A Barra Funda não é mais a mesma. Que o diga o barbeiro Milton Greggio, de 64 anos, um dos mais antigos do bairro. Desde 1961, esse descendente de imigrantes italianos observa as redondezas. De sua portinha na Lopes Chaves, a mesma rua onde viveu o escritor modernista Mário de Andrade, Greggio percebe parte da transformação do bairro pelos clientes que se sentam nas tradicionais cadeiras Ferrante vermelhas de seu salão despojado. “Antes só vinham meus contemporâneos, moradores
dos casarões antigos e funcionários das fábricas”, conta. “Hoje
a clientela é mais jovem, com rapazes tatuados que gostam de
longas costeletas, cabelos modernos e barbas esquisitas.” Greggio
se refere aos freqüentadores das casas noturnas, aos artistas
e aos recém-chegados moradores dos novos empreendimentos
imobiliários.

Por Daniel Nunes Gonçalves e Filipe Vilicic

Espalhada por uma área de 5,6 quilômetros quadrados entre a
Marginal Tietê e os bairros de Perdizes, Lapa, Pompéia, Campos
Elíseos e Bom Retiro (veja mapa ), a Barra Funda recebeu suas
primeiras edificações no fim do século XIX. A inauguração de
estações das estradas de ferro Santos–Jundiaí e Sorocabana, além
de fábricas como as das Indústrias Matarazzo, atraiu moradores à
região. Imigrantes italianos se estabeleceram em vilas operárias
e sobrados estreitos, alguns preservados até hoje. Na virada dos
anos 70, o bairro entrou em um súbito processo de deterioração
por causa da construção do Minhocão, que derrubou o preço dos
imóveis de seu entorno.

A situação começou a mudar com a abertura, em 1988, do
terminal de trem, metrô e ônibus urbanos, intermunicipais e
interestaduais. Diariamente, 500 000 pessoas passam por ali.
Em uma cidade que tanto sofre por causa do trânsito, a fartura
de transporte público conta como ponto positivo. Outro trunfo
é sua localização estratégica – perto da Marginal Tietê e de
avenidas como Pacaembu e Sumaré, mais o próprio Minhocão,
que faz a ligação das zonas Oeste e Leste. Na esteira da facilidade
de acesso, galpões e sobrados caindo aos pedaços foram
transformados em ateliês e estúdios, em um processo semelhante
ao de bairros nova-iorquinos como SoHo e Chelsea. “A Barra
Funda nasceu residencial e depois virou centro de indústria e de
comércio, mas agora volta a atrair moradores”, diz o corretor
Ricardo Gutierrez, da Imobiliária Osvaldo Gomes, desde 1965
na Rua Barra Funda. Segundo a incorporadora Klabin Segall,
nos últimos três anos o preço do metro quadrado dos novos
empreendimentos valorizou-se mais de 35%.

De 2003 para cá, oito casas noturnas passaram a animar as
madrugadas e pelo menos cinco galerias ou lojas de objetos de
decoração se instalaram ali. Centros culturais como o Memorial
da América Latina e o Teatro São Pedro tiveram sua programação
reforçada. Com a Operação Urbana Água Branca, projeto da
prefeitura que estimula a urbanização da região, já são onze

prédios residenciais saindo da planta. Em março, a prestigiada
Galeria Fortes Vilaça abriu uma unidade por lá e na próxima
semana será inaugurada a Gran Fornalha, uma superpadaria com
1100 metros quadrados. A Barra Funda renasce – como é possível
perceber nas próximas páginas – e os moradores comemoram. “É
ótimo poder sair a pé para assistir a apresentações do Memorial
com minha mulher nas sextas à noite”, anima-se o barbeiro
Greggio, que já curtiu até show de rock no badalado CB Bar.
Sua única preocupação é que o boom imobiliário traga com ele a
descaracterização. “A Barra Funda precisa crescer sem perder a
alma.”

Atrações ao longo da ferrovia

Os trilhos dos trens dividem o bairro entre Barra Funda Alta,
vizinha de Perdizes, e Baixa Barra Funda, ao lado da Marginal Tietê

Comer e beber

1. Bacalhau, Vinho & Cia.

Rua Barra Funda, 1067, 3666-0381, www.bacalhauevinho.com.br

2. Dulca Doceria

Rua Lopes Chaves, 134, 3666-4766, www.dulca.com.br

3. Fazendinha da Pompéia

Avenida Nicolas Boer, 120, 3611-1114,
www.fazendinhadapompeia.com.br

4.

Rua Lopes Chaves, 105, 3663-0433

5. Fogão Gaúcho

Avenida Marquês de São Vicente, 1767-B, 3611-3008/3289,
www.fogaogaucho.com.br

6. Gran Fornalha

Avenida Doutor Abraão Ribeiro, 79, 3392-
3466,www.granfornalha.com.br

7. Novilho de Prata

Avenida Marquês de São Vicente, 1215, 3619-5454/5458,
www.novilhodeprata.com.br

8. Ponto Chic

Largo Padre Péricles, 139, 3826-0500, www.pontochic.com.br

9. Royal

Rua Lopes Chaves, 116, 3666-5548 e 3361-0193

10. Tanta Felicità

Rua da Várzea, 418, 3392-3001

Noite

1. Berlin

Rua Cônego Vicente Miguel Marino, 85, 3392-4594,
www.clubeberlin.com.br

2.

Rua Brigadeiro Galvão, 723, 3666-1616, www.bluespace.com.br

3. Café Concerto Uranus

Rua Doutor Carvalho de Mendonça, 40, 3822-2801

4.

Rua Sousa Lima, 67, 3822-1364, www.cbbar.com.br

5. CB Bar

Rua Brigadeiro Galvão, 871, 3666-8371, www.cbbar.com.br

6.

Rua Barra Funda, 969, 3661-1500, www.clashclub.com.br

7. D-Edge

Alameda Olga, 170, 3666-9022, www.d-edge.com.br

8.

Rua Marquês de São Vicente, 1767, 3611-3121, www.eazy.com.br

9. Livraria da Esquina

Rua do Bosque, 1254, 3392-3089, www.livrariadaesquina.com.br

10.

Avenida Francisco Matarazzo, 774, 3868-5858,
www.villacountry.com.br

Arte

1. Casa das Caldeiras

Avenida Francisco Matarazzo, 2000, 3873-6696

2. Casa de Cultura Mário de Andrade

Rua Lopes Chaves, 546, 3666-5803

3. Funarte

Alameda Nothmann, 1058, 3662-5177

4. Galpão Fortes Vilaça

Rua James Holland, 71, 3392-3942

5.

Rua Brigadeiro Galvão, 996, 3662-5530

6. Memorial da América Latina

Avenida Auro Soares de Moura Andrade, 664, 3823-4600

7. Teatro São Pedro

Rua Barra Funda, 171, 3667-0499

Arte

De volta ao circuito

Memorial reforça programação e jovens artistas criam galerias em
antigos galpões

Polêmico e feioso ícone arquitetônico e cultural da Barra Funda,
o Memorial da América Latina, projetado pelo arquiteto Oscar
Niemeyer e inaugurado em 1989, estava um tanto esquecido. No
início desta década, seus seis espaços de eventos eram usados
quase exclusivamente como palco de solenidades oficiais. Havia
cupins em obras da artista plástica Tomie Ohtake e infiltrações
nos prédios. A situação melhorou a partir de 2005. Hoje, o
elefantão recebe quase 700 000 pessoas por ano e sedia eventos
disputados, festivais como o Anima Mundi, a partir de quarta
(23), e o de Cinema Latino-Americano, que terminou domingo
(13). “O desenvolvimento da região ajudou a revitalizar lugares
que estavam em decadência”, afirma Fernando Calvozo, diretor
de atividades culturais do Memorial e ex-diretor do Teatro São
Pedro. Ele explica que estudantes, clientes de casas noturnas,
funcionários de empresas ali instaladas e o grande movimento
criado pelos fóruns criminal e trabalhista – cerca de 25 000
pessoas por dia útil – aumentaram a freqüência do público. É o
caso do apresentador Britto Junior, um dos 3 000 funcionários
da Rede Record, que fica na Rua do Bosque. “Já morei em dois
endereços da Barra Funda e acredito que essa renovação estimula
as pessoas a redescobrir a região central”, diz Britto.

Dono da loja de objetos de decoração para atacado Marco
500, o empresário Marco Aurélio Pulchério faz parte dessa
leva de redescobridores. Em 1999, ele montou seu show-room
para lojistas na Rua Brigadeiro Galvão e se mudou para um
apartamento na Alameda Barão de Limeira. “Desde que cheguei,
a vizinhança foi tomada por ateliês e galerias”, conta Pulchério,
que plantou duas árvores diante da fachada colorida de sua
empresa e fundou com amigos o Curto Circuito Barra Funda, do
qual fazem parte outras três lojas do gênero. Nenhuma novidade
no ramo das artes, porém, foi mais marcante que a abertura,
em março, da galeria Fortes Vilaça, representante de artistas
contemporâneos como osgemeos e Beatriz Milhazes. Na segunda
unidade – a primeira fica na Vila Madalena – são comercializadas
obras avaliadas em mais de 350 000 reais.

Noite

Comando da madrugada

Uma dezena de clubes noturnos atrai cowboys urbanos, gays,
roqueiros e fãs de música eletrônica

Em 2001, após uma temporada de um ano e meio na Holanda
trabalhando como cozinheiro e barman, o artista plástico Diego
Belda voltou a São Paulo atrás de um lugar para morar e montar
seu ateliê. Por indicação de colegas, mudou-se para a Barra Funda.
Dois anos depois, decidiu abrir, com um amigo, a Casa Belfiore, na
Rua Sousa Lima. “Não havia nas redondezas um lugar que servisse
um bom hambúrguer e cerveja de qualidade”, lembra. Com a
divulgação boca a boca, em menos de um ano o público subiu
de quinze pessoas por dia para mais de 100. Como a vizinhança
começou a reclamar do barulho dos shows de rock, ele inaugurou,
em 2006, mais uma casa, o CB Bar, que passou a abrigar essas
apresentações. O galpão de 300 metros quadrados na Rua
Brigadeiro Galvão chega a receber 500 baladeiros num sábado.

A Barra Funda ferve de madrugada desde 2003, quando foi
aberto, na Alameda Olga, o D-Edge, eleito pela revista inglesa DJ
Magazine, referência em música eletrônica, como um dos melhores
clubes do mundo. A guinada rumo ao agito continuou com o Berlin,
em 2005, e com a Clash e a festa GLS Flex (na Eazy), ambas de
2007. Em agosto passado chegou a Livraria da Esquina, um misto
de livraria e casa de shows alternativos que antes funcionava em
Perdizes. “A Vila Olímpia e a Vila Madalena estão abarrotadas”,
diz Marco Tobal Junior, sócio do Grupo Olympia, dono do Villa
Country e das casas de eventos Expo Barra Funda e Espaço das
Américas. “A Barra Funda virou alternativa para quem quer dançar
e curtir sem encarar trânsito e muvuca.”

Comer

Novidades à mesa

Uma descolada feijoada com chorinho e uma nova superpadaria
somam-se a restaurantes tradicionais

Nas tardes de sábado, um chorinho tocado ao vivo ecoa de um
sobrado cheio de plantas na Rua Lopes Chaves. Não há placa na
porta, mas os iniciados já sabem: é dia da Feijoada da Bia. Ao
chegar ao bairro, há quatro anos, a chef Bia Braga só buscava um
imóvel grande e barato onde pudesse preparar os pratos de seu
bufê. “Mas um almoço para quarenta amigos deu tão certo que,
um ano depois, se tornou programação fixa”, diz Bia. No início, o
fundo musical era um sambinha, resgatando a tradição do local,
que reunia os bambas no Largo da Banana, no início do século XX.
Como o som estava alto demais, optou-se pelo chorinho. Figuras
conhecidas, como o escritor Ignácio de Loyola Brandão e o médico
Drauzio Varella, costumam aparecer por lá.

Apesar de ter muitas casas para dançar, a Barra Funda ainda
reúne poucos lugares para comer e beber. Entre as opções
tradicionais, há a doceria Dulca e a lanchonete Ponto Chic. Para
suprir parte dessa lacuna, está prevista para agosto a abertura do
La Barre, com cozinha coordenada pelo chef francês Emmanuel
Bassoleil, onde funcionava a Chez Victor Brasserie. Na próxima
semana deve ser inaugurada a Padaria Gran Fornalha, na
Avenida Doutor Abraão Ribeiro. Com investimento de 3 milhões
de reais, ela terá 1 100 metros quadrados, 120 funcionários e
estacionamento para trinta carros. “O movimento dos fóruns e dos

novos prédios comerciais dessa parte do bairro vai transformar a
Marquês de São Vicente em uma nova Berrini”, exagera um dos
sócios, Florinaldo Quirino, referindo-se à conhecida avenida do
Brooklin.

Imóveis

Paisagem

Onze novos prédios residenciais quebram a monotonia plana da
antiga várzea

Exibir Infográficos

Paisagem

O gestor cultural Felipe Arruda tinha um sonho quando deixou
a casa dos pais na Vila Nova Conceição, há quatro anos, para
morar sozinho em um apartamento de 70 metros quadrados na
Barra Funda. “Queria conversar com os vizinhos e viver um clima
de bairro”, lembra. A aposta foi certeira. Arruda montou seu
canto no 3º e último andar de um edifício dos anos 50, em uma
rua pacata. Paga 500 reais de aluguel e faz boa parte de seus
passeios no entorno. Ali perto, por 125 000 reais, o economista
Pablo Luiz Cezario e sua mulher, a administradora Flávia Carneiro,
compraram um apartamento de 63 metros quadrados ainda na
planta, em 2004. Mudaram-se para lá há um mês. “O bairro é
pacífico, e nosso imóvel já vale 170 000 reais”, diz Pablo, feliz da
vida.

Jovens como eles compõem a maior parte dos compradores das
3 100 unidades dos vinte empreendimentos imobiliários lançados
desde 2002. Onze deles apareceram nos últimos dois anos, sendo
quatro prédios com apartamentos de quatro dormitórios e preço
superior a 500 000 reais. O valor do metro quadrado em novos
apartamentos dessa zona da cidade, que era de 1 900 reais em
2005, já passa de 2 500 reais, segundo a incorporadora Klabin
Segall, que constrói três empreendimentos no bairro. Embora os
espigões ameacem quebrar a monotonia plana da paisagem, os
amplos terrenos disponíveis indicam que a Barra Funda ainda tem
muito espaço para crescer.

 
Barra Funda CAPA
Publicado em:
Revista Veja São Paulo

Edição:
2070

Data:
23/7/2008

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