Nem o martelo de 1955 para testar o reflexo nos
joelhos dos pacientes, nem a foto de dom Pedro II
visitando o hospital em 1886. As relíquias que mais
se destacam no prédio da Beneficência Portuguesa,
na Bela Vista, em meio à recém-aberta exposição
que comemora seus 150 anos, são 48 vitrais. Em
especial os 33 que cobrem, desde os anos 50, três
paredes do Salão Nobre. Eles compõem o acervo
de mais de cinquenta conjuntos instalados em São
Paulo pela Casa Conrado. A empresa foi fundada em
1889 pelo alemão Conrado Sorgenicht (1835-1901),
que havia desembarcado no país catorze anos antes,
depois do fim da Guerra Franco-Prussiana. Pela
primeira vez, produziam-se vitrais nacionais como os
que eram importados da Europa e haviam iluminado
o período da Idade Média. Originária do Oriente no
século X, essa técnica minuciosa ganharia espaço
nos principais prédios públicos, igrejas e mansões
paulistanos ao longo dos últimos 120 anos.

É o caso do Mercado Municipal, da Catedral da Sé
e da Sala São Paulo, com vitrais executados ou
restaurados pelos três homens de mesmo nome
que ligaram a história da família à da capital
paulista. O patriarca não desenhava. Importava
os vidros coloridos e os colava com um filete
de chumbo conforme o desenho de artistas
convidados, seguindo a técnica difundida nas igrejas
góticas de seu país. Foi um de seus herdeiros, o
também alemão Conrado Sorgenicht Filho (1869-
1935), quem realmente exibiu talento artístico e
impulsionou a vidraria. Os painéis com ilustrações
rurais que colorem o Mercadão, no centro, desde
1932 foram feitos por Conrado Filho após uma
viagem pelo campo para fotografar referências.
Por abrigar os soldados que lutavam na Revolução
Constitucionalista, o mercado sofreu com vidros
quebrados por tiros e teve sua inauguração adiada
para o ano seguinte.

Entre os anos 20 e 30, a arte em vitrais viveu seu
primeiro auge na cidade. O quase monopólio da
Casa Conrado se deveu, em parte, a uma parceria
com o engenheiro e arquiteto Ramos de Azevedo.
Além de ilustrar os vitrais do Mercadão, Conrado
Filho executou as obras do Palácio das Indústrias,
de 1924, da Faculdade de Direito do Largo São
Francisco e da mansão da Avenida Paulista hoje
conhecida como Casa das Rosas, ambas de 1934. O
segundo pico de encomendas veio nas décadas de
50 e 60, já sob o comando de Conrado Adalberto
Sorgenicht (1902-1994), neto do fundador e único
dos três Conrado nascido em São Paulo. Ele levantou
os vitrais da Beneficência e da Faap, com 58 obras
de diferentes artistas – entre eles Tarsila do Amaral,
Carybé, Lina Bo Bardi, Portinari e Tomie Ohtake –
que começaram a ser instaladas em uma parede de
vitrais com 230 metros quadrados a partir dos anos
50.

“A obra preferida de meu avô era A Veneração de
São Vicente, reprodução do pintor português Nuno
Gonçalves, que está na Beneficência”, conta a artista
plástica Regina Lara Silveira Mello, neta de Conrado
Adalberto. “Essa é uma arte cara, demorada e que
está em extinção. Cada metro quadrado custa entre
3 000 e 3 500 reais.” Também vitralista, Regina é
professora da Universidade Mackenzie e ensina sobre
a história dos vitrais. “Meu avô quase morreu de
desgosto quando a Igreja Nossa Senhora do Brasil
substituiu seus originais por réplicas de acrílico”,
diz. Regina prepara o guia dos vitrais de São Paulo,
ainda em busca de patrocínio. Entre as surpresas da
publicação está o mais antigo dos 600 trabalhos da
Casa Conrado catalogados no Brasil: uma rosácea
da Igreja Luterana, na Avenida Rio Branco, no
centro, datada de 1908. Conrado Adalberto teve
apenas uma filha, Iolanda, mãe de Regina, que se
casou a contragosto do pai aos 16 anos. Por isso,
pouco antes de sua morte, o terceiro Conrado não
quis que ela assumisse a empresa e a repassou à
sua secretária. Hoje, a outrora mais importante
fábrica de vitrais da cidade funciona com apenas
seis funcionários em um escritório em M’Boi Mirim.
Vive de restaurações, como a que faz dos vitrais do
Teatro Municipal, e da fama do passado glorioso.

 
Publicado em:
Revista Veja São Paulo

Edição:
2126

Data:
19/08/2009

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