Era uma noite quente de setembro à beira de um abismo da serra Ricardo Franco, uma desconhecida preciosidade ecológica no município de Vila Bela da Santíssima Trindade, na fronteira do Mato Grosso com a Bolívia. Durante o dia, os termômetros superavam 40 graus, e a expedição de 13 jovens e três instrutores havia sofrido para encontrar míseros 16 litros de água escura para saciar a desesperada sede. Aqueles primeiros dias de uma sessão de trekking de 90 quilômetros que duraria um mês tinham deixado o grupo cansado. Todos já se preparavam para dormir quando um pânico coletivo se instaurou. Um exército de milhares de formigas saúvas se espalhou, devorando, como num filme de horror, as mochilas, as roupas e até as barracas. “Parecia um pesadelo, começamos a sofrer com as picadas e corremos para desmontar o acampamento”, conta o paraibano Edmilson Fonseca, 32 anos, o único brasileiro entre os estudantes do segundo curso-expedição realizado no Brasil pela norte-americana Nols (National Outdoor Leadership School), a mais respeitada instituição de ensino experiencial ao ar livre do planeta. “Acampo desde os 13 anos, quando era escoteiro, e nunca tinha visto uma cena daquelas”, contou.

A recepção nada amigável das saúvas era o inesperado “batismo” de boas-vindas do cerrado brasileiro ao grupo dos Estados Unidos, a maioria com idade entre 18 e 20 anos, que tinha co- meçado sua viagem na Chapada dos Guimarães (MT), sede da Nols no país. O episódio foi usado como lição sobre onde acampar, e se juntou ao caldeirão de ensinamentos da escola. Ao longo de três meses, Edmilson, o felizardo ganhador da única bolsa de estudos anual da Nols destinada a brasileiros, cruzaria com seus colegas de classe a Amazônia de sul a norte numa sala de aula selvagem, gigante e diferente. Durante a expedição, os alunos aprendem técnicas de trekking e canoagem com instrutores conceituados. Conhecem a diversidade cultural do país por meio da convivência com caboclos, índios, quilombolas e seringueiros. E têm acesso a uma grade curricular feita sob medida para amantes das atividades outdoor. Ela pode ser resumida em sete lições básicas, que passamos adiante nas próximas páginas.

 

1a LIÇÃO: APRENDA A ACAMPAR

Foi no 22o dia da expedição, na ilha do Boto, próxima a Vila Bela, que me integrei ao grupo e ouvi os relatos sobre o ataque das saúvas e a falta d’água na serra. O acampamento tinha quatro barracas, uma para cada grupo de quatro alunos e outra para os três instrutores (dos oito que se revezariam ao longo do curso). A lua cheia já prateava o caudaloso rio Guaporé diante de nós e o astral da galera fazia lembrar minhas viagens da adolescência, 20 anos atrás. Vi-me ali, parecido com o ruivinho de 18 anos do estado do Oregon, Seth Walton, que tocava Radiohead no violão enquanto a turma assava um bolo no fogareiro — sim, bolo, é possível. Em seguida, rolaria um “Parabéns a você” bilíngüe pelo aniversário de 50 anos do chefe dos instrutores, o britânico Jonathan Kempsey, ou Jon. Meus dez dias ali prometiam ser uma mamata.

Eu achava que sabia viajar e que já conhecia as principais manhas do excursionismo e do camping selvagem. E me frustrei logo que tive minha mochila de 65 litros checada pelos instrutores, procedimento pelo qual já tinham passado os alunos no início da caminhada. A idéia era que eu não carregasse peso desnecessário e pudesse levar panelas, comida, cilindro de benzina inflamável para o fogareiro e parte do equipamento do grupo dos instrutores, ao qual eu me integraria e com quem eu dividiria refeições. De repente, foram tirados da minha mala papel higiênico, sabonete, minixampu, toalha e tênis extra. Até canivete, capa de mochila, garfo e faca dançaram. Fui obrigado a seguir viagem com apenas duas peças de cada tipo de roupa — cuecas, meias, calças e camisetas — e uma única colher. Canivete, bastaria o do instrutor.

Um pouco contrariado, cá entre nós, burlei a fiscalização carre- gando um desodorante compacto no bolso lateral e decidi assimi- lar as outras instruções. Primeira regra: os rios no caminho seriam nossas banheiras naturais, assim como serviriam para lavar a roupa suja e a louça das refeições (embora a bucha e o detergente também fossem artigos vetados, tendo seus efeitos desengorduran- tes substituídos pela areia e pelas folhas das árvores). “E na hora de ‘ir ao banheiro’, como faço?”, perguntei. “Para quê o papel?”, responderam. Primeiro, seria obrigatório vestir os gaitors, aquelas polainas para proteção das pernas contra picada de cobras. Depois de definido o esconderijo a pelo menos 60 metros do rio, eu deveria usar uma pequena pá coletiva para cavar um buraco, onde o “produto” seria enterrado, evitando a atração de moscas. A limpeza seria feita com água. E só. No fim, as mãos seriam lava- das com desinfetante. Ao longo dos dias seguintes, criaria minha própria rotina de tomar banho logo depois de “usar o banheiro”, e aprenderia outros macetes para uma viagem ecológica e social- mente correta, o que não foi tão fácil assim.

 

2a LIÇÃO: SAIBA LIDERAR

Com 42 anos de tradição, a Nols foi criada com a idéia de for- mar bons instrutores de educação ao ar livre. “Acreditamos que o formato de expedição é o que melhor permite o exercício da liderança”, diz o norte-americano Atila Rego-Monteiro, 41, que coordena a nova Nols Amazon e foi um dos responsáveis pela vinda da escola ao país. Filho de um diplomata brasileiro e uma imigrante alemã, ele foi quem mais vibrou quando, sete anos atrás, uma pesquisa entre os alunos apontou que a Amazônia e a Nova Zelândia eram as novas locações preferidas para serem incluídas no menu de destinos da escola. Era o que ele precisava para articular a operação, resgatando suas raízes verde-e-ama- relas e impulsionando no país uma idéia pela qual ele tinha se apaixonado em 1992. O conceito de educação outdoor começou a ser difundido por aqui em 2000, com a chegada da Outward Bound, escola inglesa pioneira no tema há 65 anos e que inspirou Paul Petzolt a criar a Nols nos Estados Unidos (leia quadro). Apesar de concorrentes, as escolas têm instrutores em comum e objetivos parecidos. Quem já cursou as duas considera a OBB (Outward Bound Brasil) mais voltada para o desenvolvimento pessoal — quase um degrau de acesso à Nols, respeitada pelo aprofundamento técnico.

“Uma das coisas mais excitantes em um curso novo como este é saber que estamos passando por lugares que quase não foram explorados”, definiu Peter Carr, 19, um estudante de história do Novo México que acampara com a Nols no Wyoming quando tinha 14 anos. “É mais emocionante saber que a rota é desconhecida até pelos instrutores”, continua Peter, que ganhou o apelido de Pedro (todos os alunos da Nols Amazônia ganham nomes aportuguesados) e que, aficionado pela Segunda Guerra Mundial, passou os 82 dias da expedição vestindo um uniforme verde-musgo original de um soldado norte-americano. “Nos Estados Unidos, as escolas repetem os mesmos percursos há décadas”, lamenta seu colega Thomas Loftis, 19, estudante de antropologia do Colorado que fizera um curso da Outward Bound anos atrás.

Os cenários brasileiros foram diferentes nas duas primeiras expedições, e a edição de 2008 também deve ter novidades. Em 2006, outros 13 jovens passaram pelo Pantanal, remaram nos rios Aripuanã e Madeira, e fizeram a expedição final, que sempre acontece sem instrutores, na serra Curicuriari, em São Gabriel da Cachoeira (AM), perto de Manaus. Ano passado, os pântanos deram lugar ao cerrado da serra Ricardo Franco, em Vila Bela, onde aconteceu o trekking. Depois, o grupo voltou à base da Nols na Chapada dos Guimarães, reorganizou comida e equipamento e seguiu viagem de dois dias em ônibus até o ponto do rio Juruena onde começaram os 600 quilômetros de canoagem, ao longo de quatro semanas, também pelo rio Tapajós. De Santarém, voaram à Venezuela para a expedição de volta ao Brasil, ao longo de uma semana pelo monte Roraima. Curiosamente, os rios Aripuanã e Juruena ficam em localidades remotas na rota dos maiores desmatamentos criminosos do país — tanto que as cidades homônimas à beira desses rios registram algumas das maiores taxas de homicídios por causas ambientais.

Foi exatamente com esse objetivo — delinear um roteiro desa- fiador tanto por terrenos remotos de difícil navegação como por rios com corredeiras de alto nível — que a cúpula da Nols brasilei- ra realizou dez viagens de prospecção, como pelo Pantanal (MT) em 2002 e pelo rio Roosevelt (PA) em 2003. Foi nessa expedição de 25 dias que o instrutor Jon tomou um choque de um peixe elétrico que poderia ter sido fatal. Além de Jon e do comandante Atila, estavam no grupo outros figurões respeitados da escola: o canadense Jim Chisholm, que passou os últimos 25 anos (do total de 50) trabalhando para a escola e acumula 480 semanas em campo — o equivalente a nove anos dormindo em barracas! —; o paulista Flávio Kunreuther, 38, um dos instrutores de remo da expedição de 2007, também instrutor OBB; e o também paulista Fábio Raimo de Oliveira, 39, o primeiro brasileiro a se tornar instrutor da Nols internacional, em 1998. Como se não bastasse ter o emprego dos sonhos de quem ama o universo outdoor, essa turma tem a vantagem de poder programar suas próprias expedições de professores bancadas pela Nols como uma espécie de treinamento. E, no início de cada ano, eles têm a chance de propor em quais países e com quem gostariam de expedicionar.

 

 

3a LIÇÃO: CONVIVA BEM COM O GRUPO

Nas conversas de trilha, percebi que o grupo era mais diversificado do que eu imaginava. Os objetivos eram distintos e mui- tos ali não tinham experiência alguma na natureza. Era o caso do economista Alex Melnyk, um gordinho de 26 anos que nunca tinha acampado antes de se licenciar do trabalho, num banco de investimentos em Chicago, para conhecer a Amazônia. Ele viajara com a idéia de transferir as lições de liderança outdoor para os negócios. No primeiro dia de caminhada pela serra, quando teve de subir pedras durante cinco horas em meio ao calor abafado pelas nuvens das queimadas da região, Alex penou um bocado. “Achei que não fosse agüentar”, contou, com o nariz avermelhado em conseqüência de uma irritação causada pelo medicamento antimalárico obrigatório.

Apesar da pouca idade, a loirinha Rebecca Stone, a Becca, de 19 anos, trazia a experiência de ter passado os últimos verões de Idaho reparando trilhas em parques norte-americanos, e desem- barcou no Brasil com a intenção de trabalhar monitorando ati- vidades outdoor. Porém, ninguém tinha pretensões mais ousadas que Edmilson Fonseca, o bolsista que organiza uma das corridas de aventura mais antigas do Brasil, o Desafio Costa do Sol, e que há sete anos planejava fazer o curso. “Meu sonho é ser um instrutor da Nols”, confessou Edmilson, que já escalou montanhas como o Mont Blanc europeu e que pediu demissão da escola de inglês onde dá aula para viajar à Amazônia. Ele sabe que ser instrutor é ter a chance de viajar por alguns dos mais alucinantes refúgios naturais do planeta, com despesas pagas, salário razoável e a chance de virar fera em modalidades outdoor presentes nos cursos, como rafting, esqui, espeleologia e vela — além de trekking e canoagem.

Mesmo com históricos e objetivos distintos, os 13 alunos aprenderam que todos os grupos passam por processos semelhantes de integração que incluem a formação, o conflito, o desempenho e a transformação. Para que se preparassem para a expedição final do curso, os viajantes tiveram uma rotina permeada por aulas que poderiam ser úteis a executivos, como processos de tomada de decisão, a esportistas, como técnicas para fazer nós, e também que poderiam ser ensinadas por nossas avós, como costurar os furos feitos pelas saúvas na barraca e preparar deliciosos bolos e pães assados. “Este é um curso que ensina o valor das coisas sim- ples”, define Atila, líder também no trecho da canoagem. Nesse aprendizado empírico, o cronograma de aulas se altera conforme o temperamento do grupo e do clima, e cada aventureiro é responsável por carregar caderno, caneta e um livro da biblioteca Nols da Chapada. Os alunos se concentram para ler em qualquer tempo livre, como o descanso nas caminhadas ou a espera por um barco ou um ônibus em meio aos traslados.

Dinâmicas coletivas são parte fundamental do método de ensino. As rodas de conversa que acontecem ao menos duas vezes ao dia alternam os integrantes dos subgrupos e revezam os líderes, evi- denciando as características pessoais num ambiente distante das referências cotidianas. Na Amazônia, todos estão longe da família e dos amigos, assim como da cultura de televisão, da internet e da dieta de fast-food a que estão acostumados. Ninguém tem a chance de apertar um botão de “off” quando o programa fica chato. E a resolução das diferenças só acontece quando os participantes de- senvolvem seu poder de comunicação e seu bom comportamento expedicionário, de forma a serem reconhecidos como mediadores de conflitos e como pessoas de iniciativa — virtudes que vão se evidenciando à medida que a expedição avança e os instrutores se tornam mais conselheiros e observadores do que mestres.

A disciplina exigida pelos instrutores da Nols em questões de organização, cumprimento de horários e de tarefas faz lembrar o regime que os brasileiros de 19 anos enfrentam ao servirem às Forças Armadas. Atrasos são seguidos de longos esporros e a higiene pessoal é cobrada para minimizar o desgaste das relações dos alunos, obrigados a dormir em barracas de quatro pessoas ao longo de três meses. Como também acontece no escotismo, a aventura no ambiente natural adverso desenvolve no grupo a lealdade e a coesão. “A diferença é que, no Exército, as ações do soldado acontecem para cumprir ordens de um superior, sob a pena de ser humilhado ou punido severamente”, pondera o instrutor paranaense Dálio Zippin Neto, 40, um cabeludo com um divertido jeitão rebelde que fez dele o instrutor preferido pela turma. “Aqui, os alunos são motivados a assumirem deter- minadas atitudes de forma consciente, pelo bem das pessoas e do meio ambiente”, continua Dálio. Advogado de formação e escalador “desde os sete anos”, ele foi aprovado como instrutor Nols graças a um currículo de atividades outdoor que enchem 24 páginas e que incluem quatro cumes do El Captain, no parque nacional norte-americano Yosemite, além do Aconcágua argentino — onde, por sinal, foi um dos sobreviventes da tragédia que matou Mozart Catão, Alexandre Oliveira e Othon Leonardos em uma avalanche em 1998. Sua formação como instrutor da Nols incluiu 22 dias sobre um glaciar do Alasca e 80 horas (dez dias) de um treinamento em primeiros socorros no estado norte-ame- ricano do Oregon que exige uma atualização a cada três anos.

 

 

4a LIÇÃO: SEJA HÁBIL NOS ESPORTES OUTDOOR

Os instrutores são o maior patrimônio da Nols. São eles quem trazem uma vasta experiência no universo outdoor para servir como exemplo aos alunos, ainda que em territórios desconheci- dos até mesmo para eles. Foi o que aconteceu em boa parte do rio Juruena, onde o desafio era passar por 18 corredeiras com níveis I a III (numa escala até VI), com portagens nas quedas maiores, duas a três horas de chuva diariamente e sob tempes- tades de raios. Apesar da prudência, várias canoas viraram e três delas foram furadas. Sem problemas: treinado, o grupo consertou os botes em seis horas, desempenando o alumínio e costurando a lona. E voltaram à rotina de 20 quilômetros de remadas diárias por rios com piranhas, arraias, peixes elétricos e jacarés.

Além da esperteza para improvisos, os professores têm a res- ponsabilidade de formatar várias aulas de cerca de uma hora com a estrutura de que dispõem na natureza. As apresentações abrangem desde técnicas dos esportes até a história local, como a de Chico Mendes e a da escravidão no Brasil. A didática é baseada nas pesquisas pessoais e em vários livros publicados pela própria Nols sobre navegação, cozinha e medicina em ambientes outdoor, por exemplo. Entre os rígidos protocolos da escola, está a obrigação de serem feitas avaliações freqüentes de professor para aluno, vice-versa e até de aluno para aluno. Muito além da mera função de guias, os instrutores costumam dedicar o fim dos dias para realizar minuciosos relatórios em inglês para serem encaminhados à sede norte-americana.

A Nols é rigorosa também com seu corpo docente. “O curso de formação de instrutores mais parece uma entrevista de emprego que dura um mês”, brinca Jon Kimpsey, também advogado de formação, que há 16 anos tornou-se um clássico instrutor Nols: solteirão, sem filhos ou casa fixa (seus pertences estão espalhados entre Alasca, México, Chile e Chapada dos Guimarães). Na noite em que eu era o responsável pela cozinha do meu grupo, Jon me ensinou a fazer panquecas, uma verdadeira sofisticação que quebrou minha tradição de só preparar macarrões instantâ- neos em acampamentos. E me contou alguns dos episódios mais pitorescos que protagonizou em suas 190 semanas em campo. Como o dia em que um gato-maltês grudou na sua cabeça, no México, há oito anos, quando estava dormindo num saco de dormir, fazendo com que Jon tivesse de ser resgatado para tomar injeção contra raiva; ou quando estava ao lado de um aluno que ficou preso sob uma pedra de duas toneladas, durante uma avalanche no Eastern Alaska Range, dez anos atrás, e sobreviveu após esperar horas pelo resgate.

 

 

5a LIÇÃO: TENHA RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL

Os cuidados com a natureza e as comunidades no caminho da expedição são rigorosos. No passado, as excursões chegavam a ter 30 alunos nas trilhas, mas a preocupação com o impacto nos am- bientes naturais fez com que a Nols reunisse grupos cada vez me- nores. Além disso, os expedicionários são divididos em subgrupos e aprendem, nas aulas de Leave No Trace (Não deixe vestígio), a não deixar qualquer tipo de marca na natureza. As cinzas da fogueira devem ser enterradas. Contam pontos negativos na avaliação os grãos de arroz deixados ao ar livre na hora de desmontar o acam- pamento. Os restos orgânicos precisam ser cobertos e todo o lixo produzido precisa ser carregado até a cidade grande mais próxima, sendo que o lixo reciclável deve estar lavado e seco.

Questões ecológicas são lembradas nas aulas, como na de aque- cimento global, ministrada pela carioca Renata Bradford, a Kika, uma arqueóloga e escaladora de 30 anos que já foi guia da Exum Mountain Guides, considerada a escola de guias de montanha mais exigente da América do Norte. Entre as montanhas já exploradas por ela, estão as de Yosemite e Tetons (EUA), além de várias vias de escalada conquistadas. Utilizando um grande saco de farinha adaptado como uma lousa rabiscada com pincéis atômicos, Kika contou como a compra de créditos de carbono pode minimizar o estrago feito pelo desmatamento. “Calculamos o impacto desta expedição somando itens como os vôos, os traslados por terra e o consumo dos fogareiros, espaço e concluímos que precisamos plantar 57 árvores para neutralizar nossa passagem por aqui, mas vamos enterrar mais de 300 sementes”, explicou à platéia sentada no gramado sob a sombra de uma árvore à beira-rio. Como essa escola não tem paredes, é freqüente a dispersão pelo canto de um pássaro ou pelo surgimento de um boto no rio. Sem problemas. Ao longo da viagem, os alunos apresentam suas observações nos “na- ture nuggets”, pequenos seminários em que o estudante disseca algum aspecto da natureza.

Uma das peculiaridades dos cursos em lugares remotos é a experiência da diferença cultural e da interação com a população local. Nos dez dias que passei com eles em Vila Bela, percebi a surpresa com que viram um carneiro sendo morto para o churrasco no quilombo e o fascí- nio da constatação da felicidade em uma casinha pobre, de chão de terra e fogão a lenha. Aprenderam a pescar e a limpar o peixe, construíram um banheiro com paredes feitas de palha de babaçu, carregaram toras para erguer uma ponte. Semanas mais tarde, já na floresta amazônica do Pará, ficaram ainda mais encantados quando passaram quatro dias nas comunidades de Pedreira e Piquiatuba, à beira do rio Tapajós, dormindo cada um em uma casa de família. “Foi o momento da viagem mais importante para mim”, considerou Alex Melnyk, que até aprendeu a fazer farinha de mandioca. “O estilo de vida deles é muito diferente e nunca vou esquecer da generosidade e do carinho com que me receberam.”

A experiência do encontro com os índios mundurucu também foi marcante. Os alunos tinham passado sete dias sem cruzar mais que dois barquinhos de pesca no rio Juruena, e se depararam com os índios na margem — naturalmente estupefatos com aquela tribo de estrangeiros remando com roupas e barcos inéditos por aquelas bandas. A aproximação foi amigável e o grupo aproveitou para perguntar por qual dos três canais do rio deveriam seguir, já que estavam em um trecho desconhecido e cheio de corredeiras e desníveis. Os índios sugeriram um caminho, mas os alunos líderes do dia preferiram o outro canto, onde a descida poderia ser mais emocionante. Aconteceu, é claro, o pior: canoas viraram e foram furadas pelas pedras, e o grupo aprendeu, pelo erro, que não se deve desprezar o conhecimento dos nativos.

 

 

6a LIÇÃO: ESTEJA SEMPRE ALERTA

É por sujeitar seus alunos aos riscos inerentes ao ambiente natural que a Nols investe cerca de 2 milhões de dólares anuais em seguros e só viaja com um plano de ação para emergências que inclui estrutura de comunicação via satélite e resgate de helicóptero para hospitais de plantão. É compreensível. Nada menos que 14 alunos morreram em expedições, quatro deles nos últimos 20 anos. A maior parte dos familiares move processos contra a es- cola. Há casos de afogamento em rio, queda em buraco de glaciar e, o que é mais freqüente, soterramento em avalanches. Acampamentos já foram destruídos por ursos e muita gente foi picada por cobras. Os incidentes mais comuns puderam ser constatados na Nols Amazônia 2007: vários alunos tiveram desarranjos gastroin- testinais; o nova-iorquino Andrew Leitman, 20, torceu o joelho e teve de ser resgatado, e Jane McNeal, 20, da Geórgia, teve quei- maduras de segundo grau ao abrir a panela de pressão.

São as picadas, sejam elas de saúvas, abelhas ou pernilongos, os inimigos mais pentelhos de quem se aventura pelos rincões da Amazônia por tanto tempo. Além do episódio das formigas que picotavam até o material sintético de roupas e barracas, os mochileiros enfrentaram ataques de abelhas e de lambe-lambes,minúsculos insetos que atingem o olho humano em busca de sais minerais. E as tantas picadas que os alunos sofreram remando no rio Juruena parecem ter originado uma reação alérgica em quatro pessoas, com bolinhas vermelhas e pus em torno das axilas. Fe- lizmente, os instrutores carregavam quilos de medicamentos que permitiram aliviar o incômodo. A situação foi bem distinta daquela enfrentada pelos 13 jovens que fizeram o primeiro curso, em 2006, e foram acometidos de uma irritação nos pés conhecida como rói-rói. “A dor nos pés era tanta que não podíamos pisar no chão”, lembra o instrutor Atila, que precisou ser carregado.

A expedição de 2006, por sinal, foi um batismo de fogo também para os instrutores da Nols no Brasil. Além do imprevisto dos rói- róis e de duas picadas de escorpiões, eles tiveram de lidar com o fato de três dos 13 alunos não completarem a viagem, um com fratura no punho e dois por pura falta de motivação. O clima dentro do grupo e com os instrutores, ao final dos três meses, também não era dos melhores, especialmente depois que a su- bida ao pico da Neblina foi cancelada em função de um bloqueio feito pelos índios ianomâmi. A verdade todo mundo sabe: a união de pessoas tão diferentes enfrentando uma rotina de desconfor- to por tanto tempo deixa qualquer mortal com os nervos à flor da pele e o equilíbrio do grupo depende de fatores como afinidades, respeito e bom humor.

Já em 2007 o clima es- tava bem mais leve. Em um dos dias em que eu estava com o grupo, fla- grei o momento em que o instrutor Dálio trocou de roupa, discretamente, fora da barraca. Uns riram, ou- tros não deram bola, mas a naturalidade da situação deu origem a uma curiosa conversa sobre os áureos tempos em que a Nols, em meio ao movimento hippie e de contracultura da década de 1970 nos Estados Unidos, era uma escola liberal. Grupos de estudantes remadores en- frentavam o mar nus como vieram ao mundo, professores dormiam com alunas e até o baseadinho à beira da fogueira era um ritual tão natural quanto em tantas rodas de acampamento selvagem do planeta. Os tempos mudaram, a sociedade norte-americana careteou e a Nols hoje tem fama de escola conservadora. Durante o curso, namoricos são desestimulados (devem ser absolutamente discretos), uma latinha de cerveja ou um cigarro de maconha são motivos para expulsão (cerca de dez alunos são eliminados anu- almente por porte de droga) e qualquer militância pró-naturismo é imediatamente banida. Até um ingênuo tocador de mp3 é um mau elemento, proibido em prol da interação do grupo entre si e com o ambiente.

 

 

7a LIÇÃO: DESENVOLVA SUAS VIRTUDES

Ao fim do segundo mês da expedição, quando o grupo concluiu o trecho de rio em Alter do Chão (PA), os instrutores eram quase que apenas colegas observadores, com os alunos tendo autono- mia para decisões sérias. Foram eles quem elegeram os líderes dos dois grupos que enfrentariam o desafio final: a expedição de uma semana pelo monte Roraima (RR). Os mais virtuosos eleitos para a função foram Edmilson, o bolsista brasileiro, e Alex, o eco- nomista de Chicago, curiosamente os mais velhos do grupo. Dois dos instrutores os seguiram de longe, apenas para uma eventual emergência — o que não aconteceu. “Foi ótimo perceber que eu tinha evoluído tanto em apenas três meses, pois vim para a Amazônia sem nunca ter acampado na vida”, conta Alex, que chegaria ao fim da expedição nada menos que 11 quilos mais magro e sabendo identificar plantas, nuvens e estrelas. “Tenho certeza de que levarei as lições desta experiência para o meu trabalho”, continua ele, que levou nota A. “Você vê como uma expedição na natureza muda a mente das pessoas?”, questiona o experiente instrutor Jim Chisholm. “É fazendo coisas difíceis que as pessoas se fortalecem”, diz.

De uma forma geral, o grupo se despediu entre festas e lágri- mas, como era de se esperar de quem vive uma experiência tão intensa, com promessas de reencontro e discursos de que tinham se tornado pessoas melhores. Edmilson, por sua vez, tinha uma satisfação maior. No fim do primeiro mês de curso, ele tinha ga- nhado uma nota B porque, segundo os instrutores, estava aquém do seu potencial. “Eu sabia que tinha mais experiência que os outros, mas não queria despertar antipatia por isso ou por ser o mais velho”, lembra. No fim da saga amazônica, ele estava feliz por ter exteriorizado sua faceta de líder. Ganhou nota A e um convite para fazer, também com bolsa de estudos, o curso de instrutores da Nols em 2008. A escola se prepara para lançar dois novos cursos no país este ano — esse e o de primeiros-socorros, em julho — e pretende expandir sua atuação no país contratando novos instrutores. Depois da expedição, Edmilson é o primeiro candidato. Alguém mais se habilita?

 

RAIO X:

Desde que a Nols (nols.edu) foi criada pelo guia de montanha Paul Petzolt, em 1965, na cidade de Lander, no esta- do norte-americano do Wyoming, nada menos que 85 mil alunos já viajaram para alguns dos 14 campi naturais da escola espalhados por nove países (cinco deles nos Estados Unidos). O catálogo 2008 inclui 96 cursos que acontecem em 253 datas e que podem durar de dez dias a um ano, atraindo cerca de 3 mil alunos anualmente. A Nols treina guarda-parques, como os da Patagônia chilena, e oferece expedições que misturam às modalidades esportivas expe- riências que vão da hospedagem em ashrams indianos até contatos com aborígines australianos. O curso anual que acontece no Brasil desde 2006 atrai especialmente univer- sitários dos Estados Unidos porque, graças a um convênio da Nols com a Universidade de Utah, tem disciplinas que contam créditos para a faculdade: biologia, ética ambiental, técnicas de liderança, gerenciamento de risco. As aulas mis- turam sofisticadas lições de técnicas de montanhismo com receitas culinárias da vovó, num cardápio que transformou a Nols numa potente organização não-governamental sem fins lucrativos, que emprega 980 funcionários em sua sede, durante a alta temporada, e que despacha 560 instrutores de campo para recantos remotos como o Campo de Gelo Sul, na Patagônia, e os 6 mil metros do pico Denali, no Alasca. O semestre brasileiro custa aos pais desta molecada bem- nascida a bagatela de US$ 13.300 (R$ 25 mil), sem contar o seguro e a taxa de crédito pelas disciplinas escolhidas (cada uma por US$ 45).

 

 
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Publicado em:
Revista Go Outside

Edição:
32

Data:
01/2008

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