvores baixas e esparsas até que surge Ngorongoro, cratera de um vulcão extinto habitada por 20000 bichos e considerada uma das maiores preciosidades ecológicas do mundo. Com 264 quilômetros quadrados, esse buraco circular de nome sonoro só pode ser bem visualizado do alto da crista da serra formada por sua boca, distante 16 quilômetros da borda oposta. Parte de um complexo de nove vulcões que vêm se transformando há 4 milhões de anos, o Ngorongoro tinha a altura do Kilimanjaro e, ao entrar em erupção, seu interior foi afundado. O tempo se encarregou de transformar seu fosso de 600 metros de profundidade num saudável pasto cheio de bichos, onde caberia a cidade pernambucana do Recife e onde a cadeia alimentar se sucede harmoniosamente.

Uma estradinha estreita desce até o fundo do Ngorongoro e outra sobe, permitindo que até 200 veículos de safári circulem ao redor do lago interno nos dias de alta temporada. Curioso é que, com exceção dos elefantes, que sobem até a crista para copular, nenhum outro bicho sai de dentro dessa espécie de arca de Noé contemporânea. Embaixo, o resultado da caçada animal de todos os dias é a série de esqueletos e carniças rodeados por marabus, espécie de urubu com jeitão de tuiuiú. Apesar da proibição da caça na região, o vulcão é ameaçado por caçadores até hoje – principalmente os somalis, loucos por presas de marfim dos elefantes e chifres de rinoceronte. A proteção vem dos guardas, que trabalham até de noite na área de conservação criada aqui, e da lei, que impediu que os 40000 masais da região continuassem levando seu gado para pastar na cratera.

Quase tão exóticos e selvagens quanto os animais, os masais são os moradores mais comuns do gigantesco corredor ecológico de 25000 quilômetros quadrados que liga sete reservas da região, do Serengeti, na Tanzânia, ao Parque de Masai Mara, no sul do Quênia, numa extensão equivalente ao Estado de Sergipe. Negros esguios vestidos com batas vermelhas para espantar os leões, os masais vivem migrando em busca de bom pasto para seu gado. ”Nosso povo nasceu no Egito há 700 anos“, explica Mbirias Oleketto, 42 anos, um masai que fala inglês, usa relógio e atua como relações-públicas da aldeia Seneto Manyata, a mais próxima da borda do Ngorongoro – e, por isso mesmo, a mais turística. Eles vendem artesanato de miçanga colorida e cobram absurdos 50 dólares de cada um dos quinze carros que se aproximam por dia, enquanto cantam e saltam com as pernas estendidas a até 1 metro do chão – uma tradição mantida apenas para gringo ver.

Vacas valiosas. Na vida real, estes nômades adeptos da poligamia só cantam em casamentos, quando oferecem vacas ao futuro sogro em troca da mão da noiva. É na compra do gado, por sinal, que eles gastam o dinheiro que ganham. Mbirias Oleketto pagou três vacas por cada uma de suas duas mulheres. Elas vivem separadas em duas das 25 choupanas construídas com esterco de vaca grudado em armações de madeira.

A disposição das casas, escuras e cheias de moscas, é sempre a mesma, circular e com um cercado para o gado. Os hábitos selvagens não param por aí: os masais bebem o sangue da caça misturado com leite, além de os meninos das aldeias mais tradicionais precisarem matar um leão para entrar na vida adulta. Detalhe: eles não têm doenças. “As ervas resolvem nossos problemas”, diz Oleketto, um negro forte que parece ter adquirido todos os anticorpos necessários para viver sem banho por dias.

A bravura dos masais e dos tanzanianos que vivem neste lugar foi herdada dos mais antigos ancestrais. Foram achadas no sítio arqueológico de Olduvai Gorge, 30 quilômetros antes do Serengeti, ossadas de dinossauros e os restos do Australopithecus afarensis, que viveu há 3,6 milhões de anos, considerado até dezembro último o primeiro hominídeo bípede do mundo (ver seção Volta ao Mundo), como se vê no pequeno museu que funciona no local.

Basta passar sob a placa que separa a reserva de Ngorongoro da do Serengeti para que búfalos, avestruzes e girafas surjam ao lado da pista. Todas as manhãs, eles deixam seus esconderijos noturnos em busca de água e alimento. Carnívoros como hienas e guepardos são observados enquanto rondam as vítimas que virarão o banquete do dia. Nos passeios diários no Serengeti, que percorrem em média 150 quilômetros, não se passam cinco minutos sem avistar um animal, principalmente nos arredores do Rio Seronera, oásis da bicharada. O último censo do parque, no início do ano, apontou a existência de 530 espécies de pássaros e 28 de animais terrestres, entre eles as cinco mais admiradas, que fazem parte dos “big five”: búfalo, leão, elefante, rinoceronte e leopardo. Só para se ter uma idéia, foram contados 21500 búfalos terrestres, 1600 elefantes e 6200 girafas. “Os mais ameaçados de extinção são o cachorro-do-mato e o rinoceronte, raríssimos”, diz Pius John, chefe dos guardas florestais.

Bicho via rádio. Os guias se orgulham de sua habilidade para ver, de longe e sem binóculo, qual bicho está vindo e o sexo. Pequenas curiosidades sobre cada animal vão sendo contadas à medida que eles se aproximam, ignorando a presença do carro. As girafas se alimentam de plantas cheias de espinhos e não machucam a língua – longa o suficiente para dar uma volta na cabeça humana. Os macacos babuínos adoram reunir-se no alto das árvores para assistir ao incrível pôr-do-sol africano. O crocodilo-do-nilo, maior carnívoro do Serengeti, pode viver até um ano (dos seus 100 de vida!) sem comer. Quando chove, quase todos se protegem, os felinos em especial. Em seguida, é melhor procurá-los nos kopjes, montes de pedras com 4,5 bilhões de anos que acumulam água e alimento e que quebram a monotonia da planície. A única alternativa de passeio, além da observação de animais, é a visita aos kopjes com inscrições masais do século passado.

A preferência dos viajantes, no entanto, é ver de perto todos os animais possíveis. Se faltar algum, basta pedir que o guia entre em contato por rádio com os outros carros para saber em que ponto daquela imensidão há, por exemplo, uma família de leopardos dando sopa, como se esperassem para ser fotografados. Melhor retrato da África natural, o Serengeti é, de fato, uma espécie de zoológico sem grades. Um lugar onde a caçada dos bichos carnívoros, o perigo da subida ao Kilimanjaro, os hábitos animalescos da tribo masai e até a agressão de um elefante a um homem são apenas acontecimentos corriqueiros da Tanzânia selvagem.

(fim do texto principal)

 

País de paz

Diferentemente de grande parte das 53 nações africanas, a Tanzânia não vive problemas como guerra civil, miséria, epidemias ou conflitos raciais e religiosos. Pelo contrário, o governo atua como mediador e abriga refugiados de nações vizinhas como Burundi e Ruanda. Influenciada pelo domínio de árabes, portugueses, alemães e ingleses no passado, a população de 32 milhões de habitantes se divide em três grupos religiosos do mesmo tamanho: cristãos, muçulmanos e adeptos de crenças tradicionais africanas. O principal responsável pela paz e pela adoção da língua suaíle entre as 120 tribos de negros nativos foi o presidente Julius Nyerere, falecido em 1998, tão reverenciado em sua pátria como Nelson Mandela na África do Sul e tão revolucionário quanto Fidel Castro foi em Cuba. Em 1961, quando era presidente, Nyerere conquistou a independência de Tanganica, nome do país enquanto era colônia do Reino Unido e não havia anexado a Ilha de Zanzibar. Foi quem implantou o socialismo africano, criando comunidades rurais e melhorando a educação e a saúde – apesar do regime de partido único. Suportado por países como China e União Soviética, o socialismo durou até a década de 80. Nyerere governou por 25 anos, até 1986, mas permaneceu como o político mais importante da Tanzânia até 1990.

 

Rota mais curta

É mais fácil chegar a Arusha a partir de Nairóbi, capital do Quênia, 277 quilômetros ao norte, que de Dar es Salaam, maior metrópole e antiga capital da Tanzânia, 700 quilômetros ao sul. A atual capital é Dodoma.

 

PARA QUANDO VOCÊ FOR

Chegar lá

A South African Airways (tel. 0800 118383) oferece dois vôos semanais (por 1700 dólares) ligando São Paulo a Joannesburgo, na África do Sul, com extensões para a Tanzânia e o Quênia. O visto é obtido lá e custa 20 dólares em cada um dos três países. De Nairóbi até Arusha viajam-se três horas de ônibus.

Hotéis caros

Tanto os dez lodges, hotéis de safári com diárias de 200 dólares (como o Lake Manyara Lodge, foto abaixo), quanto os trinta campings de luxo espalhados por Serengeti, Ngorongoro (na foto à esq., a entrada do parque) e Lago Manyara têm preços salgados. Nos dez campings públicos, que ficam nos arredores do parque, como em Mto Wa Mbu, pagam-se 20 dólares por dia, mas é preciso contratar os serviços de safári.

Vá em julho

Prefira viajar em junho e julho, quando não chove e os gnus estão migrando para o Quênia. As chuvas curtas, de outubro a dezembro, e as chuvas fortes, entre fevereiro e maio, assustam os animais. Prefira a seca para subir o Kilimanjaro. Se precisar de um guia, procure Silvano Hamisse (siladv@yahoo.com).

Dinheiro vivo

Com girafas desenhadas nas notas (à dir.), a moeda local é o xeling tanzaniano. Um dólar americano vale 800 xelings. Você vai precisar de 9600 xelings, ou 24 reais, para comprar o lanche mais barato nos lodges.

Aula de suaíle

Embora quase todos entendam inglês, você conquistará amigos se aprender um pouco de suaíle, língua meio árabe, meio africana, oficial do país:

Jambo = olá, tudo bem?

Salama = bem

Tafadhali = por favor

Samahani = desculpe-me

Asante = obrigado

Karibu = bem-vindo

Sem economia

Agências como a Highland (tel. 0800 558667), a Mundus (tel. 0_ _11/289-9786) e a GPS (tel.0_ _11/3088-1311) oferecem pacotes: quinze dias na Tanzânia não custam menos de 4300 dólares. Quem for por conta pagará cerca de 300 dólares por dia de safári em agências como a Leopard Tours (www.leopard-tours.com), que tem 120 jipes. Cada dia de escalada ao Kilimanjaro custa 100 dólares.

Cuide do corpo

A vacina contra a febre amarela deve ser tomada com oito dias de antecedência. Não ingira as pastilhas contra a malária, agressivas ao organismo. Beba apenas água mineral e evite os sucos e as saladas.

Dica do autor

”Em todo canto alguém vai lhe pedir um trocado. Leve canetas para presentear as crianças: é o agrado que faz com que se sintam mais valorizados. E tenha sempre à mão uma nota de 1000 xelings (pouco mais de 1 dólar), para dar de gorjeta aos carregadores de bagagem e às pessoas que você pretende fotografar.“

Daniel Nunes Gonçalves