Oficina de jornalismo de viagem na Cásper

Técnicas de reportagem e de texto para quem escreve sobre viagem: este será o foco principal do primeiro curso livre que darei na Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo, em junho. Idealizado para atender tanto a alunos de jornalismo quanto a blogueiros e outros viajantes que curtem escrever, a oficina criativa vai ser uma oportunidade também pra compartilhar macetes da desafiadora experiência de trabalhar direto da estrada. A proposta é apresentar uma visão realista dessa carreira que muita gente vê como o ofício dos sonhos. Como vender uma pauta de viagem? De que forma descrever bem uma cachoeira, um hotel, uma experiência inspiradora? O convite para dar aula partiu do diretor Carlos Costa, que comandava a redação da Revista Quatro Rodas quando eu era um repórter iniciante, nos anos 1990. Vai ser legal compartilhar um pouco do que sei e de trocar ideias com outros amantes das viagens e da escrita. As aulas acontecem entre os dias 27 de junho, uma segunda-feira, e 30, quinta, sempre das 19h às 23h, ali no número 900 da Avenida Paulista. O curso custa R$360 e as inscrições podem ser feitas por aqui.

Convite à Viagem

Vê sobre os canais
Dormir junto aos cais
Barcos de humor vagabundo;
É para atender
Teu menor prazer
Que eles vêm do fim do mundo.
– Os sangüíneos poentes
Banham as vertentes,
Os canis, toda a cidade,
E em seu ouro os tece;
O mundo adormece
Na tépida luz que o invade.

Charles Baudelaire (1821-1867), em Convite à Viagem, traduzido por Ivan Junqueira

Vida no deserto

Vítima do genocídio alemão há apenas 110 anos e do apartheid durante o domínio sul-africano, o país se reinventou e celebra as bodas de prata de sua liberdade praticando um turismo sustentável e seguro

Lugar onde não existe nada. Quem observa pela janela do avião a vastidão inabitada da Namíbia logo entende esse curioso significado do nome do país na língua dos nama, uma das 13 etnias locais. Parece que lá embaixo tem apenas deserto. O nada-sem-fim só é interrompido quando o avião se aproxima da pequena capital Windhoek, destino do voo da South African Airways vindo da cidade sul-africana de Johannesburgo – rota mais direta para quem viaja do Brasil. Naquele centro urbano quase sem prédios vivem 340 mil dos poucos 2,3 milhões de habitantes dessa nação que se renova: em 2015 celebra-se 25 anos de independência da Namíbia, que desde março é liderada por seu terceiro presidente, Hage Geingob.

 

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Basta pousar e caminhar pelo centro urbano para se surpreender com uma peculiaridade namibiana. Tanto as ruas como a população, 90% negra, adotam nomes alemães: Fritz, Wolfgang, Frida. A arquitetura germânica salta aos olhos e, nas igrejas, nota-se a dominância do cristianismo luterano. Embora o português Diogo Cão tenha chegado à região em 1484, ele desprezou aquela sucessão de desertos pouco atraente. Assim, o lugar preservou-se de invasores por exatos 400 anos. Até que a Alemanha chegou para colonizar a então chamada África do Sudoeste, em 1884, ficando até 1915, quando saiu em plena Primeira Guerra Mundial. Não por acaso, os alemães são os visitantes mais comuns atualmente – e a cerveja da Namíbia tenha qualidade e boa fama comparável à dos colonizadores.

 

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Cicatrizes históricas

A colonização europeia, como se sabe, foi bem violenta em países da África e da América. Na Namíbia, em especial, a ocupação alemã deixou feridas dolorosas. Ali aconteceu aquele que é considerado o primeiro genocídio do século 20, entre 1904 e 1908, quando o mundo ainda nem sonhava com os terrores de Adolf Hitler. Há documentos comprovando que o general alemão Lothar Von Trotha ordenou o extermínio de todos os herero que se recusassem a deixar o país. A Alemanha nunca admitiu a tragédia oficialmente. Mas o impacto nas duas etnias mais perseguidas foi devastador: restaram apenas 15 mil herero (dos 85 mil existentes na época) e 10 mil nama (dos 20 mil que teriam se rebelado no conflito). Parte desse episódio pouco difundido mundo afora pode ser conhecido no Independence Memorial Museum, inaugurado em 2014 na capital.

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Igualmente traumática é a outra mancha na história recente da Namíbia. A África do Sul, que tinha invadido o país durante a Primeira Guerra, instaurou em 1948 o mesmo regime racista do Apartheid que segregava brancos e negros – o que fez com que até hoje exista uma minoria branca no topo da cadeia sócio-econômica do país. O apartheid namibiano só caiu em 1990. Foi quando, depois de quase um século de sofrimento, a Namíbia conquistou a sua independência. Mas com uma vantagem: nesses 25 anos, ela não sucumbiu mais a grandes conflitos, como aconteceu com vários países da região após se tornarem livres.

 

Himba vendendo boneca na estrada
Himba vendendo boneca na estrada

 

Pelo contrário. Rica em minérios como diamante e urânio e habitada por tribos de cultura preservada, a Namíbia incluiu a conservação de seus recursos naturais na constituição e descobriu no turismo uma fonte econômica importante. “É um país único, que se diferencia de outras nações africanas por proporcionar muito mais que safáris fantásticos”, define Danilo Rondinelli, proprietário da operadora TerraMundi, que há seis anos leva brasileiros para lá. De fato, a partir de Windhoek, os viajantes costumam fazer safári no Etosha e depois seguem para visitar sítios arqueológicos, tribos superfotogênicas, um litoral peculiar e desertos com paisagens de outro planeta. “Depois de 2012, o número de visitantes que levamos para lá dobrou”, conta Danilo. São exploradores que evitam destinos de massa e curtem ir aonde pouco gente foi.”

 

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Etnia Damara em apresentação para visitantes

 

 

Dunas de Sossusvlei, Playground para fotógrafos

Se a Namíbia fosse um destino pop e tivesse de escolher uma imagem como seu cartão-postal, ela seria Sossusvlei. A cada amanhecer, um punhado de estrangeiros sonolentos mira todo tipo de lente fotográfica para este verdadeiro mar de dunas gigantes avermelhadas. As câmeras costumam registrar os momentos mais sublimes no trecho chamado Deadvlei, no centro de um desses areais. É onde troncos tortos projetam a sombra de seus galhos no chão esbranquiçado por sal e argila, em um contraste impactante com a duna ao fundo e o céu azul. Não por acaso Deadvlei, que nada mais é que o leito seco do Rio Tsauchab cujo fluxo foi interrompido pelas areias móveis, se tornou objeto de desejo de fotógrafos profissionais como Sebastião Salgado e J.R.Duran. “Passei seis dias fazendo um safári aéreo e jamais vou me esquecer da cena impressionante do deserto chegando até o mar”, conta Duran.

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Localizado a 300 quilômetros de Windhoek, Sossusvlei pertence ao Deserto de Namibe, que batiza o país e cobre seu interior de sul a norte. Com estimados 55 milhões de anos, ele é considerado um dos mais velhos e secos da Terra, além de dono das dunas mais altas do mundo, com cerca de 300 metros. Junto com a outra grande região desértica nacional, a do Kalahari, que avança aos limites de Botsuana e possui mais água e árvores, Sossusvlei contribui para que dois terços do país sejam dominados por áreas desérticas.

 

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Partindo da capital, chega-se a Sossusvlei tanto por ar – normalmente, voando nos teco-tecos que levam aos lodges – quanto por terra – de preferência, em veículos 4×4. Na Namíbia, dirige-se por horas sem ver viv’alma – e assim entende-se a baixa densidade demográfica de 2 habitantes por quilômetro quadrado em um território de 850 quilômetros quadrados, pouco maior que três estados de São Paulo. O contraste dos ventos quentes do interior com a brisa gelada do mar provoca neblina no vasto trecho onde o deserto encontra o litoral – e por vezes adia ou atrasa os voos pela região.

 

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Como no deserto quase nunca chove, hotéis como o Little Kulala (www.wilderness-safaris.com/camps/little-kulala) deixam a opção de o hóspede dormir em uma cama fora, ao ar livre, no terraço de cada chalé. Me rendi à experiência por duas noite e garanto: poucos prazeres são maiores do que abrir os olhos no meio da noite e se deparar com uma infinidade de estrelas forrando o céu. Para melhorar, um bom edredon protege do vento do deserto, e praticamente não há insetos no local. A imersão na natureza fica mais profunda quando, antes de dormir, o jantar acontece também no meio do nada namibiano: um caminho de tochas leva os hóspedes até as mesas e a fogueira central – onde os petiscos, as cervejas da Namíbia e os bons vinhos sul-africanos são servidos.

 

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Ao acordar, outra surpresa. Enquanto se toma café da manhã na sacada do restaurante do hotel, parece que o safári vem até você: dá para ver alguns orix e springboks, os antílopes mais comuns do pedaço, tomando água na poça d’água que fica poucos metros adiante. Os belos selvagens costumam posar para zooms potentes nos passeios de cada dia, como a aventura de pilotar quadriciclos, a caminhada em meio ao cânion Sesriem, os voos de balão e a subida nas dunas que levam ao Deadvlei – caso da famosa Big Daddy. Observar as pegadas dos animais na areia é uma das diversões durante o belo trekking de 1 hora em meio ao deserto de Sossusvlei. Só não é bom deixar-se levar pela beleza e parar demais no caminho. Quem perde as primeiras luzes em Deadvlei corre o risco de voltar sem boas fotos do lindo cartão-postal Namíbia.

 

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Heróis da resistência vivos em Damaraland

Os viajantes chegam a Damaraland atraídos por pinturas rupestres e florestas petrificadas, mas deixam o lugar encantados ainda mais pelo contato com as tradições do povos Damara e Himba

 

Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas
Funcionários recebem os visitantes cantando no Doro Nawas

 

Sabe aqueles corais africanos supercontagiantes, com a voz estridente das mulheres contrastando com o tom grave dos homens – e todo mundo esbanjando alegria e molejo enquanto dança? É um desses que recebe os visitantes do lodge Doro Nawas (wilderness-safaris.com/camps/doro-nawas-camp), na região de Damaraland, no centro-norte do país. Não por acaso o staff do hotel ganhou um concurso nacional de cantores. Eles conseguem melhorar até o mal-estar de quem pousa enjoado dos voos nos aviões pequenos bem comuns no transporte interno pela Namíbia. A recepção amigável costuma ter ainda drinks e uma toalha úmida e gelada para amenizar o calor seco do deserto. Nada impressiona mais, porém, que a simpatia dos anfitriões do povo damara, que dá nome a região, assim como de outros nativos da área.

 

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O atrativo número 1 de quem inclui essa parada em sua exploração da Namíbia é arqueológico. Fica aí, a 430 quilômetros de Windhoek, o Patrimônio da Humanidade Twyfelfontein, uma sucessão de rochas muito bem preservadas em seu sítio original e onde estão 2500 pinturas e inscrições rupestres datadas da Idade da Pedra. As imagens retratam animais como rinocerontes, girafas e até um leão cujo rabo tem a forma de uma mão. “Como não havia metal para fazer as gravuras, nossos antepassados Bushman usavam rochas de quartzo como ferramentas”, conta a damara Sylvia Thanises, uma das 17 guias.

 

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Twyfelfontein, as pinturas que se transformaram em Patrimônio da Humanidade

 

Mais antigas que as obras de arte de Twyfelfontein são as florestas petrificadas vizinhas. Não se trata de um bosque em pé. Cerca de 50 troncos de árvores coníferas medindo até 34 metros de comprimento, e com mais de 200 milhões de anos, estão caídos no solo. Segundo os cientistas, elas foram trazidas em enxurradas e cobertas pelo deserto. “Protegidas” nesse ambiente de oxigênio zero, sem chuva e forradas por sedimentos de sílica, as madeiras foram “mineralizadas” e viraram fósseis. Pedra mesmo! Entre elas espalham-se várias Welwitschia mirabilis, planta nacional da Namíbia. Rasteira, ela tem só duas folhas que ultrapassam 8 metros de comprimento. “Elam resistem a cinco anos sem chuva”, explicou o guia Justus Sûxub. “E podem viver bem mais de um milênio.

 

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Enfim, os humanos.

É no caminho para esses verdadeiros museus ao ar livre que pode-se fazer outro contato com o povo. Seja qual for a etnia do guia, do motorista ou do anfitrião, ele costuma sempre se divertir ao mostrar diferenças culturais como os “cliques”, sons de estalos que fazem ao pronunciar várias das mais de 10 línguas tribais. É o caso dos 27 descendentes damara que trabalham no Museu Vivo dos Damara (lcfn.info/damara). Encravado entre rochas lindas e gigantes a 8 quilômetros do Parque de Twyfelfontein, o centro cultural permite conhecer moradas e danças tradicionais, além do artesanato feito de couro e rocha. “Queremos resgatar a cultura que se perdeu ao longo da colonização”, diz a anfitriã Maureen Hoes. A experiência seria mais autêntica se, ao final do expediente, não tivéssemos visto as mesmas pessoas que tinham se apresentado com poucas roupas e estilo “primitivo” passarem por nosso jipe vestindo mochila, tênis e calça jeans ao voltarem para suas vilas. Mas a visita vale a pena.

 

 

Felizmente, em uma das esquinas da desabitada estrada de volta ao hotel, nos deparamos com duas mulheres e uma criança da fotogênica etnia himba. Dessa vez, não era pra-gringo-ver que as nativas usavam seios à mostra e saias feitas de couro de bode. Nômades, Vezapopare e Veriazako tinham viajado 200 quilômetros para vender colares e pequenas bonecas. As miniaturas reproduziam a estética das himba, que lambuzam o corpo com um barro avermelhado – o mesmo usado para decorar seus cabelos com uma espécie de dreadlock de rastafári.

 

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“Só voltamos para casa, em Opuwo, depois de vender tudo”, disse, na língua himba, Vezapopare. Ainda que o turismo esteja engatinhando na Namíbia, as himba já aprenderam que os turistas são carentes de souvenires do país. E que, caso queiram fotografá-las, devem desembolsar alguns dólares namibianos.

 

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Nômades de etnia himba: barro nos dreadlocks

 

Safári no Etosha: Cara-a-cara com o leão

Safáris são todos iguais? Na opinião dos especialistas, não é bem assim. Safáris de várias partes do mundo têm em comum a caçada fotográfica a animais ao ar livre, normalmente a bordo de jipões 4×4. Mas sempre mudam os bichos, o ambiente, os tipos de hospedagem, os outros atrativos do país. Nessa disputa, o do Parque Nacional de Etosha, criado em 1907 no Norte da Namíbia, quase fronteira com Angola, é tido como de elite. “Ele está entre meus 4 safáris top do planeta,” afirma Danilo Rondinelli, que já esteve em 20 parques de safári de 12 países africanos. “Há abundância de animais raros em paisagens espetaculares como o lago de sal Etosha Pan”, explica Rondinelli, dono da agência TerraMundi. Segundo ele, a viagem à Namíbia costuma ser combinada com esticadas a África do Sul, passagem obrigatória para os brasileiros, e Botsuana, o país vizinho que tem safáris diferentes desse, em regiões mais úmidas e verdes.

 

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Superameaçados de extinção, são facilmente avistadas no Etosha. A mais bem sucedida ação de preservação desses últimos, iniciativa da rede hoteleira Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com), tem contribuído para evitar o desaparecimento dos cerca de 4.000 rinocerontes-negros sobreviventes em ambiente selvagem: alguns animais chegam a ser transportados em aviões para que procriem em áreas selvagens mais seguras. Até os temidos leões, escassos em outras partes do continente, dão as caras várias vezes aos visitantes do Etosha. “Existem uns 400 deles espalhados por essa área”, orgulhava-se Gabriel Zuma, guia do Ongava Tented Camp (www.wilderness-safaris.com/camps/ongava-tented-camp), enquanto o Land Rover do grupo chegava a 5 metros de uma família de leões com a cara ensanguentada após devorar uma zebra.

 

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Uma das experiências mais marcantes da visita à região foi justamente se hospedar em uma das oito barracas de lona desse acampamento de luxo na Reserva Privada de Ongava, que fica colada ao Parque de Etosha. E se um leão resolvesse rasgá-la? Para fazer lembrar que não estávamos em uma inofensiva réplica da Disney World, na calada da noite foi possível ouvir rugidos assustadores no entorno da tenda. E, pela manhã, tomei um susto ao sair e quase pisar em uma tal cobra zebra, que cospe o veneno em suas vítimas. Felizmente aquela era ruim de mira: me safei do cuspe da peçonhenta. Os dois episódios foram suficientes para eu entender o porquê de os hóspedes serem proibidos de circular da tenda para o restaurante ou a recepção sem um segurança armado ao lado. Todo cuidado é válido para curtir a vida animal realmente selvagem da região de Etosha.

 

Etosha Pan e a tempestade chegando
Etosha Pan e a tempestade chegando

 

Amyr Klink: da travessia do

Atlântico à road trip em família

A Namíbia foi o país escolhido pelo navegador Amyr Klink como ponto de partida do seu primeiro grande desafio como explorador: a travessia solitária do Oceano Atlântico a remo. Em 1984, então com 29 anos, ele zarpou com o barco I.A.T. do porto de Lüderitz, cidade vizinha à perigosa Costa dos Esqueletos, que tem esse nome em função dos ossos, tanto de humanos quanto de animais, espalhados pela praia. “A partir dali a corrente de Benguela se afasta da orla e deflete para dentro do Atlântico; é o lugar onde começam os ventos alísios que sopram fortes e regulares até o Nordeste do Brasil”, descreveu no livro Cem Dias Entre Céu e Mar, best seller com 340 mil cópias vendidas. A jornada deu certo: o barco superou ondas bravas e tempestades, chegando enfim à Bahia. Amyr realizaria outros feitos que o transformaram em um navegador respeitado, e a paixão pela Namíbia jamais cessou. “O país é seguro e econômico”, analisa. “Voltei duas vezes e tenho planos de retornar ainda esse ano.”

 

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Sua última viagem ao país foi em 2013, com a esposa e as três filhas, dessa vez para uma empreitada de 4 semanas que incluía também a África do Sul. “Voamos para Windhoek, alugamos um 4×4 e cruzamos o país por terra sentido litoral”, recorda Amyr. “As meninas se divertiram especialmente com os animais”, conta. O interior desértico do país tem os bichos terrestres típicos dos safáris, enquanto o litoral das cidades de Lüderitz, Walvis Bay e Swakopmond é morada de espécies de focas, pinguins, flamingos e pelicanos. “Foi na costa que matei as saudades dos amigos que fiz e dos ótimos frutos do mar”.

 

Placa em homenagem ao navegador brasileiro
Placa em homenagem ao navegador brasileiro (foto MARINA KLINK)

 

Estes centros urbanos litorâneos preservam a arquitetura europeia e ventos fortes que transformaram a região em um oásis para praticantes de esportes à vela como kitesurfe e windsurfe. Já a Costa dos Esqueletos, que sobe até a fronteira com Angola, tem um clima de mistério no ar, causado pela neblina frequente e pelos cascos de navios naufragados que restaram na praia. Um ambiente sombrio paira também sobre Elizabeth Bay, 25 quilômetros ao sul de Lüderitz, um longevo centro de exploração de diamantes que ganhou fama de povoado-fantasma. E até o refúgio natural de Shark Island, balneário de Lüderitz, guarda a memória de quando o local era campo de prisioneiros das etnias perseguidas pelos colonizadores alemães.

 

Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)
Família Klink viajando de carro pela Namíbia (foto MARINA KLINK)

 

Aos poucos, os namibianos vão aprendendo a valorizar sua história de resistência. Na praça de Lüderitz onde foi instalada a Klink Plake, placa em homenagem ao marinheiro brasileiro, já não existe a estátua vizinha em referência ao fundador da cidade, o alemão Adolf Lüderitz – escultura que Amyr viu em sua histórica partida a remo em 1984. “Decidiram trocá-la pela de Cornelius Frederiks, um dos heróis rebeldes que lutaram contra a ocupação alemã”, relata Amyr. Outro ponto interessante de visita para brasileiros que queiram seguir os passos de Capitão Klink é a Lüderitz Safaris & Tours. Agência e loja de souvenirs, a empresa é comandada por Marion Schelkle, que junto com seu ex-marido Gunther deram abrigo ao brasileiro antes da partida heroica do I.A.T. Vale a pena passar ali para, quem sabe, ouvir as histórias da preparação de Amyr antes de encarar sua grande saga pelo Atlântico Sul. Foi o que fizeram os Klink ao visitar Lüderitz, de carro, há dois anos. De lá eles dirigiram até a Cidade do Cabo, onde concluíram os quase 5.000 quilômetros rodados e pegaram o voo de volta ao Brasil.

 

Orix, um dos mais belos animais da região
Orix, um dos mais belos animais da região

 

 

Pílulas de curiosidades:

  • Já ouviu falar dos círculos das fadas da Namíbia? Em Damaraland, uma infinidade de círculos parece ter sido desenhada no campo de gramíneas baixas. Ali, no entanto, não cresce mato algum. Há quem diga que são obras de cupins – mas o povo himba chama de “pegadas dos deuses”.

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  • O jeito mais espetacular – e exclusivo – de ver as dunas gigantes coladas ao mar, os círculos das fadas e os barcos naufragados da Costa do Esqueleto é de cima. Por 4 a 6 dias – e 15 mil dólares – pode-se explorar o melhor da Namíbia em aviões particulares para 2 a 8 pessoas.

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. O fotógrafo e jornalista Haroldo Castro (viajologia.com.br) costuma conduzir grupos de brasileiros em um safári fotográfico pelo melhor da Namíbia. No roteiro estão o Parque Nacional de Etosha, a tribo himba e as dunas avermelhadas de Sossusvlei, onde fica o Parque Namib-Naukluft.

 

Para entender a Namíbia

Visto: Não é preciso visto prévio para entrar no país.

Melhor época: na seca, de junho a outubro, fica mais fácil avistar os animais, todos concentrados no entorno da água.

Moeda: dólar namibiano, o nad. 1 real equivale a cerca de 3,74 nads. 1 dólar americano compra 12 nads.

Língua: Cerca de 20 línguas são usadas no país, mas o inglês é a oficial – embora boa parte dos namibianos fale alemão e africâner (a língua de origem holandesa presente também na África do Sul).

Quem leva: A agência de viagens TERRAMUNDI produz roteiros personalizados e em grupo para a Namíbia (www.terramundi.com.br).

Onde ficar: Uma das pioneiras do continente, a rede de lodges e acampamentos de luxo Wilderness Safaris (www.wilderness-safaris.com) tem unidades em toda a Namíbia.

 

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O REPÓRTER SE HOSPEDOU NA NAMÍBIA A CONVITE DA WILDERNESS SAFARIS (www.wilderness-safaris.com)

Todas as fotos são de autoria de Daniel Nunes Gonçalves/SAMESAMEPHOTO

Como foi o Sarau do Viajante

O ano de 2015 vai ficar marcado para mim como o ano em que o Sarau do Viajante ganhou o mundo. Dez anos depois dos primeiros encontros que eu fazia lá em casa, com amigos, ao retornar de viagens marcantes, vejo o Sarau atingir a maturidade. Agora, crescido, ele deixa de acontecer no ambiente da vila onde moro para ser um evento itinerante, temático, sustentável e aberto também para histórias de outros viajantes . A essência continua a mesma: trata-se de um encontro de amantes da viagem, da gastronomia e da cultura para compartilhar relatos e projeções de fotos de viagens, comendo e bebendo coisas gostosas do destino-tema e tendo acesso a performances artísticas inspiradas nesse lugar. Continuar lendo Como foi o Sarau do Viajante

Cultura maori é uma boa surpresa da Nova Zelândia

Nariz com nariz. Não estranhe se você pousar na Nova Zelândia e se deparar com gente se cumprimentando assim.

 

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Este é o hongi, tradicional saudação dos maori, primeiros habitantes da ilha. Eles acreditam que o homem, Deus e a natureza são uma coisa só, e sentir a respiração do outro é uma forma de comungar o sopro sagrado da vida. Depois de ter sido rechaçada em meados do século 20, a cultura maori está em voga. Não só entre seus descendentes de sangue, muitos com lindas tatuagens tribais pelo corpo – às vezes, até no rosto dos homens e no queixo das mulheres, como reza o costume secular.

 

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O resgate do orgulho maori tem contagiado também os brancos cujos antepassados são os europeus, em especial os britânicos, que colonizaram o país. A língua maori voltou a ser ensinada nas escolas, pelo menos duas grandes exposições sobre sua arte estão rodando o mundo – uma delas chega ao Brasil em outubro – e até sua dança cerimonial, a haka, ganha mais e mais adeptos desde que passou a ser popularizada pelo poderoso time de rúgbi local, o All Blacks.

 

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Jovem, o último país a ser povoado no planeta tem o respeito à natureza e o fascínio pela aventura no DNA. Ali nasceu Sir Edmund Hillary, primeiro homem a escalar o Everest, em 1953. As paisagens do país sediaram o primeiro bungee jump do planeta, em 1988. E a fascinante diversidade natural neozelandesa seduziu o mundo, nos últimos 15 anos, com as trilogias de O Senhor dos Anéis e O Hobbit. A terra sagrada dos maori respira vida.

 

Road Trip New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Entrada pela ilha Norte
(ou Ao Norte, o mar)

É na ilha Norte, a mesma onde chegaram os primeiros desbravadores polinésios no século 13, que desembarcam os viajantes do século 21 dispostos a explorar a enorme variedade de ecossistemas desse pequeno território da Oceania.

 

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Bay of Islands, vista durante sobrevoo pelas ilhas

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Auckland, maior cidade do país, tem 1,5 milhão de habitantes e traduz bem a faceta contemporânea tanto da porção Norte quanto da ilha Sul. Ao mesmo tempo em que seu centro cosmopolita à beira-mar esbanja soluções urbanas criativas e sustentáveis, pode-se ver ali as seculares danças maori apresentadas no Auckland Museum (o mesmo que guarda o diário de bordo de Sir Hillary no Everest).

 

Águas verdes Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O espetáculo cultural se mostra mais completo para quem dirige por 3 horas ao extremo da ilha Norte e visita o Waitangi Treaty Grounds. Localizado onde a sucessão de ilhas de Bay of Islands leva ao delírio mergulhadores e amantes de praias de sonho, Waitangi é o principal sítio histórico da nação. Em 1840, 540 líderes maori assinaram ali o primeiro acordo com os colonizadores ingleses – e que lhes garantia, entre outras coisas, a posse da terra.

 

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Essa e outras histórias são contadas por meio de música, de canto e da haka – a dança maori – diante de uma casa cerimonial. Também em exposição está uma waka, canoa de guerra com 35 metros e que precisa de 76 remadores para entrar na água. Os maori sempre guiaram sua navegação pelas estrelas, e há apenas dois anos empreenderam uma expedição, a Waka Tapu, navegando sem instrumentos da Nova Zelândia à Ilha de Páscoa.

aucklandmuseum.com
waitangi.org.nz
wakatapu.com

 

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Performance Maori em Waitangi

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coração cultural
(ou No centro, o fogo)

Seja de barco ou de helicóptero, dá um frio na barriga se aproximar da fumaceira expelida do vulcão da White Island, embranquecendo o céu sobre o azul do Pacífico.

 

 

White Island visto de longe

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Bolhas de lama cinza-chumbo fervem no chão, o cheiro ruim impera, o enxofre amarelo colore o chão laranja à beira da cratera de águas verdes.

 

Vulcão borbulhante White Island

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O mais ativo dos cerca de 60 vulcões do país pode ser acessado a partir de Rotorua, cidade 3 horas de carro ao sul de Auckland.

 

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Famosa por seus spas com poços de águas termais, Rotorua é lar de boa parte dos quase 600 mil maoris do país, que correspondem a 15% da população.

 

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Gêiseres no Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A cidade fica no vale geotermal de Whakarewarewa, bem em cima do chamado Anel de Fogo do Pacífico, e sempre impressionou por seus gêiseres. O famoso Pohutu, que jorra a 30 metros de altura 20 vezes por dia, é a estrela do Centro Cultural Te Puia, espécie de QG maori onde funciona sua escola de escultura em madeira e tecelagem, além de uma bela loja de artesanato.

 

Artesão maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os maori demonstraram uma imensa capacidade de adaptação nesses 700 anos e nunca pararam no tempo. O canibalismo e o poligamia viraram coisa do passado. “Temos representantes no parlamento, canal de tv, estações de rádio”, diz Karl Johnstone, diretor do Maori Arts and Crafts Institute (MACI).

 

Casa maori

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Não somos uma cultura ancestral, mas sim um legado vivo”. Antenados nas tendências, sabem explorar seu potencial turístico. Quem visita o Te Puia degusta a comida típica (frango, legumes) cozida em caixas de alumínio dentro daqueles caldeirões naturais ferventes. Uma experiência gastronômica sem igual.

tepuia.com

 

 

Chef Te Puia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Nas profundezas do Sul
(ou Ao Sul, o abismo – ou a floresta)

Já teve vontade de sair voando? Basta chegar à beira dos precipícios espetaculares de fiordes como o famoso Milford Sound, cartão-postal da Nova Zelândia, para entender por quê o bungee jump só poderia mesmo ter nascido no templo natural dos maori.

 

Bungee Jump New Zealand

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Dona também de paisagens encantadoras como os glaciares de Franz Josef e Fox e as trilhas à beira-mar do Parque Nacional Abel Tasman, a ilha Sul tem vocação para esportes de natureza.

 

Cachoeira Milford Sound
Cachoeira em Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Se os primeiros saltos de abismos começaram na ponte Kawarau, com 43 metros de profundidade, hoje as distâncias se multiplicaram: dá para saltar de 47 e de 134 metros, se lançar em pêndulos, fazer skydive.

 

Passeio de jet boat
Adrenalina no passeio de jet boat

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Desde 1965, adrenalina é palavra de ordem também no passeio de jetboat. “Aceleramos a 85 quilômetros por hora entre cânions de 40 metros de altura”, explica Wayne Paton, que em 2014 fez gritar de emoção naquelas águas azuis até o jovem casal real britânico, o Príncipe William e a Kate Middleton.

 

Neve Milford
Parada em topo de montanha nevada durante sobrevoo na região de Milford Sound

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A charmosa Queenstown, cercada por montanhas nevadas e que descansa à beira do lago azul Wakatipu, é a base para explorar desde os fiordes (de barco, de helicóptero ou em caminhadas de vários dias) até locações de O Senhor dos Anéis e O Hobbit.

 

Queenstown beira lago
Beira-lago na charmosa Queenstown

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ao final de cada dia de atividade ao ar livre, amantes da natureza de todo canto do mundo transformam os 120 bares e restaurantes da pacata Queenstown em um pico de agito. E não se surpreenda se, no caminho da balada, você se deparar, como eu, com um grupo de neozelandeses gritando e simulando a haka na rua. É apenas o orgulho maori de ter nascido em uma terra tão especial.

bungy.co.nz
shotoverjet.com
milford-sound.co.nz

 

Garimpeiro Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

INFO: newzeland.com; tourismnewzealand.com

FOTOS: Todas as fotos desse post foram produzidas por Daniel Nunes/@samesamephoto

 

Eagle's Nest Hotel
Vista da sacada de um único apartamento do Eagle’s Nets, em Bay of Islands

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ONDE DORMIR:

Auckland: hilton.com
Bay of Islands: eaglesnest.co.nz
Rotorua: solitairelodge.com
Queenstown: matakaurilodge.com

Matakauri Hotel Nova Zelandia
Vista interna do hotel Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

OUTRAS CURIOSIDADES:

Rúgbi ao vivo
A haka foi celebrizada internacionalmente graças às apresentações feitas mundo afora pela seleção neozelandesa de rúgbi, apelidada oficialmente de All Blacks. Se tiver oportunidade, assista ao vivo a uma partida do esporte número 1 do país. Em 17 de julho eles enfrentam a Argentina em Christchurch, e em 15 de agosto acontece o jogo contra a Austrália em Auckland.
allblacks.com

 

Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri
Paisagem vista a partir das sacadas do quartos do Matakauri

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Arte maori no Brasil
O Brasil também viu ao vivo a exposição Tuku Iho – Legado Vivo, que já difundiu a arte maori na China e na Malásia, e que em 2015 está excursionando pela América Latina. Mais de oitenta peças esculpidas em materiais como madeira, bronze e pedra fizeram sucesso em Santiago, em Buenos Aires e no Rio de Janeiro.

Telas na República Checa
Depois de atrair 145 mil pessoas à Nationalgalerie, em Berlim, por cinco meses de 2015, a série de 44 retratos do povo maori pintados na virada do século 19 para o 20 pelo artista checo Gottfried Lindauer (1839–1926) chegou ao berço do artista. A exibição estará no West Bohemian Museum, em Pilsen, a cerca de 90 quilômetros de Praga, até 20 de setembro.
plzen2015.cz/en/

 

Helicóptero Nova Zelândia

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Do alto é (ainda) mais bonito
A natureza neozelandesa dá um show quando vista de cima, em sobrevoos de helicóptero. Na Ilha Norte, a Salt Air sobrevoa as ilhas de Bay of Islands e pousa em uma rocha no meio do mar. A VolcanicAir leva desde Rotorua até o vulcão de White Island. E poucas cenas são tão lindas na vida quanto a que se vê no voo da Over the Top desde Queenstown até os fiordes de Milford Sound.
saltair.co.nz
volcanicair.co.nz
flynz.co.nz

Onde está o kiwi?
Engana-se quem pensa que os neozelandeses ganharam o apelido de “kiwis” por cultivarem a fruta homônima. Quem também tem esse nome é um pássaro bicudo que não voa e tem hábitos noturnos. Dificilmente alguém vê um deles fora de cativeiro (há alguns no Te Puia, o parque maori de Rotorua). A ilha Stewart, no extremo sul, é o melhor lugar pra encontrá-los soltos na natureza.

 

White Island em quadro
Ruínas em White Island

Onze programas para conhecer Noronha como ela é

Clichê: a gente volta anos depois pra um destino que conheceu antes da popularização do turismo, se desencanta com a urbanização recente e sai por aí com aquele discurso saudosista de quem (acha que) chegou primeiro. “Bons tempos eram aqueles que aqui não tinha nem luz elétrica…”.

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Visual clássico do entardecer com Dois Irmãos ao fundo

 

 

Pois o meu retorno da vez foi para Fernando de Noronha, eleita pelo recém-extinto Guia 4 Rodas (R.I.P., saudoso companheiro de estrada!), por Deus e o mundo (Trip Advisor inclusive) como dona das praias mais belas do país.

 

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Canhões dos 10 fortes do passado espalham-se pela ilha

 

É claro que eu poderia lamentar que agora a luz é 24 horas, que os preços inflacionaram (garrafa de água de 500ml a 5 reais é de lascar), que é um absurdo um santuário natural habitado por só 6.000 gatos pingados não ter coleta seletiva. Mas eu quero contar que gostei do que vi.

 

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Baía dos Porcos: é ou não é uma maravilha da natureza?

 

ELA CONTINUA LINDA – Fernando de Noronha segue arrebatando corações. Das águas azuis-turquesa da Praia do Sancho aos tubarões, arraias (vejam essa diante de mim aí na foto) e tartarugas-marinhas gigantes que pude observar no mergulho noturno, nosso destino mais desejado continua causando arrepios diante de tamanha beleza.

 

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Meu mergulho com arraias gigantes, corais de cores vibrantes e todo tipo de peixe

 

Passei 10 dias de junho por ali, a trabalho para uma publicação estrangeira. Tive a felicidade de estar bem acompanhado: viajei com a fotógrafa Andréa D’Amato, minha fiel companheira de tantas estradas mundo afora, e tendo como cicerone extra-oficial meu amigo José Tadeu de Oliveira, biólogo que trabalha para o ICM-Bio e acumula 5 anos radicado em Noronha. Hoje Tadeu é DJ nas horas vagas.

 

Praia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil
Praia do Sancho, considerada a mais bonita do Brasil

 

 

Foram dias intensos, estadas em quatro hotéis distintos, refeições em uns 20 lugares, todos os passeios que pude e entrevistados interessantes, como o inspirador Zé Maria e o jogador Hernanes, que abriu ali o restaurante Corveta.

Com direito a surpresas como rever a Tia Zete, que me hospedou em 1995; o Ju Medeiros, músico ex-doidão que virou dono de hotel; e o Dr. Milton, médico que eu conhecia do ambulatório da Editora Abril (onde trabalhei por 13 anos) e que largou a Pauliceia de concreto para adotar Noronha como lar.

Por isso resolvi fazer uma lista dos highlights da minha experiência. Confiram.

 

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Lounge com música eletrônica no entardecer do Bar do Meio, na Praia do Meio

 

Sunset lounge no Bar do Meio – Não é porque o Tadeu é o DJ da balada, juro. É que o pôr-do-sol visto dos almofadões dessa praia linda de morrer, olhando os Morros Dois Irmãos se mostrando à esquerda, tomando um mojito e ouvindo boa música eletrônica, dá uma cara hype a Noronha. Imagino como deve ser legal na LoveNoronha, em setembro. Pirei também no por-do-sol do Fortinho do Boldró e do Mergulhão, no Porto.

 

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Música ao vivo para o clássico por do sol no Fortinho do Boldró

 

Mergulho noturno – Eu fiz seis mergulhos com cilindro nesses 10 dias. Acompanhei o batismo da Andréa nas Águas Claras, fiz quatro mergulhos incríveis na Ressurreta, na Ilha do Meio e entre as cavernas na lindíssima Ilha das Cabras. Mas não houve beleza e adrenalina maiores que a descida que fiz, tendo Tadeu como dupla, para ver tubarões, arraias e tartarugas gigantes sob a luz da lanterna em meio ao misterioso breu da noite.

 

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Uma bela âncora para se apoiar em meio à correnteza submarina

 

Trekkings do Capim-Açu e da trilha longa do Atalaia – Encarar os 10 quilômetros da caminhada mais casca-grossa da ilha, em apenas 4h30, foi puro prazer: especialmente tendo amantes do Capim-Açu como o João Paulo, da Noronha Adventure, e a Silvia, da Caminhos de Noronha (e grande guia da viagem toda). A do Atalaia também foi linda, linda…

 

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Trecho da trilha do Capim-Açu, a mais longa da ilha, com boa parte da caminhada acontecendo sobre pedras

 

Comilança de primeira linha – Minha matéria vai detalhar isso melhor, mas posso adiantar aqui que não esperava que Noronha já tivesse gastronomia do nível de: os frutos do mar gratinados do Varanda, a moqueca do Du Mar, o peixe na telha do Aqua Marina – restaurante do hotel Dolphin, o atum selado do Mergulhão, os churros e pescados do Cacimba Bistrô, a boa gastronomia regional que a coreana Rê prepara no Xica da Silva, a comida molecular da Teju-Açu, o arroz com camarão da Triboju, o chá da tarde da Pousada Beco de Noronha, o peixe na folha de bananeira da Solar dos Ventos, a comida com incrível vista da piscina de borda infinita emendando com o mar do Sueste na Pousada Maravilha e o badalado festival de frutos do mar do Zé Maria.

 

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Chá da tarde da Beco de Noronha

 

 

A travessia de snorkeling do Porto à Praia do Cachorro – Essa também foi com o João Paulo: 2 horas de snorkeling seguindo tartarugas, tubarões e mil peixinhos, com direito a parada para explorar a caverna vizinha à misteriosa Caverna do Leão, que parece rugir como o felino selvagem. O trecho de snorkeling para chegar ao Morro São José também encanta.

 

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Praia do Atalaia, onde dá para fazer trilha andando por 4 horas, quase tudo em pedras

 

Dormir na praia – O passeio de buggy pelas ilhas permite ver um pouco de cada praia, o tour de barco oferece outro ângulo igualmente lindo. Mas bom mesmo é escolher uma faixa de areia só e lá ficar largado por um tempo. Cheguei até a dormir na cadeira sob o guarda-sol da Cacimba do Padre.

 

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Andar entre as gameleiras gigantes – Não há árvores mais impressionantes em Noronha do que as gameleiras. Especialmente a série que mistura galhos com raízes na trilha do famoso Bar do Cachorro para o Bar do Meio. Não dá pra saber se aqueles tentáculos impressionantes começam de baixo pra cima ou de cima pra baixo.

 

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Caverna do Capim-Açu: onda entra fazendo som poderoso e estourando nas pedras internas

 

Entrar na Caverna do Capim-Açu – Ponto alto absoluto do trekking do Capim-Açu: estar na gruta onde dá pra ver, invadindo o buraco da parede oposta, uma onda de água azul celeste poderosa e linda de matar. O barulho mete medo, e o lugar ganha ares de templo natural sagrado.

 

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Ilha secundária visitada pelo barco Trovão dos Mares

 

Flagrar os golfinhos-rotadores rodopiando no ar – A mais graciosa das espécies desse cetáceo carismático gosta de dar show para os turistas. Nas três vezes em que naveguei nas ilhas secundárias, urrei de prazer ao ver golfinhos chamando nossa atenção – e assim protegendo os filhotes. Deu pra vê-los sob o barco no passeio do Projeto Navi, que tem um chão de vidro que na verdade é uma lente de aumento sensacional.

 

Golfinho visto a partir do fundo feito de lente de aumento no barco do Projeto Navi
Golfinho visto a partir do fundo feito com lente de aumento no barco do Projeto Navi

 

Mergulhar como Aquaman brincando de planasub – Quem encara esse passeio criado pelo Leo, criador do Museu Tubarões, tem a rara experiência de mergulhar a até uns 5 metros mas com velocidade – tendo a prancha de apoio puxada pela embarcação. Baita adrenalina.

 

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Ver tartarugas-marinhas recém-nascidas seguindo em direção ao mar – Sonho realizado: pela primeira vez na vida, pude acompanhar, justo no Dia Internacional da Tartaruga Marinha, dezenas de filhotes desse animal fascinante correndo em direção ao mar. Dá vontade de chorar de tão belo.

 

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Praia do Leão

 

CÓDIGO DE ÉTICA SAME SAME:

Viajei a Fernando de Noronha com apoio da Administração da Ilha e da Freeway Viagens, de São Paulo, tanto para os passeios de buggy (Ilhatour da Atalaia/Luck), de barco (Trovão dos Mares), de Planasub e da Navi (embarcação com fundo transparente).

As operadoras de mergulho Águas Claras e Noronha Divers também ofereceram alguns dos mergulhos mencionados nesse post.

Todos os restaurantes citados foram visitados em regime de cortesia.

A hospedagem aconteceu, sem custo, nas pousadas Mar Aberto, Ecocharme Pousada do Marcílio, Triboju e Pousada Zé Maria.

Agradecimentos especiais a Manuela Fay, Fernanda Camargo, Silvia Morais, João Paulo Ferreira, José Tadeu de Oliveira e Victoria Zuniga.

Informações gerais: www.noronha.pe.gov.br

Vista da Pousada Maravilha (http://pousadamaravilha.com.br)
Vista da Pousada Maravilha (http://pousadamaravilha.com.br)

 

Edmund Hillary

Os exploradores do passado foram grandes homens e devemos honrá-los. Mas não esqueçamos que o espírito deles sobrevive. Ainda hoje encontramos gente que se aventura pela conquista de um sonho, ou que busca pelo prazer da busca, e não pelo que pode vir a encontrar.

Sir Edmund Hillary (1919-2008), neozelandês, que em 1953 foi o primeiro homem a subir o Everest

Minha Nova Zelândia na revista da TAM

Já ouviu falar dos maori? Os primeiros habitantes da Nova Zelândia e sua relação com a natureza esplendorosa desse jovem país da Oceania são os destaques da reportagem que assino na revista TAM Nas Nuvens de julho de 2015, que acaba de chegar a todos os aviões da companhia aérea. Com 9 páginas, a matéria Orgulho Maori apresenta os lugares mais especiais que visitei ao longo de 10 dias de novembro de 2014 a convite do Tourism New Zealand. Antes vista como parte de um passado ancestral, a cultura maori – como os cumprimentos feitos com o toque dos narizes e o hábito de marcar o corpo com tatuagens tribais – vive uma retomada no país. Um exemplo desse vigor está na exposição Legado Vivo, que exibirá esculturas, fotos e danças como a haka no Rio de Janeiro e em São Paulo no próximo mês de outubro. Leiam mais na TAM Nas Nuvens de julho.

Matando saudades do Torres del Paine

Toda vez que alguém me pergunta qual o lugar mais bonito onde já pisei, ele me vem à mente. Poucos cantos da Terra são tão espetaculares quanto o Parque Nacional Torres del Paine, na Patagônia chilena. Acabo de vir de uma rápida passagem por lá, em meio a um grupo de nove jornalistas convidados para conhecer o Hotel Tierra Patagônia, e voltei ainda mais apaixonado. Pegamos belos dias, com os maciços rochosos das Torres e dos Cuernos à mostra o tempo todo. Da primeira vez que lá estive, em 2006, volta e meia eles eram cobertos pelas nuvens. Jamais esquecerei a primeira experiência: caminhei por 7 dias no circuito “O” na companhia da fantástica família Nery (Silvério, Jussara, Pedro e Daniel) e do casal Marcelo e Ana – isso depois de 5 dias andando em Chalten, na Patagônia Argentina, também na companhia do amigo Caio Vilela. Em breve, aqui, relatos das duas experiências incríveis.