O ritual é orquestrado pelo sino da igreja matriz e se repete todos os finais de tarde. Quando o relógio eletrônico da Igreja Nossa Senhora da Conceição das Carrancas dispara o som das badaladas das 6 horas, a cidade inteira se altera. Um a um, homens e mulheres de todas as idades se benzem com o sinal-da-cruz, alguns deles se ajoelhando, outros tirando o chapéu. As conversas são interrompidas, os olhares silenciosos ficam jogados ao chão, num típico sinal de fervor católico pouco visto mesmo em pequenos povoados tradicionais do interior do Brasil. No simpático centrinho de Carrancas, onde vivem 1500 de seus 4000 habitantes – os outros ainda moram na roça –, tudo gira em torno da velha igreja de 1721: dos passeios dos jovens no sábado à noite às duas procissões semanais que acontecem durante a quarentena preparatória da Páscoa. A maior parte da população freqüenta as missas do padre Jair, segue os jejuns e as penitências recomendados por ele e comemora os dias de santo com festas como o Congado e a Folia de Reis. Para que ninguém se esqueça da força dessa tradição religiosa, o som do sino dispara a cada quinze minutos, 24 horas por dia. Ninguém estranha, nem os moradores dos arredores da praça, que dormem sem se incomodar com o barulho.

(foto de Andréa D’Amato, www.andreadamato.com.br)

”Carrancas é apenas o reflexo do paraíso celeste. E os paraísos devem ser protegidos.“ Numa linguagem bem adequada aos fiéis locais, essa frase foi pintada numa faixa em frente à igreja e resume bem o casamento entre a religião e a natureza dessa pacata cidadezinha de Minas Gerais. “Queremos alertar a população para a necessidade de proteger nossas cinqüenta cachoeiras e dezenas de grutas”, explica Maria Célia Barbosa, 41, a Macé, criadora da associação Amigos do Meio Ambiente (AMA) de Carrancas. Única ONG ecológica local, a AMA assumiu a missão de conscientizar a população da riqueza da vegetação de cerrado e de floresta tropical, da beleza do chapadão do Salto que se impõe logo na entrada de Carrancas e da fartura das nascentes espalhadas pela Serra de Carrancas e por outras sete montanhas que circundam o povoado. Localizada 280 quilômetros ao sul de Belo Horizonte, a uma altitude de 1200 metros, Carrancas só agora tem despertado para o turismo ecológico, para a necessidade de proteger sua cultura e de evitar a degradação de seu patrimônio natural. ”Não queremos ficar tão populares como São Tomé das Letras”, explica o padre Jair dos Santos Pinto, único pároco da comunidade há 44 anos. Vizinha de Carrancas assim como os municípios de Lavras e São João del Rey, São Tomé ganhou fama de cidade esotérica nos anos 80 e desde então tem recebido um fluxo de turismo ”profano, com abuso do álcool e das drogas”. Líder mais respeitado que o próprio prefeito, padre Jair, de 69 anos, está implementando a Pastoral do Turismo. O objetivo é proteger a cidade. Independentemente disso, os visitantes de Carrancas já respeitam a religiosidade bela e simples desse povo.

A cidade acorda ao som dos galos, com carroças trazendo os latões de leite e o cheiro de fogão a lenha que vem das cozinhas. E muito verde ao redor.

Embora tenha uma geografia parecida e relatos semelhantes de aparição de discos voadores, Carrancas conta com uma rotina bem diferente daquela dos remanescentes hippies de São Tomé. E também não é um paraíso natural habitado ou freqüentado por beatos radicais. Mais que uma simpática cidadezinha mineira onde se produz pinga em dezesseis alambiques rústicos e onde quase todo mundo que tem vaca na fazenda faz seu próprio queijo, Carrancas esbanja uma cultura regional marcante. Os cruzeiros no alto de suas montanhas são visitados por procissões nos principais dias de santo. Com o mesmo fervor, as festas dos dias de Reis, de Nossa Senhora da Conceição, da Boa Morte e do Rosário mobilizam dezenas de moradores nas emocionantes apresentações do Congado, da Folia de Reis e do desfile de cavaleiros. E, despreocupada com a badalação, Carrancas não comemora a mais brasileira das festas, o Carnaval, como o resto do país. Há sessenta anos, durante o feriado, a população masculina se fecha em retiro espiritual. ”Para salvar a alma, as pessoas precisam afastar-se dos maus hábitos”, prega o padre Jair. Os visitantes que chegam a Carrancas no Carnaval desfrutam, portanto, de dias tranqüilos.

Calmaria maior se repete nos dias da semana. Carrancas acorda sob o canto dos galos, com carroças trazendo os latões de leite nas portas das casas e cheiro de fogão a lenha vazando das cozinhas. Os alto-falantes da igreja vão denunciando cada quarto de hora com sons diferentes – e poucas pessoas da cidade têm relógio, já acostumadas que estão a essa comodidade. Como não há rádio local – nem banca de jornais, nem mercado, nem rodoviária –, o sistema de som da igreja é usado para dar recados, comunicar fatos importantes e anunciar a agenda religiosa. Na roça, os carros de boi que ainda são utilizados para carregar dezenas de espigas de milho fazem lembrar os bons tempos em que a vila de Nossa Senhora de Conceição das Carrancas era apenas uma passagem dos bandeirantes em busca de ouro, como quando foi criada, em 1713. O mundo deu voltas, o ouro ficou irrisório e Carrancas ganhou independência de Lavras, virando cidade cinqüenta anos atrás. Atualmente, com a crise de preços que tem tornado inviável a criação de gado leiteiro, a nova localidade começa a vislumbrar sua salvação no turismo.

Belezas desconhecidas. “Desde pequena não visito uma cachoeira daqui”, conta, envergonhada, a moradora Alexandrina Jesus Ferreira, 59 anos. Integrante da turma de oração da igreja, ela reza o terço todos os dias e faz parte do enorme grupo de moradores que não conhece as maravilhas do lugar. O artesão Antônio Francisco Resende, o Peroba, de 45 anos, também não costuma sair do centro. Ele é um dos dois únicos artistas locais – o outro é Joel José Mansur, 58 – que se dedicam a lapidar troncos de cedro e jacarandá para fazer as famosas carrancas que dão nome ao lugar. Se ele se inspirou nas carrancas feitas comumente no Rio São Francisco? “Não, vi algumas sendo vendidas em São João del Rey e decidi fazer algo parecido”, explica Peroba, com seu sotaque mineiro. As carrancas que deram nome à cidade, no entanto, são outras. Conforme se diz na cidade, a vila de Carrancas ganhou esse nome por causa da grande quantidade de pedras sobrepostas que fazem lembrar rostos humanos.

(foto de Andréa D’Amato, www.andreadamato.com.br)

Mais que o artesanato e as festas, a natureza de Carrancas continua a dar o mesmo espetáculo que impressionou o botânico francês Auguste de Saint-Hilaire, que por ali passou em 1822. Não faltam cachoeiras de água cristalina, como a da Zilda, com 10 metros de altura, e o Poço Esmeralda, de água esverdeada. Nas grutas de quartzito da Cortina e da Toca, clarabóias surgem enfeitadas por cortinas de cipós, permitindo que árvores de 10 metros de altura ergam suas copas no alto das cavernas. Sobre uma imensa placa de gnaisse, Carrancas esconde muitos buracos profundos entremeados por belas clareiras. Maritacas, gaviões e até veados podem ser avistados. E as inúmeras nascentes das serras alimentam os rios Capivari, Grande e Pitangueiras, os maiores que cruzam a cidade. Todos os passeios ficam a cerca de meia hora de carro a partir do centro, não exigindo muito mais que meia hora de caminhada. Além disso, quaresmeiras e ipês costumam florir os campos das serras.

Nenhuma aventura, no entanto, estimula tanto os fanáticos por adrenalina como a exploração da Racha da Zilda. Trata-se do final do estreito cânion por onde corre a Cachoeira da Zilda, mas que só pode ser acessado por quem tiver força física para enfrentar a correnteza contrária e suportar a água forte e gelada. Diz a lenda que Zilda era uma bela moça que tinha o hábito de banhar-se nua na cachoeira nos fins de tarde. Zilda desapareceu, mas há quem acredite que até hoje ela pode ser vista no local. Seria afronta demais para uma cidade pacata que se orgulha de sua cultura católica e tradicional. Mas é mais uma história curiosa de como as lendas da cultura regional de Carrancas contrastam bem com a magia de sua natureza exuberante.

 

Para Ir Mais Longe

A Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Carrancas e Sua História, de Marta Amato, Ed. Loyola (tel. 0_ _11/914-1922), detalhado relato da história da cidade.

 

FESTAS CRISTÃS

 

Há quatro eventos anuais marcantes em Carrancas: Folia de Reis, de 24 de dezembro a 6 de janeiro. Procissão festiva em que dezenas de homens cantam e tocam de casa em casa. Dançam também o Congado. Paixão de Cristo, durante a Páscoa. Depois dos dias de quarentena sem Carnaval, cinqüenta jovens encenam a Paixão na praça e na igreja. Nossa Senhora da Boa Morte, em 15 de agosto. Mais de 300 cavalos e pessoas enfermas recebem a bênção do padre Jair.

Nossa Senhora da Conceição, em 8 de dezembro. Festa com quermesse e apresentação da dança africana do Congado.

 

GUIA DA TERRA

Como chegar

Carrancas fica a 275 quilômetros de Belo Horizonte, a 370 do Rio de Janeiro e a 430 de São Paulo. O caminho mais fácil é pela Rodovia Fernão Dias, sentido Lavras, passando por Itutinga e dirigindo por 26 quilômetros de terra.

Quando ir

O tempo é sempre quente de dia (média de 25 graus) e frio à noite (cerca de 10 graus), mas de novembro a março chove mais. Prefira viajar no outono ou na primavera. Leve roupa para as noites frias.

Onde ficar

Melhor que se hospedar numa das cinco pousadas do centro é ficar fora da cidade, sob o céu estrelado. As pousadas Mahayana (foto), tel. 0_ _35/327-1226), e Céu e Serra (tel. 0_ _35/327-1188) cobram diárias de R$ 20,00 por pessoa e ficam ao lado de cachoeiras. A Pousada Sete Quedas (tel. 0_ _35/9979-5280) oferece mais conforto por diárias de R$ 50,00 por pessoa. Há ainda três campings simples ao lado da cidade.

Sabor da roça

Há bons hotéis-fazenda com a rotina da roça: Traituba (tel. 0_ _35/327-1059), Fazenda do Engenho (tel. 0_ _35/327-1059), Recanto da Serra (tel. 0_ _35/327-1192) e Pico do Alto Verde (tel. 0_ _35/344-1300). Perto do centro, o Café da Roça (foto) é imperdível. Custa só R$ 4,00.

Como se programar

Os sites www.idasbrasil.com.br e www.ufla.br/carrancas/ oferecem boas dicas. Em Carrancas, a agência Minas Trilhas Gerais (tel. 0_ _35/327-1227) tem guias para todos os tipos de trilha.

Dica do autor

”Procure visitar Carrancas em uma das datas festivas. A alegria e o entusiasmo das pessoas que participam das danças da Folia de Reis e do Congado são de arrepiar. E a fé simples e verdadeira que elas demonstram nas manifestações religiosas é rara nas grandes cidades.“

Daniel Nunes Gonçalves

 

Publicado na revista Os Caminhos da Terra, edição 97, Maio de 2000

 
Publicado em:
Revista Os Caminhos da Terra

Edição:
97

Data:
Maio/2000

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