Um boto cinza salta na frente do barco, mergulha, reaparece com outros botos. Garças, biguás e colhereiros batem asas nos manguezais das duas margens. Durante a navegação entre Cananéia e a Ilha do Cardoso, ambas no litoral sul de São Paulo, um delicado espetáculo de vida se descortina no canal de água salobra ladeado por montanhas de até 800 metros. Na vasta, densa e deserta paisagem do Lagamar, dá para entender por que a União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN) considera este santuário um ponto prioritário de preservação. Os botos, as 430 espécies de aves, as dez praias extensas, as 986 espécies vegetais e a invisível vida aquática do estuário fazem da Ilha do Cardoso um raro ponto da Terra onde a natureza vive em estado bruto.

 

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Talvez não fosse um lugar tão especial, menina dos olhos de biólogos de todo o mundo, se não estivesse situada bem no coração do Lagamar. Gigantesco berçário natural de 110 quilômetros que se estende em forma de estuário desde Iguape, no litoral sul de São Paulo, até Paranaguá, no canto norte do Paraná, o Lagamar é um dos cinco maiores criadouros de espécies marinhas do Atlântico Sul. É formado por extensas ilhas que protegem o continente, criando uma espécie de mar de dentro, e pela desembocadura de vários rios, entre eles o caudaloso Ribeira de Iguape, que cruza todo o Vale do Ribeira. A água doce dos rios encontra-se com os braços de mar, num ambiente rico e complexo. Peixes, crustáceos e moluscos dependem dos pequenos seres desses estuários para se alimentar e viver – e por isso a paisagem da chamada Baía do Trapandé está sempre pontilhada por coloridos barquinhos de pesca. Soma-se à invisível riqueza aquática o verde escuro e denso da maior área de Mata Atlântica contínua do Brasil, um extenso território preservado entre o Rio de Janeiro e o Paraná.

“Esta ilha é a mais representativa porção do Lagamar, pois reúne vários ecossistemas num único lugar”, explica o oceanógrafo Marcos Campolim, responsável pelo Parque Estadual da Ilha do Cardoso, criado em 1962 e gerenciado pelo Instituto Florestal de São Paulo. De fato, como se não bastasse ter cerca de 90% de seu território coberto de Mata Atlântica preservada, essa ilha de 22500 hectares – que tem o tamanho da cidade pernambucana do Recife – é um raro ponto que reúne quatro tipos de ecossistemas importantes (veja quadro na pág. 29). A existência de uma Mata Atlântica que conserva riquezas como 118 espécies de orquídeas e 41 de bromélias levou o parque a ser reconhecido pela Unesco como parte da Reserva da Biosfera desde 1992.

Pássaros migrantes. Com tanto reconhecimento internacional, a ilha só poderia ser um paraíso idolatrado pelos ecologistas também do Brasil. “Este é o centro de fantásticas migrações de pássaros”, lembra a estudiosa de aves Judith Cortesão, apaixonada pelo lugar. Não há na costa brasileira lugar algum com uma diversidade de aves tão grande. Além disso, este é um dos dois lugares da porção neotropical do planeta que protegem a maior quantidade de espécies de aves raras e ameaçadas de extinção. Não são somente os pássaros que dão sua paradinha na Ilha do Cardoso para comer, reproduzir-se ou descansar sempre que migram pelo mundo. Pingüins e lobos marinhos passam por ali nos invernos, fatigados e com o corpo sujo de óleo do mar. Desde junho, técnicos que atuam no parque têm desenvolvido trabalhos de resgate e reabilitação desses animais.

Surpreendente é a Ilha do Cardoso preservar seus bugios, veados e jaguatiricas mesmo estando a apenas 272 quilômetros de São Paulo, a maior metrópole do país. A história mostra que a natureza tem sobrevivido a diferentes povoações. O caminho que os barcos percorrem para chegar ao Núcleo Perequê, onde fica a sede do parque, ou à Vila de Marujá, centro turístico da ilha, é uma prova disso. A rota passa por vários sambaquis, sítios arqueológicos onde estão misturados conchas, restos de fogueira e esqueletos de homens e animais datados de mais de 1500 anos. Depois dos índios, a ilha teve como moradores os portugueses, que chegaram a Cananéia em 1502 (veja quadro) e transformaram a região em zona portuária até o século passado.

No início do século XX, existiam mais pessoas morando na Ilha do Cardoso do que em Cananéia. Motivo: o solo era mais fértil e os peixes, a fauna, a flora e a água potável eram abundantes. Até hoje a Ilha guarda ruínas de construções coloniais e de engenhos – como o que fica na trilha da Cachoeira Grande, a mais visitada das catorze cachoeiras. A beleza do lugar continuou atraindo moradores depois da criação do parque: há duas décadas, grandes empresários compraram terrenos dos nativos para construir mansões ilegais. Recentemente, a Justiça ordenou a demolição de algumas dessas casas.

Estilo pantaneiro. O plano de manejo que tem sido colocado em prática no parque há três anos é uma experiência ainda rara no Brasil. Feito com a participação das seis comunidades da ilha, esse plano concilia a preservação da área natural com a presença de moradores na reserva. Nem sempre foi assim. Na década de 60, quando a ilha virou parque, muita gente foi expulsa sem desculpas nem indenizações. A família do monitor ambiental Romeu Mário Rodrigues, nativo da ilha, foi uma das que mais sofreram. “Eles foram jogados no continente sem ter nem uma roça pra viver”, conta seu Romeu, com tristeza. Aos 53 anos, esse baixinho simpático, de pele acostumada com os infernais mosquitos-pólvora da lua cheia, orienta estudiosos e visitantes por trilhas que levam, por exemplo, à bela piscina natural do Poço das Antas, à distante Praia de Ipanema ou aos manguezais para que seja feita a focagem noturna do jacaré-de-papo-amarelo, no melhor estilo pantaneiro.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Hoje 400 pessoas vivem espalhadas pela Ilha do Cardoso. A exploração do palmito, antes bastante comum, foi proibida e a população passou a viver da pesca. Até os 23 índios guaranis, que desde 1992 migraram para dois pontos do arquipélago, são aceitos. Eles só deixam o isolamento do grupo para vender artesanato, participar das reuniões do comitê gestor da ilha e visitar o vizinho João Cardoso. Aos 72 anos, João é o último Cardoso, da família que dá nome ao lugar, que ainda vive na ilha, sustentando uma mulher e uma filha com os poucos trocados que tira da pesca. Como ele, todos os pescadores respeitam as regras que evitam a extinção de algumas espécies de peixes, previstas no plano de manejo. Os homens da ilha tiram o seu ganha-pão diário dos tradicionais cercos de pesca artesanais. Conhecidos nas praias do Nordeste como currais, esses cercos são armações de madeira onde os peixes entram e não conseguem sair. Os botos chegam, inclusive, a ajudar na pesca. “Eles usam os cercos como barreira e tocam cardumes inteiros para dentro do cercado”, explica o biólogo Fernando de Oliveira, do Instituto de Pesquisas Cananéia, o Ipec, uma das ONGs que pesquisam os botos na região da Ilha do Cardoso. O espetáculo da despesca do cerco, quando os pescadores esvaziam a armadilha, é belíssimo: botos e dezenas de aves se aproximam para roubar um pouco de alimento, enquanto os pescadores enchem seus barcos de tainhas, no inverno, e de paratis e robalos, no verão.

A estreita Vila da Restinga. O isolamento torna mais dura a vida dos ilhéus. A falta de energia elétrica tem sido suprida com o uso de painéis que captam a energia solar. A idéia é ecológica, mas a população reclama que um dos fornecedores dos serviços de energia não tem feito a manutenção dos painéis – deixando muita gente sem luz. Para as famílias que vivem nas comunidades mais distantes ou nos sítios isolados isso é um transtorno a mais. Afinal, todos precisam navegar pelo menos meia hora de barco até Cananéia, por exemplo, para ir ao hospital ou para estudar em escolas a partir da quinta série do ensino fundamental. Além disso, o sistema de saneamento ainda é precário e 25% do esgoto vai para o mar sem receber tratamento algum. Espera-se que, a partir de julho, esse problema seja sanado. Uma ONG da Alemanha se juntou ao parque e à Associação de Moradores do Marujá para implantar um tratamento de esgotos completo na principal vila do lugar.

Na restinga ao sul da ilha, Marujá é um vilarejo tão estreito que a distância entre o Canal de Ararapira, onde os barcos aportam, e a praia principal, a do Marujá, não passa de 300 metros. Seus 150 habitantes vivem da pesca ou do turismo: há três pousadas, oito casas de moradores transformadas em hospedarias nos finais de semana, três restaurantes e três bares – um deles vira casa de forró de vez em quando. A luz é produzida por geradores barulhentos, só há um telefone na vila e os chuveiros são aquecidos a gás. Apesar de as dez praias da Ilha do Cardoso, extensas e com areia batida como é comum no litoral sul do Estado, serem menos atraentes que as pequenas baías recortadas pelas montanhas do badalado litoral norte, Marujá costuma lotar nos feriados. Todos os caminhos – aonde não chegam carros e portanto não há ruas ou calçadas – lotam de barracas de camping.

“Temos tentado organizar o turismo ecológico orientando os visitantes para que não sujem as trilhas e separem o lixo reciclável dos restos orgânicos”, diz o pescador Ezequiel de Oliveira, 59 anos, líder da comunidade e defensor da manutenção de atividades tradicionais como a pesca de cerco, a roça e a produção de farinha. No intuito de orientar os turistas, quinze monitores ambientais foram treinados em dezembro para acompanhar os visitantes nas caminhadas mais longas, como a que leva às piscinas naturais. Um camping comunitário deve passar a funcionar no segundo semestre. Há planos ainda para a instalação de um centro de pesquisas do Projeto Tamar, já que este é um dos mais importantes pontos de alimentação de cinco espécies de tartarugas marinhas. Outro projeto, esse em parceria com a Unesp de Rio Claro, vai iniciar um roteiro monitorado de rapel em árvores, usando alguns cedros e jequitibás de mais de 50 metros de altura do Perequê.

Os planos são muitos e a comunidade vê com bons olhos a exploração do ecoturismo. Não só pela renda a mais mas também porque têm consciência ecológica. Prova disso é que as três últimas autuações de exploradores clandestinos e caçadores foram feitas com a ajuda de índios e pescadores – exemplo raro de mobilização social. Os privilegiados habitantes da Ilha do Cardoso sabem que têm uma das regiões naturais mais ricas do planeta. E preservá-la é prioridade para eles e para todo o mundo.

Para ir mais longe

Descubra o Lagamar, livro de Nicia Wendel de Magalhães, editado pela Associação para Estudos do Ambiente, tel. 011/212-5538.

 

 

GUIA DA TERRA

COMO CHEGAR

Apesar de estar em pleno litoral de São Paulo, a Ilha do Cardoso conseguiu manter-se preservada porque o acesso não é tão fácil. De carro, é preciso seguir até Cananéia pela perigosa BR-116, também conhecida como Rodovia da Morte pela freqüência de acidentes com os muitos caminhões que por ela circulam. São 272 quilômetros de distância de São Paulo. Do Porto de Cananéia partem barcos até Marujá, que levam cerca de 3 horas de viagem. Além do barco do Dersa e do barco Lagamar para o Marujá, existem as pequenas voadeiras de pescadores, que podem ser alugadas para viagens a Marujá ou Perequê.

QUANDO IR

Como em todo o Vale do Ribeira, chove muito na Ilha do Cardoso – pelo menos uma vez por semana. O período de julho a agosto é bom porque a umidade diminui, com temperatura média de 18 graus, dias quentes e noites que baixam aos 10 graus. No verão, entre dezembro e fevereiro, cai muita água e a temperatura passa dos 25 graus. É bom para ver jacarés, que estão procriando.

ONDE FICAR

Perequê, onde está a sede do Parque (tel. 013/851-1163), oferece passeio organizado, com alojamento para oitenta pessoas (foto), quatro trilhas por manguezais, restingas, praias e Mata Atlântica, além de boa comida no refeitório. Há doze agências de ecoturismo que fazem viagens à Ilha do Cardoso, informe-se no parque. Em Marujá, cada um pode cuidar de seu próprio passeio — embora existam também guias à disposição. Comunitário, o único telefone da vila (tel. 013/852-1161) pode fazer reservas para as pousadas. Na do Ezequiel dá para acampar, alugar quartos e comer bem. O preço da diária com pensão completa é 30 reais, o mesmo do Hotel do Celestino Trudes, o mais próximo da praia, e do Recanto do Marujá (tel. 013/851-1488), à beira do canal.

DICA DO AUTOR

”Hospedar-se no Perequê é mais tranqüilo, mas, caso você prefira ficar no Marujá, evite ir nos feriados, pois a vila fica cheia. Ao escolher um lugar para se alojar, verifique se não há por perto um barulhento gerador de energia. E você dormirá ouvindo o som da natureza.”

Daniel Nunes Gonçalves

 

 

A RIQUEZA DO LITORAL SUL PAULISTA

Um dos principais méritos da Ilha do Cardoso é aglutinar quatro ecossistemas importantes em um só lugar: o coração do Lagamar, uma área que leva o pomposo nome de Complexo Estuarino-Lagunar de Iguape, Cananéia e Paranaguá e que reúne ainda a Juréia, a Ilha do Mel, o Superagui e a Ilha Comprida.

Mangue

Ocupando 8% da ilha, os manguezais são emaranhados de árvores que deixam suas raízes à mostra, banhadas em água salobra. Têm aparência estranha, mas são moradia de caranguejos e muitos outros animais aquáticos.

Floresta Atlântica

A floresta atlântica engloba a maior parte da Ilha do Cardoso. Tem arbustos, gramíneas e árvores de até 50 metros de altura, que surgem nas planícies onde estão as restingas e seguem para o alto dos morros de até 840 metros. Tem riachos, cachoeiras e coloridas espécies de orquídeas e bromélias.

Restinga

Vegetação baixa, formada basicamente por arbustos que crescem em terrenos arenosos entre as praias e a floresta atlântica do interior da ilha. É bastante procurada por aves migratórias, que buscam frutos maduros para se alimentar. Parte da restinga é inundável, em complexos de água doce e salgada, e habitada por lontras, cágados e jacarés-de-papo-amarelo.

Dunas

A Ilha do Cardoso não tem dunas de areia altas como as que existem em Cabo Frio (RJ) e Genipabu (RN). Aqui, o que se chama de vegetação de dunas é o mato que fixa as pequenas elevações de areia da praia, que não ultrapassam 2 metros de altura. Esse ambiente arenoso acumula restos de seres marinhos e é vital para a alimentação de várias espécies de pássaros.

 

Publicado na revista Os Caminhos da Terra, edição 87, Julho/1999

 
Publicado em:
Revista Os Caminhos da Terra

Edição:
87

Data:
Julho/1989

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