O aposentado catarinense Léo Sebold, 70 anos, foi o
primeiro a chegar, com nove dias de antecedência.
Cuidadosamente, escolheu a melhor entre as 5.300
vagas do camping e estacionou ali o trailer
importado. Ligou o som numa rádio sertaneja e
desceu para montar o toldo e a mesa de damas.
Logo o colega Henrique Dias, 65 anos, apareceu com
uma lata de cerveja para iniciar a primeira rodada
de uma série muito, muito longa. “Faz nove anos
que eu venho. É cada vez mais difícil achar lugar
bom, então decidi chegar cedo”, explica Sebold,
exibindo o planejamento a longo prazo permitido
pela idade e um figurino híbrido — camisa
estampada com a bandeira dos Estados Unidos,
cigarro de palha no canto da boca. O catarinense,
que viajou 1.400 quilômetros para garantir o lugar,
foi o precursor da romaria que superlota a cidade de
Barretos, no interior de São Paulo, no final de agosto
para a Festa do Peão de Boiadeiro, o maior evento
regional do país. A festa, que começou na sexta-
feira passada e vai até o próximo domingo, atrai
uma multidão que causa congestionamentos de oito
horas nas estradas da região, lota todos os hotéis
num raio de 150 quilômetros e faz com que diárias
de modestos estabelecimentos de três estrelas
cheguem a 375 reais, preço de um cinco-estrelas em
Paris. Barretos, durante dez dias, é a meca de um
fenômeno que começou no interior de São Paulo e
se irradiou para outros pontos do país, o rodeio. Não

um rodeio qualquer, com a peãozada montando em
bichos bravos, como sempre existiu no Brasil, mas
um festival cada vez mais calcado nos moldes
americanos.

A arena de Barretos está para o mundo do rodeio
como Wimbledon para o tênis. É a segunda maior
festa do gênero no mundo, depois de Las Vegas,
nos Estados Unidos, e a única competição do circuito
mundial de rodeio de touros realizada fora de um
país de língua inglesa. Há 700 jornalistas do mundo
inteiro credenciados para o evento. As finais serão
transmitidas pelo canal country de TV por assinatura,
CMT. Enviados de jornais como Financial Times e
Chicago Tribune, redes de TV como Fox News e
revistas como a Opa, do Japão, baterão ponto na
arena. Há 22 competidores americanos, canadenses
e australianos. No meio dessa porção de gringos,
porém, a grande estrela do show é o brasileiro
Adriano Moraes, de 27 anos, nascido na pequena
cidade de Matão, a 300 quilômetros de São Paulo.
No próximo fim de semana, enquanto o tenista
Gustavo Kuerten deverá estar lutando nas quadras
do US Open para se manter na nona posição do
ranking mundial, Moraes defenderá, com amplo
favoritismo, seu posto de primeiro colocado na lista
da Professional Bull Riders, a federação dos peões
montadores de touros. No início de agosto, Moraes,
com 7 190 pontos, tinha uma liderança tranqüila
sobre o segundo colocado, o americano Michael
Gaffney, com 4 715 pontos.

Uísque importado — A Festa do Peão de Barretos
existe desde 1955. Na época, a cidade sediava o
maior frigorífico do país e recebia tropeiros que
traziam gado de vários Estados. Para matar o tempo
enquanto esperavam o abate das reses, eles faziam
rodeios no estilo caipira, nos quais se compete para
ver qual o peão que fica mais tempo no lombo de
um cavalo chucro ou qual o laçador mais habilidoso.
Durante três décadas, a festa foi atraindo cada vez
mais gente, entre fazendeiros endinheirados e o
pessoal da região, geralmente mais interessados
em se divertir. O modelo, no entanto, continuava
tradicional. Foi no final dos anos 80 que empresários
locais farejaram ali uma mina de ouro. Inspirados no
sucesso da música sertaneja, que unia a guitarra da
música country à viola da toada caipira, decidiram
transformar a festa num torneio à texana, para
atrair o público de classe média que jamais iria a
uma festa “caipira”, mas compareceria alegremente
a um evento country. Uma agência de publicidade
foi contratada para divulgar o evento, os cartazes
passaram às mãos de artistas como Siron Franco
e Manabu Mabe, as barracas começaram a vender
uísque importado. Barretos estourou.

A Polícia Militar calcula que, durante os dez dias
de festa, 900.000 pessoas circulam pelo Parque

do Peão. Isso não quer dizer, observe-se, que a
cidade, de 100.000 habitantes, seja invadida por
800.000 turistas. Se um morador local, por exemplo,
resolve comparecer ao parque durante os dez dias
seguidos, será computado como dez pessoas. Mesmo
assim, é uma monstruosidade de gente. Mais que
a Oktoberfest, de Santa Catarina, que pelo mesmo
critério atrai 500.000 pessoas, e que o Festival do
Boi de Parintins, no Amazonas, que junta 150.000.

Aluguel estratosférico — A grande maioria dos
freqüentadores calça botas sete-léguas e poderia
perfeitamente ter participado do primeiro rodeio, há
42 anos. Mas o que interessa aos organizadores é
aquela fatia de público que usa chapéu à moda de
J.R. Ewing, de Dallas, e vende boi virtual na Bolsa
de Mercadorias & Futuros. No aeroporto da cidade,
que costuma receber uma dúzia de aviões por dia,
o movimento esperado ao longo da festa é de 1.000
pousos e decolagens. Fora o heliporto, sempre
lotado, com capacidade para trinta helicópteros. Para
atender aos celulares que teimam em estrilar mesmo
durante os momentos mais emocionantes do rodeio,
no Parque do Peão foram cravadas três antenas
de telefonia, com capacidade para 10.000 ligações
simultâneas.

Entre os 4.000 metros quadrados de estandes
montados no parque não há apenas barracas de
comes e bebes. O Mappin, uma das maiores lojas
de departamentos do país, montou uma filial pré-
fabricada, com 120 funcionários. Há até um estande
da Valmet, que no ano passado vendeu quarenta
tratores. “O espírito da festa é rústico, mas nosso
público é a classe média das grandes cidades do
interior”, diz Flávio Silva Filho, diretor do clube Os
Independentes, que organiza a festa. A invasão
turística gera oportunidades de negócios também
fora do parque. O comerciante Geraldo Rodrigues
adiou a mudança para a nova casa em duas semanas
porque durante o rodeio ela estará ocupada por
famílias de turistas, ao estratosférico preço de 1.000
reais a diária. “Não podia perder uma chance de
embolsar essa grana, né não?”, raciocina.

O filão aberto por Barretos revelou-se uma mina
de ouro. Até o final do ano serão realizados em
todo o país 1.200 rodeios, que, entre ingressos,
movimento turístico e de restaurantes, farão
circular 1 bilhão de dólares. O público estimado é
de 24 milhões de pessoas, sete vezes mais que os
espectadores do Campeonato Brasileiro de Futebol.
Os números, como de hábito, estão sujeitos a chutes
e arredondamentos duvidosos, mas são endossados
por quem entende do ramo. “O mercado de rodeios,
leilões e exposições agropecuárias no país deve
passar de 2 bilhões de dólares”, calcula Antônio
Ernesto de Salvo, presidente da Confederação
Nacional de Agricultura.

O rodeio, no mundo, é dividido em duas grandes
federações, montaria de touros e rodeio completo.
Na primeira, o peão precisa manter-se pelo menos
oito segundos no lombo de um touro furioso.
Completado o tempo mínimo, os juízes lhe atribuem
pontos em função do estilo. Já o rodeio completo é
dividido em sete provas. Além da montaria em touro,
há o bulldogging, que implica saltar da montaria e
derrubar um bezerro pelos chifres. Laço, em que
o objetivo é laçar um garrote no tempo mínimo
possível, e laço em dupla, em que dois cavaleiros
dominam a cabeça e as patas traseiras do bezerro.
Há uma prova feminina, na qual as amazonas devem
contornar três obstáculos no menor tempo possível,
e dois tipos de prova de montaria em cavalos,
com e sem sela (o bareback). No Brasil, há ainda
a montaria na cela típica dos caipiras, chamada
cutiano.

Os humanos vêm se exibindo dessa maneira
desde a domesticação do cavalo, mas as regras
e modalidades vigentes hoje vieram dos Estados
Unidos, onde os campeonatos de rodeio profissional
existem desde 1929 e os espetáculos atraem 34
milhões de espectadores. Há competições exclusivas
para mulheres, um torneio gay em Utah e rodeios
em que os peões são detentos de penitenciárias.
Nessa categoria, o público torce pelos touros e
reserva os maiores aplausos da noite para o animal
que mais pisoteia um peão. Há um canal de TV
que só transmite rodeios e, nas bancas de jornais,
vendem-se cartões, conhecidos por qualquer
criança como cards, com as figuras dos peões mais
célebres. Neles, o brasileiro Adriano Moraes aparece
como natural de Keller, Texas, a cidade onde fixa
residência durante a temporada americana.

Coleção de fraturas — Adriano se divide entre
o campeonato americano e os principais rodeios
brasileiros. Em 1996, entre prêmios e patrocínio, ele
faturou 300.000 dólares. Em dez anos de carreira,
conseguiu juntar seu primeiro milhão de dólares e
uma coleção de fraturas. Quebrou um braço, uma
perna e uma costela, perdeu um dente e rompeu os
ligamentos dos dois joelhos. Por sorte, seu contrato
com os patrocinadores estabelece que eles são
responsáveis pelas despesas médicas. No Brasil,
onde morrem em média cinco peões por ano em
acidentes de trabalho, as seguradoras se recusam a
fazer seguro de vida para a categoria. Nos Estados
Unidos, com dezoito óbitos por ano, as apólices
custam dezenas de milhares de dólares. Quando
se preparava para entrar na arena para vencer seu
primeiro título mundial, em 1994, Adriano viu um
touro esmagar o crânio de um amigo, o americano
Brent Thurman.

Religioso daqueles que beiram a pieguice, Adriano é
adepto da Renovação Carismática Católica. Fundou

um grupo de oração chamado Peões de Deus, em
contraposição aos Caubóis de Cristo, evangélicos,
e dedica suas vitórias a Nossa Senhora Aparecida.
No início do ano, doou 100.000 reais à comunidade
cristã de Cachoeira Paulista. “Meu sonho é que um
de meus filhos seja padre”, explica. Ídolo nos EUA,
respeitado como um dos três cowboys da história
que conseguiram montar dez touros, um após o
outro, sem cair, ele é permanentemente servido pela
mulher, Flávia, preocupada com o assédio das fãs.

Laço com jatinho — Nos bastidores da arena,
os peões são tratados como astros de TV. E, com
alguma sorte, acumulam pequenas fortunas. Vilmar
Felipe, bicampeão de touros em Barretos, ainda
guarda na garagem três dos 24 carros que ganhou
em várias competições. Os outros, juntamente com
25 motos, mais os prêmios em dinheiro, foram
trocados por terras e cabeças de gado. Administrar
o dinheiro e a carreira é a maior dificuldade da
profissão. Muitos peões arruínam as vértebras e as
articulações por competir demais, sem descanso.
O paranaense João Henrique Giannasi, 30 anos, o
primeiro colocado no ranking nacional de montaria
a cavalo, categoria bareback, previne-se fazendo
fisioterapia. Nas semanas que antecedem as grandes
competições, ele evita qualquer torneio. “Não dá
para ficar de fora justamente do que interessa”,
argumenta.

Há peões que competem apenas pela emoção. O
fazendeiro Henrique Prata, dono do Hospital do
Câncer de Barretos e de 20.000 cabeças de gado,
costuma pegar o jatinho com o filho e a filha para
disputar etapas qualificatórias das provas de laço em
cidades distantes. “Montar é a melhor parte da nossa
vida”, alegra-se. O maringaense Renato Garcia, de
20 anos, herdeiro de uma empresa de ônibus que
fatura 60 milhões de reais, também monta apenas
por diversão. Mas está entre os dez melhores do
ranking brasileiro. Quando terminar a faculdade de
zootecnia, Garcia pretende assumir de vez a carreira
de peão.

O rodeio traz fama também aos coadjuvantes do
espetáculo. Os palhaços salva-vidas, que distraem
os animais quando os caubóis caem, são conhecidos
do público e ganham 2.500 reais por final de
semana. Mas o trabalho é, digamos, estressante.
Antônio Carlos Damasceno, o “Django”, de Barretos,
contabiliza onze costelas quebradas, além dos
maxilares superior e inferior. “Meu irmão tem
mais sorte, quebrou só sete costelas, um joelho e
uma omoplata”, enumera. Os touros mais ferozes,
como “Pedra 90” e “The Flash”, também têm fã-
clube. O que poucos espectadores sabem é que a
fúria dos animais não decorre apenas de um mau
gênio de nascença. Touros e cavalos são atiçados por
cordas apertadas em suas virilhas e, eventualmente,

esporadas ou choques elétricos. “O rodeio é uma
tortura para os bichos”, protesta Milton Moura
Leite, presidente da União Internacional Protetora
dos Animais do Brasil. Os organizadores de rodeio
desconversam. “O animal não é judiado. É tratado
com as melhores rações e fica incomodado só porque
sente cócegas”, afirma Flávio Silva Filho, um dos
organizadores do rodeio de Barretos.

O universo dos rodeios é misterioso para quem
não está acostumado com música country, botas
de couro de jacaré e fumo de mascar. Em julho,
no rodeio de Jaguariúna, a principal atração da
noite não era uma dupla sertaneja, e sim Billy Ray
Cyrus, “O rei do Kentucky”, um breguíssimo astro
country americano. Nesse Texas de fantasia, não há
sem-terra nem gente com o nome sujo no crédito
rural do Banco do Brasil. Há apenas caubóis ricos
e caubóis pobres, que se identificam por sinais
claros como uma estrela de xerife. Em Barretos, por
exemplo, não faltam picapes ostentando adesivos da
Festa do Patrão, um baile country que reúne 5.000
pessoas nas noites de rodeio. A entrada custa 100
reais e, com duas semanas de antecedência, 70%
dos ingressos já estavam vendidos.

No ambiente de um rodeio, a receita de
elegância é a mesma de qualquer outra festa do
circuito ostentatório: produzir-se ao máximo e
desembarcar de um carro vistoso. O que muda
são os ingredientes. No mundo country, os carros
valorizados são picapes como a Mitsubishi Pajero
e jipes como o Chrysler Grand Cherokee. Quanto
às roupas, o figurino Chitãozinho e Xororó está por
fora. “Foi-se o tempo em que bastava usar camisa
de franja. Agora é preciso seguir a tendência da
estação”, explica Valdomiro Poliselli Júnior, dono
da VPJ Western, a maior importadora de roupas
country, com 152 lojas e faturamento de 7 milhões
de reais. A dobra do chapéu de caubói, por exemplo,
muda da mesma maneira que o comprimento das
saias femininas. Quem usa os chapéus do ano
passado é classificado como “faiado” (“falhado”,
caubói fajuto, no dialeto peonês) ou “abeia”
(“abelha”, equivalente a “brega”).

Pele de avestruz — Durante o dia, o caubói que
se preza usa chapéu branco. À noite, preto, de
preferência de pêlo de castor, que pode custar até
1.500 reais. As botas de couro de cobra foram a
coqueluche do ano passado. Hoje, o quente são
as de avestruz, australianas, que, por 840 reais,
derrubam muita Prada ou Gucci. Para ditar a moda
nos rodeios, as griffes apelam para o clássico
mecanismo do jabá, enviando roupas de presente
a peões e locutores. O acessório que completa o
uniforme é a calça jeans. É Wrangler, americana. “A
brasileira não presta”, sentencia Fernanda Cordeiro
Camargo, aluna do 2º ano de veterinária, que na

semana passada desfilava pelo Rodeio Universitário
de Londrina. Seguindo o padrão cowboy, as calças
precisam ser absurdamente justas. A tática de
patricinhas e mauricinhos interioranos para domá-las
é comprá-las na véspera da festa, enfiar-se dentro
delas com grande esforço muscular e dormir com o
jeans no corpo, de forma a amaciá-lo.

Se nas revistas de moda o estilo vigente nos grandes
centros urbanos é heroína-chique, aquela aparência
intermediária entre a ressaca, a anorexia e a
hepatite, nos rodeios o modelo são os cowboys de
anúncios de cigarro. Não só no trajar, mas até no
hábito de mascar fumo. Não aqueles rolos fedorentos
dos caipiras de antanho, é claro. Em Londrina, nos
dias de rodeio, as lojas country vendem cerca de
200 caixinhas de tabaco americano, em tabletes,
para ser mastigado como chiclete. Para o público
feminino, há o produto nos sabores cereja e menta.
Como o cigarro comum, a versão ruminante pode
causar câncer no esôfago, estômago e fígado. “Estou
tentando parar”, explica o peão Renato Garcia, uma
assumida vítima da moda.

A indumentária texana não indica apenas que há
muita gente disposta a brincar de caubói. Mostra
também que as elites do interior do país estão
firmando uma identidade diferente da de seus
similares das metrópoles. No final do século passado,
as famílias abastadas do Rio de Janeiro e de São
Paulo fizeram uma opção preferencial pelo estilo
importado da França, então uma potência cultural,
política e científica, além de sinônimo de erudição
e refinamento. Ao adotar a imagem de texanos,
os homens debaixo do chapéu de castor criam
para si próprios uma imagem diferente daquela do
caipira ignorante ou do fazendeiro rude, ao mesmo
tempo que estabelecem diferenças em relação ao
figurino Fiesp. “As picapes importadas dizem: não
somos cariocas nem paulistanos, mas somos ricos
e importantes”, teoriza o antropólogo Everardo
Rocha, da PUC do Rio, especialista em fenômenos de
consumo.

O interior não quer apenas parecer com o Texas.
Pretende, também, consumir como ele. A Alpha
Consultoria, instituto que faz prospecções de
mercado para várias empresas, tem uma projeção
de quanto cada região do país pode consumir, com
base em indicadores como renda per capita, número
de telefones, consumo de energia elétrica e média
de carros por habitante. Segundo a última pesquisa
da empresa, a região com mais dinheiro esperando
para ser gasto é a Grande São Paulo, com 14,2% do
potencial nacional de consumo. A segunda, com
13,3%, é o interior paulista. Não é difícil atestar
isso. A Forum, uma das mais caras franquias de
moda jovem, obtém 40% de suas vendas no interior
do país, embora possua na região menos de um

terço de suas lojas. As vendas de picapes
importadas cresceram 27 vezes nos últimos cinco
anos, principalmente no interior, mas os modelos
preferidos não são os paus-para-toda-obra e sim os
de luxo. Talvez por isso, na última contagem
populacional do IBGE, se descobriu que há hoje mais
gente migrando das capitais para o interior do que
fazendo o caminho contrário. Quem vai com alguma
reserva no banco pode tratar de comprar o chapelão
de caubói para se adaptar.

Fumo de mascar é a última moda entre os caubóis
brasileiros. Existe até em versões com sabor de
menta ou de cereja

Chapéu americano feito com pêlo de castor, da
Resistol. Os preços dos modelos variam de 600 a 1
500 reais

Cinto de crina de cavalo, importado, pode chegar a
custar 150 reais. O falsificado, de náilon, sai por um
terço disso

Bota de couro de cobra misturado com couro de boi
custa 150 reais. As de cobra pura chegam a 700
reais

Estrelas da arena e do disco

Os locutores de rodeio arrombaram a porteira
das lojas de discos. Nos últimos meses, várias
gravadoras despejaram na praça CDs que prometem
reproduzir no estéreo o espírito de um rodeio de
verdade. Para que o ouvinte se sinta cercado por
cavalos, touros e caubóis, as gravações do gênero
alternam música sertaneja com aquele blablablá que
os locutores costumam disparar pelas caixas de som
das arenas. Entram nos discos saudações como “alô,
meu povo!”, gritos de “segura, peão!” e até piadas
de salão (“Você sabe qual a semelhança entre minha
sogra e uma garrafa de cerveja? As duas ficam
ótimas geladas, em cima da mesa”). Tudo é dito com
entonação característica, algo entre a narração de
uma partida de futebol e a de um páreo no jóquei.
Um dos lançamentos do gênero, Bailão de Peão, já
vendeu 400 000 cópias, número que bate de longe
as vendagens habituais das estrelas da MPB.

De olho na moda, até o clube Os Independentes,
que organiza o rodeio de Barretos, lançou o disco
oficial da festa. A previsão é de que sejam vendidas
150 000 cópias até o final do mês. Com o sucesso
do filão, a carreira dos locutores avança para além
das arenas de rodeio. O veterano Asa Branca, ex-
peão que depois de um acidente teve de trocar os
arreios pelo microfone, já montou uma banda para

excursionar pelo país. Com idéias originais, como
saltar de pára-quedas sobre a arena ou fazer a
abertura de um rodeio de dentro de um helicóptero,
ele se tornou um dos animadores mais conhecidos.
Seu disco Cowboy Country esgotou a tiragem de 180
000 exemplares.

O locutor Marco Brasil, recordista de vendas no
segmento, apresentava um programa de rádio
quando teve a idéia de lançar o primeiro LP do
gênero no país. Hoje, divide seu tempo entre
rodeios, pelos quais cobra até 12 000 reais,
bailes e shows. As festas country se tornaram
tão importantes para a indústria do disco que
conseguem projetar artistas que pouco aparecem no
rádio e na TV. É o caso da cantora Jayne, a “rainha
dos rodeios”, que se apresenta no palco fazendo
evoluções sobre um cavalo branco. Seu último disco
vendeu 80 000 cópias e carimbou-lhe o passaporte
para Nashville, Tennessee, a capital da música
country, onde ela acaba de gravar mais um CD.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Franco Iacomini (com reportagem de Rachel Verano, de Belo Horizonte)

 
Publicado em:
Revista Veja

Edição:
1510

Data:
27/8/1997

Compartilhar
 

DISCLAIMER: Conteúdo protegido por leis de direito autoral. São proibidas quaisquer formas de reprodução, total ou parcial, do conteúdo disponível no website. Criado por Daniel Nunes Gonçalves e Danilo Braga. © Todos os direitos reservados.