Mar, mar e mar. Já se passavam dois dias e meio desde a partida em Ushuaia, a cidade argentina na ponta da América do Sul que é ponto de partida para os cruzeiros antárticos, e não havia nem sinal de terra à vista. Enjoado com o balanço do navio durante a travessia da Passagem de Drake, temida área de naufrágios onde Atlântico e Pacífico se encontram, eu ziguezagueava pelos corredores de braços abertos como um pinguim desengonçado. Estava quase arrependido por me incorporar a uma expedição de dez dias por mares bravos tendo como experiência anterior apenas uns bate-e-voltas para mergulho e um rápido cruzeiro mansinho no Caribe. Até que os alto-falantes anunciaram, primeiro em inglês, depois em alemão: “Ladies and gentlemen, um iceberg se aproxima.” Corri para o deque do sétimo andar. Meu primeiro iceberg vinha flutuando, quebrando com seu branco radiante a monotonia azul de céu e mar.

Aqueles blocos gigantes de gelo me fizeram esquecer o enjoo, a temperatura negativa e o vento lá fora. Assim como eu, os outros 206 passageiros do cruzeiro da empresa norueguesa Hurtigruten, 17 brasileiros entre eles, não continham a empolgação, com câmeras e binóculos em punho – afinal, os pássaros também haviam reaparecido. “Tivemos sorte, esta foi uma das travessias do Drake mais calmas que já fiz”, comentou ao meu lado, como se fosse um amigo íntimo, ninguém menos que Amyr Klink. Sorte tinha eu, pensei, por chegar ali tendo como guia o maior navegador brasileiro, que completava 43 viagens à Antártica. E justamente em um barco norueguês chamado Fram, mesmo nome da embarcação que outro norueguês, o lendário Roald Amundsen, comandou ao ser o primeiro homem a pisar no Polo Sul exatamente há um século.

Foi a alemã Anja Erdmann, líder de um staff formado por oito experientes expedicionários, quem advertira: “Este não é um cruzeiro comum, mas uma exploração entre icebergs, vendavais e tempestades que tornam impossível planejar onde vamos aportar, a que horas e por quanto tempo”. Mas quando a embarcação fez sua primeira parada, naquela tarde de sol forte, diante da ilhota de Half Moon, no arquipélago subantártico das Shetland do Sul, parecia que estávamos em uma simples e bem organizada excursão de férias no mar. Divididos em grupos transportados alternadamente do navio à praia em botes – os zodiacs –  e com permissão para passar apenas 1h30 em terra, desembarcamos diante de nossas primeiras focas e pinguins. Centenas deles. Graças a uma das palestras assistidas na viagem, reconheci que eram os chinstrap, uma das quatro espécies antárticas.

Aquele primeiro dos cinco dias que passamos desembarcando diariamente duas vezes, em média, em alguns dos recantos mais lindos, puros e intocados do planeta foi suficiente para entender por que os cruzeiros antárticos vêm se popularizando e já movimentam 50 viagens e 15 mil passageiros a cada temporada do verão local, de novembro a março. “Somos contagiados pela ‘febre branca’”, brincou outra integrante do staff, a zoóloga suíça Petra Glardon. O fascínio é o mesmo que arrebatou Roald Amundsen e o próprio Amyr Klink, que já circum-navegou a região duas vezes: a primeira, em seu barco Paratii, sozinho; a segunda, então em uma volta ao mundo, no Paratii 2, com tripulação. Em 12 de suas viagens estava com a esposa Marina – autora das fotos desta reportagem. E em tantas outras, era palestrante convidado, como no Fram.

Nevava sem parar na manhã seguinte, retrato da real instabilidade climática do extremo Sul da Terra. Ainda assim ancoramos na Península Antártica, base das expedições de dez dias, para conhecer a Baía Speranza, um raro ponto habitado da região – nesse caso, por 50 argentinos. Embora o sétimo continente não pertença a nação alguma, 28 dos 50 países signatários do Tratado Antártico mantêm ali estações de pesquisa (a conta inclui o Brasil, cuja base na ilha subantártica Rei George foi destruída em um incêndio em fevereiro). “Estamos tão isolados que às vezes dá vontade de voltar para casa nadando”, brincou a bióloga argentina Florencia Matus. A visita englobou a capela, o museu e os restos de um casebre de pedra construído pelos três náufragos da expedição do sueco Otto Nordenskjöld, primeiros a chegar àquelas bandas em 1902 e que sobreviveram por dez meses até seu resgate – como havíamos aprendido na palestra do polonês Henryk Wolzki, ele próprio um velejador que refez parte da trágica viagem do barco Endurance, do irlandês Ernest Shackleton, em 1914.

Embora os termômetros marcassem -4oC, a sensação térmica era de -17oC. O vento forte deixou em alerta o staff (eles sempre saem do navio com barracas e comida para confortar todos os desembarcados em caso de intempéries imprevistas). À tarde, não teve jeito. O desembarque em Brown Bluff foi cancelado em função dos vendavais de 100 quilômetros por hora, restando ao grupo assistir do quentinho deque de observação à passagem de um monstruoso iceberg de 1,5 quilômetro de extensão enquanto navegávamos pelo Mar de Weddell. Outro passatempo eram os filmes exibidos nas confortáveis cabines – como A Marcha dos Pinguins e um documentário sobre Shackleton –, mas os melhores entretenimentos acabavam sendo mesmo as palestras. Naquela tarde, o geólogo norte-americano Bob Rowland contou histórias e exibiu slides de suas duas expedições ao Polo Sul quando serviu no Exército em 1962 e 1963, pouco depois de passarem a ser comercializadas as primeiras viagens turísticas à Antártica, em 1958.

 

Domingo, 7 horas da manhã. No quinto dia da expedição, o imponente Fram –  20 metros de altura, 130 de extensão – adentrou o estreito acesso à cratera de Deception Island, um vulcão ativo adormecido. A garoa não desanimou os caminhantes que subiram seus morros de 500 metros. Só das alturas se pode dimensionar a imensidão antártica, continente com o tamanho de um Brasil e meio. Brancura infinita, vento congelante, o silêncio mais pacífico do planeta. Na volta à praia, a própria tripulação incentivava os corajosos a aproveitar as águas abrigadas para a oportunidade única de tomar um banho de mar no verão antártico. Arrisquei. O primeiro sofrimento foi tirar as três calças, quatro blusas, dois pares de meia, gorro, luvas e cachecol para correr desesperadamente ao gran finale camicase: o mergulho de cabeça em um caldeirão de gelo de 1oC. Uma sensação inédita, como a de picadas de 1 milhão de formigas, tomou meu corpo adormecido. Mas em cinco segundos eu já estava de volta ao seco, extasiado e sob os flashes dos colegas. Foi sensacional.

Se eu tivesse uma hipotermia ou um piripaque qualquer, contaria com a assistência de uma das profissionais da enfermaria. “Nunca tivemos problemas assim”, contou Milagros Aguirre, médica panamenha que fez as dez viagens da última temporada e que me acompanhou na volta de bote ao Fram. “Os atendimentos corriqueiros resumem-se a recuperar passageiros mareados ou com vias respiratórias congestionadas”, contou ela, enquanto a tripulação me recebia com um choconhaque quentinho. No verão passado, porém, um senhor norueguês de 70 anos quebrou a bacia ao escorregar em uma trilha de Half Moon e teve de ser resgatado de avião na pista de pouso da base Eduardo Frei, do Chile. Para se precaver contra emergências assim, a Hurtigruten exige que seus passageiros antárticos apresentem um exame médico detalhado e paguem um seguro-saúde salgado – além dos gastos do cruzeiro, que partem de 5.200 euros (trecho saindo de Ushuaia).

Como se estivéssemos nos trópicos, o sol voltou a reinar naquela tarde, quando descemos em Whalers Bay para um trekking de três horas ainda mais lindo, com direito a conhecer os grandes tanques enferrujados que armazenavam óleo de baleia de 1906 a 1931. A luz mais fantástica também embelezou o dia seguinte. Pela manhã, em Neko Harbour, centenas de pinguins gentoos gritavam tentando, em vão, superar o estrondo do desmoronamento que o calor provocava nas bordas dos glaciares. Na base inglesa de Porto Lockroy, à tarde, uma réplica do barco de Shackleton tornava especialmente fotogênico o casebre preto e vermelho do museu onde os turistas podem até comprar souvenirs e enviar postais (o que mandei para os colegas da RED levou dois meses para chegar!). Mas só os privilegiados expedicionários brasileiros tiveram a canja de, no entardecer, seguir em dois botes com Amyr para a vizinha Dorian Bay, onde entre 1989 e 1990 ele passou, de propósito, sete meses e meio isolado com seu veleiro Paratii preso ao mar congelado do inverno. Seria preciso mais dez páginas para reproduzir as histórias dramáticas compartilhadas na casa de madeira que ainda guarda uma foto da sua invernagem.

Depois da travessia do espetacular Lemaire Channel, o sétimo dia ganhou ares de safári no gelo com o passeio de zodiac para ver de perto focas-leopardo, com o trekking entre centenas de pinguins de Danco Island e a observação de baleias pelas janelas do restaurante durante o jantar. No show daquela noite (alguns dos 50 tripulantes filipinos sempre improvisam atrações, de danças divertidas a esculturas em gelo), os marinheiros se juntaram para um desfecho especial: cantar em coro “Sailing”, de Rod Stewart, arrancando lágrimas de muita gente. Começava a jornada pelos mil quilômetros da volta rumo ao Norte. Com ondas maiores, o Drake estava mais agitado. “Melhor assim, achei a vinda pouco emocionante”, comemorou o médico francês Philippe Arvis, passageiro que, como os palestrantes do staff, não escondia seu perfil explorador – tanto que chegou a fazer uma palestra-surpresa sobre sua aventura mais recente, a escalada do Everest. A outra esperada palestra da viagem de retorno foi, enfim, de Amyr Klink, que contou causos como o das ondas de 25 metros que enfrentou em algumas das 80 travessias que fez do Drake. Desta vez, para uma plateia formada por novos exploradores polares igualmente fascinados pela Antártica.

INFO: hurtigruten.com

 

 

Edição:
RED Report edição 21

Data:
Junho/Julho 2012

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