Você começa calçando botas pesadas, de uns 5 quilos cada uma. Veste os óculos que tapam a cara inteira, depois as luvas grossas, e então agarra os bastões. Protegido por casacos impermeáveis que cobrem até o pescoço, parece um super-herói poderoso. Mas basta dar o primeiro passo para cair: primeiro, na dura realidade de que, nesta empreitada, você está na estaca zero; e depois, cair literalmente. Uma, duas, muitas vezes. No meu caso, seis, só na manhã de estreia. Mas era para pagar mico e aprender a esquiar que eu estava ali, na aula básica da escolinha de Portillo, que já viu o tombo de muita gente desde que foi construída pelo governo chileno nos anos 1940 (posteriormente comprada por norte-americanos, em 1962).

Lição número 1: perca a vergonha. Todo esquiador estreante anda feito um pato. Ou talvez um pinguim, ou como o próprio mico — afinal, os animais estão ali, representados com placas do tamanho de um ser humano na pista El Corralito, repleta de crianças. A rampa diante da porta dos fundos do hotel é uma espécie de jardim da infância também para marmanjos como eu. A segunda aula era óbvia. “Levante a coluna, olhe para a frente, flexione os joelhos, relaxe os ombros”, dizia o instrutor. Nada fácil fazer tudo isso ao mesmo tempo… Era preciso imitar as crianças, que não têm medo e, em nome da diversão, se jogam.

Eu havia alugado os equipamentos na tarde anterior, um sábado, quando começam os pacotes semanais. Mas passaria só quatro dias: como Portillo está no meio do caminho entre Santiago e Mendoza, na Argentina, aquela seria apenas uma parada naquelas férias para degustação dos melhores vinhos latinos. Os quase 3 mil metros de altitude me deixaram sonolento, sem fôlego até para subir escadas, e decidi tirar a primeira tarde para alugar acessórios e conhecer o hotel. Queria descobrir refúgios para o caso de perceber que esqui não era para mim. E achei a piscina, a sauna, as aulas de ioga… Aproveitei também para contratar os professores: teria três aulas coletivas e uma particular, com tempo livre para treinar sem monitores.

Era grande a pressão naquela primeira aula, no domingo. Com as condições climáticas ideais — céu azul de setembro, oito da manhã, 5° C, sol ainda manso e 90 centímetros de neve na base —, invejei não só as destemidas crianças que desciam voando a um centímetro de mim na pista El Corralito, mas também o colorido balé que eu via nas pistas azuis, vermelhas e pretas no alto da montanha, onde deslizavam até os profissionais das seleções norte-americana e canadense de esqui. E eu ali, caindo, levantando e aprendendo pacientemente o beabá de frear, fazer curva e ziguezaguear. E me questionava: quando vão me deixar subir no teleférico e esquiar lá no alto?

No segundo dia, tive duas boas surpresas: ser promovido para a pista La Princesa — onde, em vez de usar uma esteira rolante lenta como a de El Corralito, eu subia esquiando em pé puxado por um lift chamado Va et Vient até poder descer esquiando em uma pista mais íngreme — e o convite para conhecer o restaurante Tio Bob’s, no alto da montanha. Para chegar lá, eu subiria no teleférico, finalmente. “Portillo é uma estação pequena, familiar, e vai continuar assim”, disse o proprietário Henry Purcell, que conheci no restaurante. “Para garantir a qualidade dos serviços, não queremos crescer.”

A frase de Purcell era uma resposta a quem reclama do fato de que, diferentemente de outras estações, Portillo não tem prédios variados e modernos, mil pistas ou um centrinho urbano para badalar. Mas a proposta daquela espécie de transatlântico amarelo atracado na imensidão branca dos Andes é mesmo essa: ser uma espécie de navio familiar. Quando voltam da pista, os esquiadores se encontram em incríveis piscinas aquecidas ao ar livre bem diante da congelada Laguna del Inca. Nos dois restaurantes, os hóspedes sentam-se à mesma mesa e são atendidos pelos mesmos garçons em todas as refeições. Come-se muito. E bem. Para ser um cruzeiro, só faltam o mar e o cassino.

 

Alcancei a glória no último dia. O instrutor considerou-me apto a pegar o teleférico novamente e descer esquiando a pista verde mais difícil, a El Puma. Agora sim: desci cambaleando da cadeira, endireitei o corpo, controlei a velocidade, fiz o zigue-zague direitinho — embora, preciso confessar, tenha levado um último tombo. Mas, com aquela falta de vergonha típica das crianças, levantei e desci destemido, sentindo o vento e o êxtase de surfar no oceano de neve. Tirei a roupa de Robocop e relaxei os pés aliviados na piscina diante do lago. No jantar, é claro, brindei o sucesso da minha primeira vez retomando a proposta original da viagem: tomando um bom vinho chileno.

PANORAMA

Portillo concentra suas 30 pistas, acessíveis por 14 meios de elevação, no entorno de sua única base, o Hotel Portillo, a 2.880 metros. Fica na imensidão branca dos Andes, bem no alto dos “caracoles”, trecho da espetacular estrada em zigue-zague que leva à burocrática travessia fronteiriça entre o Chile e a Argentina.

ESTRUTURA

Tem pistas para todos os níveis: as crianças se divertem na El Corralito, os diletantes passeiam na El Princesa e os experientes descem a El Puma. Como não há centro urbano por perto, a diversão está toda ali: sauna, bares, sala de internet, quadras. E o melhor: piscinas aquecidas e ao ar livre.

TEMPORADA

De junho a setembro

 

COMO CHEGAR

O próprio hotel pode programar o traslado desde o aeroporto de Santiago, a 164 quilômetros (duas horas). Ônibus para Mendoza, na Argentina, também a duas horas, param diante do hotel se combinado com antecedência.

 

ONDE FICAR

Com 123 apartamentos, o Hotel Portillo (tel. +562/263-0606, skiportillo.com) tem uma decoração antiquada, mas cheia de clima. Uma semana custa a partir de 1.700 dólares por pessoa. Já os lodges Octagon e Inca, com quartos e banheiros compartilhados, podem sair por menos da metade — com direito a usufruir da completa estrutura do hotel.

 

Publicado na revista TAM Nas Nuvens de dezembro de 2011.

 
Publicado em:
Revista TAM Nas Nuvens

Edição:
48, ano 4

Data:
Dezembro/2011

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