Qual a sua praia do verão?

Como é chegar a Machu Picchu por trilhas incas longe dos turistas? A nova série de podcasts do Programa Repórter Viageiro, da Rádio Vozes, tem o Peru como tema e responde a esta pergunta. Em outubro, Daniel Nunes esteve pela quarta vez no país, desta vez para percorrer a Rota de Lares e Vale Sagrado, um caminho de 5 dias com hospedagem nos lodges da grife Mountain Lodges. Os boletins do Repórter Viageiro, que Daniel estreou a convite da radialista Patrícia Palumbo em agosto de 2016 contando os bastidores dos Jogos Olímpicos do Rio, já apresentaram várias partes do planeta. Os ouvintes da rádio digital on-demand seguiram as andanças de Daniel por Tailândia, Vietnã, Nova York, Portugal e Alemanha. Dessa vez, o Peru é destrinchado por meio de sons, experiências e depoimentos de outros viajantes que percorreram a rota – como os participantes do Projeto TerraMundi Creators. Quem quiser acompanhar os boletins pode baixar o app da rádio no celular ou acessar o site.

Hoi An, no Vietnã, é um templo de charme e delicadeza

Era fim de tarde do meu primeiro dia no Vietnã e decidi fazer aquela caminhada inicial de exploração no entorno do meu hotel, o Anantara, que fica bem ao lado do Centro Histórico. Eu estava em Hoi An, uma cidade colonial tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco mas pouco visitada por brasileiros – que conhecem mais as metrópoles de Hanói e Ho Chi Min (a antiga Saigon) e a fantástica baía de Halong.

 

Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Ruas do Old Town de Hoi An à noite (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Assim que adentrei as ruas de paralelepípedos da Old Town, a Cidade Antiga, sempre fechadas ao trânsito motorizado, já me senti entrando em uma redoma de paz. Afinal, o enxame de motocicletas que buzinam o tempo todo no Vietnã tinha ficado para trás. Aos poucos me vi cercado por casarões e sobrados preservados de quando aquele era um importante porto do Sudeste Asiático, entre os séculos 15 e 19. Hoje ocupadas por cafés, restaurantes, galerias de arte e lojas, as construções incorporaram nas decorações internas e nas fachadas um costume oriental que se tornou o símbolo de Hoi An: as lanternas coloridas. Bastou a noite ameaçar chegar e as luzes foram sendo acesas uma a uma, enchendo meu caminho de cor e magia.

 

Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Lanternas coloridas à venda nas ruas de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

O encantamento de boas-vindas estava só começando e se prolongaria pelos meus cinco dias ali. A começar pela surpresa daquele primeiro entardecer – que não tinha acabado. Quis me perder entrando em uma viela e me deparei com uma cena inesquecível. Do alto da pequena ponte que conecta o bulevar na beira do Rio Thu Bon com o mercado noturno da ilhota vizinha de An Hoi, dezenas de pessoas soltavam na correnteza umas espécies de barquinhos coloridos de papel com velas acesas.

 

Ritual de acender velas em barquinhos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara Hoi An)
Velas em barcos de papel em forma de flor de lótus (crédito Divulgação Hotel Anantara)

 

Eu já tinha visto antes algumas fotos daqueles arranjos em forma de flor de lótus flutuando entre os barcos do cais, mas acreditava se tratar de um ritual raro. No dia seguinte, meu guia Nguyen Van Trieu me explicaria: os visitantes têm repetido diariamente a cerimônia de encaminhar desejos a Buda que antes só era feita pelos nativos em datas especiais. Sorte de quem está lá na lua cheia: dizem que o comércio desliga suas luzes para que apenas as velas dos rios sejam o destaque no cenário de sonhos de Hoi An.

 

Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Ninguém diz exatamente quando a tradição teve início. Sabe-se apenas que o comércio fluvial no estuário do Rio Thu Bon data do século 7, quando o império do povo Cham dominava a região. “Hoi An sobreviveu incrivelmente aos muitos conflitos que o Vietnã tem vivido, ao longo da história, com países como China, Japão, França e Estados Unidos”, me contaria o guia Trieu, durante a caminhada histórica pela fascinante Old Town.

 

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A Ponte Japonesa, que aniversaria em 2017

 

A parada principal do tour, a Ponte Japonesa, por sinal, comemora 400 anos em 2017. Restrita a pedestres e com um altar a Buda em seu anexo, a ponte um dia dividiu Hoi An em chineses para um lado, japoneses para outro. E até hoje serve de fundo para as pomposas fotos dos casais de noivos da região.

 

Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Noivos posando para fotos: um clássico local (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Desde que Hoi An abriu suas portas ao turismo, nos anos 1990, quando se libertou do embargo imposto pelos Estados Unidos ao país desde a Guerra do Vietnã, antigos inimigos passaram a conviver em harmonia no ambiente cosmopolita de Hoi An.

 

Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Templo chinês com incenso gigantes (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Os chineses costumam constatar sua influência cultural nos muitos templos budistas. Japoneses adoram circular e fotografar sentados em algo parecido com um carrinho de bebê para adultos, sempre empurrados pela bicicleta de um vietnamita. Já os franceses se orgulham por terem inspirado a boa mesa em Hoi An. E os americanos são os campeões das encomendas de roupas sob medida nas muitas alfaiatarias da cidade.

 

Detalhe do passeio no barco do Anantara Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Detalhe do passeio no barco do Anantara (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Sete em cada dez habitantes vivem do turismo, conduzindo sempre de forma doce e sorridente os visitantes em passeios de barco (os noturnos são os mais charmosos), nas pedaladas até a praia no Mar do Sul da China (a 5 quilômetros dali, cruzando arrozais) e atendendo em lojas bacanas que vendem de pôsteres originais de inspiração socialista até réplicas dos lendários barcos que ancoraram no mítico porto de Hoi An.

 

Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Pedalada pelas ruas rumo à praia: supercool  (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Eu fiz e recomendo de tudo um pouco – os passeios, as roupas, a pedalada… E, é claro, o lindo ritual das velas no rio para perpetuar a tradição.

 

Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Minha vez de acender velas e soltar no rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

SANTUÁRIO DE MY SON: VALE A ESTICADA

Investi um dia da minha estada em Hoi An para uma bela esticada: a visita ao Santuário de My Son. Localizada a 1 hora de Hoi An, My Son consiste em várias ruínas arqueológicas da antiga capital política e espiritual do Império Champa, do povo Cham, que habitou essas montanhas entre os séculos 4 e 13. Com pequenas torres e culto a deuses hindus, elas fazem lembrar a arquitetura de Angkor, os fantásticos templos do vizinho Camboja, e se tornaram outro Patrimônio da Humanidade vietnamita.

 

Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An Meu ótimo guia, Nguyen Trieu (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Santuário de My Son, relíquia a 1 hora de Hoi An (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Serviço:

Durma bem

Dúvida crucial na hora de reservar seu hotel: é melhor ficar na cidade ou na praia? Eu optei pelo Anantara Hoi An, coladinho no Centro Histórico, que fica à beira-rio e está a poucos passos das principais atrações de Hoi An.  E amei. Quem preferir o sossego e a brisa à beira-mar pode conferir a nova faceta do The Nam Hai, que em dezembro passou a integrar a seleção dos hotéis da rede Four Seasons.

Hotel Anantara Hoi An: meu abrigo à beira-rio (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Coma bem

O The Morning Glory (106 Nguyen Thai Hoc St) é um clássico: amplo, mistura especialidades vietnamitas (como o cao lau, uma sopa de noodles com carne de porco) com pratos internacionais. Menor e escondido, o NU Eatary (10A Nguyen Thi Minh Khai St) comporta no máximo 20 pessoas e serve só delícias locais em ambiente caseiro.

Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Nu Eatary: fui duas vezes de tanto que gostei (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Para uma experiência ímpar, tome um chá em silêncio no Reaching Out e seja servido pelo simpático staff só de moças surdas-mudas.

Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível
Reaching Out, o chá das surdas mudas: experiência inesquecível

 

Viaje bem

Não existem voos diretos entre Brasil e Vietnã. A rota mais corriqueira é via Bangkok, na Tailândia, servida por várias companhias aéreas brasileiras. Da capital tailandesa, sim, voa-se, sem escalas em voos de 1h40, à Danang, cidade a 30 quilômetros de Hoi An. A viagem pelo Vietnã pode ser incrementada se incluir Hanoi, Halong Bay e Ho Chi Min.

Comércio local: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)
Comércio local de roupas: tudo cheio de graça (crédito Daniel Nunes/Same Same)

 

Código de ética Same Same: o jornalista Daniel Nunes viajou ao Vietnã por sua conta e pagou suas despesas em Hoi An de transporte, alimentação e passeios. A hospedagem no hotel Anantara Hoi An foi uma cortesia.

Legado Olímpico – O desafio de alimentar a elite do esporte mundial na Rio 2016

Legado Olímpico – O desafio de alimentar a elite do esporte mundial na Rio 2016

Texto, edição, concepção editorial e coordenação das traduções para o inglês e o espanhol do livro feito sob encomenda para a Sapore, maior empresa brasileira de alimentação coletiva. Com conteúdo editorial em forma de reportagem, o obra conta os bastidores da cozinha e do restaurante que a empresa criou na Vila dos Atletas para servir 25 mil pessoas, entre atletas e delegações de mais de 200 países, durante os Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.

Ano de edição 2016

Editora Same Same

Idiomas português/inglês e português/espanhol; Formato 24 x 31,7 cm

Páginas 252

ISBN 978 85 93259 00 5

Jornalismo de viagem outra vez na Cásper

O curso livre de jornalismo de viagem na Faculdade Cásper Líbero deu tão certo em 2016 que terá mais uma edição neste início de 2017. A oficina cresceu: agora terá 15 horas e se estenderá por cinco noites, de 30 de janeiro a 3 de fevereiro, sempre das 19h30 às 22h30. Voltado a estudantes de jornalismo, blogueiros de viagem, profissionais do turismo ou qualquer pessoa que goste de contar suas experiências na estrada, o curso aborda desde questões básicas como escolha de pauta e técnicas de entrevista até a difícil arte de fugir dos clichês na hora de escrever sobre turismo. A primeira edição lotou, e para o curso do verão de 2017 restam poucas vagas. Se interessou? O curso custa RS$450 e as inscrições podem ser feitas diretamente no site da Cásper.

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Diante de mim existem dezenas de barquinhos com velas descendo lentamente o rio que passa sob a ponte onde estou. Anoitece aqui na charmosa cidade colonial de Hoi An, no Vietnã, que é toda decorada por lanternas coloridas. É uma cena linda, singela e romântica que todo mundo tem que ver uma vez na vida.

 

Boletim da série Tailândia e Vietnã para o programa Repórter Viageiro, da Rádio Vozes

Como foi alimentar os atletas olímpicos durante a Rio 2016

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Um restaurante do tamanho de mais de dois campos de futebol e uma cozinha movimentada pelo trabalho de 2.700 pessoas. Durante 78 dias entre os meses de julho e setembro de 2016, uma megaoperação logística sem precedentes na história da alimentação coletiva mundial deu origem ao restaurante 24 horas da Vila dos Atletas, motor energético essencial dos participantes dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 e integrantes das delegações de 200 países.

 

 

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Foto Adriano Fagundes

 

Diante do sucesso das 842 competições de 65 modalidades esportivas que entraram para a história do Rio de Janeiro, a epopeia de servir até 70 mil refeições para os 25 mil habitantes da Vila Olímpica passou quase despercebida. Para contar esta história com a profundidade que ela merece, foi produzido em tempo recorde e lançado em dezembro de 2016 o livro Legado Olímpico, primeiro trabalho da Editora Same Same. Com 252 páginas, o obra é patrocinada pela Sapore, empresa responsável por toda a alimentação na Vila dos Atletas.

 

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Foto Adriano Fagundes

 

Com reportagem e textos assinados pelo jornalista Daniel Nunes Gonçalves, fotos de Adriano Fagundes e direção de arte de Ricardo Godeguez, Legado Olímpico – O desafio de alimentar a elite do esporte mundial na Rio 2016 detalha como foi o planejamento, a construção das instalações temporárias, os bastidores da logística para providenciar as 3.142 toneladas de alimentos consumidos e o funcionamento ininterrupto da cozinha e do restaurante.

 

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Foto Adriano Fagundes

 

Com capacidade para 5.200 pessoas comendo ao mesmo tempo, o restaurante era organizado por estações como comida brasileira, asiática, italiana, halal/kosher e sabores do mundo. Para atender às rígidas dietas e restrições alimentares dos atletas de alta performance, assim como às exigências da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Sapore investiu no aperfeiçoamento do seu sistema de inteligência operacional. Pesquisou a alimentação em diferentes partes do mundo, importou ingredientes raros e comemorou o feito de não registrar indisposição alimentar entre os atletas.

 

Foto Adriano Fagundes
Foto Adriano Fagundes

 

O livro foi impresso pela gráfica Pancrom com tiragem de 5.000 exemplares: 3.500 da versão português-inglês e 1.500 da versão português-espanhol. Além dos textos, fotos e infográficos, a obra conta com depoimentos de vários atletas e prefácios de Carlos Arthur Nuzman, Presidente do Comitê Olímpico do Brasil, de Sidney Levy , Diretor-Geral do Comitê Organizador Rio 2016, e de Luiza Trajano, Vice-Presidente do Conselho do Comitê Olímpico Rio 2016. A distribuição, ao menos por enquanto, é restrita a clientes, colaboradores e parceiros da Sapore.

 

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Foto Adriano Fagundes

 

Oficina de jornalismo de viagem na Cásper

Técnicas de reportagem e de texto para quem escreve sobre viagem: este será o foco principal do primeiro curso livre que darei na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, em junho. Idealizado para atender tanto a alunos de jornalismo quanto a blogueiros e outros viajantes que curtem escrever, a oficina criativa vai ser uma oportunidade também pra compartilhar macetes da desafiadora experiência de trabalhar direto da estrada. A proposta é apresentar uma visão realista dessa carreira que muita gente vê como o ofício dos sonhos. Como vender uma pauta de viagem? De que forma descrever bem uma cachoeira, um hotel, uma experiência inspiradora? O convite para dar aula partiu do diretor Carlos Costa, que comandava a redação da Revista Quatro Rodas quando eu era um repórter iniciante, nos anos 1990. Vai ser legal compartilhar um pouco do que sei e de trocar ideias com outros amantes das viagens e da escrita. As aulas acontecem entre os dias 27 de junho, uma segunda-feira, e 30, quinta, sempre das 19h às 23h, ali no número 900 da Avenida Paulista. O curso custa R$360 e as inscrições podem ser feitas por aqui.

Convite à Viagem

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
– Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Charles Baudelaire (1821-1867), em Convite à Viagem, traduzido por Ivan Junqueira