Belfast está em polvorosa. Não, felizmente não se trata da volta dos conflitos que mancharam a história da Irlanda. Dessa vez, há um movimento frenético de guindastes e operários na área portuária se preparando para a inauguração de um ousado edifício em forma de navio agendada para abril de 2012. É quando serão celebrados os 100 anos da primeira e única viagem do Titanic, o navio mais famoso do mundo. Nada menos que 7 bilhões de libras foram investidos na implementação do Titanic Quarter, parte do cais que reunirá atrativos ligados ao “filho” mais pop da capital da Irlanda do Norte. Além dos seis andares de galerias do Titanic Belfast, prédio que nasce com vocação para se tornar a principal atração turística da cidade, o quarteirão vai concentrar as caminhadas e os tours de barco e de carro por locais como a casa de máquinas e a doca onde foi construído o navio que virou lenda.

Giants Causeway, na Irlanda do Norte

Mesmo a alguns quilômetros das águas daquele braço do Mar da Irlanda, as ruas de Belfast estão agitadas em um sábado do verão de 2011, quando desembarcamos vindos de Londres. Diante do gramado
do City Hall, tomado por jovens, acontece um animado encontro mensal de motociclistas. Há um entra e sai nas mais de 50 lojas e restaurantes do Victoria Square, principal shopping da cidade, e músicos tocam nas calçadas em frente aos cafés da movimentada área do The Queen’s Quarter. Da decoração tradicional do The Crown, bar de 1849 ornamentado com marchetaria e vitrais fantásticos, às linhas modernas do edifício Titanic Belfast, quase todos os cenários da Belfast contemporânea a caracterizam como uma capital cosmopolita e pacífica. Só quem contrata um black cab – um daqueles táxis pretos como os de Londres – e ziguezagueia pelos quarteirões do The Gaeltacht Quarter se depara com muros grafitados de mensagens que fazem lembrar as três décadas (de 60 a 90) em que cercas de arame farpado dividiam moradias rivais, período no qual foram mortas 3.500 pessoas.

“É importante conhecer o passado da Irlanda para que se possa entender melhor o seu presente”, diz nosso cicerone, o pastor Billy Jones, acostumado a receber brasileiros por aqui. Resumindo a história: os primeiros habitantes da ilha foram os celtas, que no século 4 a.C. reverenciavam os deuses da natureza. O popular Saint Patrick introduziu o cristianismo em 5 d.C., mas a faceta protestante só chegaria nos anos 1500, especialmente na porção Norte, com a consolidação do domínio dos ingleses. Incomodados com a regência britânica, os condados do Sul, de maioria católica, conquistaram sua autonomia na década de 20, proclamando a república em 1949. Embora o Norte permanecesse ligado à monarquia que comanda o Reino Unido, sua minoria de origem católica continuou lutando pela independência total da ilha, o que foi agravado pelos atentados sangrentos dos radicais do IRA.

Placas em inglês e gaélico nas ruas de Dublin

“A situação só melhorou com as negociações dos anos 2000”, conta o ministro Ian Paisley Jr., representante da região no Parlamento britânico e filho do ex-primeiro-ministro Ian Paisley, que assinou o principal tratado de paz entre os dois lados. “As desavenças têm sido superadas, e hoje ambos divulgam o turismo da ilha como um todo”, diz Howard Hastings, presidente do conselho de turismo da Irlanda do Norte e dono da maior rede de hotéis de luxo do país, a Hastings Hotels – que inclui o melhor de Belfast, o Culloden Estate & Spa. “Enfim se percebeu que só há benefícios com a união de forças”, completa o empresário Ken Orr, outro de nossos anfitriões. De fato, é fácil viajar de um país ao outro em uma ilha tão pequena, onde a distância da ponta norte ao extremo sul equivale à rota de São Paulo ao Rio de Janeiro. E os 5,7 milhões de habitantes (70% deles na República da Irlanda), preocupados com a crise econômica europeia, têm muito a ganhar com o dinheiro trazido pelos turistas.

Decidimos conferir as semelhanças e diferenças entre os dois países viajando ao longo de uma semana, tendo Dublin como ponto final. Começamos pelo Condado de Antrim, ao norte de Belfast, passando pelo principal shopping da Irlanda do Norte – o outlet Junction One, com preços incríveis nas mais de 70 lojas – e por preciosidades históricas como a Antrim Round Tower. Acredita-se que a torre de 28 metros erguida por volta do século 10 fez parte de um assentamento monástico. Pouco depois de passar pela fábrica da Bushmills, a mais antiga destilaria de whisky da Irlanda, que funciona desde 1608, chegamos ao Dunluce Castle, onde ruínas de um cênico castelo medieval do século 13 equilibram-se no abismo à beira-mar. No entanto, nenhum ponto dessa rota surpreende mais do que Giants Causeway. Declarado Patrimônio da Humanidade, o parque reúne formações rochosas que parecem cortadas à mão, originadas de erupções vulcânicas de 60 milhões de anos atrás. Como em Belfast, pedreiros trabalham para finalizar um moderno centro de visitantes, a ser inaugurado também em 2012.

Símbolos celtas nas ruínas arqueológicas de Newgrange

Vales repletos de ovelhas ladeiam a rota litorânea rumo ao sul. Paramos na Carrick-a-Rede Rope Bridge, uma ponte suspensa a 24 metros de altura ligando o continente a uma ilhota, e em cachoeiras e praias de Cushendall e Cushendun – onde dormimos na confortável pousada familiar The Villa Farmhouse. Foi passeando em Antrim, por sinal, que conhecemos Patrick McNaughton, um pastor de ovelhas cujo filho Shéa se preparava para jogar o hurling, esporte gaélico que mistura rúgbi com hóquei na grama. Ao cruzar a Black Lion, discreta ponte que separa as duas Irlandas, surgem as novidades: as placas da estrada usam quilômetros, e não mais milhas, e as indicações, antes restritas à língua inglesa, agora têm tradução para o gaélico.

A próxima parada, Sligo, nos encanta de cara por seu charme, pelo hotel moderninho onde pernoitamos – The Glasshouse –, por pubs animados como o Mc Garrigles e pelas mil referências a William Butler Yeats. “Ele foi um dos maiores poetas irlandeses e passou boa parte da vida aqui”, conta a guia Nuala McNulty. O túmulo de Yeats fica ali, ao lado de míticas cruzes celtas da vila de Drumcliffe. Mas Sligo é mais do que isso: é a base para conhecer os mais antigos sítios arqueológicos da Irlanda. “Na área de 1 quilômetro quadrado de Carrowmore há nada menos que 30 tumbas megalíticas que datam de 5.700 anos”, conta a guia Tina Pommer. Apaixonada pela região, Tina nos serve chá irlandês com biscoitos dentro de uma das tumbas de outro cemitério milenar, Carrowkeel, quando temos de nos proteger da chuva repentina que atinge o alto da montanha. A misteriosa estrutura sobre a entrada da ruína
está alinhada para receber a luz do pôr do sol no solstício do verão.

The Temple Bar, esquina que dá nome à rua mais badalada de Dublin

Com a mesma forma de um monte de pedras cobrindo uma espécie de iglu, outra maravilha arqueológica atrai ainda mais turistas no caminho para Dublin, já no Condado de Meath: Newgrange. Diferentemente de Carrowkeel, no entanto, o corredor da tumba foi desenhado para receber a luz no solstício de inverno. Erguido por volta do ano 3.000 a.C. – antes da pirâmide de Quéops, no Egito, e de Stonehenge, na Inglaterra –, Newgrange é o mais famoso sítio pré-histórico da Irlanda e teria sediado vários rituais celtas. Por sinal, parte dos símbolos associados à cultura desses povos primitivos europeus foi descoberta nas pedras de Newgrange. Embora tenham vivido em vários países da atual Europa, como Inglaterra, País de Gales, França, Espanha e Portugal, os celtas deixaram suas principais raízes na Irlanda. Como a ilha não foi conquistada pelo Império Romano, a cultura celta resistiu ali até o século 17. Além dos ícones de Newgrange, a música e a religiosidade celta têm sido resgatadas nos últimos anos.

Dunluce Castle, na Irlanda do Norte

Mas é uma música irlandesa mais contemporânea, a do U2, que tornou famosa outra construção aberta a visitantes no mesmo Vale do Boyne que abriga Newgrange: o Slane Castle. Foi no prédio de 1785 que Bono Vox e sua banda gravaram o disco The Unforgettable Fire, em 1984, e fizeram um concerto histórico para 80.000 pessoas em 2001. Nascido em Dublin, o U2 ganharia o mundo entoando suas críticas aos conflitos sangrentos entre católicos e protestantes em canções como “Sunday Bloody Sunday”. Apesar de mais um tumulto ter assustado Belfast no último mês de julho, há uma boa vontade entre os governos para que cessem as hostilidades. Tanto é que em maio de 2011 Dublin recebeu a histórica visita da Rainha Elizabeth 2a. Embora administre a Irlanda do Norte, a monarquia britânica não pisava na República da Irlanda desde sua independência, 90 anos atrás. A matriarca esteve em todos aqueles pontos turísticos da terra de James Joyce e Oscar Wilde que veríamos no fim de nossa rota de 500 quilômetros: o castelo de Dublin, a fábrica da cerveja Guinness, o Trinity College. E deve ter percebido, como nós, que, independentemente das diferenças de religião, a hospitalidade do irlandês é única, assim como a beleza das paisagens. Não importa se de Dublin ou de Belfast, do Sul ou do Norte.

Slane Castle, cenário de capa de disco e de show do U2

 

INFO – discoverireland.com/br

IRLANDA DO NORTE: Bushmills – 2 Distillery Road, Bushmills, tel. +44 (0) 28 2073-3218, bushmills.com/distillery; Giant’s Causeway – 44a Causeway Road, Bushmills, tel. +44 (0) 28 2073-1855, nationaltrust.org.uk/giantscauseway; Guias Nuala McNulty e Tina Pommer – tawnylustlodge.com, pommer@eir.com.net; Junction One Outlet – Ballymena Road, Antrim, tel. +44 (0) 28 9442-9111, junctionone.co.uk; The Villa Farmhouse – 185 Torr Road, Cushendun, tel.: +44 (0) 28 2176-1252, thevillafarmhouse.com; The Crown Bar – 46 Great Victoria Street, Belfast, tel. +44 (0) 28 9024-3187, crownbar.com; Titanic Belfast – Queen’s Road, Belfast, tel. +44 (0) 28 9076-6399, titanicbelfast.com.

REPÚBLICA DA IRLANDA: Carrowmore – Sligo, tel.: +353 71 916-1534, heritageireland.ie/en/north-west/carrowmoremegalithiccemetery; Guinness – St. James’s Gate, Dublin, tel. +353 1 408-4800, guinness-storehouse.com; Newgrange – Brú na Bóinne, Donore, Meath, tel. +353 41 988-0300, newgrange.com; Slane Castle – Slane, Meath, tel. 041 982-0643, slanecastle.ie; The Glasshouse – Swan Point, Sligo, tel. +353 71 919-4300, theglasshouse.ie; Trinity College Dublin (Book of Kells) – College Green, tel. +353 1 896-1000, tcd.ie

AGRADECIMENTOS: Culloden Estate & Spa (Hasting Hotels), Belfast – Bangor Road, tel. +44 (0) 28 9042-1066, hastingshotels.com; Debora Machado; Peter O’Neill, visiteirlanda.com; English in Dublin (escola de inglês), englishindublin.com

Reportagem publicada na Revista RED Report de Dezembro/2011 e Janeiro/2012

 
Publicado em:
Revista RED Report, da TAM, publicada pela New Content

Edição:
18

Data:
Dezembro/2011, Janeiro/2012

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