Andava sumido o Benjamin. Alguns achavam que tinha morrido, pela idade avançada – nascera em 1913 e passara toda a vida trabalhando duro nos sertões de Minas Gerais e Bahia. Outros sabiam: o velho agonizava em Pirapora, rio abaixo, praticamente esquecido há mais de uma década. Quando todos achavam que era um caso perdido, eis que ele se reergueu, renovado e vigoroso. Em outubro de 2007, o Benjamin Guimarães, um dos últimos barcos a vapor em atividade no planeta, voltou a navegar pelas águas do rio São Francisco, a mítica artéria que atravessa cinco estados brasileiros ao longo de 2,2 mil quilômetros. Ele ainda roda devagarinho, a não mais que 17 quilômetros por hora, como fez por 70 anos. Mas continua levando alegria – e uma certa nostalgia – à pobre gente ribeirinha que agora o vê voltar a desfilar.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

O Sol já baixa às 16h20 de uma tarde de maio quando ouço, em terra, um apito. É ele. O Benjamin Guimarães anuncia com mais dois toques a sua chegada a São Romão, norte de Minas. Sob o pipocar espaçado dos fogos de artifício e os alto-falantes que tocam Sobradinho e Asa Branca, algumas dezenas de pessoas observam o atracamento cuidadoso. A recepção é discreta. Quase toda a população local está mobilizada na procissão de Corpus Christi, que peregrina por ruas forradas de flores e serragens coloridas desde a Igreja de Nossa Senhora do Rosário, de 1896. As tradições dessa paragem do médio São Francisco, porém, são mais velhas. Antiga Vila Risonha de Santo Antônio do Manga, São Romão existe desde 1686, quando nem Ouro Preto nem Mariana tinham surgido no mapa.

A cidade de 9 mil habitantes vive hoje de agropecuária e de pesca de subsistência. Ela ganhou destaque recente pelo privilégio de marcar o ponto final do bate-e-volta de seis dias e 170 quilômetros que o Benjamin percorre a partir de Pirapora. “Ele continua elegante; só mudou o apito”, repara o são-romanense Geraldo Torres Vasconcelos, de 64 anos, arrepiado de emoção enquanto observa, do alto do barranco, o barco em que navegou tantas vezes. “Esse som choroso me lembra mais o Barão de Cotegipe”, reconhece ele, referindo-se a outro dos 35 vapores que movimentaram o leito navegável de Pirapora a Juazeiro, na Bahia, entre 1871 e 1986.

A constatação dos apitos trocados soa como evidência da intimidade da gente antiga de São Romão com o Benjamin e sua turma. Eles são tratados como se fossem seres humanos nas rodas de conversas saudosistas percebidas ao longo das 12 horas em que a embarcação permanece ancorada. “O Raul Soares era o maior de todos; o Fernão Dias afundou na Cachoeira do Manteiga; o Fernando da Cunha pegou fogo…”, diz Mário Torres, de 74 anos, listando os nomes de cor. Ele é maestro da banda da cidade, a Sete de Setembro, que tocou para o Benjamin no desembarque de outubro. “Tinha um escurinho, um que andava torto, outro pequeno que dava dó”, lembra Maria da Conceição Moura, de 81 anos, a “Dona Maria do Batuque”, guardiã das tradições folclóricas da cidade que fez o show da recepção na segunda viagem, em fevereiro.

A terceira expedição do Benjamin a São Romão, a que vi chegar em maio, evidenciou a boa forma do velho e de seus 16 tripulantes, lobos-do- rio especializados nos “roda-popa” (como eles chamam as barcaças com rodas-d’água na traseira). “Foi a mais difícil das três viagens”, confessa o comandante Cassiano José de Castro, de 78 anos. “O São Francisco está muito assoreado, quase atolamos nos bancos de areia”, explica, lembrando que a profundidade do rio estava em 1,3 metro, e o calado do Benjamin é de 1,2 metro. Como aconteceu com o próprio vapor, Cassiano encerrou os 14 anos de aposentadoria para voltar a capitanear o barco em que estreara como comandante. Só não esperava enfrentar as águas rasas. A represa de Três Marias não liberou água, como fizera em outubro. A razão é ambiental: o rio mais cheio nesse período prejudica a reprodução de algumas espécies de peixe.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

Os 20 passageiros do Benjamin desembarcam para conhecer os poucos prédios históricos preservados de São Romão. Atendidos por 25 profissionais, entre tripulação, garçons e camareiras, os visitantes fazem parte de um seleto grupo com chance de gastar 3 000 reais por uma aventura que oferece mais experiências marcantes que belos cartões-postais. “Essa não é uma viagem pelo rio, mas uma viagem no tempo”, define a paulista Vera Tellefsen, de 50 anos, que encarou os banheiros coletivos e as cabines duplas pelo prazer de repetir o roteiro de sonho que seus pais, mochileiros alemães, realizaram em 1983. Mas o suíço Rolf Dux, de 61 anos, que já viajou por mais de 100 países, reconhece que o passeio tem algo de monótono. A única dose de adrenalina surgiu por causa da baixa profundidade do rio. “A tripulação mostrou o quanto é experiente, observando a olho nu, sem equipamentos modernos, os trechos a serem evitados”, diz.

O vapor, construído no americano rio Mississippi – pátria de outro barco lendário, o Robert H. Lee –, foi trazido desmontado para navegar no rio Amazonas e depois no São Francisco, comprado pela família de Benjamin Guimarães, um empresário que dedicou sua vida a construir hospitais e curar doentes – mesma sina do francês São Romão, que dá nome à cidade. Embora tenha virado uma espécie de máquina do tempo para o ontem glorioso, o Benjamin renasceu em tempos críticos. Além das águas rasas, os peixes escasseiam em função da poluição, como a que verdejou o Velho Chico com o enxofre das cianobactérias em 2007, impedindo que os 400 pescadores da cidade trabalhassem por dois meses. A transposição de suas águas, em uma polêmica obra de 3,5 bilhões de reais, alimenta discussões acaloradas do Palácio da Alvorada às barrancas de São Romão. “Vão tirar só 1% das águas e matar a sede de 15 milhões de sertanejos”, acredita Geraldo Wilton da Silva, de 60 anos. “Larga de ser ingênuo, homem! Não vê que o rio tá morrendo? E querem usar a água pra irrigar as plantações dos latifundiários”, retruca sua esposa, Sebastiana, a “Dona Tuzinha”, líder dos dez integrantes da bela serenata-surpresa que despertou os passageiros do Benjamin durante a madrugada.

Desde 2004, quando a prefeitura de Pirapora restaurou e tombou a embarcação, o Benjamin faz passeios dominicais de três horas. A recente retomada das viagens tem o mérito de jogar holofotes sobre outros cantos esquecidos do norte de Minas, como Barra do Guaicuí, Ibiaí, Cachoeira do Manteiga e São Romão. Bem menos famosa que as cidades do ciclo do ouro, São Romão foi fundada durante o povoamento do interior do Brasil colonial. O desenvolvimento do chamado “ciclo do gado” deu importância ao povoado por sua geografia estratégica em um tempo em que o transporte se dava por meio de hidrovias. São Romão é uma espécie de “ilha” cercada por rios – São Francisco, Paracatu, Urucuia e Ribeirão Conceição – e tornou-se entreposto para abastecimento de alimentos e produtos ligados à agropecuária, conectando as vias aquáticas que davam acesso ao que hoje conhecemos como Goiás, Mato Grosso e Minas Gerais.

A prosperidade ganhou impulso com a circulação dos barcos a vapor, no fim do século 19. Os chamados “gaiolas” passaram a ser o principal meio de transporte coletivo e de carga, e funcionavam como um misto de mercado e hotel flutuante em que se comprava de tudo, de sal a rapadura e coco da Bahia. “Foi num vapor que meu pai me levou a um hospital quando eu tinha 5 anos e adoeci de cesão”, recorda, ainda usando o nome antigo da malária, o vaqueiro José Juvêncio Lemos, de 48 anos. Seu estilo de vida e o cenário onde vive, a vereda Escuro, a 1 quilômetro do rio Urucuia, remete ao universo de outro Guimarães, o Rosa, escritor que transportou essas paragens mineiras para as páginas de obras como Grande Sertão: Veredas. Outra memória de infância enche de nostalgia o pescador José Reinaldo Bispo, de 33 anos, morador da comunidade quilombola Ribanceira. “Eu tinha 8 anos de idade quando vi o vapor São Francisco torrar num incêndio”, lembra ele. José Reinaldo sente na pele os efeitos devastadores da exploração da lenha para alimentar as caldeiras. Foi o desmatamento desenfreado das margens que deu origem a uma enorme voçoroca, que engoliu duas ruas e seis casas do povoado, chegando a 3 metros de sua casa. A erosão não tem solução a curto prazo.

(foto de Andréa D'Amato, www.andreadamato.com.br)

O fim da navegação comercial dos vapores no São Francisco, nos anos 1980, em função das más condições do rio e da concorrência com o transporte rodoviário, deixou São Romão isolada e pobre. Só agora, duas décadas depois, a cidade retoma o contato com o mundo. Em 200fiforam inaugurados os primeiros 80 quilômetros da estrada de asfalto que liga o outro lado do rio à cidade de Brasília de Minas. Uma antena para celulares foi erguida no início deste ano, e a divulgação recente de que existe gás natural no subsolo da região deixa a população esperançosa por dias melhores. O desmatamento do cerrado, feito sob pretexto de produzir carvão, pastagens e monoculturas, como a da soja, ainda é uma ameaça, mas começa a ser combatido, apesar de a cidade dispor de apenas três agentes florestais. A Operação São Romão, contra exploração ilegal, contou com cerca de 30 policiais ambientais em abril. Multou fazendeiros e destruiu ao menos 20 fornos de carvoarias clandestinas.

A volta do Benjamin não representa o retorno da navegação pelo São Francisco, como sonha a nação barranqueira. “Os tempos são outros. A lentidão de um vapor a lenha já não combina com o ritmo acelerado do mundo”, analisa Vânia Guedes Santos, de 5fianos, uma ex-moradora que voltou à cidade para acompanhar o casamento de sua filha, à beira do São Francisco, e que se emocionou ao deparar com aquela parte importante de sua história.

O Benjamin partiu às 5 horas da manhã seguinte, quando a aurora alaranjou o céu do sertão. São Romão, que já lotou o convés com 300 pessoas para viajar pelo preço de uma passagem de ônibus, agora observa o passeio dos ricos sob o olhar distante de meia dúzia de pescadores. O comandante Mariano dispara o apito por três vezes, e cinco marujos fazem força para içar a âncora enquanto outro grupo prepara a lenha – agora de madeira re¬ florestada – a ser queimada para impulsionar a barcaça.

A tripulação logo se empoleira na proa, a fim de observar os trechos rasos a serem evitados. E o Benjamin Guimarães, mito da navegação mundial, segue deixando um rastro de fumaça e cheiro de lenha no mais amado rio brasileiro.

 

Seção Código Postal – 9290-000: São Romão, MG

Publicado na Revista NATIONAL GEOGRAPHIC de Agosto/2008

 
Publicado em:
Revista National Geographic - Brasil

Edição:
Ano 9, Número 101

Data:
Agosto/2008

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